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Parceria entre Brasil e Alemanha quer fomentar biogás
Ernani e sua equipe empreendem esforços em prol da difusão do aproveitamento energético do biogás nos sistemas de saneamento no Brasil e contam com a Cooperação Alemã para fomentar esta iniciativa
Um projeto de cooperação técnica internacional dedicado a fomentar a temática do biogás no Brasil. Este é o projeto PROBIOGÁS, fruto da cooperação entre Brasil e Alemanha. O projeto de Suinocultura de Baixa Emissão de Carbono entrevistou o Diretor de Articulação Institucional da Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental (SNSA) do Ministério das Cidades, Ernani Ciríaco de Miranda, responsável pelo lado brasileiro para coordenar este projeto. Ernani e sua equipe empreendem esforços em prol da difusão do aproveitamento energético do biogás nos sistemas de saneamento no Brasil e contam com a Cooperação Alemã para fomentar esta iniciativa.
Você poderia falar um pouco da origem do projeto e qual o seu principal objetivo?
O projeto PROBIOGÁS surgiu do interesse em incrementar nossos sistemas de saneamento com a utilização de alternativas renováveis, neste caso, aproveitando o biogás. Considerando o crescimento populacional, o déficit nacional em saneamento e o crescente número de sistemas de saneamento que deverão ser implementados no âmbito do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento – o Ministério das Cidades se interessou por conhecer mais a opção de utilizar o biogás gerado em sistemas de saneamento. Assim, o Governo brasileiro foi buscar referências no tema e identificou o interesse em cooperar com a Alemanha.
Com relação ao objetivo, vale ressaltar que o Brasil já conta com diversas experiências no uso do biogás, tanto nas cidades quanto no campo. No entanto, a implementação de novos projetos ainda não é algo trivial. É possível observar que há uma carência de normas e legislação voltadas para o biogás. Além disso, ainda existe dificuldade em encontrar no mercado de trabalho profissionais capacitados e com conhecimento profundo no tema; e não enxergamos instituições de ensino nem programas de treinamento para capacitação de profissionais especificamente em biogás. Outro ponto relevante é a incipiente disponibilidade de equipamentos e tecnologias adaptadas à realidade brasileira.
Enfocado nesta problemática, destacamos como principal objetivo do projeto a ampliaçãodo uso energético eficiente do biogás em saneamento básico e em iniciativas agropecuárias e agroindustriais, além de inserir o biogás e o biometano na matriz energética nacional e, como consequência, contribuir para reduzir as emissões de gases que contribuem para o efeito estufa. Ou seja, durante os anos de execução do projeto buscamos atacar alguns pontos sensíveis que acreditamos que possam contribuir não só para a implementação de novos projetos, mas também para que estes sejam sustentáveis do ponto de vista de operação e manutenção.
Como esse projeto é financiado?
Os recursos do projeto vem do acordo base de cooperação entre o Brasil e a Alemanha. Cada parte entrou com a contribuição que lhe cabe neste tipo de iniciativa. Da parte nacional, o Ministério das Cidades contribui com recursos do tipo "in kind", disponibilizando servidores especialistas em saneamento, pertencentes ao seu quadro técnico, além da infraestrutura física para alocação da equipe do projeto durante toda sua realização. Por parte do governo da Alemanha, o aporte vem do fundo alemão para apoio a tecnologias para a mitigação de mudanças climáticas (DKTI, da sigla em alemão). É importante ressaltar que estes recursos financeiros alemães não são destinados à implementação da infraestrutura de novas plantas, mas para atividades como a elaboração de estudos técnicos, materiais de divulgação, capacitações, realização de eventos e consultorias pontuais.
Qual o interesse do Ministério das Cidades no tema de biogás?
Especificamente para o Ministério das Cidades o biogás pode representar um ganho de eficiência nas questões de saneamento. Já temos exemplos de estações de tratamento de esgoto que no Brasil conseguem gerar, a partir do aproveitamento do próprio biogás, mais de 60% da energia necessária na estação.
Quando pensamos em resíduos sólidos urbanos há uma série de aterros sanitários que vêm empregando o biogás para gerar energia elétrica. Aqui no MCidades já percebemos também que alguns municípios estão se preparando para qualificar o tratamento da parte orgânica dos resíduos sólidos. Alguns pedidos de financiamento para sistemas de tratamento da fração orgânica já chegaram ao Ministério.
Ou seja, para nós o biogás representa uma oportunidade para a melhoria tecnológica e operacional das instalações de saneamento no Brasil. Empregando sistemas mais eficientes energeticamente é possível vislumbrar a redução dos custos com a operação no médio/longo prazo. Isso impacta diretamente os municípios, com uma possível redução nas despesas de tratamento de resíduos e esgotos. E como uma instituição que operacionaliza recursos do PAC é imprescindível que tenhamos analistas de projetos que conheçam a fundo as especificidades do biogás, para que possam fazer uma análise de financiamento segura e embasada.
Tudo isso que já destaquei são bons argumentos para o MCidades incorporar o tema do biogás, mas além disso, ainda gostaria de destacar a contribuição do biogás para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Isso é muito importante, visto que é um compromisso brasileiro com o mundo, ratificado na última conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) e o Ministério da Cidades também pode contribuir.
Que tipos de atividades vêm sendo desenvolvidas no Projeto?
Para que a gente consiga ampliar o uso energético eficiente do biogás em saneamento básico e em iniciativas agropecuárias e agroindustriais, nossas atividades focam na melhoria das condições regulatórias, na aproximação das instituições de ensino e pesquisa e no fomento da nossa indústria nacional. O PROBIOGÁS é fruto de uma cooperação técnica, como já disse antes, e se preocupa muito com a transferência de conhecimento e com o suporte aos entes públicos no desenvolvimento de instrumentos e ferramentas que facilitem o uso do biogás, como normas e regulações por exemplo.
Durante o projeto houve a oportunidade de capacitar diversos servidores de diferentes instituições como Órgãos Ambientais, Agências Reguladoras e Ministérios. Acreditamos que esta ação contribuiu para a formação de uma massa crítica no setor público, necessária a posterior discussão sobre políticas e diretrizes governamentais.
Ainda na linha de capacitação foi elaborado um programa para o treinamento de multiplicadores de conhecimento sobre o aproveitamento de biogás em ETEs. Esse programa contou com a participação de instituições como o IFB, SENAIs, prestadores de serviços de saneamento, entre outras. E atualmente vem sendo desenvolvido um trabalho com o Ministério da Educação para a estruturação de uma grade curricular para um curso de nível médio em biogás.
Além disso, foram elaboradas publicações técnicas que estão disponíveis para download no site do Ministério das Cidades (http://www.cidades.gov.br/saneamento-cidades/probiogas), com objetivo de disseminar conhecimento e informações atualizadas sobre o tema. Essas publicações abordam temas que não eram disponíveis na nossa literatura em idioma português, que agora podem ser acessadas gratuitamente. Os textos abordam a realidade nacional, e foram feitos por consultores e especialistas, sem custo para quem quiser acessar. Considero isso não só uma atividade, mas um ótimo legado do PROBIOGÁS.
A questão da pesquisa foi também fortemente trabalhada, com uma campanha de medição para avaliar a produção de biogás em 10 estações de tratamento de esgotos e com o apoio à estruturação de uma rede de laboratórios no Brasil para ensaios em biogás.
Finalmente, também promovemos o diálogo com o setor privado. O projeto PROBIOGÁS realizou e apoiou diversos eventos para debater o tema, conhecer as demandas do setor produtivo e fomentar parcerias empresariais.
Como é a parceria com a Alemanha, de que forma beneficia o biogás e o saneamento no Brasil?
Já mencionei alguns dos muitos benefícios que o projeto PROBIOGÁS proporcionou nosso legado. Mas para nós do Ministério das Cidades foi também um trabalho com aprendizado profissional que vai além daqueles previstos no acordo.
Trabalhar em cooperação com uma equipe binacional acrescenta desafios que normalmente não enfrentamos em projetos 100% brasileiros. E isso engrandece nossa perspectiva de vida, nos apresenta outra forma de operacionalizar as coisas. Nossa equipe do PROBIOGÁS conta com servidores federais, com especialistas nacionais e alemães. Essa sinergia de percepções foi, sem dúvida, muito enriquecedora para todos os envolvidos.
Nosso parceiro direto que representa o Governo da Alemanha é a GIZ, que aportou metodologias inovadoras e com enfoque em mudanças institucionais. Durante todo o tempo do projeto aprendemos muito uns com os outros. E claro que esse aprendizado fica e se multiplica dentro do nosso ministério. A Alemanha é referência em biogás, claro, mas eles também aprendem muito com a gente. É gratificante saber que o Brasil está hoje em posição de cooperar lado a lado com grandes economias. Recebemos muito, mas também conseguimos contribuir muito com a Alemanha.
O biogás é um tema multidisciplinar, que envolve questões energéticas, ambientais econômicas e até sociais. Como o Ministério das Cidades vem trabalhando com esta questão? Que ações o Ministério pretende tomar com base na cooperação?
Sim, você está certo. Um dos grandes desafios do biogás é essa pluralidade de áreas de interface. Isso acaba por vezes enfraquecendo o tema, pois é difícil identificar dentro dos órgãos de governo uma única instituição responsável pelo fomento da política pública. Pensando nisso e conscientes de que é um contrassenso o Ministério das Cidades tocar toda a questão sozinho, decidimos estruturar dentro do projeto a figura de um "Comitê gestor interministerial", que conta com a participação de diferentes ministérios como o MMA, MCTI, MAPA, MME e MDIC para um intercâmbio constante de informações e definição de estratégias conjuntas. Entendemos que essa integração e transparência cria entendimento e forma uma base mais sólida para a tomada de decisão.
Quais os planos do PROBIOGÁS para o futuro?
Todo projeto de cooperação tem começo, meio e fim. O nosso projeto está no ciclo de encerramento. Até o final deste ano temos atividades previstas, mas em 2017 o projeto será descontinuado. Mas acreditamos que um importante legado será deixado.
Algumas iniciativas importantes foram apoiadas pelo projeto de cooperação, como a alteração de normas e resoluções, inclusão do biogás no planejamento energético, capacitação e fomento ao debate sobre biogás em diferentes órgãos do governo, estabelecimento de uma rede de pesquisa em biogás, aproximação entre empresários e fornecedores de produtos e serviços para projetos de biogás.
É muito perceptível também a movimentação que nosso projeto deu ao tema. Durante esses três anos de projeto testemunhamos a implementação de projetos de escala considerável, o nascimento e engajamento de associações que abordam o tema e até a proposição de uma proposta de política pública para o biogás e biometano por parte da sociedade civil.
Acreditamos fortemente que este movimento não se encerrará com o fim do PROBIOGÁS e que os parceiros (Ministérios, Associações, Órgãos Ambientais, entre outros) continuarão se movimentando e trabalhando para o desenvolvimento do uso de biogás no Brasil. É para isso que estamos trabalhando em 2016: concentrando nossos esforços na transferência de conhecimento e em tornar os resultados e produtos perenes.
Fonte: Assessoria

Notícias Cooperativismo
Edição Especial Cooperativismo 2026 de O Presente Rural já está disponível
Publicação reúne reportagens exclusivas sobre o papel das cooperativas no agronegócio e destaca como a escassez de mão de obra e a contratação de imigrantes estão transformando o mercado de trabalho no setor.

A nova Edição Especial Cooperativismo 2026 de O Presente Rural já está disponível gratuitamente em versão digital no site. Publicada todos os anos próxima ao Dia Internacional das Cooperativas, celebrado em 04 de julho, a edição reúne reportagens, análises e conteúdos especiais sobre a força econômica, social e produtiva do cooperativismo no agronegócio brasileiro.
Nesta edição, a reportagem especial aborda um dos temas mais relevantes para o futuro das cooperativas agroindustriais: a geração de empregos, a escassez de mão de obra e a presença crescente de trabalhadores estrangeiros nas operações. O conteúdo mostra como imigrantes de diferentes nacionalidades passaram a ocupar funções decisivas em agroindústrias, supermercados, unidades operacionais e estruturas produtivas de cooperativas do Sul do país.
A reportagem apresenta casos de cooperativas em que estrangeiros já representam parcela expressiva da força de trabalho. Em algumas unidades, eles chegam a formar a maioria dos colaboradores. Mais do que um dado demográfico, esse movimento revela uma mudança estrutural no mercado de trabalho do agronegócio, com reflexos diretos sobre produção, escalas, expansão industrial, automação, qualificação, moradia, integração cultural e desenvolvimento regional.
Além da reportagem especial, a edição traz conteúdos sobre o impacto do cooperativismo na economia, na geração de renda, na organização das cadeias produtivas, atuando como agentes de desenvolvimento nas comunidades onde estão.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
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Quando o clima ajuda a conter a alta dos grãos
Análise da Consultoria Agro do Itaú BBA indica que o El Niño tende a redistribuir a produção entre regiões e reduzir a volatilidade dos preços, ao contrário da La Niña, que concentra perdas e pressiona o mercado global.

O impacto dos fenômenos climáticos El Niño e La Niña sobre o mercado global de soja e milho não segue um padrão simples de alta ou baixa de preços. De acordo com análise da Consultoria Agro do Itaú BBA, os efeitos são assimétricos, dependem da distribuição geográfica das chuvas e, sobretudo, da intensidade de cada evento.

Foto: Divulgação
No caso do fenômeno El Niño, o efeito global tende a ser mais de redistribuição do risco do que de perda generalizada de produção. Enquanto algumas regiões enfrentam restrições climáticas, como partes da Ásia e da África, grandes produtores como Estados Unidos, Brasil e Argentina podem registrar condições mais favoráveis.
Segundo a análise, esse “balanceamento geográfico” faz com que a produção global de soja, em muitos episódios, apresente até ganhos médios de 2% a 5%. No milho, o comportamento é mais neutro a levemente negativo, com perdas estimadas em até cerca de 4%, concentradas em áreas tropicais.
Esse desenho ajuda a explicar por que eventos de El Niño, especialmente os moderados, podem resultar em menor volatilidade nos preços internacionais de grãos. Com a oferta global relativamente preservada, o mercado tende a operar com estoques mais confortáveis, o que reduz a intensidade de movimentos altistas.
Em eventos mais fortes, como os registrados em 1997/98 e 2015/16, não houve, segundo a consultoria, rupturas relevantes no balanço global de oferta e demanda de soja e milho, e as cotações internacionais exibiram comportamento menos volátil do que em anos neutros ou sob influência de La Niña.
O quadro muda de forma mais consistente sob influência da La Niña. Nesse cenário, o padrão climático tende a ser mais sincronizado entre grandes regiões

Foto: Divulgação
produtoras, ampliando a probabilidade de perdas simultâneas de produtividade.
A América do Sul, responsável por cerca de 65% das exportações globais de soja e fatia relevante do milho, aparece como uma das áreas mais vulneráveis a períodos prolongados de estiagem associados ao fenômeno. Episódios recentes de La Niña entre 2020 e 2022 coincidiram com secas severas no Sul da África e perdas expressivas no Cone Sul, contribuindo para forte alta nos preços internacionais em 2021 e 2022.
Nesse período, o milho chegou a superar US$ 6,50 por bushel em Chicago, enquanto a soja atingiu US$ 17 por bushel, refletindo um aperto global de oferta.
Para a Consultoria Agro do Itaú BBA, essa mudança também reflete uma transformação estrutural no mercado global de grãos. Com o aumento da participação do Hemisfério Sul no comércio internacional, choques climáticos negativos passaram a ter impacto mais direto sobre a formação de preços, especialmente em anos de La Niña.
Nesse contexto, enquanto o El Niño atua mais como um fator de redistribuição regional de produção, a La Niña segue associada a maior risco de desequilíbrio global entre oferta e demanda, com efeitos mais intensos sobre as cotações de soja e milho.
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El Niño 2026/27 pode reordenar oferta global de grãos com impactos opostos entre hemisférios, aponta Itaú BBA
Fenômeno altera padrões de chuva e temperatura no planeta, com efeitos assimétricos sobre EUA, Brasil, Argentina, Ásia e Oceania e maior risco de volatilidade agrícola.

O El Niño é um fenômeno climático de escala global associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele integra o ciclo El Niño-Oscilação Sul (ENOS), que alterna entre três fases: a quente (El Niño), a fria (La Niña) e a neutra.
A fase de El Niño se caracteriza quando as temperaturas do Pacífico permanecem pelo menos 0,5°C acima da média por vários meses consecutivos, acompanhadas por alterações relevantes na circulação atmosférica.

Foto: José Fernando Ogura
Esse processo está ligado ao enfraquecimento ou até à inversão dos ventos alísios, o que favorece o deslocamento de águas mais quentes em direção ao leste do Pacífico e reduz a ressurgência de águas frias na costa da América do Sul. “Por cobrir cerca de um terço do planeta, o Pacífico exerce forte influência sobre a circulação atmosférica global, reorganizando padrões de chuva e temperatura em escala planetária”, afirma a Consultoria Agro Itaú BBA.
Na fase oposta do sistema, a La Niña, observa-se o resfriamento anormal das águas do Pacífico Equatorial, acompanhado pela intensificação dos ventos alísios e por efeitos climáticos em geral contrários aos do El Niño em diversas regiões do mundo.
Ao modificar a interação entre oceano e atmosfera, o ENOS altera a circulação global de umidade e, consequentemente, os regimes de precipitação em diferentes continentes.
O El Niño tende a elevar temporariamente a temperatura média global, enquanto a La Niña promove um leve resfriamento de curta duração. Em ambos os casos, há uma reorganização dos riscos climáticos em escala planetária.

Foto: Gilson Abreu
Esses eventos ocorrem, em média, a cada dois a sete anos e costumam durar entre nove e 12 meses, com impactos relativamente consistentes sobre grandes regiões agrícolas, ainda que com variações de intensidade entre episódios.
Estados Unidos: efeitos mais fortes no inverno e impacto indireto no verão
Nos Estados Unidos, os efeitos do El Niño são mais bem definidos no outono, inverno e início da primavera, quando o fenômeno altera de forma mais consistente os padrões de temperatura e precipitação.
Em termos gerais, o evento está associado a invernos mais amenos e úmidos no Centro-Norte do país e a condições mais secas no Sul, com destaque para o Texas.
Segundo a Consultoria Agro Itaú BBA, há registros históricos de safras elevadas no Corn Belt em episódios de El Niño de intensidade moderada, como em 2009, 2015 e 2023, quando a combinação de umidade e temperaturas mais equilibradas favoreceu o desenvolvimento das lavouras.
Ainda assim, a influência do fenômeno sobre o verão, fase crítica para o desenvolvimento de milho e soja, é menos estável e apresenta maior variabilidade, com casos pontuais em que excesso de precipitação ou ondas de calor tardias impactaram negativamente a produtividade.
Na direção oposta, a fase de La Niña tende a aumentar o risco de secas e ondas de calor no Sul dos EUA e em parte do cinturão agrícola, elevando o estresse hídrico

Foto: Divulgação
sobre as lavouras e ampliando a variabilidade produtiva.
Brasil: assimetria regional e alto grau de variabilidade produtiva
No Brasil, o El Niño acentua a heterogeneidade climática entre as regiões, provocando padrões de chuva distintos e, muitas vezes, opostos no território nacional.
No Sul, há tendência de precipitações acima da média durante a primavera e o verão, o que pode favorecer o desenvolvimento de culturas como soja e milho. Contudo, esse cenário também eleva o risco de encharcamento do solo, proliferação de doenças fúngicas e ocorrência de eventos extremos.
No Sudeste, o regime de chuvas tende a se tornar mais irregular, com alternância entre períodos mais úmidos e episódios de calor intenso, o que pode afetar o desempenho de culturas como soja, milho e cana-de-açúcar justamente em fases críticas do ciclo produtivo.
No Centro-Oeste, o principal risco está associado ao atraso do início das chuvas de primavera, o que pode reduzir a janela ideal de plantio da soja e, por consequência, comprometer o calendário da segunda safra de milho. Além disso, a maior frequência de veranicos e episódios de déficit hídrico durante o verão aumenta a vulnerabilidade das lavouras. “Em cenários de maior intensidade do fenômeno, a combinação entre atraso de plantio e irregularidade das chuvas eleva de forma relevante o risco para o milho 2ª safra no Centro-Oeste”, destaca a Consultoria Agro Itaú BBA.

Foto: Divulgação/Freepik
Nas regiões Norte e Nordeste, o impacto tende a ser mais negativo, com redução mais acentuada das chuvas, o que amplia o risco de secas severas e afeta diretamente o Matopiba e áreas de agricultura de subsistência.
Mapa de risco climático no Brasil
A projeção da Consultoria Agro Itaú BBA indica que o El Niño amplia a assimetria climática no país:
- Sul (RS, SC, PR): risco alto de excesso de chuva e inundações, com impacto também sobre qualidade sanitária das lavouras
- Norte/Amazônia e Matopiba: risco alto de seca, queimadas e déficit hídrico
- Centro-Oeste Norte (MT): risco de veranicos e irregularidade no plantio
- Centro-Oeste Sul (MS e GO): risco médio-alto associado a calor excessivo
- Sudeste: risco médio-alto de ondas de calor e chuvas irregulares
“O comportamento não é homogêneo, e o desafio central é a simultaneidade de riscos distintos dentro de um mesmo país produtor”, aponta a consultoria.
Argentina: padrão mais favorável ao El Niño
Na Argentina, o El Niño historicamente favorece a produção de soja e milho, sobretudo pelo aumento das chuvas durante a primavera-verão, período crítico para o

Foto: Divulgação
desenvolvimento das lavouras no cinturão agrícola do país.
Em anos recentes de El Niño, como 2014/15 e 2016/17, o país registrou produtividades acima da média, em contraste com os episódios de La Niña, marcados por forte restrição hídrica e perdas expressivas.
Segundo a Consultoria Agro Itaú BBA, a seca prolongada de 2020–22, associada à La Niña, levou a produção de soja argentina a cerca de 25 milhões de toneladas em 2022/23, enquanto a reversão para um El Niño forte em 2023/24 permitiu recuperação relevante da oferta, com colheita próxima de 50 milhões de toneladas. “Os extremos do ENOS têm efeito direto e imediato sobre a variabilidade produtiva da Argentina, com forte sensibilidade da soja às condições de chuva no ciclo de primavera-verão”, destaca a consultoria.
Ásia e Oceania
Na Ásia e na Oceania, o El Niño está frequentemente associado ao enfraquecimento das monções (ventos sazonais) e à redução das chuvas, o que provoca alterações relevantes no regime hídrico de algumas das principais regiões agrícolas do mundo.
Na Índia e no Sudeste Asiático, esse padrão climático afeta diretamente culturas estratégicas como arroz, milho e cana-de-açúcar, além de impactar a produção de óleo de palma na Indonésia e na Malásia, com repercussões importantes sobre a oferta global de óleos vegetais.

Foto: Gilson Abreu
Na Austrália, o fenômeno costuma estar ligado a episódios de seca e ondas de calor, comprometendo de forma significativa a produção de trigo, como observado em eventos recentes, incluindo 2015 e 2023. “A forte dependência das monções faz com que a região responda de forma particularmente sensível às variações de temperatura do Pacífico”, observa a Consultoria Agro Itaú BBA.
Sistema climático integrado e risco de oferta global
O conjunto de evidências reforça que o El Niño não se trata de um evento isolado, mas de um componente de um sistema climático integrado, com efeitos simultâneos e interconectados em diferentes continentes.
Na leitura da Consultoria Agro Itaú BBA, o principal ponto de atenção para o ciclo 2026/27 não está apenas na intensidade do fenômeno, mas na sua capacidade de redistribuir riscos climáticos entre hemisférios, com potencial de alterar o equilíbrio global de oferta de grãos e aumentar a volatilidade dos mercados agrícolas.
