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Como o Brasil se tornou o maior produtor e consumidor de produtos de biocontrole

Embora tenha havido um grande aumento no número de registros de produtos para biocontrole isso não representa a realidade de adoção pelos produtores, pois houve um aumento na adoção da produção on farm ou caseira, ou seja, empresas que estabelecem indústrias de menor escala em suas fazendas para produzir os agentes de biocontrole de que precisam.

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Telenomus podisi parasitando ovos do percevejo Euschistus heros - Foto: Adair Carneiro/Embrapa

Três possíveis razões para o Brasil emergir como o maior produtor e usuário de agentes de biocontrole do mundo são a área cultivada, a ocupação constante dessas áreas cultivadas e também as condições climáticas. A produção agrícola do Brasil desempenha um papel fundamental na segurança alimentar global, como pode ser comprovado pela sua produção substancial. Em 2021/2022, o Brasil produziu 127 milhões de toneladas de soja (cerca de 38% da produção mundial) em aproximadamente 42 milhões de hectares, 656 milhões de toneladas de cana-de-açúcar (40% da produção mundial) em nove milhões de ha, 50 milhões de sacas (60 kg cada saca) de café (33% da produção mundial) em 1,9 milhão de ha, 116,5 milhões de toneladas de milho (11% da produção mundial) em 22 milhões de hectares, entre outras importantes culturas alimentícias, rações, fibras e combustíveis. A produção de todas essas culturas é altamente dependente tanto das condições climáticas quanto do controle de doenças de plantas, pragas e ervas daninhas.

Além disso, a longa história do país em biocontrole em condições de campo é outro aspecto importante. O uso do fungo Metarhizium anisopliae para controle de cigarrinha em cana-de-açúcar e estirpes fracas do vírus da tristeza dos citros para o controle desta doença na década de 1960, e de Baculovirus para o controle de lagarta da soja na década de 1970, são exemplos importantes.

Na mesma década, o controle da broca-da-cana-de-açúcar por meio do uso da vespinha Cotesia flavipes se tornou uma estratégia de manejo padrão em todo o país. O sucesso dessas estratégias de biocontrole fomentadas pelas pesquisas estimulou investimentos em estudos tanto de biocontrole de pragas quanto de doenças de plantas nas décadas seguintes. No entanto, o mesmo sucesso não foi obtido com o biocontrole de plantas daninhas.

Durante muitos anos, devido à falta de forte concorrência com os defensivos químicos e ao desinteresse das grandes empresas, os produtos biológicos eram em sua maioria produzidos pelos próprios agricultores ou vendidos sem registro. No entanto, esse cenário mudou no início dos anos 2000, quando as empresas de produtos biológicos foram pressionadas a registrar seus produtos na legislação de agrotóxicos.

Além disso, um novo método de registro de biológicos foi criado no início deste século: o registro de produtos para uso na agricultura orgânica. Por este método, as cepas registradas podem ser exploradas, mediante autorização, por diversas empresas, facilitando o processo de registro, tornando-o mais simples, rápido e econômico. Com o crescimento do mercado de produtos biológicos e com os problemas observados pelo uso dos agrotóxicos, a legislação foi alterada para priorizar o registro de biológicos. Outra melhoria importante na legislação foi o registro de biológicos por alvo, e não por cultura, como ocorre com os agrotóxicos. Esse aprimoramento regulatório, fomentou o registro e adoção de biológicos.

O Brasil validou as diretrizes para a agricultura tropical e se tornou o maior fornecedor das commodities mais importantes (café, soja, cana-de-açúcar, laranja e muitas outras). Essas commodities são produzidas o ano todo, com duas ou até três safras anuais, o que pode ser visto inicialmente como uma vantagem competitiva. No entanto, o conceito de “praga hibernante ou vazio biológico” não se aplica a nós.

Embora o clima tropical favoreça o crescimento das plantas, também permite que o patógeno e as plantas se multipliquem ao longo do ano. Com um número limitado de moléculas químicas e cultivares resistentes, o surgimento de populações de pragas resistentes é frequentemente relatado. Portanto, o biocontrole surgiu como a estratégia plausível para as abordagens de manejo integrado de pragas (MIP).

Segundo Bueno et al. (2020), com dados obtidos em 2018, numa aproximação grosseira, incompleta e provavelmente subestimada do uso de biocontrole no Brasil, a área sob uso de controle biológico foi de mais de 33 milhões de hectares. No entanto, considerando o ritmo de crescimento dos últimos anos, a área sob controle biológico no Brasil deve ser superior a 70 milhões de hectares. As maiores áreas sob controle biológico com bioprodutos registrados em 2022 foram soja (20 milhões de ha), milho (9,8 milhões de ha), cana-de-açúcar (6,6 milhões de ha), café (0,4 milhão de ha), outras culturas (4,1 milhões de ha) (Limberger, 2022-dados da Spark).

Também é importante observar o número de produtos biológicos registrados no Brasil, que passou de um, registrado em 2005, para 482 registrados em fevereiro de 2023. Atualmente, para cada doença de planta relevante, como por exemplo a ferrugem asiática da soja, a ferrugem do cafeeiro e o mofo-branco, já existe pelo menos um produto de biocontrole registrado.

A expansão de mercado mais extraordinária para o controle biológico foi para o manejo de nematoides. O biocontrole ultrapassou o mercado de nematicidas químicos e é hoje o maior mercado de biocontrole no Brasil, representando, em 2022, 44% das vendas de bioagentes. Considerando o controle de nematoides, os produtos biológicos representaram, na safra 2021/2022, 55%, 94% e 100% do mercado de nematicidas vendidos para cana-de-açúcar, soja e milho, respectivamente (Limberger, 2022-dados da Spark). Vale ressaltar que, na maioria dos ensaios de campo, os produtos à base de bactérias, fungos ou uma combinação de ambos superaram o nematicida químico na redução das populações da maioria dos nematoides parasitas de plantas.

Curiosamente, isso resultou não apenas na maior expansão do controle biológico para nematoides, mas também aumentou a conscientização sobre outras doenças de plantas causadas por patógenos habitantes do solo. Além disso, alguns dos produtos registrados para controle de nematoides, particularmente aqueles que possuem uma capacidade intrínseca de proteção de raízes, também protegem contra infecções radiculares por fungos de solo, como os causados por Fusarium.

Nova fronteira do biocontrole

Atualmente, qual seria a nova fronteira do biocontrole para o manejo de doenças de plantas? Há um aumento no uso de biocontrole para doenças foliares, como a ferrugem asiática da soja (Phakopsora pachyrhizi) e a ferrugem do cafeeiro (Hemileia vastatrix). Para esses alvos, todos os produtos registrados são à base de bactérias, principalmente Bacillus, que ampliam o raio de ação do fungicida químico.

Os biofungicidas são usados em combinação com fungicidas químicos e é importante que os produtos biológicos sejam compatíveis com os agrotóxicos mais usados e sejam pulverizados no início da estação, principalmente quando a resistência induzida é o principal modo de ação. Essa combinação resulta em maior rendimento e presumivelmente reduz a pressão de seleção exercida pelo uso exclusivo de fungicidas sistêmicos.

No mercado brasileiro, 142 produtos à base de Bacillus spp. (B. amyloliquefaciens, B. pumilus, B. subtilis e B. velezensis), Clonostachys rosea, Trichoderma spp. (T. afroharzianum, T. asperellum, T. harzianum, T. koningiopsis, T. reeseiT. stromaticum e T. viride) são registrados como biofungicidas; 17 baseados em B. subtilis são registrados como biobactericidas; e 96 baseados em B. amyloliquefacies, B. licheniformis, B. methylotrophicus, B. paralicheniformis, B. subtilis, B. velezensis, Paecilomyces lilacinus, Pasteuria nishizawae, Purpureocillium lilacinum, Trichoderma endophyticum e T. harzianum, entre outros são registrados como bionematicidas. Como bioinseticidas são registrados 263 produtos à base de Beauveria bassiana (95), Metarhizium anisopliae (91), Bacillus thuringiensis (44), Baculovirus anticarsia (14), Isaria fumosorosea (8) entre outros. Oitenta e seis produtos à base de Beauveria bassiana (76) e outros (10) são registrados como bioacaricidas. Ao contrário dos biofungicidas e bionematicidas, praticamente 80% dos bioinseticidas e bioacaricidas são baseados em um isolado de M. anisopliae IBCB 425 e em um isolado de B. bassiana IBCB 66. A tendência no mercado brasileiro é registrar bioprodutos formulados que contenham uma mistura de espécies de microrganismos ou mesmo misturas de múltiplas cepas da mesma espécie.

Embora tenha havido um grande aumento no número de registros de produtos para biocontrole, denominados biopesticidas ou bioprotetores, isso não representa a realidade de adoção pelos produtores, pois houve um aumento na adoção da produção on farm ou caseira, ou seja, empresas que estabelecem indústrias de menor escala em suas fazendas para produzir os agentes de biocontrole de que precisam. Existem diferentes níveis dessa produção industrial, desde a artesanal (como a produção de biofertilizante) até a produção industrial (semelhante àquelas que têm biológicos como seu negócio principal).

Tais iniciativas resultaram na criação de diversas indústrias de produtos biológicos do país. Embora haja controvérsia se tal sistema de produção será mais adotado do que os produtos comerciais registrados, todos concordamos que essa iniciativa de biocontrole de menor custo tem disseminado os benefícios da adoção do biocontrole no MIP em todo o país. Contudo, existem relatos de produtores que descontinuaram sua própria produção on farm ou caseira para adotar os bioprodutos comerciais disponíveis no mercado.

O que precisamos fazer urgentemente para que o controle biológico continue a crescer no Brasil?

1. Desenvolver bioherbicidas;

2. Realizar o controle da ferrugem asiática da soja e da folha do café, bem como do oídio em várias culturas exclusivamente com agentes de controle biológico e, eventualmente, em combinação com outras abordagens ecológicas, como cultivares resistentes e práticas de manejo de culturas;

3. Selecionar novos agentes de biocontrole adaptados ao clima tropical, bem como adaptados e capazes de lidar com as mudanças climáticas;

4. Treinar os envolvidos nas cadeias produtivas em controle biológico.

Fonte: Por Wagner Bettiol ([email protected]) e Flavio de Medeiros ([email protected]), com revisão de Eliana Lima, da Embrapa Meio Ambiente.

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Jornada de 40 horas pode exigir reestruturação de escalas e contratos no Brasil

Proposta reduz carga semanal, amplia descanso remunerado e desafia setores dependentes de operações ininterruptas.

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A aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 221/2019, que reduz a jornada semanal para 40 horas, assegura dois dias de repouso semanal remunerado e proíbe a redução salarial, inaugura uma das mais profundas reformas nas relações de trabalho desde 1988. A proposta, agora em tramitação no Senado Federal, altera o artigo 7º da Constituição e redefine a lógica jurídica da duração do trabalho no Brasil.

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O debate social que impulsionou a PEC é legítimo, visto que a busca pelo equilíbrio entre trabalho e vida privada tornou-se central nas economias contemporâneas. Contudo, sob o prisma técnico-jurídico, o texto aprovado apresenta graves defeitos estruturais capazes de gerar insegurança jurídica, explosão de litigiosidade e severos impactos econômicos nos setores produtivos.

O erro capital da proposta reside na rigidez de sua constitucionalização. A PEC estabelece um modelo uniforme para atividades econômicas completamente distintas, ao impor constitucionalmente dois dias de repouso semanal remunerado, um deles preferencialmente aos domingos.

Essa uniformização ignora a complexidade operacional de setores dependentes de turnos ininterruptos, como saúde,

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comércio, hotelaria, segurança, logística, agronegócio e indústria. Embora o texto acene com a compensação por negociação coletiva, restringe a flexibilidade a uma contabilidade “na média”, com a obrigação de cumprir ao menos um repouso semanal dentro da própria semana. A margem de manobra das empresas, portanto, desaparece.

Regimes diferenciados de trabalho
A dificuldade técnica se agrava porque o texto simula permitir regimes diferenciados por lei, mas condiciona essa flexibilização aos limites rígidos fixados nos novos incisos do artigo 7º (oito horas diárias, 40 horas semanais e dois descansos). Na prática, a proposta promete uma saída que ela mesma tranca, o que inviabiliza as escalas e regimes especiais permanentes exigidos pela dinâmica de diversos setores.

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Outro ponto crítico é a colisão frontal entre a PEC e a autonomia coletiva. O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do Tema 1046 da repercussão geral, consolidou o entendimento de que as normas coletivas podem pactuar a flexibilização de direitos trabalhistas, desde que preservado o patamar civilizatório mínimo. Ao constitucionalizar parâmetros engessados, a proposta esvazia o papel dos sindicatos e anula a construção de soluções setoriais customizadas.

Perda de eficácia
A situação se torna ainda mais alarmante com a regra que decreta a perda de eficácia, em apenas 60 dias, de cláusulas de acordos e convenções coletivas incompatíveis com o novo regime. Essa ruptura abrupta será, inevitavelmente, o estopim de uma avalanche de ações judiciais.

A invalidação sumária de instrumentos vigentes destrói a lógica de concessões recíprocas da negociação sindical e

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compromete a estabilidade das pactuações. Normas coletivas possuem prazo determinado, impactos financeiros previamente calculados e servem de base para o planejamento empresarial. Subvertê-las em prazo tão reduzido afronta os princípios constitucionais da proporcionalidade, da proteção da confiança legítima e do ato jurídico perfeito.

Do ponto de vista econômico, o aspecto mais preocupante está na aplicação imediata das novas regras aos contratos vigentes sem redução salarial. A diminuição da jornada, com a manutenção de salários nominais, pisos e estruturas remuneratórias, eleva automaticamente o custo da hora trabalhada.

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Impacto financeiro
O impacto financeiro dessa rigidez constitucional ultrapassa a contabilidade interna das empresas e atinge diretamente as contas públicas e os contratos de terceirizações de mão de obra intensiva junto ao Poder Público. A ausência de mecanismos constitucionais claros para o reequilíbrio econômico-financeiro desses vínculos gerará uma onda inevitável de pedidos de repactuação ou rescisão forçada, em flagrante ofensa à livre iniciativa.

Diante desse cenário, o Senado Federal, historicamente reconhecido como a ‘Câmara Alta’ e o guardião do pacto federativo, assume o papel essencial de freio analítico. Cabe à Casa revisar o açodamento da Câmara e calcular o reflexo inflacionário nos serviços essenciais, sob o risco de converter o avanço social em colapso na prestação de serviços básicos.

O impacto da proposta também alcança os planos de cargos e salários e as normas coletivas já em execução. Apesar

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disso, o texto omite mecanismos constitucionais claros de reequilíbrio econômico-financeiro para as empresas afetadas. Essa lacuna fere diretamente a livre iniciativa. O STF já reconheceu que reformas constitucionais se submetem a limites materiais implícitos quando atingem a estabilidade institucional e a proteção das relações jurídicas consolidadas.

A dubiedade do texto também alcança as jornadas já inferiores a 40 horas. Embora declare preservar as situações mais benéficas, a PEC submete essas categorias às novas regras de repouso semanal, o que detonará disputas jurídicas sobre a validade de regimes como o de 12×36, banco de horas e turnos diferenciados de compensação.

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Exiguidade da transição
Por fim, chama atenção a exiguidade da transição. O texto estabelece redução para 42 horas semanais em 60 dias e a implementação definitiva das 40 horas em apenas 12 meses. Para setores complexos, este intervalo é insuficiente para organizar escalas, renegociar contratos, adaptar sistemas de ponto e promover contratações adicionais.

A experiência internacional demonstra que reformas profundas de jornada exigem gradualismo, incentivos econômicos e mecanismos robustos de transição regulatória. A PEC brasileira, contudo, impõe uma mudança estrutural ampla em prazo incompatível com a heterogeneidade da economia nacional.

A discussão agora bate à porta do Senado Federal. Caberá à Casa o bom senso de converter o açodamento legislativo em um debate técnico real. Alterar a rotina produtiva do país sem o devido gradualismo não protege o trabalhador; destrói a viabilidade dos negócios que sustentam o seu emprego. O parlamento tem em mãos a chance de aperfeiçoar o texto, para evitar o risco real de converter uma legítima bandeira de bem-estar social em um histórico motor de desorganização econômica, desemprego e litigiosidade em larga escala.

Fonte: Artigo escrito por Ana Paula Oriola De Raeffray, doutora em Direito; e Franco Mauro Russo Brugioni, advogado especialista em Relações de Trabalho.
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Quando o crédito deixa de financiar sonhos e passa a financiar a sobrevivência

Endividamento recorde de famílias e empresas revela distorções que comprometem o desenvolvimento econômico.

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O Brasil enfrenta um desafio econômico que exige atenção imediata: o avanço do endividamento das famílias e das empresas. Mais do que um problema conjuntural, trata-se de uma questão estrutural que afeta o consumo, os investimentos, a geração de empregos e a capacidade de crescimento sustentável do País. Nesse cenário, tornam-se fundamentais o fortalecimento da educação financeira e a ampliação de modelos de crédito mais próximos das necessidades da população e do setor produtivo.

Os números revelam a dimensão do problema. Atualmente, o País registra 82,8 milhões de CPFs negativados, o equivalente a 50,5% da população adulta. Em outras palavras, para cada brasileiro adimplente existe um inadimplente. No ambiente empresarial, a situação também é preocupante: são 8,87 milhões de CNPJs negativados. Os dados do Banco Central e da Serasa evidenciam uma realidade que compromete o desenvolvimento econômico e social.

As famílias de menor renda são as que mais recorrem ao crédito. Muitas vezes, o financiamento deixa de ser uma ferramenta para realização de projetos e passa a ser utilizado para cobrir despesas básicas. O resultado é um ciclo de endividamento que reduz a capacidade de planejamento e aumenta a vulnerabilidade financeira.

Entre as empresas, observa-se uma situação igualmente preocupante. Em vez de financiar expansão, inovação ou

Imagem criada pelo ChatGPT/Jaqueline Galvão/OP Rural

modernização, o crédito é frequentemente utilizado para manter as operações em funcionamento, pagar fornecedores e cumprir compromissos correntes. Quando o crédito deixa de impulsionar investimentos e passa a financiar a sobrevivência, perde-se um importante motor de crescimento econômico.

Parte dessa realidade decorre da baixa capacidade de poupança nacional. O Brasil possui uma taxa de poupança equivalente a apenas 14,5% do Produto Interno Bruto, uma das menores do mundo. Como a poupança é a principal fonte de financiamento dos investimentos públicos e privados, sua insuficiência contribui para a elevação dos juros e para a escassez de recursos disponíveis ao setor produtivo.

A situação é agravada pela elevada participação do governo no mercado de crédito. Hoje, de cada R$ 100 que circulam na economia sob a forma de crédito, R$ 44 são absorvidos pelo setor público. Restam apenas R$ 56 para atender milhões de famílias e empresas. Essa disputa por recursos escassos pressiona as taxas de juros e restringe ainda mais o acesso ao financiamento.

O desequilíbrio fiscal também contribui para esse cenário. O crescimento contínuo dos gastos públicos aumenta a percepção de risco, encarece o financiamento da dívida e mantém os juros elevados por mais tempo. Os reflexos atingem diversos setores, inclusive o agronegócio, onde o crédito rural enfrenta dificuldades crescentes, com aumento das exigências de garantias, maior distância entre os valores anunciados e efetivamente liberados e índices históricos de inadimplência.

Diante desse contexto, a educação financeira assume papel estratégico. Mais do que ensinar conceitos de orçamento e investimento, ela promove uma cultura de planejamento, responsabilidade e visão de longo prazo, permitindo que famílias e empresas tomem decisões mais conscientes.

Igualmente importante é reconhecer o papel das cooperativas de crédito. Em um ambiente marcado pelo alto custo financeiro, elas oferecem uma alternativa baseada na proximidade com os associados, na gestão democrática e no compromisso com o desenvolvimento regional.

Santa Catarina é referência nesse segmento. O ramo crédito reúne 69 cooperativas financeiras, com cerca de 4 milhões de associados e 20,8 mil colaboradores. Em 2024, essas cooperativas registraram receitas totais de R$ 28,7 bilhões, crescimento de 36% em relação ao ano anterior. Esses números demonstram a força de um modelo que reinveste recursos nas comunidades e amplia o acesso ao crédito em condições mais adequadas.

Em um País marcado pela baixa poupança, pelo elevado endividamento e pela escassez de crédito produtivo, as cooperativas de crédito representam parte importante da solução. Ao promover inclusão financeira, educação econômica e desenvolvimento local fortalecem famílias, empresas e comunidades. Construir um futuro mais próspero passa, necessariamente, pela responsabilidade fiscal, pela educação financeira e pela valorização de modelos cooperativos que coloquem as pessoas no centro das decisões econômicas.

Fonte: Artigo escrito por Vanir Zanatta, presidente da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (Ocesc).
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Do Arco Norte às enchentes no Sul: os novos desafios do agro brasileiro

Diferenças regionais moldam estratégias de produção, logística e adaptação climática em um setor que respondeu por 48,5% das exportações do país em 2025.

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Enquanto o Norte amplia sua importância como corredor logístico e nova fronteira de expansão agrícola, o Sul busca se adaptar aos impactos crescentes das mudanças climáticas sem abrir mão da alta produtividade que historicamente caracteriza a região. Mais do que diferenças geográficas, esse contraste revela dois modelos distintos de desenvolvimento que ajudam a explicar os rumos do agronegócio brasileiro.

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Os números demonstram a relevância do setor para a economia nacional. Em 2025, o agronegócio brasileiro alcançou exportações recordes de US$ 169,2 bilhões, respondendo por 48,5% das vendas externas do país. Por trás desse desempenho, no entanto, existe uma realidade marcada por características regionais bastante diferentes, que influenciam desde a produção até a competitividade internacional.

Nova fronteira agrícola e logística

No Norte, o clima equatorial, com elevadas temperaturas, alta umidade e grande volume de chuvas ao longo do ano, favorece culturas como cacau, açaí e diversas frutas tropicais. Ao mesmo tempo, essas condições impõem desafios significativos à infraestrutura logística. O excesso de chuvas pode dificultar o transporte, elevar custos operacionais e aumentar a complexidade da armazenagem e do escoamento da produção. Nos últimos anos, porém, a região também passou a registrar um crescimento expressivo na produção de soja e milho, especialmente em estados como Pará, Tocantins e Rondônia. 

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A expansão dessas safras transformou parte do Norte em uma nova fronteira agrícola nacional, ampliando a relevância nas exportações. Porém, garantir o sucesso desse avanço requer um planejamento técnico refinado, capaz de responder às instabilidades climáticas e adaptado às realidades de solo, regime hídrico e infraestrutura.

Apesar dessas limitações, a região ganhou relevância estratégica nos últimos anos graças ao fortalecimento do chamado Arco Norte, conjunto de corredores logísticos e portos responsáveis por ampliar significativamente o escoamento de commodities agrícolas para os mercados internacionais. A redução das distâncias de transporte e a diversificação das rotas de exportação transformaram a região em um importante elo da cadeia agroexportadora brasileira.

Além da expansão logística, o Norte apresenta uma dinâmica produtiva fortemente conectada à biodiversidade local

Foto: Divulgação/OP Rural

e à valorização de produtos associados à floresta, criando oportunidades que combinam agricultura, desenvolvimento regional e sustentabilidade.

Tecnologia reduz riscos

Contudo, mesmo em áreas historicamente úmidas, períodos de estiagem mais prolongados começam a alterar o planejamento agrícola. Dentro desse contexto, cresce o uso de sistemas de irrigação por pivô central, um equipamento automatizado que se move de forma circular sobre a lavoura por meio de torres com rodas. Sua principal função é distribuir água de maneira uniforme, assemelhando-se às chuvas, sendo assim, é uma alternativa para garantir estabilidade produtiva. 

Foto: Pareekshith Indeever/Pexels

Atualmente, a adoção dessa tecnologia modifica diretamente a forma como os produtores estão organizando o calendário de plantio, escolhendo cultivares e administrando os recursos hídricos disponíveis. Com a menor previsibilidade climática, os produtores que dispõe de ferramentas como essa conseguem distribuir melhor o risco da produção e ampliar a segurança operacional das lavouras. 

Resiliência climática

Já a região Sul possui um perfil bem diferente, com uma agricultura consolidada, elevado grau de mecanização e forte presença do cooperativismo, os estados do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina estão entre os maiores produtores nacionais de soja, milho, trigo, arroz, aves e suínos. O clima subtropical, marcado pela definição das estações e pela ocorrência de temperaturas mais baixas durante parte do ano, contribuiu historicamente para a diversificação e o desenvolvimento tecnológico das atividades agrícolas.

Entretanto, o Sul enfrenta hoje um desafio crescente: a intensificação dos eventos climáticos extremos. As

Foto: Divulgação/Embrapa

enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul em 2024 e os períodos recorrentes de estiagem observados nos últimos anos evidenciam como as mudanças climáticas vêm afetando a produtividade das safras e o planejamento dos produtores rurais. Destaca-se também as geadas fora de época e episódios de chuvas de granizo que geram perdas relevantes em culturas como milho, trigo e hortaliças, comprometendo tanto a qualidade quanto o volume da produção. Como consequência, custos operacionais são elevados e dificultam a previsibilidade do setor agrícola, tornando a adaptação climática uma prioridade. 

Investimentos em agricultura de precisão, manejo sustentável, monitoramento meteorológico e tecnologias voltadas à resiliência produtiva ganham cada vez mais importância para reduzir riscos e preservar a competitividade do setor. Entre as principais estratégias, cresce a busca por variedades geneticamente mais resistentes às oscilações bruscas de temperatura e ao excesso de umidade. A escolha das sementes, por exemplo, deixa de seguir somente critérios de produtividade e passa a considerar a adaptabilidade às condições específicas de cada território. O Norte demanda variedades tolerantes a alta umidade e solos tropicais, enquanto o Sul depende da ampliação do uso de materiais mais resistentes à estiagem, ao frio intenso e às variações climáticas repentinas. 

Foto: Imagem criada por Jaqueline Galvão/ChatGPT/OP Rural

Ao comparar as duas regiões, fica evidente que o Norte e o Sul enfrentam desafios distintos, mas igualmente estratégicos. De um lado, a necessidade de ampliar infraestrutura logística e conciliar expansão produtiva com sustentabilidade ambiental. De outro, o desafio de adaptar sistemas agrícolas altamente desenvolvidos a um cenário climático cada vez mais instável e imprevisível. Em comum, ambas as regiões demonstram que inovação, logística eficiente e capacidade de adaptação serão fatores decisivos para manter o Brasil entre os principais protagonistas do mercado agrícola global.

O futuro do agronegócio brasileiro não será definido por uma única região, mas pela capacidade de integrar diferentes vocações produtivas e superar desafios específicos de cada território, essa é a lição de casa.

Fonte: Artigo escrito por Felipe Vicentini Santi, especialista em agronegócio, com formação em Gestão Ambiental e Gestão em Agronegócio.
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