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Fórum de Fertilizantes de Matriz Orgânica encerra programação
Adoção de tecnologia, Plano Nacional de Fertilizantes e potencial de mercado nortearam as discussões do segundo dia do evento promovido pela Abisolo.

O 1º Fórum de Fertilizantes da Matriz Orgânica foi realizado pela Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo) nos dias 08 e 09 de novembro, em Piracicaba (SP), mobilizando mais de 700 congressistas e as principais empresas do setor. No último dia do evento, a programação contou com três painéis, dedicados aos temas “Adoção de tecnologia”, “O Plano Nacional de Fertilizantes” e “Potencial de Mercado”.

Zootecnista e especialista em forragicultura e Gases de Efeito Estufa (GEE), Fernando Ongaratto – Fotos: Pecege e Chiaro Filmes
Começando pelo painel 3, coube ao zootecnista e especialista em forragicultura e Gases de Efeito Estufa (GEE), Fernando Ongaratto, a abertura da programação. Abordando “Crédito de Carbono a partir da Utilização de Matéria Orgânica”, Ongaratto detalhou o trabalho para mitigar a pegada de carbono na pecuária de corte, a partir de análises dos mercados brasileiro internacional. De acordo com o palestrante, ao adotar a pecuária de corte combinada ao confinamento, é possível reduzir em 40% a emissão dos GEE, como Dióxido de Carbono (CO2), Metano (CH4) e Óxido Nitroso (N2O). Todo o cálculo das emissões passa por pelo menos seis etapas, que incluem desde o mapeamento da pegada até a compostagem no solo usando o esterco do gado e número de pessoas alimentadas pelo rebanho.
Como caso de sucesso, ele destacou o segundo ano de mensuração das variáveis ambientais em uma fazenda com sistema de criação, onde o valor médio da pegada de carbono era de 40 CO2 equivalentes por quilo de carne. A partir das práticas de manejo de pastagens, uso da compostagem, entre outras, a pegada caiu para 16,7 em 2022/2023, produzindo carne para 30 mil pessoas, no município de Itiquira (MT). No ciclo 2023/2024, a expectativa é de que o indicador de seja de 14,2. Ongaratto reforçou que o processo de quantificação dos teores de carbono no solo e o pagamento pelos créditos gerados são feitos pela Agro Carbon Alliance.
Fertilizantes de matriz orgânica na cultura da cana-de-açúcar
Em seguida, o painel 3 recebeu a palestra “Benefícios Indiretos da Utilização de Fertilizantes de Matriz Orgânica na Cultura da Cana-de-Açúcar”, ministrada pelo gestor de projetos do Pecege, Haroldo Torres. Apoiado nos pilares economia circular, mercado sucroenergético e a aplicação de vinhaça biodigerida, Torres detalhou a aplicação do bagaço e da palha na produção de etanol de segunda geração e na produção de biogás para gerar eletricidade, biometano e fertilizantes. Ele também explicou como a torta de filtro e a vinhaça são usadas como adubos orgânicos.
Quando se fala de fertilizantes de matriz orgânica, a economia circular está diretamente ligada ao agronegócio, de acordo com Torres. Por isso, ao tratar do mercado, ele recordou a alta dos fertilizantes em 2022, quando o Brasil registrou os maiores preços na importação desse insumo, com uma alta de 229%, em comparação a 2021, o que abriu oportunidades para outras fontes como a cama e esterco aviários e o esterco bovino, que ficaram mais valorizadas no mercado nacional.
No terceiro pilar relacionado à aplicação de vinhaça biodigerida, Torres trouxe um estudo envolvendo 61 usinas, que reduziram o consumo de fertilizantes sintéticos, ao longo de dois anos. De acordo com ele, houve redução no consumo de potássio e um aumento de 7% do nitrogênio oriundo de matéria orgânica. O setor sucroenergético teve aumento substancial no uso de insumos de matriz orgânica como esterco de frango.
O palestrante encerrou a apresentação antecipando o próximo passo da indústria da cana-de-açúcar. “A evolução desse cenário é aplicação da matéria orgânica como a vinhaça, torta de filtro ou estercos diversos, na biodigestão. Uma das usinas desse estudo analisou os resultados com a aplicação da vinhaça in natura e de liquefértil, nesse caso, a vinhaça biodigerida. Foi observado que a vinhaça biodigerida, comparativamente à vinhaça in natura, tem entregado um incremento de 8,2% na produtividade média do canavial. Aqui, se olha para a economia circular além do viés da sustentabilidade, com destaque para o incremento de produtividade e de redução de custos”, concluiu Torres.
O terceiro painel do I Fórum de Fertilizantes de Matriz Orgânica foi encerrado com as considerações do mediador, professor da Esalq, Carlos Eduardo Cerri, que também conduziu as perguntas da plateia aos palestrantes. Antes de endereçar as perguntas aos palestrantes, Cerri comentou sobre a importância do evento e citou como referência os desafios elencados pela Organização das Nações Unidas (ONU): doenças/pandemias, segurança alimentar e mudança climática. O mediador reforçou o protagonismo da agricultura e da pecuária na mitigação desses desafios.

Assessor do Ministério da Agricultura, José Carlos Polidoro
Plano Nacional de Fertilizantes – Cadeias Emergentes
Em seguida, o painel 4 foi dedicado ao “O Plano Nacional de Fertilizantes – Cadeias Emergentes”. O assessor do Ministério da Agricultura, José Carlos Polidoro, conduziu uma apresentação centrada nessa pauta e em defesa dos fertilizantes especiais. Denominadas cadeias emergentes, elas figuram como a chave para reduzir a dependência externa por fertilizantes, garantir a segurança alimentar e nutricional, promover a sustentabilidade ambiental e econômica e estimular a produção nacional de insumos.
Ao falar das contribuições das cadeias emergentes, Polidoro destacou a reciclagem/biotransformação, economia mineral e circular, inovação mineral, agroambiental e eficiência produtiva. Para atestar esses impactos, ele explicou que fertilizantes organominerais podem responder por 25% da demanda de insumos a base de Nitrogênio (N), Fósforo (P) e Potássio (K), conhecidos como NPK, os co-produtos e resíduos com potencial agrícola respondem por 25% do fósforo, os agrominerais e os remineralizadores por 10% de potássio e os bioinsumos por 10% de nitrogênio e 10% do fósforo, além de fornecerem a tecnologia para aumentar a eficiência dessas soluções. “É difícil chamar de cadeia emergente porque esses números não são emergentes e sim de gente grande”, frisou Polidoro ao comentar a maturidade dessa indústria.
Potencial de Mercado
O quinto e último painel do 1º Fórum de Fertilizantes de Matriz Orgânica foi dedicado ao tema “Potencial de Mercado”. O painel foi aberto com a apresentação “O Mercado dos Fertilizantes de Matriz Orgânica – Tendências e Desafios”, conduzida pelo diretor de inovação da Superbac e membro do conselho deliberativo da Abisolo, Giuliano Pauli. Ao falar dos fertilizantes de matriz orgânica, ele enfatizou o potencial do Brasil na geração de coprodutos com excelente potencial para nutrição das plantas, como alternativa para reduzir a preocupante dependência do país em relação aos insumos importados e para aumentar a eficiência dos nutrientes.
Ainda na apresentação de Pauli, a pauta ESG (do inglês Environmental, Social and Governance ou Ambiental, Social e Governança) foi apontada como uma aliada para monetizar as boas práticas de todos os elos dos sistemas alimentares. Ao finalizar, ele afirmou que a divisão entre nutrição e saúde das plantas e regeneração do solo deixou de existir com o entendimento de que os conceitos estão entrelaçados e integrados à medida em que os fertilizantes são considerados como “carreadores” de tecnologia para as culturas.
A programação do evento seguiu com uma palestra internacional sobre “As Tendências do Uso dos Fertilizantes Organominerais na Europa”, ministrada em formato online pelo vice-presidente de desenvolvimento de negócios da Argus Media, Oliver Hatfield. O Pacto Ecológico Europeu, conhecido de Green Deal, marcou o início da apresentação de Hatfield, que resgatou algumas medidas previstas no Pacto e que impactam diretamente a produção agrícola, como é o caso da farm to fork (da fazenda à mesa). Essa medida prevê redução de 50% na perda de nutrientes, de 20% no uso de fertilizantes e aumento de 25% nas áreas certificadas como orgânicas.
Hatfield apontou ainda a ascensão da certificação orgânica na América do Norte e na União Europeia, seja de áreas de agricultura orgânica, com um crescimento de 8% nos últimos 20 anos, como nas vendas de produtos orgânicos no varejo, com um salto de 11% no mesmo período, indicando um amplo leque de oportunidades para os fabricantes de insumos de matriz orgânica.
Tendências na Silvicultura – Fertilizantes Orgânicos
A palestra internacional foi sucedida pela apresentação “Tendências na Silvicultura – Fertilizantes Orgânicos”, ministrada pelo engenheiro florestal e gerente de operações em silvicultura, Charles Costa, que é pioneiro no plantio de eucalipto no Ceará. Costa explicou que é possível expandir o alcance radicular do eucalipto mediante a aplicação condicionadores de solo e estimular o crescimento dessa árvore com o uso de organominerais. “O Ceará tem 3 milhões de hectares com potencial para cultivo. Nós precisamos trabalhar para atender as necessidades nutricionais das plantas nesse ambiente, diversificando nossos cultivos”, destacou o palestrante.
Costa pontuou ainda o potencial do Brasil para expandir a área de florestas plantadas. Atualmente, o país conta com 10 milhões de hectares de florestas plantadas, que consomem mais de 6 milhões de toneladas de adubos sólidos e movimentam mais de R$ 20 bilhões. De acordo com ele, a tendência é o aumento da aplicação de fertilizantes de matriz orgânica em mudas de eucalipto, aumentando a sanidade das plantas antes do plantio no solo.

Professor da Esalq, Fernando Andreote – Foto: Pecege e Chiaro Filmes
O último palestrante do Fórum de Fertilizantes de Matriz Orgânica foi o professor da Esalq, Fernando Andreote, com foco em “Condicionadores Biológicos de Solo – Tendências e Desafios”. Ao falar da saúde do solo nas perspectivas física, química e biológica, Andreote destacou dois pontos da agricultura: a produção – qual é o resultado obtido — e o solo – como ele ficou para o próximo ciclo de produção. Nesses dois pontos, ele frisou que a biodiversidade como um elemento funcional ao atuar na estruturação do solo, na nutrição vegetal, proteção das plantas e no processamento de carbono.
Ao citar o estudo da consultoria McKinsey, denominado “Global Farming Insights 2022”, Andreote afirmou que o Brasil é protagonista mundial quando o assunto é adoção de insumos biológicos por parte dos produtores rurais. A pesquisa apontou que 55% e 50% dos agricultores brasileiros entrevistados estão usando, respectivamente, o controle biológico e os bioestimulantes em suas plantações. Tais indicadores são superados somente pelos países europeus, de acordo com a pesquisa.
O palestrante encerrou a apresentação destacando oportunidades no segmento de fertilizantes de matriz orgânica. “A tecnologia embarcada trará o próximo salto para toda a cadeia, agregando facilidade para os fornecedores e os usuários, ampliando o conceito de fertilidade do solo como caminho para a agricultura”, finalizou.
A programação do evento foi concluída com uma mesa-redonda orientada pelo tema “Mercado dos Fertilizantes de Matriz Orgânica e de Condicionadores de Solo”, reunindo os palestrantes Tiago Tezotto, Giuliano Pauli, Charles Costa e Fernando Andreote.
Sobre a Abisolo
A Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo) foi fundada em março de 2003, com o objetivo de representar e defender os interesses das empresas produtoras de importantes insumos que colaboram para o aumento da qualidade, produtividade e sustentabilidade da agricultura brasileira. A entidade congrega fabricantes e importadores de fertilizantes minerais especiais, organominerais, orgânicos, biofertilizantes, condicionadores de solo de base orgânica e substratos para plantas.
Reunindo mais de 140 empresas associadas, participa ativamente das discussões de temas de interesse do setor junto aos diversos Ministérios e Secretarias, Órgãos de Controle e Fiscalização Ambiental, Instituições de Pesquisa, Receitas Estadual e Federal, além de outras entidades representativas de diferentes setores da sociedade civil organizada, buscando sempre a competitividade, a liberdade econômica e a valorização dos segmentos que representa.

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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.



