Suínos Prejuízo milionário
Suinocultor do Paraná gasta o dobro do que ganha para produzir
Criador de suínos há mais de 30 anos, Jorge Foellmer Rambo disse que nunca viveu algo parecido, mas garante que a situação caótica já se anunciava em meados de 2019, quando em abril daquele ano o custo de produção do suinocultor independente variava entre R$ 2,80 a R$ 3 o quilo do suíno vivo enquanto o quilo do animal era vendido a R$ 2,60.

“Uma crise sem precedentes”. É assim que o produtor Jorge Foellmer Rambo, de Entre Rios do Oeste (PR), descreve o atual momento que a suinocultura independente vive no Brasil ao receber a equipe do Jornal O Presente Rural em sua propriedade.
A alta no custo de produção aliada ao baixo valor pago pelo quilo do suíno vivo aos produtores gerou uma sobreoferta da proteína no mercado interno e vem fazendo com que o setor amargue diariamente prejuízos milionários, gerando um caos na atividade, com dias cada vez mais nebulosos e incertos.
Criador de suínos há mais de 30 anos, o produtor paranaense disse que nunca viveu algo parecido, mas garante que a situação caótica já se anunciava em meados de 2019, quando em abril daquele ano o custo de produção do suinocultor independente variava entre R$ 2,80 a R$ 3 o quilo do suíno vivo enquanto o quilo do animal era vendido a R$ 2,60. “Nós, suinocultores independentes, estamos sendo esmagados. Jamais presenciei um período tão delicado, tão difícil e tão complicado como este”, afirma Rambo à Reportagem visivelmente angustiado,
De acordo com ele, a crise foi agravada com a quebra das duas últimas safras de milho, principal componente da ração dos animais. “As previsões são péssimas. Temos praticamente um ano e meio sem colher nada, o que afeta diretamente o custo de produção do suíno, uma vez que o animal depende desse milho e da soja para comer”, menciona, destacando que na Granja Rambo são necessárias por semana 20 mil sacas de milho para alimentar os animais.
À míngua
O momento é ainda mais desesperador quando os suinocultores não conseguem repor seus estoques porque seus recursos financeiros findaram com a alta consecutiva do milho, do farelo de soja e dos aminoácidos. “Milho existe, mas falta dinheiro. O milho está escasso e precisa ser comprado à vista, mas está com preço altíssimo. Se para cada
dois suínos que vou produzir falta um, o crédito também está limitado. A oferta de milho é mínima, uma vez que estamos entrando na terceira safra sem produção. Então, é um cenário caótico”, analisa.
Sem crédito para a compra de insumos para alimentar os animais confinados nas granjas Brasil afora, aumenta o caos, deixando um rastro de desalento aos tantos suinocultores que têm na atividade o seu sustento diário e muitas vezes de outras tantas famílias que emprega. “Este é um momento dramático. Temos mais de 200 empregados e parceiros comerciais que dependem da nossa atividade. Eu não sei o que vai acontecer”, admite, afirmando que fez um alerta às autoridades estaduais sobre a crise financeira vivida pelo setor em dezembro de 2021. “Eu alertei que os suínos iriam morrer nas granjas por falta de comida, porque nosso crédito está acabando e sem dinheiro não temos como trabalhar”.
Sem ração, os animais começam a perder peso e isso pode levar a antecipação do abate. Esse drama é vivenciando por inúmeros suinocultores como Rambo, que possui uma das maiores matrizes de suínos da região Oeste paranaense. “Não vamos ter como tratar os suínos, porque só temos estoque de milho para mais alguns dias. Não temos como continuar (com os animais vivos) sem comida. Eu não sei o que fazer”, lamenta.
Falso suspiro
Em 2020, já no meio da pandemia da Covid-19, o setor, assim como tantos outros, viveu um período dramático com o fechamento de estabelecimentos comerciais, principalmente restaurantes, o que fez com que, em um primeiro momento, o consumo de carne suína caísse drasticamente. “Mas com as pessoas em casa não demorou muito para que houvesse uma maior demanda de carne suína, pois todos começaram a fazer comida em casa e isso elevou o consumo da carne suína. Em agosto de 2020, o quilo do suíno vivo já estava sendo comercializado a R$ 6, foi quando tivemos rapidamente um pico elevado de preço, que chegou naquele ano a R$ 8,50”, relembra Rambo.
De lá pra cá o cenário mudou radicalmente, colocando em xeque-mate a suinocultura independente. De um lado a

Foto: Arquivo/OP Rural
alta dos insumos consecutivas e do outro a queda livre dos preços pagos aos criadores de suínos, intensificada nos últimos dois meses. “Hoje o custo da produção varia de R$ 7,50 a R$ 7,80 por quilo do suíno vivo e estamos vendendo por R$ 3,90 o quilo. Para cada dois suínos que nós produzimos, falta um. Então eu pergunto: Quem conseguirá sobreviver? É impossível. Essa é a história real que estamos vivendo”, relata.
Segundo o produtor, o Auxílio Emergencial (hoje Auxílio Brasil) concedido aos brasileiros de baixa renda durante um período da pandemia gerou uma alta demanda momentânea por carne suína, fazendo com que o setor tivesse um crescimento exponencial, o qual trouxe um desequilibro grande para a cadeia produtiva. “Gerou uma euforia à época de que o consumo interno é sólido, o que não é verdade, foi apenas reflexo do incremento do Auxílio Emergencial que ampliou momentaneamente o poder de compra dos brasileiros, aquecendo o consumo por carne suína no país. Aliado a isso, teve uma enorme demanda chinesa, que ao longo do tempo também esfriou, somado a esta pandemia que causou um desequilíbrio mundial em todos os setores, principalmente na suinocultura, que utiliza commodities como milho e soja para transformar em carne”, expôs.
Carne in natura
Como os suinocultores independentes não são vinculados a cooperativas, arcam com todos os custos da atividade, comercializando de forma direta os animais em frigoríficos de pequeno e médio portes. O consumo é destinado para o mercado interno e não para a exportação, por isso que não se beneficiam do dólar. “Não temos planta frigorífica para repassar parte do nosso prejuízo. Então, nós estamos morrendo”, sentencia, ampliando: “Nós somos produtores de proteínas para os brasileiros. Somos nós que fornecemos a carne in natura, que através dos frigoríficos municipais abastecem os supermercados e açougues com carne fresca para a população consumir. Porque as grandes indústrias focam em industrializados, não em carne in natura. Então se nós suinocultores independentes saímos do mercado, a população pagará caro por isso. Não vai ter carne fresca, só vai ter carne industrializada”, alerta Rambo.
Prejuízo
O produtor paranaense conta que o custo de produção para um suíno de 100 kg é de R$ 780 em sua propriedade, mas está vendendo o animal a R$ 400, amargando um prejuízo de R$ 380 por suíno. “É muito triste o que temos passado. Tenho vendido o suíno hoje com preço de R$ 3,90 o quilo com custo de R$ 7,80, o prejuízo é de 50%. Só multiplicar o prejuízo pela quantidade de animal que cada produtor produz por semana, por dia ou por mês, para saber do ‘rombo’ do produtor. É inacreditável, mas é isso que estamos nos deparando diariamente”, relata.
Pedido de socorro
Quando questionado pela reportagem se enxerga uma alternativa para superar esse momento difícil que o setor suinícola independente vive, Rambo é taxativo: “não vejo nenhuma luz positiva, não vislumbro nada de bom a nossa frente”. No entanto, sugere que um caminho para amenizar de forma imediata a falta de ração para os animais é o governo federal oferecer uma linha de crédito emergencial com liberação de recursos para comprar milho. “Ao menos conseguiríamos concluir com o ciclo dos animais que estão na granja, para que eles não padeçam, porque deixar os animais morrerem de fome é um crime. Mas vamos fazer o que se não temos mais crédito, vamos pedir apoio de quem? Não temos dinheiro, estamos sem recurso, estamos no vermelho há mais de oito meses. Está chegando ao fim, não vejo saída para salvar o que temos”, lamenta.
Custo oneroso
Atualmente 70% do custo de produção é com o milho, com a quebra de duas safras consecutivas no Estado em decorrência da estiagem e depois da geada, encareceu o valor deste insumo. Como na região Oeste a produção de trigo é usada para fazer farinha, esse grão não é destinado à ração animal. Outros cultivares como triticale e sorgo não são produzidos em grande quantidade no Paraná e para trazer o grão de outros Estados torna-se muito oneroso em razão do valor do frete, afetado em cheio pela alta consecutiva dos combustíveis nos últimos 12 meses. “Para transportar o milho do Mato Grosso para o Paraná está R$ 340 a tonelada, porque o combustível subiu mais do que 50% em 12 meses e o salário real não aumentou na mesma proporção, isso também faz com que não se consiga repassar o custo de produção da carne para o consumidor final”, pontua.
Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Suínos
Biosseguridade exige constância e disciplina para proteger a suinocultura brasileira
Especialista alerta, no Congresso da Abraves, que o avanço da produção e do comércio global amplia riscos sanitários e exige ações preventivas cada vez mais rigorosas.

A biosseguridade permanece como um dos pilares mais estratégicos da suinocultura, especialmente em um cenário de intensificação produtiva, concentração regional de granjas e ampliação dos fluxos comerciais globais.
A biosseguridade reúne um conjunto de práticas voltadas tanto à prevenção da entrada de agentes patogênicos nos sistemas produtivos quanto ao controle da disseminação de doenças já presentes nas granjas. Trata-se de um conceito que ultrapassa os limites da propriedade rural e se estende aos níveis regional, nacional e até global, diante da interconexão sanitária entre os principais países produtores de suínos. “A suinocultura mundial convive com desafios sanitários importantes e interligados. Mesmo países com status sanitário favorável para determinadas doenças não estão livres de riscos, o que reforça a necessidade de vigilância permanente e protocolos rigorosos de biosseguridade”, alertou o médico-veterinário especialista em Saúde e Produção Suína, Maurício Dutra, durante sua participação no 21º Congresso Nacional da Abraves, realizado em meados de outubro, em Belo Horizonte (MG).

Dados internacionais mostram que grandes produtores, como União Europeia, Estados Unidos, China, Rússia, Vietnã e Brasil, enfrentam a circulação contínua de agentes como PED/TGE, influenza, PCV-2, Aujeszky e PRRS. No entanto, a Peste Suína Africana (PSA) figura como o maior desafio sanitário da atividade, após sua disseminação acelerada na Ásia a partir de 2018.
De acordo com Dutra, o setor não tem observado o surgimento de novos agentes etiológicos nas últimas décadas, mas sim um aumento expressivo na virulência e na capacidade de adaptação de patógenos já conhecidos, o que torna o controle mais complexo. “Os principais desafios continuam sendo enfermidades virais de elevado impacto econômico, seja pela ausência de vacinas efetivas, seja pela elevada letalidade. Isso justifica a adoção de ações efetivas de prevenção”, enfatizou.
Lições da Peste Suína Africana
Embora a PSA esteja ausente no Brasil há mais de 40 anos, o especialista ressaltou que o país pode e deve aprender com experiências internacionais e com seu próprio histórico. A enfermidade, descoberta em 1921 e endêmica na África, provocou três grandes ondas de disseminação global. Na segunda delas, nas décadas de 1960 e 1970, o Brasil foi afetado após a introdução do vírus por restos de alimentos provenientes de voos internacionais. “A contaminação teve início em 1978, e o país só foi declarado livre em 1984, após perdas diretas estimadas em US$ 13 milhões, além de impactos sociais e econômicos expressivos, como falência de pequenos produtores, desemprego e queda de cerca de 40% no consumo de carne suína”, relembrou Dutra.

Foto: Ari Dias/AEN
O controle da doença, segundo ele, só foi possível com a adoção rigorosa de práticas de biosseguridade em duas fases distintas – emergencial e de erradicação, que deixaram como legado instrumentos ainda vigentes, como o monitoramento das Granjas de Reprodutores Suídeos Certificados (GRSC) e a regionalização sanitária para a Peste Suína Clássica.
Atualmente, mesmo com a existência de vacinas vivas contra a PSA, a baixa eficiência e o risco de reversão de virulência mantêm a biosseguridade como principal ferramenta de prevenção. Dutra destacou medidas como quarentena para animais de reposição, desinfecção adequada de caminhões, barreiras sanitárias com banho e troca de roupas e o controle rigoroso da entrada ilegal de produtos de origem animal no país.
PED e PRRS reforçam importância da prevenção
Outras enfermidades também reforçam o papel central da biosseguridade. A Diarréia Epidêmica Suína (PED), embora não seja nova, reemergiu com alta virulência após adaptação viral, causando mortalidade de até 100% em leitões lactantes sem imunização prévia. “Mesmo com vacinas disponíveis, a prevenção depende fortemente de cuidados com fômites, meios de transporte e contaminação alimentar”, explicou Dutra.

Já a Síndrome Reprodutiva e Respiratória Suína (PRRS), confirmada laboratorialmente desde 1991, segue como uma das doenças de maior impacto econômico, com perdas estimadas entre USD 6,25 e USD 15,25 por animal vendido. Estratégias combinadas de vacinação, manejo e biosseguridade, incluindo práticas como McRebel, carregamento escalonado e uso de filtros de ar em regiões de alta densidade produtiva, têm mostrado resultados relevantes.
“A adoção integrada dessas medidas caracteriza a chamada ‘nova geração da biosseguridade’, que reduziu significativamente os surtos de PRRS nos Estados Unidos quando aplicada de forma completa”, ressaltou.
Desafios crescentes no Brasil
No contexto nacional, Dutra alertou para o aumento dos desafios sanitários nas últimas décadas, com a presença de influenza desde 2009, Doença de Aujeszky em 2011, cepas multirresistentes de Brachyspira, além do crescimento de casos de salmonelose, Senecavírus Tipo A, encefalomiocardite e diferentes genótipos de PCV-2.
Apesar disso, levantamentos indicam que ainda há espaço relevante para avanços na adoção plena das práticas de biosseguridade no país. “Essas práticas têm sido eficientes, mas a jornada é longa, árdua e contínua. Novos desafios surgem com cepas mais virulentas, reemergência de doenças e novas formas de transmissão”, afirmou.
Para Dutra, o fato de enfermidades como PSA, PED e PRRS ainda serem exóticas no Brasil representa uma oportunidade estratégica. “Temos o privilégio de aprender com os erros e acertos de outros países e agir de forma proativa e responsável, protegendo cada sistema de produção e a sustentabilidade da suinocultura brasileira”, concluiu.
A edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!
Suínos
ABCS aposta em campanha para impulsionar consumo de carne suína
Iniciativa busca ampliar demanda interna diante da pressão sobre preços e aumento da produção.

A Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS) decidiu lançar uma edição especial da campanha “Bom de Preço, Bom de Prato” como resposta estratégica ao atual cenário da suinocultura, marcado pelo aumento da produção, retração do consumo interno e pressão sobre os preços pagos ao produtor, apoiando assim os produtores em um cenário desafiador.
Apesar do bom desempenho das exportações em 2026, que cresceram expressivamente no primeiro trimestre, o volume exportado não tem sido suficiente para equilibrar o mercado doméstico. Isso ocorre porque o setor enfrenta dois fatores simultâneos: o aumento da produção e a retração do consumo interno. Essa combinação pressiona as cotações e impacta diretamente a rentabilidade do produtor, exigindo ações coordenadas para estimular a demanda dentro do país.

É nesse contexto que a ABCS antecipa a campanha “Bom de Preço, Bom de Prato”, apostando de forma rápida e certeira no fortalecimento do consumo interno como principal alavanca para reequilibrar o mercado. A iniciativa reforça ao consumidor brasileiro que a carne suína é uma proteína com excelente custo-benefício, acessível, versátil, saborosa e adequada ao dia a dia, buscando ampliar sua presença na mesa das famílias e, consequentemente, aumentar sua venda no pequeno, médio e grande varejo.
A edição especial da campanha intitulada “A melhor escolha do momento” tem início imediato e deve alcançar milhões de consumidores com ações coordenadas em todo o país. A estratégia está estruturada em três frentes principais: varejo, influência digital e mobilização da cadeia produtiva. No varejo, a iniciativa prevê materiais de ponto de venda e comunicação em loja, com foco em destacar o custo-benefício e a versatilidade da carne suína, incentivando a decisão de compra e o aumento do giro da proteína.
Já no ambiente digital, a campanha contará com conteúdos e vídeos produzidos em parceria com influenciadores, como o médico, Dr. Bruno Monteze, o nutricionista, Jefferson Jorge, a nutrichef, Clariana Colaço, e o chef de cozinha Jimmy Ogro, que juntos somam mais de 3 milhões de seguidores nas redes, ampliando o alcance da mensagem e aproximando o produto do cotidiano do consumidor.

Presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Suínos (ABCS), Marcelo Lopes: “A antecipação da campanha “Bom de Preço, Bom de Prato” representa, portanto, um movimento importante para fortalecer o consumo interno, equilibrar o mercado e dar mais sustentação à suinocultura brasileira” – Foto: Divulgação/ABCS
A terceira frente envolve a ativação de toda a cadeia, com a disponibilização gratuita de materiais e conteúdos para o sistema ABCS os demais agentes da cadeia que queiram se juntar a força tarefa de promover o consumo, permitindo a replicação da campanha em diferentes regiões e ampliando sua escala nacional.
O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, explica que com essa iniciativa, a ABCS reforça seu compromisso com o setor, mostrando ao produtor que está atenta ao cenário e atuando de forma proativa para enfrentar os desafios. “A antecipação da campanha “Bom de Preço, Bom de Prato” representa, portanto, um movimento importante para fortalecer o consumo interno, equilibrar o mercado e dar mais sustentação à suinocultura brasileira”, concluiu.
A ABCS realizou na última quarta-feira (22), uma reunião para entregar essa campanha e explicar a estratégia de utilização para todo o Sistema, contribuintes do FNDS e varejos parceiros, onde o presidente da ABCS, reforçou a importância da participação de todos para multiplicar a campanha, convocando os presentes para que a iniciativa chegue a todos os brasileiros.
A ABCS também aproveitou a ocasião para apresentar um panorama de mercado atual, para ajudar a explicar o momento que o setor tem vivido. Ao final, o presidente da Asemg, Donizetti Ferreira, parabenizou a ABCS pela campanha e reforçou a necessidade do engajamento de todos: “Acreditamos que vai nos ajudar a alavancar o consumo, é só nos dedicarmos a replicar o material”. Renato Spera, presidente da Asumas, concordou: “Achei fantástico. A campanha será crucial para atravessarmos a crise.” Iuri Pinheiro Machado, diretor executivo da Agigo também parabenizou a ABCS por acelerar essa campanha diante do momento atual, e da demanda dos suinocultores, segundo ele: “A crise sempre gera oportunidade, e essa é uma grande oportunidade para ganhar mais espaço no varejo pela competitividade da carne suína”, finalizou.
Suínos
Exportação recorde não segura queda das cotações do suíno
Alta de 32,8% nos embarques em março não impediu recuo dos preços no mercado interno, com pressão da oferta e piora na rentabilidade do produtor.

O Brasil segue mantendo crescimento significativo de exportações de carne suína. Em março deste ano o país exportou 152,2 mil toneladas entre in natura e processados (tabela 1), 32,8% acima do embarcado em março/25. O volume ficou 1,4% superior ao até então recorde mensal, que havia sido atingido em setembro/25. Março também foi o mês com a maior média diária embarcada de carne suína in natura (5.980 toneladas/dia útil), a maior da série histórica da Secex, iniciada em 1997.

Tabela 1. Exportações brasileiras de carne suína total (in natura e processados) em MARÇO de 2026, em toneladas, comparado a março de 2025. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.
No acumulado do ano, fechamos o primeiro trimestre de 2026 com 15,3% (+44,5 mil toneladas) a mais de carne in natura que o mesmo período do ano passado (tabela 2), com destaque para as Filipinas, que no período representou mais de 30% do volume exportado.

Tabela 2. Exportação brasileira de carne suína in natura por destino no PRIMEIRO TRIMESTRE de 2026 (em toneladas) comparado com o mesmo período de 2025. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.
Ainda não foram publicados os dados consolidados de abate do primeiro trimestre do ano, mas números preliminares do SIF (Serviço de Inspeção Federal), indicam um crescimento ao redor de 4% em número de cabeças em relação ao mesmo período de 2025, nos estabelecimentos sob esta inspeção. Se considerarmos que as exportações cresceram quase 16% no período, e que os embarques representam em torno de 25% da destinação da produção de carne suína do Brasil, pode-se inferir que quase tudo que se produziu a mais foi exportado, não havendo sobreoferta significativa no mercado doméstico. Porém, as cotações do suíno vivo e das carcaças (gráficos 1 e 2), especialmente nas últimas semanas, “derreteram”, indicando um desequilíbrio entre oferta e demanda.

Gráfico 1. Indicador SUÍNO VIVO – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em MG, PR, RS, SC e SP, diário, nos últimos 30 dias úteis (até dia 20/04/26 em destaque). Fonte: CEPEA.

Gráfico 2. Indicador CARCAÇA SUÍNA ESPECIAL – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em São Paulo/SP, diário, nos últimos 60 dias úteis, até dia 20/04/2026. Fonte: CEPEA
No acumulado de abril/26, a queda acentuada do preço do suíno, concomitante à alta do boi gordo fez com que a competitividade da carcaça suína em relação à bovina atingisse o melhor patamar desde março de 2022 (gráfico 3). Por outro lado, em relação ao frango resfriado a competitividade da carcaça suína em abril/26 é a melhor desde setembro de 2022 (gráfico 4). Ou seja, no atacado o suíno está relativamente barato em relação ao boi e ao frango. Estas correlações não obrigatoriamente se repetem no varejo na mesma proporção, pois cada proteína e cada elo da cadeia de valor tem sua dinâmica, mas a tendência é que o consumidor, em algum momento, identifique estas diferenças que podem pesar na sua escolha.

Gráfico 3. Relação percentual (razão) entre o valor mensal do quilograma da carcaça suína e o valor do quilograma da carcaça bovina em São Paulo (SP). Em destaque o mês de abril/26 (média até dia 20/04) e o mês de março/22, último mês em que esteve abaixo de 38%. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do Cepea.

Gráfico 4. Relação percentual (razão) entre o valor mensal do kg de frango resfriado e o valor do quilograma da carcaça suína em São Paulo (SP). Em destaque o mês de abril/26 (média até dia 20/04) e o mês de setembro/22, último mês em que esteve acima de 78%. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do Cepea.
Com o plantio da segunda safra de milho finalizado a “sorte está lançada”. A irregularidade das chuvas em abril elevou os riscos de perdas. As cotações voltaram a cair (gráfico 5) e a percepção é que a safrinha, mesmo que ainda tenha perdas por clima, será grande. A Conab reviu a safra total de milho 2025/26 para 139,6 milhões de toneladas, mas, segundo o Mbagro, não está descartada uma alta de preços mais a frente caso a condição das lavouras piore.

Gráfico 5. Preço médio diário do MILHO (R$/SC 60kg) em CAMPINAS-SP, nos últimos 30 dias úteis, até dia 20/04/2026. Fonte: CEPEA
Mesmo com o recuo das cotações do milho e o farelo de soja estável, a queda acentuada do preço do suíno fez com que a relação de troca com os principais insumos da atividade despencasse para um patamar “perigoso”, abaixo de 5,0; um valor considerado de alto risco para determinar prejuízo na atividade, dependendo da produtividade da granja. A última vez que esta relação de troca esteve abaixo de 5,0 foi em dezembro de 2023 (gráfico 6).

Gráfico 6. Relação de troca SUÍNO: MIX milho + farelo de soja (R$/kg) em São Paulo, de abril/23 a abril/26 (até dia 20/04). Relação de troca considerada ideal, acima de 5,00 Composição do MIX: para cada quilograma de MIX, 740g de milho e 260g de farelo de soja. Média de abril de 2026 até dia 20/04/2026. Elaborado por Iuri P. Machado com dados do CEPEA – preços estado de São Paulo
Considerações finais
Para o presidente da ABCS, Marcelo Lopes, apesar das exportações em alta os meses de março e abril/26 são os piores no quesito preço pago ao produtor, desde que saímos da última crise. “O quadro só não é mais grave por conta de uma relativa estabilidade nos preços dos principais insumos (milho e farelo de soja), mas a relação de troca já determina margens negativas na produção. Há um evidente desequilíbrio entre oferta e demanda da carne suína em um cenário que não deve mudar no curtíssimo prazo. Torcemos para que a entrada do inverno e o início da Copa do Mundo de Futebol, além da aproximação das eleições possam aquecer a demanda no médio prazo. Um alento é que a competitividade da carne suína em relação às outras carnes oportuniza expandir o consumo e ocupar mais espaço na mesa do consumidor brasileiro”, conclui.



