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Recria acelerada potencializa a produção de bezerros para esportes equestres

Animais devem possuir uma boa conformação corporal, fortes e possuir agilidade visando avaliar o bom desempenho dos cavaleiros e cavalos

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Guilherme Augusto Vieira[1]

O mercado de equinos é um segmento muito importante do agronegócio brasileiro, no qual os animais têm uma importância fundamental na lida (trabalho) diária nas fazendas brasileiras, onde também ocorre uma intensa comercialização de animais, visando principalmente as práticas de lazer e as competições (esportes equestres).

Segundo o Portal do Agronegócio (2023), o setor movimenta cerca de R$ 30 bilhões, emprega mais de três milhões de pessoas, contando ainda com um rebanho de 5,5 milhões de animais.

Diante desta perspectiva, vale destacar a movimentação financeira e econômica da Vaquejada, esporte praticado nas regiões norte e nordeste, no qual são utilizados cavalos Quarto de Milha. Segundo a ABVAQ[2], a associação chancelou mais de 300 eventos oficiais em 2022, movimentando algo em torno de R$800 milhões ao ano, números que evidenciam a importância econômica desta modalidade.

A cadeia produtiva da equinocultura além da lida, compra e venda de animais, congrega outros elos importantes como indústrias de rações, segmento de produtos veterinários, varejo agropecuário, ferrageamento, fazendas produtoras de feno, selarias, serviços veterinários, entre outros (VIEIRA, 2012).

As raças de equinos têm nas suas Associações de Criadores uma forte incentivadora na coordenação dos registros, comércio e venda de animais para lida, lazer e esportes, participação em feiras agropecuárias e elaboração de exposições especializadas das raças.

Outra atuação importante das associações é a realização de provas de esportes equestres (modalidades esportivas) que geralmente ocorrem nos ambientes das exposições especializadas das raças.

Dentre as competições envolvendo equinos destacam-se as provas de marcha (raças Mangalarga Marchador, Mangalarga Paulista, Campolina); as provas de funcionalidade, características de algumas raças como a raça Quarto de Milha[3] (Team Penning, Apartação, vaquejada, corridas), raça Cavalos Crioulo (Freio de Ouro[4]).

Vale destacar que as provas de funcionalidade destas raças necessitam da presença de bovinos, simulando a lida diária no campo (apartação, mangueira e Team Penning) ou práticas esportivas (no caso da vaquejada).

Geralmente, os animais utilizados nas provas de funcionalidade devem possuir características especiais que atendam as especificidades das provas, geralmente utilizam animais jovens, bem conformados e ágeis.

O presente artigo tem como objetivo descrever a produção destes animais utilizando o processo de recria acelerada, o preparo dos animais assim como recuperar os animais pós provas.

 

As modalidades esportivas e os animais utilizados

Neste item serão abordadas algumas provas de funcionalidade (modalidades esportivas) de algumas raças (cavalos Quarto de Milha e Crioulo), nas quais são utilizados bovinos com diversos pesos e idades, visando avaliar a habilidade dos cavaleiros e dos cavalos. Os bovinos utilizados devem possuir boa conformação, ótimo escore corporal (não podem ser magros e nem obesos), sadios, possuírem perfeito estado de saúde, além de serem ágeis e apresentarem vitalidade.

Segundo os praticantes consultados, membros das associações, as provas[5] descritas despertam enorme interesse por parte dos competidores, possui intensa movimentação financeira com a comercialização dos animais, transportes, premiações, shows etc.

Neste contexto, dentre as provas em que são utilizados os animais Quarto de Milha[6] , destacam-se a Apartação, Team Penning e Vaquejada:

  • Apartação: Essa prova coloca o cavalo Quarto de Milha contra uma rês, numa batalha de desejos. Cavalos de apartação devem possuir “Senso do Gado”, que é a habilidade de auto pensar e auto manobrar um boi. Cavalo e cavaleiro devem se mover calmamente para dentro do rebanho, apartar um animal do rebanho, dirigí-lo ao centro da arena e mantê-lo afastado do rebanho. O cavaleiro deve impedir que o boi, já apartado retorne ao resto do rebanho. O cavalo de apartação deve combinar os movimentos com o boi, antecipando todas as suas manobras. Geralmente são utilizados bezerros pesando entre sete a nove arrobas, mestiços de raças taurinas ou anelorados, com idade variando entre oito a dez meses.
  • Team Penning: A prova baseada nas tarefas originais dos cowboys da era Western. Realiza-se com um time de três cavaleiros que deve isolar (separar) três cabeças de gado especificamente identificados do rebanho e então colocá-las em um curral do lado oposto da arena em 120 segundos de tempo limite. Os cavaleiros devem separar o gado designado a eles, tomando cuidado, para não deixar que mais de quatro reses cruzem a linha de partida, causando a desclassificação. Originalmente os animais utilizados são taurinos, mas dependendo das regiões no Brasil, utilizam-se animais mestiços, anelorados, pesando entre oito e doze arrobas, variando na idade de oito a 14 meses. Não podem ser animais muito pequenos, pois podem passar por baixo dos cavalos e atrapalharem o seu desempenho.
  • Vaquejada: Conforme descrito anteriormente, essa modalidade é muito praticada nas regiões Norte e Nordeste do País, onde os vaqueiros participam em dupla formada pelo puxador e o esteira. A competição tem duas fases: classificatória e a disputa. O esteira terá que controlar o boi desde a saída do brete e passará o rabo da rês para o puxador que fará sua derrubada dentro de uma área estabelecida (entre duas faixas pintadas de cal com um vão de 10 metros). Este trabalho só será válido se o boi ao cair estiver com as quatro patas para cima e se levantar totalmente dentro das faixas sem tocá-las. Os animais utilizados nesta modalidade obedecem a dois critérios quanto ao seu peso e tamanho: Na fase inicial, a Classificatória, são utilizados animais pesando entre oito e quatorze arrobas, dependendo também da categoria dos participantes. Na fase decisiva denominada de Disputa, os animais utilizados são aqueles pesando acima de 14 arrobas.

Cabe aqui neste artigo um registro de outra modalidade de prova equina que movimenta os três estados da Região Sul do Brasil: A prova Freio de Ouro realizada com os Cavalos Crioulos[7], chancelada pela ABCCC[8].

Esta prova é dividida entre as fases de avaliação morfológica e funcional dos animais, culminando com as provas de Apartação-Mangueira (a prova testa a habilidade do conjunto para a lida no campo, com a apartação e a capacidade de manter o novilho apartado) e a Prova de Campo, que tem finalidades vaqueiras. Formam-se duplas, e o desafio consiste em perseguir o novilho até o final, onde os cavalos devem fechar a frente dos bezerros antes do final da raia, denominando este desafio de Freio de Ouro. Os animais utilizados devem possuir as mesmas características e pesos descritos anteriormente, e no sul do Brasil são utilizados animais taurinos ou mestiços.

 

A Recria Acelerada e a produção de animais melhor acabados

A fase de cria na produção de bovinos de corte corresponde a fase da gestação da vaca, nascimento até o desmame dos bezerros.

A recria compreende a fase entre a desmama até o momento que o animal é encaminhado para a reprodução ou terminação.

Segundo Vieira (2022) a recria no Brasil é comprometida devido as condições de clima e qualidade das pastagens, principalmente no período seco do ano, afeta o desenvolvimento dos bezerros no qual se observa o aparecimento de doenças (verminoses, problemas nutricionais etc) resultando no atraso dos bezerros tanto na desmama quanto pós-desmama o que contribui para alongamento do ciclo produtivo da pecuária de corte derivando animais tardios tanto para o abate quanto para a reprodução (cios e idade ao primeiro parto comprometidos).

Qual a consequência: longo tempo do período da recria, onde os animais permancem na fazenda provocando altos custos operacionais.

As fazendas de cria e recria[9] tem o desafio de inserir em seus processos produtivos, tecnologias nos manejos sanitários e nutricionais e com isso encurtar o período de recria e o tempo decorrente da pós-desmama (minimizar o stress pós desmama) ao início da engorda (machos) e o período reprodutivo precoce (fêmeas), melhorando a eficiência produtiva dos animais.

Reduzir o tempo de recria é importante para os animais aumentar o peso, elevar a sua taxa de crescimento e conseguir obter os resultados que vem a ser os novilhos e novilhas precoces.

Como e quando implantar? Em que consiste o programa de recria acelerada?

O programa de recria acelerada deve ser realizado o ano todo na fazenda, lógico que depende do fluxo produtivo. Se a fazenda faz cria e aparta os animais para recria, inicia-se o programa antes da desmama. Se a fazenda adquire bezerros desmamados, começa logo após a chegada dos animais, conforme será descrito a seguir.

O programa consiste em fornecer aos animais manejos nutricionais e sanitários diferenciados e qualificados com a finalidade de proporcionar aos animais um máximo desempenho e consequentemente uma boa produtividade e lucratividade, a se destacar (VIEIRA, 2022):

  1. Manejo nutricional
  • Pastos de qualidade (pastagens adubadas e com manutenção periódica). Na época seca oferecer suplementação com silagens de milho, sorgo ou de capim.
  • Logo após a desmama ou aquisição de bezerros desmamados, durante a primeira fase 6 a 8 arrobas, além das pasto e silagens, oferecer proteinados ou rações com alto teor de proteínas.
  • Após esta fase, começa propriamente a recria acelerada com o fornecimento de forragens mais ração, se possível em piquetes com pastagens diferidas e com uma boa taxa de lotação além de fornecimento de água de boa qualidade.

 

  1. Manejo sanitário
  • Vermifugação estratégica, pelo menos 03 (três) vermifugações durante o período da recria, podendo utilizar endectocidas ou vermífugos específicos;
  • Além das vacinas básicas (consultar o calendário regional), recomenda-se duas aplicações da vacina contra as clostridioses durante o período produtivo;
  • Controle e monitoramento da infestação dos ectoparasitos (carrapatos, moscas e berne);
  • Aplicação de suplementos injetáveis a base minerais, aminoácidos e vitaminas. Esses suplementos, a depender da idade e peso dos animais, e com indicação do Médico Veterinário, deve ter aplicações estratégicas no início da recria acelerada, durante o período produtivo visando potencializar o ganho de peso, desenvolvimento muscular e corpóreo. Também devem ser aplicados após os animais retornarem das provas visando a recuperação destes e reposição de nutrientes.

Ao analisar a produção de bezerros (as) para “Recria Acelerada”, todos os nutrientes (proteínas, lipídeos, carboidratos, minerais, vitaminas e aminoácidos) são importantes para chegar ao objetivo pretendido. Os nutrientes são obtidos a partir da ingestão dos alimentos ou por meio da suplementação oral ou injetável.

Os aminoácidos merecem atenção especial já que se pretende produzir animais jovens, precoces e com uma boa estrutura muscular.

Os aminoácidos são compostos de ligações peptídicas que desempenham papéis importantes no organismo, nos processos vitais como a síntese de proteínas, de hormônios e neurotransmissores, formação muscular, no desempenho físico e diminuição da perda muscular (ANDRIGUETO et al, 2002).

Alguns aminoácidos estão ligados diretamente a função muscular e formação dos tecidos, dentre outras funções, a se destacar (NEIVA,1996; ANDRIGUETO et al, 2002):

  • Metionina: desempenha um papel importante no metabolismo e na desintoxicação. Ela também é necessária para o crescimento de tecidos e a absorção de zinco e selênio, minerais vitais para a saúde;
  • Lisina: atua na síntese de proteínas, hormônios, enzimas e na absorção de cálcio. Ela também é importante para a produção de energia, função imunológica e produção de colágeno e elastina;
  • Arginina: atua na dilatação dos vasos sanguíneos, facilitando o funcionamento dos músculos, aumenta a resistência física durante esforços intensos e combate a sensação de fadiga.

Vale ressaltar que com a finalidade de citar o objetivo de usos específicos dos aminoácidos para atuação muscular, foram mencionados apenas três aminoácidos. Entretanto, são mais de vinte aminoácidos que atuam no organismo, que agem em conjunto e que desempenham diversas funções.

Nos ruminantes, a proteína bruta contida nos alimentos sofre degradação ruminal (por sua fração degradável) por meio da ação de enzimas secretadas pelos microrganismos ruminais que degradam a fração PDR[10], e utilizam peptídeos, aminoácidos e amônia para multiplicar suas células, sintetizando a proteína microbiana. Essa por sua vez é “encaminhada” ao abomaso onde é digerida, gerando uma determinada quantidade de aminoácidos passíveis de serem absorvidas pela mucosa intestinal, formando a proteína metabolizável (SANTOS & PEDROSO, 2010).

Entretanto, Neiva (1996) esclarece que um alto teor de proteína na dieta ingerida não garante que os animais terão um fornecimento adequado de aminoácidos no intestino delgado, lembrando que os bovinos requerem aminoácidos para o metabolismo nos mais diferentes tecidos do seu organismo, e essas necessidades são influenciadas pelas taxas de crescimento dos animais.

Logo se conclui que ao produzir animais em crescimento, no qual deseja-se um alto desenvolvimento muscular, deve-se analisar as dietas fornecidas, com teores de proteínas adequados, utilização de suplementos injetáveis ou por via oral (em pó).

Ao concluir o artigo assinalou-se a importância econômica da cadeia produtiva da equinocultura no Brasil onde ocorre uma intensiva movimentação financeira gerando uma grande quantidade de empregos e renda em todos os elos da cadeia, haja visto os valores movimentados com a vaquejada.

O artigo procurou contextualizar as modalidades esportivas equestres e a utilização dos bovinos, principalmente os animais desmamados e que para serem utilizados precisam atender certos requisitos de peso, idade, conformação, agilidade e outros atributos.

Diante desta necessidade, propôs a utilização de um programa de recria acelerada, com a utilização de manejos sanitários e nutricionais específicos, com a finalidade de produzir animais diferenciados em relação a recria tradicional. Ao abordar os nutrientes, foi dada atenção especial aos aminoácidos que possui atuação na formação e manutenção dos músculos, dentre outras funções fisiológicas.

Devido ao mercado descrito, acredita-se em uma ótima oportunidade de negócios para os pecuaristas em produzir animais diferenciados para atender esta demanda.

 

  • Referências bibliográficas com autor
  • Os estudos foram realizados em parceria com a Noxon Saúde Animal (Anabolic)
[1] Médico Veterinário.
[2] Associação Brasileira de Vaquejada. Disponível em: <https://www.abvaq.com.br/noticias/vaquejada-movimenta-mais-de-r–800-milhoes-por-ano–estima abvaq#:~:text=Um%20levantamento%20realizado%20pela%20ABQM,vez%2C%20mais%20a%20sua%20for%C3%A7a>.
[3] Segundo a ABQM (Associação Brasileira do Cavalo Quarto de Milha), a associação chancela mais de 22 (vinte e duas) modalidades esportivas.
[4] Vide: <https://www.cavalocrioulo.org.br/eventos>.
[5] Vale enfatizar outras competições de grande interesse econômico que utilizam bovinos como os Rodeios, provas de laço, etc…..
[6] Segundo a Associação de Cavalos Quarto de Milha disponível em: https://cavaloquartodemilha.com.br/modalidades/
[7] Disponível em: <https://7mboots.com.br/afinal-o-que-e-a-modalidade-freio-de-ouro/>.
[8] Associação Brasileira dos Criadores de Cavalos Crioulos.
Disponível em: <https://www.cavalocrioulo.org.br/>.
[9] Para entender a nova recria sugiro a leitura do Protocolo Cria & Recria Acelerada.
[10] Proteína Degradável no Rúmen.

Fonte: Guilherme Vieira

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Lista de exceções reduz efeitos da nova tarifa dos Estados Unidos sobre o agro brasileiro

Medida mantém a competitividade de importantes produtos exportados pelo Brasil no mercado norte-americano.

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Imagem criada pelo ChatGPT/Jaqueline Galvão/OP Rural

Após semanas de expectativa, o governo dos Estados Unidos confirmou, no dia 15 de julho, a aplicação de uma tarifa adicional mínima de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. Para os setores de frutas, legumes e verduras (FLV) e café, contudo, o impacto imediato tende a ser relativamente limitado. Isso porque grande parte dos principais produtos exportados pelo Brasil ao mercado norte-americano permaneceu na lista de exceções divulgada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), preservando a competitividade de importantes cadeias do agronegócio brasileiro.

Entre os produtos isentos estão laranja, limão, manga, mamão, abacaxi, banana, abacate, goiaba, kiwi, coco e diferentes tipos de castanhas, além do suco de laranja, do café verde, do café torrado e do café solúvel sem aromatização, bem como diversos produtos processados à base de frutas. A decisão reduz significativamente os impactos diretos da medida sobre as exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos.

Suco de laranja: principal beneficiado

Artigo escrito por Margarete Boteon, professora da Esalq/USP e coordenadora da área hortifrúti do Cepea.

O principal destaque positivo é o suco de laranja, cuja participação na pauta exportadora brasileira para os Estados Unidos permanece estratégica. Na safra 2025/26, os Estados Unidos responderam por cerca de 45% de todo o volume exportado pelo Brasil, participação semelhante à da União Europeia, consolidando-se como um dos principais destinos do produto.

Na mesma temporada, as exportações brasileiras de suco não concentrado (NFC) para os Estados Unidos cresceram cerca de 15%. Considerando-se o conjunto formado pelo suco concentrado congelado (FCOJ) e pelos demais sucos de laranja, os embarques destinados ao mercado norte-americano avançaram 18,3% em relação à safra anterior, impulsionados sobretudo pelo aumento das compras de FCOJ. A manutenção desses produtos na lista de exceções preserva a competitividade brasileira em um mercado responsável por aproximadamente 45% das exportações nacionais de suco de laranja. Embora o suco brasileiro já esteja historicamente sujeito à tarifa de importação nos Estados Unidos, a não aplicação da sobretaxa adicional de 25% evita uma perda ainda maior de competitividade frente aos concorrentes. A decisão também beneficia outros derivados da citricultura, como a polpa cítrica e os óleos essenciais, que, segundo a CitrusBR, em sua maioria também foram incluídos entre os produtos isentos da tarifa adicional.

Café: inclusão do solúvel reduz risco ao setor

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

A decisão também foi favorável ao setor cafeeiro. Em relação à proposta inicial apresentada pelo USTR, a versão final ampliou a lista de exceções, incluindo não apenas o café verde, mas também o torrado e o solúvel sem aromatização. Com isso, praticamente toda a pauta exportadora brasileira de café destinada aos Estados Unidos permaneceu fora da tarifa adicional de 25%.

A preservação dessas categorias é particularmente importante porque os Estados Unidos seguem entre os principais compradores do café brasileiro. Segundo o Cecafé, o Brasil exportou 38,46 milhões de sacas de 60 kg na temporada 2025/26, volume 15,7% inferior ao ciclo anterior em razão da menor oferta nacional. Ainda assim, a receita cambial atingiu US$ 14,6 bilhões, a segundo maior da série histórica, sustentada pelos elevados preços internacionais.

Embora o café brasileiro continue sujeito às oscilações da política comercial norte-americana, a inclusão do café torrado e, principalmente, do café solúvel entre os produtos isentos elimina um dos principais riscos apontados pelo setor durante a consulta pública conduzida pelo USTR. A decisão preserva a competitividade das exportações brasileiras e reduz potenciais impactos sobre a indústria norte-americana, altamente dependente do abastecimento externo.

Uva: principal preocupação

Fotos: Cláudio Neves

No segmento de frutas frescas, a principal preocupação concentra-se na uva. Os códigos da posição HTSUS 0806, referentes a uvas frescas e secas, não aparecem na relação oficial de exceções consultada. Caso essa condição seja mantida na versão definitiva da medida, a uva brasileira ficará sujeita à tarifa adicional de 25%.

Ainda assim, o impacto econômico tende a ser mais restrito do que em outros segmentos. As exportações brasileiras de uva para os Estados Unidos já vinham perdendo competitividade desde a imposição da tarifação anterior, reduzindo significativamente a participação desse destino nas vendas externas da fruta. Embora o mercado norte-americano representasse uma importante janela comercial, a Europa continua sendo o principal destino da uva brasileira. No entanto, a limitação dos embarques para os Estados Unidos pode impedir uma expansão dos embarques.

Cenário geral

De forma geral, a decisão do governo norte-americano preservou os principais produtos da pauta exportadora brasileira de frutas, suco de laranja e café. A permanência desses itens na lista de exceções reduz os impactos imediatos da medida sobre o agronegócio e evita perdas de competitividade em mercados considerados estratégicos para o Brasil.

Por outro lado, setores que permaneceram fora da lista, como o da uva, seguem acompanhando a regulamentação definitiva da medida e seus possíveis desdobramentos sobre o comércio bilateral.

Ressalva: Esta análise foi elaborada com base no Anexo oficial publicado pelo USTR em 4 de junho de 2026, que apresentou a proposta da medida e a relação detalhada dos códigos HTSUS inicialmente isentos, complementada pelas informações divulgadas após a decisão anunciada em 15 de julho de 2026. A confirmação definitiva para cada produto depende da publicação do Anexo consolidado correspondente à versão final da norma. Até o momento, não foi identificada evidência oficial de que a posição HTSUS 0806 (uvas frescas e secas) tenha sido incluída entre as exceções.

Fonte: Artigo escrito por Margarete Boteon, professora da Esalq/USP e coordenadora da área hortifrúti do Cepea.
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Como o Brasil perdeu influência comercial

Sobretaxa imposta pelos Estados Unidos evidencia que comércio, segurança e política passaram a caminhar juntos.

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O tabuleiro comercial sofreu um realinhamento profundo, e o Brasil moveu-se tarde e mal. A confirmação de que o USTR concluiu a investigação sob a Seção 301, oficializando a sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, é um revés severo. Mas, acima de tudo, é um diagnóstico implacável sobre o amadorismo e a saturação ideológica que paralisam nossa diplomacia governamental.

Diferentemente do tarifaço de 2025, derrubado por seu vício político, a investida atual possui blindagem técnica por ser um processo administrativo da Seção 301, de difícil reversão. O USTR apontou “práticas injustas”, misturando assimetrias reais (etanol, propriedade intelectual e tarifas) com pautas sobre soberania, como o escrutínio sobre decisões do STF contra big techs, combate à corrupção e desmatamento.

Artigo escrito por Márcio Coimbra, mestre em Ação Política, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia.

Soma-se a isso a contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A recente classificação de facções brasileiras como organizações terroristas por Washington fundiu governança econômica e segurança nacional. O comércio virou moeda de troca geopolítica de alta complexidade, tabuleiro em que nossa diplomacia estatal demonstrou pouca agilidade de manobra.

Diante desse cerco previsível, Brasília respondeu com passividade técnica e retórica inflamada para consumo interno. O Planalto preferiu a inércia para explorar o desgaste eleitoralmente. Essa postura gerou forte reação da FIESP, que criticou o governo por alimentar “ruídos desnecessários” e priorizar conflitos personalistas em vez da economia. Estão certíssimos.

A ameaça da Fazenda de retaliar via “Lei de Reciprocidade” expõe um desconhecimento preocupante de mercado. Como ex-diretor da Apex-Brasil, sei que barreiras de vingança encarecem insumos, asfixiam importadores e destroem empregos logísticos. A obsessão por superávits ignora que potências modernas usam importações estrategicamente para criar dependência mútua, e não guerras emocionais.

Enquanto Brasília flerta com o confronto, os EUA dão uma aula de realpolitik. Junto aos 25%, o USTR aplicou 2.100 exceções, poupando setores como aeroespacial (Embraer), café e carnes. Onde o Brasil tem indispensabilidade estrutural, a tarifa caiu para blindar o americano da inflação e, onde somos substituíveis, fomos atingidos sem hesitação.

Foto: Marcos Oliveira/Agência Brasil

Esta assimetria ficou clara nos bastidores. Diante da omissão oficial, canais de representação setorial agiram. A articulação privada levou a Washington dados técnicos que provaram o impacto das tarifas nas próprias indústrias americanas, mitigando as sanções, esforço do qual participo ativamente nos EUA desde as primeiras medidas. A Casa Branca responde a dados e à articulação direta, não a notas de repúdio.

A lição é urgente: a inserção internacional do país não pode ser refém de voluntarismos. O protecionismo não se combate com indignação, mas com inteligência comercial. Para reaver a confiança, o Brasil precisa devolver o protagonismo à diplomacia corporativa privada. Sem eficiência interna e interlocução técnica despida de ideologia, assistiremos passivos à erosão de mercados que levamos décadas para conquistar.

Fonte: Artigo escrito por Márcio Coimbra, mestre em Ação Política, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia.
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Nova cota da China pode transformar o ciclo da pecuária brasileira

Mudança nas regras de importação deve influenciar o ritmo das exportações, a oferta de animais para abate e o comportamento da arroba.

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A introdução de limites às importações chinesas de carne bovina representa uma mudança estrutural para a pecuária brasileira. Mais do que uma restrição comercial, a medida altera o funcionamento do mercado, interfere na formação do preço do boi gordo e pode modificar a intensidade e a duração das fases do ciclo pecuário nacional.

A partir de 2026, a China passou a adotar cotas específicas para seus principais fornecedores de carne bovina. Para o Brasil, o volume estabelecido foi de aproximadamente 1,106 milhão de toneladas em 2026, com elevação gradual para 1,128 milhão em 2027 e 1,151 milhão de toneladas em 2028. As importações que ultrapassarem esses limites ficam sujeitas a uma tarifa adicional de 55%, reduzindo significativamente a competitividade do produto que exceder a cota.

Artigo escrito por Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea.

O impacto é relevante porque a China se consolidou como o principal destino da carne bovina brasileira. Em 2025, aproximadamente 48% das exportações brasileiras do produto foram destinadas ao mercado chinês. No mesmo ano, os embarques brasileiros de carne bovina fresca para aquele país alcançaram cerca de 1,648 milhão de toneladas, bem acima da atual cota.

A diferença entre o volume historicamente exportado e a nova limitação comercial cria um desafio que vai além dos frigoríficos exportadores. Seus efeitos tendem a percorrer toda a cadeia, atingindo a indústria, o mercado de reposição, os sistemas de recria e engorda e, finalmente, as decisões de retenção ou descarte de matrizes.

Durante muitos anos, a formação do preço do boi gordo brasileiro esteve associada principalmente à oferta doméstica de animais terminados no primeiro e segundo semestres – caracterizando a safra e entressafra de bovinos –, ao consumo interno, ao nível dos estoques da indústria e às diferentes fases do ciclo pecuário.

Esses fatores continuam importantes. Entretanto, o crescimento de animais terminados no confinamento, mas, principalmente, o avanço das exportações e a crescente participação chinesa introduziram um componente adicional: a demanda externa passou a exercer influência direta sobre o valor da matéria-prima no Brasil.

A China tornou-se, em muitos momentos, a compradora marginal da carne bovina brasileira. Em outras palavras, passou a absorver volumes adicionais de produção e a influenciar o preço necessário para equilibrar oferta e demanda no mercado interno.

Quando as compras chinesas estão aquecidas, frigoríficos habilitados para exportar aumentam sua necessidade de matéria-prima. A maior competição por animais aptos ao mercado chinês fortalece as escalas de abate e pode elevar o preço do chamado “boi China”, com reflexos sobre outras categorias de bovinos.

Sazonalidade do preço do boi gordo

Historicamente, o comportamento dos preços do boi gordo no Brasil apresentava uma sazonalidade relativamente bem definida. No primeiro semestre, especialmente entre fevereiro e maio, predominava uma menor oferta de animais terminados, reflexo da entressafra das pastagens. Nesse período, a disputa da indústria por matéria-prima costumava sustentar preços mais elevados da arroba.

Foto: Ana Maio

Com a chegada do período seco, entre junho e setembro, aumentava a disponibilidade de animais provenientes da terminação em pasto e, mais recentemente, do confinamento de primeiro giro. A maior oferta reduzia o poder de negociação dos pecuaristas, pressionando os preços. No último trimestre do ano, a intensificação do confinamento, associada ao aumento do consumo doméstico em função das festas de fim de ano, contribuía para um novo ajuste no mercado, embora esse movimento variasse conforme a intensidade da oferta.

Esse padrão sazonal era determinado sobretudo por fatores produtivos, como a disponibilidade de pastagens, as condições climáticas, o calendário de confinamento e a própria dinâmica do ciclo pecuário.

Entretanto, a implantação da cota chinesa em 2026 até 2028 tende a modificar esse comportamento. Além da sazonalidade biológica da oferta de animais, o mercado passa a incorporar uma sazonalidade comercial relacionada ao ritmo de utilização da cota anual de exportação.

Nos primeiros meses de vigência da cota, a indústria exportadora tende a intensificar os embarques para aproveitar o acesso ao mercado chinês sem incidência da tarifa adicional. Esse movimento aumenta a competição entre frigoríficos por animais aptos à exportação, podendo antecipar valorizações da arroba que anteriormente ocorreriam apenas em momentos de menor oferta.

À medida que a utilização da cota se aproxima do limite anual, entretanto, a demanda dos frigoríficos exportadores tende a perder intensidade. Caso a tarifa adicional inviabilize economicamente novos embarques para a China, parte da carne destinada ao mercado externo poderá ser redirecionada ao mercado doméstico ou a mercados alternativos, reduzindo a capacidade de pagamento da indústria pelo boi gordo.

Foto: Divulgação

Como consequência, a tradicional curva sazonal da arroba pode sofrer alterações importantes. O mercado deixa de responder exclusivamente à disponibilidade física de animais e passa a incorporar expectativas relacionadas ao comércio internacional. Em determinados anos, mesmo diante de uma oferta relativamente ajustada, a proximidade do esgotamento da cota poderá limitar novas altas de preços. Em outros, caso o ritmo de exportação seja inferior ao esperado ou a cota seja ampliada, esse efeito poderá ser atenuado.

Em outras palavras, a sazonalidade do boi gordo deixa de ser explicada apenas pela biologia do rebanho e pelo calendário de produção. A partir da implantação da cota chinesa, a evolução dos preços passa a refletir também o comportamento da demanda internacional, transformando o calendário das exportações em um novo fator determinante da formação da arroba no Brasil.

Os efeitos sobre o ciclo pecuário

O ciclo pecuário tradicional é determinado pelo tempo necessário para ajustar a oferta de bovinos. Quando os preços do boi gordo e do bezerro estão elevados, os produtores tendem a reter mais fêmeas para reprodução. Essa decisão reduz inicialmente a oferta de animais para abate, mas amplia a produção de bezerros nos anos seguintes.

Com a entrada das novas gerações no sistema produtivo, aumenta a oferta de animais para recria, engorda e abate. A maior disponibilidade pressiona os preços, reduz a rentabilidade e estimula o descarte de matrizes. O aumento do abate de fêmeas, por sua vez, diminui novamente a capacidade futura de produção, preparando a fase seguinte de valorização.

A cota chinesa pode interferir nesse mecanismo ao produzir choques adicionais de demanda. Caso os embarques diminuam de forma expressiva após o preenchimento da cota, a indústria poderá enfrentar maior disponibilidade de carne e de animais no mercado doméstico. Isso tende a enfraquecer as escalas de compra e aumentar o poder de negociação dos frigoríficos.

A queda ou a desaceleração dos preços do boi gordo afeta rapidamente o mercado de reposição. O pecuarista de recria e engorda passa a pagar menos pelo bezerro ou pelo boi magro, pois sua receita esperada com a venda do animal terminado diminui.

Na atividade de cria, porém, o ajuste ocorre mais lentamente. Uma redução persistente no preço do bezerro pode estimular o aumento do descarte de vacas e novilhas. No curto prazo, o maior abate de fêmeas amplia a produção de carne e reforça a pressão baixista. No médio prazo, entretanto, reduz a quantidade de matrizes e limita a oferta futura de bezerros.

Dessa forma, a cota pode aprofundar a fase de baixa do ciclo pecuário, especialmente quando coincidir com um período de elevada oferta de animais e aumento do abate de fêmeas.

Por outro lado, seus efeitos não são necessariamente permanentes. Se o Brasil conseguir ampliar as vendas para outros mercados, aumentar o valor médio da carne exportada ou negociar a expansão da cota chinesa, parte da pressão poderá ser absorvida.

Da formação doméstica à paridade de exportação

A formação do preço do boi gordo tornou-se mais complexa. O mercado deixou de responder apenas ao equilíbrio entre oferta de animais e consumo doméstico e passou a incorporar uma espécie de paridade de exportação.

De forma simplificada, a capacidade de pagamento da indústria exportadora depende do valor obtido com a venda da carne no exterior, convertido pela taxa de câmbio, descontados os custos de processamento, logística, tributos e margens operacionais.

Nesse contexto, uma valorização do dólar geralmente aumenta a receita em Reais das exportações e pode ampliar a capacidade de pagamento dos frigoríficos. Da mesma forma, preços internacionais mais elevados tendem a favorecer a arroba.

Entretanto, a cota introduz uma restrição adicional. Mesmo com câmbio favorável e preços externos atrativos, o frigorífico pode não conseguir ampliar indefinidamente as exportações para a China. Depois do preenchimento do limite, a tarifa adicional reduz a paridade de exportação e, consequentemente, a capacidade de pagamento pela matéria-prima.

A fórmula econômica passa a depender não apenas do preço internacional e do câmbio, mas também da disponibilidade de espaço dentro da cota.

Enquanto houver cota disponível, a China pode continuar sustentando a demanda e o preço do boi gordo. Quando o limite estiver próximo de ser atingido, o valor econômico da exportação adicional diminui e o mercado interno volta a ganhar maior importância na determinação dos preços.

A cota chinesa não encerra a relevância da China para a pecuária brasileira. O país asiático continuará sendo um comprador central da carne bovina nacional. Entretanto, a existência de um limite anual altera a dinâmica comercial e cria uma nova variável para a formação do preço do boi gordo.

Foto: Thais Rodrigues de Sousa

O mercado passa a conviver com uma demanda exportadora potencialmente mais concentrada no início do ano, risco de desaceleração após o preenchimento da cota e maior necessidade de redirecionamento da produção.

No ciclo pecuário, a restrição pode intensificar períodos de baixa, estimular o descarte de matrizes e acelerar ajustes na oferta futura de bezerros. Na formação de preços, a disponibilidade da cota passa a atuar ao lado da oferta de animais, do consumo doméstico, do câmbio e dos preços internacionais.

A principal transformação está na perda de linearidade do mercado. Um câmbio favorável ou um preço internacional elevado já não garantem, isoladamente, maior capacidade de pagamento pela arroba. Será necessário considerar também quanto da cota ainda está disponível e qual mercado poderá absorver a carne adicional.

Nesse novo ambiente, informação, diversificação comercial e gestão de risco deixam de ser apenas vantagens competitivas. Tornam-se elementos fundamentais para proteger margens e orientar decisões em todos os elos da pecuária brasileira.

Fonte: Artigo escrito por Thiago Bernardino de Carvalho, pesquisador do Cepea.
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