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Carboidrases e seus impactos no desempenho de suínos

Além dos benefícios econômicos, é digno de nota o efeito do uso de complexos multienzimáticos sobre a sustentabilidade da produção de suínos

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Artigo escrito por Marcio Ceccantini, diretor global de suporte técnico e científico em digestibilidade de alimentos, Adisseo França

O objetivo da produção moderna de suínos é otimizar desempenho animal e os ganhos financeiros, além de buscar uma forma de produção mais sustentável. Uma vez que a alimentação representa a maior parte dos custos de produção, faz sentido aproveitar ao máximo os nutrientes fornecidos aos animais. O uso de uma enzima em rações de suínos pode ajudar a otimizar o uso destas rações, enquanto várias enzimas podem reforçar o efeito de umas às outras.

De todas as enzimas utilizadas, as fitases e as carboidrases são as mais regularmente adicionadas à dieta dos suínos. A fitase degrada o fitato, liberando fósforo e evitando a formação de complexos entre fitatos, proteínas e minerais, e isto, por sua vez melhora a digestibilidade e aumenta a absorção de nutrientes, diminuindo significativamente a excreção de fósforo.

As fitases e seus benefícios estão bem descritos, por isso, esse artigo terá maior enfoque nas carboidrases, ou enzimas capazes de degradar carboidratos complexos, e no seu efeito combinado com a fitase. Sendo que a carboidrase mais conhecida é a xilanase, que atua sobre certos arabinoxilanos.

A suplementação com um complexo de multicarboidrases a variados tipos de dietas já provou ser muito útil em suínos. E um complexo de multicarboidrases e fitase (CMCF) vai melhorar ainda mais a digestibilidade geral da ração, aumentando a liberação de energia e aminoácidos em maiores proporções.

Utilizando combinações de carboidrases

As carboidrases na produção de suínos são importantes visto que os suínos não são capazes de degradar bem as fibras presentes nas paredes das células vegetais, particularmente os polissacarídeos não amiláceos (PNAs). Estes PNAs na forma solúveis, incluindo β-glucanos e arabinoxilanos, afetam a viscosidade da digesta, reduzindo a capacidade das enzimas digestivas de atingirem seu substrato alvo, consequentemente comprometendo a absorção de nutrientes. Os PNAs insolúveis reduzem a digestibilidade geral da dieta, aumentando a perda de nutrientes.

Um complexo de multicarboidrases é uma solução para minimizar os efeitos de ambos os PNAs mencionados anteriormente. A multicarboidrase é reconhecida por degradar vários complexos de β-glucanos e arabinoxilanos, encontrados em cereais, reduzindo seus efeitos antinutricionais. A adição de um complexo de multicarboidrases à dieta de suínos demonstrou aumentar a digestibilidade da proteína e da matéria seca de uma forma mais consistente que xilanases simples. Vários estudos avaliaram as oportunidades de uso de um complexo de multicarboidrases, isto é, carboidrases utilizadas em conjunto e com efeito sinérgico:

  • Enzimas desramificadoras como arabinofuranosidases (ABFs) melhoram a atividade enzimática de xilanases por atuar nas ramificações de arabinose dos arabinoxilanos; que são o tipo de fibra mais comum no trigo e no milho (7,3% e 4,7% de matéria seca, respectivamente).
  • β-glucanos estão presentes em menor proporção em dietas de suínos, mas ainda assim as enzimas β-glucanases aportam um efeito significativamente maior às outras carboidrases e reforçam a consistência dos resultados de digestibilidade de nutrientes;
  • Como resultado destas outras ações enzimáticas, as xilanases têm um melhor acesso à estrutura da xilose com melhor quebra dos arabinoxilanos.

A atividade sinérgica dessas enzimas resulta no aumento da degradação dos PNAs e na redução dos efeitos antinutricionais, melhorando o processo de digestão, inclusive da fermentação intestinal, aumentando a eficiência geral da dieta.

Este resultado geral da combinação de enzimas é o que passoamos a descrever como “efeito Feedase”, ou seja, o efeito na digestibilidade devido a várias enzimas exógenas utilizadas simultaneamente, gerando um aumento na liberação de energia e de outros nutrientes, como aminoácidos, e com melhora no processo digestivo como um todo. Em outras palavras, é o efeito total de várias enzimas tanto no substrato quanto no próprio animal em termos de digestão e saúde intestinal, resultando na melhora da performance dos animais.

Impacto antinutricional dos arabinoxilano

Um estudo recente investigou o efeito específico do teor do arabinoxilano e da adição de enzima na digestibilidade da ração em suínos em terminação. As dietas experimentais continham três níveis de arabinoxilanos, cada dieta suplementada ou não com um complexo de multicarboidrases.

A Figura 1 mostra que o aumento dos níveis de arabinoxilanos impactou negativamente na digestibilidade da energia bruta, enquanto a adição do complexo de multicarboidrases melhorou significativamente a energia metabolizável da dieta. Uma melhora significativa de 5% também foi observada na digestibilidade dos aminoácidos. Os dados demonstram que os arabinoxilanos são um fator antinutricional em suínos e que a suplementação com multienzimas melhora a digestibilidade dos alimentos. Juntos, esses efeitos permitem a reformulação das dietas para melhorar o custo de produção, economizando recursos naturais e diminuindo a excreção do nitrogênio. A magnitude desse efeito depende da composição da dieta.

Carboidrases mais fitase

Para demonstrar a sinergia de várias enzimas simultaneamente, uma alta dose de fitase (resultando em 1.000 FTU/kg de ração) foi adicionada ao complexo multi-carboidrase, criando um complexo de multicarboidrases e fitase. O estudo, realizado na South Dakota State University avaliou o efeito deste CMCF no desempenho de suínos em crescimento e terminação.

Cinco dietas americanas típicas à base de milho, trigo e farelo de soja foram formuladas para os seguintes tratamentos:

  • controle positivo (CP)
  • controle negativo 1 (CN1)
  • CN1 com adição de CMCF
  • controle negativo 2 (CN2)
  • CN2 com adição de CMCF

Em relação à dieta de controle positivo, ambas as dietas de controle negativo (CN) foram reduzidas de forma semelhante em fósforo digestível (-0,134%) e cálcio (-0,12%). CN1 foi reduzido em energia líquida e aminoácidos digestíveis em 3%, enquanto CN2 teve níveis 5% mais baixos de energia líquida e aminoácidos digestíveis do que o controle positivo (CP)

Durante todo o período de crescimento (34 a 120 kg de peso corporal), os suínos alimentados com qualquer uma das dietas CN não suplementadas com enzimas tiveram um desempenho pior que o grupo CP. A adição do complexo enzimático de multicarboidrases e fitase (CMCF) em ambas dietas CN resultou em um melhor desempenho dos animais. A Figura 2 mostra que com o uso do complexo enzimático de multicarboidrases e fitase (CMCF) as taxas de eficiência alimentar dos animais atingiram pelo menos o mesmo nível dos animais que receberam a dieta CP.

Esses dados demonstram que a adição de um CMCF foi capaz de recuperar o desempenho perdido ao fornecer dietas com níveis nutricionais inferiores. Essas reduções de nutrientes economizaram US$ 24,29/t de ração em comparação com o controle positivo. Isso representa uma economia de US$ 5,46 por suíno. Melhorando a digestibilidade, o efeito Feedase contribuiu para diminuir o uso de recursos de fósforo e nitrogênio, diminuindo o desperdício de nutrientes.

Melhorias na sustentabilidade da produção

A aplicação do “efeito Feedase” para otimizar a formulação de ração provou ser técnica economicamente vantajosa para a indústria de suínos. Além disso, vários outros trabalhos publicados utilizando a combinação de enzimas descritas nesse artigo mostram que é possível extrair mais nutrientes das dietas de suínos, e tomar decisões com base em dados científicos. Além dos benefícios econômicos, é digno de nota o efeito do uso de complexos multienzimáticos sobre a sustentabilidade da produção de suínos.

Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2021 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes

O agro familiar e seu papel na suinocultura

Pesquisador da Embrapa, Marcelo Miele, avalia a participação das famílias do campo no agronegócio brasileiro.

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Arquivo/OP Rural

O agronegócio sempre foi uma das principais molas propulsoras da economia brasileira e nos últimos anos evolui ao ponto de se tornar uma das grandes potências no cenário mundial. O setor foi responsável por 27,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2021, a maior participação desde 2004 (quando foi de 27,53%). O crescimento do PIB no mesmo ano foi de 8,36%, segundo cálculos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), e da Esalq/USP, em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Marcelo Miele: “A importante participação da agricultura de base familiar para o desenvolvimento rural sustentável e para a produção e preço dos alimentos no país é incontestável” – Foto: Divulgação

Muito desse ótimo desempenho do agronegócio brasileiro se deve a famílias de produtores rurais espalhadas por todo o Brasil, que utilizam a mão de obra familiar para gerar renda a si e para outras famílias de colaboradores, o que, consequentemente, ajuda a aquecer a economia dos municípios.

Em entrevista ao jornal O Presente Rural, o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Marcelo Miele, falou sobre as atividades desenvolvidas por essas famílias de produtores, em especial, dentro da suinocultura brasileira. Confira.

O Presente Rural – Como se caracteriza a agricultura familiar no Brasil?

Marcelo Miele – A produção agropecuária brasileira é caracterizada pela diversidade de atores, tanto em função do porte dos estabelecimentos, quanto em função do uso de mão de obra com laços de parentesco, ou das atividades econômicas desenvolvidas. De forma geral, os mais de 4,8 milhões de estabelecimentos do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017 se dividiam em quatro grandes grupos. Os grandes e médios produtores com mão de obra essencialmente contratada (não familiar) representavam 23% dos estabelecimentos e 33% do pessoal ocupado, mas concentravam 77% do valor da produção. Por sua vez, a agricultura familiar com mão de obra essencialmente com laços de parentesco abrangia 77% dos estabelecimentos e 67% do pessoal ocupado, mas concentrava 23% do valor da produção.

Esse grande agrupamento também é bastante heterogêneo, se subdividindo em agricultura familiar tecnificada, atuando em mercados e com tecnologias semelhantes a de grandes e médios produtores; agricultura familiar de pequeno porte, atuando em mercados locais e com baixo grau de intensificação tecnológica; e por fim a agricultura familiar voltada à subsistência e autoconsumo.

Importante destacar que a agricultura familiar encolheu entre os dois últimos Censos Agropecuários (2006 e 2017), com redução de 9,5% no número de estabelecimentos e perda de um contingente de 2,2 milhões de trabalhadores, enquanto que na agricultura não familiar houve um aumento de 35% no número de estabelecimentos e a criação de 702 mil postos de trabalho. Mesmo assim, é inegável o importante papel da agricultura de base familiar para o desenvolvimento rural sustentável e a produção e o preço dos alimentos no país.

O Presente Rural – Nesse cenário, como se situa a suinocultura?

Marcelo Miele – Na suinocultura também encontramos esses diferentes tipos de produtores e as tendências apontadas anteriormente. Podemos subdividir a suinocultura brasileira em dois grandes grupos, a suinocultura industrial e a de pequeno porte, atuando em mercados locais ou de nicho. De um lado, há a chamada suinocultura industrial, tecnificada e inserida nos mercados por meio de agroindústrias integradoras, cooperativas e vendas diretas aos frigoríficos no mercado independente. Estima-se que em 2017 era composta por 20 mil estabelecimentos agropecuários com rebanho suíno superior a 100 cabeças, que foi responsável por 93% de todos os suínos produzidos naquele ano (Tabela 1). A grande maioria dos estabelecimentos da suinocultura industrial é de base familiar (73%), mas os produtores com mão de obra contratada detêm a maior parte do rebanho (57%) e dos suínos produzidos (69%).

Em termos de porte, enquanto que o rebanho médio da suinocultura industrial de base familiar era de 844 cabeças, aqueles com mão de obra essencialmente contratada tinham um rebanho médio de 3.083 cabeças, uma escala quase quatro vezes maior. Por outro lado, há um conjunto significativo de 76 mil estabelecimentos agropecuários com rebanho entre 21 e 100 cabeças de suínos (média de 37 cabeças), que compõem o grupo de pequenos suinocultores atuando em mercados locais (Tabela 1), também predominantemente de base familiar (71% dos estabelecimentos e 69% do rebanho). Além desses dois grandes grupos, há mais de 1,3 milhão de estabelecimentos com rebanho de até 20 cabeças que criam suínos para subsistência ou autoconsumo.

Por fim, é importante destacar que entre os dois últimos Censos Agropecuários (2006 e 2017), ocorreu redução significativa no número de estabelecimentos da suinocultura industrial (-25%) e, sobretudo, da suinocultura de pequena escala atuando em mercados locais (-43%). Entretanto, enquanto que esta última pouco ampliou sua escala média, reduzindo o seu rebanho total de suínos (-34%), o segmento tecnificado quase duplicou a escala média de produção (+97% no rebanho médio por estabelecimento) e ampliou o rebanho total em 46% (Tabela 2).

O Presente Rural – Quantas pessoas estão envolvidas na suinocultura familiar no Brasil? Além da mão-de-obra familiar, essas famílias empregam mais pessoas? Essas famílias atuam em outras atividades agropecuárias?

Marcelo Miele – Estima-se que a suinocultura industrial tenha sido responsável em 2021 pelo abate de 50 milhões de cabeças (95% dos abates), ocupando cerca de 45 mil pessoas dentro da porteira, das quais 31 mil são pessoas contratadas (Rais) e 14 mil são produtores e seus familiares. Por outro lado, a suinocultura de pequena escala atuando em mercados locais foi responsável pelo abate de 3 milhões de cabeças, envolvendo aproximadamente 3 mil pessoas, sendo a quase totalidade da agricultura familiar.

De toda forma, nem todos os estabelecimentos da agricultura familiar operam apenas com pessoas com laços de parentesco. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE, em 2017, 11% do pessoal ocupado na suinocultura de base familiar não tinha parentesco com o produtor. O inverso também se verifica, e de forma bastante contundente. Entre os suinocultores que não se enquadram no conceito de agricultura familiar, 57% das ocupações eram preenchidas pelo(a) próprio(a) responsável pelo estabelecimento agropecuário ou por pessoas com laços de parentesco com o(a) mesmo(a). Em ambos os casos, além da suinocultura, essas famílias atuam em outras atividades, com destaque para a bovinocultura de leite e grãos, em função das sinergias entre dejetos suínos e pastagens, mas também há consórcio com avicultura e piscicultura.

O Presente Rural – Quais os maiores desafios encontrados por esses suinocultores e quais os maiores benefícios em se trabalhar em família?

Marcelo Miele – Acredito que o maior desafio para os suinocultores de base familiar seja acompanhar o processo de incorporação tecnológica puxado pelos estabelecimentos de maior porte, sem que isso implique em desequilíbrios na disponibilidade de terra, capital e trabalho. Ou seja, 1) que consigam manter uma relação rebanho/área agrícola que permita o correto uso agronômico dos dejetos ou a sua exportação para lavouras de terceiros sem custos significativos de transporte; 2) que consigam repor a depreciação das instalações (25 anos) e dos equipamentos (12 anos), bem como incorporar novas tecnologias e atender exigências dos mercados e das normativas oficiais sem que isso implique em endividamento excessivo ou insolvência; e 3) que consigam atender as atividades de manejo e gestão com a mão de obra familiar disponível, de forma eficiente e não penosa com ajuda da automação, ou com apoio de mão de obra contratada, de forma legal e sem risco de acumular passivos trabalhistas.

Para os pequenos suinocultores atuando em mercados locais ou de nicho, acredito que outro grande desafio seja agregar valor a seus produtos e obter certificação a baixo custo. Isso é fundamental porque muitos dos diferenciais historicamente ligados à produção de base familiar passaram a ser adotados com eficiência por grandes produtores (economia circular com os dejetos, carbono neutro, qualidade do emprego formal, bem-estar animal, livres de antibióticos ou orgânicos).

Em relação aos benefícios, destaco a maior autonomia, a geração de renda agrícola (ou seja, o custo da mão de obra não sai do estabelecimento familiar com o pagamento de salários a terceiros) e a possibilidade de gerar sucessores, de forma a perpetuar um modo de vida que passa a ser cada vez mais identificado como a classe média rural brasileira.

O Presente Rural – Existem regiões específicas que concentram essas famílias de suinocultores?

Marcelo Miele – A região Sul concentrava 9 a cada 10 suinocultores com mão de obra familiar na suinocultura industrial (Tabela 3), com destaque para o Oeste catarinense (SC), o Noroeste rio-grandense (RS), o Oeste paranaense (PR) e o Centro Oriental rio-grandense (RS), que concentram três quartos da suinocultura industrial de base familiar.

Dentre as dez principais mesorregiões geográficas com suinocultura industrial, somente uma não é localizada na região Sul (Tabela 4).

Os pequenos suinocultores que atuam em mercados locais estão localizados sobretudo nas regiões Nordeste e Norte (Tabela 3). Apesar de haver um grande contingente disperso em todas as regiões do país, verifica-se que entre as dez principais mesorregiões geográficas com suinocultura de pequena escala voltada a mercados locais, somente uma está localizada na região Sul (Tabela 5).

O Presente Rural – Qual sua avaliação sobre a sucessão familiar nesses casos?

Marcelo Miele – Tanto em estabelecimentos de base familiar quanto nos demais, vejo uma grande diversidade de situações em relação à sucessão. Além dos aspectos culturais, há questões específicas de cada família. Mas os especialistas apontam para elementos importantes nos processos sucessórios, como o diálogo entre gerações, a delegação de tarefas, a autonomia, bem como a remuneração dos sucessores de forma condizente com o mercado de trabalho da sua região.

Apesar do elevado desemprego no país, há um mundo se abrindo para os jovens, sobretudo em atividades de tecnologia da informação (TI), e muitos optam por não permanecer no meio rural quando este não provê renda atrativa ou boa acessibilidade à internet e ao transporte para os serviços e as diversões da cidade (o meio urbano). Os relatos de negociações amparadas pela Lei da Integração (n. 13.288/2016) nas quais se preconiza valorar o custo da mão de obra familiar pelo salário-mínimo, e não pela remuneração média no mercado de trabalho da região, levantam dúvidas quanto à mensagem sendo passada para os filhos e filhas de suinocultores.

O Presente Rural – Considerando o atual cenário, qual é sua avaliação sobre o futuro da suinocultura desenvolvida com mão-de-obra familiar?

Marcelo Miele – Algumas tendências estão bem consolidadas, como o aumento de escala e da tecnificação na suinocultura industrial (Tabela 2), a capacidade da suinocultura de grande porte não familiar agregar valor e obter economia circular com o uso intensivo de tecnologias da agricultura 4.0, bem como a perda de espaço enfrentada pela agricultura de base familiar, acelerada pelo abandono de políticas públicas importantes como o programa de aquisição de alimentos.

E, apesar das grandes disparidades regionais, também é inegável a tendência à maior conectividade no campo e disponibilidade de infraestrutura de transporte, aproximando o campo da cidade. Nesse ambiente, um cenário futuro positivo para a suinocultura desenvolvida com mão de obra familiar ainda é cheio de incertezas e dependerá da capacidade desse segmento superar desafios. Há inúmeros, como reter talentos por meio da sucessão, fortalecer o associativismo e o cooperativismo entre os pequenos, acessar tecnologias de automação em pequena escala e de certificação a baixo custo que não impliquem em aumentos significativos do rebanho, obter apoio da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) e de consultorias em gestão, bem como contratar mão de obra sem incorrer em passivos trabalhistas. À medida que a agricultura familiar conseguir avançar nessas pautas, melhores serão as perspectivas de um cenário de sustentabilidade da atividade no longo prazo.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes

Especialista sugere alternativas na hora de comprar ou vender milho

Cenário de elevação dos preços dos grãos e demais insumos que compõem a ração animal deve persistir, apesar das recentes estimativas de uma boa safra de grãos.

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Arquivo/OP Rural

Entre os principais insumos da ração, o milho e o farelo de soja representam em torno de 70% dos custos da cadeia produtiva de proteína animal, despesa que tem impactado de forma significativa produtores de todos os setores que produzem alimento, porém de maneira mais intensa nos últimos meses. Neste contexto, o sócio proprietário da XP/Granoeste Investimentos, Robson Polotto, aponta tendências do mercado de grãos para a atual temporada e alternativas para driblar os altos custos.

Sócio proprietário da XP/Granoeste Investimentos, Robson Polotto: “A saída para o produtor é estar antenado, ter a conta na mão e saber o que precisa, tendo consciência do que é bom para ele” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

O profissional enfatizou que o setor de proteína animal vive um dos momentos mais desafiadores, uma vez que o poder de compra do produtor frente aos grãos, principalmente o milho, está nas mínimas históricas. “E ao que tudo indica esse cenário de elevação dos preços dos grãos e demais insumos que compõem a ração animal deve persistir, apesar das recentes estimativas de uma boa safra de grãos. O atual conflito bélico e os problemas climáticos enfrentados no último ano, que resultaram em quebra da safra de soja, milho e trigo principalmente, contribuíram para essa alta, uma vez que o consumo está maior que a oferta”, analisou Polotto.

Com estoque inicial de 9,6 milhões de toneladas de milho, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê 24,3 milhões de toneladas da safra de verão 2021/2022, enquanto para a safrinha estima-se 86,3 milhões de toneladas. Para a 3ª safra são estimadas 1,8 milhão de toneladas, com importação de 1 milhão de toneladas, o que totaliza oferta brasileira de 123,1 milhões de toneladas. Deste montante, 74,4 milhões de toneladas são destinadas para uso doméstico, 39,3 milhões de toneladas para exportação, gerando um estoque final de 9,3 milhões de toneladas (gráfico abaixo).

Em relação a demanda e a oferta de milho da safra 2021/2022, no mês de fevereiro, conforme levantamento da Conab, a oferta disponível de milho no mercado interno era de 5,9 milhões de toneladas, volume estimado para 35 dias de consumo de acordo com a demanda. Nos meses subsequentes, a disponibilidade do cereal em relação aos dias de consumo foi reduzida, com previsão para atingir a mínima no mês de maio, quando o volume de 6,1 milhões de toneladas frente a demanda pelo grão deve suprir apenas o consumo para 28 dias. A partir de junho, a capacidade de oferta do grão aumenta com o término da colheita de milho, com previsão para agosto de 6,5 milhões de toneladas, volume que será equivalente para 25 dias de consumo.

Estoque mensal

Em relação as estimativas da Conab com as previsões de estoque mensal de milho da safra 2021/2022 (MMT), Polotto diz a partir de junho, depois da redução de maio, os estoques foram sendo repostos com o término da colheita da primeira safra de milho, aumentando significamente os volumes de armazenamento, passando a estocagem para 46,4 milhões de toneladas em julho e para 55,2 milhões de toneladas em agosto, com baixas significativas dos volumes estocados nos meses seguintes (gráfico abaixo), fechando 2022 com estoque final de 9,3 milhões de toneladas.

Preços dos grãos em patamares elevados persistem

Segundo Polotto, os preços devem se manter em patamares elevados seguindo a tendência dos valores internacionais, acrescido da expectativa de menor disponibilidade de milho no spot nacional no primeiro semestre deste ano. No mercado futuro da Bolsa de Valores BM&F, o milho está sendo comercializado para julho a R$ 90,28; para setembro a R$ 89,35; para novembro a R$ 91,9; para janeiro/2023 a R$ 93,7 e para março/2023 a R$ 94,3. “No início de abril as cooperativas estavam ofertando a saca de milho safrinha de 60kg para compra antecipada a R$ 78”, relata Polotto.

 Spreads da Bolsa de Valores

Para melhorar as margens de lucro do setor produtivo, o empresário orienta os agricultores a aproveitar os spreads da Bolsa de Valores, indicador que auxilia o investidor a verificar quais ações possuem maior liquidez na Bolsa de Valores em relação à demanda do milho regional, relativos aos preços.

Polotto diz que é muito importante que o produtor fique atento ao que acontece globalmente – conflito entre Rússia e Ucrânia, plantio de milho nos Estados Unidos e nos principais países produtores, impactos da seca na produção brasileira, que inclusive afetou também o Paraguai, país que será um ofertante de milho safrinha ao mercado nacional – para saber como utilizar a compra antecipada de uma maneira que consiga um grão mais barato, porque isso vai impactar diretamente nos custos de produção da propriedade e dará um pouco de fôlego ao produtor nas margens da proteína, que hoje estão negativas. “O mercado é volátil, dinâmico, o que vale hoje, amanhã ou daqui um mês já não vale, e a Bolsa tem spreads, que em tese melhoram a performance com uma alta ou baixa, além de ter modalidade de seguros interessantes neste momento”, pontua.

Comercialização do cereal

Na hora de comercializar a safra, parte dos agricultores fica receosa se vai conseguir vender ou não o grão por um bom preço e na melhor época. Essa preocupação se justifica porque vários são os fatores que podem influenciar no momento da negociação do produto, entre eles clima, economia global, oferta maior ou menor do cereal no mercado, o que reflete nas movimentações de compra e venda e nos preços agrícolas. “A saída para o produtor é estar antenado, ter a conta na mão e saber o que precisa, tendo consciência do que é bom para ele”, declara Polotto.

Conforme Polotto, existem inúmeras formas de se obter mais rentabilidade na venda de grãos e a diversificação dessas modalidades de comercialização pode diminuir seus riscos. “Há algumas operações no mercado futuro para venda de grãos que podem ser realizadas pelos agricultores, entre elas a modalidade Hedge, na qual os preços são fixados antes da venda com o objetivo de proteger o valor dos grãos devido à grande instabilidade do mercado”, expõe.

Polotto dá um exemplo de uma operação com seguro de preço (Hedge). “Em novembro de 2021 a oferta de venda de farelo de soja para abril, maio e junho de 2022 estava por R$ 2.130,00/ton CIF. Em março na Bolsa de Chicago o mesmo produto estava U$S 357,00/ton, um seguro de baixa para o farelo de soja em março de 2022 custava U$S 28,00/ton, como o dólar estava R$ 5,60 teria custo de R$156,80/ton, ou seja, para saber o custo total da comercialização do grão no mercado futuro com seguro soma R$ 2.130 + R$ 156,80, cujo resultado é R$ 2.286,80/ton. O custo do farelo em abril estava sendo vendido por R$ 2.713,35/ton, o equivalente a 18,65% de custo a mais”, ressalta.

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Fonte: O Presente Rural
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Suínos / Peixes

A saúde dos leitões começa in utero: como desenvolver a imunocompetência dos leitões antes e após o nascimento?

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Divulgação DSM

A produção de suínos enfrenta desafios constantes e crescentes para gerar animais de forma mais sustentável e rentável, além de alcançar padrões mais altos de bem-estar que atendam às necessidades dos animais e à demanda dos consumidores. Enquanto as demandas aumentam, as ferramentas tradicionais usadas para superar os desafios – como os antibióticos e o óxido de zinco terapêutico – estão sendo restringidas em muitas partes do mundo devido à ameaça da resistência antimicrobiana. Ao mesmo tempo, os avanços da genética têm levado a uma tendência de hiperprolificidade nas matrizes, o que cria desafios adicionais. O maior número de leitões por fêmea por ano resultou em uma maior variação do peso ao nascimento e mais desafios metabólicos para a reprodutora, o que por sua vez afeta o início da produção de colostro e leite, aumentando assim o risco de se ter leitões menos robustos ao desmame e perdas de desempenho em uma idade mais avançada.

Imunocompetência de leitões recém-nascidos

O leitão recém-nascido é imaturo em muitos aspectos e a primeira semana de vida é crítica para sua saúde futura e os resultados de produtividade. Durante esses primeiros dias de vida, o intestino passa por um rápido desenvolvimento, aumentando a capacidade digestiva e absortiva. Paralelamente, a colonização do intestino pelos microrganismos está muito avançada e tem um papel fundamental na composição do microbioma intestinal e estímulo ao desenvolvimento do tecido linfoide associado ao intestino (GALT), onde se encontram mais de 70% das células imunológicas. Em nossa busca por estratégias mais sustentáveis para apoiar o cuidado com os leitões durante as primeiras etapas da vida a arma mais poderosa de que dispomos normalmente é ignorada: a imunocompetência do leitão.

A imunocompetência é vital para a vida, porém seu desenvolvimento e utilização têm um custo associado para todos os animais, especialmente os jovens. Esse é um equilíbrio delicado: para funcionar efetivamente, o sistema imunológico deve responder adequadamente aos vários estímulos que se apresentam, produzindo uma resposta imune somente às ameaças reais e mantendo-se sem resposta aos estímulos de baixo grau. No entanto, nos leitões jovens o sistema imunológico é muito imaturo e incapaz de distinguir facilmente os diferentes níveis de ameaça, respondendo a todos como ameaças reais. Sabe-se que a imunocompetência dos leitões começa in utero, continua com a ingestão de colostro e leite (imunidade passiva), e pesquisas recentes têm demonstrado que o microbioma intestinal desempenha um papel essencial na preparação do desenvolvimento do intestino e sistema imunológico. Para preparar melhor os leitões para o desafio do desmame e mais além, o desenvolvimento da imunocompetência deve ser promovido através de duas vias:

  1. sistêmica, aumentando a qualidade da imunidade passiva recebida da porca; e
  2. local, via modulação do microbioma intestinal para preparar o desenvolvimento do sistema imunológico da mucosa (Figura 1).

 

A imunocompetência se desenvolve através de duas vias:

Figura 1. Abordagem nutricional multicomponente da DSM para otimizar o desenvolvimento da imunocompetência de leitões.

A imunocompetência tem várias vias de desenvolvimento, incluindo os programas de vacinação para proteger os animais contra os patógenos, a biosseguridade para controlar a exposição aos agentes causadores de doenças e o apoio nutricional para otimizar a resistência e mitigar o risco de antígenos. A vacinação é efetiva, porém cara energeticamente devido à resposta imune associada, e seu uso só se justifica no caso de patógenos virulentos que causam altas taxas de mortalidade. Portanto, a nutrição equilibrada é um pré-requisito para manter um bom estado de saúde e otimizar o sistema imunológico dos leitões.

Desenvolvimento da imunocompetência sistêmica

O desenvolvimento da imunocompetência sistêmica de um leitão recém-nascido é altamente dependente da nutrição da mãe, começando in utero e continuando com uma boa qualidade e quantidade de colostro e leite. Portanto, a nutrição e saúde da matriz e sua capacidade de transferi-las aos leitões são fundamentais para o desenvolvimento de um sistema imunológico precoce e robusto. Sabe-se que os micronutrientes como as vitaminas D3, E, C e várias vitaminas do complexo B, assim como os minerais, têm benefícios imunomoduladores. Os leitões nascem com baixos níveis sanguíneos de vitaminas e a alta demanda desses compostos para apoiar o desenvolvimento e ativação imunológica frequentemente resulta em leitões deficientes. Considerando as maiores exigências de uma fêmea moderna para criar uma leitegada maior, deve-se ter uma abordagem mais precisa de micronutrição para a nutrição das mesmas durante o final da gestação e a lactação para apoiar a ótima qualidade e rendimento do colostro.

Para funcionar efetivamente, o sistema imunológico sistêmico precisa ser hábil na proliferação e regulação das células imunológicas e estar protegido contra os danos celulares causados pelo desequilíbrio redox. As vitaminas E e C foram reconhecidas há muito tempo por sua capacidade de atuar como potentes antioxidantes que previnem os danos oxidativos às células imunológicas. A viabilidade dos leitões pode ser melhorada através de uma ótima suplementação de vitamina E na dieta de fêmeas durante a gestação e lactação (Wang et al., 2017). Mais recentemente, tem havido um maior entendimento do papel da vitamina Dou, ainda mais importante, de seu principal metabólito (25-OH vitamina D3), na imunomodulação. Uma das principais funções da vitamina Dé não apenas apoiar a ativação das células imunológicas e a produção de peptídeos antimicrobianos, mas também limitar as respostas excessivas. Os leitões nascem com níveis muito baixos de 25-OH vitamina D3 no sangue e esses níveis raramente alcançam o nível mínimo e muito menos a faixa ótima para apoiar a imunidade. Entendendo o papel crítico da vitamina D3 na função imune, sabemos que os leitões podem estar em desvantagem sem os níveis adequados de vitaminas. Konowalchuk et al. (2013) reportaram que a suplementação de vitamina D3 e da forma 25-OH vitamina D3 em particular resultou em um aumento do número e ativação das células imunológicas em leitões desmamados.

Desenvolvimento da imunocompetência local

O tecido linfoide associado ao intestino local (p. ex., conteúdo do lúmen intestinal) desempenha um papel crítico na defesa do organismo dos leitões contra o ambiente externo. Seu desenvolvimento é impulsionado pelo estabelecimento precoce de um microbioma intestinal diverso e estável cuja magnitude e impacto se estendem até mais além do intestino para o desenvolvimento do tecido imunológico em outros órgãos, como os pulmões. No entanto, esses mecanismos ainda não são totalmente compreendidos. O desenvolvimento do microbioma intestinal começa assim que os leitões deixam as condições estéreis do útero e são muito influenciados pelo microbioma da mãe e seu ambiente imediato. A colonização microbiana orienta o desenvolvimento gastrointestinal e modula a função de barreira epitelial, que é a primeira linha de defesa. A colonização microbiana precoce também modula as respostas imunes inata e adaptativa, afetando a capacidade do hospedeiro de produzir respostas inflamatórias adequadas e resistir às doenças. Desenvolver e manter um microbioma intestinal diverso e estável é crítico para a resiliência dos patógenos e o ótimo funcionamento do intestino em um ambiente com uso reduzido de medicamentos. Existem várias ferramentas nutricionais disponíveis para apoiar o desenvolvimento de uma comunidade bacteriana equilibrada no intestino. A administração de probióticos como Enterococcus faecium parece ter mais sucesso em matrizes durante o final da gestação e lactação para orientar a inclusão precoce de cepas benéficas no microbioma intestinal em desenvolvimento, mas ainda maleável. Outra estratégia para apoiar um microbioma intestinal saudável das fêmeas e, portanto, beneficiar os leitões, é melhorar a digestibilidade das fibras. As xilanases aumentam o aporte de fibras prebióticas e energia, que são cruciais no período de balanço energético negativo durante a lactação.

Para preparar os leitões para superar os desafios associados ao desmame e mais além, é fundamental desenvolver a imunocompetência o mais cedo possível através de uma abordagem nutricional multicomponente. A nutrição otimizada da fêmea com as vitaminas E, C e D melhora os níveis séricos de vitaminas dos leitões ao nascimento, assim como a qualidade do colostro, resultando em uma maior imunidade passiva e melhor desempenho da leitegada. No momento do nascimento, moldar a colonização microbiana precoce do intestino com microrganismos benéficos como os probióticos é crucial para estimular a imunocompetência e evitar a diarreia. Durante a lactação, assegurar os níveis corretos de vitamina D nas matrizes otimiza o aporte de vitaminas no colostro e leite; os probióticos estimulam a colonização precoce do intestino e reduzem a incidência de diarreia durante o período de lactação; e as xilanases aumentam o aporte de energia líquida através de uma maior digestibilidade das fibras, produzindo posbióticos como os ácidos graxos de cadeia curta e resultando em leitões robustos e mais pesados ao desmame.

—- Por Mariana Masiero

 Mariana Masiero é graduada pela Universidade de São Paulo (USP), possui PhD em Ciência Animal com foco em Nutrição Animal pela Universidade de Missouri, EUA. Ingressou na Biomin®, que agora é parte da DSM, em 2019 como Gerente Global de Produto para Fitogênicos. Atualmente, é Gerente Global de Marketing de Suínos.

Fonte: Ass. de Imprensa DSM
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