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Suínos / Peixes Manejo

O frio intenso atinge os peixes?

Se a temperatura da água estiver fora da faixa de tolerância da espécie os peixes irão alterar seu comportamento, na tentativa de sobreviverem

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Artigo escrito por Luís Antônio Kioshi Aoki Inoue e Tarcila Souza de Castro Silva, pesquisadores da Embrapa Agropecuária Oeste

Ondas de frio têm chegado no Brasil, com registros de temperaturas negativas. Para os agricultores, a preocupação é se houve danos nas lavouras de milho safrinha. E para pecuaristas, se a pastagem foi afetada. Com a piscicultura não é diferente, pois os peixes são animais que não regulam sua temperatura corporal. Ela varia de acordo com a temperatura da água. Assim, se a temperatura da água estiver fora da faixa de tolerância da espécie, que pode variar entre 16 oC a 30 oC, os peixes irão alterar seu comportamento, na tentativa de sobreviverem. Porém, se as condições do ambiente forem críticas, o resultado será a morte de animais.

As espécies de peixes mais produzidas pela piscicultura no Brasil são a tilápia, o tambaqui, os híbridos de peixes redondos e os híbridos de bagres. Cada região apresenta características climáticas particulares que favorecem ou não a criação de cada grupo de peixes. De maneira geral, regiões do Norte, Nordeste e parte do Centro-Oeste apresentam temperaturas relativamente elevadas e constantes durante os 12 meses do ano, o que permite o crescimento ininterrupto dos animais.

Condições de inverno, como as observadas nas regiões Sul, Sudeste e parte da Centro-Oeste, prejudicam o crescimento dos peixes. Com temperaturas da água mais baixas, os animais se alimentam menos e, consequentemente, crescem menos. Além disso, a amplitude térmica, em um único dia, pode ser de 20 oC, por exemplo. Essa variação também é observada na água, em menor escala, mas suficiente para prejudicar o bem-estar dos animais. De maneira geral, o estado de saúde dos peixes é caracterizado pelo equilíbrio dos fatores: o próprio peixe, o ambiente e os patógenos. Nestas situações de estresse, é comum os animais apresentarem parasitos e até bacterioses, necessitando, assim, da intervenção de um técnico.

Os problemas mais frequentes durante as épocas frias nas unidades de piscicultura são a diminuição no consumo de ração pelos peixes e as mudanças de comportamento As mudanças comportamentais mais preocupantes são as que levam os peixes a ficarem na superfície “boquejando” e/ou à letargia, caracterizada por falta de reação de fuga quando estimulados por atos como bater palmas ou jogar uma pequena pedra na água.

As formas mais comuns para evitar os problemas do frio nas unidades de piscicultura são o aumento do volume de água nos tanques e não deixar a água muito transparente. A maior profundidade impede mudanças bruscas de temperatura; e a menor transparência reduz a perda de calor para o ambiente, além de proteger os peixes contra as queimaduras, que podem ocorrer quando o sol estiver muito intenso. Refúgios com plantas, como aguapés, podem ser feitos. Para criações de peixes em tanques-rede, em reservatórios de lagos e rios com águas muito transparentes, é necessário colocar sombrite.

O peixe procurará o local com melhor conforto térmico. Todo manejo dos tanques deve ser feito para evitar mudanças bruscas de temperatura. Por isso, deve-se regular a vazão da água de abastecimento, porque geralmente essa água é mais fria que a dos tanques. Algumas espécies podem não ser recomendadas para certas regiões por razões das ondas de frio, especialmente espécies oriundas de lugares quentes.

Para prevenir esses problemas, é importante fazer o planejamento da criação, desde a construção dos tanques, a escolha da espécie adequada para a região, até o manejo ideal (densidade, quantidade e qualidade de ração fornecida, manutenção da qualidade de água, etc.). Em todos os casos, o indicado é interromper a alimentação e o manejo dos peixes nos dias de frio mais intenso, como os típicos dias de geada. Assim, a tendência é que resistam e voltem gradativamente à normalidade.

Fonte: Embrapa
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Suínos / Peixes Saúde Animal

Lawsonia intracellularis: um inimigo que pode estar oculto

Medidas de prevenção são extremamente importantes para garantir o sucesso da produção

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Artigo escrito por Luciana Fiorin Hernig, médica veterinária e coordenadora Técnica da Boehringer Ingelheim

A Lawsonia intracellularis é o agente causador da ileíte ou enterite proliferativa suína. É comum associarmos este agente apenas aos casos da doença nos quais encontramos animais pálidos, com diarreia sanguinolenta (Imagem 1) e alta mortalidade. Entretanto, sabe-se que Lawsonia está disseminada pelas granjas, principalmente nas fases de crescimento e terminação.

Então, será que estamos deixando de contabilizar os prejuízos gerados, principalmente nos casos em que não há diarreia com sangue a alta mortalidade? Quando acompanhamos um lote desuniforme, com fezes amolecidas apenas (Imagem 2), associamos automaticamente a outras causas, como problemas com a qualidade da ração, ambiência etc. Entretanto, estes são também sinais clínicos da forma crônica da ileíte, mas que nem sempre é investigada. Além disso, quando a ileíte se manifesta na forma subclínica, pode haver perda do desempenho zootécnico dos suínos, como piora na conversão alimentar e redução no ganho de peso diário, levando a desuniformidade do lote, o que causa prejuízos financeiros. Nestes casos, os animais infectados ainda são fonte de disseminação do agente.

Os estudos já mostraram que a Lawsonia intracellularis é um agente altamente prevalente nas granjas no mundo, podendo ser encontrada entre 90 e 100% dessas no Brasil. A bactéria é excretada nas fezes dos suínos, contaminando o ambiente e pode ser facilmente disseminada através das botas, lâmina d’água, presença de fezes nos bebedouros/comedouros, roedores, moscas etc.

Normalmente, o uso de antimicrobianos na ração e/ou via água de bebida é a estratégia adotada para controle da Lawosnia nas granjas, porém esta tática não elimina o agente completamente do ambiente. Tem-se, portanto, o risco de infecção dos animais e, muitas vezes, casos de ileíte aguda na janela de retirada de antimicrobianos pré-abate, com altas perdas. Além disso, pode haver casos da doença nas formas crônica e subclínica que nem são diagnosticados ao longo das fases de crescimento e terminação.

Neste sentido, há ainda um fator importante a ser considerado, que é a busca pelo uso prudente de antimicrobianos na suinocultura. Associado a essa redução no número e quantidade de moléculas utilizadas, principalmente como preventivo, alguns patógenos que pareciam inexistentes na granja, “reaparecem” ou “são descobertos”, como é o caso da Lawsonia, e causam ainda mais perdas.

A identificação da Lawsonia na granja pode ser facilmente investigada através da análise laboratorial de fezes e sangue, identificando assim a quantidade desta bactéria que está sendo excretada (PCR quantitativo das fezes), pois há trabalhos mostrando que cargas acima de 104 de Lawsonia por grama de fezes já estão associadas a lesões no intestino. Além disso, coleta-se sangue para verificar em qual fase os suínos apresentam anticorpos contra a bactéria (sorologia). Desta forma, é possível conhecer a dinâmica do agente na realidade de cada propriedade e adequar as melhores ferramentas para redução da pressão de infecção.

Tendo em vista que a Lawsonia está presente nas granjas e causa prejuízos ao desempenho dos animais, e, por consequência, financeiras, as medidas preventivas têm ganhado força nos sistemas de produção. Além da biosseguridade, uma ferramenta de extrema importância no processo de prevenção que se destaca neste sentido é o uso de vacina. Contudo, formular um protocolo de vacinação com sucesso é um trabalho que exige conhecimento, pesquisa de agentes e clareza sobre os produtos disponíveis no mercado.

No caso da Lawsonia intracellularis, já existe vacina com tecnologia para ser fornecida por via oral que se assemelha a infecção natural pela bactéria, induz uma imunidade robusta sem causar a doença. Além disso, a vacina via oral respeita o bem-estar dos animais, pois não provoca reações adversas locais (edema no local da aplicação, por exemplo) e/sou sistêmicas (febre). Desta forma, os animais conseguem manter seu comportamento natural, tendo em vista que não ficam abatidos, nem reduzem consumo de ração, e podem expressar todo seu potencial zootécnico. Há ainda o benefício ao bem-estar dos humanos, pela facilidade de aplicação, que pode ser individual, na caixa d’água (Imagem 3), dosador, ração líquida ou até sobre a ração seca (Imagem 4).

Sabe-se ainda que a Lawsonia causa danos aos enterócitos (células do intestino) e pode estar acompanhada de outros patógenos como a Salmonella, causando consequências ainda maiores. Por isso, optar por uma vacina que além de proteger para Lawsonia, já tenha reconhecidamente estudo provando a redução da excreção de Salmonella também é uma ótima opção para proteção do rebanho.

Considerando-se, portanto, que a Lawsonia intracellularis é um agente que está presente na maioria das granjas e que este agente pode causar perdas expressivas no desempenho dos suínos, as medidas de prevenção são extremamente importantes para garantir o sucesso da produção. O uso de antimicrobianos não garante que o suíno não vá se infectar e sofrer perdas no seu desempenho. Por isso, a melhor opção é associar as medidas de biosseguridade à utilização de uma vacina que seja prática, segura e respeite o bem-estar, para imunizar e proteger os animais.

Outas notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Transparência nas relações

Cadecs conquistam avanços, mas devem combater a “caixa preta”, destaca consultor da ABCS

Iuri Pinheiro Machado destaca importância de soluções rápidas e bilaterais toda vez que as questões envolverem a rentabilidade do homem do campo

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Arquivo/OP Rural

O jornal O Presente Rural conversou com o médico veterinário e consultor de Mercado da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Iuri Pinheiro Machado, para falar sobre a evolução da relação entre integrados e integradoras após cinco anos da sanção da lei que regula o setor. Ele destaca que alguns pontos são fundamentais para que as Cadecs sejam bem sucedidas: “simetria de informações entre integradoras e integrados, transparência das fórmulas de remuneração e critérios técnicos e econômicos (sem “caixa preta”), respeito à representatividade, ética e profissionalismo na relação entre as partes, além de decisões coerentes baseadas em critérios técnicos e econômicos”.

Iuri Pinheiro Machado destaca ainda a importância de soluções rápidas e bilaterais toda vez que as questões envolverem a rentabilidade do homem do campo. “A Cadec não pode procrastinar decisões e respostas às demandas, pois ela tem que ser um local de resolução, com consenso entre as partes. As decisões que interferem diretamente na rentabilidade do integrado não podem ser unilaterais”, frisa o consultor da ABCS. Leia a matéria na sequência.

O Presente Rural – Porque criar uma lei para balizar a relação de produtores e integradoras?

Iuri Pinheiro Machado – Em primeiro lugar é preciso saber porque foi criada a lei de integração. Até então o sistema de integração não era regido por nenhuma lei específica. Existia um questionamento muitas vezes da relação entre integrado e indústria por parte dos órgãos jurídicos. Era uma relação que a princípio seria regida pelo Código Civil, mas o Código Civil não previa esse tipo de parceria comercial. O fato é que a lei integração veio para estabelecer um marco legal importante, mostrando que é uma relação comercial de fidelização entre as partes, porque o produtor ajuda a fornecer a matéria-prima para a indústria, que é o frango e o suíno, no caso das integrações de frangos e suínos, e estabelece algumas regras nessa relação, como também itens indispensáveis para um contrato de integração. Ao mesmo tempo, cria alguns órgãos, como o Funiagro e as Cadecs.

O Presente Rural – Quais as principais dificuldades na relação integrado/agroindústria antes da lei 13.288/2016 e qual a avaliação do senhor após cinco anos da sansão dessa lei, que estabelece regras para a relação contratual entre as partes?

Iuri Pinheiro Machado – Existia até uma interpretação da justiça em relação a essa integração de que poderia haver (se interpretou em alguns momentos), que poderia até ter vínculo trabalhista entre produtor e indústria, o que que obviamente não faz qualquer sentido, mas como não havia uma lei específica, isso chegou a ser interpretado por alguns juízes, pelo Ministério Público em algumas regiões. Isso do ponto de vista legal.

Do ponto de vista prático, as decisões ficavam praticamente todas nas mãos da indústria. As decisões acabam sendo unilaterais. A grande contribuição da lei de integração é que as decisões precisam ter consenso dentro do órgão principal da lei, que é a Cadec, que trouxe a possibilidade de maior simetria nas decisões e na gestão dos contratos de integração.

O Presente Rural – Como o surgimento de Cadecs impactou na produção de suínos? Quais os benefícios das Cadecs para produtores e agroindústrias?

Iuri Pinheiro Machado – As Cadecs são a principal contribuição da lei de integração. Impactam no sentido de que todas as decisões importantes em relação ao contrato de integração, em relação à forma de pagamento, em relação às questões técnicas, devem ser discutidas dentro das Cadecs e as decisões finais devem ser consenso entre as partes. O grande benefício é que isso trouxe mais força para o produtor na relação com a integradora, exatamente porque as decisões não podem ser tomadas de forma unilateral.

Outra questão importante é que as decisões da Cadec registradas nas atas podem ser consideradas como aditivos contratuais, então podem ter alterações ou evoluções na relação contratual através de decisões consensadas na Cadec. Isso também é ponto fundamental para que a gente tenha melhora na dinâmica dessa relação entre integrado e integradora.

O Presente Rural – A lei 13.288 deu mais garantias jurídicas às partes?

Iuri Pinheiro Machado – Sem dúvida a lei trouxe mais segurança jurídica às partes. É claro que, como a lei já tem cinco anos e nunca foi alterada, ela demonstra algumas omissões que talvez tenham que ser revisadas nos próximos anos. Mas sem dúvida trouxe garantia maior nessa relação.

O Presente Rural – A relação entre as partes envolvidas melhorou?

Iuri Pinheiro Machado – Eu diria que sim. A gente começa observar que houve mudança no nível de discussão entre produtores e integradoras. Os produtores, com as Cadecs, se obrigaram a se organizar melhor dentro de suas associações, sindicatos e federações por que a Cadec trouxe maior protagonismo para os produtores. E nesse sentido, contratar assessorias técnicas e jurídicas, juntar dados de cada integração para poder ter base para discussões técnicas e econômicas dentro das Cadecs. Sem dúvida isso fez com que houvesse até mesmo evolução no associativismo entre produtores.

O Presente Rural – Há ainda pontos a serem melhorados nessa relação de produtores e integradoras? Quais e como alcança-los?

Irui Pinheiro Machado – Sem dúvida há pontos, sim, a melhorar. Um deles é justamente a questão do acesso das Cadecs a informações de resultados de lotes, os borderôs como a gente chama, ou reconhecidos na lei como Ripi, que são matéria-prima da Cadec. Para ter um funcionamento efetivo, ela precisa ter 100% de acesso aos Ripis. Esse é um ponto em que ambas as partes, especialmente a indústria, que detém a integração, devem envidar esforços para que se tenha acessão a 100% dos Ripis. Isso dá transparência ao processo, dá segurança também no estabelecimento de parâmetros de produtividade, técnicos e econômicos.

É preciso entender que no sistema de integração o produtor também tem que ter prevista a sua receita, a sua renda, tem que ter garantida a sua renda. Também a questão dos custos que são estimados devem refletir a realidade do campo. São dois pontos importantes. Essa questão do levantamento de custos, que deve ser muito bem estruturada dentro da Cadec através de levantamentos consistentes, com custos reais da produção, e também a questão da renda do produtor, que deve ser proporcional ao capital que investiu e a todo esforço que ele faz na gestão do seu negócio.

O Presente Rural – Em maio deste ano o Fórum Nacional de Integração (Foniagro) publicou o Manual de Boas Práticas para as Comissões de Acompanhamento, Desenvolvimento e Conciliação da Integração (Cadecs). Qual o objetivo?

Iuri Pinheiro Machado – Nós recentemente publicamos o Manual de Boas Práticas para as Cadecs, que foi elaborado a várias mãos, junto com representantes da indústria e produtores. Esse manual não somente extraiu da lei os pontos principais em relação a como deve operar uma Cadec, mas traz alguns consensos entre indústrias e produtores que não são especificados na lei. É importante que todos produtores tenham conhecimento desse Manual de Boas Práticas para as Cadecs, que com certeza vai ajudar na evolução dessa relação.

O Presente Rural – O mundo atual exige aperfeiçoamos constantes, seja na implantação de tecnologias ou outras questões. Nesse cenário, como estão as Cadecs?

Iuri Pinheiro Machado – Toda nova tecnologia exige investimentos e essas tecnologias devem, sim, ser discutidas dentro das Cadecs, observando qual o valor do investimento e o retorno que esse investimento vai dar no processo. O grande beneficiário do retorno desse investimento com certeza vai ser a indústria, seja na melhoria na eficiência de produção, seja na melhoria da qualidade do produto, que é o suíno e o frango, mas que o produtor é o investidor. Normalmente o investimento está sendo feito na propriedade do integrado, e obviamente ele tem que ter retorno desse capital investido. São pontos que devem ser discutidos e clareados nas Cadecs.

O Presente Rural – Antes você abordou o tema caixa preta, referindo-se à dificuldade que produtores de algumas Cadecs teriam de acessar as informações da agroindústria. Fale mais sobre o assunto.

Iuri Pinheiro Machado – Um ponto muito importante na relação de integradora e integrado é a transparência. E essa transparência vem através de alguns fatores, entre eles o levantamento dos custos reais, que devem espelhar a realidade do campo e que vão compor a remuneração do produtor, a questão de como são levantados os dados a partir dos Ripis, do histórico da integração e também os cálculos para fazer o cruzamento entre índices zootécnicos e os pontos relacionados à remuneração do produtor propriamente dita. Todos esses pontos devem ser compreensíveis por parte do produtor. A gente tem que eliminar o que a gente chama de caixa preta, que alguns não conseguem ter aceso e não conseguem compreender como funciona a remuneração. E a remuneração não poder ser uma surpresa. O produtor entregou o lote de animais, tendo de posse os índices de conversão alimentar, ganho de peso, mortalidade, peso final e todos os demais índices inerentes àquela atividade, deve ter compreensão de quanto vai receber, baseado em critérios claros e discutidos sobre questões técnicas e econômicas dentro da Cadec.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2021 ou online.

 

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Custos de produção

Suinocultores brasileiros têm prejuízos que chegam a R$ 300 por animal

O Presente Rural ouviu com exclusividade algumas das principais lideranças para saber como está a situação nas regiões e o que esperar para próximos meses

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Arquivo/OP Rural

Os custos de produção da suinocultura estão assustando produtores de todas as regiões do país. O Presente Rural ouviu com exclusividade algumas das principais lideranças para saber como está a situação nas suas regiões e o que esperar para os próximos meses. Prejuízos passam fácil de R$ 100 por animal nos estados, chegando a R$ 300 no Paraná. E a situação para os próximos meses não é nada boa.

Minas Gerais

João Carlos Bretas Leite, presidente da Associação dos Suinocultores do Estado de Minas Gerais (Asemg), “os próximos meses vão ser desafiadores porque as perspectivas continuam ruins. E a gente não vê perspectiva de aumento no preço do suíno, nem na baixa no preço do milho ou do farelo de soja”. E completa: Devemos continuar com prejuízo até o fim do ano”.

O presidente quantifica esses prejuízos. “Nossos custos de produção giram em torno de R$ 7 a R$ 7,50 o quilo. Como estamos vendendo para receber líquido cerca de R$ 6,60, estamos com prejuízo de quase R$ 1 por quilo de suíno produzido”.

Ele destaca que os custos começaram subir muito desde o segundo semestre de 2020 e que alguns fatores contribuíram para chegar a esse cenário, além do preço dos insumos para as dietas dos animais. “Baixa produção, muita exportação de grãos, estoques mundiais de soja baixando, a nossa inflação, entre outras situações, contribuíram para esse aumento nos custos”, destaca o presidente da Asemg.

Rio Grande do Sul

A situação é a mesma no Rio Grande do Sul, onde a quebra da safra 20/21 só piorou o cenário. “Realmente os custos de produção estão nas alturas. Se fizermos uma pequena retrospectiva, começando pelo mês de julho de 2020, tínhamos milho em torno de R$ 50 a saca e o farelo de soja a R$ 1,6 mil a tonelada. Hoje falamos do preço do milho a cerca de R$ 100 e o farelo de soja em R$ 2,3 mil. O milho praticamente dobrou de preço e o farelo subiu ente 30 e 40%. Saímos de custo de produção em julho de 2020 de cerca de R$ 4,50 o quilo para algo em torno de R$ 7,30 a R$ 7,50 o quilo hoje em dia”, evidencia o presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs), Valdecir Folador.

“Realmente é um desafio, tudo vem por conta da alimentação dos animais, por conta de questões climáticas que quebraram a safra do Rio Grande do Sul. A safra 2020/21 teve quebra de quase 50%. Isso puxou o preço do milho para cima, aliado a forte demanda pelo cereal, tanto no mercado interno quanto externo. O produtor está tendo que se virar nos 30. Alguns tinham estoque de milho com preço mais baixo. Mas a partir de agora o que se adquirir vai ser o preço que temos hoje. Por outro lado o preço do suíno não reage. Tínhamos uma perspectiva positiva para o segundo semestre, mas houve recuo, mesmo com exportações maiores que ano passado”, explica o presidente da Acsurs.

De acordo com ele, não fossem as exportações, especialmente para a China, que compra cerca de 50% de toda a exportação brasileira, a situação seria insustentável. “Nossa produção cresce ano a ano cerca de 3 a 4% e precisamos colocar essa carne no mercado. Se não fossem as exportações para a China, o setor suinícola estaria em uma crise sem precedentes”, pontua Folador.

O presidente da Acsurs explica que o consumo está bom, mas os preços estão baixos. “O consumo interno não está ruim. A população brasileira vê a carne suína como alternativa ao preço da carne bovina, que está cara. Mas o preço pago na carne suína não reage”, aponta.

Para ele, a situação só vai melhorar com a entrada de uma boa safra no inverno e o plantio da safra de milho no verão. “Temos que aguardar agora, a partir de agosto, para ver o que vai acontecer, se o mercado vai ter força de reação, se vai aumentar volume e preço da carne suína exportada. Sobre 2022 é cedo para fazer uma previsão, mas posso visualizar que vamos entrar o ano novo com custo de produção alto, não vai ter refresco, ao que tudo indica. Temos que aguardar o que vai acontecer com plantio da primeira safra de milho a partir de agosto/setembro, principalmente no Rio Grande do Sul, que não tem segunda safra. E aguardar para ver como o clima vai se comportar. Se o clima favorecer e tivermos mais oferta de milho e soja, consequentemente pode cair o custo de produção das carnes”, destaca, ampliando: “o momento é bem complicado para o suinocultor gaúcho e brasileiro, sem margem de rentabilidade”.

Santa Catarina

Os produtores de Santa Catarina, detentores da maior suinocultura do país, amargam prejuízos que chegam a R$ 270 por animal, como explica o presidente da Associação Catarinense dos Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi. “Os custos estão muito altos. A gente fala do milho, mas não é só isso. O farelo de soja, as vacinas, tudo é baseado em dólar. Conforme o dólar sobe, os insumos também sobem. E quando o dólar cai os custos continuam lá em cima”, destaca.

Para o presidente da ACCS, os produtores estão nas mãos do mercado, sem poder de reação. “Os suinocultores têm que vender porque não dá para estocar dentro da granja. Temos que vender pelo preço que o mercado está ofertando nesse momento. Hoje temos um custo de R$ 8 ou mais, dependendo da região e produtividade da granja, e comercializando a R$ 6,30. Dá para ter uma noção do prejuízo, que chega a R$ 270 por animal”, revela. “Até quando vamos conseguir manter nossa atividade com tamanho prejuízo? Não há esperança de melhora tão logo na questão dos custos, pois as safras foram ruins. Embora as exportações não estejam estão elevadas, o produtor de grãos está capitalizado, não oferta milho ao mercado, mantendo o preço em alta”, amplia.

Os produtores independentes estão tendo prejuízos, mas a dificuldade com os custos chega também a quem é integrado. O independente não está tendo lucro, mas a gente observa que no modelo de integração ou cooperativismo, o produtor não está conseguindo se manter. Há uma reclamação generalizada quando se fala nesses modelos integrados. Por mais que se tenha garantia de receber o acordado em contrato, o produtor não consegue ter sobra para fazer adequações e mudanças dentro da propriedade rural. E são altos e vários investimentos que precisam ser feitos dentro da propriedade para se adequar às normas, como bem-estar animal, por exemplo. Há um prejuízo também dentro desses modelos de integração e cooperativismo”, pontua Losivanio.

Para ele, esse cenário de custos elevados deve perdurar por muitos meses ainda. “Não está sendo um ano fácil e a gente não sabe nem quanto nem como recuperar esse prejuízo já acumulado. Enquanto não tiver safra promissora, e ajuda do governo para zerar tributos, como estamos pedindo do PIS e Cofins para importar milho do Paraguai e Argentina, mas que até agora não fomos atendidos, a gente não vê perspectiva de lucro tão rápido dentro da propriedade rural. Os custos tendem a se manter porque a gente não tem estoque regulador na Conab, não temos previsão de safra agradável. A perspectiva para 2022 não é das melhores quando se fala em custos. Tudo isso vai continuar por dois ou três anos”, lamenta o presidente da ACCS.

Para ele, outros dois pontos merecem atenção: a concorrência das usinas de produção de etanol com milho e a biosseguridade que, se arruinada, poderia causar uma catástrofe na suinocultura brasileira. “Observando outro horizonte, sabemos que o milho está indo para dentro do tanque de combustível. É uma preocupação forte que temos. Há hoje disputa de milho para produzir proteína animal e etanol. Mas friso que o maior desafio que temos é manter a sanidade dos planteis. O alerta é para os produtores isolarem a propriedade, não deixar ninguém entrar. Só quem dá assistência técnica, mesmo assim respeitando todos os requisitos sanitários para garantir a sanidade daquela propriedade. Se chegar uma peste em nosso país, vamos perder exportações e o caos será instalado dentro da propriedade rural e do país”, frisa.

Mato Grosso

O cenário se repete mesmo no Estado de Mato Grosso, maior produz de milho do país, responsável por mais de 30% de todo milho do Brasil, segundo a Conab. A Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat), alerta para um cenário preocupante. “Nós produtores rurais, pecuaristas, temos a preocupação em relação ao futuro da atividade, pois com os custos de produção elevados, a proteína tende a ficar ainda mais cara para o consumidor. Neste caminho, a proteína animal, um dos principais alimentos do ser humano, vai ficar cada vez mais escassa na mesa do brasileiro. Se não houver um recuo no custo de produção em alguns meses o preço irá disparar nos supermercados e cada vez menos pessoas terão condições de comprar”, destaca o presidente da entidade, Itamar Antônio Canossa.

Apesar dos custos mais baixos em relação a outras regiões produtoras por conta da maior oferta de milho, o produtor já começou a trabalhar no vermelho. “O custo de produção hoje na suinocultura mato-grossense é de aproximadamente R$ 5,50 por quilo produzido, hoje estamos trabalhando sem margem de lucro, e no nos últimos dias do mês (julho) trabalhamos no prejuízo, pois o poder de compra do consumidor diminui e consequentemente o consumo de carne também, o que derruba o preço pago ao suinocultor”, destaca.

Canossa explica que o custo de produção na suinocultura se baseia praticamente no preço da ração, que é composta em sua maioria pelo milho e farelo de soja, que foram os que tiveram um aumento significativo nos últimos meses. “Há dois anos a ração era responsável por 70% do nosso custo de produção, hoje ela é responsável por 80% dos custos na suinocultura. Os outros componentes do custo seguem com pouca variação de preços. O milho e a soja, principais componentes da ração, subiram muito de preço. Essas commodities estão muito valorizadas, principalmente aqui no Brasil, já as vitaminas, minerais, enzimas, ácidos e aminoácidos que completam a alimentação dos suínos são comprados em dólar, e normalmente importados, logo, também tiveram aumento dos preços”, menciona.

Para ele, os custos elevados devem permanecer durante meses ainda, mas o produtor tem que se preocupar ainda com o consumo. “A perspectiva dos suinocultores é de pelo menos até o próximo ano os custos de produção permaneçam elevados, pois o dólar continua valorizado e com poucas oscilações, o milho com uma quebra razoável de safra e com muita demanda, vai permanecer com custo alto, assim como a soja, que não demonstra recuo nos valores para os próximos meses. Em contrapartida o preço de venda do suinocultor é uma incógnita, pois depende muito do poder de compra do consumidor e do consumo”.

Sem muito a fazer em relação ao mercado, Canossa explica que o produtor deve se atentar a melhorar seus índices de produtividade. “Não vejo muitas oportunidades na questão da suinocultura ou até mesmo na cadeia da proteína animal, pois quando a combinação de custo elevado de produção e preço de venda dessa proteína por um preço que flutua pela demanda e oferta, não enxergamos muitas oportunidades para se investir na área e ampliar a produção. Temos que melhorar nossos índices para sermos mais eficientes e diminuir o custo de produção dentro da granja. A saída é essa, melhorar nosso índice de produtividade na própria granja para diminuir os custos fixos, para que a atividade seja no mínimo viável”, frisa. O dirigente da Acrismat destaca que algumas propriedades podem deixar de produzir caso algo não mude nos próximos meses. “Com o atual cenário, as previsões não são das melhores, pois com o produtor trabalhando no prejuízo, a tendência é que a atividade diminua ou até mesmo acabe”, pontua.

Ele cita que até mesmo produtores integrados não estão escapando da fúria do mercado. “As mesmas questões que preocupam o suinocultor independente preocupam também o suinocultor integrado. Na questão do integrado existe o apoio da empresa, mas também há limites, pois as empresas também trabalham com margens de lucro, e chega uma hora que ela terá que repassar também para o seu integrado. Já temos a confirmação de suinocultores integrados também trabalhando sem margem de lucro, isso já acontece aqui em Mato Grosso, e também em alguns casos lá em Santa Catarina”, acrescenta Canossa.

Paraná

No Paraná, a Associação Paranaense dos Suinocultores (APS) tem registrado prejuízo de R$ 300 por animal entregue para o abate. “A suinocultura prossegue com situações recorrentes nos últimos anos, alternando períodos de altos e baixos, com margens positivas e negativas, muito embora na maior parte do tempo o produtor tem sofrido com o esmagamento das margens, e isso ocorre tanto no mercado independente quanto no sistema de integração. Os custos de produção têm pesado bastante, com sucessivas altas nos seus componentes, enquanto o preço pago ao produtor está bem aquém das margens de lucro verificadas em outras fases da cadeia, incluindo o varejo. O consumo permanece numa fase crescente, com maior aceitação por parte do consumidor, que por sua vez já reconheceu os benefícios do consumo da carne suína como fonte de proteína animal. Enquanto isso, nas granjas há cada vez mais investimentos em tecnificação, bem-estar animal e em biosseguridade, garantindo maior sanidade animal possível. Se olharmos os números mais recentes, no caso do mercado independente, o prejuízo tem chegado à casa dos R$ 300, pois enquanto o preço pago em média por quilo ao produtor gira em torno dos R$ 6,50, o custo de produção por quilo está em torno de R$ 9. É muita diferença, e em palavras simples, o produtor está pagando para criar seus animais e ofertá-los ao mercado. Isso se dá em um verdadeiro contrassenso ao que acontece no mercado mundial de carnes, que está aquecido desde que a China passou a comprar mais, em razão da PSA em seu plantel. Esse fato elevou grandemente as exportações brasileiras. O mercado interno já deveria estar mais favorável ao produtor e o varejo mantém o preço com boas margens”, cita o presidente da APS, Jacir Dariva.

“Os custos de produção sempre estiveram alto e desafiando o produtor, mas passaram a aumentar ainda mais quando o preço da soja e do milho dispararam nas safras passadas, já que são os principais componentes da ração animal. Somam-se a isso o aumento dos demais insumos, com muitos itens de consumo regular nas granjas com altas elevadas. Houve casos de 100% e até mesmo de 200%. Os insumos alimentares impactaram diretamente no custo de produção da atividade, pois na composição dos custos variáveis, a ração é o principal componente de custos na suinocultura. No Sudoeste do Paraná, por exemplo, os gastos com ração representam mais de 60% na maioria das modalidades analisadas pelo recente levantamento de custos de produção realizado do Sistema Faep/Senar-PR. Mas há também outras questões nas granjas que preocupam os produtores do sistema de integração, como a depreciação de equipamentos e edificações e, ainda, a remuneração do capital investido na atividade. Essas questões compõem a pauta de negociação com a agroindústria integradora”, amplia Dariva.

O presidente cita, no entanto, que é preciso acreditar na atividade, mesmo que seja a partir de 2022, destacando a nova condição sanitária do Paraná, segundo maior produtor do Brasil. “Apesar desse quadro de coisas, tanto na suinocultura pelo sistema de integração, quanto no mercado independente, a cadeia se mantém otimista em relação aos próximos anos, diante do recente reconhecimento do Paraná como área livre de febre aftosa sem vacinação e de Peste Suína Clássica (PSC) pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE). O novo status sanitário do Paraná promete a abertura de novos mercados para o estado, que remuneram melhor pela carne suína que produzimos com base nas melhores condições de segurança alimentar e de biosseguridade. Isso sem contar que a Peste Suína Africana na China deve continuar repercutindo nas importações daquele país, que vão continuar aquecidas ainda por um bom tempo”, menciona o dirigente.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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CONBRASUL/ASGAV

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