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Profissional explica principais pontos de limpeza, desinfecção e vazio sanitário em granjas

Médica veterinária Anne de Lara explica que processo é extremamente importante para contribuir com a saúde animal e econômica

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A sanidade do rebanho é um dos pontos mais importantes da suinocultura. Adotar os melhores métodos de manejo que garantam este status é um ponto fundamental para atingir melhores resultados. Porém, ainda existem casos em que por falta de planejamento ou conhecimento, alguns detalhes que são importantes são deixados de lado quando o assunto é a limpeza e desinfecção do ambiente antes de receber um novo lote. Para esclarecer dúvidas sobre este assunto, a médica veterinária e doutoranda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Anne de Lara, fala sobre “Pressão de infecção: quais os melhores métodos de lavagem, desinfecção e vazio sanitário a serem adotados na suinocultura” durante o Seminário Internacional de Suinocultura (Sinsui), que aconteceu em maio, em Porto Alegre, RS.

A profissional explica que o tema é bastante amplo porque é utilizado em várias áreas, seja humana, farmacêutica ou produção animal. Dessa forma, o objetivo é tratar qual a realidade hoje, o que pode ser feito para reduzir a pressão de infecção no campo, de que forma esse processo de limpeza e desinfecção pode contribuir e quais as ferramentas que existem hoje para isso.

Anne comenta que atualmente a suinocultura possui vários processos e manejos que no decorrer do tempo fizeram com que aumentasse a pressão de infecção. Entre eles estão a densidade animal e o aumento da produtividade. “Os animais contaminam as instalações com agentes da microbiota e também com agentes patogênicos, quando presentes no rebanho. Associado a isso, há muitos locais onde a estrutura da granja não tem o melhor tipo de piso. Estas particularidades podem fazer com que os agentes permaneçam nas instalações”, afirma. Adotando melhores processos, isto pode ser resolvido, mas ainda é um desafio para a suinocultura, esclarece a profissional.

Ela diz que em alguns casos, não ocorre o planejamento para o intervalo adequado entre lotes. “Existem desafios em relação ao tempo hábil para fazer esse processo. Então, quanto mais otimizado e mais assertivo for a etapa de limpeza e desinfecção, especialmente quando não há muito tempo para executar, melhor será o resultado para reduzir a contaminação nas instalações”, conta. A profissional explica que para que o próximo lote a ser alojado tenha uma condição de ambiente favorável para o desempenho dos leitões, é necessário que o procedimento de limpeza e desinfecção seja realizado da melhor forma possível e aproveitando o tempo disponível. “Por isso também a importância da adoção de processos padronizados”, reitera.

Entendendo cada um dos processos

A médica veterinária diz que a limpeza da matéria orgânica residual é a parte mais importante de todo o processo, pois a efetividade das etapas seguintes são dependentes desse processo inicial. “Deve ser realizada de forma criteriosa com a utilização de ferramentas adequadas como detergentes, água de boa qualidade sob pressão e por pessoas treinadas”, afirma.

Já a desinfecção, conta Anne, deve ser realizada em instalações secas, após a limpeza prévia, utilizando produtos com espectro conhecido e na concentração adequada. “Vários são os fatores que podem reduzir a eficiência dos desinfetantes, portanto deve-se atentar às características de diluição, estabilidade, aplicação, tempo de contato e qualidade da limpeza das instalações”, alerta.

O vazio sanitário, acrescenta a profissional, é um processo complementar. “Portanto, este é totalmente dependente da qualidade dos processos anteriores. O objetivo do vazio sanitário é permitir a ação residual dos desinfetantes e o processo de dessecação”, conta.

Repetibilidade 

Anne informa que o processo de limpeza e desinfecção deve ser realizado no intervalo entre o alojamento dos animais. “Portanto, quanto melhor a execução desse processo, melhor o aproveitamento do tempo e o resultado final. A padronização de processos é importante para que se obtenha repetibilidade, por meio de métodos seguros e efetivos”, conta.

Ela cita alguns detalhes que são importantes para estabelecer um programa de limpeza e desinfecção. “Inicialmente, o treinamento das pessoas envolvidas é essencial. Esse treinamento deve deixar claro para quem realiza o processo e qual a importância de ser feito da melhor forma, mostrando o impacto que isso tem no resultado do lote”, afirma. Anne explica que esse processo vai reduzir a exposição dos agentes aos animais que serão alojados e, com isso, a probabilidade de desencadear doença clínica reduz. “Essa comunicação é bastante importante”, assegura.

Quanto a realização do procedimento em si, a profissional explica que é preciso ter as ferramentas adequadas para a realização do mesmo, ou seja, um detergente e desinfetante com efetividade comprovada. “Uma série de fatores contribuem para o sucesso do processo, como utilização das concentrações adequadas e respeitar o tempo mínimo de contato dos desinfetantes com as instalações”, diz.

Outra questão importante destacada pela médica veterinária, e que impacta bastante, é o intervalo de tempo hábil para os processos serem realizados. “Isso depende do tamanho da instalação, mas pelo menos seis dias de intervalo entre lotes são necessários para executar o processo de limpeza e desinfecção e ter um mínimo de vazio sanitário”, afirma. Ela diz que este tempo varia bastante conforme a realidade de cada granja, porém, se o tempo for limitado e reduzido não será possível executar todas as etapas.

Após a limpeza, desinfecção e vazio sanitário, destaca a profissional, é importante estabelecer inspeções para definir se o processo foi realizado corretamente e se obteve o resultado esperado. Anne destaca que o principal benefício ao realizar corretamente cada um dos processos é a redução da pressão de infecção, fornecendo assim um melhor ambiente aos animais. “Além de favorecer o bem-estar, há uma redução na probabilidade de desencadeamento de doenças clínicas nos animais e por consequência um melhor desempenho do rebanho”, garante. Deve-se considerar ainda que um programa básico de limpeza e desinfecção custa em média 1 a 2% do custo total do lote, comenta. Enquanto que o tratamento de doenças clínicas normalmente é superior a isso.

Dificuldade ainda é grande

A médica veterinária comenta que ainda existem dificuldades em operacionalizar estes pontos na granja. “Uma questão muito importante é o tempo hábil para realizar um processo adequado. Além desse fator, a condição das instalações também impacta, especialmente no caso de granjas sem manutenção adequada, onde há muitas falhas em piso e equipamentos”, afirma.

Ela acredita que fatores importantes que dificultam a execução do procedimento é o curto intervalo entre lotes praticado e as condições estruturais das granjas. “Essa questão do tempo mínimo e a qualidade dos pisos são condições importantes atualmente no Brasil que podem dificultar a obtenção de bons resultados nos planos de desinfecção”, conta. Além do mais, a comunicação e treinamento do pessoal, informa, é outro grande obstáculo.

A médica veterinária garante que todos os processos a serem realizados são simples. “Isso desde que seja estabelecido um plano considerando os principais fatores como disponibilidade de ferramentas adequadas e equipe treinada”, assegura.

Todos dentro todos fora

Anne conta que este processo de limpeza e desinfecção deve ser realizado em todas as fases da produção, uma vez que o processo reduz a pressão de infecção por agentes que podem acometer os suínos nas diferentes fases de produção. Além disso, ela acrescenta que quando esse processo é associado ao manejo “todos dentro, todos fora”, há um ganho significativamente maior, uma vez que a medida que todos os animais são retirados das instalações é retirado também o fator colonização. “Com a saída dos animas é possível fazer um processo adequado de limpeza e desinfecção, visto que não terão mais animais colonizando e contaminando o ambiente durante essa etapa”, assegura.

Já em granjas onde não há retirada total dos animais não quer dizer que a limpeza e desinfecção não são importantes. “Mas o resultado vai ser diferente, porque ainda terá fluxo de animais e pessoas que podem contaminar a instalação. No caso de granjas de reprodutores, onde somente algumas baias ou alas passam pelo processo de limpeza e desinfecção enquanto outros animais ainda permanecem nas instalações, o processo é importante, mas a redução da pressão de infecção normalmente é inferior”, afirma. Ela acrescenta que nas fases de creche e terminação é muito relevante a adoção do sistema “todos dentro, todos fora” para viabilizar um adequado processo de limpeza e desinfecção, bem como obter outros ganhos relacionados ao desempenho dos animais.

Programa feito em equipe

Um fator importante e essencial citado por Anne é que os planos sejam desenvolvidos junto com as equipes executoras, para que as ações sejam aplicáveis à rotina. “O plano vai ficar muito mais aplicável e diretamente fácil de executar se forem consideradas a participação das pessoas que fazem esse processo e que o conhecem, para que seja aplicado para aquela realidade”, afirma.

Ela comenta que alguns planos podem não se aplicar diretamente a todos os tipos de granja. “Por isso é importante sempre trazer as pessoas que estão diretamente envolvidas no processo para discutir e elaborar os planos de desinfecção”, sustenta. Além do mais, é necessário que esta equipe entenda o porquê de estar realizando esta etapa. “É importante que os envolvidos compreendam que esse processo não é somente um preparo e sim ações que vão contribuir para a saúde do lote”, diz.

Anne destaca ainda que o programa deve ser completo. “Não podemos pensar na desinfecção sem ter uma limpeza bem realizada. A grande maioria dos desinfetantes reduz eficiência na presença de matéria orgânica. Então a limpeza deve ser bem executada, removendo toda a matéria orgânica para seguir com o processo de desinfecção”, reafirma. Da mesma forma, o vazio sanitário é um processo complementar aos dois primeiros. “Por isso é tão importante que cada etapa seja feita adequadamente”, alerta.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Suinocultura

“Não comunicamos. Por isso deixamos um campo aberto para desinformação”, sustenta José Luiz Tejon

Tejon defende uma comunicação mais eficiente para o público, especialmente sobre a ciência e a tecnologia hoje empregadas no meio rural

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Arquivo/OP Rural

 O Presente Rural entrevistou com exclusividade o palestrante internacional, professor e autor José Luiz Tejon. Ele é Top of Mind de RH, considerado uma das maiores autoridades nas áreas da gestão de vendas, marketing em agronegócio, liderança, motivação e superação humana. É ainda uma das cem personalidades mais influentes do agronegócio mundial. Ele defende uma comunicação mais eficiente para o público, especialmente sobre a ciência e a tecnologia hoje empregadas no meio rural. “Não comunicamos. Por isso deixamos um campo aberto para a desinformação”, sustenta.

O Presente Rural – O agronegócio é repetidamente atacado por personalidades e pela população em geral. Porque isso acontece?

José Juiz Tejon – O agronegócio é, enquanto agricultores, querido pela população em pesquisa para a Abag (Associação Brasileira do Agronegócio). Dentre cinco profissões consideradas fundamentais para a vida das cidades, os agricultores foram citados ao lado de médicos, bombeiros, professores e policiais, portanto precisamos rever nossos próprios auto preconceitos. Por outro lado, cabe ao agronegócio esclarecer o que significa ciência e tecnologia envolvida hoje na produção de alimentos. Não fazemos isso, não comunicamos. Por isso deixamos um campo aberto para a desinformação.

O Presente Rural – Como o senhor avalia o vídeo postado pela Xuxa sobre a suinocultura?

Tejon – De uma granja de suínos ultrapassada e que não responde mais pela modernidade das criações. Mas o velho ainda convive com o novo. Precisamos de comunicação esclarecedora das formas modernas de criação e bem-estar animal. Se não investir em comunicação abre espaço para desinformação, a má informação e até fake news. Neste caso essa cena existe, porém ela é ultrapassada e de uma granja que não vai ao futuro. Não representa a nova suinocultura. Importante que a nova suinocultura mostre seus procedimentos ao consumidor e para toda a sociedade. Sem comunicação não teremos futuro.

O Presente Rural – Que impactos esses desserviços fazem no agronegócio?

Tejon – Como são exemplos ultrapassados, não sobrevivem no tempo e não significam todo o setor. Como vemos em várias cadeias produtivas como leite, como já vimos nos ovos, etc. Porém, com a globalização das imagens e desinformações, podem influenciar segmentos de mercados e interferir no consumo. Não cabe mais se vitimizar e reclamar. Precisa comunicar, informar e entender que isso é vital doravante, luta pela percepção… fight for perceptions.

O Presente Rural – A comunicação do agro com o consumidor é falha? Como melhorar?

Tejon – Não temos essa comunicação. Temos a comunicação das marcas na luta – por market share, no consumidor urbano. Mas não temos uma ação permanente de educação publicitária sobre a sociedade comunicando o processo a originação e como os produtos são desenvolvidos desde a ciência até a mente dos consumidores. Não basta mais apenas falar das marcas e de seus atributos agroindustriais. Precisa comunicar os processos, a rastreabilidade e o bem-estar animal envolvido.

O Presente Rural – Porque é difícil para as agroindústrias comunicar as boas práticas na produção, como bem-estar animal, por exemplo?

Tejon – Não deveria ser nada difícil. Basta apenas reservar um percentual no orçamento da comunicação para educar consumidores sobre as práticas boas e sanitárias e humanas na originação de seus produtos. Muito fácil. Apenas uma questão de decisão. E logicamente, contratar publicitários com competência para isso. Mensagem e meios inteligentes e abrangentes.

O Presente Rural – Há pontos positivos na comunicação e marketing das empresas do agro?

Tejon. Sim, como em tudo. Sempre há o positivo e o negativo. As empresas do antes da porteira têm sido valorosas na difusão das inovações e tecnologias para o campo. Os produtores rurais, através de cooperativas principalmente, da mesma forma, como exemplo do sistema Aurora, mostrando o compromisso humano com suas famílias para a qualidade e a sustentabilidade na produção. Idem para as cooperativas de crédito, como Sicredi, revelando a evolução da qualidade de vida em áreas como o Oeste do Paraná, etc. Da mesma forma podemos ver ações da agroindústria sobre educação nutricional e também dos supermercados com o programa Rama, rastreabilidade e monitoramento de alimentos, com uma vontade de transformar 90 mil pontos de vendas em 90 mil pontos de educação de consumidores em luta inclusive contra o desperdício. Existem exemplos. O que não existe é uma reunião integrada conjunta e conjugada de esforços comunicacionais contra a desinformação e a ignorância na percepção pública.

O Presente Rural – Como seria a abordagem ideal de marketing do agronegócio para melhorar sua imagem?

Tejon – A abordagem ideal é mostrar seres humanos cuidando de seres humanos. Uma família de Medianeira (Paraná) cuidando da produção de suínos, por exemplo, com capricho, carinho e paixão para uma família que tem um restaurante a quilo em São Paulo servir com saúde a população. Precisa reunir a sociedade urbana com a rural. Humanizar.

O Presente Rural – Como a comunicação e/ou o agronegócio deve lidar com grupos extremistas ou radicais, como alguns veganos e algumas ONGs de proteção animal?

Tejon – Faz parte da vida. Não pode odiar, xingar e muito menos ignorar. Precisa tratar como seres humanos que são do agro, afinal vegano é agro; e as ONGs separar joio do trigo. Existem ONGs sérias que precisam ser convidadas para o diálogo. Sem uma postura conciliadora não vamos ao bom futuro.

O Presente Rural – Porque ainda se separa tanto o rural e o urbano se um depende do outro?

Tejon – Não se separa. Está totalmente unido. O auto preconceito é muito maior do que o verdadeiro preconceito. E o pessoal do agro embarca em canoas furadas de problemas que não são seus. A quem pertence o problema de agrotóxicos? Aos agricultores? Não. A quem pertence o problema do desmatamento ilegal? Aos produtores? Não. A quem pertence esclarecer o uso da ciência no agro? Aos produtores? Não. A quem pertence esclarecer os problemas da fome no mundo? Aos agricultores? Não. A quem pertence esclarecer os dramas da sanidade da carne nos frigoríficos? Aos pecuaristas? Não. Dessa forma cabe saber o que agribusiness significa, um sistema de cadeias produtivas, onde o elo mais fraco é o agricultor, e cabe aos “irmãos grandes”, as agroindústrias e processadores comandarem as cadeias produtivas protegendo legitimamente seus originadores, os agricultores.

O Presente Rural – Como o senhor avalia parte da sociedade que se alimenta do campo e fala mal dele? Isso vai mudar algum dia?

Tejon – A sociedade não fala mal dele. Isso é uma generalização. Na neurolinguística e na comunicação aprendemos que são três as fórmulas que são utilizadas para a “manipulação” das mentes humanas: generalização, eliminação, distorção. Ao generalizarmos: “a sociedade urbana fala mal do agro” estamos generalizando, distorcendo e eliminando outras versões de amizade e de reverência positiva aos produtores rurais. Por isso comunicação difere totalmente de manipulação. E o que precisamos é de comunicação, para a generalização positiva, para as distorções favoráveis e para a eliminação dos maus exemplos. A cidade reconhece e gosta sim dos agricultores. As exceções não representam a maioria. Mas o silêncio e a omissão das indústrias do antes das porteiras, das agroindústrias do pós-porteira e de entidades, associações do dentro da porteira na educação da sociedade cliente e consumidora é o eixo central do que precisamos cuidar doravante. Para o Brasil é para o mundo.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Saiba a diferença

Bem-estar animal X Direito dos animais

Bem-estar animal e direito dos animais são dois conceitos diferentes, mas que algumas ONGs ou pessoas não entendem ou fingem não entender a diferença

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Arquivo/OP Rural

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Para o médico-veterinário doutor em Ciência Animal, Cleandro Pazinato Dias, co-autor do livro Bem-estar dos Suínos, a primeira condição para discutir os ataques à produção de proteína animal por uma parte da sociedade é entender a diferença entre bem-estar animal e direito dos animais. Dias, que é consultor, pesquisador e suinocultor, acredita que os ataques como os da Xuxa serão cada vez mais frequentes simplesmente pelo fato de que esses ativistas querem o fim da produção de proteína animal, algo inconcebível e até caricato em um mundo onde a fome ainda atinge mais de 820 milhões de pessoas, conforme o relatório ‘O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018′, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

Dias explica que o bem-estar animal está ligado à produção de proteína, total e absolutamente pautado em ciência. Já o direito dos animais é intrínseco, por exemplo, aos animais de companhia, de estimação, como cães e gatos. No entanto, sugere o pesquisador, essas Organizações Não Governamentais (ONGs) não entendem ou fingem não entender a diferença entre os conceitos. Em sua opinião, é uma minoria de pessoas, mas que acaba confundindo a população em geral sobre os temas.

“Há uma grande diferença entre direito dos animais e bem-estar animal tem que ficar muito clara antes de iniciar um debate. O bem-estar animal vale para a suinocultura, mas também para todas as cadeias de proteínas, como leite, ovos, frango e carne bovina. O objetivo básico do bem-estar animal é melhorar qualidade de vida deles por meio de melhor alimentação, melhor alojamento, garantia da saúde e ambiente que lhe permita expressar seu comportamento. As práticas de bem-estar animal são feitas com base em pesquisas, em estudos que ajudem a melhorar esses parâmetros”, menciona Dias.

Ele explica que o bem-estar é observado não só nas granjas, mas também no transporte até o frigorífico e abate dos animais. O profissional destaca, por exemplo, que os animais são insensibilizados e não sentem dor ou qualquer outro infortúnio quando são abatidos. “A suinocultura, como também as outras cadeias de produção animal, é altamente regulamentada por órgãos oficiais, com base na ciência, com o objetivo que seja a mais humanitária possível, da granja ao abate. “O abate, por exemplo, ocorre sem dor e sem consciência”, frisa. Nas plantas mais modernas, a insensibilização ocorre com gás. Outros utilizam eletricidade – os animais são sensibilizados antes de sentirem dor.

Dias explica que além da qualidade nutricional, a suinocultura está cada vez mais conectada à produção ética, com respeito aos animais, aos trabalhadores, às comunidades e ao meio ambiente. “Além de ser importante para a geração de renda e alimento de qualidade, a suinocultura trata os animais com toda a dignidade, está cada vez mais conectada com a qualidade do produto, mas também qualidade ética, em todos os aspectos.

Ainda nas granjas, infraestrutura de primeira garante desempenho zootécnico e bem-estar animal. Dias garante que a ampla maioria das granjas brasileiras são modernas, inclusive climatizadas, e estão entre as melhores do mundo. “Já faz anos que começaram a surgir granjas cada vez mais modernas, até 100% climatizadas, com controle de temperatura, qualidade do ar, etc. As granjas brasileiras estão no patamar das melhores do mundo. Não perdemos para ninguém. Estamos no mínimo equivalentes aos melhores. Conheço granjas em outros países. Não podemos nos encolher para ninguém. Não da para achar que a gente é melhor que os outros, pois sempre tem alguém fazendo algo novo, mas estamos no nível dos melhores”, destaca.

Ainda conforme o pesquisador e consultor, as granjas mais antigas estão se transformando. “Foram criados modelos novos de produção, com propriedades dedicadas a creches ou engorda, por exemplo. Nesse contexto, as agroindústrias são muito eficientes”, aponta.

Para o médico-veterinário doutor em Ciência Animal e também produtor, no vídeo publicado por Xuxa há claros sinais de transgressão às práticas de bem-estar animal, mas trata-se de exceções. “Realmente o cidadão estava cometendo maus tratos. Esse é um extremo ruim da nossa cadeia, mas ele faz parte da cadeia, temos que entender para corrigir. Em minha opinião, eles (ONG Mercy for Animals) foram a dedo escolher um cara desses para ter argumentos e fatos, para dar base para eles defenderem que essa produção tem que parar”, avalia.

“Ataques de ativistas ao agronegócio serão cada vez mais frequentes”

Já o direito dos animais, frisa Dias, quer simplesmente acabar com a produção mundial de proteína animal. Ele versa, entre outras situações, na prática de abandono de pets nas ruas, no acorrentamento em espaços sujos e inadequados, na alimentação restrita e na manifestação de doenças sem o devido tratamento. “Muitas pessoas da zona urbana estão desconectadas da zona rural, não sabem da onde vem o alimento. Muitas ativistas dos direitos dos animais são vinculadas a ONGs, que, como primeiro ponto, querem a abolição da produção animal, querem que as pessoas parem de consumir leite, ovos e carne. Muitas estão ligadas ao vegetarianismo ou ao veganismo, que é mais extremo”, pontua.

Com visões tão diferentes, sugere Dias, profissionais de produção e ativistas jamais vão entrar em consenso. “Dificilmente vamos encontrar um meio termo nessas duas linhas de raciocínio. O direito dos animais é abolicionista, quer extinguir a produção”, reforça. “As partes não conversam entre si. O radicalismo é cada vez mais evidente na humanidade, as pessoas que pensam completamente diferentes não consegue falar entre si. Nesse caso, há uma diferença filosófica gigantesca”, amplia.

Por conta dessa visão oposta, sugere o pesquisador e produtor, os ataques ao agronegócio serão cada vez mais frequentes. “Essas investigações sigilosas vão ser cada vez mais usadas por essas ONGs de proteção ao direito dos animais. Ataques ao agronegócio vão ser cada vez mais frequentes, vão se repetir com muito mais agressividade. Vão aumentar em frequência e em nível de qualificação, por assim dizer, como essa que utilizou um drone. Eles pensam: vou bagunçar o coreto desses produtores de proteína animal, vou bagunçar a casa deles, pois não concordo com o que eles fazem. Para isso, vão tentar descobrir os piores transportes, os piores produtores, as piores indústrias, as falhas que tiverem no processo eles vão captar para jogar na mídia, fazendo com que aquilo pareça algo rotineiro, como se, na verdade, a exceção fosse a regra”, sustenta o profissional.

Para Dias, essas pessoas são poucas, mas conseguem criar desafios para o setor de proteína animal pois são financiadas, têm recursos financeiros à disposição. “Os ativistas têm recursos, têm empresas que colocam dinheiro, empresas que patrocinam, fazem campanhas na Internet, vão comprar drone, vão viajar, etc., não são desarticulados”, destaca. “É um grupo pequeno, mas que faz um barulho muito grande”, amplia.

Evolução do bem-estar animal

Dias é co-autor do primeiro livro em Português editado no Brasil, em 2014. Nos últimos seis anos, houve também evolução no bem-estar dos animais. “Esse livro foi um marco porque foi o primeiro em língua portuguesa. De 2014 até hoje a suinocultura evoluiu muito, por exemplo, com a adoção de gestação coletiva, em baias com vários animais, ao invés de gestação nas gaiolas individuais. Quando lançamos o livro, a gestação coletiva estava iniciando no Brasil. De lá para cá, as principais empresas produtoras, que são BRF, Seara JBS, Aurora, Frimesa, Pamplona e Alegra, já estão em transição para a gestação coletiva. “Juntas, representam cerca de 60% do mercado de produção de carne suína no país”, justifica o pesquisador. “É um exemplo claro e incontestável de evolução em bem-estar animal”, garante.

Ainda segundo Dias, “o bem-estar animal é pauta em todos eventos, congressos e nos trabalhos científicos produzidos nas universidades. Nosso entendimento de bem-estar animal hoje é muito contundente”, diz.

O pesquisador e produtor acredita que os avanços no setor não param com o tempo. “Para o futuro, vamos produzir carne suína com o bem-estar cada vez mais evoluído, vamos ser ainda melhores, levando lado a lado com as questões econômicas. O bem-estar na suinocultura vai continuar evoluindo, seja na melhoria das instalações, na alimentação, entre outros aspectos e outras áreas de tecnologia, como climatização e ambiência”, garante. Para Dias, a suinocultura já aplica o bem-estar único, que inclui animais, funcionários, comunidade no entorno e meio ambiente.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Suinocultura

O rigoroso transporte de suínos que Xuxa não conhece

Produtores, transportadores e indústrias são responsáveis pela produção de suínos saudáveis, manejados e transportados respeitando BEA, boas práticas no manejo pré-abate e segurança do alimento

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Divulgação/ABCS

 Artigo escrito por Charli Ludtke, médica veterinária e diretora técnica comercial da ABCS

No Brasil são transportados mais de 92 milhões de suínos ao ano, sendo que a maioria das viagens está relacionada ao transporte dos animais para os frigoríficos, quando atingem o peso para o abate que varia de 100 a 130Kg. A decisão de transportar os suínos requer responsabilidade compartilhada entre o produtor, transportador e a indústria, devendo ser adotadas as boas práticas e o bem-estar animal durante toda a viagem. Produtores, transportadores e indústrias são responsáveis pela produção de suínos saudáveis, manejados e transportados respeitando o bem-estar animal, as boas práticas no manejo pré-abate e a segurança do alimento.

Os produtores são responsáveis por manter os animais saudáveis e bem nutridos, e em condições físicas adequadas para a realização da viagem. Além disso, manter com a agroindústria uma equipe capacitada com colaboradores cuidadosos para realizar o manejo de embarque dos suínos, é essencial. Para realizar o transporte dos animais, os produtores precisam solicitar a emissão da GTA (Guia de Trânsito Animal) nas unidades veterinárias da região para fins de controle do trânsito dos animais, exigências sanitárias (saúde) e rastreabilidade dos suínos. O transporte dos suínos da granja ao frigorífico é realizado em veículos específicos para este fim e acompanhado de toda a documentação fiscal e da GTA. As empresas de transporte, proprietários de veículos e motoristas são responsáveis pelo planejamento da viagem, transportar somente animais aptos para a viagem e garantir o cuidado durante todo o percurso, além disso buscar atender os requisitos que se refere a: utilizar o veículo e lotação adequada para a viagem, (espaço disponível para todos os animais deitarem) capacitar todos os envolvidos no transporte, principalmente os motoristas em relação ao comportamento e bem-estar dos animais. Assim como desenvolver e manter o plano de viagem incluindo o embarque e desembarque dos animais, duração da viagem, caminho a ser percorrido e o plano de contingência para tratar de emergências (acidentes, condições climáticas adversas) visando minimizar o estresse dos animais durante o transporte.

Os responsáveis das indústrias devem promover as boas instalações durante o embarque, transporte e desembarque no frigorifico, de forma que os suínos possam ser conduzidos com o mínimo de estresse e proporcionando interação positiva com os manejadores. Atenção deve ser dada ao frigorifico, quando os suínos desembarcam e são encaminhados para a área de descanso, antes de serem abatidos. Este ambiente deve promover a recuperação dos animais com áreas adequadas de descanso, conforto térmico, acesso a água e proteção das condições climáticas adversas. Nesta etapa todos os suínos são avaliados pelo Médico Veterinário Oficial quanto aos aspectos de saúde e do bem-estar animal, a fim de permitir que sejam encaminhados ao abate.

Toda a equipe de colaboradores do frigorífico que maneja diretamente os animais deve ser treinada para adotar as boas práticas, evitando assim o sofrimento e o estresse desnecessário aos suínos, mantendo os padrões de qualidade e de segurança do alimento. O transporte constitui uma importante parte do processo, e se não for bem executado pode ocasionar sérios problemas de bem-estar aos animais e de perdas econômicas. A Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) tem desenvolvido material técnico e treinamentos para a conscientização de toda a cadeia de suínos, atuando, junto às suas afiliadas estaduais na capacitação, visando o aprimoramento do bem-estar animal nas granjas e as boas práticas no transporte e frigorífico. Assim, a suinocultura brasileira se mantém em sintonia com as exigências dos consumidores.

Nota do editor: O título deste artigo não reflete a opinião da autora. É de responsabilidade do jornal O Presente Rural.

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Fonte: O Presente Rural
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