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Genética de plantas e manejo de cultivos: alternativas para compensar os efeitos das mudanças climáticas no Sul do Brasil

A combinação de estratégias genéticas, manejo de cultivos e práticas integradas de gestão de risco são fundamentais para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas. A implementação dessas práticas não só ajudará a mitigar os impactos adversos, mas também vai promover uma agricultura mais resiliente e sustentável no Rio Grande do Sul e em toda a região Sul do Brasil.

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Foto: Shutterstock

As mudanças climáticas estão se manifestando de forma acentuada na região Sul do Brasil, trazendo desafios expressivos para a agricultura. De acordo com o agrometeorologista da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha, duas características climáticas estão moldando a agricultura local: o aumento da umidade e a elevação das temperaturas mínimas. Estas mudanças demandam novas abordagens tanto na genética de plantas quanto no manejo de cultivos para garantir a produtividade e a sustentabilidade da agricultura na região.

Agrometeorologista da Embrapa Trigo, Gilberto Cunha: “A criação de cultivares mais resistentes e a utilização eficiente do solo durante o inverno são estratégias essenciais para garantir a sustentabilidade e a produtividade agrícola na região Sul do Brasil” – Foto: Divulgação/Embrapa Trigo

Desde a metade do século passado, a região Sul tem se tornado progressivamente mais úmida, especialmente na primavera. Muitos locais, que antes recebiam cerca de 1.300 milímetros de chuva anualmente, agora registram até 2.000 milímetros. Além disso, as temperaturas mínimas têm subido, criando um ambiente mais quente e úmido, propício ao desenvolvimento de doenças nas culturas. Este cenário exige um foco intensificado no melhoramento genético para desenvolver plantas mais resistentes a estas condições adversas.

De acordo com o agrometeorologista, os programas de melhoramento genético estão concentrados em criar cultivares com maior resistência a doenças e maior tolerância ao calor. “Estas plantas precisam ser resilientes às variações climáticas, que incluem períodos de alta umidade e estiagens prolongadas. Entre as doenças que mais preocupam estão as doenças de espiga nos cereais de inverno, como o trigo, que são de difícil controle e podem comprometer significativamente a produção”, expõe Cunha, que vai tratar sobre como a genética de plantas e manejo de cultivos podem compensar os efeitos das mudanças climáticas durante o Interleite Sul, de 18 a 19 de maio, no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC).

Além disso, a busca por plantas mais eficientes no uso de recursos e mais tolerantes a um ambiente com maior concentração de CO2 e seca está em andamento nos laboratórios de pesquisa. Embora estas tecnologias ainda estejam em desenvolvimento, já existem cultivares no campo que são mais adaptadas às novas condições climáticas.

Convivendo com extremos climáticos

A convivência com extremos climáticos é uma preocupação constante no Sul do Brasil. A ocupação do solo no inverno com cereais de estação fria, como trigo, cevada, triticale e aveia, é uma estratégia para mitigar os impactos das mudanças climáticas, uma vez que estes cereais não só fornecem grãos para o consumo humano e animal, mas também oferecem opções de pastejo direto e produção de forragem conservada, como pré-secados, feno e silagem e até pode ser usado produção de etanol. “As mudanças climáticas exigem inovações tanto na genética de plantas quanto no manejo de cultivos. A criação de cultivares mais resistentes e a utilização eficiente do solo durante o inverno são estratégias essenciais para garantir a sustentabilidade e a produtividade agrícola na região Sul do Brasil”, ressalta Cunha.

Foto: Matthias Zomer/Pexels

Gestão integrada de riscos na agricultura

A gestão integrada de riscos é fundamental para a agricultura moderna, especialmente em face das mudanças climáticas. Essa abordagem abrange a utilização de tecnologias de manejo de cultivos, a construção de perfis de solo mais adaptados, visando a redução dos impactos negativos do clima, o uso de cultivares com diferentes ciclos de maturação, a diversificação das épocas de semeadura, evitando o plantio simultâneo de todas as áreas, e a transferência de risco, que envolve o seguro agrícola.

Segundo o agrometeorologista, a agricultura enfrenta dois grandes riscos: o climático, por ser uma atividade a céu aberto, e o de preço. “É essencial combinar diversas práticas dentro das tecnologias de produção, por isso é tão importante construção de um perfil de solo saudável e eficiente, capaz de armazenar água e com altos teores de matéria orgânica”, frisa Cunha, acrescentando: “Boas práticas de conservação do solo, como a sistematização da área e o uso de plantio direto, são essenciais. A rotação de culturas, alternando espécies de plantas, minimiza os efeitos adversos do clima e das doenças de plantas, além de melhorar o perfil e a estrutura do solo, evitando camadas compactadas. Esse processo constrói um solo mais produtivo ao longo dos anos”.

Importância dos cereais de inverno

A integração dos cereais de inverno com a produção animal é altamente recomendável na região Sul do Brasil. “O abandono da prática de pousio, que é quando nada se planta no campo, é fundamental na região Sul. O pousio degrada o solo e favorece plantas daninhas que dificultam o controle e reduzem a produtividade”, afirma Cunha.

O uso do solo no inverno para plantio de cereais, como trigo, cevada, triticale e aveia, de acordo com Cunha não só contribui para a produção de grãos, mas também para a forragem, beneficiando a alimentação animal. “Isso melhora as propriedades do solo, mitiga as emissões de gases de efeito estufa e agrega renda ao integrar sistemas de produção de grãos com pecuária. Além disso, o uso desses cereais para pastejo direto, silagem e comercialização dos grãos proporciona diversas oportunidades de renda ao produtor”, salienta o agrometeorologista.

Catástrofe no Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul enfrenta uma situação difícil com muitas cidades alagadas e rodovias destruídas pelas enchentes. Esta situação tem impactado diretamente o escoamento da produção devido à dificuldade de acesso para o recolhimento dos produtos. Mesmo nas cidades não diretamente atingidas pelas enchentes, o impacto indireto das estruturas rodoviárias danificadas tem prejudicado o setor agropecuário como um todo.

Nas regiões onde a água já baixou, os prejuízos são evidentes nas estruturas industriais e unidades produtoras de animais. Muitas cidades viram a população perder completamente suas casas, com os prejuízos mais acentuados na região Central do estado e na grande Porto Alegre. “Os impactos ainda estão sendo calculados, mas os prejuízos são inúmeros, especialmente na produção de forragem para alimentação do gado leiteiro, que sofrerá atrasos no estabelecimento de novas áreas”, aponta Cunha.

Embora a produção de grãos tenha sido menos impactada, já que a maioria das lavouras de soja, milho e arroz já havia sido colhida, ainda existia uma área significativa por colher no Sul do estado, onde cerca de 24% das lavouras estavam nos campos quando as enchentes começaram, conforme dados da Emater-RS. “Na pecuária leiteira, o comprometimento é significativo, pois muitas das regiões afetadas são de pequenas propriedades, e esses produtores foram os mais atingidos pelas enchentes”, afirma Cunha.

Seguro rural e zoneamento agrícola

Cunha é enfático ao afirmar que nenhum produtor deve abrir mão do seguro rural, que se torna um insumo de proteção cada vez mais importante na agricultura brasileira, especialmente no Sul. Outra ferramenta essencial de gestão de risco é o zoneamento agrícola de risco climático, que identifica as potencialidades das espécies em cada região, quando plantar e os níveis de risco envolvidos. “Este instrumento subsidia as políticas de crédito e seguro rural no Brasil, tornando-se essencial para a gestão de risco e a sustentabilidade da agricultura”, pontua.

A combinação de estratégias genéticas, manejo de cultivos e práticas integradas de gestão de risco são fundamentais para enfrentar os desafios impostos pelas mudanças climáticas. A implementação dessas práticas não só ajudará a mitigar os impactos adversos, mas também vai promover uma agricultura mais resiliente e sustentável no Rio Grande do Sul e em toda a região Sul do Brasil.

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Fonte: O Presente Rural

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A revolução na cadeia do leite no Brasil

A inovação tecnológica e a busca constante por excelência prometem moldar um futuro robusto para a produção de leite no país.

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Foto: Íris Beatriz dos Santos

Nos últimos anos, a cadeia produtiva do leite no Brasil passou por uma transformação significativa. Em 2017, cerca de 600 mil produtores participavam do mercado formal. Hoje, esse número está entre 220 e 260 mil. Apesar da redução no número de produtores, a produção de leite aumentou, evidenciando a crescente escala de produção nas fazendas que permaneceram ativas.

A consolidação da produção em um número menor de fazendas, mas mais eficientes, traz benefícios evidentes. Grandes propriedades leiteiras têm acesso às mais avançadas tecnologias, desde a genética aprimorada de animais e plantas para a dieta até equipamentos e softwares de última geração. Isso resulta em leite de qualidade superior, além de maior eficiência na produção e lucratividade.

Esse novo cenário sinaliza um futuro promissor para a cadeia do leite no Brasil. A concentração em produtores mais eficientes e tecnologicamente avançados não apenas garante a produção de leite de alta qualidade, mas também assegura a sustentabilidade da atividade. A tendência é que apenas os melhores produtores permaneçam no mercado, impulsionando a competitividade e o desenvolvimento contínuo do setor.

Com a qualidade e a eficiência se tornando fatores decisivos, o setor lácteo brasileiro está preparado para enfrentar desafios e aproveitar novas oportunidades. A inovação tecnológica e a busca constante por excelência prometem moldar um futuro robusto para a produção de leite no país.

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Fonte: Por Giuliano De Luca, jornalista e editor-chefe do jornal O Presente Rural
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Governo federal e do Paraná vão criar grupo de trabalho para qualificar setor leiteiro

Desde a acentuação da crise no setor leiteiro, particularmente em razão das importações, o Estado tomou algumas medidas como a implantação de tributação de 7% na chegada do produto importado no Paraná e a aprovação de legislação que possibilita elevar a alíquota a 19,5%.

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Fotos: Evandro Fadel/Seab

A Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab) e o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) vão criar um grupo de trabalho para discutir alternativas de curto, médio e longo prazo para fortificar e qualificar ainda mais a cadeia leiteira do Estado, particularmente a vinculada à agricultura familiar.

A decisão foi tomada na segunda-feira (03) durante reunião na Seab. “O ambiente rural do Estado está esperando isso de nós, e tem de ser urgente, o governo está disposto a ajudar”, afirmou o secretário da Agricultura e do Abastecimento, Natalino Avance de Souza. “Diante das dificuldades que o setor vive, se nada for feito vamos perder mais produtores, e a tendência é que as pessoas não fiquem mais no meio rural”.

Ele acentuou a crença de que é preciso continuar o processo de transformação do leite e agregação de valor ao produto. “Podemos ter os melhores produtores de leite e de queijo do País”, ressaltou. “Mas os custos de produção estão em alta e a renda tem diminuído, é preciso ajudar o produtor e rever o sistema de produção”.

Também presente à reunião, o secretário de Estado da Fazenda, Norberto Ortigara, destacou que desde a acentuação da crise no setor leiteiro, particularmente em razão das importações, o Estado tomou algumas medidas como a implantação de tributação de 7% na chegada do produto importado no Paraná e a aprovação de legislação que possibilita elevar a alíquota a 19,5%.

No entanto, outra das preocupações para que o produtor se mantenha na atividade é a busca de redução no custo de produção. “Precisamos fazer alguma coisa, encontrar o caminho para baixar esse custo”, disse. Ortigara reforçou que esse é um trabalho que precisa ser feito de forma integrada entre os estados do Sul, que são responsáveis por produzir 40% do leite brasileiro, mas que consomem apenas 15%. “A minha vinda ao Paraná tem a ver com a tentativa de estabelecer uma parceria com o Estado e é importante ter a ideia da Aliança Láctea, que pega os três estados do Sul, e podemos estender a outros”, disse o secretário de Agricultura Familiar do MDA, Vanderlei Ziger.

Ele ponderou a necessidade de estudar a questão não apenas sob a ótica do aumento da importação de leite em pó de países do Mercosul. “A crise do leite não está em um fator só, e entender essas variáveis é extremamente necessário, precisamos ter um conhecimento mais aprofundado delas”, acentuou.

Além disso, propôs análise de alternativas que possibilitem manter o custo de produção em patamar aceitável, capitalizar o produtor, fortalecer a assistência técnica e promover discussão sobre o modelo de produção mais viável. “Precisamos fazer alguma coisa para salvar o produtor”, afirmou.

Em 2023, o Paraná se aproximou mais de Minas Gerais na disputa pela liderança do mercado de leite. O Estado ficou com a segunda maior evolução na produção entregue a laticínios, com 3.626.378 bilhões de litros nessa modalidade. Minas Gerais segue liderando o ranking, com 23,8% da captação nacional, mas perdeu 0,8 ponto percentual, já que tinha 24,6% do mercado em 2022. O Paraná, que detém a cidade que mais produz, em Castro, saltou de 14,4% para 14,8%.

Presenças

Também participaram da reunião a superintendente do MDA no Paraná, Leila Klenk; o diretor técnico da Seab, Benno Doetzer; o chefe do Departamento de Economia Rural (Deral), Marcelo Garrido; a chefe de Gabinete da Seab, Vera da Rocha Zardo; o oficial de projetos da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), Valter Bianchini; e o gerente de Cadeias Produtivas do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná-Iapar-Emater (IDR-Paraná), Hernani Alves da Silva.

Fonte: AEN-PR
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Pastagens bem manejadas amplificam ganho de peso diário e produção de leite

A eficiência alimentar é um indicador usado para a rentabilidade e a sustentabilidade das operações pecuárias, ligada à capacidade dos animais de converter o alimento consumido em peso corporal ou produção de leite. Ou seja, investir em forrageiras que maximizem esse processo tornou-se uma estratégia essencial para os produtores que almejam melhorar seus resultados.

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Foto: Divulgação/Arquivo OP Rural

No cenário cada vez mais competitivo da produção agropecuária, a busca por métodos e tecnologias que otimizem a eficiência alimentar do gado se torna uma prioridade para os produtores de carne e leite. Nesse contexto, as forrageiras têm desempenhado um papel fundamental, oferecendo soluções inovadoras que promovem uma alimentação mais balanceada e nutritiva para o rebanho, resultando em maior produtividade e lucratividade ao produtor.

A eficiência alimentar é um indicador usado para a rentabilidade e a sustentabilidade das operações pecuárias, ligada à capacidade dos animais de converter o alimento consumido em peso corporal ou produção de leite. Ou seja, investir em forrageiras que maximizem esse processo tornou-se uma estratégia essencial para os produtores que almejam melhorar seus resultados.

Engenheira agrônoma, doutora em Produção Animal e pesquisadora da área de Nutrição Animal no IDR-Paraná, Simony Lugão: “Os pastos representam a fonte mais acessível e econômica de alimento para o gado” – Fotos: Jaqueline Galvão/OP Rural

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, a engenheira agrônoma, doutora em Produção Animal e pesquisadora da área de Nutrição Animal no Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná), Simony Lugão, fala das principais forrageiras usadas, dos desafios de manejo e dos benefícios que oferecem para a eficiência alimentar do gado de corte e de leite.

Desde variedades mais nutritivas até aquelas adaptadas a diferentes condições climáticas e tipos de solo, as opções disponíveis têm proporcionado aos pecuaristas uma gama de escolhas para atender às necessidades específicas de seus rebanhos e ambientes de produção. “Os pastos representam a fonte mais acessível e econômica de alimento para o gado. No entanto, a maioria das áreas destinadas à pastagem no país se encontra em estado de degradação, apresentando um desafio significativo para a sustentabilidade da pecuária. Problema esse que afeta diretamente a qualidade da alimentação do gado e, consequentemente, sua produtividade, assim como a rentabilidade das operações pecuárias. Mas quando bem manejadas, tanto no manejo do pastejo quanto da fertilidade do solo, as pastagens podem impulsionar o desempenho dos animais”, ponta a profissional, enfatizando: “Investir em práticas de manejo sustentáveis e na revitalização dos pastos degradados é fundamental para garantir a eficiência e a viabilidade a longo prazo da pecuária no país”.

Custo de produção

Simony explica que na pecuária leiteira, quando o produtor possui animais que produzem entre 10 e 12 litros por dia, a alimentação é baseada em pasto. “Se possuímos um pasto de boa qualidade e vacas com uma média de produção de 15 litros/dia, precisamos além do pasto fornecer apenas milho, sem a necessidade de suplementação proteica, pois neste caso o teor de proteína já é adequado. Porém, quando a produção diária ultrapassa os 15 litros, se torna necessário complementar a alimentação com ração, tanto proteica quanto energética”, menciona.

Foto: Juliana Sussai

No que diz respeito à pecuária de corte, pastagens bem manejadas e adubadas podem resultar em um ganho de peso de até 700 gramas por dia, o que é considerado excelente. Entretanto, Simony diz que é importante que o produtor evite fornecer ração aos animais quando já dispõe de pasto, pois isso eleva os custos de produção. “O concentrado, por exemplo, é em média 80% mais caro do que manter um pasto bem adubado”, ressalta.

Pastagens no Paraná

No Paraná, a pesquisadora relata que cerca de 40% das pastagens estão degradadas, evidenciado que a nível do Brasil esse cenário não é muito diferente. “É fundamental que o produtor se conscientize sobre a necessidade de iniciar um processo de reforma dessas pastagens. Isso não apenas se relaciona com a sustentabilidade das áreas, mas também com a rentabilidade do produtor. A escassez de pasto leva ao uso excessivo de ração, aumentando os custos da atividade. Isso pode ser especialmente problemático para os pequenos produtores, tornando a continuidade na atividade muitas vezes inviável”, pondera a pesquisadora.

Diversidade de sistemas de produção

Atualmente, no país, existem diversos sistemas de produção de pasto em uso. Para os produtores que não desejam adotar sistemas intensificados, é possível trabalhar com espécies de pastagem mais rústicas, como as braquiárias. No entanto, a engenheira agrônoma explica que até mesmo uma braquiária bem adubada pode oferecer uma resposta satisfatória. “No caso da pecuária leiteira, é possível obter bons resultados com o uso de capins mais refinados, como o Tifton 85 e os pânicos – que são espécies que tem um pouco mais de qualidade e uma produção maior – desde que o manejo adequado seja implementado, tanto em termos de adubação quanto de pastejo”, salienta.

É fundamental reconhecer que a escolha das espécies de capim deve estar alinhada com o perfil e as capacidades do produtor. “Se o

Foto: Arnaldo Alves

manejo necessário não puder ser realizado, é mais sensato optar por espécies que cubram bem o solo, mesmo que sua produção seja mais limitada. Essas espécies ainda podem oferecer um desempenho satisfatório para o gado, embora não tão elevado quanto outras opções de capins mais exigentes em termos de manejo”, pontua.

Planejamento forrageiro

De acordo com a pesquisadora, o primeiro passo a ser dado em uma propriedade sem pastagem é realizar um planejamento forrageiro. Ela diz que o maior desafio da cadeia de produção está na gestão do pasto de verão, que tem seu pico de produção entre outubro e meados de abril. “Como essas plantas são do tipo C4 e preferem climas quentes, sua produção no inverno reduz drasticamente para cerca de 20% em comparação ao verão. Sem a devida complementação, com silagem e feno, o produtor acaba exaurindo os recursos do pasto durante o inverno, iniciando assim um processo de degradação”, expõe.

A doutora em Produção Animal menciona que o plano forrageiro deve levar em consideração o número de animais e o consumo esperado, tanto no verão quanto no inverno. “Isso é essencial para evitar a degradação do pasto, pois é comum vermos pastagens de excelente qualidade no verão se deteriorarem rapidamente no início da primavera. Esse atraso na recuperação pode aumentar o tempo necessário para o pasto voltar a produzir, indo de 20 a 25 dias para 40 a 50 dias”, afirma.

Em um projeto conduzido em parceria com a Itaipu Binacional, a pesquisadora conta que são acompanhadas pelos extensionistas do IDR-Paraná 50 propriedades leiteiras nas regiões Oeste e Noroeste, desenvolvendo um planejamento de pastagem. “Identificamos as áreas mais degradadas e traçamos um plano para iniciar nelas um processo de reforma, produzindo pasto no verão e cultivando capiaçu para silagem e milho no inverno. Com o passar do tempo, expandimos a área de produção à medida que o número de animais na propriedade aumenta. Na pecuária leiteira, esse processo pode levar de quatro a seis anos para estabilizar a propriedade. O mesmo princípio se aplica às propriedades de corte”, revela, ampliando: “Por isso que precisamos evitar a degradação das pastagens. A criação de gado leiteiro é uma atividade complexa, que envolve diversos fatores, como sanidade do rebanho, gestão de pastagens, reprodução, criação de novilhas, entre outros. Para isso é essencial contar com uma equipe técnica interdisciplinar, composta por agrônomos, zootecnistas e veterinários, para fornecer suporte adequado às propriedades”.

A engenheira agrônoma destaca o trabalho feito pela assistência técnica, que acompanha de perto os indicadores técnicos e econômicos das propriedades. “Para avaliar a produção de pasto com o produtor é essencial entender se está de acordo com as expectativas estabelecidas. Cada espécie forrageira tem uma altura ideal para pastejo, na qual há o máximo de produção de folhas e o mínimo de colmos e folhas senescentes. Isso é fundamental, pois é a folha que proporciona o melhor desempenho ao animal”, evidencia Simony.

Além da produção de pasto, também são analisados o custo envolvido na produção de silagem, no manejo do pasto e na criação de bezerras. “Essa análise detalhada nos permite identificar onde estão os principais gargalos e dificuldades enfrentadas pelo produtor. Com esses dados em mãos, podemos oferecer orientações precisas e direcionar nossas ações dentro da propriedade, buscando otimizar os processos e melhorar a rentabilidade da atividade pecuária”, enaltece.

Simony frisa a importância do manejo eficiente e da adubação para garantir a qualidade das forrageiras, especialmente do grupo pânico. “Com o manejo adequado, garantindo que as vacas consumam principalmente as folhas, e com uma adubação bem realizada, é possível aumentar de forma significa a proteína na forragem. Em propriedades pequenas, a eficiência é ainda mais importante devido à limitação de espaço. Com uma média de um animal por hectare, nosso projeto trabalha com uma lotação de seis a sete animais por hectare, o que pode aumentar a produção do produtor em até sete vezes, refletindo diretamente em sua rentabilidade”, esboça.

Sistemas de pastejo

Existem dois sistemas de pastejo predominantes: o contínuo, no qual os animais permanecem na área como um todo, e o rotacionado, onde a área é dividida e os animais mudam de área regularmente. De acordo com a pesquisadora, o pastejo rotacionado, especialmente em áreas adubadas, apresenta uma taxa de crescimento mais alta, facilitando o manejo e proporcionando um melhor controle da altura ideal para maximizar a produção de folhas. “Na pecuária leiteira do Paraná, a maioria dos produtores utiliza o sistema de pastejo rotacionado, que se mostrou mais eficiente em termos de manejo e produção de forragem”, expõe.

Simony enfatiza que a rotação de forrageiras desempenha um papel importante na eficiência alimentar e na sustentabilidade do manejo do pasto. “Por exemplo, se um pasto possui 6% de proteína e uma vaca precisa de 15% de proteína para produzir 15 litros de leite por dia, o produtor precisa complementar a dieta com concentrado. No entanto, em áreas bem manejadas, onde o pasto pode ter até 18% de proteína, a necessidade de concentrado é reduzida, proporcionando economia para o produtor”, assegura.

Foto: Arnaldo Alves

A pesquisadora frisa que a análise bromatológica do capim é essencial para determinar a quantidade de proteína suplementar necessária na dieta. “Isso é realizado através de uma planilha de nutrição animal, que permite ajustar a dieta de cada vaca de acordo com a qualidade do pasto, resultando em uma redução significativa nos custos da dieta, de 20 a 30%. Como a maioria das propriedades são de pequenos produtores, os rebanhos são muito heterogêneos, com vacas de diferentes produções e características, o que inviabiliza uma padronização em lotes, por isso que a nutrição de precisão se torna ainda mais importante. Desta forma cada vaca recebe uma dieta personalizada de acordo com suas necessidades”, aponta.

Maximizando a eficiência alimentar com utilização de forrageiras

A pesquisadora ressalta a importância de maximizar a eficiência alimentar através do manejo adequado das forrageiras, seguindo as recomendações de entrada e saída do pasto. Por exemplo, no caso da Brachiaria brizantha, uma das pastagens mais utilizadas no país, a altura de entrada ideal é de 25 a 30 centímetros, pois se ultrapassar essa altura, o pasto tende a ficar com mais talos, o que reduz o desempenho animal.

Já para o capim zuri, outra forrageira de qualidade, a altura de entrada recomendada é de 70 centímetros, com um resíduo de 35 centímetros após o pastejo. Ultrapassar essas medidas pode resultar em uma queda no desempenho dos animais. “Um dos maiores erros cometidos pelos produtores está relacionado ao manejo incorreto do pasto. É fundamental monitorar diariamente o crescimento do pasto, pois ele varia de acordo com a temperatura e a quantidade de chuva, bem como acertar o manejo antes de associá-lo à adubação, caso contrário o custo da pastagem pode se tornar mais elevado sem os resultados esperados”, reforça.

Rentabilidade em diferentes tipos de solo

Foto: Everton Queiroz

Em relação aos tipos de solo, como arenoso e argiloso, a quantidade de adubo utilizada varia significativamente. Por exemplo, em solos arenosos, como os encontrados na região Noroeste do Paraná, são necessários cerca de 300 quilos de nitrogênio para trabalhar com sete a oito vacas. Já em solos argilosos, como os da região Oeste do Paraná, essa quantidade pode ser reduzida para 200 quilos de nitrogênio para a mesma quantidade de vacas. “Isso ocorre porque os solos argilosos possuem maior teor de matéria orgânica e são naturalmente mais ricos em nutrientes. Quando todas as orientações são seguidas corretamente, o potencial de produção, mesmo em solos arenosos, é considerável”, aponta.

Gestão das propriedades

Para fazer a gestão das propriedades no Paraná é utilizado o Sistema de Gerenciamento e Administração de Projetos Agropecuários (Sigeap), um software que coloca todos os dados de gestão para fazer essas análises. E outro software que está sendo desenvolvendo é a planilha de nutrição de precisão. “Embora a formulação de dietas específicas para cada animal possa ser trabalhoso inicialmente, os benefícios a curto prazo são significativos, resultando em maior rentabilidade para o negócio”, assegura a pesquisadora, completando: “É importante começar com pequenos ajustes, como implementar a dieta de precisão em algumas vacas do rebanho, para que o produtor possa verificar os resultados e entender como isso impacta a rentabilidade do seu negócio. Além disso, é essencial monitorar de perto o ciclo de reprodução das vacas, garantindo que elas não permaneçam secas por períodos prolongados, o que resultaria em prejuízos para o produtor. Um acompanhamento adequado visa alcançar um equilíbrio ideal entre vacas lactantes e secas, contribuindo para a rentabilidade do sistema”.

Simony frisa a importância de o produtor compreender e fazer a gestão da propriedade, e muitas vezes isso se dá através da utilização de ferramentas básicas, como o medidor de leite. “Esse instrumento revela informações de suma importância sobre a produção individual de cada vaca, permitindo um planejamento nutricional mais eficiente”, argumenta.

Desafio emergente

A pesquisadora é enfática ao afirmar que o desafio atual reside em ensinar o produtor a fazer o manejo correto, orientar o uso do adubo de forma adequada, fazendo a implantação certa do pasto com uso de calcário e fósforo. “O fósforo tem mobilidade, por isso é importante começar por ele para depois trabalhar com nitrogênio e potássio em dose menor. É preciso entender que o pasto é uma cultura perene, quando o produtor faz uma boa implementação e um bom manejo terá pasto de 30 a 40 anos na sua propriedade”, afirma.

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Fonte: O Presente Rural
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