Conectado com

Bovinos / Grãos / Máquinas Airton Spies avalia

Cadeia do leite precisa fazer o que fizeram as cadeias de aves e suínos

Consultor acredita que nova era do leite vai eliminar muitos produtores, mas profissionalizar os que ficam e atingir o mercado externo

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

Nos anos 1980 Santa Catarina tinha cerca de 26 mil produtores de suínos. Hoje conta com cerca de 10 mil, mas produz quatro vezes mais. A indústria se profissionalizou, dividiu a produção em fases, ganhou eficiência, lucratividade, conquistou o mundo, mas só em Santa Catarina penalizou 16 mil propriedades rurais que não seguiram a profissionalização do setor. Assim vai acontecer com a cadeia do leite. Nos próximos anos, milhares de famílias rurais em todo o país vão deixar a atividade. Quem ficar, terá pela frente um caminho de mudanças desde a forma de produzir até na hora de receber o dinheiro. O preço do litro pouco vai importar. Haverá produtor de leite sem sala de ordenha, ou aquele que sequer tem uma vaca.

Quem explica melhor é o consultor Airton Spies, que foi secretário de Agricultura de Santa Catarina por nove anos e fez seu doutorado na Nova Zelândia, referência mundial na produção leiteira e que hoje responde por 45% das exportações mundiais dessa proteína. Spies falou a produtores de leite da cooperativa Copagril durante Seminário Anual, que aconteceu em maio, em Marechal Cândido Rondon, PR. Para ele, a nova era é de mais qualidade e abertura do mercado externo para o leite brasileiro. “No Brasil hoje o leite ainda lembra a suinocultura da década de 1980 no Sul”, sustenta.

“O leite está cheio de bons problemas, que são aqueles que têm solução. Já fizemos essa profissionalização com aves, boi, suínos, cana-de-açúcar, mas a cadeia do leite ainda está acanhada, tem muito dever de casa para fazer. No entanto, temos ótimas perspectivas. Uma verdadeira revolução está acontecendo na cadeia do leite. Queremos que o leite do Brasil possa bater as portas do mercado internacional. Para isso, precisamos produzir com qualidade, sustentabilidade e credibilidade do ponto de vista sanitário”, introduziu o consultor, que fez um paralelo entre a produção brasileira e neozelandesa.

O pequeno país da Oceania está em linha reta com a região Sul do Brasil e tem as mesmas características, por exemplo, de clima e regime de chuvas. Os três estados do Sul representam 40% da produção leiteira do Brasil. De acordo com Spies, até 2025 Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná serão responsáveis por 50% da produção nacional. De acordo com ele, há muito o que aprender com modelos como da União Europeia, Austrália e Nova Zelândia, país que exporta 94% de toda sua produção. “São os concorrentes que vamos encontrar no mercado internacional”, justifica.

“A Nova Zelândia tem um leite a custo baixo, qualidade alta e logística para vender a produção para o mundo inteiro. Eles exportam 94% dos 22 bilhões de litros produzidos. De cada 100 litros de leite exportados no mundo, a nova Zelândia é responsável por 45”, cita. É mais, por exemplo, do que toda a União Europeia (30% das exportações mundiais de lácteos).

Desafios do Brasil

Hoje o Brasil produz 35 bilhões de litros de leite, mas praticamente não exporta. No ano passado, de acordo com ele, o país exportou 1% de toda sua produção, mas importou 3% do leite consumido. Ou seja, ainda é importador. Como o crescimento da produção é maior do que o do consumo, avalia, a tendência é que em pouco tempo o Brasil tenha que vender o “excedente” no mercado internacional. “Em breve teremos que exportar. E para ser competitivo nesse mercado precisa leite de alta qualidade, a custo baixo, em pequenas propriedades, à base de pasto, em cadeias produtivas organizadas e eficientes, como a do frango e a do suíno, respeitando o meio ambiente e o bem-estar animal. A lógica do modelo da Nova Zelândia é produção a base de pasto, porém usando todo insumo que der lucro (ração, aditivos, solo, clima, planta, animal, mercado).

Naquele país, citou, a produção é subdividida. Há fazendas só para bezerras, outras só com vacas em lactação e até produtor que não tem vaca nem terra, mas trabalha cobrindo férias dos fazendeiros. A organização com a indústria foi fundamental, citou Spies, para que a Nova Zelândia chegasse a esse nível de profissionalização. “Temos que fazer isso no Brasil, ter contratos bem definidos com as especificidades de ambas as partes (indústria e produtores)”, defende.

Menos e maiores produtores

Para Spies, uma tendência é no Brasil a pecuária leiteira ter menos e maiores produtores. “Muitos vão deixar a atividade, mas vai surgir emprego em outras áreas afins, como aconteceu com a suinocultura. Hoje o Brasil tem 1,2 milhão de produtores de leite, segundo o IBGE, mas são cerca de 650 mil que entregam para a indústria. A pergunta é: Quantos sobrarão? Produtor de leite que ficar parado está andando pra trás”, aponta. “Quais as lições que veem de lá (Nova Zelândia): ênfase no pasto, escala e tecnologia. Vamos ter que aumentar escala. O que temos hoje vai mudar, vai haver uma reorganização de produtores e da indústria, teremos uma cadeia mais produtiva e eficiente”, aposta.

Os números mostram que a cadeia subdividida do leite na Nova Zelândia é muito mais eficiente que a brasileira, a começar pelo teor de sólidos no leite, que, segundo Spies, é o novo modo com o qual o produtor vai receber pelo leite. Quanto mais sólidos, melhor é o preço pago. De acordo com ele, o teor de sólidos (soma da gordura e proteína) do país da Oceania é 31% maior que no Brasil (8,9% contra 6,8%). “Leite precisa ser visto como matéria-prima para centenas de produtos industrializados. Portanto, pagamento por sólidos e por qualidade é essencial. Preço por litro um dia vai ser coisa do passado”, aposta.

Ainda, mencionou, enquanto a produção média de uma vaca na Nova Zelândia é de 4.489 litros por ano, no Brasil é de 2.050. No Paraná, chega a 3 mil litros/vaca/ano. O rebanho é de 11,6 milhões, com 4,99 milhões em lactação. O número médio de animais por propriedade é de 431. As fazendas têm em média 151 hectares e empregam uma pessoa para cada 147 vacas em lactação.

Um ponto mencionado como importante naquele país, citou Sipes, é que 27% dos produtores trabalham em parceria. Enquanto uns ficam responsáveis por uma fase, como a ordenha, outros trabalham com as vacas secas. É esse modelo, em sua opinião, o futuro da cadeia de leite no Brasil.

Papel do Sul

Spies demonstrou que a produção mundial e o consumo estão aumentando ao longo dos anos, com melhores perspectivas para os próximos anos, com a ascensão de países como China, Índia e as 55 nações do continente africano. Juntas, essas nações representam 3,75 bilhões de pessoas.  “O consumo mundial passou de 106 litros em 2010 pra 117 litros em 2018”, exemplifica.

Essa produção deve ser maior no Sul do país, onde a indústria trabalha com capacidade ociosa. “Em 2025 o Sul estará produzindo a metade do leite do Brasil. Hoje já é 40%, mas a população representa 15% do consumo. No Sul já temos capacidade ociosa. Em Santa Catarina temos capacidade industrial de 12 milhões de litros e produzimos 8,5 milhões de litros. A indústria está na frente, e o desenvolvimento da cadeia leiteira deve ocorrer mais fortemente no Sul. “O Sul será a nova meca para exportação de leite no Brasil”, sugere o consultor.

Sipes é coordenador da Aliança Láctea Sul Brasileira, órgão criado pelos três governos do Sul pra resolver problemas do leite com vistas a aproveitar as oportunidades através de ações conjuntas.

Qualidade do pasto à indústria

Para Spies, um dos principais deveres de casa é melhorar a qualidade da pastagem. “Sabemos bem tratar a lavoura de soja e milho, e o pasto? Temos dado o mesmo tratamento? Temos que chegar à agricultura de precisão também na produção de pastagem, aplicar os princípios agronômicos para otimizar a produção de pasto. É preciso produzir muita biomassa, mas ainda precisa converter, para isso usamos a genética, queremos máquinas (vacas) que convertem melhor a nossa biomassa”, garante. “No Brasil estamos bastante acostumados (ainda) com padrões da raça. A Nova Zelândia mostrou que a melhor vaca é aquela que mais converte pasto em leite e dinheiro. Hoje ainda somos pagos por litro de leite. Esqueça isso, no futuro não vai ser assim. A água do leite só serve pra fazer leite longa vida, mas para a indústria é ‘problema’. A indústria vai pagar por qualidade (Contagem de Células Somáticas – CCS – e Contagem Bacteriana Total – CBT) e por sólidos para exportar queijo, manteiga e leite em pó. Esse é o futuro”, expõe.

Um dos destaques, que segundo Spies garante maior eficiência na CBT, é resfriar o leite o mais rápido possível. Na Nova Zelândia, expôs, eles utilizam um pré-resfiador, que permite gelar o leite a 4º C praticamente quando a ordenha é finalizada. “A qualidade depende muito do frio eficiente. O segredo deles é o pré-resfriador. O leite chega a 4 graus praticamente quando acaba de ordenhar. As bactérias não têm chances com o frio. Hoje no brasil leva de três a quatro horas para chegar a 4 graus. E logo que chega vem o leite da outra ordenha. Para ter qualidade só tem um jeito, o frio tem que ser eficiente”, garante. “Toda vaca saudável dá leite bom, nós que estragamos depois que sai do ubre. A única forma de conservar é o frio”, reforça.

Dever de casa

O consultor cita cinco pontos para a cadeia do leite perseguir como dever de casa a ser feito. “1 – qualidade: aumenta o teor de sólidos e reduzir CBT e CCS, melhorar a refrigeração do leite e sanear brucelose, tuberculose e febre aftosa sem vacinação. 2 – custos: aumentar a escala de produção, com segmentação, alimentação e genética. 3 – organização setorial: formalização das relações entre os elos da cadeia, rotas de coleta e parceria entre produtores. 4 – infraestrutura: estradas para 4 eixos, energia trifásica e internet. E 5 – equilíbrio: eliminar assimetrias tributárias (estados e países)”.

Para cumprir o dever de casa, cita, é preciso “fodo, pesquisa e assistência técnica especializada e defesa agropecuária robusta”. Para Spies, o futuro é ganhar com o uso da terra, a produtividade dos animais e a produtividade da mão de obra, usando a estruturas e logística certas.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo
Clique para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

cinco × cinco =

Bovinos / Grãos / Máquinas Atenção

Hidratação em casos de diarreia é mais do que oferecer água

É evidente que casos de diarreia tem repercussões econômicas ao longo da vida do animal

Publicado em

em

Divulgação

Artigo escrito por Petterson Souza Sima, mestre em Zootecnia e supervisor Técnico e Marketing do Grupo Kersia

Que a diarreia neonatal é o principal problema na criação de bezerros leiteiros já sabemos há anos. É estimado que entre 20 e 52% dos animais leiteiros em todo mundo sofrem com seus prejuízos, com mortalidade variando de 10,3% a 34% Com custos de 30 a 40 euros por caso de diarreia, as perdas financeiras envolvidas além de episódios de diarreia também têm efeitos sobre o animal.

As perdas financeiras envolvidas além de episódios de diarreia também têm efeitos sobre o animal adulto. Estima-se que uma vaca que teve diarreia quando bezerra pode perder até 17% do seu potencial de produção leiteira, devido as lesões ocorridas no intestino que reduzem sua capacidade de absorver nutrientes. Além disso, segundo estudo canadense, bezerras que sofrem de diarreia antes do desmame apresentam risco quase 3 vezes maior de parir apenas após 30 meses de idade, e risco 2,5 vezes maior de serem abatidas devida à baixa produção.

Portanto, é evidente que casos de diarreia tem repercussões econômicas ao longo da vida do animal e é importante que o criador limite o desenvolvimento dos casos com tratamento adequado, reduzindo os impactos imediatos e futuros ao máximo.

Devemos continuar fornecendo leite?

Recomendou-se por muito tempo a substituição parcial ou completa do leite por uma solução de reidratação oral, por acreditar que a redução da capacidade digestiva durante os casos piorasse o quadro de diarreia e proliferação das bactérias.

Porém, pesquisas das últimas décadas constatam que mesmo em quadros de diarreia os bezerros ainda têm capacidade digestiva suficiente para utilizar o leite e que a presença do mesmo não piora ou prolonga a doença. Observou-se que bezerros recebendo apenas soluções de reidratação oral podem continuar desidratados e perder peso rapidamente. Em contraste, bezerros recebendo sua cota diária de leite (10% de peso corporal) suplementada com uma solução de reidratação não apresentam sinais de piora e geralmente ganham peso durante o período de tratamento e recuperação da doença.

Reidratação oral: principal meio de combate à diarreia

O grau de desidratação pode variar, podendo o bezerro perder o equivalente a 10% do seu peso vivo em água a cada dia, de modo que se caracteriza como o efeito mais severo da diarreia no animal. Mas isso não significa que apenas a reposição de água no organismo é necessária. Distúrbios eletrolíticos, ácido-base e metabólicos também podem ocorrer. Tudo isso podemos controlar por meio da terapia de reidratação oral.

E não tem segredo. Quanto mais rápido intervirmos, menores os impactos. O ideal é que 50% das deficiências sejam corrigidas dentro de 6 horas, 75% dentro de 24 horas e o resto no dia seguinte. Por isso produtos reidratantes dissolvíveis em água e com alta palatabilidade são grandes aliados. Assim evitamos que os animais cheguem a quadros severos, exigindo intervenção intravenosa. Além do balanço hídrico, pelo menos 3 outros pontos merecem atenção.

Eletrólitos. Estão envolvidos na manutenção das constantes físico-químicas, restaurando o equilíbrio osmótico, hidratação intracelular e funções fisiológicas dependentes de tais elementos (transporte de gases no sangue, impulsos nervosos, funções hepáticas, etc.).

Primeiramente são os íons de sódio que asseguram a reidratação dos compartimentos extracelulares e intracelulares do corpo. Os íons de potássio são cruciais para a manutenção do equilíbrio osmótico intracelular e evitar distúrbios como fraqueza muscular, hipo e hipercalcemia. Íons de cloro estão envolvidos na manutenção do pH do sangue e metabolismo, como regulagem do cloreto e sódio no sangue através dos rins.

Bicarbonato de sódio e outras substâncias alcalinizantes. Bezerros fracos, com diarreia e ataxia ou com falta de apetite sofrem de acidose metabólica. Isto é caracterizado por um pH arterial reduzido, provindo de uma acidose a nível digestivo. O tratamento mais eficaz para combater a acidose metabólica é a administração de substâncias alcalinizantes, também conhecido como substâncias tamponantes.

O bicarbonato de sódio é a substância tamponante mais utilizada, eficaz e imediata. Já substâncias como acetato de sódio e citrato trissódico agem apenas a nível sanguíneo, após metabolismo no fígado (evitando a coagulação do leite). Alguns produtos utilizam as duas formas para maior eficiência.

Energia rapidamente absorvível. Existem diferentes tipos de soluções de reidratação para bezerros: soluções convencionais de reidratação isotônica, soluções de reidratação com lactose concentrada, soluções de reidratação que contêm pectinas e/ou hidrocolóides, e soluções de reidratação hiperosmótica/hipertônico. É extremamente importante que a solução ofereça uma fonte de energia altamente digestível para revigorar o bezerro e garantir que seu metabolismo seja reativado, já que comumente os bezerros perdem apetite e reduzem o consumo de alimento.

Destacamos aqueles com lactose concentrada, afinal, é o principal carboidrato do leite, aquele que o bezerro é preparado para metabolizar. Esta categoria de solução tem a vantagem de reiniciar a drenagem do abomaso, é altamente digestível e limita o risco de recaída na diarreia crônica. Mas a vantagem mais significativa deste tipo de solução sem dúvida é a manutenção da atividade da lactase, graças à presença de lactose no produto. Isso facilita a manutenção de uma dieta láctea durante e após a desordem digestiva ter sido resolvida.

Além disso, a lactose é convertida em glicose e galactose, que são então absorvidas separadamente. Isso traz certas vantagens significativas em comparação ao uso de apenas glicose. Com os dois sacarídeos, teremos uma fonte de energia imediata, a glicose, e outra retardada, já que a galactose precisa primeiro sofrer um rearranjo estrutural antes de ser capaz de ser usada na via da glicose. Por fim, a hidrólise de lactose também aumenta a quantidade de sódio e água que a mucosa intestinal absorve.

É válido ressaltar que essas soluções hidratantes são também indicadas para serem usadas em momentos de transporte, remanejamento, adaptação e, principalmente, recuperação de doenças, o chamado período de convalescença. “Beba bastante água” é o que ouvimos dos médicos quando estamos nos recuperando da maioria das doenças, e pode apostar que com os bezerros não é diferente.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Bovinos / Grãos / Máquinas Nutrição

Inverno: a temporada das forrageiras

Pastagens escassas e menor produção de forragem afetam diretamente a nutrição dos bovinos

Publicado em

em

Divulgação/Matsuda

Uma das maiores preocupações do pecuarista nas épocas mais frias do ano é com a qualidade do pasto que é ofertado aos animais, alternativas para evitar o efeito sanfona e não perder sua lucratividade. Pastagens escassas e menor produção de forragem afetam diretamente a nutrição dos bovinos. Para enfrentar esse período de frio e seca, algumas decisões podem ser tomadas, previamente, como a inserção de suplementos energéticos e proteicos na dieta.

O engenheiro agrônomo Marcelo Ronaldo Villa explica: “Trabalhamos com produção a pasto, sendo que Brachiaria e Panicum contribuem com o maior percentual das pastagens cultivadas e respondem bem à temperatura, umidade e luminosidade elevadas” diz. Outro fator importante segundo ele, “é que no período do outono e inverno há uma diminuição no volume de forragem produzida, assim como a qualidade.  Quando entra no período mais seco e frio, as condições ideais (temperatura, umidade e luminosidade) para as forrageiras tropicais diminuem porque a planta faz menos fotossíntese, consequentemente vegeta menos. A qualidade dessa forragem fica comprometida, além do volume para ofertar aos animais é mais escasso nessa época do ano. Quanto menor a oferta, maior será a dificuldade para o produtor rural manter o rebanho produtivo”, argumenta.

Para o pecuarista ter uma “folga” e mais tranquilidade nesse período do ano, algumas precauções devem ser tomadas. “Primeiro é necessário ter uma pastagem bem conduzida no período que compreende a primavera e o verão. Implantar pastagem de qualidade, utilizando técnicas de diferimento – estratégia de manejo que ocorre geralmente no fim do período das águas para garantir volume de forragem durante o período de seca”, destaca Villa.

Segundo ele, é mais recomendado a utilização das braquiárias para fazer o diferimento.  “Nós indicamos sempre que no planejamento sejam usadas as braquiárias preferencialmente, e dentre as cultivares existentes no mercado, podemos destacar a MG-4 e a MG-13 Braúna, duas cultivares com porte mediano, talos mais finos e mais enfolhamento”, avalia.

Essas cultivares são recomendadas para solo de média a alta fertilidade, porque são tolerantes a solos arenosos. Já para fazer a reserva de pastagem de uma maneira prática, alguns aspectos devem ser levados em consideração. Por exemplo, “em uma área de 100 hectares, temos que colocar os animais em 70 hectares e os outros 30 hectares deixar diferido, é um dos jeitos que se pode trabalhar. Lembrando que esses 70 hectares têm que ser de cultivares de alta produtividade para que ( o local) não fique sobrecarregado devido ao aumento da quantidade de animais por hectare, ocasionada pela diminuição da área de pastagem disponível, evitando que falte alimento nesse período”, reforça o engenheiro agrônomo.

De acordo com o especialista, em uma estrutura de confinamento ou semiconfinamento, não se pode abrir mão de fazer a conservação de forragem plantada exclusiva para essa finalidade, ou aproveitar o excedente de produção de áreas plantadas para pastoreio direto dos animais (devido às chuvas da primavera-verão a luz é bastante intensa e a temperatura elevada, com isso será produzido mais que o rebanho tem capacidade de ingerir diretamente).

Na entressafra

Para quem utiliza o sistema de Integração Lavoura-Pecuária (ILP), área que estava com lavoura (primavera/verão) e não vai ser trabalhada nesse período, pode ser transformada em área de pastagem com alta qualidade e volume. Nesse caso, não seria necessário diferir uma área de pastagem já implantada, pois essa área com pastagem nova é que vai funcionar como a pastagem diferida e fornecer volumoso em quantidade adequada para os animais no período de maior escassez.

Alinhando essas técnicas a uma suplementação mineral adequada, sustenta o profissional, é possível que o animal ganhe peso mesmo no período de inverno. “O produtor terá pastagem com animais ganhando peso, e isso tem motivado cada vez mais os pecuaristas”, menciona.

Gargalo da pecuária

Marco Antônio Finardi, médico-veterinário, diz que é durante a seca que acontece um período crítico sobre a qualidade nutricional dos alimentos que os animais têm à disposição, principalmente pastagem. Ocorre então um decréscimo extremamente alto nos níveis proteicos das forragens em até 50%, cita. Já a oscilação nos níveis energéticos fica em torno de 15 a 20%. Nos níveis minerais esse decréscimo chega até 80%, revela.

Ele destaca que com o decréscimo desses nutrientes nas forragens, a atividade da microbiota ruminal fica comprometida, pois na maioria das situações, os níveis proteicos da dieta encontram-se abaixo de 7%, quantidade mínima para que ainda ocorra uma fermentação eficiente de forragem. Além da queda do valor nutricional, existe também uma maior dificuldade de digestão desses alimentos por parte dos bovinos. “Temos um aumento da parte estrutural da planta, principalmente no teor de lignina, que é um nutriente indigerível para o bovino, dificultando ainda mais o acesso da microbiota aos nutrientes em si”, lembra o veterinário.

Com isso, aumenta também o tempo de passagem do alimento pelo rúmen.  O animal vai comer menos, o que vai refletir no seu desempenho, com possível perda de peso (efeito sanfona). “A utilização de proteína e energia nessa época do ano é extremamente importante, principalmente a proteína, para que esse nutriente equilibre os níveis mínimos de proteína disponibilizada para a microbiota e melhore a sua multiplicação e o povoamento ruminal”.

Aumentado esses microrganismos dentro do rúmen e sua atividade, logicamente ocorrerá uma ação muito melhor frente ao processo de degradação do alimento.  “Consumir mais forragem e nutrientes traz grande vantagem para o bovino, já que esse animal vai manter o peso e com possibilidade de apresentar ganho”, assegura Finardi.

Suplemento Ureado X Suplemento Proteinado?

Você sabe a diferença do suplemento mineral ureado e suplemento mineral proteinado? Esses produtos levam em sua formulação todos os minerais essenciais, além de fontes de proteína, que podem ser de origem verdadeira, como o farelo de soja, e de origem não verdadeira, como a ureia. O tempo de degradação do nitrogênio na proteína não verdadeira é muito rápido. “Se não tivermos carboidrato de rápida liberação, ocorrerá perda de nitrogênio”, pontua Finardi.

Ainda de acordo com o veterinário, “a associação de uma degradação rápida da ureia com a degradação um pouco mais lenta do farelo e a degradação mais lenta do capim vai dar tempos diferentes de liberação de nutrientes”. Para ele, esse processo é “muito importante para que a microbiota aproveite todos esses nutrientes, ocorrendo maior multiplicação, maior atividade e maior degradação”, diz.

Quando se trata de suplementos minerais ureados (suplemento mineral + ureia), se comparado somente a utilização de suplemento mineral de linha branca, ou seja, só com minerais, é possível fornecer complementação de proteína não verdadeira para a microbiota.

Mas, para que se consiga um bom resultado com a utilização de suplementos minerais ureados, é extremamente importante que a oferta de forragem disponível aos animais esteja extremamente seca, uma vez que a ureia é amarga e pode haver diminuição do consumo do suplemento, caso esta forragem ainda não se encontre tão seca.

Já o benefício de utilizar o suplemento mineral proteico, que além da ureia tem em sua composição fontes proteína verdadeira, é uma maior resposta e desempenho dos animais nesse período crítico. Para conseguir um bom desempenho, sugere, manutenção de condição corporal e até ganhos, é indispensável que a oferta de forragem em quantidade atenda as necessidades dos animais.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Bovinos / Grãos / Máquinas Sanidade

Programa de higienização em bebedouros muda realidade em fazenda de Goiás

Água suja com algas pode levar os animais à morte, interfere na sanidade e no consumo limitante da matéria seca

Publicado em

em

Divulgação

Artigo escrito por Guilherme Augusto Vieira, médico veterinário, professor universitário e colunista do jornal O Presente Rural

Um dos desafios que na produção de gado de corte é a limpeza de bebedouros e a qualidade da água. Minha mais nova experiência no assunto começou quando fui visitar a trabalho uma fazenda no Estado de Goiás e o proprietário estava com o seguinte problema: bebedouros sujos com algas.

O bebedouro está repleto de algas e outros elementos. O proprietário não sabia mais o que fazer, já tinha tentado de tudo e todo tipo de produto. E o “melhor” da história: os bebedouros eram lavados, religiosamente, a cada 15 dias. Aceitei o desafio, fui estudar o caso e buscar as soluções.

Primeiramente fui buscar na literatura porque crescem algas nos bebedouros? As algas podem levar problemas sanitários aos animais? Quais as consequências? Como resolver o problema? Por que ocorre o aparecimento de algas no interior dos bebedouros dos bovinos?

O aumento da “população” de algas nos ambientes aquáticos deve-se a ocorrência da eutrofização, que vem a ser um enriquecimento artificial causado pelo aumento das concentrações de nutrientes na água, principalmente por compostos nitrogenados e fosfatados, resultando num aumento dos processos naturais da produção biológica.

A eutrofização natural ocorre em águas provenientes do escoamento superficial e também dos rios das bacias de drenagem que arrastam a matéria orgânica para dentro destes ecossistemas. Daí conclui-se que a captação de água dos rios que é armazenada e distribuída aos bebedouros encontra-se rica em matéria orgânica, fato este que propicia o aparecimento das algas.

Os fatores que propiciam o desenvolvimento da matéria orgânica e consequente aumento da população de algas nos bebedouros são:

  • Águas provenientes de rios, mananciais superficiais ou subterrâneos que não receberam tratamento químico nos reservatórios
  • Inexistência ou deficiência de filtragem mecânica e biológica que retiram o excesso de matéria orgânica e detritos sólidos da água presente nos reservatórios centrais das fazendas
  • Nos bebedouros a água fica parada, com baixa velocidade de circulação da água favorecendo a eutrofização, o acúmulo da matéria orgânica e consequentemente aumento da população de algas
  • Alcalinidade da água, ausência de oxigênio e dureza da água são fatores predisponentes para o crescimento de algas
  • Limpeza inadequada dos reservatórios com incrustação de matéria orgânica nas superfícies dos bebedouros

Toxinas

Outro fator que observei durante a pesquisa, foi que a maioria das fazendas não realizam o processo de higiene de forma adequada, não utilizam corretamente os produtos e realizam os processos de forma aleatória.

Outra questão na qual fomos procurar as respostas: Quais os perigos, por parte dos animais, de consumir água suja com algas? Entre os grupos de algas que se desenvolvem nos bebedouros estão as Cianobactérias, que é um grupo de algas cianofíceas. Algumas florações de cianobactérias provocam alterações no gosto e no sabor da água, redução no oxigênio dissolvido, além da liberação de toxinas prejudiciais à saúde do homem e dos animais. De acordo com pesquisas de outros estudiosos, há diversos registros de morte por envenenamento de bovinos, equinos, suínos, ovelhas, cães, peixes e invertebrados.

As toxinas das cianobactérias são conhecidas como cianotoxinas. As cianotoxinas produzidas ficam contidas dentro das células de cianobactérias em crescimento ativo, são liberadas para a água quando as células envelhecem, morrem ou rompem, tornando-se toxinas dissolvidas na água.

Um dos gêneros mais comuns de incidência nas florações algais é o gênero Microystis, que sintetiza uma hepatotoxina chamada Microcistina, que pode permanecer na água por mais de três semanas. Esta toxina causa sérios problemas de saúde nos animais e no homem, como tumores, patologias hepáticas, vômitos, diarreias, prostração e dor abdominal.

Em relação a produção animal há diversos relatos na Austrália, Dinamarca e Áustria de morte de animais que consumiram água contaminada com florações de cianobactérias. No Brasil os estudos são escassos não tendo comprovações científicas sobre a morte de animais devido à ingestão de águas contaminadas com algas.

Consumo menor

Outra questão importante é quanto a ingestão da água de qualidade. Bebedouros com águas sujas limitam o consumo de água por parte dos animais. A função mais importante relacionada à água na produção animal é em relação à nutrição animal, pois a ingestão de água apresenta correlação positiva com a ingestão de matéria seca, ou seja, quanto mais consumo de água maior consumo de matéria seca (o inverso também ocorre).

Por exemplo: o pastejo de capins de baixa qualidade em áreas tropicais resulta em baixa ingestão de água porque a ingestão de MS é baixa, logo em fazendas de produção de gado de corte o ganho de peso vai estar totalmente comprometido com o baixo consumo de matéria seca.

Como resolver o problema de limpeza dos bebedouros?

Após pesquisar bastante sobre o assunto, propus para o proprietário da fazenda um Programa de Higiene de bebedouros (PHB), com várias etapas. A finalidade do PHB é manter a saúde dos animais através da diminuição da possibilidade de contaminação de doenças de origem hídrica, mantendo os níveis baixos dos agentes patogênicos nos bebedouros.

É importante que todos na fazenda tenham consciência da importância do PHB e que todos os colaboradores, gerentes, proprietários sejam educados quanto a importância e conhecimento das etapas do PHB, estando cientes das consequências de seu emprego incorreto.

Etapas do PHB

O Programa de Higiene de Bebedouros propõe uma ação de fácil execução, com adoção de técnicas simples, utilização de materiais de fácil acesso e o mais importante: seja executado da maneira mais simples possível.

Os detergentes e desinfetantes são de usos específicos, devem ser aplicados de maneira correta, com indicação técnica, ou seja, não se deve utilizar detergentes neutros e desinfetantes de uso doméstico, pois não apresentam efetividade na remoção da matéria orgânica.

Veja as principais etapas do Programa de Higiene dos Bebedouros para deixar os bebedouros limpos em sua fazenda:

  • Seque e escorra toda água do bebedouro
  • Desmonte e limpe as boias, os canos e faça a manutenção dos canos e equipamentos, retirando toda a sujeira da superfície
  • Com o bebedouro seco, realize a limpeza seca
  • Proceda a limpeza úmida com jateamento de água no chão e parede dos bebedouros, logo depois use os detergentes apropriados
  • Utilize sanificantes profissionais, registrados no Ministério da Agricultura, utilizando a dosagem recomendada
  • Deixe o produto agir por uma hora nas superfícies do bebedouro
  • Monte o complexo boia e volte a encher novamente o bebedouro

Conclusão

Utilizando os passos sugeridos, a utilização correta da cloração da água (a água da fazenda deve ser limpa, sem matéria orgânica e tratada), os bebedouros da sua fazenda terão um bom tempo com água limpa, lembrando que a limpeza e higiene dos bebedouros devem ser realizadas periodicamente.

A água suja com algas pode levar os animais à morte, interfere na sanidade animal e no consumo limitante da matéria seca. Demonstrou-se que há soluções técnicas como o Programa de Higiene de Bebedouros que deve ser executado de acordo com as orientações técnicas adequadas.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo
AB VISTA Quadrado
Evonik Aminonir
TOPIGS – BRASIL PORK EVENT 2019
Biochem site – lateral

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.