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Suínos / Peixes Nutrição

Cereais de inverno podem substituir o milho na alimentação de suínos e aves

Resultados mostram que o trigo e o triticale são os cereais com maior potencial para substituir o milho; estudos avaliam também a cevada

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Lucas Scherer/Embrapa

Pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Trigo (RS) e Embrapa Suínos e Aves (SC) apontam que cereais de inverno, como trigo, aveia, centeio, cevada e triticale, são opções viáveis para substituir o milho na formulação de rações e concentrados para alimentar suínos e aves. Além de reduzir a dependência desse grão na Região Sul, cuja produção não tem sido suficiente para atender à demanda, o resultado amplia o mercado para os cereais de inverno, que ocupam cerca de 20% da área potencial de cultivo.

A escassez de milho frente ao crescente aumento na produção de proteína animal e a ociosidade de áreas produtivas no inverno foram as principais motivadoras dos estudos, que avaliam a viabilidade econômica e nutricional no uso de cereais de inverno na composição de rações, além da caracterização de cultivares mais adequadas à alimentação de suínos e aves.

A ociosidade de áreas no inverno na Região Sul, especialmente em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é estimada em mais de 6 milhões de hectares, considerando espaços em situação de pousio ou com plantas de cobertura. Aproveitar melhor o inverno para abastecer o mercado de proteína animal é o projeto que a Embrapa está desenvolvendo na região, em parceria com vários segmentos do setor produtivo, indústria e poder público.

Consumo

Cada brasileiro consome, em média, 43 kg de frango e 15 kg de carne suína por ano. Para atender essa demanda, é necessário produzir cerca de 30 milhões de toneladas de grãos como milho, trigo, soja e outros.

Déficit de milho aumenta gastos e preocupa produtores

A produção de milho no Brasil chegou a 100 milhões de toneladas na safra 2019. Desse volume, 43 milhões de toneladas têm como destino as exportações e outras 4,5 milhões de toneladas vão para a produção de etanol. Do total de grãos destinados ao consumo interno, mais da metade é utilizada para a alimentação animal.

Figura 1– Balanço da produção e consumo de milho nos municípios brasileiros em 2019 e da matriz de transporte hidroviário e ferroviário atual e futuro no Brasil. Fonte: Santos Filho et al., 2020.

Em 2019, a Região Sul produziu 25 milhões de toneladas de milho, um crescimento de 44% comparado aos volumes alcançados nos anos 2000. Com exceção do Paraná, que conta com o reforço do milho safrinha ou segunda safra, os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul têm disponível (considerando produção menos exportação) aproximadamente a metade do milho que consomem.

Somente para atender à demanda da indústria de proteína animal, que ano passado contabilizou uma produção de 2,7 milhões de toneladas de suínos e quase oito milhões de toneladas de frango, foram necessários 21,5 milhões de toneladas de milho. O déficit de milho na Região Sul é suprido pelos grãos trazidos do centro-oeste do Brasil, com custos de logística que sobrecarregam a produção.

Figura 2 – Diferença entre as áreas com plantio de culturas anuais de verão e com plantio de culturas de inverno nos municípios de Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Fonte: Santos Filho et al., 2020.

A tabela a seguir mostra como a produção de milho tem acompanhado o crescimento da produção de suínos e aves na Região Sul:

Trigo e triticale são os melhores candidatos para substituir o milho

As pesquisas da Embrapa apontam, especialmente, o trigo e o triticale como alimentos energéticos com potencial para substituir o milho e o farelo de soja nas dietas para suínos e frangos de corte, desde que sejam efetuados ajustes nos níveis de aminoácidos e de energia para atender as exigências dos animais em cada fase. “Com valor nutricional complementar ao milho e ao farelo de soja, esses cereais tornam-se técnica e economicamente viáveis para inclusão nas dietas de suínos e aves, podendo suprir parte significativa da demanda de grãos para essas duas espécies”, avalia a pesquisadora da Embrapa Teresinha Bertol.

 Resultados iniciais mostram que os valores nutricionais desses cereais são variáveis, dependendo da cultivar, do local e ano de produção. Por isso, é fundamental a avaliação de cada lote dessas matérias-primas antes de seu uso na produção de rações.

Uma das cultivares que mostrou bom potencial para a composição de rações foi o trigo BRS Tarumã, que possui maiores valores de proteína bruta e energia metabolizável. “Com teor de proteína próximo a 18%, esse trigo foi desenvolvido para a alimentação animal em um mercado alternativo à panificação, e já vem sendo utilizado há mais de 20 anos na criação de bovinos, agora com possibilidade de atender também à demanda de suínos e aves”, explica o pesquisador Eduardo Caierão, melhorista da Embrapa Trigo. Segundo ele, a cultivar apresenta excelente valor energético, muito próximo ao farelo de soja, o que permite também baixar custos nesse item de produção.

Outros trigos, como BRS Pastoreio e BRS Sanhaço, assim como as cultivares de triticale BRS Saturno e Embrapa 53, apresentaram menor conteúdo de energia, o que aumenta a demanda por óleo nas rações. “O uso desses cereais pode ser economicamente mais vantajoso nas fases em que os animais apresentam menor demanda de energia como, por exemplo, na gestação dos suínos. Já no caso do trigo BRS Tarumã, devido ao seu conteúdo de energia superior ao do milho e ao alto conteúdo de proteína, o uso é mais produtivo nas fases de crescimento e terminação, quando a exigência desses fatores é mais elevada”, explica o pesquisador de socioeconomia da Embrapa Suínos e Aves Jonas dos Santos Filho.

Cevada também faz parte dos estudos

Conforme as avaliações nutricionais, os níveis ótimos para inclusão do trigo e do triticale na ração de suínos ficam ao redor de 35%, enquanto para a cevada esses níveis ficam entre 20% e 25% a partir da fase de crescimento. No caso dos frangos de corte e poedeiras, recomenda-se níveis de 20% a 30% de inclusão de trigo ou triticale, e até 20% de cevada na ração a partir da fase inicial.

De acordo com Teresinha Bertol, esses são os níveis que permitem a melhor combinação de ingredientes para otimização do balanceamento dos aminoácidos essenciais e que proporcionam a melhor qualidade de pellet (formato da ração peletizada). Porém, ela pontua que é possível substituir totalmente o milho por trigo ou triticale nas dietas para suínos, desde que se faça os ajustes necessários nos níveis nutricionais para atender as exigências dos animais em cada fase.

Aproximação da indústria com o setor produtivo

 O uso de cereais de inverno na produção de proteína animal não é novidade, mas a mobilização que uniu especialistas, entidades representativas do setor produtivo e poder público visa dar maior segurança na rentabilidade do produtor de grãos e na garantia de matéria-prima para abastecer a indústria.

Com o objetivo de aumentar a área com cultivos de inverno, o governo do estado de Santa Catarina – que é o maior importador de milho no Brasil – lançou, no início deste ano, em fevereiro de 2020, o “Programa de Incentivo ao Plantio de Grãos de Inverno”, que está estimulando os agricultores a investirem em cereais de inverno com potencial para compor a matriz de ingredientes para rações de suínos e aves. O programa conta com o suporte técnico de instituições de pesquisa como a Embrapa e a Epagri/SC, o fornecimento de insumos e assistência técnica do setor cooperativista e a aquisição dos grãos pela indústria de suínos e aves.

Um dos desafios para garantir o abastecimento da indústria de proteína animal com cereais de inverno é o clima nem sempre favorável, responsável por muitas safras frustradas no inverno com chuvas na pré-colheita que podem resultar em perda de qualidade dos grãos e até contaminação por micotoxinas, ocasionando fungos que causam complicações no sistema digestivo dos animais. Mas para o especialista em agropecuária do time de nutrição da Seara, Herbert Rech, a agroindústria já tem experiência para se adaptar ao momento adverso: “Problemas com frustração de safra que afetam a qualidade nutricional ou sanitária dos grãos também ocorrem no milho e em outras culturas. Cabe à indústria saber fazer os ajustes nutricionais para manter o desempenho dos animais”.

Segundo ele, os cereais de inverno precisam competir nutricionalmente e financeiramente com os demais ingredientes da ração, como o milho e o farelo de soja, mas sem perder em qualidade: “Importante avaliar que não estamos falando de utilizar o refugo da produção de grãos para alimentação animal. Precisamos de trigo de qualidade, que supra a demanda da indústria de proteína animal e não somente ofertas pontuais dos grãos que não atenderam os requisitos da panificação”.

Rech destaca que “se o produtor utilizar trigos com características de interesse para a alimentação animal, como maior energia, proteínas e menos fibras, obviamente competirá melhor com outras commodities. Trigo de qualidade é valorizado em qualquer mercado, mas é preciso estudar cada oportunidade”.

“Não há dúvidas técnicas quanto ao uso dos cereais de inverno para alimentação de suínos e aves. O que está em discussão agora é o modelo de negócio para viabilizar o plantio e uso em rações”, confirma Alexandre Gomes da Rocha, da Aurora Alimentos. Ele defende o estabelecimento de uma indexação de preço dos cereais de inverno ao preço do milho: “Com o preço pré-fixado haverá perda para um dos lados. Se o preço do milho estiver em baixa a agroindústria perde por pagar caro pelos cereais de inverno; e no cenário inverso, o produtor perde a oportunidade de melhor preço do trigo. Ocorrendo perdas sucessivas para um dos lados o negócio tende a perder força e descontinuar. Por isso, é preciso um modelo claro pré-definido que dê segurança para ambos os lados”.

Na Região Sul, as negociações da indústria de proteína animal com o setor produtivo já começaram, inicialmente com grandes produtores e cooperativas, mas devem expandir o alcance para pequenos produtores, principalmente aqueles que atuam próximo às indústrias.

Fonte: Embrapa Trigo e Embrapa Suínos e Aves
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Suínos / Peixes Mercado

Exportações de carne suína crescem 35,1% em abril

Setor amplia vendas para nações da Ásia, África e América

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Arquivo/OP Rural

As exportações brasileiras de carne suína (incluindo todos os produtos, entre in natura e processados) alcançaram 98,3 mil toneladas em abril, informa a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O saldo supera em 35,1% os embarques realizados no mesmo período do ano passado, quando foram embarcadas 71,8 mil toneladas.

O resultado das exportações de abril chegou a US$ 232,3 milhões, número 40,6% superior ao registrado no mesmo período de 2020, quando foram obtidos US$ 165,2 milhões.

No acumulado do ano (janeiro-abril), as exportações de carne suína alcançaram 351,8 mil toneladas, volume 25,29% maior em relação ao primeiro quadrimestre de 2020, quando foram exportadas 280,8 mil toneladas.

A receita acumulada no mesmo período chegou a US$ 826,4 milhões, índice 27,1% superior ao efetivado entre janeiro e abril do ano passado, com US$ 650,3 milhões.

Na análise por país, a China, carro-chefe das exportações brasileiras, importou 51,5 mil toneladas em abril (+50,5% em relação ao mesmo período de 2020). Outros destaques foram Hong Kong, com 14,6 mil toneladas (+4,9%), Chile, com 5,4 mil toneladas (+130,9%), Angola, com 3,4 mil toneladas (+3,8%), Filipinas, com 2,4 mil toneladas (+623,4%) e Argentina, com 2,2 mil toneladas (+84,3%).

Também em abril, Santa Catarina, principal estado exportador, exportou 50,1 mil toneladas (+41,73% em relação ao mesmo período de 2020). Em seguida vieram Rio Grande do Sul, com 26,3 mil toneladas (+45,33%) e Paraná, com 12,4 mil toneladas (+11,34%).

“Além das expressivas vendas para o mercado chinês, temos observado o aumento das exportações para outras regiões do planeta, incluindo mercados vizinhos ao Brasil. Em meio à forte pressão gerada pelos custos internos de produção, o bom desempenho destas exportações diminuem perdas e melhoram o quadro para as indústrias  que atuam no mercado internacional”, avalia Ricardo Santin, presidente da ABPA.

Fonte: Assessoria
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Suínos / Peixes Nutrição

Quais são os níveis de microminerais e vitaminas praticados nas rações comerciais para suínos em fase de crescimento e terminação no Brasil?

Níveis elevados praticados destes oligolementos pode sugerir uma tentativa de ajuste nutricional às modernas demandas que os animais detêm

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito pelo Dr. Danyel Bueno Dalto, Agriculture and Agri-Food Canada, Sherbrooke, e Dr. Caio Abércio da Silva, professor da Universidade Estadual de Londrina

As dietas comerciais para suínos são comumente formuladas com níveis de vitaminas e microminerais superiores aos recomendados pelas tabelas de referência, visando assim garantir margens de segurança, minimizando os riscos frente as possíveis variações nos níveis endógenos dos ingredientes, diferenças de biodisponibilidade, flutuações no consumo diário e/ou degradação de vitaminas devido às condições desfavoráveis de estocagem.

Carente de uma validação cientifica efetiva, atribui-se que os valores praticados pela indústria da nutrição animal para os níveis de microminerais e vitaminas correspondam a duas vezes as recomendações de referência. Não obstante serem escassas as informações a respeito, um estudo pioneiro identificou que os níveis de suplementação de vitaminas utilizados pela indústria suinícola americana guardavam um grande empirismo. Nesta linha, um estudo subsequente, também realizado nos Estados Unidos, ratificou que os níveis de suplementação de microminerais e vitaminas utilizados pela indústria suinícola daquele país apresentava grandes variações para a maioria dos nutrientes, independente da fase de produção.

Estas informações contrastam com os contínuos esforços que seguem buscando atualizar e identificar os níveis mais ajustados às necessidades nutricionais do suíno moderno. Uma grande limitação no que diz respeito aos minerais traços e, principalmente, às vitaminas é o fato que a maioria das pesquisas realizadas neste sentido datam das décadas de 40 e 50 e, portanto, foram baseadas num modelo animal muito distante do suíno atual. Neste contexto, pesquisadores reportam, especificamente para as vitaminas, que margens de segurança destas nas rações poderiam ser introduzidas, respeitando, todavia, o custo real de cada vitamina.

Particularmente, este tema é, do ponto de vista econômico, mais apelativo para as fases de crescimento e terminação, cujos gastos com a alimentação são muito expressivos, o que remete a compreender que os eventuais desvios nos níveis destes oligoelementos (especialmente quando acima das recomendações de referência), sem uma correspondente resposta no desempenho zootécnico, podem ter repercussões financeiras negativas para o segmento.

Nesse contexto, o objetivo do presente estudo foi identificar os níveis de microminerais e vitaminas presentes em rações comerciais utilizadas nas fases de crescimento e terminação pela indústria suinícola brasileira, fomentando informações que poderão auxiliar nutricionistas e pesquisadores nas ações em prol da melhora dos aspectos técnicos e econômicos no segmento.

Material e Métodos

Este levantamento foi realizado nos meses de Junho a Dezembro de 2019, estando envolvidas como colaboradoras 15 empresas produtoras de premix/núcleo para suínos, com atuação nas diversas regiões do Brasil, e 15 cooperativas/agroindústrias do setor suinícola brasileiro.

Os dados coletados compreenderam os níveis mínimos de garantia de microminerais e vitaminas dos produtos de linha de empresas de premixes/núcleos, juntamente com sua indicação de uso, e os níveis de microminerais e vitaminas das rações finais utilizadas pelas cooperativas e integrações. Cada empresa participante também informou a fase na qual o produto (premix/núcleo e/ou ração) era indicado, compreendendo a idade do animal ou sua faixa de peso ou ainda a categoria atendida. As fases, portanto, avaliadas corresponderam a: crescimento (71 a 120 dias de idade) e terminação (121 dias de idade até o abate).

Dentro de cada fase foram avaliados os seguintes microminerais e vitaminas: cobalto (Co), cobre (Cu), cromo (Cr), ferro (Fe), iodo (I), manganês (Mn), selênio (Se), zinco (Zn), vitamina A (vitA), vitamina D (vitD), vitamina E (vitE), vitamina K (vitK), tiamina (vitB1), riboflavina (vitB2), niacina (vitB3), ácido pantoténico (vitB5), piridoxina (vitB6), biotina (vitB7), ácido fólico (vitB9), cobalamina (vitB12), colina e ácido ascórbico (vitC).

Os dados foram compilados e submetidos à análises estatísticas descritivas. Para cada fase de produção foram calculadas taxas entre as médias dos níveis de suplementação de microminerais e vitaminas obtidos no presente estudo e os valores registrados nas Tabelas Brasileiras de Suínos e Aves para as fases correspondentes; e também a relação destes com os valores obtidos no levantamento realizado junto à indústria suinícola americana, estabelecendo um processo comparativo com estas referências.

Resultados

Os níveis de microminerais variaram entre 1,1 e 1,3 vezes os valores indicados pela TBSA para a fase de crescimento (Tabela 1) e entre 1,3 e 13,0 vezes para a fase de terminação (Tabela 2). Em relação a USA, os presentes níveis representaram entre 0,9 e 2,3 vezes os valores obtidos para ambas as fases. Para a fase de crescimento, os presentes valores são similares às indicações da TBSA, mas para a fase de terminação, exceto pelo Se, os valores foram largamente superiores. Quando comparados aos valores da USA, os níveis de Mn e I foram largamente superiores. Com exceção do Cu (70,3-74,1%), Mn (64,1%; apenas crescimento) e Co (109,4-136,0%), poucas amplitudes de variação (entre 20,2 e 49,0%) foram observadas para microminerais entre as empresas.

Os níveis de vitaminas lipossólúveis (Tabelas 1 e 2) representaram entre 0,9 e 1,4 vezes os valores indicados pela TBSA e entre 0,9 e 1,5 vezes os valores obtidos por USA. Enquanto na ração de crescimento os níveis de vitD e vitE foram superiores aos valores USA mas similares à TBSA, na ração de terminação os níveis de vitA e vitD foram superiores aos valores da TBSA e apenas a vitD foi superior a USA. Grandes amplitudes de variação foram observadas apenas para vitE (73,7%) nas rações de crescimento e para todas as vitaminas lipossólúveis (entre 50,4 e 63,5%), exceto pela vitA (35,7%), nas rações de terminação.

Os níveis de vitaminas hidrossólúveis (Tabelas 1 e 2) representaram entre 0,9 e 2,2 vezes os valores indicados pela TBSA e entre 0,8 e 2,0 vezes os valores obtidos por USA. Exceto pelas B5 (apenas crescimento), B3 e B6, os presentes níveis foram muito superiores aos recomendados pela TBSA, enquanto os níveis da vitamina B7 foram particularmente superiores aos valores USA. Exceto pela vitamina B3 (41,7%) e B6 (48,8%; apenas terminação), grandes amplitudes de variação foram observadas para as demais vitaminas desse grupo (entre 50,0 e 145,00%) entre as empresas.

Tabela 1 – Média, coeficiente de variação (CV), valor mínimo (Min), percentil 25% (25%), mediana, percentil 75% (75%), valor máximo (Max), proporção em relação a valores de referência brasileiro (Taxa TBSA) e proporção em relação à valores norte-americanos (Taxa US) das concentrações de microminerais e vitaminas adicionadas à rações de crescimento (71 à 120 dias de idade).

Tabela 2 – Média, coeficiente de variação (CV), valor mínimo (Min), percentil 25% (25%), mediana, percentil 75% (75%), valor máximo (Max), proporção em relação a valores de referência brasileiro (Taxa TBSA) e proporção em relação à valores norte-americanos (Taxa US) das concentrações de microminerais e vitaminas adicionadas à rações de terminação (121 dias de idade até abate).

Discussão

De modo geral, os níveis de microminerais e vitaminas utilizados pela indústria suinícola brasileira nas fases de crescimento e terminação são superiores aos recomendados pela TBSA. Apesar desses resultados serem esperados, os níveis médios de suplementação utilizados (considerando as fases de crescimento e terminação conjuntamente) pela indústria brasileira foram 17, 58 e 31% superiores, respectivamente, às recomendações da TBSA para vitaminas lipossolúveis, vitaminas hidrossolúveis e microminerais, não superando a expectativa de que estes valores fossem em torno de duas vezes a recomendação. No entanto, os níveis de cobre para a fase de terminação superaram estas médias.

Em relação aos níveis utilizados pela indústria americana para as fases de crescimento e terminação, os resultados para as vitaminas lipossolúveis mostram que os níveis brasileiros variaram ligeiramente entre os limites inferiores e superiores. Para as vitaminas hidrossolúveis esses níveis tenderam a serem majoritariamente inferiores, enquanto para os microminerais as variações oscilaram entre 20 e 60% superiores.

Os níveis supra nutricionais de Cu praticados nas dietas de suínos em fase de terminação, observados nesse estudo, também foram relatados em outro estudo de 2016, que trata que nestas dosagens o objetivo do mineral é a ação como promotor do crescimento. No entanto, segundo o NRC (2012), níveis de suplementação acima de 250 mg/Kg podem ser tóxicos para os suínos, não existindo evidências que nestas condições venham a promover algum benefício adicional.

Os níveis recomendados pela TBSA para I e Mn são muito superiores aos recomendados pelo NRC (2012), e os níveis utilizados pela indústria suinícola brasileira mostram-se largamente superiores aos níveis do USA. Apesar de perdas de desempenho serem observadas apenas com níveis de suplementação extremamente elevados (800 mg/Kg para I e 500 mg/Kg para Mn), a utilização de níveis semelhantes aos observados no presente estudo para I e Mn para as fases crescimento e terminação não encontra base científica.

Quanto ao selênio (Se), os níveis utilizados na América do Norte seguem a legislação vigente, que limita seu uso ao nível máximo de 0.3 mg/Kg. No Brasil, apesar de não haver normas claras a esse respeito, os níveis utilizados pela indústria são apenas ligeiramente superiores. No entanto, o potencial efeito positivo de níveis mais elevados deste mineral tem gerado uma pressão da indústria norte-americana para alterações nos limites legais. De fato, a grande variabilidade na concentração endógena de Se nos ingredientes, associado ao intenso metabolismo dos suínos modernos, sugere que a suplementação com 0.3 mg/Kg de Se pode ser sub-ótima para suportar o sistema antioxidante demandado pela genética e pelas condições adversas que são frequentes, como o estresse pelo calor, a alta pressão de infecção, e mesmo a pressão oxidativa causada pela ovulação em porcas hiper-prolíficas.

O presente estudo demonstrou que a indústria suinícola brasileira utiliza a suplementação com Co, Cr, colina e vitC de forma mais disseminada, comparado à indústria suinícola americana. Adicionalmente, a indústria brasileira faz uso de todas as vitaminas hidrossolúveis nestas fases, enquanto nos EUA a maioria não registrou a utilização das vitaminas B1, B6, B7, B9 e/ou colina no crescimento e terminação.

Conclusões

As grandes amplitudes de variação no uso de microminerais e vitaminas observadas entre as empresas, especialmente para vitaminas hidrossolúveis, reflete existir uma postura de precaução ou segurança diante de possíveis variações quantitativas e/ou qualitativas destes elementos nas dietas finais oferecidas aos animais.

Em geral, os níveis elevados praticados destes oligolementos pode sugerir uma tentativa de ajuste nutricional às modernas demandas que os animais detêm. Todavia, há indicativos de que a diversidade dos níveis utilizados não tem um amplo respaldo científico, apontando para uma lacuna, que deve ser explorada com mais pesquisas e investimentos.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Mercado

PSA preocupa, mas é oportunidade para Brasil conquistar novos mercados

Para lideranças, algo que garantiu ao Brasil o aumento das exportações foi gozar de um privilegiado status sanitário

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Arquivo/OP Rural

Identificado em suínos de subsistência na China em setembro de 2018 o vírus da Peste Suína Africana deixou o mercado mundial em pânico. Isso porque a PSA é uma doença altamente contagiosa e que não tem cura nem tratamento. O vírus da PSA foi identificado pela primeira vez na África, no início do século 20, e se estima que chegou à Europa em 1957 por meio de restos de alimentos servidos em aviões contendo produtos derivados de suínos contaminados com PSA. No Brasil, o vírus foi identificado em 1978 em suínos de subsistência, em Paracambi, no Rio de Janeiro. A PSA foi erradicada e o Brasil é considerado livre da doença desde 1984.

Três anos depois de identificado novamente na China, o vírus tem causado grandes mudanças no mercado nacional e internacional. De acordo com o presidente da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes, desde 2018, quando foi notificada na China, a PSA apareceu em outros países do sudoeste asiático, como Vietnã e já chegou a Europa ocidental (Alemanha). Ele explica que a demanda chinesa por carne suína com a redução do rebanho de lá fez com que aos poucos a maior parte das exportações brasileiras fossem direcionadas para aquele país e que o Brasil batesse recordes de exportações em 2018 e 2019, com a expectativa de aumentar também em 2021.

“A China não só substituiu a Rússia, que até 2017 foi o maior destino de nossas exportações, como fez com que quase dobrasse as nossas exportações em três anos. Este crescimento das exportações ajudou a sustentar o aumento da produção brasileira de carne suína que, só no ano de 2020 aumentou em 8,5% em relação ao ano anterior”, conta.

Lopes informa que o impacto principal sentido pelo produtor brasileiro é sobre o aumento da demanda mundial, que fez com que aumentassem as exportações nacionais, ajudando a sustentar os preços pagos ao produtor no Brasil. “Por outro lado, a tragédia observada no rebanho chinês fez com que reforçássemos as medidas de biosseguridade no país e nas granjas”, diz.

De acordo com ele, mesmo com a maior demanda da China e do aumento dos embarques, a disponibilidade de carne suína no mercado interno tem aumentado ano a ano e essa foi a proteína que mais conquistou espaço na mesa do consumidor nestes últimos anos. “Isso aconteceu, pois, a carne suína se mostrou extremamente competitiva na gondola dos supermercados, especialmente quando comparada com a carne bovina, cujo preço explodiu nos últimos anos”, afirma.

A PSA no mundo

Segundo a Organização Mundial da Saúde Animal (OIE), o vírus está presente na África, Europa e Ásia. Entre 2016 e o ano passado 30% dos países destes continentes relataram a doença. Na Europa, muitos países reportaram a doença pela primeira vez em 2016. Entre os países estão a Moldova, República Checa, Romênia, Hungria, Bulgária, Bélgica, Eslováquia, Sérvia, Itália, Polônia e Grécia. Já na Ásia, entre os países que reportaram o vírus, de acordo com a OIE, estão a China, Mongólia, Vietnã, Camboja, Hong Kong, as Coreias, Mianmar, Filipinas, Indonésia e Índia.

Segundo relatório da OIE, a Europa foi responsável por 67% dos surtos relatados entre 2016 e 2020. No entanto, o maior impacto em termos de perdas de animais foi observado na Ásia (82%). Além disso, importantes diferenças são vistas a nível regional. Países africanos relataram surtos apenas em suínos, na Ásia foram principalmente em suínos, enquanto na Europa os relatos foram principalmente em javalis.

De acordo com a Embrapa Suínos e Aves, a PSA é transmitida principalmente pelo contato direto entre suínos infectados e suscetíveis (domésticos ou asselvajados, como os javalis) ou através da ingestão de produtos de origem suína contaminados com o vírus. Na Europa, o ciclo de infecção mais comum detectado é o de suínos que se infectam ao ingerir produtos cárneos de origem suína contaminados com o vírus da PSA, como salames e embutidos, oriundos de restos da alimentação humana. Após alguns dias, os animais iniciam a eliminação viral por meio das secreções e excreções. Além disto, o vírus persiste no sangue e nos tecidos após a morte, tornando-se fonte de infecção para outros suínos.

Os efeitos da PSA no mercado mundial

De acordo com o diretor de Mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Luis Rua, a PSA começou a alterara a dinâmica do mercado em 2018. “Quando a gente falava até 2018, a produção de carne suína no mundo era de um pouco mais de 51% vinda da China. Efetivamente quando começaram os focos, isso mudou”, comenta. Ele explica que os focos se espalharam pela China e outros países da Ásia, como Vietnã e Filipinas, que são grandes consumidores da proteína. “Estes países passaram por problemas em 2018, 2019 e 2020 e, assim, vimos uma redução na produção mundial de carne suína, obviamente puxada pela China, que produzia 54 milhões de toneladas e esse número vem caindo. No ano passado o país produziu 38 milhões de toneladas, é uma diferença de 16 milhões de déficit de produção animal na China”, observa.

O diretor comenta que quando se olha para a China, que antes produziu 54 milhões de toneladas de carne suína em 2019 e no ano passado foi para 38 milhões de toneladas, há um grande déficit. Ainda mais quando as projeções mostram que em 2021 o país asiático deva produzir 42 milhões de toneladas. “Ainda é um déficit de 12 milhões de toneladas. E notamos que a China continua a crescer, a economia como um todo. Quando a China se recuperar totalmente, e ela vai, aos parâmetros anteriores, a demanda chinesa já vai ser maior que os 54 milhões de toneladas que eles produziam antes. Estimamos que eles consumam na casa das 59 milhões de toneladas daqui três anos. De alguma maneira, 54 milhões não é mais suficiente para a China”, afirma.

Rua diz que é preciso lembrar que existe a urbanização, crescimento da renda média, mais pessoas para o consumo, e tudo isso faz com que as estimativas de exportações chineses aumentem. “Mesmo a China voltando, ainda vai haver capacidade forte de importação. Isso, de alguma forma, nos dá o entendimento que o mercado asiático vai puxar as importações de carne suína do mundo”, comenta. Ele observa que o mundo todo está exportando mais para a China desde o início da PSA. “8% do que a China importava antes era do Brasil. Em 2020 nós aumentamos mais proporcionalmente que outros mercados, e passamos para 10% do que a China importou ano passado. Estamos com expectativas maiores. Se olharmos no acumulado desse ano até março, estamos exportando de maneira geral 22% a mais e para a China são 36% a mais que o mesmo período do ano passado. Então continuamos crescendo a participação no mercado chinês”, conta.

Outro ponto observado pelo diretor foi que não a doença não está acometendo somente a China e países da Ásia, mas também da Europa. “Antigamente a China produzia 54 milhões de toneladas e a União Europeia 24 milhões. Até 2018 estes dois dominavam 3/4 da produção mundial de carne suína”, afirma. Rua diz que como a doença acabou se espalhando por países europeus, isso também dificultou as negociações deles. “Países como a Alemanha, por exemplo, estão banidos de exportar para a China”, comenta.

O Brasil, assim, tem aproveitado este cenário para conquistar novos mercados e aumentar suas exportações para aqueles que já negociava. “Nós triplicamos o volume das nossas exportações para o Japão, um mercado que paga mais e é mais exigente. O Vietnã triplicou o volume de exportação de 2019 para 2020. O Brasil, de alguma forma, tem aproveitado esse dinamismo das importações do trade mundial de carne suína para conseguir um cher maior nas exportações mundiais”, afirma. Rua conta que em 2020 os Estados Unidos e o Canadá aumentaram as exportações totais em cerca de 19% enquanto o Brasil aumentou 36%.

Rua ainda destacou que este é o momento de o Brasil valorizar algo valioso que possui: o status sanitário. “Como diz o presidente (Ricardo) Santin, a gente trabalha e reza para não ter nenhuma dessas doenças aqui. Trabalhamos muito forte para evitar qualquer tipo de enfermidade nesse sentido. E isso tem permitido para o Brasil avançar de maneira significativa no mercado internacional”, menciona. Além disso, ele ainda destaca que existe no Brasil um grupo de trabalho para prevenção a peste suína africana. “Trabalhamos em um plano de ação. Não queremos usar nunca esse plano. A ideia é nunca precisar usar, mas estamos preparados”, afirma.

Para Rua, a questão mais importante em toda essa situação que tem acontecido no mercado mundial nos últimos anos é o quanto os outros países perceberam que o Brasil é confiável. “Nós temos o produto para disponibilizar. É importante destacar que no ano passado exportamos mais e isso ajudou na segurança alimentar de diversos países. Mesmo assim, nós não esquecemos do nosso consumidor, o brasileiro. Continuamos vendendo para o mercado doméstico, sendo que 75% do que a gente produz fica aqui para o nosso consumidor. Então mesmo com o aumento das exportações, nós não descuidamos do consumidor brasileiro e, ao mesmo tempo, a gente pôde ajudar na segurança alimentar de muitos países. Nós não deixamos o mercado desabastecer e oferecemos um alimento seguro, saudável e acessível”, menciona.

Conquistando mais mercados

Essa situação também permitiu que o Brasil avançasse na conquista de novos mercados para o produto carne suína. Isso lembra uma situação similar que aconteceu na avicultura, entre 2004 e 2005, quando houve surtos de influenza aviária em diversos países e o Brasil aproveitou a oportunidade, vendendo para novos mercados e se tornando assim líder nas exportações mundiais. “O Brasil tinha o status sanitário, um produto de qualidade, acessível e que era competitivo. Com isso, passamos na liderança das exportações de carne de aves”, conta.

Mas, Rua comenta que para o suíno a situação pode não ser exatamente a mesma – fazendo o Brasil se tornar líder nas exportações – mas que é preciso aproveitar a oportunidade que apareceu e, novamente, aproveitar o status sanitário privilegiado que o país tem. “Na carne suína ainda estamos longe de sermos líderes na exportação, mas mês após mês nós viemos avançando e ganhamos mais espaço no mercado mundial”, afirma. O diretor frisa que mesmo a China sendo o destino da maioria das exportações brasileiras, o trabalhando que vem sendo feito por aqui é para abrir novos mercados. “Viemos trabalhando forte nisso e o nosso status sanitário sempre deve ser colocado como um ponto fundamental”, avalia.

De acordo com Rua, a expectativa é que cada vez mais o Brasil ganhe mais mercados. “O Brasil vem aumentando a sua participação, exportando para países com bastante valor agregado, como é o caso do Japão e dos Estados Unidos, que são mercados que pagam bem e isso é importante também quando consideramos novos mercados”, diz.

Outro ponto positivo para o Brasil, segundo o diretor, foi quanto a sensatez do setor produtivo nacional. “Crescimento bom é aquele crescimento sustentável. A gente não pode fazer loucura e o setor aprender muito dessa questão no passado. O setor teve essa maturidade de entender que existe a oportunidade que deve ser aproveitada, mas de uma forma inteligente e saudável, confiando no nosso status e no produto”, comenta.

“A gente não torce e nem comemora a desgraça alheia, mas é uma oportunidade de mercado e temos trabalhado forte para manter o nosso status sanitário, trabalhando com o Mapa e as Relações Exteriores para incrementar o número de mercados. Cada vez que abre mercado, expande um pouco as exportações e isso afeta positivamente para o nosso produtor, tanto o de insumos quanto para o suinocultor”, conclui.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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