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Bovinos / Grãos / Máquinas

Aproveitamento de quase 100% do boi revela outro lado sustentável da pecuária

Esterco e até conteúdo digestivo são usados pela indústria frigorífica, mas ainda há espaço para melhorar.

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Foto: Shutterstock

A produção de carne bovina vai muito além da carne propriamente dita. Co-produtos como, miúdos não comestíveis, sangue, tendões, orelhas, entre outras partes do animal que outrora eram descartadas, hoje servem de insumos para diversos segmentos da indústria, agregam valor ao produto, representam uma renda extra na produção e tornam a atividade mais sustentável.

O assunto foi debatido durante a segunda edição do Acricorte, um dos maiores encontros de pecuária de Mato Grosso, realizado no Cenarium Rural, em Cuiabá (MT), pela Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat).

Sérgio Pflanzer, médico-veterinário, mestre e doutor em Tecnologia de Alimentos: “Praticamente todas as partes do boi são aproveitadas pela indústria, nada é desperdiçado” – Foto: Arquivo pessoal

Na palestra “Do boi não se perde nem o berro. Para onde vão os co-produtos?”, o médico-veterinário, mestre e doutor em Tecnologia de Alimentos, Sérgio Pflanzer, salienta que a necessidade de se aproveitar todas as partes do boi é algo comum na história, porém, ao longo dos anos a indústria ampliou a gama de co-produtos feitos a partir de restos de animais de produção abatidos. “Em qualquer tipo de produção industrial de alimentos é preciso otimizar o uso da melhor maneira possível, e com isso agregar valor”, salienta.

No Brasil, o aproveitamento do que sobra do boi varia conforme o tamanho da indústria. De acordo com Pflanzer, algumas grandes empresas aproveitam próximo a 100% dos animais, desde o esterco e o conteúdo digestivo, usados para produção de compostagem, fertilizantes, e biometano, até tendões, couro, miúdos, vísceras e ossos. “Nada ou quase nada é desperdiçado, em muitos casos o aproveitamento é praticamente total”, destaca.

Outros frigoríficos de menor porte não destinam as sobras das carcaças com a mesma eficiência. Conforme Sérgio Pflanzer, muitas vezes, nesses casos, os frigoríficos são clandestinos e não conseguem direcionar esses materiais e fazem o descarte de maneira inadequada. “Nos abates fiscalizados se consegue comercializar todos os produtos da carcaça”, comenta.

Destino

O mercado Pet food absorve boa parte dos sub-produtos, especialmente os miúdos de baixo valor agregado, chifres e cascos são usados na produção farinha utilizada na fabricação de ração e outros produtos do segmento pet. A indústria farmacêutica e a de cosméticos utilizam miúdos, sangue, tendões, orelha, entre outras partes do animal como insumos para sua produção.

Segundo Pflanzer, é preciso ficar atento para as oportunidades que existem em relação aos co-produtos que podem ser comercializados, além da carne. “Algumas glândulas dos animais são usadas pela indústria farmacêutica para produção de hormônios utilizados na medicina humana”, menciona.

O couro e o conteúdo digestivo são os principais co-produtos em volume. Ossos e a gordura são usados na produção de ração, glicerina e sabão. Entretanto, de acordo com Pflanzer, recentemente a produção de biodiesel passou a utilizar uma fatia considerável desses co-produtos. “A produção de biodiesel está tomando conta. Percebeu-se que transformar a gordura animal em combustível tem uma agregação”, salienta.

Conforme Pflanzer, é difícil atrelar a utilização de co-produtos com o produtor, isso sempre fica a cargo da indústria. “O produtor não recebe diretamente por eles, recebe em partes, pelo peso e cotação do valor da carcaça”, menciona.

Embora o produtor não seja diretamente beneficiado pela venda dos co-produtos, Pflanzer salienta que é importante a colaboração com o aproveitamento ideal dos sub-produtos. Em relação ao couro, Pfzanzer destaca a necessidade do produtor evitar marcar a fogo e o excesso de parasitas para o produto não perder valor. “Nada impede que no futuro haja alguma negociação para que o frigorífico consiga talvez repassar ao produtor que preserva a qualidade do couro”, vislumbra.

Sustentabilidade

Assim como em outras atividades de produção, na bovinocultura a sustentabilidade não se resume somente ao meio ambiente. A tarefa não é simples, afinal, é preciso desenvolver a atividade de maneira realmente sustentável, associada a aspectos tecnológicos, ao crescimento econômico e com o mínimo impacto ambiental e social. “Às vezes aquilo que é não é sustentável do ponto de vista ambiental é sustentado do ponto de vista social e econômico ou vice-versa”, pontua Pflanzer.

De acordo com ele, a produção bovina sofre questionamentos em relação à sustentabilidade, especialmente ambiental, principalmente em razão, do sistema de produção extensivo utilizar vastas áreas de terra, o que de acordo com ele acaba de certa maneira prejudicando a imagem da bovinocultura, que é vista por algumas pessoas como algo prejudicial ao meio ambiente. “Em boa parte dessas áreas não se consegue produzir outro tipo de alimento. Além disso, atualmente temos uma redução e resgate de áreas de pastagens, e isso vai tornando a pecuária cada vez mais sustentável”, afirma.

Foto: Kelem Silene Guimarães/Embrapa

Outra questão por vezes atribuída à produção pecuária é a emissão de metano, entretanto, segundo Pflanzer, existem estudos científicos que indicam que esse não é o principal causador do efeito estufa. “Há trabalhos que apontam que o aquecimento climático não é causado pelo metano animal e sim pelos combustíveis fósseis”, relata.

Exportações e mercado interno

De acordo com dados da Comex Stat, em 2021 foram exportadas 1.560.220 toneladas de carne, o que rendeu uma receita de US$ 7.966,48 bilhões ao país. Os principais compradores da carne bovina brasileira são os Estados Unidos, a China e o Egito.

As exportações de carne ocupam a 6ª colocação no ranking dos principais produtos exportados, o que faz do Brasil o maior exportador de carne bovina do mundo, apesar da fatia enviada para outros países representar pouco mais de 25% da produção brasileira. “O restante da carne produzida no Brasil fica no país, algo que é muito importante em ralação ao abastecimento”, pontua Pflanzer.

A diminuição do poder de compra do brasileiro nos últimos anos, aliada ao aumento do preço da carne bovina, torna cada vez mais difícil o consumo da proteína por grande parte da população. “A carne no Brasil sempre foi barata em comparação ao mercado internacional, o que acontece agora é que ela está se equiparando ao preço praticado no mercado internacional”, afirma.

O desempenho da atividade também reflete em geração de divisas ao país e em oportunidades para milhares de pessoas Brasil afora que direta ou indiretamente, dependem da pecuária para se manter.

De acordo com Pflanzer, a pecuária brasileira gera emprego e renda para pessoas e empresas do segmento. “Considero que temos ainda que melhorar, mas a pecuária brasileira é sustentável em alguns quesitos”, afirma.

Qualidade

Segundo ele, existem muita desinformação em relação à sustentabilidade na produção de proteína animal e a respeito da importância nutricional da carne, especialmente a bovina.

Conforme o médico-veterinário, a carne foi colocada como vilã devido a gordura saturada, mas isso aos poucos vem sendo desmistificado. “Acredito que logo chegaremos a um momento de equalização das informações, e a carne vai voltar a ser vista com algo essencial para a vida humana”, completa. Ele cita como exemplo o ovo e a gordura suína, antes ditas ruins, “hoje são indicadas por médicos em substituição ao óleo de soja”, exemplifica.

Para Pflanzer, a sustentabilidade plena na pecuária brasileira é algo atingível e o setor está no caminho certo para estar em perfeita harmonia com o meio ambiente. “Nosso papel como formador dentro da universidade é justamente explicar, com base na ciência, porque a produção de carne é importante, seja por questões nutricionais, econômicas, sociais ou ambientais”, diz.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural

Bovinos / Grãos / Máquinas Embrapa Agrossilvipastoril

Após 12 anos, pesquisa traz embasamento para plantio de árvores em sistemas ILPF

As pesquisas trouxeram resultados que ajudam a fazer recomendações sobre uso do componente arbóreo nesses sistemas produtivos.

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Resultados do estudo contribuem para recomendações sobre uso do componente arbóreo nos sistemas integrados. Foto: Gabriel Faria

A Embrapa Agrossilvipastoril está fechando o primeiro ciclo de 12 anos do maior experimento do mundo com sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF), em Sinop (Mato Grosso). As pesquisas trouxeram resultados que ajudam a fazer recomendações sobre uso do componente arbóreo nesses sistemas produtivos.

A definição da estratégia de uso das árvores em sistemas de integração varia entre as propriedades, conforme o interesse do produtor. Fatores como destinação da madeira, mercado consumidor, forma de colheita, uso das árvores como adição ou substituição de renda, características da propriedade, entre outros, devem ser avaliados. Isso torna cada projeto único. Porém, a tomada de decisão deve ser baseada em fundamentos técnicos como os obtidos na pesquisa.

A pesquisa

O trabalho utilizou o eucalipto (clone H13), uma vez que é uma espécie com crescimento rápido, com técnicas silviculturais desenvolvidas e com múltiplos usos. As árvores foram testadas em sistema de integração lavoura-floresta (ILF), integração pecuária-floresta (IPF) e ILPF, além da monocultura utilizada como testemunha. O plantio ocorreu inicialmente em renques de três linhas distantes 30 metros entre si e, após intervenções, alguns dos tratamentos tiveram as linhas externas suprimidas e ficaram como linhas simples espaçadas em 37 metros.

A pesquisa acompanhou todo o desenvolvimento das árvores, as operações de manejo como poda de galhos e desbastes (corte seletivo de árvores), dados de crescimento, acúmulo de biomassa e carbono, efeito bordadura dos renques, estoque de madeira, entre outros.

Ao longo dos 12 anos os sistemas integrados produziram entre 87 m³ e 114 m³ de madeira por hectare (ha). Os volumes variaram conforme o número de árvores conduzidas até o fim do experimento. Entretanto, quanto mais árvores, maior o impacto sobre a produção de grãos e forragem dentro do sistema produtivo.

“Quando falamos em sistemas de integração, temos que pensar na produtividade de todo o sistema. Se eu aumento o número de árvores, terei redução na produção da lavoura e da pecuária. Sendo assim, o maior número de árvores tem que fazer sentido na avaliação global” explica o pesquisador Maurel Behling.

A área testemunha, com monocultura de eucalipto, produziu 350 m³/ha ao longo dos 12 anos, ficando dentro da média de incremento anual do H13 em áreas de silvicultura em Mato Grosso, que é de 32 m³/ha.

Comportamento de crescimento e carbono

Os dados de crescimento em altura, diâmetro à altura do peito (DAP) e volume de madeira medidos ao longo dos anos indicaram que os sistemas integrados proporcionam o chamado efeito bordadura. É o efeito causado nas árvores externas da monocultura por receberem mais luz, água e nutrientes que aquelas do interior e por terem menor competição com árvores vizinhas. Na ILPF esse efeito foi observado nos renques de linhas triplas, com a árvore do meio tendo menor DAP, assim como as árvores do tratamento só com eucalipto.

O efeito bordadura foi ainda mais acentuado na avaliação de biomassa e de acúmulo de carbono nas árvores. O sistema ILPF, que inicialmente teve renques triplos e passou a ter renque simples após corte das linhas laterais, foi o que mais acumulou carbono, passando dos 30 kg/ano por indivíduo. O valor se diferenciou estatisticamente dos demais e ficou bem acima dos cerca de 20 quilos/ano por árvore na monocultura.

“Além de favorecer o ganho em volume das árvores, com maior potencial para aproveitamento na serraria, há uma maior taxa de acúmulo de carbono nas árvores na ILPF. É um carbono que teoricamente terá um ciclo de vida maior do que aquele usado como biomassa” destaca Behling.

O pesquisador lembra ainda que o carbono não fica somente estocado na madeira. As árvores no sistema produtivo ainda deixam grande volume de carbono na área em forma de folhas, galhos, serrapilheira e matéria orgânica.

“Cerca de 10 toneladas de resíduos por hectare que permanecem são originárias da área útil com árvores. Isso sem considerar tocos e raízes que em média representam 20% da biomassa total da árvore” informa o pesquisador.

Recomendações

Behling enfatiza que os resultados obtidos neste experimento, somadas às experiências de produtores em Unidades de Referência Tecnológica em Mato Grosso, dão subsídios para a tomada de decisão no planejamento de sistemas ILPF.

De acordo com ele, se o objetivo é adicionar renda ou melhorar o conforto térmico para o gado, os sistemas com linha simples são mais indicados. Já se o produtor quer um modelo com maior número de árvores e que sua venda compense as perdas de produção na lavoura e pecuária, é possível fazer renques de múltiplas linhas.

“Se o objetivo é produzir biomassa, por exemplo, é importante adequar o número de linhas ao parque de máquinas que fará a colheita, de forma a viabilizar o custo” orienta o pesquisador.

A análise do mercado que consumirá a madeira é outro fator primordial no planejamento do sistema. A madeira conduzida para serraria tem maior valor agregado, mas depende de haver estrutura de processamento. Na região médio-norte de Mato Grosso, por exemplo, o surgimento recente de usinas de etanol de milho mudou o cenário em relação a 2011, quando o experimento foi iniciado. Atualmente a demanda por biomassa para as caldeiras é grande e tende a ser ainda maior nos próximos anos com a inauguração de novas plantas.

“No caso da madeira serrada de eucalipto, ainda não é uma realidade na região, mas já existe demanda para a madeira tratada para mourões de cerca, postes e construção civil” relata Behling.

Fim do ciclo e início de outro

O primeiro ciclo do experimento de ILPF com foco na pecuária de corte e produção de grãos está sendo finalizado com o corte raso dos eucaliptos após 12 anos. Em todo o experimento ainda restam 3.666 árvores ocupando uma área de 43 hectares, sendo 3 ha com monocultura e 40 ha com IPF, ILF ou ILPF. Dados preliminares indicam um volume total a ser colhido de 3.568,33 m³ de madeira. Considerando o valor de 100 reais por metro estéreo, são quase 514 mil reais. Se a venda fosse para serraria, o valor seria ainda maior. Deve-se lembrar que, além da madeira, a área também produziu carne e grãos.

Com o fim deste ciclo, um novo trabalho já deverá começar no próximo período chuvoso. Desta vez, além do eucalipto, será usada a teca como componente arbóreo do sistema. Também será testado o consórcio com as duas espécies, uma vez que a teca perde suas folhas no período seco, reduzindo a sombra para os animais. A ideia é que o eucalipto contribua para manutenção do conforto térmico e com o escalonamento de receitas obtidas com as árvores.

Maior experimento do mundo em ILPF

O experimento de ILPF com foco na pecuária de corte e agricultura de grãos da Embrapa Agrossilvipastoril é um dos maiores, se não o maior do mundo com sistemas integrados organizados em blocos casualizados e com quatro repetições. São um total de 72 hectares, com dez tratamentos distintos. Além da lavoura, da pecuária e da floresta sozinhos, são avaliadas diferentes estratégias e arranjos de ILP, IPF, ILF e ILPF.

O planejamento do experimento foi feito logo após a criação da Embrapa Agrossilvipastoril, por meio de uma reunião com a participação de especialistas de diversas Unidades da Embrapa. Desde a instalação, na safra 2011/2012, pesquisadores de diferentes especialidades fizeram estudos nesta área, analisando aspectos de solo, dinâmica de água, microclima, forragicultura, sanidade animal e vegetal, microbiologia, e emissão de gases de efeito estufa, entre outros.

Entre os resultados de destaque está o Sistema PPS (Precocidade, Produtividade e Sustentabilidade), uma estratégia de manejo da pecuária de cria utilizando ILP e IPF.

Fonte: Assessoria Embrapa
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Bovinos / Grãos / Máquinas Produção animal

Protocolo permite estimar produtividade e melhorar desempenho de pastagens

A produção sazonal de forragem impõe desafios aos sistemas de produção a pasto, porque as demandas nutricionais dos animais devem ser atendidas durante todo o ano.

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O método determina as diferenças de produtividade de sistemas de produção de bovinos de corte em cenários variados de manejo no Brasil Central. Foto: Gisele Rosso

A Embrapa desenvolveu um protocolo que contribui para avaliar as oportunidades de intensificação dos sistemas de pecuária de corte a pasto, um dos principais desafios do setor para reduzir os impactos ambientais negativos. A análise de “yield gap” (lacuna de produtividade) permite estimar a diferença entre a produtividade atual e a potencial de uma determinada cultura, e identificar oportunidades para atender ao aumento projetado na demanda por produtos agrícolas e apoiar a tomada de decisões em pesquisa, políticas públicas, desenvolvimento e investimento.

O protocolo para análise desses gaps foi aplicado para estimar o aumento de produtividade. O método, apresentado por pesquisadores da Embrapa na revista internacional Field Crops Research, determina as diferenças de produtividade de sistemas de produção de bovinos de corte em cenários variados de manejo no Brasil Central. “O protocolo permite avaliar a capacidade de suporte das pastagens por meio de dois indicadores: a taxa de lotação máxima e a taxa de lotação crítica. A taxa de lotação máxima é alcançada em uma condição na qual toda a forragem produzida é colhida com a máxima eficiência possível, o que ocorre quando o sistema tem total flexibilidade para ajuste da taxa de lotação. Já a taxa de lotação crítica expressa a maior taxa de lotação constante que não implica falta de alimentos em algum período do ano e representa a capacidade de suporte das pastagens manejadas, limitada pelas variações sazonais e interanuais da produção de forragem” explica a coordenadora do trabalho, Patrícia Menezes Santos, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste (São Paulo).

Esse protocolo permite a simulação da produção do pasto e das taxas de lotação animal, além de estimar o risco climático associado à disponibilidade de alimentos para o gado. “A maioria dos protocolos tende a superestimar a capacidade de suporte por não considerar adequadamente as variações dentro do ano e entre anos na produção de forragem. Além disso, os modelos não permitem avaliar o efeito de tecnologias específicas, como a adubação” destaca a pesquisadora.

Segundo Santos, existem gaps (lacunas) na capacidade de suporte do pasto devido à interação entre clima, solo, componentes vegetais e animais do sistema. “O método que desenvolvemos permitiu a identificação dos principais fatores que limitam a produção de forragem e a capacidade de suporte do pasto sob diversas condições ambientais e de nível tecnológico, podendo ser aplicado para apoiar políticas e decisões de investimento”  informa.

Resultados

Foto: Gisele Rosso

O protocolo foi aplicado no Centro-Oeste e Sudeste, abrangendo partes dos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica. Ele combina métodos para a definição de zonas climáticas homogêneas, a sistematização de dados primários de clima e solo, a definição de cenários de produção, a simulação de crescimento de plantas forrageiras a longo prazo, a estimativa de capacidade de suporte das pastagens e o cálculo da produtividade atual a partir de dados censitários.

No estudo, de acordo com Santos, simulações de produção de forragem de longo prazo permitiram a análise do risco climático associado à produção de pastagens nas diferentes condições de clima e solo observadas no Centro-Oeste e Sudeste. Além disso, foi possível simular diferentes cenários, com níveis variados de adubação nitrogenada e disponibilidade hídrica, o que é útil para a identificação de tecnologias promissoras para preencher os gaps de produtividade.

O potencial de intensificação das pastagens no Brasil Central foi estimado com base nos indicadores de taxa de lotação máxima e taxa de lotação crítica. O gap médio na taxa de lotação máxima variou de 5,81 a 5,12 unidade-animal por hectare (UA/ha) no cenário potencial (sem restrição hídrica ou de nitrogênio), de 4,18 a 2,9 UA/ha no cenário irrigado e sem restrição de nitrogênio, e de 2,73 a 1,43 UA/ha no cenário de sequeiro e apenas com adubação nitrogenada de manutenção. Já a taxa de lotação crítica variou de 5,44 a 2,91 UA/ha no cenário potencial (sem restrição hídrica ou de nitrogênio), de 1,21 a 0 UA/ha no cenário irrigado e sem restrição de nitrogênio, e de 1,04 a 0 UA/ha no cenário de sequeiro e apenas com adubação nitrogenada de manutenção.

Planejamento

A produção sazonal de forragem impõe desafios aos sistemas de produção a pasto, porque as demandas nutricionais dos animais devem ser atendidas durante todo o ano. Essa variação na produção de alimento aumenta o risco de escassez de forragem e limita a capacidade de suporte do pasto.

“A alta produtividade em uma determinada época não pode ser transferida para alimentar os animais em um período de seca, por exemplo, em que a produtividade cai. A menos que se adote algum tipo de prática de conservação de forragem, como fenação e ensilagem” explica Luís Gustavo Barioni, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital (São Paulo), que também é autor do artigo. Essa variação da produtividade das pastagens, influenciada pelo clima ao longo do tempo e combinada com a demanda alimentar, é que vai determinar a avaliação da capacidade de suporte do pasto. Os valores de déficit acumulado de forragem, utilizados para identificar as lacunas de produtividade, são calculados a partir de um modelo matemático desenvolvido por Barioni.

Os resultados do trabalho indicaram lacunas de produtividade e oportunidades para a intensificação da produção de gado de corte a pasto, informações que podem ajudar a orientar políticas públicas e o planejamento da atividade. “Em áreas de alto risco climático, é importante evitar taxas de lotação de pastagens que resultem em diferenças estreitas entre o acúmulo de forragem e a demanda dos animais. Na pesquisa, os maiores riscos relativos à produção foram observados em locais com baixa capacidade de retenção de água no solo, baixa temperatura mínima e baixo índice pluviométrico ou má distribuição das chuvas” ressalta Patrícia Santos.

O protocolo desenvolvido permite sinalizar, por exemplo, onde os investimentos em recuperação de pastagens degradadas e intensificação da pecuária a pasto seriam mais promissores, além de indicar a necessidade das políticas de financiamento considerarem o acesso a tecnologias complementares para alimentação dos animais no período desfavorável. “Para aumentar as taxas de lotação onde se apresenta déficit de forragem é necessário elevar a produtividade da pastagem nas épocas de seca ou frio ou optar por suplementar a alimentação do rebanho, medidas que têm impacto econômico” lembra Barioni.

Ele complementa que a integração lavoura-pecuária é alternativa interessante para acompanhar a sazonalidade da oferta de forragem e o método desenvolvido pode ser utilizado pelo produtor rural para melhor planejar a implantação desses sistemas de produção, considerando os períodos em que haveria excedente de forragem e as épocas de escassez.

Outro benefício direto é a possibilidade de utilizar o protocolo para orientar o seguro rural associado à produção pecuária em pastagens. O déficit acumulado de forragem já foi aplicado, por exemplo, no estudo do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) para a pecuária de corte aprovado pelo Ministério da Agricultura (Mapa). Em vigor desde abril deste ano, o Zarc Pecuária visa identificar as áreas de menor risco climático e definir as melhores regiões para produção de bovinos pastejando Capim-marandu, no Distrito Federal e mais 17 estados. Com isso, é possível verificar a taxa de lotação crítica das pastagens em cada município e os meses com maior risco de faltar alimentos em função da taxa de lotação animal utilizada. As informações servem para embasar a oferta de crédito e de seguro rural no País.

Os dados do Zarc Forrageira podem ser consultados no site do Mapa ou pelo aplicativo Zarc Plantio Certo (clique aqui).

Fonte: Assessoria Embrapa
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Bovinos / Grãos / Máquinas Logística e recuperação

Enchentes no Rio Grande do Sul causam impacto na bovinocultura de carne e leite

De acordo com o estudo, o Rio Grande do Sul, responsável por 5% da produção nacional de carne bovina, enfrentará desafios significativos devido às enchentes.

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Foto: Divulgação/rs.gov.br

O Rio Grande do Sul foi duramente afetado por chuvas intensas entre o final de abril e início de maio, resultado possivelmente ligado a um El Niño enfraquecido e um Oceano Atlântico mais aquecido. As enchentes, concentradas nas regiões central e Sul, causaram sérios danos à bovinocultura de carne e leite, segundo divulgado pelo Radar Agro, do Itaú BBA, em 8 de maio.

De acordo com o estudo, o Rio Grande do Sul, responsável por 5% da produção nacional de carne bovina, enfrentará desafios significativos devido às enchentes. Com a infraestrutura logística prejudicada, o transporte de gado para abate e a distribuição de carne foram severamente impactados. Embora o ciclo pecuário brasileiro atual esteja em modo de descarte de fêmeas, garantindo uma grande disponibilidade de gado, as dificuldades logísticas podem levar a uma redução temporária na oferta de carne bovina. No entanto, o Radar Agro espera que outros estados produtores compensem essa redução, limitando o impacto nacional.

O Rio Grande do Sul é o quarto maior produtor de leite do Brasil, com mais de 3 bilhões de litros captados em 2023. A coleta de leite, que depende de uma logística eficiente e energia elétrica para resfriamento, foi severamente afetada pela interrupção de estradas e falta de energia. Muitos produtores enfrentaram dificuldades para manter a produção e o armazenamento, resultando em perdas significativas.

As pastagens comprometidas e a perda de animais também contribuirão para uma redução na produção de leite do Estado. Esse cenário pode forçar a saída de mais produtores da atividade, segundo o boletim, agravando uma tendência já observada nos últimos anos. No entanto, devido à distribuição da produção em outras regiões do Brasil, o impacto em nível nacional tende a ser menor.

Logística e recuperação

A infraestrutura logística do Estado foi gravemente afetada, com estradas bloqueadas, pontes destruídas e dificuldades no transporte de produtos agrícolas e pecuários. As BRs 116, 386 e 290 foram particularmente impactadas, assim como diversas estradas estaduais e municipais.

As enchentes destacam a vulnerabilidade da infraestrutura e da produção agropecuária do Estado frente a eventos climáticos extremos, ressaltando a necessidade de medidas de mitigação e adaptação para garantir a resiliência do setor.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura de leite e na produção de grãos acesse a versão digital de Bovinos, Grãos e Máquinas, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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