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Sistema portátil monitora a qualidade do leite cru em segundos no local de produção

Equipamento SondaLeite usa feixes de luz para classificar o leite como normal, Lina ou ácido, no local de produção. É uma ferramenta capaz de eliminar a interferência humana, minimizando os prejuízos da cadeia leiteira, especialmente para os pequenos produtores.

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Foto: Divulgação/Arquivo OPR

Em fase experimental de validação, uma tecnologia desenvolvida pela Embrapa, com o apoio da iniciativa privada, é uma alternativa à carência de técnicas rápidas e motorizada para avaliar a qualidade do leite cru no local de produção. O sistema digital permite acesso aos dados da análise de forma remota via conexão de rede sem fio (Wi-fi). Chamada de SondaLeite, uma inovação capaz de detectar com precisão e em segundos um problema multifatorial que traz grandes prejuízos à cadeia produtiva brasileira, a incidência do leite inevitavelmente não ácido (Lina).

Desenvolvido pela Embrapa Instrumentação (SP) em parceria com a Embrapa Clima Temperado (RS), com o apoio da Dairy Equipamentos , com sede em Curitiba (PR), o SondaLeite utiliza flashes de luzes para constatar em 25 segundos as diferentes condições do leite cru , se normal, Lina ou ácido.

Com os resultados obtidos na fase experimental de validação, a tecnologia entra no processo de licenciamento para a iniciativa privada, a fim de que seja realizada a produção em escala e disponibilizada ao setor leiteiro uma maneira confiável de detectar a estabilidade do produto.

O caso mais crítico de identificação é o Lina, uma alteração na qualidade do leite devido à perda de estabilidade da caseína, principal proteína do leite. A instabilidade ocorre quando o leite submetido ao teste de álcool, também conhecido como Alizarol, talha. Ao coagular na presença da solução alcoólica é confundido com o leite ácido sem, no entanto, há acidez elevada.

Mas o teste de álcool, utilizado há mais de cem anos, apresenta resultados subjetivos assim como outros falsos positivos ou falsos negativos para a acidez. Ele é realizado em cerca de três minutos, momentos antes da coleta do leite nas fazendas. Esse teste é realizado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária ( Mapa ), para avaliar a qualidade do produto quanto à acidez e à estabilidade térmica, conforme preconiza a Instrução Normativa 76, de 26/11/2018.

Conforme a norma, antes da coleta nas unidades de produção, o leite deve ser agitado e passar pela prova do álcool na concentração mínima de 72 ºGL. O leite deve estar estável diante do teste, ou seja, não apresentar precipitação. Para que o leite seja aceito nas industrializadas, é preciso uma composição química mínima de 3% de gordura, 2,9% de proteína e 8,4% de extrato desengordurado, e o produto deve ser estável ao álcool ou alizarol a 72%.

Os testes usados ​​tradicionalmente estão sujeitos a falhas humanas por serem de decisão conforme a capacidade e experiência do analisador. Também apresentam pouca confiabilidade para estimar a estabilidade térmica do leite. Mesmo assim, são utilizados e empregados como pedidos para a tomada de decisão de captação ou não do leite antes mesmo de sair da propriedade rural.

Diante da necessidade de um teste rápido que identifica as diferentes condições do leite cru – normal, Lina e ácido –, adequadas ao processamento térmico, o SondaLeite é uma ferramenta com potencialidade para eliminar a interferência humana, efeitos benéficos, minimizar os prejuízos da cadeia leiteira, especialmente aos pequenos produtores, e suprir a carência do mercado para detecção rápida do Lina.

O Lina tem sido um desafio para a bovinocultura de leite e não tem causa totalmente esclarecida. Muitos estudos associam o Lina a fatores nutricionais, deficiência nutricional, restrição alimentar, deficiência de energia, excesso de proteína associada à deficiência energética, excesso de proteína degradável no rúmen, deficiência de proteína metabolizável, acidose metabólica, acidose ruminal, alterações na dieta, férias em estágio inicial ou final de lactação.

Direto no campo
O projeto de desenvolvimento do SondaLeite teve início em 2019, mas sofreu interrupção por causa da pandemia da Covid-19. No final do ano passado, as pesquisas foram retomadas com a realização de novos testes de detecção da estabilidade do leite cru.

O sistema portátil, robusto, rápido nos resultados e de fácil condução poderá ser utilizado diretamente no campo, acoplamento em caminhões de coleta a granel, bem como no laboratório e até mesmo instalado nos tanques de resfriamento, em laticínios e cooperativas.

Além de monitorar a qualidade do leite, com resultados controlados, pode ser incrementado para funções múltiplas, como detectar mastite e também adulterações. As novas funcionalidades podem ser incluídas com incrementos na instrumentação do aparelho, o que aumentará o seu leque de aplicações.

Equipamento pode ser utilizado diretamente no campo e também em laticínios e cooperativas – Fotos: Divulgação/Embrapa

Equipamento usa luz para avaliar o leite
O pesquisador da Embrapa  Washington Luiz de Barros Melo  explica que, para eliminar a interferência humana no processo de análise da acidez do leite cru, ele pensou em um instrumento espectroscópico computadorizado associado a um método estatístico de análise.

Trata-se de uma sonda dedicada à avaliação de amostras líquidas nos locais de produção e coleta, por meio de uso da luz privativa e captada por componentes semicondutores que fazem parte do sistema sensor. O aparelho é composto por partes: câmera de medição; sistema óptico com diodo emissor de luz (LED, na sigla em inglês) e computador embarcado.

A tecnologia, desenvolvida no Laboratório de Fototérmica da Embrapa Instrumentação, pode ser operada por qualquer sistema operacional de computador, celular ou tablet. “O SondaLeite funciona como qualquer espectrofotômetro, porém, como a iluminação é em comprimento de onda discreta, o tempo de aquisição de dados ocorre em alguns segundos”, diz ele.

De acordo com Melo, a amostra de 100 mililitros de leite dentro do equipamento recebe luzes em comprimento diferentes de onda, que incluem infravermelho próximo (NIR), passando pelo visível (Vis) até o ultravioleta próximo (UVA).

“Ao incidir sobre o leite, as partes destas luzes são controladas e as partes refletidas. As luzes refletidas são detectadas e gravadas em sinais elétricos, que são armazenadas na memória do computador embarcado no SondaLeite. Estes dados coletados formam o espectro do leite, que é mantido à análise estatística. O resultado indica, então, a condição de estabilidade do leite”, conta o pesquisador.

Segundo Melo, os testes com o SondaLeite estão sendo realizados em leites de animais de diferentes raças, entre elas Holandês e Jersey, e em rebanhos com procedências de diferentes laticínios do Sul do País. A composição do leite – gordura, proteínas, açúcares, minerais –, pode influenciar nos resultados espectrais; assim, é necessário o estudo estatístico dos casos.

“As amostras foram avaliadas também quanto à acidez titulável (°Dornic); pH; estabilidade ao álcool/alizarol em diferentes graduações e ocorrência de Lina”, relata o responsável pelo projeto.

Amostras de leite de diferentes raças e rebanhos foram encaminhadas para o Laboratório de Qualidade do Leite da Embrapa Clima Temperado (Lableite), certificado pela Rede Brasileira de Qualidade do Leite (RBQL) para análise da composição química (teores de gordura, proteína bruta, lactose e sólidos totais) por infravermelho; contagem de células somáticas (CCS) e contagem bacteriana total (CBT) por citometria de fluxo. Os resultados estão sendo comparados com os espectros de refletância do SondaLeite.

Sonda Leite no Sul
A pesquisadora  Maira Balbinot t i Zanela , médica-veterinária à frente das atividades na Embrapa Clima Temperado, conta que o SondaLeite está sendo avaliado para uso no desenvolvimento da metodologia de diagnóstico diferencial, a fim de identificar o leite normal, o leite ácido e a Lina .

Para esta identificação, ela relata que são realizadas diversas análises: o teste do álcool em diferentes graduações, o teste de acidez titulável em graus Dornic, o teste do pH, indicando a ocorrência de Lina. Estes resultados são comparados com aqueles obtidos pelo SondaLeite. “A pretensão é que o SondaLeite consiga diferenciar o Lina, o leite normal e o leite ácido. Assim, pode-se oferecer uma nova forma de avaliação da qualidade do produto nas unidades de produção de leite, evitando o desejável do Lina”, diz a pesquisadora.

Segundo ela, os resultados preliminares indicaram que existem boas possibilidades de diferenciação, mas devido à interrupção dos testes por causa da pandemia de Covid-19, é necessária uma metodologia mais ampla para concluir a validação da metodologia, considerando a diversidade de raças, manejo e sazonalidade. “Buscamos com o SondaLeite um outro teste, que substitua o teste do álcool ou alizarol, para que se possa ter um diagnóstico diferencial. O Lina terá outro destino do que simplesmente ser descartado pelo produtor rural. Esse descarte, além de trazer prejuízos a toda a cadeia produtiva e redução da matéria-prima para a indústria e consumidor, também pode resultar em um passivo ambiental pelo descarte de matéria orgânica”, expõe.

A Embrapa Clima Temperado atua há duas décadas no Projeto Lina, a partir de queixas de produtores de leiteiros da Região Sul, que questionavam os motivos dos

resultados obtidos com o teste de álcool. “Como essa prova não diferencia o leite ácido e a Lina, está sendo desenvolvido um novo de diagnóstico para a qualidade do leite nas propriedades com o auxílio do método SondaLeite. O teste do álcool faz com que toda a cadeia produtiva tenha prejuízo: produtor que perde o produto e a renda; a indústria que recebe um volume menor de leite; e o consumidor que tem menos oferta do produto à sua disposição”, lembra a pesquisadora  Maira.

De acordo com ela, as estimativas de perdas do produto variaram muito; entre as causas estão o descarte do leite por falsa acidez elevada e por resultado positivo ao teste do álcool – considerando-se produção de leite média de 213 litros por unidade de produção de leiteira (UPL) e ocorrência em torno de dez dias, estima-se uma perda média de 2,13 mil litros/UPL em caso de Lina. “Além disso, ocorre prejuízo aos produtores de leite por testemunha da matéria-prima – considerando-se dois reais por litro de leite, estima-se uma perda de 4.260 reais por UPL”, calcula Maira.

Diagnóstico evita problemas
O diagnóstico do Lina soluciona problemas entre produtores e laticínios que refletem em toda a cadeia produtiva. Entre eles, o diagnóstico equivocado da qualidade do produto nas propriedades; as próprias perdas de leite e da renda; choques entre produtores e indústria e redução dos derivados lácteos ao consumidor.

Zanela lembra que o Lina pode ser pasteurizado (processo que dá garantia de segurança alimentar), o que resolveria o problema do descarte do leite, que poderia ser beneficiado em produtos lácteos pasteurizados (queijo, iogurte, bebida láctea, requeijão, entre outros).

Cadeia do leite
De acordo com dados do Mapa, o Brasil tem mais de um milhão de produtores de leite e é o terceiro maior produtor mundial, com mais de 34 bilhões de litros por ano. A produção está concentrada em 98% dos municípios brasileiros, com predominância de pequenas e médias propriedades. O setor emprega perto de 4 milhões de pessoas.

A Secretaria de Política Agrícola (SPA), do Ministério da Agricultura, estima que, para 2030, permanecerá no campo os produtores mais eficientes, que se adaptaram à nova realidade de adoção de tecnologia, melhorias na gestão e maior eficiência técnica e econômica.

Apresentação na Agrishow
A tecnologia, com patente já concedida pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial ( INPI ) desde 2021, está sendo apresentada no estande da Embrapa na Feira Internacional de Tecnologia Agrícola em Ação ( Agrishow ), que teve início na segunda-feira (1º) e se estende até sexta-feira (05) , em Ribeirão Preto (SP).

Fonte: Assessoria Embrapa Instrumentação

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Zebu Connect Day abre programação do Comcebu 2024

Expectativa é que participem criadores de todo o país, além de visitantes estrangeiros.

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Foto: Divulgação/ABCZ

Um dia programado para conectar as empresas participantes do Brazilian Cattle com os visitantes do 2º Congresso Mundial de Criadores de Zebu (Comcebu). Assim será o Zebu Connect Day, Dia de Campo que abre a programação do COMCEBU 2024. O evento, que também destacará os avanços e tendências do setor, será realizado no dia 1º de maio das 8h às 17h30 na Fazenda Experimental Orestes Prata Tibery Júnior, em Uberaba (MG).

A programação conta com seis palestras. Na primeira o Superintendente Geral da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), Moacir Norberto Sgarioni, falará sobre Gestão Administrativa em Agronegócios.

O engenheiro agrônomo e especialista em Concentração de Projetos e Sistemas de Irrigação, Jean Palomo, ministrará a palestra Agricultura Irrigada: produtividade e fonte de segurança alimentar, e a especialista em Biotecnologia Reprodutiva, Giovanna Moraes, abordará a Eficiência Alimentar, Ciência Aplicada ao Bolso do Produtor.

A Importância do Fósforo para Pastos Produtivos será o tema da palestra da pesquisadora da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), Janaína Azevedo Martuscello.

Na sequência, será a vez do médico-veterinário Fernando Puato Vieira Pupim falar sobre Transferência de Embriões Bovinos: novos métodos, conceitos e estratégias para elevar a taxa de concepção. Depois, a médica-veterinária, diretora de marketing da Associação Brasileira de Criadores de Gir Leiteiro (ABCGIL), vice-diretora comercial e eventos da Associação dos Produtores de Leite (Abraleite) e membra do Comitê Brasileiro da Federação Internacional do Leite (FIL), Roberta Bertin Barros, abordar a Evolução do Gir Leiteiro no Brasil. “A participação no Zebu Connect Day é gratuita e aberta ao público. Além disso, haverá serviços de transfer do Parque Fernando Costa para a Fazenda Experimental Orestes Prata Tibery Júnior incluídos para facilitar a participação de todos os interessados. O transfer inclui o trajeto de volta ao parque.”, destaca o gerente do Departamento Internacional da ABCZ, Juan Lebrón.

A programação completa do 2º Comcebu está disponível no site oficial do congresso. Mais informações podem ser obtidas por telefone: (34) 3319-4600.

Fonte: Assessoria ABCZ
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Indenizações para pecuária leiteira têm nova tabela no Rio Grande do Sul

Os valores são pagos a produtores da atividade leiteira que tiverem animais abatidos ou sacrificados sanitariamente por testes positivos para tuberculose ou brucelose ou por recomendação do Serviço Veterinário Oficial.

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Foto: Fernando Dias

Já está em vigor a nova tabela de indenizações do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do Rio Grande do Sul para bovinos da pecuária leiteira. Os valores, aprovados em assembleia geral extraordinária, foram elaborados pelo Conselho Técnico Operacional da Pecuária Leiteira, comitê que integra o Fundesa e é composto por representantes de produtores, indústrias e Serviço Veterinário Oficial.

Os valores vão de R$ 1.447,00 para fêmeas sem registro, de zero a 12 meses, até R$ 4.022,00 para animais puros de origem de 25 a 36 meses (veja tabela abaixo). Os animais machos acima de 24 meses são indenizados em R$ 1.696,00, independente da raça e valor genético. Os valores são pagos a produtores da atividade leiteira que tiverem animais abatidos ou sacrificados sanitariamente por testes positivos para tuberculose ou brucelose ou por recomendação do Serviço Veterinário Oficial.

Têm direito à indenização, os produtores que estiverem em dia com as contribuições ao Fundesa-RS por produção de leite ou por material genético. As contribuições são calculadas sobre a produção de leite entregue à indústria de laticínios e, uma vez por ano, na declaração de existência, sobre o número de animais para material genético, em maio.

Risco Alimentar

Os produtores que precisarem realizar o vazio sanitário (eliminar todos os animais) contam ainda com outro benefício que é o chamado risco alimentar. Trata-se de um valor aportado mensalmente, por seis meses, e que corresponde à média de produção leiteira dos últimos 12 meses. Para isso, o produtor precisa comprovar a realização dos testes dentro dos prazos e critérios do Programa Nacional de Combate e Erradicação da Brucelose e Tuberculose (PNCEBT).

Para o presidente do Fundesa-RS, Rogério Kerber, a existência do Fundo é uma forma de dar mais segurança e suporte para que os produtores realizem os testes e evitem a disseminação das doenças. Outro ponto importante para evitar a introdução de enfermidades nas propriedades leiteiras é a aquisição de animais testados e de procedência conhecida.

Fonte: Assessoria Fundesa-RS
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Pesquisa usa genômica para enfrentar efeitos climáticos em gado leiteiro

Programa de melhoramento genético de raça Girolando tem avaliado a resistência dos animais ao calor para selecionar indivíduos que aguentam melhor as altas temperaturas. Com o trabalho da pesquisa, criadores poderão orientar cruzamentos para obter animais mais tolerantes ao estresse térmico.

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Animais mais resistentes ao calor são classificados com maior valor genômico para essa característica - Fotos: Divulgação/Girolando

O Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando (PMGG) tem se preocupado com a tolerância dos bovinos às condições do clima. Situações de muito calor afetam negativamente a produção leiteira. Por isso, os valores genômicos dos touros da raça foram preditos em função do Índice de Temperatura e Umidade (ITU), que reúne numa única variável as condições de temperatura e umidade relativa do ar (veja quadro 2). Isso significa que animais mais resistentes ao calor são classificados com maior valor genômico para essa característica. Um ITU entre 80 e 89, por exemplo, pode provocar estresse térmico severo no animal. Para que isso ocorra basta que a temperatura fique acima de 32°C e a umidade relativa do ar esteja em 95%.

Impulsionados pelas mudanças climáticas e o El Niño, dias de calor intenso têm sido comuns em todas as regiões do Brasil, principalmente na região Centro-Sul, onde se concentra a maior produção de leite no País. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) registrou em 2023 nove ondas de calor e, no dia 19 de novembro, os termômetros da cidade mineira de Araçuaí marcaram a maior temperatura já verificada no Brasil: 48,44°C (veja quadro 3). Nessas condições, bastaria 10% de umidade relativa do ar para que uma vaca estivesse submetida ao estresse térmico severo, ocasionando redução na produção, problemas reprodutivos e até a morte do animal.

Segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Leite (MG) Marcos Vinícius G. B. Silva, o País perde todos os anos cerca de 30% da produção devido às altas temperaturas. Isso torna a cadeia produtiva do leite vulnerável aos eventos provocados pelas mudanças climáticas. “A solução para o produtor é desenvolver rebanhos mais resistentes ao estresse térmico e é isso que o programa de melhoramento do Girolando tem buscado oferecer por meio das avaliações genéticas e genômicas no teste de progênie da raça”, diz o pesquisador.

Silva explica que há raças mais tolerantes aos efeitos do clima. “O Gir Leiteiro, que compõe a raça sintética Girolando, é bastante resistente ao calor se comparada à raça Holandesa, que também forma o Girolando. O resultado do cruzamento das duas raças é um animal resistente e produtivo”, explica. Dentro de uma mesma raça há indivíduos mais resistentes que outros. Ao longo dos anos, a Embrapa reuniu uma boa base fenotípica de animais resistentes, identificando essa característica dentro do genótipo do indivíduo. A partir daí, criou-se o PTA (medida de mérito genético do touro) para o estresse térmico, que irá resultar em vacas mais resistentes.

A pesquisa que desenvolveu esse PTA analisou 650 mil controles leiteiros. Foram colhidos dados no momento da ordenha, identificando a produção da vaca, além do ITU, obtido por meio de estações meteorológicas nos locais onde as propriedades estão localizadas. “Utilizamos uma metodologia estatística que relaciona esses dados com os genótipos de cada uma das vacas, obtendo o potencial genético do animal”, comenta Silva ao contar que esse tipo de abordagem revela as diferenças genéticas na resposta dos animais diante das diferentes combinações de temperatura e umidade do ar ao longo do período avaliado.

Classificação dos animais em relação ao calor
Os touros foram classificados conforme categorias de sensibilidade ambiental, que representam o desempenho médio esperado para as filhas de cada touro nas diferentes combinações de temperatura e umidade do ar:

  • Sensível +: touros cujas filhas reduzem a produção de leite em ambientes mais quentes e, ou, mais úmidos.
  • Sensível – (menos): touros cujas filhas aumentam a produção em ambientes mais quentes e, ou, mais úmidos.
  • Robusto: touros cujas filhas mantêm produções estáveis, independente da combinação de temperatura e umidade.

Silva afirma que quando o animal está dentro de uma faixa de ITU considerada adequada, ele terá condições de expressar seu potencial genético, porém, outras condições limitantes, como nutrição, manejo e sanidade, por exemplo, devem estar em níveis adequados.

O também pesquisador da Embrapa, João Claudio do Carmo Panetto, conta que a classificação dos touros conforme sua tolerância ao estresse térmico servirá como uma ferramenta auxiliar na seleção dos animais, possibilitando o uso de um genótipo mais adequado ao clima das diferentes regiões do Brasil. “Dessa forma, cada criador vai poder direcionar os acasalamentos, visando obter uma progênie mais tolerante ao estresse térmico, reduzindo as perdas produtivas devidas aos fatores climáticos”, diz Panetto.

Sumário relaciona progênie tolerante ao estresse térmico
Desde 2022, o Programa de Melhoramento Genético da Raça Girolando apresenta o PTA de touros com característica para tolerância ao estresse térmico. Naquele ano, o sumário do teste de progênie da raça já anunciava 405 touros com essa característica. Em 2023, o número subiu para 491 e neste ano serão 549. Esses animais compõem o Índice de Eficiência Tropical que, além da tolerância ao estresse térmico, apresenta características relativas à produção e reprodução. Silva anuncia que, em breve, será incluída neste índice a característica de resistência a ectoparasitas (carrapatos).

O sumário traz ainda PTA’s para outras 32 características individuais como volume de leite, gordura, proteína, casco, temperamento etc. As características são reunidas em nove índices, apresentando um conjunto de parâmetros. Além do Índice de Eficiência Tropical, abarca:

  • Índice de Longevidade do Girolando;
  • Índice de Produção e Persistência na Lactação do Girolando;
  • Índice de Facilidade de Parto.
  • Índice de Reprodução.
  • Índice de Qualidade do Leite.
  • Composto de Produção de Leite e Fertilidade.
  • Compostos de Sistema Mamário, de Sistema Locomotor, de Garupa e de Força Leiteira.

O PMGG teve início em 1997. Até o ano passado, foram lançados 16 sumários. O Programa conta com 1.891 rebanhos colaboradores. Os estudos para incluir a tolerância ao estresse térmico começaram em 2021. “A questão climática é, por si, um marketing natural para venda de sêmen”, diz Silva. Segundo ele, a procura pelo sêmen de touros provados para a tolerância ao estresse térmico é grande. O pesquisador avalia que esse tipo de seleção genômica pode ser extrapolado para outras raças. “Já estamos desenvolvendo estudos para incluir essa característica no sumário de touros da raça Jersey”, conclui Silva.

ITU e conforto térmico
Utilizado em diversas áreas, o ITU combina em uma única variável os valores de temperatura e de umidade relativa do ar (veja Figura 1). Quanto maior o índice, maior será o desconforto térmico de um indivíduo. Na pecuária de leite, o ITU mede o bem-estar dos bovinos em relação ao clima.

Figura 1 – Índice de Temperatura e Umidade (ITU) relacionado ao conforto térmico bovino para o município de Araçuaí, MG. Fonte: Inmet (2024).

Segundo a pesquisadora da Embrapa Maria de Fátima Ávila Pires, que trabalha com bem-estar animal há cerca de 30 anos, índices abaixo de 72 são considerados confortáveis para a vaca; mas ela ressalta que animais de alta produção já podem ser afetados com índice de 68. De 72 a 79, o ITU é ameno; de 80 a 89 passa a interferir negativamente no conforto térmico da vaca. Acima de 90, o índice é considerado severo e pode levar o animal à morte.

A vaca modifica seu comportamento quando está sob estresse térmico. A pesquisadora alerta que o produtor deve observar os seguintes sinais:

  • Aumento da frequência respiratória: respiração ofegante pode indicar que o animal está tentando dissipar calor;
  • Produção de suor: as vacas podem suar mais quando estão desconfortáveis ​​com o calor;
  • Procurando sombra: sob estresse térmico, vacas podem buscar áreas sombreadas ou mais frescas para se abrigarem do sol;
  • Redução no consumo de alimentos: em condições de calor extremo, as vacas podem reduzir a ingestão de alimentos;
  • Mudanças no comportamento reprodutivo: O estresse térmico pode afetar o cio e a taxa de concepção das vacas.

“Em regiões com altas temperaturas e umidade do ar, o produtor deve adotar medidas para proporcionar um ambiente adequado e confortável para o rebanho, como oferecer sombra, ventilação adequada, água fresca e aspersão de água”, ensina a pesquisadora.

Mudanças climáticas
O ano de 2023 foi o mais quente dos últimos 174 anos de medições meteorológicas. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a média global chegou a 1,45° C acima dos níveis pré-industriais. Esse valor está bem próximo de 1,5° C, estabelecido como limite em 2015, no Acordo de Paris e só deveria ser atingido em 2030. No Brasil, dados do Inmet revelam que, dos 12 meses de 2023, 9 tiveram médias mensais acima da média histórica, com destaque para setembro, com 1,6° C acima.

Ao longo do ano passado, o País enfrentou nove episódios de onda de calor. Eduardo Assad, ex-pesquisador da Embrapa e um dos pioneiros nos estudos agroclimáticos no Brasil, diretor da empresa de consultoria Fauna, fez um balanço da agenda climática em 2023. Segundo o relatório, a amplitude média dessas ondas de calor foi superior a 4° C acima da média das máximas.

Para o pesquisador da Embrapa Ricardo Guimarães Andrade, a causa das altas temperaturas de 2023 é o fenômeno El Niño, aliado à crise climática. O fenômeno, que provoca o aquecimento das águas no Oceano Pacífico, se estabeleceu em meados de 2023 e atingiu o ápice em dezembro. Andrade explica que naquele mês, as águas do Pacífico atingiram 2°C acima da média histórica. “É um El Niño forte, mas não podemos classificá-lo de ‘Super El Niño’, quando o aquecimento supera os 2,5° C acima da média histórica”, diz. O último Super El Niño ocorreu em 2016.

De acordo com o pesquisador, o prognóstico climático indica que o El Niño deve permanecer até junho. “Há uma probabilidade de 50% para que se estabeleça a condição de neutralidade, entre menos 0,5° C e mais 0,5° C.” Até lá, a temperatura e a precipitação tendem a ficar entre a média e acima da média na região centro-sul do País.

Índice de Temperatura e Umidade
A figura abaixo ilustra o ITU aplicado ao município de Araçuaí, MG, para o período de julho de 2023 a fevereiro de 2024. Observa-se que naquele município, durante alguns dias de novembro de 2023 houve perigo, quando o índice esteve acima da linha de cor vermelha que indica forte desconforto térmico, sendo o ITU máximo de 82,9, registrado em 19 de novenbro de 2023.  Nota-se vários dias com indicativos de alerta e de atenção, quando o ITU esteve acima das linhas de cores laranja e amarela, respectivamente.

“Vale ratificar que as condições ambientais têm impacto direto na eficiência dos processos de controle térmico pelo animal, resultando na intensificação de estresse calórico e interferindo na sua eficiência produtiva e reprodutiva”, diz Andrade. “Os animais de origem europeia acabam sendo mais sensíveis, mas não são os únicos. No geral, todas as raças sentem o impacto negativo desse estresse”, afirma.

Fonte: Assessoria Embrapa Gado de Leite
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