Conectado com

Notícias

Estratégias agroecológicas garantem produção de alimentos saudáveis e resistência às adversidades climáticas

Sistemas de produção proporcionam bons rendimentos, melhoria das condições do solo e do ambiente e resistência a pragas e doenças sem uso de produtos químicos.

Publicado em

em

Fotos: Alexandre Veloso

Sebastião Tomé Sobrinho, mais conhecido como Tiãozinho, e sua esposa, Marivalda dos Santos, cuidam sozinhos das lavouras e de alguns animais no Sítio Aroeira, em Catalão, a cerca de 300 quilômetros de Goiânia (GO). Lá, eles também produzem milho e feijão consorciados, alternados com girassol, crotalária, gergelim e feijão-guandu. O motivo de tanta diversificação é a produção com uso reduzido de produtos químicos, tanto para adubar a terra quanto para afastar pragas e doenças, explorando as diferentes funções que as plantas desempenham.

Mesmo com as lavouras comprometidas pela falta de chuva no fim de 2023, as plantas do sítio chamam atenção. “Foram mais de 30 dias de seca. As pessoas falaram que eu tinha que cortar e plantar de novo, parecia que não ia dar. Assim que a chuva começou, as plantas começaram a brotar”, lembra Tião. Marivalda também estranhou a situação: “Há quarenta anos, nunca vi um clima tão adverso, e a lavoura resistiu. O pessoal da Embrapa plantou na poeira e as plantas estão aí, para vocês verem”.

Esse é o resultado de quase dez anos da transição agroecológica que vem sendo feita na propriedade, gleba por gleba. “Os sistemas agroecológicos aumentam a capacidade do solo de armazenar nutrientes, matéria orgânica e água e ainda aumentam a proliferação da fauna do solo. Por isso, eles desenvolvem resiliência – contra pragas, contra adversidades climáticas. O solo fértil aumenta a produtividade e gera ganho no ambiente como um todo”, explica a pesquisadora da Embrapa Cerrados, Cynthia Torres, responsável pelo projeto.

No sítio, foi instalado um sistema chamado de célula de seleção, onde é feito plantio rotacionado e consorciado de variedades de milho e feijão que apresentaram melhor desempenho na região e que atendem os usos e preferência dos agricultores. Ano após ano, é feita a seleção participativa que garante a melhoria das variedades cultivadas.

Enquanto a recomendação geral para adubação de milho é de 100 quilos de fósforo por hectare, na última safra, foram aplicados menos de 20 quilos de fósforo por hectare na área dos sistemas agroecológicos do sítio, a partir dos resultados das análises de solo. Nessas áreas também é feito o acompanhamento dos parâmetros biológicos dos solos, da produtividade dos cultivos e dos ganhos de seleção das variedades nos sistemas.

A produção de sementes também está entre os objetivos da pesquisa. O mercado de sementes agroecológicas de variedades de milho, feijão e plantas de cobertura é muito restrito, assim como da maioria das plantas, segundo a pesquisadora: “Em geral, o produtor rural tem acesso aos híbridos e às variedades transgênicas. Com essa estratégia, queremos aumentar o acesso dos produtores à semente de variedades tradicionais, porém produtivas e de qualidade. Elas permitem que cada um produza sua própria semente e assim tenha independência na sua lavoura”.

A agricultora Marivalda ressalta a importância dessa atividade. “Nós nos dedicamos para produzir uma semente saudável, para comercializar e distribuir. Isso vai se expandindo, vira uma cadeia. Daqui a pouco, mais pessoas vão produzir e vamos voltar ao passado, quando eram produzidos alimentos saudáveis”, acredita.

Estratégias agroecológicas

Mais de 110 pessoas, entre produtores rurais, professores, estudantes e interessados no tema, deslocaram-se de Catalão e de municípios vizinhos – Vianópolis, Formosa, Ipameri, São Luís de Montes Belos, Ouvidor, Orizona, Silvânia e Luziânia – e de alguns mais distantes – como Teresina de Goiás, mais especificamente do Quilombo Kalunga – para conhecer os sistemas agroecológicos de seleção e produção.

No Sítio Aroeira, os convidados conheceram o sistema composto por variedades de feijão, plantas que ajudam na manutenção da funcionalidade do sistema, como as plantas adubadoras (que também ajudam no controle de pragas e doenças e atraem insetos polinizadores), além do milho Eldorado, variedade da Embrapa escolhida por Tiãozinho para continuar a seleção e integrar suas lavouras. “Nós estamos com esse milho aqui há uns dez anos. Algumas pessoas disseram que ele não era bom, que não produzia, que era fraco. Depois da seleção que fizemos, bem selecionado, catado, ele está nascendo igual ao transgênico, com dente e espiga grandes, bom para pamonha”, garante o agricultor.

Quanto ao feijão, seis variedades estão sendo cultivadas, ainda para seleção e melhoramento. Mas Tiãozinho e Marivalda adiantam que querem manter uma variedade chamada de Roxão e outra de feijão-rajado. “No caso do feijão, além de selecionar as variedades que melhor se adaptam ao ambiente, com boa produção de semente, ele tem que ser bom de panela”, explica o pesquisador Agostinho Didonet, que acompanha o desempenho da cultura nas propriedades.

Já na Fazenda Corinalves, próxima a Catalão, os proprietários Jamil Corinto e Lucimar Alves se encarregam dos cuidados com as lavouras e a criação de gado. Na propriedade, a estratégia agroecológica utilizada é o sistema de produção de alimentos e sementes chamado de corredor agroecológico, que segue a mesma lógica do Sítio Aroeira, de plantações diversificadas.

No corredor agroecológico, o plantio é feito em faixas e os cultivos são consorciados, obedecendo os critérios definidos de acordo com a função das plantas no sistema e das plantas vizinhas. Por exemplo, a faixa de milho sempre entre faixas de crotalária-juncea e a de feijão, entre faixas de gergelim-preto. Crotalária-juncea e gergelim-preto atuam no controle biológico de pragas importantes do milho e feijão, a lagarta do cartucho e a mosca-branca, respectivamente. O gergelim também repele as formigas cortadeiras, facilitando o manejo dessa praga. As faixas são rotacionadas ano após ano, ou seja, o milho nunca é plantado na mesma posição do ano anterior, assim com os feijões. A rotação é feita com as plantas de cobertura ou adubadeiras.

Para o corredor agroecológico da Fazenda Corinalves, o casal optou pela variedade de milho Sol da Manhã, principalmente por sua resistência à seca. “O Sol da Manhã tem uma vantagem. Pode dar o sol que for, ele não te deixa na mão. É a única variedade de milho que desenvolveu uma latência. Quando vem o sol forte, ele paralisa. Depois, quando vem a chuva, ele volta a se desenvolver. A produção pode não ser aquela que ia dar, mas ele não fica sem produzir nada. Se fosse outra variedade de milho, ela já tinha acabado. Como o Sol da Manhã tem essa latência, ele suportou”, garante o produtor.

A pesquisadora ressalta que essa variedade foi uma das que apresentou melhor desempenho produtivo nos ensaios e nas unidades demonstrativas instalados na propriedade em anos anteriores. O mesmo ocorreu com as plantas de cobertura, os feijões e as outras espécies usadas no corredor. A seleção participativa do milho e feijão também podem ser feitas no corredor, porém sua principal função é a de produção.

Assim como os proprietários do Sítio Aroeira, Jamil e Lucimar vendem as sementes que colhem na fazenda, principalmente por meio de programas governamentais, além de guardar para semear na próxima safra: “O Movimento Camponês Popular tem uma parceria com a Conab para vender as sementes de milho. As sementes de guandu e crotalária, nós vendemos também. Todas as sementes são muito procuradas. Como pouca gente produz, vendemos fácil”, garante Jamil.

Para a diretora de Negócios da Embrapa, Ana Euler, que conheceu as experiências dos agricultores de Goiás, hoje o desafio do Brasil é como produzir alimentos. “Cada lugar tem que olhar seu sistema. Não existe um corredor agroecológico – são diversas possibilidades de conciliar produção de alimentos, sementes, adubos verdes. A diferença é que essa pesquisa é feita com os agricultores familiares e, juntos, buscamos diversas alternativas. É uma co-construção a partir do conhecimento empírico e do conhecimento científico”, explica, enfatizando que não se trata de um modelo a ser seguindo, mas sim de uma tecnologia que segue algumas premissas, mas que podem variar em função das necessidades e escolhas dos agricultores e suas condições, em um processo participativo.

O Circuito Agroecológico na região de Catalão (GO) – Projeto Agrobio III, foi organizado pela Embrapa Cerrados, pelo Movimento Camponês Popular (MCP) e pela Associação Estadual dos Pequenos Agricultores de Goiás (Aepago), realizado na segunda semana de janeiro.

Produção sustentável com resgate de sementes crioulas
A estratégia da produção agroecológica em Catalão é feita com sementes crioulas, aquelas que eram produzidas e multiplicadas pelos próprios agricultores. Com o passar dos anos, essas sementes foram sendo substituídas por outras, comercializadas por empresas do ramo. Isso fez com que os produtores perdessem acesso ao material que cultivavam no passado.

Em Goiás, por meio da associação, os agricultores começaram uma busca pelas sementes que antes se plantava na região. Junto com as que encontraram, juntaram-se algumas opções de variedades de milho e de feijão da Embrapa, resultados de melhoramento convencional ou participativo. “Resgatar essas sementes é resgatar uma história, as manifestações culturais, o artesanato, o processo local, a religiosidade. Semente é vida”, explica Sandra Alves, diretora nacional do Movimento Camponês Popular.

O produtor Jamil confirma a importância do uso de variedades que permitem a reprodução de suas próprias sementes. “Eu vejo muita vantagem nesse sistema. Só de eu ter minha semente, que eu não preciso comprar, que eu não preciso aplicar veneno, que não é transgênica, que não depende de agrotóxico, isso já é muito importante. É a garantia de uma vida saudável, de saúde para nossa família”, completa.

Kamylly de Brito veio de longe para aprofundar seus conhecimentos sobre agroecologia. Ela mora no Quilombo Kalunga, o maior território de descendentes quilombolas no Brasil. Ele ocupa parte dos municípios de Cavalcante, Teresina de Goiás e Monte Alegre de Goiás, na região da Chapada dos Veadeiros, onde vivem mais de nove mil pessoas. “Nós viemos ver como é esse projeto, os sistemas, como fazem a seleção das sementes, tudo o que tem por trás, os objetivos dos produtores. Eu acredito que esse projeto tem um potencial enorme para ajudar a agricultura familiar e reduzir um pouco a monocultura. Nós podemos sim colocar novas tecnologias no campo, mas também preservar o que temos”, afirma a jovem. Ela conta também que essa forma de fazer agricultura não é nova em sua comunidade: “No quilombo, nós temos a produção igual a daqui. Nós plantamos feijão, arroz, milho. Mas as pessoas têm que trabalhar para que isso não se perca. Lá, as pessoas trazem essa história, mantêm a maneira de cultivar, de socar o arroz no pilão, elas carregam isso até hoje”.

A diretora da Embrapa confirma a importância desse pensamento: “Hoje buscamos sistemas mais sustentáveis. A sustentabilidade é uma palavra muito forte nesse momento de mudanças climáticas. É o momento de termos estratégias para dar resiliência aos sistemas. Não é uma ação de curto prazo, mas é um investimento que vale a pena. E quando vemos o que está acontecendo aqui, temos a certeza de que essa é uma iniciativa que deu certo e que temos que fortalecer cada vez mais”, enfatiza Ana Euler.

Já o deputado estadual Mauro Rubem (PT-GO) ressaltou a necessidade os avanços por meio da pesquisa agropecuária: “Esse trabalho que envolve o saber popular com toda a capacidade técnica e científica da Embrapa é fundamental para mostrarmos que existem outros caminhos para a produção de alimentos, para a sustentabilidade no nosso Cerrado e no Brasil afora. Acredito que a mesma lógica que vemos aqui pode ser reproduzida em outros biomas e, sobretudo, no caso de Goiás, pode fortalecer a agricultura familiar, a reforma agrária e garantir alimentos saudáveis para o povo”. De acordo com a pesquisadora Cynthia Torres, isso já vem acontecendo nas regiões Norte e Nordeste, por meio da ação do MCP, tomando como exemplo os bons resultados de Goiás, e a expectativa é que sem amplie ainda mais.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados

Notícias

Copel abre contratação para 147 vagas de eletricistas

Profissionais farão parte do Copel Agro no suporte ao primeiro atendimento a produtores rurais nas regiões Oeste, Sudoeste e Noroeste do Paraná.

Publicado em

em

Foto: Divulgação Copel

A Copel está abrindo, nesta sexta-feira (26), 147 vagas para a contratação de eletricistas em nove municípios das regiões Oeste, Sudoeste e Noroeste do Paraná. As inscrições estarão abertas até o próximo dia 6 de julho. Os detalhes das vagas estão disponíveis no portal da companhia, com acesso pelo link https://www.copel.com/site/institucional/carreira/ e no endereço da Copel no LinkedIn (https://www.linkedin.com/company/copel/).

“Estamos fortalecendo as equipes da Copel em regiões estratégicas com vagas abertas a profissionais locais. É a geração de oportunidade e de empregos a quem conhece a região. Um importante reforço à companhia”, afirma o diretor-geral da Copel Distribuição, Marco Antonio Villela de Abreu. Os profissionais farão parte do efetivo próprio da companhia em equipes do Copel Agro no suporte ao primeiro atendimento a produtores rurais.

Na região Oeste, há 24 vagas abertas para novos eletricistas em Cascavel; 18 em Medianeira e seis em Marechal Cândido Rondon. No Sudoeste, são 23 vagas abertas em Laranjeiras do Sul; 16 em Francisco Beltrão e 12 em Realeza. No Noroeste paranaense são 24 vagas em Ubiratã; 14 vagas em Campo Mourão e 10 em Cianorte.

 

Quadro próprio e perfil da vaga

As vagas abertas são de Eletricista de Distribuição de Redes, para atuar na manutenção, operação e atendimento em redes de distribuição de energia elétrica, executando atividades em campo com foco em segurança, qualidade e continuidade do fornecimento de energia; Eletricista de nível III, abertas a profissionais com mais de três anos de atuação na área com sólida experiência em redes de distribuição de energia; Eletricista II, com experiência de um ano na função e conhecimento prático em atividades elétricas e autonomia na execução de serviços em campo; e Eletricista nível I, iniciante na área com interesse em aprender e se desenvolver no setor elétrica.

 

A efetivação dos profissionais será em 5 de agosto. Aqueles que forem contratados passarão por treinamento na Escola Copel de Eletricistas.

 

Escola de Eletricistas

Estão em fase final de treinamento, na Escola Copel de Eletricistas, 160 profissionais que vão compor 55 equipes em todo o Paraná. Os profissionais foram selecionados e contratados pela Copel para vagas abertas em fevereiro deste ano.

O projeto da Escola Copel de Eletricistas conta com investimentos de R$ 1,4 milhão na formação de profissionais e estruturação de centros regionais de treinamento em todas as regiões do Estado.

Há oito centros de treinamento já estruturados no Estado: Curitiba e Matinhos (Leste); Londrina (Norte); Cascavel e Toledo (Oeste); Pato Branco (Sudoeste); Umuarama (Noroeste); União da Vitória (Sul). Até o final deste ano está prevista a implantação de mais centros de treinamento em regiões estratégicas.

 

Copel Agro

Fruto de construção coletiva da Copel com representantes do setor produtivo paranaense, o programa Copel Agro tem se consolidado como importante suporte ao desenvolvimento do agronegócio.

Cerca de 76 mil clientes da cadeia de proteína (peixe, frango, leite) estão cadastrados no programa em todo o território paranaense.

Em pouco mais de dois meses de funcionamento, o Copel Agro ultrapassou a marca de 60 mil atendimentos pela linha direta 0800 643 76 76, com 95% de aprovação dos clientes. Os teleatendentes estão à disposição 24 horas por dia, sete dias por semana.

“A primeira entrega do Copel Agro é o atendimento exclusivo. O programa vai além, com a contratação de equipes próprias de eletricistas, treinamento com foco no primeiro atendimento, mutirões de poda e outras intervenções preventivas e corretivas para garantir o fornecimento de energia de qualidade aos produtores rurais”, observa o gerente-executivo do Copel Agro, Marcelo Gonçalves.

O Copel Agro conta com infraestrutura própria que contempla equipe dedicada no Centro de Operações da Copel; a ampliação do quadro de eletricistas e de centros de capacitação e a utilização de tecnologia de ponta para a conectividade das equipes de campo.

“A contratação de eletricistas nas próprias regiões é um importante reforço às ações do Copel Agro. Será um profissional identificado com a região, com conhecimento do território e do próprio perfil de produção local, a se integrar às equipes da companhia no primeiro atendimento. Um importante reforço para a Copel e para a população dessas regiões”, completa o gerente-executivo do Copel Agro.

Fonte: Assessoria
Continue Lendo

Notícias Bovinos

Seapi atualiza aplicativos que auxiliam tomadas de decisão relacionadas à bovinocultura

Aplicativos BovConfort, BovCria e BovSan ganham versão web, com isso o novo modelo WebApp, celulares, tablets e computadores com qualquer sistema operacional podem acessar

Publicado em

em

Foto: Divulgação O Presente Rural

Os aplicativos BovConfort, BovCria e BovSan agora estão com acesso pela web, por meio de sites específicos, permitindo que os usuários os utilizem em celulares, tablets e computadores com qualquer sistema operacional. Anteriormente, em formato de aplicativo móvel, só estavam disponíveis para download em smartphones e tablets com Android.

“As funcionalidades permanecem as mesmas, com a vantagem de poder acessar pelo computador também, além dos dispositivos móveis”, explica a pesquisadora do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária (DDPA/Seapi) Adriana Tarouco, coordenadora do projeto de pesquisa que desenvolveu os aplicativos.

Resultados do projeto “Desenvolvimento de ferramentas digitais para a bovinocultura”, os aplicativos auxiliam tomadas de decisão relacionadas à bovinocultura, em temas como reprodução, saúde dos rebanhos de corte e produtividade em bovinos de leite frente a fatores climáticos.

 

Os WebApps podem ser acessados nos seguintes links:

BovConfort: https://bovconfort.vercel.app/

BovCria: https://bov-cria.vercel.app/

BovSan: https://bovsan-master.vercel.app/

Quem já tem os aplicativos móveis deve acessar os links acima para reinstalar versões mais recentes.

Continue Lendo

Colunistas Do ESG à geopolítica

Por que o agro brasileiro se tornou estratégico para o mundo

Em um cenário marcado por disputas comerciais, segurança alimentar e transição energética, o Brasil reúne ativos que poucos países possuem e pode assumir um novo protagonismo global.

Publicado em

em

Foto: Shutterstock

O mundo mudou. E talvez a maior evidência disso seja o fato de que a sustentabilidade, como conhecíamos, já não explica mais sozinha as prioridades globais.

Durante décadas, o debate esteve sustentado no famoso “tripé”, focado no equilíbrio entre economia, meio ambiente e responsabilidade social. Depois, esse conceito evoluiu (na visão de alguns) ou regrediu (na visão de outros) para o ESG, que passou a dominar o discurso corporativo e político internacional. Mas acontecimentos recentes parecem ter inaugurado uma nova etapa.

Foto: Shutterstock

O economista Marcos Troyjo chamou esse novo momento de “ESG 2.0”. E a definição faz sentido quando observamos o mundo atual: guerras, disputas comerciais, fragmentação das cadeias produtivas, inflação global, insegurança energética e uma crescente reorganização geopolítica.

O “E”, que antes simbolizava principalmente o ambiental, agora incorpora fortemente Economia e Energia. O meio ambiente continua relevante, mas divide espaço com outra preocupação imediata: garantir energia barata, estável e suficiente para sustentar crescimento econômico e competitividade industrial. Não por acaso, muitos países desenvolvidos voltaram a ampliar o uso de combustíveis fósseis para proteger suas economias. Não é o caso do Brasil, que segue produzindo etanol, biodiesel, biometano e apostando no SAF (Combustível Sustentável de Aviação).

O “S” passa a significar Segurança, seja alimentar, energética, física e estratégica. No agro, o mundo percebeu que não existe estabilidade social sem produção de alimentos, sem cadeias produtivas resilientes e sem capacidade de defesa fitossanitária e abastecimento em momentos de crise.

Já o “G” deixa de ser apenas governança corporativa tradicional para se tornar Geopolítica. Empresas e países agora precisam operar em um ambiente marcado por

Foto: Rodrigo Alva

tensões comerciais, disputas tecnológicas, regionalização industrial, fim do multilateralismo comercial e rearranjos globais de poder.

E é justamente nesse novo cenário que o Brasil emerge como uma das nações mais estratégicas do século XXI. Poucos países possuem, ao mesmo tempo, capacidade de produção de alimentos, disponibilidade hídrica, matriz energética renovável, biodiversidade, terras competitivas, mão de obra e ciência tropical avançada. Menos ainda conseguem reunir tudo isso com possibilidade real de expansão sustentável da produção.

Novas lentes sobre o agro

Talvez o maior erro cometido por muitos analistas internacionais seja olhar para o agro brasileiro com lentes antigas.

O Brasil construiu, nas últimas décadas, uma das agriculturas tropicais mais sofisticadas do planeta. E isso não aconteceu por acaso. Foi resultado direto de ciência, tecnologia, empreendedorismo rural e investimento contínuo em inovação tropical.

Foto: Divulgação

Quando observamos algumas das principais tecnologias agropecuárias sustentáveis do mundo, muitas delas nasceram ou ganharam escala aqui. O Sistema Plantio Direto revolucionou a conservação do solo e da água, permitindo maior estabilidade produtiva e redução de erosão em larga escala. A Fixação Biológica de Nitrogênio transformou o Brasil em referência mundial ao reduzir fortemente a dependência de fertilizantes nitrogenados importados.

A Integração Lavoura-Pecuária-Floresta mostrou que é possível recuperar áreas degradadas, aumentar produtividade e capturar carbono combinando diferentes sistemas produtivos na mesma área. Os bioinsumos abriram uma nova fronteira tecnológica, aproximando produtividade e sustentabilidade por meio de soluções biológicas adaptadas às condições tropicais, seja no combate a pragas, seja no fornecimento de nutrientes.

Espaço para crescer

Enquanto muitos países praticamente esgotaram suas possibilidades de expansão produtiva, o Brasil ainda possui enorme potencial de crescimento apoiado em ciência e planejamento territorial.

E talvez aí esteja um dos pontos centrais do futuro da agricultura: inteligência territorial estratégica, conceito consolidado ao longo dos 37 anos de existência da Embrapa Territorial, celebrados neste mês de maio. A agricultura moderna deixou de ser apenas operacional. Ela passou a ser orientada por dados, conectividade e análise espacial. Satélites, sensoriamento remoto, inteligência artificial, geoprocessamento e modelagem territorial passaram a integrar o cotidiano da tomada de decisão no campo.

Na Embrapa Territorial, trabalhamos exatamente nessa fronteira entre território, ciência e estratégia. O objetivo é reduzir subjetividades e aumentar a assertividade.

Foto: Shutterstock

Em outras palavras, gerar informações capazes de apoiar decisões mais inteligentes, seguras e sustentáveis.

O Brasil pode ampliar sua produção basicamente por três caminhos. O primeiro é a expansão sustentável de áreas aptas, sempre baseada em zoneamento, aptidão agrícola e inteligência territorial. Ferramentas como ZARC e ZEE ajudam a orientar esse crescimento de forma técnica e racional. Mas a plena sustentabilidade exige esforços nos dois caminhos subsequentes.

O segundo é aumentar produtividade reduzindo os chamados “yield gaps” ou folgas de produtividade. Em muitas regiões do país ainda existe enorme espaço para produzir mais na mesma área, utilizando melhor manejo, genética, tecnologia e eficiência operacional, reduzindo a diferença de produtividade entre os mais produtivos e a média local.

O terceiro é a intensificação sustentável, especialmente por meio da recuperação de pastagens degradadas, integração de sistemas produtivos (com safrinha, adubo verde e ILPF), irrigação e novas estratégias agronômicas que aumentem eficiência sem necessidade de abertura de novas áreas.

Foto: Divulgação

Mais do que simplesmente produzir mais, o desafio agora é produzir melhor. Não é quantidade, mas competividade. E isso significa rastreabilidade, previsibilidade, eficiência, transparência e viabilidade econômica.

Reconhecimento necessário

Sustentabilidade deixou de ser diferencial. Em muitos mercados, passou a ser obrigação mínima de acesso.

Ao mesmo tempo, tudo aquilo que vai além da legislação precisa ser reconhecido e remunerado. O produtor rural brasileiro não pode ser tratado apenas como fornecedor de commodities. Ele também presta serviços ambientais relevantes para o planeta. Sustentabilidade que não gera renda, competitividade e segurança econômica dificilmente se sustenta no longo prazo.

Claro que ainda temos desafios importantes. Infraestrutura e logística continuam reduzindo a competitividade em várias regiões do País. Segurança jurídica e regularização fundiária seguem fundamentais para ampliar investimentos e previsibilidade. A conectividade no campo ainda precisa avançar muito para que a agricultura digital alcance todo seu potencial.

Mas talvez exista um desafio ainda mais estratégico na comunicação. O Brasil comunica mal suas virtudes. Somos alvos de ataques, muitas vezes sem motivos, de

Foto: Matheus Flalanga

ONGs e entes altamente financiados que usam seu bom-mocismo ambiental como barreiras comerciais. Muitas vezes permitimos que narrativas simplificadas ocupem o espaço dos dados científicos. E talvez uma das grandes missões da ciência brasileira seja justamente transformar informação técnica em confiança global.

Poucas nações conseguiram transformar uma agricultura tropical de baixa produtividade em uma potência agroambiental altamente tecnológica e em larga escala em tão pouco tempo. Isso revela algo fantástico sobre os produtores rurais, e porque não a população geral do Brasil. Nossa capacidade de adaptação, inovação e resiliência.

Se conseguirmos remover gargalos históricos e avançar em infraestrutura, logística, conectividade e segurança jurídica, o agro brasileiro poderá atingir um novo patamar de competitividade global. O futuro da agricultura será digital, automatizado, rastreável, conectado, descarbonizado e baseado em bioeconomia.

Apesar disso, eu sou profundamente otimista. O Brasil é o único país do mundo que saiu da enxada para o drone em apenas uma geração e liderou essa transformação. Não apenas como potência agrícola. Mas como potência ambiental, alimentar, energética, tecnológica e estratégica do século XXI.

Fonte: Artigo escrito por Gustavo Spadotti, chefe-geral da Embrapa Territorial.
Continue Lendo

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.