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Suínos / Peixes Saúde Animal

Escherichia coli, uma única bactéria, múltiplas patologias

A capacidade patogênica dessa bactéria é determinada pela presença dos chamados fatores de virulência

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Arquivo/OP Rural

 Artigo escrito por Isaac Rodriguez, gerente Técnico e Marketing América Latina da Hipra Saúde Animal

A Escherichia coli pertence à família das enterobactérias, bactérias Gram-negativas anaeróbias facultativas. Dentro dessa espécie, existem cepas de E. coli que pertencem à flora comensal do indivíduo e outras cepas patogênicas potencialmente causadoras de doenças gastrointestinais. A capacidade patogênica dessa bactéria é determinada pela presença dos chamados fatores de virulência, estruturas bacterianas antigênicas que formam parte da conformação natural de E. coli, assim como por sua capacidade de produzir toxinas, substâncias com diversos efeitos patogênicos sobre o indivíduo.

Entre os fatores de virulência mais estudados, encontramos as fímbrias (F), os flagelos (H), o antígeno somático (O) e a cápsula e a microcápsula (K). Há múltiplas classificações que podem ser feitas com as mais de 25 cepas de E. coli identificadas no trato gastrointestinal de um suíno e as mais de 120 espécies descritas. Se nos concentrarmos na combinação do antígeno fimbrial, no tipo de toxinas produzidas e na patologia desenvolvida em suínos afetados por E. coli, poderemos encontrar as doenças mais prevalentes em suínos associadas a esta bactéria.

Há várias curiosidades epidemiológicas sobre o modo de vida dessa bactéria a nível do trato gastrointestinal dos suínos. Por exemplo, as cepas dominantes de E. coli podem variar de um dia para o outro, com a proliferação e a variação máxima das cepas ocorrendo no intestino delgado, enquanto, o número de bactérias permanece constante no íleo e no reto. Em momentos de doença, as mesmas cepas costumam se encontrar presentes em vários animais doentes e costumam persistir em lotes sucessivos, com infecções mistas (por mais de uma cepa) sendo mais frequentes que infecções causadas por apenas uma cepa. Finalmente, destaque-se que as rotinas de limpeza e desinfecção costumam ser insuficientes para romper o ciclo de infecção por E. coli, e é por isso que as infecções por esse agente costumam ser recorrentes nas criações expostas a este.

A doença do edema: pouco lembrada, mas muito presente

A doença do edema é causada por VTEC, com as cepas produtoras de verotoxina 2e (Vt2e) ou toxina semelhante a Shiga 2e (STx2e) de Escherichia coli sendo as únicas capazes de produzir a doença do edema (ECED). Essa nomenclatura dupla (Vt2e e Stx2e) possui origem dupla: por um lado o efeito letal que Vt2e tem sobre as células Vero (células de cultura comumente usadas a nível laboratorial) e, por outro, a semelhança estrutural de tal toxina com a produzida por Shigella dysenteriae, e é por isso que tem o nome de toxina semelhante à de Shigella (Stx2e).

Normalmente, E. coli que apresenta majoritariamente fímbrias de aderência F18ab, mas também F18ac, corresponde às cepas responsáveis pela produção de Vt2e. Essa circunstância condiciona o momento de surgimento da doença, já que os receptores de aderência para E. coli F18 não são expressos completamente em leitões com menos de 20 dias de vida, e é por isso que o momento de surgimento da doença ocorre ao redor de 5-14 dias após o desmame desses animais, que costuma ocorrer entre 21 e 28 dias de vida. É importante considerar que a doença do edema também pode se manifestar na fase de engorda, com a introdução dos suínos no lote de terminação, que é o momento crítico em seu desenvolvimento.

Com esses receptores já tendo sido ativados, as ECED colonizam o intestino delgado, aderem às fímbrias e começam a secretar Vt2e. Quando a toxina alcança a corrente sanguínea, distribui-se até os tecidos, onde exerce seu efeito tóxico, que é a destruição das paredes dos vasos sanguíneos, o que se supõe que causa o surgimento dos edemas característicos da doença.

Quando se ingerem ECED em quantidade suficiente, sua proliferação é bastante rápida, atingindo concentrações maciças da ordem de 109 UFC/g. Esse grau de colonização e, portanto, de produção de Vt2e condicionará o desenvolvimento da infecção e, com isso a forma de apresentação da doença. A apresentação clínica da doença do edema poderá ser diferente, com base no grau de colonização e na capacidade de produção de Vt2e.

Formas de apresentação da doença do edema

Forma clínica ou aguda. Trata-se da forma característica da doença, que costuma se apresentar nos animais após seu desmame, embora também possa se apresentar nos animais na entrada da fase de terminação. Essa apresentação se caracteriza por ser esporádica e afetar todo o grupo, embora apenas uma proporção morra de forma súbita, sem apresentar nenhum outro sinal clínico associado.

Os sinais clínicos mais característicos são:

  • Inapetência
  • Inchaço das pálpebras e da parte frontal da cabeça
  • Emissão de grunhidos característicos
  • Incoordenação motora
  • Dificuldade respiratória
  • Ausência de febre e diarreia
  • Nas fases terminais, um número reduzido de animais pode apresentar diarreia aquosa com coágulos de sangue vivo
  • Uma parte dos animais que desenvolvem os sinais clínicos anteriores ficará prostrada e morrerá. Os níveis de mortalidade podem variar entre níveis baixos (que, inclusive, podem passar despercebidos, correspondendo a cerca de 1-3%) ou extremos (incluindo entre 50 e 90% dos animais do lote).

Forma crônica

Os animais que forem capazes de sobreviver a uma forma aguda da doença permanecem no grupo exibindo atraso no crescimento e podendo demonstrar distúrbios nervosos unilaterais, tais como pedalagem, torção da cabeça ou atrofia dos músculos das extremidades, com debilitação progressiva.

Forma subclínica

Os leitões ficam clinicamente saudáveis, mas desenvolvem lesões vasculares, que podem resultar em atraso do crescimento.

Lesões características da doença do edema.

Entre as lesões mais frequentes e características da doença do edema clínica e crônica, encontram-se:

  • Edema subcutâneo na cabeça e pálpebras.
  •  O estômago costuma apresentar o conteúdo alimentar aparentemente fresco. Os edemas se localizam na submucosa gástrica e, ocasionalmente, no fundo.
  • Mesocólon edematoso.
  • Edema no mesentério do intestino delgado, assim como da vesícula biliar.
  • Nódulos mesentéricos e do cólon que costumam parecer edematosos, congestos e inchados.
  • As cavidades pericárdica, pleural e peritoneal podem apresentar um ligeiro aumento do conteúdo seroso, com possível presença de fios de fibrina.
  •  Costuma-se apresentar um edema pulmonar, embora em um grau de afecção amplo, indo desde um edema leve até uma congestão sublobular generalizada.
  • Fatores de risco associados ao desenvolvimento da doença do edema.

Mesmo considerando que a doença do edema possui um único agente causador (Vt2e), pode-se chegar a considerar uma doença multifatorial, por causa dos muitos fatores que condicionam seu desenvolvimento. Entre os fatores de risco mais comuns, encontram-se:

  • Desmames precoces.
  • Situações de estresse ao redor da fase de desmame e da entrada na fase de terminação.
  • Ausência ou presença reduzida de anticorpos maternos contra Vt2e.
  • Composição genética de crescimento rápido e alto consumo de alimentos.
  • Mistura de animais de diferentes origens e status sanitário.
  • Níveis elevados de proteína bruta da dieta nos primeiros dias pós-desmame e da terminação.
  • Alterações de dieta, bem como dietas com proteínas pouco digestíveis.
  • Altas concentrações de farelo de soja.
  • Água de baixa qualidade e não tratada.
  • Presença de doenças concomitantes, especialmente aquelas associadas a E. coli, tais como as diarreias pós-desmame.

Conclusões

Embora a doença do edema seja uma patologia antiga, a realidade atual é que, no entanto, ela costuma se associar diretamente a diarreias pós-desmame. Se acrescentarmos a isso que a doença do edema não costuma estar presente nos diagnósticos diferenciais de leitões com sinais clínicos neurológicos e mortalidade no desmame ou na entrada na fase de engorda, o que encontramos é um possível cenário de doença do edema mal diagnosticada e mais prevalente do que se poderia imaginar.

Portanto, podemos associar E. coli como sendo responsável por outras sintomatologias diferentes das diarreias de fases iniciais ou pós-desmame. Quando se observar sintomatologia nervosa, geralmente atribuída a agentes tais como Streptococcus suis ou Haemophilus parasuis, torna-se importante, por tudo que foi descrito anteriormente, incluir as cepas de E. coli produtoras de verotoxina 2e no diagnóstico diferencial, para uma abordagem correta da doença e um diagnóstico final correto.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Suinocultura

Profissional explica principais pontos de limpeza, desinfecção e vazio sanitário em granjas

Médica veterinária Anne de Lara explica que processo é extremamente importante para contribuir com a saúde animal e econômica

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A sanidade do rebanho é um dos pontos mais importantes da suinocultura. Adotar os melhores métodos de manejo que garantam este status é um ponto fundamental para atingir melhores resultados. Porém, ainda existem casos em que por falta de planejamento ou conhecimento, alguns detalhes que são importantes são deixados de lado quando o assunto é a limpeza e desinfecção do ambiente antes de receber um novo lote. Para esclarecer dúvidas sobre este assunto, a médica veterinária e doutoranda da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Anne de Lara, fala sobre “Pressão de infecção: quais os melhores métodos de lavagem, desinfecção e vazio sanitário a serem adotados na suinocultura” durante o Seminário Internacional de Suinocultura (Sinsui), que aconteceu em maio, em Porto Alegre, RS.

A profissional explica que o tema é bastante amplo porque é utilizado em várias áreas, seja humana, farmacêutica ou produção animal. Dessa forma, o objetivo é tratar qual a realidade hoje, o que pode ser feito para reduzir a pressão de infecção no campo, de que forma esse processo de limpeza e desinfecção pode contribuir e quais as ferramentas que existem hoje para isso.

Anne comenta que atualmente a suinocultura possui vários processos e manejos que no decorrer do tempo fizeram com que aumentasse a pressão de infecção. Entre eles estão a densidade animal e o aumento da produtividade. “Os animais contaminam as instalações com agentes da microbiota e também com agentes patogênicos, quando presentes no rebanho. Associado a isso, há muitos locais onde a estrutura da granja não tem o melhor tipo de piso. Estas particularidades podem fazer com que os agentes permaneçam nas instalações”, afirma. Adotando melhores processos, isto pode ser resolvido, mas ainda é um desafio para a suinocultura, esclarece a profissional.

Ela diz que em alguns casos, não ocorre o planejamento para o intervalo adequado entre lotes. “Existem desafios em relação ao tempo hábil para fazer esse processo. Então, quanto mais otimizado e mais assertivo for a etapa de limpeza e desinfecção, especialmente quando não há muito tempo para executar, melhor será o resultado para reduzir a contaminação nas instalações”, conta. A profissional explica que para que o próximo lote a ser alojado tenha uma condição de ambiente favorável para o desempenho dos leitões, é necessário que o procedimento de limpeza e desinfecção seja realizado da melhor forma possível e aproveitando o tempo disponível. “Por isso também a importância da adoção de processos padronizados”, reitera.

Entendendo cada um dos processos

A médica veterinária diz que a limpeza da matéria orgânica residual é a parte mais importante de todo o processo, pois a efetividade das etapas seguintes são dependentes desse processo inicial. “Deve ser realizada de forma criteriosa com a utilização de ferramentas adequadas como detergentes, água de boa qualidade sob pressão e por pessoas treinadas”, afirma.

Já a desinfecção, conta Anne, deve ser realizada em instalações secas, após a limpeza prévia, utilizando produtos com espectro conhecido e na concentração adequada. “Vários são os fatores que podem reduzir a eficiência dos desinfetantes, portanto deve-se atentar às características de diluição, estabilidade, aplicação, tempo de contato e qualidade da limpeza das instalações”, alerta.

O vazio sanitário, acrescenta a profissional, é um processo complementar. “Portanto, este é totalmente dependente da qualidade dos processos anteriores. O objetivo do vazio sanitário é permitir a ação residual dos desinfetantes e o processo de dessecação”, conta.

Repetibilidade 

Anne informa que o processo de limpeza e desinfecção deve ser realizado no intervalo entre o alojamento dos animais. “Portanto, quanto melhor a execução desse processo, melhor o aproveitamento do tempo e o resultado final. A padronização de processos é importante para que se obtenha repetibilidade, por meio de métodos seguros e efetivos”, conta.

Ela cita alguns detalhes que são importantes para estabelecer um programa de limpeza e desinfecção. “Inicialmente, o treinamento das pessoas envolvidas é essencial. Esse treinamento deve deixar claro para quem realiza o processo e qual a importância de ser feito da melhor forma, mostrando o impacto que isso tem no resultado do lote”, afirma. Anne explica que esse processo vai reduzir a exposição dos agentes aos animais que serão alojados e, com isso, a probabilidade de desencadear doença clínica reduz. “Essa comunicação é bastante importante”, assegura.

Quanto a realização do procedimento em si, a profissional explica que é preciso ter as ferramentas adequadas para a realização do mesmo, ou seja, um detergente e desinfetante com efetividade comprovada. “Uma série de fatores contribuem para o sucesso do processo, como utilização das concentrações adequadas e respeitar o tempo mínimo de contato dos desinfetantes com as instalações”, diz.

Outra questão importante destacada pela médica veterinária, e que impacta bastante, é o intervalo de tempo hábil para os processos serem realizados. “Isso depende do tamanho da instalação, mas pelo menos seis dias de intervalo entre lotes são necessários para executar o processo de limpeza e desinfecção e ter um mínimo de vazio sanitário”, afirma. Ela diz que este tempo varia bastante conforme a realidade de cada granja, porém, se o tempo for limitado e reduzido não será possível executar todas as etapas.

Após a limpeza, desinfecção e vazio sanitário, destaca a profissional, é importante estabelecer inspeções para definir se o processo foi realizado corretamente e se obteve o resultado esperado. Anne destaca que o principal benefício ao realizar corretamente cada um dos processos é a redução da pressão de infecção, fornecendo assim um melhor ambiente aos animais. “Além de favorecer o bem-estar, há uma redução na probabilidade de desencadeamento de doenças clínicas nos animais e por consequência um melhor desempenho do rebanho”, garante. Deve-se considerar ainda que um programa básico de limpeza e desinfecção custa em média 1 a 2% do custo total do lote, comenta. Enquanto que o tratamento de doenças clínicas normalmente é superior a isso.

Dificuldade ainda é grande

A médica veterinária comenta que ainda existem dificuldades em operacionalizar estes pontos na granja. “Uma questão muito importante é o tempo hábil para realizar um processo adequado. Além desse fator, a condição das instalações também impacta, especialmente no caso de granjas sem manutenção adequada, onde há muitas falhas em piso e equipamentos”, afirma.

Ela acredita que fatores importantes que dificultam a execução do procedimento é o curto intervalo entre lotes praticado e as condições estruturais das granjas. “Essa questão do tempo mínimo e a qualidade dos pisos são condições importantes atualmente no Brasil que podem dificultar a obtenção de bons resultados nos planos de desinfecção”, conta. Além do mais, a comunicação e treinamento do pessoal, informa, é outro grande obstáculo.

A médica veterinária garante que todos os processos a serem realizados são simples. “Isso desde que seja estabelecido um plano considerando os principais fatores como disponibilidade de ferramentas adequadas e equipe treinada”, assegura.

Todos dentro todos fora

Anne conta que este processo de limpeza e desinfecção deve ser realizado em todas as fases da produção, uma vez que o processo reduz a pressão de infecção por agentes que podem acometer os suínos nas diferentes fases de produção. Além disso, ela acrescenta que quando esse processo é associado ao manejo “todos dentro, todos fora”, há um ganho significativamente maior, uma vez que a medida que todos os animais são retirados das instalações é retirado também o fator colonização. “Com a saída dos animas é possível fazer um processo adequado de limpeza e desinfecção, visto que não terão mais animais colonizando e contaminando o ambiente durante essa etapa”, assegura.

Já em granjas onde não há retirada total dos animais não quer dizer que a limpeza e desinfecção não são importantes. “Mas o resultado vai ser diferente, porque ainda terá fluxo de animais e pessoas que podem contaminar a instalação. No caso de granjas de reprodutores, onde somente algumas baias ou alas passam pelo processo de limpeza e desinfecção enquanto outros animais ainda permanecem nas instalações, o processo é importante, mas a redução da pressão de infecção normalmente é inferior”, afirma. Ela acrescenta que nas fases de creche e terminação é muito relevante a adoção do sistema “todos dentro, todos fora” para viabilizar um adequado processo de limpeza e desinfecção, bem como obter outros ganhos relacionados ao desempenho dos animais.

Programa feito em equipe

Um fator importante e essencial citado por Anne é que os planos sejam desenvolvidos junto com as equipes executoras, para que as ações sejam aplicáveis à rotina. “O plano vai ficar muito mais aplicável e diretamente fácil de executar se forem consideradas a participação das pessoas que fazem esse processo e que o conhecem, para que seja aplicado para aquela realidade”, afirma.

Ela comenta que alguns planos podem não se aplicar diretamente a todos os tipos de granja. “Por isso é importante sempre trazer as pessoas que estão diretamente envolvidas no processo para discutir e elaborar os planos de desinfecção”, sustenta. Além do mais, é necessário que esta equipe entenda o porquê de estar realizando esta etapa. “É importante que os envolvidos compreendam que esse processo não é somente um preparo e sim ações que vão contribuir para a saúde do lote”, diz.

Anne destaca ainda que o programa deve ser completo. “Não podemos pensar na desinfecção sem ter uma limpeza bem realizada. A grande maioria dos desinfetantes reduz eficiência na presença de matéria orgânica. Então a limpeza deve ser bem executada, removendo toda a matéria orgânica para seguir com o processo de desinfecção”, reafirma. Da mesma forma, o vazio sanitário é um processo complementar aos dois primeiros. “Por isso é tão importante que cada etapa seja feita adequadamente”, alerta.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes Suinocultura

Leitoas de reposição em granjas de suínos

Desafios para manter a produtividade do rebanho sem aumentar a complexidade dos processos

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 Artigo escrito por Marcelo Frederico Antunes Pinto, consultor de serviços técnicos da divisão de suinocultura na Agroceres Multimix

As leitoas são responsáveis por introduzir o melhoramento genético no rebanho, assim como o sêmen dos terminadores, pois as marrãs têm maior potencial genético que as matrizes de outras ordens de parição, na sua maioria. Na produção tecnificada de suínos, é fundamental realizar o manejo de antecipação da puberdade, permitindo a introdução mais precoce das matrizes no plantel de reprodutoras. Os dias não produtivos (DNP) das fêmeas, aqueles em que elas não estão em gestação ou lactação, comprometem a rentabilidade da produção quando fogem do controle. A categoria de leitoas representa aproximadamente 50% dos DNPs acumulados por matriz ao ano, por isso essa categoria de animais precisa ser manejada com atenção, afim de evitar que esses dias não produtivos aumentem. Entretanto, a reposição é um dos gargalos da produção, pois exige programação de ações, acompanhamento da curva de crescimento das leitoas e atenção da equipe de trabalho, quanto aos manejos reprodutivos, formação de grupos e sincronização de cios.

Pontos que influenciam o bom desenvolvimento das leitoas de reposição

  1. Peso ao nascimento.

O peso ao nascimento (< 800 g ou < 1kg) pode determinar o potencial das leitoas de reposição, pois estudos recentes sugerem um atraso no desenvolvimento folicular em leitoas que nascem com baixo peso, provavelmente porque estes animais apresentam distúrbio na ativação dos folículos primordiais. Assim sendo, o crescimento alterado no útero, associado a um pior crescimento pós-natal, poderia prejudicar a fertilidade e a precocidade das matrizes suínas, por isso, as leitoas que nascem com baixo peso devem ser evitadas, já na seleção ao nascimento.

  1. Alojamento segregado e ambiente adequado a partir da creche.

No momento do desmame, também pode-se avaliar o peso das futuras matrizes desmamadas e estabelecer um ponto de corte que, ao menos, leve ao descarte os refugos da maternidade. Nesta fase as observações de parâmetros ambientais, de saúde e nutricionais devem ser consideradas para evitar que ocorram perdas destes animais. Além disso, nessa fase e no restante do ciclo produtivo, devem ser planejadas medidas de alojamento segregado, no qual as futuras reprodutoras tenham alojamento com espaçamento adequado, espaço de comedouros suficiente, piso de baixa abrasão para os casos, conforto térmico, baixa umidade em pisos e alimentação especificamente desenvolvida para tratar animais de reprodução.

  1. Acompanhamento da curva de crescimento.

Posteriormente, da recria até a seleção final – aos 130 dias de vida -, a principal preocupação deve ser sobre os animais que não tenham alto ganho de peso diário. A meta de ganho dos 130 aos 170 dias é de 650 a 750g de ganho ao dia, pois se as leitoas chegarem muito pesadas à cobertura, poderá ocorrer um comprometimento da longevidade e consequentemente da taxa de retenção das leitoas no plantel reprodutivo, por problemas locomotores desenvolvidos a partir do sobre peso.

Para que a curva de crescimento seja bem modulada, as estratégias de alimentação e sanidade precisam ser detalhadamente estabelecidas de acordo com cada realidade das granjas. O programa nutricional estará sempre sendo ajustado em função da condição sanitária do rebanho. Granjas de alto padrão sanitário podem exigir redução significativa da densidade das dietas de reposição ou manejos de controle de consumo diário de ração – em último caso -, afim de que a curva de crescimento das leitoas seja ajustada às exigências nutricionais das leitoas. Por outra perspectiva, em granjas de alto desafio sanitário, as preocupações com o controle das enfermidades assumem o foco do manejo das leitoas, pois as intercorrências sanitárias podem limitar consideravelmente o potencial de crescimento e maturação sexual das marrãs. Portanto, as estratégias nutricionais de suporte ao sistema imunológico passam a assumir maior importância que os controles básicos de densidade nutricional, mesmo porque, o próprio desafio sanitário é redutor de desempenho e, por consequência, de exigência nutricional, o que invalida as iniciativas de compensação nutricional direta aos fatores sanitários.

O peso vivo influencia o desenvolvimento dos ovários em marrãs, mas o efeito de produção de esteroides no metabolismo pode se alterar também devido à idade e o número de cios reportados, mesmo porque – tomando como universo para discussão os modelos de criações tecnificadas -, as leitoas não sofrem subnutrição suficiente para apresentarem desenvolvimento corporal inferiores aos limites fisiológicos para manifestação da puberdade, exceto quando são acometidas por doenças crônicas.

Estes dois fatores – idade e peso – também afetam o desenvolvimento do útero em fêmeas pré-púberes. Na fêmea suína, essa relação (peso x idade) não é comumente abordada, mas em outros animais de produção esse parâmetro é bem estudado. Em suínos, a maturidade esquelética e muscular não pode ser aguardada para a introdução das leitoas no sistema de reprodução, porque o modelo de produção não comporta o tempo necessário para esse manejo, com isso, já é convencionado que o risco dessa prática faz parte do sistema de produção. A decisão do modelo de introdução de fêmas jovens em fase muito precoce do desenvolvimento corporal faz com que os animais sejam submentidos a uma produtividade desafiadora e estressante, sob o ponto de vista metabólico, pois as fêmas jovens precisam conciliar desenvolvimento corporal, com gestação e lactação. Muitas vezes, temos como consequência desse modo de produção a manifestação da síndrome do segundo parto, que é a redução da taxa de concepção e parição das fêmeas suínas na segunda gestação. Se considerarmos que a vida útil das matrizes suínas nas granjas modernas é de 6 a 7 partos, em média, dois terços de sua vida produtiva ocorrem em fase de desenvolvimento corporal.

Quando se observa as estimativas do software Inraporc®¹⁰ de ganho de peso diário (GPD) para porcas em reprodução, através do peso vivo pós-parto e a alteração deste em função da ordem de parto, é possível traçar uma curva de crescimento para essa categoria, e observar o fato discutido no parágrafo anterior. Através dessa estimativa, é possível traçar um paralelo entre o crescimento e a puberdade para fêmeas suínas; e ao correlacionar à curva de crescimento para as linhagens genéticas modernas, pode se observar que a recomendação é de que a primeira cobertura ocorra com aproximadamente 50% do peso de quando adulto. Sendo assim, ainda há muito do seu corpo a ser desenvolvido após a cobertura.

Estratégias 

Algumas estratégias alimentares são utilizadas para alcançar peso e composição corporal ideal para reprodução e longevidade no plantel, a mais prudente é o ajuste da densidade da ração, para que o crescimento dos animais seja modulado de acordo com a necessidade de desenvolvimento corporal e a maturidade sexual das marrãs. A restrição alimentar sucedida de realimentação à vontade, durante a fase anterior à cobertura, não menos que 14 dias antes da manifestação do cio, também conhecida como flushing, é descrita como alternativa para os sistemas que não podem manipular as dietas das leitoas e precisam alimentá-las com dietas mais simplificadas.  A restrição alimentar moderada, não maior que 10% do potencial de consumo, aplicada a partir dos 130 dias até os 180 dias, pode ser utilizada sem perdas reprodutivas se, posteriormente a este manejo, for adotada a alimentação à vontade. A alimentação à vontade na fase anterior à cobertura é capaz de reestabelecer a taxa de desenvolvimento folicular pré-ovulatório e garantir ovulação adequada. Porém, o flushing, precisa ser bem planejado, pois deve respeitar períodos determinados dentro do ciclo estral das marrãs e atender os níveis de nutrientes e a combinação de ingredientes específicos.

Os efeitos, a médio e longo prazo, de uma estratégia nutricional exata para o estado em que se encontram os animais, permitem que os produtores atinjam o objetivo de condições corporal (peso) e fisiológicas (idade) para a primeira cobertura da marrã, o que tem proporcionado menor incidência da síndrome do segundo parto e contribuído para aumentar a produtividade dos planteis.

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Suínos / Peixes Necessita atenção

Claudicação em fêmeas suínas gestantes têm efeito na prole

Resultados preliminares da pesquisa mostram que leitões que nascem de fêmeas que claudicaram durante sua gestação apresentam diversos problemas ao longo da vida

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Arquivo/OP Rural

 Artigo escrito por Marisol Parada Sarmiento, doutoranda em Medicina Veterinária, Saúde Pública e Bem-estar Animal, Universidade de Teramo, Itália e estudante de intercâmbio na Universidade de São Paulo – FMVZ, campus Pirassununga

O suíno é um animal de enorme complexidade em termos comportamentais. Na natureza, as matrizes e sua prole convivem em grupos e só se juntam com os machos em temporada de acasalamento. Alguns comportamentos naturais da espécie incluem fuçar, forragear, chafurdar (banho de lama para o controle de temperatura) e gerar vínculos amistosos com seus semelhantes. Próximas ao parto, as matrizes constroem ninhos que podem alcançar dezenas de quilos de material (feno, galhos, serragem, etc.), sendo que tais comportamentos são comprometidos pelos sistemas de produção adotados na atualidade.

O sistema de produção suína apresenta enormes desafios para todos os envolvidos, principalmente para os animais. Um dos desafios que tem chamado a atenção da comunidade que trabalha com esta espécie é a claudicação. A claudicação é um evento doloroso que indica dificuldade no andar do animal (coloquialmente chamada de manqueira) atingindo diretamente o bem-estar animal e, por consequência, o bolso do produtor. A claudicação é um motivo de descarte frequente em matrizes suínas, e estudos sugerem que aproximadamente 60% das matrizes se encontram claudicando no Brasil. Ou seja, pelo menos quase três milhões de matrizes se encontram em situação de dor (IBGE, 2017). No mundo, as prevalências reportadas estão próximas dos 30% e o custo da claudicação gira em torno dos R$ 200 por matriz.

Origem

Sua origem, como em outras espécies, é multifatorial e, dentre os fatores, temos:

  • Condições de alojamento inadequadas: muitos animais em áreas pequenas e ausência de enriquecimento ambiental são determinantes devido às lesões geradas durante e após a mistura de animais;
  • Piso: abrasividade excessiva no chão altera negativamente a condição do casco nos suínos;
  • Fatores sanitários e nutricionais: algumas toxinas, deficiências em vitaminas e minerais podem afetar os ossos, cartilagem articular e qualidade do casco;
  • Outros fatores, como ausência de casqueamento, atrofia muscular por inatividade excessiva ou seleção genética, sem levar em conta os aprumos dos reprodutores, aumentam a probabilidade de desenvolver claudicação.

As consequências da claudicação para o animal compreendem mudanças comportamentais, problemas de saúde e estados emocionais alterados, tudo isso diretamente relacionado com à dor que a claudicação implica e o bem-estar animal. Traumas, fraturas, lesões do pé, lesões de ossos e cartilagens de nascença são condições que alteram a saúde das matrizes. Consequências comportamentais importantes incluem a redução da interação social e exploratória normal, mudanças no comportamento alimentar e alteração na sequência e tempo para se deitar. Por fim, as implicações fisiológicas encadeiam respostas cardiovasculares e liberação de hormônios do estresse, como adrenalina, noradrenalina e cortisol.

A dor tem um papel importantíssimo nessas mudanças secundárias geradas pela claudicação. Ela é uma condição desagradável e estressante que tem como ser detectada. Inicialmente, é importante conhecer o comportamento natural da espécie a ser avaliada, pois as primeiras mudanças no animal são de tipo comportamental: diminuição da atividade, maior reatividade ante estímulos estressantes, diminuição no consumo, afastamento do grupo e relutância ao apoio do membro afetado. Existem metodologias validadas para determinar o grau de claudicação do animal, onde o observador precisa de treinamento prévio para determinar quantitativamente a severidade desta dificuldade motora. Procedimentos mais complexos usados pela ciência, como medição de hormônios de estresse, podem ser aliados para melhor compreensão do estado em que o animal se encontra sendo com dor/estresse ou não.

Dor afeta leitões em formação

Mas e a dor? Ela tem efeito nos leitões que estão se formando dentro da matriz?  A resposta é sim. Como em todo mamífero, situações de estresse durante a prenhez sem possibilidade de adaptação, geram efeitos negativos no desenvolvimento do feto. Por exemplo, se uma mulher passar por estresse excessivo durante a gestação e, mais especificamente, durante o momento em que o sistema nervoso central do feto está se desenvolvendo, consequências graves são geradas. Crianças com dificuldades emocionais, agressividade excessiva, problemas de atenção e memória, são algumas sequelas que o estresse desmedido pode gerar nesse novo ser.

Uma equipe de pesquisa da Universidade de São Paulo, em conjunto com a Universidade de Teramo (Itália), está trabalhando na identificação dessas consequências em leitões vindos de matrizes que claudicaram durante sua gestação.

Em situações normais, os hormônios de estresse, como o cortisol, são inativados na placenta para evitar os possíveis danos ao feto, mas se esses níveis superam a capacidade que a placenta tem para inativar, os hormônios começam a passar de forma livre, alterando estruturas cerebrais em formação, as quais se relacionam com o mencionado anteriormente, memória, cognição, agressão e, inclusive, medo.

Resultados preliminares da minha pesquisa de doutorado mostram que leitões que nascem de fêmeas que claudicaram durante sua gestação, são mais agressivos, têm frequências de vocalização diferentes, possivelmente sua sensibilidade à dor se encontra diminuída e apresentam menor peso ao desmame.

No futuro, o estudo poderá mostrar mais resultados em relação à conversão alimentar, ganho de peso, desempenho cognitivo, comportamento social e medidas de medo; para mostrar outras alterações que a claudicação em matrizes gestantes causa nos fatores produtivos e de bem-estar da sua prole.

O mundo da produção suína está cheio de desafios para os animais, desde seu nascimento até sua morte; desmame, mudanças do local de alojamento, mistura com animais desconhecidos, transporte, entre outros. Se tivermos a capacidade de criar animais mais adaptados à tais desafios, as consequências serão benéficas para o produtor e não somente para o animal. Ter animais mais calmos, por exemplo, suscita facilidades de manejo para cada um desses desafios, de forma que tanto o animal como o produtor e seus trabalhadores, se verão beneficiados.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2019 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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