Bovinos / Grãos / Máquinas Da Holanda para o Paraná
Paixão pelo leite reflete em produtividade para a família Dijkstra
Fazenda Frisia está com 560 vacas em lactação, que tem uma produção diária de 20 mil litros de leite

“O meu avô imigrou da Holanda para Carambeí em 1947 e trouxe com ele 40 novilhas e um touro”, sintetiza o
pecuarista Bauke Dijkstra. Foi assim que começou a história da família na pecuária leiteira brasileira. Mas, segundo o pecuarista, a família já estava na atividade ainda na Holanda, muito antes de se mudar para o Brasil. “Nós somos criadores por paixão”, afirma. Desde que se conhece por gente, Dijkstra está no setor leiteiro. Atualmente, a Fazenda Frisia está com 560 vacas em lactação na propriedade, que tem uma produção diária de 20 mil litros de leite. São, aproximadamente, 36 litros por animal ao dia.
O valor é significativo. Dijkstra se considera pequeno produtor, mas entre os maiores da região. Não por menos, uma vez que os Campos Gerais do Paraná são considerados o braço forte da pecuária leiteira estadual e nacional. Para se ter uma ideia, na região estão dois dos três maiores municípios de produção de leite nacional – Castro e Carambeí. Segundo dados do IBGE de 2018, Castro lidera a produção brasileira de leite (292 milhões de litros). Em terceiro lugar está o município de Carambeí (180 milhões de litros).
Mas, mesmo Castro sendo o maior produtor nacional, quando o assunto é Valor Bruto da Produção quem se destaca é Carambeí. De acordo com dados levantados pelo Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral), em 2018 o leite representou 31% do VBP do município. A maior representação desse segmento em todo o Estado. A cada R$ 100 movimentado pelo agronegócio, R$ 31 estão diretamente ligados ao leite.
Por causa de toda essa significância, a expedição do jornal O Presente Rural pelo Paraná foi até Carambeí para ouvir essa história que envolve tradição, amor pela pecuária e muita determinação.
De pai para filho
De acordo com Dijkstra, a pecuária leiteira já está na família há gerações. “Meu avô e bisavô eram produtores de leite na Holanda e provavelmente antes deles ainda a atividade já era feita na família”, afirma. Ele explica que a propriedade em que ele está hoje foi o pai dele quem adquiriu, em 1955. “Na época eram somente umas 15 vacas”, conta. “Eu nasci em 1957. Então, nasci e fui criado aqui, e nessa atividade”, diz.
Agora, o pecuarista comenta que pretende transformar a fazenda em uma verdadeira empresa. “Queremos deixar tudo em quotas parte para todos”, explica. Isso porque têm herdeiros que estão diretamente trabalhando na propriedade e outros não. “Tem o Mateus, que é meu genro e administra a parte da pecuária na fazenda. E tenho um filho que trabalha comigo na agricultura, outro que está em uma cooperativa e uma filha que trabalha em uma escola de idiomas junto com a minha esposa”, conta.
Segundo ele, o filho que trabalha na cooperativa já é um investidor da propriedade. “Ele já tem umas quotas partes, já tem gado aqui, mas ele sempre trabalhou fora”, explica. No entanto, informa que todos os investimentos foram feitos na fazenda quando os filhos decidiram que iriam continuar tocando o negócio. “Então decidimos que precisávamos crescer, porque um espaço muito pequeno não comporta quatro pessoas, não é rentável. Nós temos que ganhar bem e sobrar dinheiro para continuar investindo na pecuária”, afirma.
Conforto e qualidade
O segredo para uma boa produção nos quatro barracões da Fazenda Frísia é o conforto e bem-estar oferecido aos animais, sempre. “Aqui trabalhamos com o sistema free stall, mas a cama ao invés de ser com serragem é com areia. Isso garante melhor bem-estar animal, já que a areia é mais fresca para o animal e também tem menos agentes bacterianos do que a serragem”, explica o gerente do setor pecuário da fazenda, Mateus Gonçalves dos Santos. E esta é somente uma pequena parte do conforto que é oferecido para elas. O espaço ainda possui ventiladores e chuveiros para garantir total conforto térmico. “Quando a temperatura está acima de 18°C os ventiladores e os chuveiros ligam”, diz Santos.
Há também, na fazenda, uma segunda sala de espera para as vacas, onde elas ficam antes de entrar na ordenha. “É uma sala de resfriamento, que fica antes da sala de espera da ordenha. Elas ficam ali por aproximadamente 30 minutos recebendo água e vento”, explica. Segundo ele, este é um sistema israelense que é feito na fazenda há poucos meses. “Já vimos bastante resultado, principalmente quanto a reprodução, que é um ponto em que tínhamos bastante dificuldade. Assim, a nossa taxa de concepção melhorou muito. Acreditamos que agora vamos chegar mais preparados para o verão”, especula.
Volume com qualidade
Dessa forma, o caminho que a vaca percorre quando ela sai do barracão é passar pela sala de resfriamento, a de espera, então ela vai para a ordenha e retorna para o barracão. “Simultaneamente ordenhamos 20 vacas por vez. Ela não passa mais do que 50 minutos fora do barracão. Isso também garante melhor conforto para o animal. Ele vem o mais rápido possível, se refresca e volta para o barracão para tomar água, comer e se deitar”, diz. Santos conta que a intenção é em cinco anos ter mil vacas em lactação.
Todo esse conforto reflete na qualidade do leite produzido na fazenda. “Trabalhamos com CBT (Contagem Bacteriana Total) em torno de 10 mil, células somáticas entre 140 e 150 mil, gordura em 3,8 e 3,9%, e proteína entre 3,5 e 3,55%”, informa. “Temos mantido a qualidade do leite, mas isso é resultado de muitos ajustes até conseguirmos chegar nesses números”, comenta.
Investimento no gado, na fazenda e nas pessoas
Dijkstra lembra que quando começou as formas de tirar o leite eram diferentes, assim como todo o estilo de uma propriedade. “Com o passar do tempo foi mudando, do balde para a ordenhadeira mecânica. Houve crises e então nos recuperamos, mas nunca desisti da atividade”, assegura. O pecuarista lembra que anos atrás havia um preço de leite ruim e um comércio de gado bom. “O nosso rebanho era todo registrado. A gente tinha um bom nome como criador. Então a comercialização de gado sempre foi uma válvula de escape boa para compensar épocas de preço ruim ou coisas assim”, conta.
Porém, agora o comércio de gado não é mais tão lucrativo e a produção de leite ficou mais tecnificada. “Antigamente, cada produtor de leite tinha a sua cartilha de como as coisas deveriam ser feitas, o seu modo de fazer. Hoje, temos assistência técnica que é muito boa e métodos de trabalho bons, com protocolos. É outro nível”, comenta. “Hoje funciona tudo com base em controle e planejamento. A rotina está certa”, assegura.
Dijkstra reitera que o pai, assim como toda a família, era criador de gado por paixão. “Ele gostava muito da parte de genética. E isso foi ótimo para nós, porque sempre houve a preocupação com isso aqui na fazenda”, diz. Assim como em outras áreas, com o passar do tempo também houve investimento em quesitos como conforto do gado, qualidade do leite e nutrição. “Hoje, na minha opinião, o que faz toda a diferença em uma produção de leite de qualidade são duas coisas: a qualidade da forrageira que o gado come e o conforto que você oferece para o seu rebanho. Para mim, estes são os dois pilares que diferenciam um produtor do outro”, conta. Claro que outros pontos, como genética, também são essenciais, diz o pecuarista. Mas os dois citados, em sua opinião, fazem toda a diferença.
Além do mais, algo em que a Fazenda tem investido bastante também, é no fator humano. “Isso é o básico, porque tudo aqui é feito por gente. Nós temos que treinar e motivar as pessoas, proporcionar para elas também um conforto, porque elas também precisam estar felizes no trabalho. Esse é o passo principal, as pessoas precisam estar e trabalhar satisfeitas”, assegura. Para garantir isso, Dijkstra oferece treinamentos constantes para os funcionários. “Porque assim você transforma o seu pessoal em co-participantes na tomada de decisões e trabalhos realizados”, conta. “Eles fazem reuniões semanais, com todas as equipes, em que todos falam sobre as anomalias que veem na fazenda. Por exemplo, eles têm um caixa em que anotam e colocam informações sobre alguma coisa que atrapalhou o serviço naquele dia. Isso não é para apontar o dado do que outro deixou de fazer, mas é para a gente ir identificando problemas e facilitando o trabalho de cada um deles e para eles terem o espírito de ir ajudando um ao outro, deixando o trabalho mais alinhado”, conta.
Vacas funcionais
Ao fundo do escritório de Dijkstra, a Reportagem notou alguns troféus de exposições. “Nós paramos de participar”, revela. “Na verdade, isso é um hobbie, eu não vejo como uma fonte de lucro, é um custo. Tem gente que adora ver sua vaca campeã, mas se for reparar bem é um investimento muito grande”, comenta.
Para ele, hoje é preciso que as fazendas tenham o que ele chama de vacas funcionais para produzir. “Precisamos de uma vaca que não seja grande demais, que tenha um tamanho médio, um úbere bom, pernas boas e, de preferência, fértil”, analisa. O pecuarista, que trabalha somente com vacas holandesas, diz que estas características variam bastante de animal para animal, e não é possível contar somente com a raça da vaca para se ter uma boa produção.
Laboratório na fazenda
Outro fator que ajuda bastante na produção da Fazenda Frísia é um pequeno laboratório, chamado SmartLab, que foi desenvolvido pelo professor doutor Marcos Veiga, da FMVZ/USP, especialista em qualidade do leite. “Dependendo do grau da mastite, se você identificar ela certo se for grau 1 ou 2, que não seja tão agressiva para o animal, você coleta o leite, faz uma análise nesse laboratório e em 24 horas ele consegue mostrar o tipo de agente patológico daquela mastite. Assim, dependendo da mastite, não necessariamente precisa tratar com antibiótico”, explica o gerente. Segundo ele, desde que estão usando o pequeno laboratório, há aproximadamente sete meses, já foi possível diminuir em 35% o uso de antibióticos nos animais.
E a diminuição de uso de antibióticos é muito bom, tanto para os animais quanto aos ganhos da fazenda. Segundo Dijkstra, todo o leite da fazenda é entregue para a Cooperativa Frísia. A qualidade da matéria prima é exigida e um dos pontos analisados é justamente a quantidade de antibióticos que há no leite. “Nós perdemos 4,5% dos ganhos se houver antibiótico no leite. Isso é mais que um dia de produção. Se voltar a acontecer no mesmo mês a perda é de 7%, e se acontecer uma terceira vez sobe para 11%”, informa.
Mais do que leite
A produção leiteira é o carro-chefe da fazenda, porém Dijkstra conta com outras atividades na propriedade. Atualmente, além das 560 vacas em lactação, ele ainda planta 1.150 hectares de lavoura e possui três mil suínos em terminação. “A agricultura é boa parte em terras arrendadas, mais ou menos uns 80%. Então eu planto com as máquinas do banco, com os insumos da cooperativa, a mão de obra dos funcionários, o aval do agrônomo e as terras dos vizinhos”, brinca.
Outras notícias você encontra na 8ª edição do Anuário do Agronegócio Paranaense.

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Governo libera crédito emergencial para cooperativas de leite
Linha do Pronaf garante capital de giro para manter operações e evitar impactos no campo.

As cooperativas da agricultura familiar que tenham como atividade principal a produção e o processamento de leite terão acesso temporário a uma linha de crédito para capital de giro. O Conselho Monetário Nacional (CMN) aprovou na quinta-feira (23) a inclusão de cooperativas do segmento em dificuldades financeiras na modalidade de agroindústria do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).


Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil
Na prática, essas cooperativas poderão contratar empréstimos para capital de giro até 30 de junho. Esse dinheiro é usado para manter as atividades do dia a dia, como comprar leite dos produtores, processar os produtos e manter a operação funcionando.
Em nota, o Ministério da Fazenda explicou que a decisão busca apoiar cooperativas que enfrentam dificuldades financeiras no curto prazo, garantindo que continuem operando normalmente. Sem esse apoio, poderia haver atraso nos pagamentos aos produtores, redução da produção e até perda de empregos locais.
Segundo a pasta, essas cooperativas são fundamentais porque:
• Compram a produção de pequenos agricultores;
• Processam alimentos, como leite e derivados;
• Garantem renda para famílias no campo.
Quem pode acessar o crédito
• A linha é voltada para cooperativas que participam do Pronaf Agroindústria e que comprovem dificuldades para pagar dívidas de curto prazo em 2026.
• Além disso, elas precisam estar inscritas em programas do governo voltados à gestão e fortalecimento da agricultura familiar, como iniciativas do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar.
• Os valores podem ser contratados em um ou mais bancos.
Como funciona o financiamento
A medida estabelece condições específicas para os empréstimos:
• Prazo total: até 6 anos para pagamento;
• Carência: até 1 ano para começar a pagar o principal;
• Juros: 8% ao ano;
• Limite por cooperativa: até R$ 40 milhões;
• Limite por cooperado: até R$ 90 mil.
Até quando vale
A autorização para contratar esse tipo de crédito vale até 30 de junho de 2026.
O que muda na prática
Com mais acesso a crédito, a expectativa do governo é:
• Manter a compra da produção dos agricultores;
• Evitar interrupções nas atividades das cooperativas;
• Garantir renda para famílias rurais;
• Preservar empregos no interior;
• Manter o abastecimento de alimentos.
A medida, informou a Fazenda, funciona como reforço de caixa emergencial, ajudando o setor a atravessar um período de dificuldades sem interromper a produção.
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Pecuária de Mato Grosso pode recuperar R$ 921 milhões com regularização ambiental
Áreas em regeneração já somam o equivalente a 5,8 mil campos de futebol.

Uma área equivalente a 5.868 campos de futebol está em processo de regeneração ambiental em Mato Grosso, impulsionada pelo Programa de Reinserção e Monitoramento (Prem), do Instituto Mato-grossense da Carne (Imac). Mais do que apenas uma adequação legal, regenerar áreas desmatadas ilegalmente também significa voltar ao mercado.
Apenas nas fazendas monitoradas pelo Prem a projeção é de que R$ 921,2 milhões voltem à cadeia produtiva formal, dinheiro que estava comprometido pois as propriedades estavam proibidas de comercializar seu rebanho, por causa dos passivos ambientais. “Para o setor, o passivo ambiental significa um bloqueio direto à comercialização. Propriedades com desmatamento irregular registrado no sistema Prodes ou com embargos ficam impedidas de vender para frigoríficos que atendem grandes redes varejistas e exportadores, por exemplo. Ao regularizar essas áreas, o Prem reconecta o produtor ao mercado formal”, explica o presidente do Imac, Caio Penido.

Foto: Gabriel Faria
Criado em 2022, o programa apresentou crescimento acelerado. Em quatro anos, saiu de quatro para 167 pecuaristas desbloqueados, avanço que reflete a demanda crescente por regularização e acesso a mercados. Atualmente, o Prem monitora 381.173 hectares, área equivalente a cerca de 2,5 vezes o município de São Paulo, e acompanha a regeneração ativa de 4.190 hectares de vegetação nativa.
Inserido na estratégia mais ampla de sustentabilidade da pecuária mato-grossense, o Prem é a principal ferramenta do Passaporte Verde, política que busca fomentar conformidade socioambiental em toda a cadeia produtiva do Estado. A iniciativa oferece acompanhamento técnico e orientação contínua aos produtores, facilitando o cumprimento da legislação ambiental e a reinserção no mercado formal.

Foto: Arthur Matos
Na prática, o avanço da regeneração também reforça o posicionamento de Mato Grosso no comércio internacional de carne bovina, onde cresce a exigência por produtos mais sustentáveis. “Na prática, a regeneração dessas áreas não só reduz passivos ambientais como também fortalece a imagem de Mato Grosso no cenário internacional. Ao transformar áreas antes irregulares em ativos produtivos, o estado avança em um modelo comprovado, que combina produção e conservação, certamente temos mais biodiversidade que nossos concorrentes”, enfatiza Penido.
O perfil dos produtores que aderiram ao programa também evidencia seu caráter inclusivo. As propriedades de grande porte representam 38,32% dos participantes, seguidas pelas pequenas (34,74%) e médias (26,94%). O dado indica que a regularização ambiental deixou de ser uma pauta restrita a grandes propriedades e passou a alcançar toda a base produtiva, ampliando o alcance econômico e sustentável da pecuária em Mato Grosso.
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Braford avança no cruzamento industrial e amplia presença na pecuária de corte
Raça sintética formada por Hereford e zebuínos combina adaptação ao clima tropical, precocidade e qualidade de carcaça, impulsionando sua presença em diferentes regiões do país.

Rusticidade, adaptação ao clima tropical e qualidade de carcaça têm impulsionado o avanço da raça Braford na pecuária brasileira. Composta predominantemente por sangue Hereford e zebuíno, no padrão mais difundido de 5/8 Hereford e 3/8 zebuíno, a raça reúne a adaptabilidade dos bovinos tropicais à precocidade, à docilidade e ao padrão de carcaça das linhagens britânicas. O resultado é um animal que transita com facilidade entre diferentes sistemas de produção e regiões do País.

Médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares: “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”
O médico-veterinário, produtor rural e presidente da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), Eduardo de Souza Soares afirma que a versatilidade é a principal marca do Braford. Segundo ele, se trata de um animal de porte moderado, manso e com carcaça alinhada às exigências da exportação. “O Braford se adaptou aos mais variados ambientes do nosso país. Entrega rentabilidade em sistemas pastoris e também responde muito bem quando inserido em sistemas de confinamento ou de terminação intensiva em cocho”, afirma.
Hoje, a raça está presente em praticamente todas as regiões brasileiras, com criadores em Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais e Sergipe, além da forte base da criação na região Sul, especialmente no Rio Grande do Sul.
De acordo com Soares, o Braford ganhou escala por meio do cruzamento industrial com outras raças zebuínas, agregando desempenho produtivo e valorização comercial aos bezerros. A demanda crescente por carne de maior valor agregado tem impulsionado esse movimento. Diante de um consumidor mais exigente e disposto a pagar por qualidade, cresce cada vez mais a procura por animais com genética britânica na composição, reconhecida mundialmente pela maciez e pelo padrão de carcaça. “O mercado hoje paga por qualidade. Os frigoríficos estão buscando cada vez mais animais que entreguem padrão de carcaça e maciez, e isso está diretamente ligado à genética britânica. Quando o produtor usa o Braford no cruzamento, ele aumenta a produtividade e consegue vender seus terneiros e bezerros com maior valor agregado”, atesta o presidente da ABHB.
Melhoramento acelera ganhos produtivos
O crescimento da raça também está associado ao investimento em genética. O programa de melhoramento conduzido pela associação fornece avaliações zootécnicas aos criadores, complementando a seleção visual tradicional. Além disso, a ampla disseminação da transferência de embriões e das fertilizações in vitro acelerou o ganho genético da raça nos últimos anos.

Foto: Divulgação/Fazenda Basso Pancote
Segundo o presidente da ABHB, a combinação de ferramentas reprodutivas e critérios técnicos de seleção elevou o padrão dos rebanhos e contribuiu para consolidar o Braford como alternativa tanto para produção de genética quanto para fornecimento de animais comerciais.
A estratégia se conecta diretamente ao mercado de carne certificada. O Programa Carne Certificada Braford, coordenado pela entidade, foi o primeiro do gênero no Brasil. A proposta é garantir ao consumidor a procedência e a padronização da carne identificada com a marca da raça. “Quando o consumidor reconhece que há certificação e padrão de qualidade dentro da embalagem, a demanda cresce. E isso vem se intensificando nos últimos anos”, salienta Soares.
Modelo de seleção no Rio Grande do Sul
Na prática, a evolução genética da raça pode ser observada em propriedades como a Fazenda Basso Pancotte, em Soledade (RS). O empreendimento iniciou as atividades em 2006, sob comando de Neide Basso e Jair Pancotte, com a proposta de construir um modelo de criação focado em alto desempenho.
De acordo com o médico-veterinário da fazenda, Daniel Borelli, o trabalho começou com a raça Angus e forte investimento em inseminação artificial e transferência de embriões. O desempenho em exposições como a Expointer e a Exposição de Uruguaiana consolidou o foco em melhoramento genético.
Com o tempo, o mercado passou a demandar animais mais adaptáveis a diferentes condições climáticas. Foi nesse contexto que a fazenda incorporou embriões de Brangus e Braford ao plantel. “Nos últimos 10 anos, o salto da raça Braford dentro da propriedade foi muito expressivo”, afirma Borelli.
Segundo ele, a procura por material genético cresceu à medida que os pecuaristas perceberam a versatilidade da raça. Hoje, a fazenda comemora resultados em exposições internacionais e a produção de animais comerciais destinados ao cruzamento industrial.
Manejo e adaptação
Por ser uma raça sintética, resultado da combinação de duas linhagens puras, o Braford herdou características que facilitam o manejo. “A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes”, ressalta Borelli.

Médico-veterinário da Fazenda Basso Pancotte, Daniel Borelli: “ A influência zebuína, com contribuição de raças como Brahman, Nelore e Tabapuã ao longo do processo seletivo, garante pelo fino e maior resistência a parasitas em regiões quentes” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural
Ele ainda destaca que o controle de carrapatos, por exemplo, tende a ser mais simples em comparação a raças exclusivamente britânicas. “A docilidade transmitida pelo Hereford também favorece a condução dos animais. Na Fazenda Basso Pancotte, o manejo é realizado a pé, sem registros de problemas de temperamento”, pontua.
A mobilidade do rebanho, aliada à fertilidade e à precocidade de carcaça, completa o conjunto de atributos que têm sustentado a expansão da raça. Para os criadores, se trata de um equilíbrio entre produtividade e adaptação às condições tropicais.
Com presença consolidada no Sul e avanço no Centro-Oeste e no Sudeste, o Braford se firmou como ferramenta estratégica tanto para programas de cruzamento quanto para atender a um mercado que paga mais por carne com origem e padrão definidos. A combinação entre genética, certificação e adaptação ambiental explica o momento favorável da raça no campo brasileiro.
Braford nasce da adaptação ao clima e ganha escala na pecuária brasileira
A formação da Braford no Brasil não foi resultado de um experimento isolado, mas de uma resposta técnica a um problema produtivo. Nos campos do Sul, criadores buscavam um bovino que mantivesse o padrão de carne europeu e, ao mesmo tempo, suportasse calor, radiação solar intensa e pressão de parasitas.
O ponto de partida foi o cruzamento entre Hereford e zebuínos. No fim da década de 1960, nasceram, em Rosário do Sul (RS), na Fazenda Santa Clara, de Rubem Silveira Vasconcelos, os primeiros animais oriundos do acasalamento entre Hereford e Tabapuã. Em Uruguaiana (RS), outros criadores utilizavam inseminação de vacas Hereford com Nelore. As iniciativas tinham motivações convergentes como rusticidade, pigmentação ocular e maior capacidade de adaptação sem abrir mão da qualidade da carcaça.
Inicialmente o resultado do cruzamento que deu origem à raça chegou a ser chamada de Pampiana, ajustado aos campos de basalto da fronteira Oeste gaúcha, onde o verão impõe temperaturas elevadas e luminosidade intensa. A consolidação técnica, porém, exigia padronização.
Foi no início dos anos 1980 que a Associação Brasileira de Hereford e Braford, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul, iniciou um trabalho de orientação aos criadores para unificar critérios de formação. Nesse momento, a raça passou a adotar o nome Braford, alinhado ao padrão internacional.
O reconhecimento oficial veio em duas etapas. Em 1993, o Ministério da Agricultura e Pecuária enquadrou a Braford como raça em formação. A oficialização definitiva ocorreu 10 anos depois, com a publicação da Portaria nº 587, de 05 de junho de 2003. A formalização, na prática, consolidou um processo que já estava sedimentado a campo.
A base genética mais difundida se tornou o chamado padrão Mercosul, com 3/8 de sangue zebuíno e 5/8 Hereford. A pelagem conhecida como ‘camiseta’ com corpo vermelho, cara branca e pigmentação ao redor dos olhos, se tornou identidade visual da raça e resposta objetiva à incidência solar.
Do zebuíno, a Braford incorporou rusticidade e resistência a ectoparasitas. Do Hereford, herdou fertilidade, habilidade materna, temperamento e qualidade de carne. A síntese se traduz em carcaças com boa cobertura de gordura e marmoreio, atributo diretamente associado à maciez.
Em sistemas intensivos ou em confinamento, os animais podem ser abatidos entre 14 e 18 meses, com pesos que variam de 380 a 480 quilos, dependendo do manejo alimentar. A precocidade ampliou o uso da raça também no cruzamento industrial, estratégia que impulsionou sua presença para além do Sul.
Hoje, a Associação Brasileira de Hereford e Braford é a certificadora exclusiva de reprodutores e matrizes Braford no país, mantendo controle genealógico e diretrizes de seleção. A raça está distribuída em diferentes regiões brasileiras e avança em mercados externos, sustentando a reputação de carne de qualidade associada à adaptabilidade.
A trajetória da Braford evidencia um movimento clássico da pecuária nacional: a partir da necessidade ambiental, estruturar tecnicamente a solução e, por fim, institucionalizar o modelo produtivo. O que começou como ajuste genético regional tornou-se um ativo estratégico na bovinocultura de corte brasileira.
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