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O agro familiar e seu papel na suinocultura

Pesquisador da Embrapa, Marcelo Miele, avalia a participação das famílias do campo no agronegócio brasileiro.

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Arquivo/OP Rural

O agronegócio sempre foi uma das principais molas propulsoras da economia brasileira e nos últimos anos evolui ao ponto de se tornar uma das grandes potências no cenário mundial. O setor foi responsável por 27,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2021, a maior participação desde 2004 (quando foi de 27,53%). O crescimento do PIB no mesmo ano foi de 8,36%, segundo cálculos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Marcelo Miele: “A importante participação da agricultura de base familiar para o desenvolvimento rural sustentável e para a produção e preço dos alimentos no país é incontestável” – Foto: Divulgação

Muito desse ótimo desempenho do agronegócio brasileiro se deve a famílias de produtores rurais espalhadas por todo o Brasil, que utilizam a mão de obra familiar para gerar renda a si e para outras famílias de colaboradores, o que, consequentemente, ajuda a aquecer a economia dos municípios.

Em entrevista ao jornal O Presente Rural, o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Marcelo Miele, falou sobre as atividades desenvolvidas por essas famílias de produtores, em especial, dentro da suinocultura brasileira. Confira.

O Presente Rural – Como se caracteriza a agricultura familiar no Brasil?

Marcelo Miele – A produção agropecuária brasileira é caracterizada pela diversidade de atores, tanto em função do porte dos estabelecimentos, quanto em função do uso de mão de obra com laços de parentesco, ou das atividades econômicas desenvolvidas. De forma geral, os mais de 4,8 milhões de estabelecimentos do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017 se dividiam em quatro grandes grupos. Os grandes e médios produtores com mão de obra essencialmente contratada (não familiar) representavam 23% dos estabelecimentos e 33% do pessoal ocupado, mas concentravam 77% do valor da produção. Por sua vez, a agricultura familiar com mão de obra essencialmente com laços de parentesco abrangia 77% dos estabelecimentos e 67% do pessoal ocupado, mas concentrava 23% do valor da produção.

Esse grande agrupamento também é bastante heterogêneo, se subdividindo em agricultura familiar tecnificada, atuando em mercados e com tecnologias semelhantes a de grandes e médios produtores; agricultura familiar de pequeno porte, atuando em mercados locais e com baixo grau de intensificação tecnológica; e por fim a agricultura familiar voltada à subsistência e autoconsumo.

Importante destacar que a agricultura familiar encolheu entre os dois últimos Censos Agropecuários (2006 e 2017), com redução de 9,5% no número de estabelecimentos e perda de um contingente de 2,2 milhões de trabalhadores, enquanto que na agricultura não familiar houve um aumento de 35% no número de estabelecimentos e a criação de 702 mil postos de trabalho. Mesmo assim, é inegável o importante papel da agricultura de base familiar para o desenvolvimento rural sustentável e a produção e o preço dos alimentos no país.

O Presente Rural – Nesse cenário, como se situa a suinocultura?

Marcelo Miele – Na suinocultura também encontramos esses diferentes tipos de produtores e as tendências apontadas anteriormente. Podemos subdividir a suinocultura brasileira em dois grandes grupos, a suinocultura industrial e a de pequeno porte, atuando em mercados locais ou de nicho. De um lado, há a chamada suinocultura industrial, tecnificada e inserida nos mercados por meio de agroindústrias integradoras, cooperativas e vendas diretas aos frigoríficos no mercado independente. Estima-se que em 2017 era composta por 20 mil estabelecimentos agropecuários com rebanho suíno superior a 100 cabeças, que foi responsável por 93% de todos os suínos produzidos naquele ano (Tabela 1). A grande maioria dos estabelecimentos da suinocultura industrial é de base familiar (73%), mas os produtores com mão de obra contratada detêm a maior parte do rebanho (57%) e dos suínos produzidos (69%).

Em termos de porte, enquanto que o rebanho médio da suinocultura industrial de base familiar era de 844 cabeças, aqueles com mão de obra essencialmente contratada tinham um rebanho médio de 3.083 cabeças, uma escala quase quatro vezes maior. Por outro lado, há um conjunto significativo de 76 mil estabelecimentos agropecuários com rebanho entre 21 e 100 cabeças de suínos (média de 37 cabeças), que compõem o grupo de pequenos suinocultores atuando em mercados locais (Tabela 1), também predominantemente de base familiar (71% dos estabelecimentos e 69% do rebanho). Além desses dois grandes grupos, há mais de 1,3 milhão de estabelecimentos com rebanho de até 20 cabeças que criam suínos para subsistência ou autoconsumo.

Por fim, é importante destacar que entre os dois últimos Censos Agropecuários (2006 e 2017), ocorreu redução significativa no número de estabelecimentos da suinocultura industrial (-25%) e, sobretudo, da suinocultura de pequena escala atuando em mercados locais (-43%). Entretanto, enquanto que esta última pouco ampliou sua escala média, reduzindo o seu rebanho total de suínos (-34%), o segmento tecnificado quase duplicou a escala média de produção (+97% no rebanho médio por estabelecimento) e ampliou o rebanho total em 46% (Tabela 2).

O Presente Rural – Quantas pessoas estão envolvidas na suinocultura familiar no Brasil? Além da mão-de-obra familiar, essas famílias empregam mais pessoas? Essas famílias atuam em outras atividades agropecuárias?

Marcelo Miele – Estima-se que a suinocultura industrial tenha sido responsável em 2021 pelo abate de 50 milhões de cabeças (95% dos abates), ocupando cerca de 45 mil pessoas dentro da porteira, das quais 31 mil são pessoas contratadas (Rais) e 14 mil são produtores e seus familiares. Por outro lado, a suinocultura de pequena escala atuando em mercados locais foi responsável pelo abate de 3 milhões de cabeças, envolvendo aproximadamente 3 mil pessoas, sendo a quase totalidade da agricultura familiar.

De toda forma, nem todos os estabelecimentos da agricultura familiar operam apenas com pessoas com laços de parentesco. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, em 2017, 11% do pessoal ocupado na suinocultura de base familiar não tinha parentesco com o produtor. O inverso também se verifica, e de forma bastante contundente. Entre os suinocultores que não se enquadram no conceito de agricultura familiar, 57% das ocupações eram preenchidas pelo(a) próprio(a) responsável pelo estabelecimento agropecuário ou por pessoas com laços de parentesco com o(a) mesmo(a). Em ambos os casos, além da suinocultura, essas famílias atuam em outras atividades, com destaque para a bovinocultura de leite e grãos, em função das sinergias entre dejetos suínos e pastagens, mas também há consórcio com avicultura e piscicultura.

O Presente Rural – Quais os maiores desafios encontrados por esses suinocultores e quais os maiores benefícios em se trabalhar em família?

Marcelo Miele – Acredito que o maior desafio para os suinocultores de base familiar seja acompanhar o processo de incorporação tecnológica puxado pelos estabelecimentos de maior porte, sem que isso implique em desequilíbrios na disponibilidade de terra, capital e trabalho. Ou seja, 1) que consigam manter uma relação rebanho/área agrícola que permita o correto uso agronômico dos dejetos ou a sua exportação para lavouras de terceiros sem custos significativos de transporte; 2) que consigam repor a depreciação das instalações (25 anos) e dos equipamentos (12 anos), bem como incorporar novas tecnologias e atender exigências dos mercados e das normativas oficiais sem que isso implique em endividamento excessivo ou insolvência; e 3) que consigam atender as atividades de manejo e gestão com a mão de obra familiar disponível, de forma eficiente e não penosa com ajuda da automação, ou com apoio de mão de obra contratada, de forma legal e sem risco de acumular passivos trabalhistas.

Para os pequenos suinocultores atuando em mercados locais ou de nicho, acredito que outro grande desafio seja agregar valor a seus produtos e obter certificação a baixo custo. Isso é fundamental porque muitos dos diferenciais historicamente ligados à produção de base familiar passaram a ser adotados com eficiência por grandes produtores (economia circular com os dejetos, carbono neutro, qualidade do emprego formal, bem-estar animal, livres de antibióticos ou orgânicos).

Em relação aos benefícios, destaco a maior autonomia, a geração de renda agrícola (ou seja, o custo da mão de obra não sai do estabelecimento familiar com o pagamento de salários a terceiros) e a possibilidade de gerar sucessores, de forma a perpetuar um modo de vida que passa a ser cada vez mais identificado como a classe média rural brasileira.

O Presente Rural – Existem regiões específicas que concentram essas famílias de suinocultores?

Marcelo Miele – A região Sul concentrava 9 a cada 10 suinocultores com mão de obra familiar na suinocultura industrial (Tabela 3), com destaque para o Oeste catarinense (SC), o Noroeste rio-grandense (RS), o Oeste paranaense (PR) e o Centro Oriental rio-grandense (RS), que concentram três quartos da suinocultura industrial de base familiar.

Dentre as dez principais mesorregiões geográficas com suinocultura industrial, somente uma não é localizada na região Sul (Tabela 4).

Os pequenos suinocultores que atuam em mercados locais estão localizados sobretudo nas regiões Nordeste e Norte (Tabela 3). Apesar de haver um grande contingente disperso em todas as regiões do país, verifica-se que entre as dez principais mesorregiões geográficas com suinocultura de pequena escala voltada a mercados locais, somente uma está localizada na região Sul (Tabela 5).

O Presente Rural – Qual sua avaliação sobre a sucessão familiar nesses casos?

Marcelo Miele – Tanto em estabelecimentos de base familiar quanto nos demais, vejo uma grande diversidade de situações em relação à sucessão. Além dos aspectos culturais, há questões específicas de cada família. Mas os especialistas apontam para elementos importantes nos processos sucessórios, como o diálogo entre gerações, a delegação de tarefas, a autonomia, bem como a remuneração dos sucessores de forma condizente com o mercado de trabalho da sua região.

Apesar do elevado desemprego no país, há um mundo se abrindo para os jovens, sobretudo em atividades de tecnologia da informação (TI), e muitos optam por não permanecer no meio rural quando este não provê renda atrativa ou boa acessibilidade à internet e ao transporte para os serviços e as diversões da cidade (o meio urbano). Os relatos de negociações amparadas pela Lei da Integração (n. 13.288/2016) nas quais se preconiza valorar o custo da mão de obra familiar pelo salário-mínimo, e não pela remuneração média no mercado de trabalho da região, levantam dúvidas quanto à mensagem sendo passada para os filhos e filhas de suinocultores.

O Presente Rural – Considerando o atual cenário, qual é sua avaliação sobre o futuro da suinocultura desenvolvida com mão-de-obra familiar?

Marcelo Miele – Algumas tendências estão bem consolidadas, como o aumento de escala e da tecnificação na suinocultura industrial (Tabela 2), a capacidade da suinocultura de grande porte não familiar agregar valor e obter economia circular com o uso intensivo de tecnologias da agricultura 4.0, bem como a perda de espaço enfrentada pela agricultura de base familiar, acelerada pelo abandono de políticas públicas importantes como o programa de aquisição de alimentos.

E, apesar das grandes disparidades regionais, também é inegável a tendência à maior conectividade no campo e disponibilidade de infraestrutura de transporte, aproximando o campo da cidade. Nesse ambiente, um cenário futuro positivo para a suinocultura desenvolvida com mão de obra familiar ainda é cheio de incertezas e dependerá da capacidade desse segmento superar desafios. Há inúmeros, como reter talentos por meio da sucessão, fortalecer o associativismo e o cooperativismo entre os pequenos, acessar tecnologias de automação em pequena escala e de certificação a baixo custo que não impliquem em aumentos significativos do rebanho, obter apoio da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e de consultorias em gestão, bem como contratar mão de obra sem incorrer em passivos trabalhistas. À medida que a agricultura familiar conseguir avançar nessas pautas, melhores serão as perspectivas de um cenário de sustentabilidade da atividade no longo prazo.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Fonte: O Presente Rural

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Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso

Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.

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Foto: Divulgação/Acrismat

Apesar do crescimento da produção e dos recordes nas exportações brasileiras de carne suína, a rentabilidade dos produtores de Mato Grosso vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A combinação entre preços em queda, custos de produção ainda elevados e dificuldades para ampliar o consumo interno foi um dos principais temas debatidos durante o 5º Simpósio da Suinocultura de Mato Grosso, realizado pela Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat).

Durante o evento, o superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), Cleiton Gauer,

Superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), Cleiton Gauer: “Mesmo com uma leve redução nos custos, principalmente do milho, esse alívio não chegou de forma suficiente ao produtor” – Foto: Divulgação/Acrismat

apresentou um panorama atualizado da cadeia produtiva e destacou que o Estado segue ampliando seu rebanho e sua produção. Entretanto, esse crescimento não tem se refletido na renda do produtor.

Segundo ele, após a virada do ano, os preços pagos pelo quilo do suíno apresentaram forte retração, reduzindo significativamente a margem da atividade. “Mesmo com uma leve redução nos custos, principalmente do milho, esse alívio não chegou de forma suficiente ao produtor. Hoje estamos observando alguns dos menores resultados econômicos da série histórica da suinocultura em Mato Grosso”, afirmou.

Gauer explicou que a situação é ainda mais preocupante para produtores que possuem financiamentos e investimentos em andamento, já que a redução da rentabilidade compromete a capacidade de cumprir esses compromissos. Outro ponto destacado foi o comportamento das exportações.

Embora o Brasil registre embarques recordes de carne suína, esse desempenho ainda não é suficiente para equilibrar

Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Franco Muller Martins: “O setor enfrenta hoje preços reduzidos em relação aos custos de produção” – Foto: Divulgação/Acrismat

o mercado interno. “Quando analisamos Mato Grosso, apenas cerca de 15% da produção é destinada à exportação. Ou seja, a maior parte permanece no mercado interno, o que limita o impacto positivo das vendas externas sobre os preços recebidos pelos produtores”, explicou.

Gestão eficiente será decisiva

O pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Franco Muller Martins, reforçou que o cenário exige dos produtores uma gestão ainda mais eficiente das granjas. Durante sua palestra sobre custos de produção e perspectivas para 2027, ele apresentou a metodologia utilizada pela Embrapa para calcular os custos de produção em seis estados brasileiros, entre eles Mato Grosso, disponibilizando informações que servem de referência para produtores.

Segundo o pesquisador, embora o Brasil viva um excelente momento nas exportações, esse avanço não foi suficiente para garantir margens satisfatórias aos produtores. “O setor enfrenta hoje preços reduzidos em relação aos custos de produção. Isso exige que o produtor olhe cada vez mais para dentro da propriedade, buscando eficiência, redução de desperdícios e melhoria da gestão”, destacou.

Presidente da Acrismat, Frederico Tannure Filho: “A suinocultura vive um momento de grande evolução tecnológica, mas também de margens cada vez mais apertadas” – Foto: Divulgação/Acrismat

Para Martins, além do trabalho realizado dentro das granjas, será fundamental que toda a cadeia continue investindo em ações de estímulo ao consumo da carne suína. “A ampliação da demanda é um caminho importante para que, no médio prazo, o setor consiga recuperar melhores níveis de rentabilidade”, afirmou.

Além da economia, o pesquisador também abordou a importância da biosseguridade como fator estratégico para manter a competitividade da suinocultura brasileira, tema que também ganhou destaque durante o simpósio.

Para o presidente da Acrismat, Frederico Tannure Filho, a discussão sobre custos de produção, mercado e rentabilidade tornou-se indispensável diante do atual cenário da atividade. “A suinocultura vive um momento de grande evolução tecnológica, mas também de margens cada vez mais apertadas. Por isso, a Acrismat fez questão de reunir especialistas que apresentassem um diagnóstico econômico do setor e apontassem caminhos para que o produtor possa tomar decisões mais seguras. Conhecimento é uma ferramenta essencial para manter a atividade competitiva”, afirmou.

Segundo ele, um dos principais objetivos do 5º Simpósio da Suinocultura de Mato Grosso foi aproximar os produtores das informações técnicas e econômicas que impactam diretamente a rentabilidade das granjas, fortalecendo o setor para enfrentar os desafios dos próximos anos.

Fonte: Assessoria Acrismat
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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores

Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

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Milton Melz ao lado de Marlene Cristina Costa e Alejandro Cardoso, que deixaram a Argentina para trabalhar na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, em Iporã do Oeste (SC) - Fotos: Divulgação

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.

A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”

Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.

A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.

Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.

Recomeço em outro país

Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.

O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”

A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.

A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.

Escola, trabalho e novas oportunidades

Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.

A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida

Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.

Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.

A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.

Reconhecimento e qualidade de vida

Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.

A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.

O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.

Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.

Integração além da porteira

Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.

Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.

O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.

Planos para ficar

Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.

Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.

Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.

A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.

Fonte: O Presente Rural
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Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas

Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

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Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.

Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.

Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.

Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.

O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.

Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.

A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.

Fonte: Assessoria ABRAVES
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