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Sem subvenção, agricultor abre mão do seguro rural
Programa do governo federal tem menor área segurada desde 2019 e menor índice de contratações e produtores beneficiados desde 2020. Orçamento para 2024 é parecido com 2023, que se mostrou insuficiente, gerando insegurança no campo.

Nesta safra de verão, o produtor rural Wolfgang Graf, de Engenheiro Beltrão, município no Noroeste do Paraná, teve uma surpresa um tanto desagradável: recebeu um boleto de cobrança da apólice de seguro agrícola que havia contratado para 120 hectares de soja. O valor é referente ao subsídio ofertado pelo Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que, desta vez, não contemplou o produtor. Essa é a primeira vez desde o início do PSR em 2006, que Graf não consegue acessar os recursos.

Pela primeira vez desde o início do PSR, o produtor Wolfgang Graf não conseguiu subsídio para o seguro rural – Fotos: Divulgação/Faep
Por causa do financiamento, o produtor não teve escolha senão pagar a diferença. Além do gasto não planejado, Graf também reclama que a apólice encareceu e o nível de cobertura diminuiu em relação aos últimos anos. Nesta safra, a cobertura máxima garantida pela seguradora foi de 33 sacas por hectare. Em 2021/22, a mesma apólice contratada oferecia cobertura de 45 sacas por hectare. “Além de subir o valor, ainda corre o risco de chegar a hora de colher e não ter subvenção. A gente conta com uma coisa e depois não tem. Eu sempre faço a solicitação com antecedência, mas esse ano, infelizmente, não deu certo. É um custo a mais que eu não esperava”, frisou o produtor rural e presidente do Sindicato Rural de Engenheiro Beltrão, Wolfgang Graf.
Em 2023, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) disponibilizou apenas R$ 933 milhões para o PSR – menos da metade dos R$ 2 bilhões pedidos pelo setor produtivo. Com esse valor, foram segurados 6,25 milhões de hectares, a menor área subvencionada pelo programa desde 2019. Se compararmos com 2021, maior cobertura atingida desde a implementação do PSR, com 13,69 milhões de hectares, a redução é superior a 50%.
Além de insuficiente para atender à demanda, o montante disponibilizado foi menor que o inicialmente divulgado pelo governo federal, de R$ 1,06 bilhão. A situação foi agravada pela rejeição de solicitações de suplementação orçamentária, levando a cancelamentos de contratos e/ou onerando ainda mais os produtores que precisaram arcar com o valor integral das apólices.
Em 2024, de acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), a previsão é que o governo destine R$ 964,5 milhões para o PSR. Diante de um valor similar ao do ano passado e que se mostrou insuficiente – os recursos se esgotaram em setembro –, o cenário se mostra desafiador e preocupante para o setor produtivo. “O produtor do Paraná é quem mais contrata seguro rural no país, resultado do nosso trabalho constante para difundir a cultura do seguro. Com o aumento da demanda, a expectativa era de que houvesse mais recursos disponibilizados para atender os agricultores, não apenas do Paraná. Infelizmente, não é o que vem acontecendo desde o ano passado, mesmo com os nossos pedidos de suplementação de orçamento”, ressaltou o presidente do Sistema Faep/Senar-PR, Ágide Meneguette.
Restrição de acesso
Desde 2021, quando o PSR atingiu seu auge, cada vez menos produtores estão conseguindo acessar os recursos do programa. No Paraná, a contratação caiu de 82,26 mil para 36,91 mil apólices em três anos. No mesmo período, deixou de contemplar metade dos produtores – caiu de 41,6 mil em 2021 para 21,33 mil beneficiados na temporada atual. O tamanho de área segurada também seguiu a mesma tendência de queda, saindo de 3,84 milhões de hectares para 1,85 milhão de hectares.
“No ano passado, identificamos que cerca de 40% dos agricultores que contrataram seguro no inverno não tiveram subvenção. Foi a primeira vez em muitos anos que faltou subsídio para a safra de inverno. Para o verão, houve ainda menos verba”, elenca Joaquim César Neto, presidente da Comissão de Seguro Rural da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg).
Considerando os produtores que tiveram seus pedidos negados e acabaram pagando o custo integral da apólice, o mercado estima que o déficit no orçamento do PSR foi de R$ 500 milhões – R$ 150 milhões para as culturas de inverno e R$ 350 milhões para a safra de verão. Para este ano, o mercado espera que a demanda do programa seja de pelo menos R$ 2 bilhões – o dobro do orçamento previsto até agora.
Nos anos anteriores, as normas de destinação dos recursos de subvenção eram repassadas às seguradoras em fevereiro. Até março, data de fechamento desta reportagem, a FenSeg informou que não havia definição do montante e dos valores a serem destinados aos diferentes grupos de culturas. “Não sabemos se haverá recursos para as contratações já realizadas para a safra de inverno de 2024 e as que ainda serão contratadas. A previsão de que o orçamento será ainda menor em relação ao disponibilizado em 2023 é um mau sinal. O que fica claro é que o agricultor tem tido dificuldades de ser atendido pelo PSR”, menciona o presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, Joaquim César Neto.
Se considerarmos o mercado de seguro agrícola como um todo, ou seja, somando as apólices privadas e aquelas com recursos do PSR, também é possível observar uma queda na área segurada no país, ainda que em menor proporção. De acordo com dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep), no último ano, a cobertura total foi de 11,37 milhões de hectares, 30% a menos que o recorde de 16,27 milhões de hectares de 2021.
Isso mostra que outros fatores além do PSR influenciaram a menor contratação por parte dos produtores rurais no ano passado, como margens de lucro reduzidas e eventos climáticos aquém do esperado. Os preços das commodities agrícolas vêm enfrentando uma queda acentuada desde 2022, impactando diretamente na receita dentro da porteira. Somado a isso, estão as próprias condições dos produtos das seguradoras, como elevação de taxas e menores níveis de cobertura ofertados devido à quebra da safra 2021/22 e a descapitalização ocasionada pelas sucessivas perdas.
“Não fazer seguro é uma decisão cada vez mais arriscada. Em caso de perdas, o produtor não terá outra saída senão renegociar suas dívidas. Neste cenário, o governo vai acabar pagando a equalização da taxa de juros destas operações pelos próximos cinco anos. Então, a longo prazo, é muito mais vantajoso para o governo investir em recursos para o programa de subvenção”, afirma Luiz Antonio Digiovani, consultor em seguro rural.




Riscos para o produtor
A situação vivida pelo produtor de Engenheiro Beltrão se repetiu em diversas regiões do Paraná. Em Piraí do Sul, nos Campos Gerais, João Honório Muller também teve o acesso à subvenção negado às vésperas da colheita, depois de já ter feito a contratação da apólice. Assim como o colega Graf, Muller recebeu um boleto com o valor da diferença a ser pago e não teve escolha, também por causa de um financiamento. O produtor era contemplado pelos recursos do PSR há mais de 10 anos. “O clima mudou muito, então preciso do seguro. De 2022 para cá, está chovendo mais. Nisso, o custeio do seguro também subiu bastante. A gente já veio com uma descapitalização das últimas safras, com os insumos caros. Não conseguimos nem repassar no preço do produto direito e agora os subsídios estão sendo tirados. Estou de mãos atadas”, afirma o produtor rural de Piraí do Sul, João Honório Muller.

O produtor João Honório Muller teve o acesso à subvenção negado às vésperas da colheita da soja
No inverno do ano passado, o produtor enfrentou perdas nas lavouras de cevada e trigo devido ao excesso de chuvas e arcou com prejuízos por conta da falta de cobertura na apólice. “As seguradoras alegaram que não podiam fazer seguro cheio por causa da última safrinha de milho. Fiz só de granizo e geada, o que praticamente não é problema se eu seguir o Zarc [Zoneamento Agrícola de Risco Climático]. Tive perda de 40 hectares de trigo e 35 hectares de cevada com chuva”, conta. O prejuízo foi em torno de R$ 250 mil para cada lavoura, além de outros gastos com colheita e frete.
Embora qualquer lavoura esteja sujeita à interferência dos eventos climáticos, em algumas regiões do Paraná, não contratar seguro rural é um risco ainda maior. Graf, por exemplo, também já precisou recorrer a indenizações diversas vezes devido a perdas de produção. Nesta safra, ele calcula que a quebra da soja seja em torno de 30%. Na safrinha, ele também registrou redução de 10% a 20% na produtividade. “Vou ter dificuldade para pagar as contas. Provavelmente vou ter que renegociar o financiamento. A insegurança está grande”, constata. “Na região de Engenheiro Beltrão podemos considerar que 100% dos produtores tiveram problemas por causa dos veranicos”, aponta Graf, que também é presidente do sindicato rural do município.
Ainda que o seguro rural seja uma ferramenta indispensável aos produtores, principalmente diante do aumento da incidência de eventos climáticos extremos, muitos já demonstram desinteresse em fazer contratações para a safra 2024/25 se não conseguirem acesso à subvenção. Especialistas entendem que, apesar da demanda crescente, à medida em que não há recursos, o agricultor pode deixar de contratar.

Carlos Luhm é um dos produtores que não pretendem contratar seguro enquanto não tiverem acesso ao subsídio
Caso do produtor Carlos Eduardo dos Santos Luhm, de Guarapuava, nos Campos Gerais, que também enfrentou dificuldades no último ano. Na safra de inverno, ele conseguiu subsídio para os 100 hectares de trigo e 100 hectares de milho. No verão, não teve a mesma sorte. Dos 450 hectares de soja, foi liberada subvenção para apenas 200 hectares. “Esse ano, eu vou repensar. Se não tiver cobertura, nem me interessa. Sem subsídio, o custo eleva demais”, salienta o produtor rural em Guarapuava, Carlos Eduardo dos Santos Luhm.
Melhores condições
Diante dos prejuízos por conta das quebras de safra, as indenizações pagas pelo seguro rural garantem a estabilidade financeira e a continuidade das atividades agrícolas frente a adversidades climáticas e outros riscos. No entanto, a alta sinistralidade da safra 2021/22 impulsionou os prêmios do seguro rural. Foram indenizados mais de R$ 7 bilhões em 2021 e, no ano seguinte, pela primeira vez na história, as indenizações superaram os R$ 10 bilhões, conforme dados da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg).
No Paraná, um dos Estados mais afetados pela quebra, a sinistralidade disparou, registrando aumento de mais de 500% em 2021, com indenizações na ordem dos R$ 2,6 bilhões. Em 2022, os pagamentos foram ainda maiores, de R$ 3,2 bilhões.
“Com as indenizações, os produtores permanecem capitalizados para pagar seus financiamentos e continuar na atividade, garantindo a produção agrícola nas próximas safras”, aponta Digiovani.
Agora, com a sinistralidade caindo significativamente em 2023 – mais de 76% na média nacional e quase 90% no Paraná –, a tendência é que o valor das apólices diminua. Além disso, muitas resseguradoras devem voltar a atuar no mercado. “As seguradoras ainda estão quantificando as perdas desta safra, mas foram estáveis. Eu acredito que a tendência seja de diminuição dos preços das apólices. Algumas seguradoras já estão ajustando suas condições, não somente de preço, mas principalmente de cobertura”, avalia Daniel Nascimento, vice-presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg.
A estimativa da CNseg é que o setor cresça 23% em 2024, com aposta em outros produtos, como o seguro pecuário, no retorno das seguradoras ao mercado e em melhores condições ofertadas para os produtores rurais. “As restrições impostas com as perdas de 2021/22 frearam o mercado. Em 2022/23, tivemos uma boa safra. Com a queda da sinistralidade, é natural que as seguradoras revejam suas condições”, observa o vice-presidente da Comissão de Seguro Rural da FenSeg, Daniel Nascimento.
O que diz o Mapa
Procurado pela reportagem do Boletim Informativo, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que está atento à ocorrência de eventos climáticos cada vez mais frequentes e intensos e que impactam diretamente a produção agrícola. O órgão reconhece que houve aumento expressivo do custo das apólices, em decorrência da elevada sinistralidade registrada em 2021 e 2022 e causada por eventos climáticos severos, principalmente na região Sul. No entanto, ressalta que “o PSR manteve, em 2023 e 2024, o orçamento no mesmo patamar dos anos anteriores, o que demonstra que este programa continua sendo uma política prioritária para o governo federal”.
Além disso, o Mapa confirmou que vai modernizar o seguro rural com base no modelo mexicano, a fim de ampliar o número de produtores atendidos pelo programa a custos mais baixos. A previsão é que a iniciativa seja apresentada no próximo Plano Safra. “A partir desta nova alternativa mais moderna e seus benefícios, o Ministério da Agricultura torna-se mais autônomo e menos dependente da disponibilidade de orçamento para o PSR. Ou seja: o seguro será ampliado e atenderá um maior número de produtores, com preços mais acessíveis “, disse a pasta, em nota.
Mobilização política busca mais recursos para o seguro rural
Os desafios do seguro rural têm sido pauta de diversos debates na esfera pública. Por um lado, o Mapa reforça o discurso de que o PSR continua sendo uma política prioritária para o governo federal e que uma nova modalidade de seguro rural deve ser apresentada em breve, para melhorar as condições de acesso e atender mais produtores.
Do outro lado, o setor produtivo continua cobrando mais recursos e a garantia de que o montante anunciado no Plano Safra esteja disponível ao longo de todo o ciclo, sem interrupção.
Em dezembro de 2023, a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) aprovou emenda, apresentada pelo deputado federal Sergio Souza, para que os recursos destinados ao PSR fossem blindados de cortes ou contingenciamentos em 2024. No início deste ano, o trecho foi vetado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde então, a FPA está trabalhando para derrubar o veto.
Em 2024, com as consequências da seca nas lavouras de soja, vemos um cenário de quebra de safra iminente e a necessidade de seguro urgente para os produtores.
Pedro Lupion, deputado federal e presidente da FPA
O parlamentar também faz críticas às tentativas do governo, via Conselho Monetário Nacional (CMN), de alocação dos recursos do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) para o PSR. “Não são mais recursos para os produtores, é apenas uma transferência de valores, que mascara, mas não vai resolver o problema. O ideal é que o governo, além da existência do Proagro, garanta os recursos necessários ao PSR”, conclui.
O deputado federal Tião Medeiros também demonstra preocupação com o atual cenário. Na sua avaliação, o governo federal vem demonstrando, desde o ano passado, que o seguro rural não é prioridade. “A redução de verba tem impacto direto na nossa economia. A segurança do produtor é a garantia de faturamento e de cumprimento dos seus financiamentos e, consequentemente, dinheiro circulando. Quando não acontece, cria-se uma instabilidade na economia, que depende do agronegócio”, afirma.
Mudanças climáticas reforçam necessidade de seguro rural
O Brasil nunca foi tão afetado por eventos climáticos como nos últimos anos. Em 2023, a Defesa Civil Nacional recebeu mais de 6,4 mil notificações de ocorrências com danos e prejuízos. Esse é um retrato do que os especialistas vêm afirmando sobre as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. Além disso, fenômenos como La Niña e El Niño também contribuem para ocorrência de eventos extremos em diferentes partes do Brasil.
Em decorrência disso, boa parte das lavouras de verão do Paraná tem apresentado produtividade abaixo do esperado durante a colheita da safra 2023/24. No início do atual ciclo, o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab) estimava colheita de 25,5 milhões de toneladas de grãos. A expectativa atual é de 21,1 milhões de toneladas, 17% a menos.
A quebra na soja é de 16,4%, segundo relatório do Deral. A produção está estimada em 18,2 milhões de toneladas, ante projeção inicial de 21,8 milhões. Para o milho, a expectativa atualizada é de 2,6 milhões de toneladas, 12,6% a menos do que as 2,9 milhões de toneladas iniciais.
Na avaliação de Ana Paula Kowalski, técnica do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema Faep/Senar-PR, em meio às incertezas do clima e quebras sucessivas de safra, a insuficiência de recursos para o PSR traz ainda mais insegurança para o produtor rural paranaense. “Depois da quebra de 2021/22, as seguradoras passaram a ofertar menos produtos, mais caros e restritivos. Nas safras 2022/23 e 2023/24, tivemos uma melhoria desse cenário, com maior oferta de seguro com melhores taxas e coberturas, em contrapartida, o recurso liberado para a subvenção foi menor”, explica. “O produtor que já está descapitalizado, diante dos preços das commodities em queda, fica com o seguro mais caro e acaba não contratando ou cancelando sua apólice quando recebe a informação que não foi subvencionada”, complementa a técnica do Sistema Faep/Senar-PR, Ana Paula Kowalski.
A perspectiva climática para os primeiros seis meses de 2024 é que o El Niño continue exercendo influência, podendo causar alterações no regime de chuvas. Para o segundo semestre, os modelos meteorológicos se dividem sobre a possibilidade da volta do La Niña ou neutralidade climática. Em caso de La Niña, o inverno e parte da primavera podem ser marcados por dias mais frios e secos no Sul do país. No entanto, de acordo com a meteorologista Angela Beatriz Costa, do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), ainda é cedo para cravar uma projeção. “Com La Niña, a tendência é um inverno com temperaturas mais baixas e ondas de frio com maior frequência, diferente do que ocorreu em 2023. As chuvas também devem diminuir na região Sul. O produtor pode esperar geadas, principalmente no Sul do Paraná. Mas ainda precisamos acompanhar a condição climática que vai predominar”, observa. “As mudanças climáticas realmente estão acontecendo. Por isso, o produtor rural deve fazer um acompanhamento ainda mais frequente, buscar informações qualificadas e não deixar de contratar seguro”, conclui Angela.

Faep pede R$ 2,5 bilhões para safra 2024/25
Em março deste ano, a FAEP e os sindicatos rurais, em conjunto com a Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores Familiares do Estado do Paraná (Fetaep), Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar) e Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab), encaminharam ao governo federal as propostas do setor agropecuário paranaense para o Plano Safra 2024/25, que deve ser apresentado em junho deste ano.
No âmbito do seguro rural, o pedido é de R$ 2,5 bilhões para o PSR, com um cronograma de liberação de acordo com calendário agrícola. Outra demanda é a alocação da verba para o caixa das operações oficiais de crédito, a chamada 2OC, para que sua aplicação seja obrigatória e não haja contingenciamentos. Essa medida já estava entre os pleitos da Faep o Plano Safra 2023/24. “O seguro rural precisa de melhorias contínuas, com garantia de orçamento para subvenção por meio do PSR. Dessa forma, naturalmente, a abrangência de produtores rurais atendidos, a área, os tipos de cultura e a qualidade dos produtos de seguro evoluirão”, destaca Ágide Meneguette, presidente do Sistema Faep/Senar-PR.
As propostas também pedem mais condições para estimular a oferta de produtos que não constam ou têm pouco apelo comercial dentro do portfólio das seguradoras, criação de linha de crédito com juros equalizados para contratação do seguro rural, regulamentação da lei que instituiu o Fundo de Catástrofe, e incentivo aos Estados e municípios para criação de programas de subvenção.

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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal
Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de R$ 6,38 milhões.
Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão. O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.
Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.
Desafios para o segundo semestre
Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.
Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo
Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.
Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.
O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.
Potencial de uso da plataforma
O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.
Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.
Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.
Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.
Avanços para o melhoramento genético
As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:
“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje
“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.
Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.
No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.
Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.




