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Avicultura

Especialistas sugerem revisão das práticas da indústria avícola contra salmonelose e colibacilose

O médico-veterinário Jorge Augusto do Amaral Werlich destacou que a Salmonella é uma bactéria conhecida por ser uma das principais causas de doenças transmitidas por alimentos em humanos e fez uma pergunta bastante pertinente.

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Desde 2004, o Brasil ocupa o 1º lugar no ranking de maior exportador de carne de frango mundial. De acordo com os dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no ano de 2022 foram abatidas 2,04 bilhões de cabeças de frango. Essa grande produção mostra a eficiência do País em controlar as enfermidades avícolas, bem como vencer os desafios e medidas de controle, para assegurar que a produção brasileira continue atuando de forma bastante eficiente e pujante. Durante a 40ª edição da Conferência Facta WPSA-Brasil 2023, promovida de forma online, em meados de maio, a temática de enfermidades reemergentes foi explanada pelos profissionais Nelva Grando, Jorge Werlich, Terezinha Knöbl e Daniela Baptista, que discorreram sobre os assuntos de biosseguridade, Salmonella, E. coli patogênica para aves (Apec) e sobre o Plano Nacional de Sanidade Avícola e chamaram a atenção sobre a necessidade de controlar efetivamente as doenças bacterianas salmonellose e colibacilose, que podem ser responsáveis por grandes prejuízos financeiros na produção avícola.

O médico-veterinário Jorge Augusto do Amaral Werlich destacou que a Salmonella é uma bactéria conhecida por ser uma das principais causas de doenças transmitidas por alimentos em humanos e fez uma pergunta bastante pertinente. Qual a base de informações para a tomada de decisões sobre o assunto salmonela? O profissional afirmou que o controle desta doença não tem atingido os resultados desejados.

“Muitos perguntam se a salmonella é um tema emergente, reemergente ou constante. A minha resposta é simples, é um tema constante que há muito tempo vem sendo trabalhado nas empresas, mas que em muitos casos, os resultados estão ficando aquém do desejado. Desta forma, o objetivo da minha fala é trazer pontos de atenção sobre o que fazer e o que nos embasa para a tomada de decisão a campo. Tem empresas que possuem pessoas específicas que estudam e buscam medidas constantes para acabar com este problema”, pontua.

O profissional explicou que a temática da Salmonella precisa ser entendida por meio dos fatores que são condicionantes e determinantes para causar a doença. De acordo com ele, em muitas empresas quando é falado neste assunto as pessoas tratam o mesmo como se fosse um grande monstro. “Isso não ajuda. Na verdade, atrapalha. A salmonella é uma bactéria que está presente em muitas etapas do processo avícola, sendo que é muito importante ter o conhecimento da prevalência dela para que ações e medidas sejam tomadas e que efetivamente tragam um efeito positivo ao plantel”, observa.

Para que a detecção seja eficiente, o médico-veterinário enalteceu a necessidade de um estudo epidemiológico amplo e que permita que a empresa identifique os sorovares de maior prevalência, para descobrir de onde ele veio e para onde foi. “Verificamos que existe a necessidade de aprofundar o estudo dos sorovares para permitir a melhor tomada de decisões, para obter o efetivo retorno das medidas adotadas de solução dos problemas”, orienta.

Jorge chamou a atenção à importância da formação técnica das equipes que trabalham para resolver este problema. “As pessoas que trabalham come esta problemática precisam estar capacitadas, necessitam conhecer os diferentes métodos de diagnósticos e buscar qual é o mais eficiente para a empresa. Não basta basear-se apenas nos dados de controle oficiais ou programas de autocontrole, é necessário tipificar as salmonellas encontradas na empresa, identificando as características delas”, adverte.

Não é custo, é investimento

Médico-veterinário Jorge Augusto do Amaral Werlich – Fotos: Divulgação/Facta

O médico-veterinário também enalteceu que o controle e erradicação da salmonella precisa ser encarado não como uma grande despesa, mas como um investimento financeiro, que vai possibilitar alcançar os resultados desejados. “As equipes precisam estar alinhadas com o mesmo objetivo. Se tudo não for feito com excelência e com conhecimento não chegaremos ao resultado desejado, que é a redução da incidência de salmonella”, observa.

O profissional também chamou a atenção para a importância de estudos mais aprofundados para entender esta problemática e conseguir encontrar ações que sejam efetivas. Ele apresentou a tese que o incremento de métodos analíticos no processo de controle da salmonela tem demonstrado uma maior preocupação por alguns aspectos, tais como: a prevalência de sorovares altamente resistentes, a presença de genes de resistência contra classes de desinfetantes (inclusive formol), bem como a capacidade de resistência no ambiente (formação de biofilme, atividade de água).

“Isso acende um alerta muito grande para que tipo de análise eu estou fazendo e que tipo de ação eu tenho tomado. A multirresistência aos antimicrobianos está muito consolidada. Um estudo de 2014 apresentou 51% de cepas resistentes a mais de um ATB. Um estudo bastante similar, realizado em 2022 apresentou 97% de cepas resistentes a mais de um ATB. Isso nos traz uma grande preocupação, cabe às agroindústrias, aos produtores de proteína de frango aprofundar mais a análise”, enaltece.

Jorge apontou para a necessidade de estudos mais aprofundados para que se chegue ao melhor nível de compreensão da problemática e a consequente solução eficaz para este problema, que traz prejuízos significativos aos planteis. “O aprofundamento dos estudos nos possibilita reconhecer o sorovar mais prevalente, saber se há ocorrência deste sorovar nos diferentes pontos da cadeia ou se a repetição num mesmo local é oriunda de um ou diferentes clones, além de estabelecer um escaneamento completo deste sorovar, a fim de ajustar as ações, conforme seu perfil de resistência. Ou seja, nosso desafio é saber se estamos mesmo investigando a fundo o assunto salmonella ou se estamos criando longos, trabalhosos e frustrantes planos de ação”, recomenda.

Apec

Médica-veterinária, Terezinha Knöbl

A médica-veterinária, Terezinha Knöbl, foi a responsável por trazer novas informações sobre a E. coli patogênica para aves (Apec). Essa enfermidade pode resultar em sérios problemas de saúde e perdas econômicas na indústria avícola. Durante o painel, a especialista apresentou as características da Apec, seus fatores de virulência e as estratégias de controle para prevenir a disseminação da bactéria.

Terezinha foi bastante didática e precisa ao afirmar que a avicultura sempre precisou lidar com duas grandes doenças do ponto de vista bacteriano: salmonellose e colibacilose. “Essas doenças são muito impactantes do ponto de vista financeiro porque elas induzem a um grande aumento de condenação de carcaças nos abatedouros e elas acometem todo o segmento avícola. Começando com as matrizes que podem ter problemas respiratórios, essas bactérias são transmitidas via vertical e acabam impactando também no incubatório, com a mortalidade de pintinhos”, revela.

Mais especificamente sobre a Apec, a médica-veterinária afirmou que o problema sempre existiu, mas que na década de 1990 houve um grande esforço da indústria para conseguir reduzir os prejuízos decorrentes desta infecção. De acordo com ela, isso envolveu a adoção de uma série de estratégias que resultaram num bom desempenho. “Passamos cerca de 30 anos em que a doença ocorreu em níveis endêmicos, mas, a partir de 2020 estamos tendo um aumento das reclamações a campo, principalmente nos estados mais produtivos, porque eles verificaram níveis de condenação bastante abruptos em razão desta enfermidade”, expõe.

A profissional ressaltou três pontos de destaque para serem observados sobre a temática. O primeiro ponto é a necessidade de diferenciar uma Apec de uma Afec. “A diferença fundamental entre elas está na capacidade patogênica das cepas de E. coli. Enquanto Apec causa doenças graves nas aves, Afec refere-se às cepas comensais encontradas nas fezes de aves saudáveis. É importante realizar análises laboratoriais adequadas para identificar e distinguir entre essas duas categorias de E. coli, a fim de implementar medidas de controle apropriadas e garantir a saúde das aves”, recomenda.

O segundo ponto destacado por ela está na relação entre virulência com patogenicidade. “É importante que a gente tenha consciência de que não é toda amostra virulenta que vai se tornar em algo patogênico. Isso é um erro muito consolidado no campo, mas que precisa ser melhor explorado. É muito oportuno destacar que a doença não está relacionada apenas com o agente, e sim, com uma somatória de fatores, que chamamos de tríade epidemiológicas, ou seja, as características do parasita, a condição do hospedeiro e os fatores ambientais. Estes três fatores é que estabelecem a patogenicidade ou não”, declara.

O terceiro e último ponto, de acordo com a palestrante, é o mais atual e diz respeito ao reconhecimento e controle das linhagens de alto risco. “Existem várias ferramentas que auxiliam na verificação de como está a microbiota dos animais. Para entender o surto eu preciso combinar várias ferramentas. Isso é muito importante e pode auxiliar muito na tomada de decisões. Quando eu conheço a fundo os problemas eu consigo selecionar as melhores estratégias de controle”, reforça.

Terezinha informou que atualmente existem muitos grupos de trabalho, espalhados pelo mundo, que pesquisam a doença. De acordo com ela, esses estudiosos estão verificando que a ferramenta mais moderna para análise é o sequenciamento do DNA. “Esses estudos nos mostram que existem linhagens de alto risco cujas características apontam para surtos de distribuição global, ou seja, essas bactérias causam problemas de saúde em várias partes do mundo. Elas são virulentas e patogênicas, possuem resistência antimicrobiana, persistência e uma capacidade de ser transmitida para outros hospedeiros”, informa.

Normas para o controle da Salmonella

Médica-veterinária do Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa), Daniela Baptista

A médica-veterinária do Ministério da Agricultura e da Pecuária (Mapa), Daniela Baptista, discorreu sobre o Programa Nacional de Sanidade Avícola que tem o objetivo de trazer normas que sejam capazes de aferir o controle da salmonela, o que é uma condicionante para que o Brasil continue com a manutenção dos mercados externos, que primam pela segurança e confiabilidade da carne brasileira.

A profissional destacou que as orientações brasileiras são baseadas nos códigos feitos pela Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA) e que visam garantir a produção de carne de aves com qualidade, bem como assegurar os mercados externos para o país. “O Brasil possui certificados veterinários internacionais que garantem a procedência e qualidade dos materiais genéticos avícola que são exportados para os mais diversos países. É importante destacar que as bases para a efetividade deste programa estão na vigilância e na biosseguridade”, afirma.

Ela afirmou que as instruções normativas têm o objetivo de não deixar entrar animais doentes no país, bem como auxiliam no controle e erradicação de salmonellas nos planteis brasileiros. “É importante ressaltar que os testes positivos para a doença exigem algumas ações sanitárias bastante drásticas, como a perda da certificação livre, o sacrifício das aves, destruição de ovos, o que acarreta em prejuízos bem expressivos. Isso porque uma doença positiva impacta na exportação dos nossos produtos, o que traz um grande impacto na indústria”, afirma.

Daniela pontuou que os problemas com a salmonella são de responsabilidade das empresas e dos médicos-veterinários. “Diferente das doenças emergenciais, a salmonella é responsabilidade da empresa e do seu médico-veterinário, o Mapa tem a função de ser um apoio e oferecer as diretrizes para que o Brasil continue a ser um grande exportador”, declara.

A profissional finalizou a fala dela destacando a importância de seguir os protocolos e padrões que são estabelecidos pelo órgãos competentes. “Quando tratamos de alimentos, é muito importante que todos os envolvidos tenham ciência da necessidade e da eficácia de seguir os protocolos e padrões que são estabelecidos, pois os mesmos são diretrizes que visam a eficiência e a segurança da nossa produção. A responsabilidade de continuar com os mercados abertos deve ser compartilhada por todas as empresas e o Mapa está para ajudar, mas casa empresa deve fazer a sua parte”, adverte.

Biosseguridade: a chave para o sucesso

Médica-Veterinária da Vitalis Saúde Integrada, Nelva Grando

A médica-Veterinária da Vitalis Saúde Integrada, Nelva Grando, expôs que a biosseguridade deve ser entendida como a grande aliada para o controle e erradicação das doenças, porque ela preocupa-se com blindar as instalações avícolas, bem como as indústrias, para que as mesmas possuam medidas adequadas de biosseguridade que evitem a entrada de patógenos, como a Salmonella e a Apec, nas instalações avícolas. “Isso envolve a implementação de práticas de higiene, controle de acesso, monitoramento de visitantes e animais, além do treinamento adequado dos funcionários”, observa.

A palestrante também trouxe uma indagação aos participantes. Ela questionou se os planos de biosseguridade estão preparados para os novos desafios que estão surgindo. “Minha indicação é para que cada granja ou indústria faça um plano de biosseguridade específico que atenda as especificidades da sua região. Os planos de biosseguridade precisam ser pensados para cada empresa, pois cada lugar possui agentes diferenciados e que precisam ser descobertos, para que as ações de biosseguridade possam ser implantadas de forma eficaz”, mencionou.

Nelva disse que a produção avícola evolui muitos nos últimos anos, em vários aspectos. “Um exemplo clássico é que partimos de aviários com tela muito simples e hoje temos aviários com telas bastante modernas e que impedem a entrada de aves silvestres no seu interior. Isso é uma evolução dentro da biosseguridade. A blindagem do ciclo da água, bem como o isolamento das propriedades também são fatores extremamente importantes e que agregaram na melhoria nas condições sanitárias. Por outro lado, estes avanços precisam continuar”, afirma.

Grande concentração de aves

A palestrante expôs ainda que a avicultura da atualidade é marcada pela grande concentração de aves em algumas regiões. Segundo ela, as mais altas concentrações avícolas estão no Brasil, Estados Unidos, China e México. “Essa grande concentração possibilita uma maior proliferação de doenças. Quanto mais eu concentro aves em uma determinada região, um maior número de animais dentro de um galpão, potencialmente a gente aumenta o risco de termos problemas sanitários”, argumenta.

Por conta destas diferenças e técnicas de manejo, a profissional enaltece a importância de reformular as práticas avícolas lançadas em 2005. “O grande questionamento que eu trago é que todos pensemos sobre a importância de atualizar as práticas avícolas que estão difundidas desde 2005 e pensar se elas não precisam ser aprimoradas, para serem mais condizentes com a nossa realidade. É preciso pensar sobre isso”, afirma.

Pontos de partida

Nelva chamou a atenção para os critérios que são utilizados para a entrada no aviário, a questão de botas plásticas, roupas descartáveis, etc. “Meu questionamento é para que todos pensem sobre os protocolos que estão sendo utilizados. Será que é prudente pensarmos em novas medidas de mitigação dos riscos? Eu creio que já tivemos muitos avanços nos últimos 20 anos, mas acredito que vivemos um momento em que é preciso reavaliar as condições e verificar se estamos preparados para os novos problemas que estão surgindo ou se precisamos ainda implantar novas práticas”, sugere.

A profissional citou o exemplo norte americano que diz que as granjas que estão com um melhor controle com relação às doenças são aquelas que tem um isolamento completo entre os aviários. “Verificamos que as melhores granjas têm uma opção de entrada de pessoas, a saída do exaustor está no lado contrário. Os silos estão na parte frontal e bem seguros, essas granjas contam com um local onde as pessoas trocam de roupa para adentrar às instalações. Esses são exemplos de novos procedimentos que também podem ser adotados aqui no Brasil”, opina.

Ações conjuntas

A médica-veterinária finalizou a sua fala enaltecendo que a biosseguridade pode trazer a blindagem dos planteis e que ela precisa ser pensada de forma conjunta, enaltecendo que a biosseguridade precisa fazer parte de todos os processos, podendo ser pensada para acabar com as causas dos problemas e não apenas para a resolução do problema final. “Um exemplo bem simples para entender isso é a relação do controle de pragas com iscas e inseticidas. Isso está errado, pois este problema pode ser resolvido muito antes, quando nos preocupamos com os quatro as: acesso, água, alimentos e abrigo”, reflete.

Desta forma, a palestrante evidencia que o plano de biosseguridade precisa ser construído de forma bem alinhada e com todas as informações que são pertinentes para a produção. “O ponto-chave para a construção de um bom plano de biosseguridade está na correta análise de riscos e assim, não apenas descrever os protocolos, mas sim, buscar alternativas de mitigação e que realmente vão controlar e reduzir os riscos que o plantel pode vir a ser exposto. Desta forma, falar em biosseguridade é pensar que ela é uma das responsáveis para dar sustentabilidade a longo prazo, pois ela contribui para que o plantel tenha animais mais saudáveis e mais eficientes, com menor mortalidade e, consequentemente, maior retorno e menor investimento”.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor avícola acesse acesse gratuitamente a edição digital Avicultura Corte e Postura. Boa leitura!

Fonte: O Presente R ural

Avicultura

Otimização da absorção de Cálcio e Fósforo em aves

A farinha de carne e ossos é amplamente utilizada por seu baixo custo e por agregar proteína e aminoácidos essenciais à formulação, além de ser um ingrediente sustentável. Entretanto, representa alto risco sanitário, sendo a principal fonte de patógenos como salmonela e clostridium.

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Cálcio (Ca) e fósforo (P) são dois macroelementos minerais fundamentais para a produção de aves, sejam de corte ou de postura, sendo ambos de suplementação obrigatória. A farinha de carne e ossos é amplamente utilizada por seu baixo custo e por agregar proteína e aminoácidos essenciais à formulação, além de ser um ingrediente sustentável. Entretanto, representa alto risco sanitário, sendo a principal fonte de patógenos como salmonela e clostridium.

Por essa razão, não é utilizada na alimentação de matrizes e quando se busca mais alto grau sanitário na criação, como no caso de alguns países destino de exportação. Além disso, a farinha de carne e ossos é muito utilizada em petfood e aquacultura, o que tende a fazer subir seu custo. Assim sendo, observa-se crescente uso de fosfato bicálcico como a principal fonte de P para produção animal. O fosfato bicálcico é um ingrediente finito, não sustentável, e de alta demanda para agricultura, com custos em elevação e risco crescente de escassez. A redução do uso de fontes de P é um tema central dentro do moderno conceito de gestão ESG, com respeito às questões de ambientais, sociais e de governança.

Para a redução do uso de fontes de Ca e P, dois pontos devem ser considerados. Um diz respeito aos requerimentos nutricionais de cada categoria animal, para cada um dos elementos. O outro ponto diz respeito à digestibilidade das fontes de cada um, sejam os grãos, farinhas de origem animal, ou ingredientes de origem mineral. Vale observar que o estudo de um aspecto sempre estará intimamente associado ao outro, nos experimentos com animais.

O estudo da digestibilidade desses minerais pelas aves tem sido uma preocupação recente. Apesar de sua importância, a realidade é que é bastante difícil avaliar com precisão a digestibilidade de cada um desses minerais. Há vários fatores em ação simultaneamente, como pH de cada parte do trato digestivo, presença de outros íons, relação entre Ca e P, vitamina D, grau de hidratação, granulometria, etc. Se cada um deles não for cuidadosamente abordado nos experimentos, resultados discrepantes serão obtidos, inclusive com digestibilidade negativa. Essa ocorrência se deve ao fato de que tanto Ca como P endógenos são também excretados ao longo do trato digestivo, dificultando a mensuração de quanto de cada mineral de fonte exógena foi retido no organismo.

Considerando essas dificuldades, frequentemente os níveis utilizados nas formulações apresentam uma certa margem de segurança, que garante que os níveis de cada mineral disponível não sejam limitantes ao máximo desempenho. Como já mencionado, o P tem alto custo econômico e ambiental. O Ca, por outro lado, tem baixo custo e é ainda abundante na natureza. Porém, há cada vez mais evidências de que níveis excessivos de Ca interferem negativamente com várias funções do organismo, inclusive a própria absorção do P. Considerando o exposto, busca-se trabalhar com níveis cada vez menores e mais precisos de cada mineral.

Espaço para melhoria

A eficácia das fitases microbianas na liberação do P fítico das matérias-primas de origem vegetal, como os grãos e farelos é amplamente conhecida. O valor exato de quanto P e quanto Ca serão efetivamente utilizados pelos animais, por outro lado, ainda deixa espaço para discussão, justamente pela interferência de vários outros fatores. Este fato, aliado à digestibilidade variável dos ingredientes, nos permite concluir que há espaço para melhoria na absorção e retenção de Ca e P pelas aves, permitindo a redução de custo das formulações, além da redução do impacto ambiental pela excreção dos mesmos.

Com este objetivo, uma molécula inovadora vem sendo estudada. Trata-se de um ácido graxo de cadeia longa, com hidroxilas em substituição a hidrogênio. A mesma tem alta ação emulsificante, mas, além disso, age também como carreadora de Ca e P. Uma vez ionizados pelo baixo pH do proventrículo e da moela, e liberados do inositol pelas fitases, os íons fosfato e Ca formam complexos com essa molécula, seja por ligação iônica entre o fosfato e a hidroxila, seja por reação de saponificação com a carboxila terminal. Nessa forma de sabões de Ca e fosfolipídeos, os íons são absorvidos pela via de absorção de lipídeos, em micelas contendo sais biliares, esteróides, mono e diglicerídeos, e vitaminas lipossolúveis. Sua ação emulsificante inclusive melhora a formação dessas micelas, aumentando a absorção de lipídeos da dieta e a consequente energia metabolizável da mesma.

Experimento

De modo a validar a ação emulsificante e carreadora de íons da molécula, e quantificar sua atividade, um experimento com frangos de corte foi realizado na Granja Santa Lívia, RS. Um total de 770 frangos de corte foram distribuídos entre 5 tratamentos, cada um com 7 repetições, de 22 aves cada. Foi feito um tratamento controle, formulado com os níveis recomendados pela genética, em um padrão de dietas típicas brasileiras a base de milho, farelo de soja, óleo de soja e contendo 2 enzimas exógenas comumente utilizadas, fitase e carboidrase.

A fitase foi utilizada na dosagem de 1000 ftu, com valorização de 0,15% de Ca e 0,15% de P e uma carboidrase a base de xilanase valorizando 50 kcal/kg de energia metabolizável. Fosfato bicálcico e calcário calcítico foram utilizados como fonte de P e Ca. Outros 3 tratamentos foram feitos, com reduções gradativas de energia metabolizável (-20, -40 e -60 kcal/kg) e iguais reduções de Ca e P disponível de 150% (0,15%). À dieta com menor nível de energia (-60kcal) foi adicionada a molécula. Todas as demais condições de criação foram iguais para todos os tratamentos, distribuídos em um delineamento experimental inteiramente casualisado.

O resultado acumulado de ganho de peso e o de conversão alimentar mostraram que a adição da molécula à ração de menores níveis nutricionais permitiu desempenho estatisticamente igual a uma dieta intermediária aos níveis de -20 e -40 kcal, validando a matriz esperada de 36000 kcal por kg da preparação contendo 20% da molécula. O teor de matéria-seca e o teor de cinzas das tíbias dos animais que receberam a dieta com níveis reduzidos de Ca e P e tratada com a molécula foram iguais às da dieta controle, enquanto os outros tratamentos foram estatisticamente inferiores ao controle positivo, validando a matriz de 150% de Ca e 150% de P disponível.

Além desses resultados, a quantidade de Ca e P depositada nas tíbias dos animais tratados foi superior à dos demais tratamentos (Figuras 1 e 2). Isso se deve provavelmente ao fato de que a maior disponibilidade de P permitiu maior formação de hidroxiapatita versus carbonato de Ca. Essa formação é particularmente importante para frangos de corte, para resistência óssea, especialmente dos ossos longos das pernas. Para aves de postura (poedeiras e matrizes) a maior deposição na formação do osso medular, necessário para a formação da casca dos ovos, permitirá menos defeitos relacionados à qualidade das cascas e maior longevidade da produção.

Figura 1 – Concentração de cálcio na cinza das tíbias de frangos de corte aos 42 dias de idade

 

Figura 2 – Concentração de fósforo na cinza das tíbias de frangos de corte aos 42 dias de idade

Estes resultados nos levam a concluir que o uso desse emulsificante, associado a doses normais de fitase exógena, permitem a redução dos níveis de fontes de Ca e P das dietas de aves de produção (frangos e matrizes pesadas), na medida da matriz proposta de 36000 kcal em, 150% de Ca e 150% de P disponível por quilo de uma preparação contendo 20% da molécula.

As referências bibliográficas estão com os autores. Contato: luciano.andriguetto@gfs.group.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo na avicultura de corte e postura do Brasil acesse a versão digital de Suínos clicando aqui. Boa leitura!

Fonte: Por José Luciano Andriguetto, médico-veterinário, PhD em Nutrição Animal e professor do Departamento de Zootecnia da UFPR; e André Favero, zootecnista, PhD em Zootecnia e administrador e coordenador da Granja Santa Lívia Produção e Pesquisa Agropecuária Ltda
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Avicultura

Fim da Medida Antidumping da China sobre carne de frango brasileira

Medida antidumping correspondia a uma sobretaxa sobre o valor do produto importado, variando entre 17,8% e 34,2%

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Foto: Divulgação/Mapa

O governo brasileiro foi informado da decisão do governo da China de não renovar a medida antidumping aplicada desde 2019 às exportações brasileiras de produtos de carne de frango.

A medida antidumping, que deixou de ser aplicada no dia 17, correspondia a uma sobretaxa sobre o valor do produto importado, variando entre 17,8% e 34,2%, de acordo com a empresa exportadora. Além disso, 14 empresas brasileiras haviam celebrado “compromissos de preços” com o governo da China, obrigando-se a praticar preços superiores a um patamar mínimo preestabelecido. A reversão da medida exclui a tarifa adicional. Tais medidas prejudicavam a competitividade do produto brasileiro no mercado chinês.

O governo brasileiro atuou ativamente junto a autoridades chinesas em diversos foros e durante a realização de mecanismos bilaterais de cooperação em 2023, obtendo a decisão favorável.

O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango, e a China é o segundo maior consumidor mundial do produto e também o principal destino dos embarques de carne de frango brasileira, que superaram U$ 1,9 bilhão e alcançaram mais de 679 mil toneladas no ano passado.

O fim da medida antidumping faz as exportações de frango do Brasil mais competitivas para aquele mercado e, além disso, abre novas oportunidades para outros produtores brasileiros que, mesmo com seus frigoríficos habilitados, não conseguiam ser competitivos em razão dos direitos antidumping impostos.

Trata-se de resultado positivo para o nosso setor avícola e para a relação econômico-comercial do Brasil com a China. O Brasil permanece dedicado a manter um diálogo aberto e construtivo com os parceiros chineses, buscando oportunidades de cooperação e desenvolvimento sustentável nas relações comerciais.

Fonte: Mapa
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Avicultura

Uso de monoglicerídeos em galinhas poedeiras longevas

Ingredientes sem antibióticos, que não sejam geneticamente modificados e nem de origem animal, tendem a ser mais aceitáveis para consumidores, órgãos reguladores e produtores

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Fotos: Divulgação/SAN Vet

O ovo, desde a sua formação, está sujeito a diversos fatores intrínsecos e extrínsecos à galinha poedeira. Dentre esses fatores estão a genética, a idade e as condições tanto sanitárias quanto nutricional da ave. O desempenho produtivo e a qualidade dos ovos de aves diminuem com o passar do tempo. À medida que as galinhas envelhecem, o desempenho reprodutivo é diminuído devido à redução tanto da síntese da gema quanto de hormônios sexuais. Além disso, a qualidade do ovo também é afetada devido ao aumento do tamanho do ovo, cascas mais finas, maior taxa de quebra, diminuição da altura do albúmen, shelf life reduzido e consequências negativas no sabor associado à menor eficiência de utilização dos nutrientes e estado sanitário de galinhas.

Para mitigar este problema é importante adotarmos medidas de bem-estar e conforto das aves, como programa de luz adequado, água com qualidade, nutrição customizada (correta suplementação de vitaminas e minerais), bem como atividades relacionadas à biosseguridade.

Num contexto em que a indústria avícola global busca por produtos e métodos de produção que ajudem a atender à demanda por alimentos seguros, acessíveis e produzidos de forma sustentável, há diversas oportunidades que visam maiores cuidados e otimização da produção de poedeiras mais velhas.

Ricardo Hayashi, médico-veterinário, mestre e doutor em Ciências Veterinárias e Gerente Global de Desenvolvimento da SAN Vet

Hoje, ingredientes sem antibióticos, que não sejam geneticamente modificados e nem de origem animal, tendem a ser mais aceitáveis para consumidores, órgãos reguladores e produtores. Os monoglicerídeos têm o potencial de melhorar a saúde, o bem-estar, a produtividade e reduzir a prevalência de patógenos humanos e animais, diminuindo o impacto ambiental, sem gerar resistência antimicrobiana.

Os lipídios antimicrobianos são compostos por um grupo de moléculas lipídicas anfifílicas que têm a capacidade de impactar diretamente bactérias, vírus envoltos em membrana e alguns fungos por lise direta da membrana celular e uma variedade de mecanismos adicionais. Alguns dos lipídios mais estudados em aplicações de produção animal e avícola são os ácidos graxos e glicerídeos. Os ácidos graxos são um grupo de compostos orgânicos construídos por cadeias variadas de hidrocarbonetos com um grupo ácido carboxílico em uma extremidade. Monoglicerídeos são compostos de glicerol ligados a um ácido graxo geralmente na posição 1 ou ⍺. A ligação covalente que une o ácido graxo ao glicerol é extremamente estável e permite que os produtos sejam resistentes à altas temperaturas e diferentes pH, atuando não somente a nível intestinal, mas também sistemicamente. Os monoglicerídeos são conhecidos por terem ação antimicrobiana seletiva a patógenos, ação imunomoduladora, modulação benéfica do microbioma, bem como atividade angiogênica.

 

Trabalhos científicos

Trabalhos científicos observaram que o uso de monoglicerídeos melhorou significativamente a performance produtiva, densidade e resistência da casca de ovos provenientes de aves poedeiras mais velhas. Além disso, a melhora produtiva foi associada ao aumento de índices bioquímicos séricos (cálcio e fosfatase alcalina) e hormônios sexuais (FSH, LH e estradiol). O FSH (hormônio folículo-estimulante) é o principal hormônio responsável pelo desenvolvimento e maturação dos pequenos folículos, enquanto o LH promove principalmente a secreção de progesterona. O estradiol também pode promover o desenvolvimento folicular via efeitos de feedback no hipotálamo e hipófise. A justificativa destes resultados se dá pela modulação da microbiota intestinal. Os monoglicerídeos reduziram o filo Proteobacteria, sabidamente um indicador de disbioses, além de estimular o crescimento de outros grupos bacterianos benéficos. Em outros trabalhos, monoglicerídeos também mostraram a capacidade de melhorar a diversidade geral e atuar seletivamente em grupos considerados patogênicos.

Conclusão

Monoglicerídeos pode ser uma ferramenta eficaz na otimização da produção de ovos em aves poedeiras mais velhas, principalmente pela melhora da saúde intestinal. No entanto, é imprescindível que fatores básicos e fundamentais como ambiência, boas práticas de produção, ações de biosseguridade e uma dieta adequada sejam rotineiramente executadas e monitoradas para um melhor resultado.

Fonte: Ricardo Hayashi, médico-veterinário, mestre e doutor em Ciências Veterinárias
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