Suínos Saiba a diferença
Bem-estar animal X Direito dos animais
Bem-estar animal e direito dos animais são dois conceitos diferentes, mas que algumas ONGs ou pessoas não entendem ou fingem não entender a diferença

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Para o médico-veterinário doutor em Ciência Animal, Cleandro Pazinato Dias, co-autor do livro Bem-estar dos Suínos, a primeira condição para discutir os ataques à produção de proteína animal por uma parte da sociedade é entender a diferença entre bem-estar animal e direito dos animais. Dias, que é consultor, pesquisador e suinocultor, acredita que os ataques como os da Xuxa serão cada vez mais frequentes simplesmente pelo fato de que esses ativistas querem o fim da produção de proteína animal, algo inconcebível e até caricato em um mundo onde a fome ainda atinge mais de 820 milhões de pessoas, conforme o relatório ‘O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2018′, da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).
Dias explica que o bem-estar animal está ligado à produção de proteína, total e absolutamente pautado em ciência. Já o direito dos animais é intrínseco, por exemplo, aos animais de companhia, de estimação, como cães e gatos. No entanto, sugere o pesquisador, essas Organizações Não Governamentais (ONGs) não entendem ou fingem não entender a diferença entre os conceitos. Em sua opinião, é uma minoria de pessoas, mas que acaba confundindo a população em geral sobre os temas.
“Há uma grande diferença entre direito dos animais e bem-estar animal tem que ficar muito clara antes de iniciar um debate. O bem-estar animal vale para a suinocultura, mas também para todas as cadeias de proteínas, como leite, ovos, frango e carne bovina. O objetivo básico do bem-estar animal é melhorar qualidade de vida deles por meio de melhor alimentação, melhor alojamento, garantia da saúde e ambiente que lhe permita expressar seu comportamento. As práticas de bem-estar animal são feitas com base em pesquisas, em estudos que ajudem a melhorar esses parâmetros”, menciona Dias.
Ele explica que o bem-estar é observado não só nas granjas, mas também no transporte até o frigorífico e abate dos animais. O profissional destaca, por exemplo, que os animais são insensibilizados e não sentem dor ou qualquer outro infortúnio quando são abatidos. “A suinocultura, como também as outras cadeias de produção animal, é altamente regulamentada por órgãos oficiais, com base na ciência, com o objetivo que seja a mais humanitária possível, da granja ao abate. “O abate, por exemplo, ocorre sem dor e sem consciência”, frisa. Nas plantas mais modernas, a insensibilização ocorre com gás. Outros utilizam eletricidade – os animais são sensibilizados antes de sentirem dor.
Dias explica que além da qualidade nutricional, a suinocultura está cada vez mais conectada à produção ética, com respeito aos animais, aos trabalhadores, às comunidades e ao meio ambiente. “Além de ser importante para a geração de renda e alimento de qualidade, a suinocultura trata os animais com toda a dignidade, está cada vez mais conectada com a qualidade do produto, mas também qualidade ética, em todos os aspectos.
Ainda nas granjas, infraestrutura de primeira garante desempenho zootécnico e bem-estar animal. Dias garante que a ampla maioria das granjas brasileiras são modernas, inclusive climatizadas, e estão entre as melhores do mundo. “Já faz anos que começaram a surgir granjas cada vez mais modernas, até 100% climatizadas, com controle de temperatura, qualidade do ar, etc. As granjas brasileiras estão no patamar das melhores do mundo. Não perdemos para ninguém. Estamos no mínimo equivalentes aos melhores. Conheço granjas em outros países. Não podemos nos encolher para ninguém. Não da para achar que a gente é melhor que os outros, pois sempre tem alguém fazendo algo novo, mas estamos no nível dos melhores”, destaca.
Ainda conforme o pesquisador e consultor, as granjas mais antigas estão se transformando. “Foram criados modelos novos de produção, com propriedades dedicadas a creches ou engorda, por exemplo. Nesse contexto, as agroindústrias são muito eficientes”, aponta.
Para o médico-veterinário doutor em Ciência Animal e também produtor, no vídeo publicado por Xuxa há claros sinais de transgressão às práticas de bem-estar animal, mas trata-se de exceções. “Realmente o cidadão estava cometendo maus tratos. Esse é um extremo ruim da nossa cadeia, mas ele faz parte da cadeia, temos que entender para corrigir. Em minha opinião, eles (ONG Mercy for Animals) foram a dedo escolher um cara desses para ter argumentos e fatos, para dar base para eles defenderem que essa produção tem que parar”, avalia.
“Ataques de ativistas ao agronegócio serão cada vez mais frequentes”
Já o direito dos animais, frisa Dias, quer simplesmente acabar com a produção mundial de proteína animal. Ele versa, entre outras situações, na prática de abandono de pets nas ruas, no acorrentamento em espaços sujos e inadequados, na alimentação restrita e na manifestação de doenças sem o devido tratamento. “Muitas pessoas da zona urbana estão desconectadas da zona rural, não sabem da onde vem o alimento. Muitas ativistas dos direitos dos animais são vinculadas a ONGs, que, como primeiro ponto, querem a abolição da produção animal, querem que as pessoas parem de consumir leite, ovos e carne. Muitas estão ligadas ao vegetarianismo ou ao veganismo, que é mais extremo”, pontua.
Com visões tão diferentes, sugere Dias, profissionais de produção e ativistas jamais vão entrar em consenso. “Dificilmente vamos encontrar um meio termo nessas duas linhas de raciocínio. O direito dos animais é abolicionista, quer extinguir a produção”, reforça. “As partes não conversam entre si. O radicalismo é cada vez mais evidente na humanidade, as pessoas que pensam completamente diferentes não consegue falar entre si. Nesse caso, há uma diferença filosófica gigantesca”, amplia.
Por conta dessa visão oposta, sugere o pesquisador e produtor, os ataques ao agronegócio serão cada vez mais frequentes. “Essas investigações sigilosas vão ser cada vez mais usadas por essas ONGs de proteção ao direito dos animais. Ataques ao agronegócio vão ser cada vez mais frequentes, vão se repetir com muito mais agressividade. Vão aumentar em frequência e em nível de qualificação, por assim dizer, como essa que utilizou um drone. Eles pensam: vou bagunçar o coreto desses produtores de proteína animal, vou bagunçar a casa deles, pois não concordo com o que eles fazem. Para isso, vão tentar descobrir os piores transportes, os piores produtores, as piores indústrias, as falhas que tiverem no processo eles vão captar para jogar na mídia, fazendo com que aquilo pareça algo rotineiro, como se, na verdade, a exceção fosse a regra”, sustenta o profissional.
Para Dias, essas pessoas são poucas, mas conseguem criar desafios para o setor de proteína animal pois são financiadas, têm recursos financeiros à disposição. “Os ativistas têm recursos, têm empresas que colocam dinheiro, empresas que patrocinam, fazem campanhas na Internet, vão comprar drone, vão viajar, etc., não são desarticulados”, destaca. “É um grupo pequeno, mas que faz um barulho muito grande”, amplia.
Evolução do bem-estar animal
Dias é co-autor do primeiro livro em Português editado no Brasil, em 2014. Nos últimos seis anos, houve também evolução no bem-estar dos animais. “Esse livro foi um marco porque foi o primeiro em língua portuguesa. De 2014 até hoje a suinocultura evoluiu muito, por exemplo, com a adoção de gestação coletiva, em baias com vários animais, ao invés de gestação nas gaiolas individuais. Quando lançamos o livro, a gestação coletiva estava iniciando no Brasil. De lá para cá, as principais empresas produtoras, que são BRF, Seara JBS, Aurora, Frimesa, Pamplona e Alegra, já estão em transição para a gestação coletiva. “Juntas, representam cerca de 60% do mercado de produção de carne suína no país”, justifica o pesquisador. “É um exemplo claro e incontestável de evolução em bem-estar animal”, garante.
Ainda segundo Dias, “o bem-estar animal é pauta em todos eventos, congressos e nos trabalhos científicos produzidos nas universidades. Nosso entendimento de bem-estar animal hoje é muito contundente”, diz.
O pesquisador e produtor acredita que os avanços no setor não param com o tempo. “Para o futuro, vamos produzir carne suína com o bem-estar cada vez mais evoluído, vamos ser ainda melhores, levando lado a lado com as questões econômicas. O bem-estar na suinocultura vai continuar evoluindo, seja na melhoria das instalações, na alimentação, entre outros aspectos e outras áreas de tecnologia, como climatização e ambiência”, garante. Para Dias, a suinocultura já aplica o bem-estar único, que inclui animais, funcionários, comunidade no entorno e meio ambiente.
Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de julho/agosto de 2020 ou online.

Suínos Mato Grosso
Cuiabá recebe simpósio para discutir custos de produção, inovação e sanidade na suinocultura
Evento promovido pela Acrismat reúne especialistas da Embrapa, IMEA e AgriHub para debater desafios e oportunidades de uma das cadeias que mais cresce no agronegócio mato-grossense.

Em um momento em que a suinocultura brasileira enfrenta desafios relacionados aos custos de produção, à competitividade e à necessidade crescente de adoção de novas tecnologias, Cuiabá sediará, no próximo dia 10 de julho, o 5º Simpósio da Suinocultura de Mato Grosso. Promovido pela Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat), o evento reunirá pesquisadores, produtores, técnicos e representantes de instituições estratégicas para discutir os principais temas que impactam a atividade.

Foto: Shutterstock
A programação acontece no Auditório do Edifício Cloves Vettorato, das 13h30 às 18 horas, e contará com a participação de especialistas da Embrapa Suínos e Aves, do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (IMEA) e do AgriHub.
Entre os destaques está a discussão sobre os custos de produção da atividade, considerada uma das principais preocupações dos produtores diante das oscilações do mercado de grãos, principal componente da alimentação animal. O pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Franco Muller Martins, e o coordenador de Inteligência de Mercado do IMEA, Rodrigo Matheus da Silva, apresentarão análises sobre o cenário de 2026 e as perspectivas para 2027.
A inovação também terá espaço de destaque no simpósio. O pesquisador Paulo Armando, da Embrapa, apresentará tecnologias voltadas à automação, inteligência artificial e melhoria da ambiência nas granjas, ferramentas que vêm ganhando importância na busca por maior eficiência produtiva e redução de custos operacionais.
Outro momento aguardado será o lançamento do relatório “Sementes da Inovação – Edição Suinocultura”, elaborado

Foto: Shutterstock
pelo AgriHub. O estudo apresenta um diagnóstico da cadeia produtiva em Mato Grosso, construído a partir da escuta de produtores e do levantamento dos principais gargalos enfrentados pelo setor.
O documento reúne informações sobre demandas prioritárias, oportunidades de inovação e soluções tecnológicas capazes de aumentar a produtividade e a sustentabilidade das granjas mato-grossenses.
A programação também abordará um dos pilares da competitividade da suinocultura brasileira: a biosseguridade. Especialistas da Embrapa apresentarão ferramentas de diagnóstico sanitário e estratégias de planejamento produtivo voltadas à prevenção de doenças e à melhoria dos índices zootécnicos.

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Para o presidente da Acrismat, Frederico Tannure Filho, o simpósio chega em um momento importante para o setor, que busca manter sua trajetória de crescimento mesmo diante de um ambiente econômico desafiador. “Mato Grosso tem ampliado sua relevância na produção de proteína animal e a suinocultura acompanha esse movimento. Precisamos discutir tecnologia, eficiência, custos e sanidade para que o produtor continue competitivo e preparado para atender um mercado cada vez mais exigente. O simpósio será uma oportunidade para reunir conhecimento, inovação e troca de experiências entre todos os elos da cadeia”, afirma.
A suinocultura mato-grossense encerrou 2025 com resultados positivos, impulsionada pelo crescimento das exportações brasileiras de carne suína e pela ampliação dos mercados compradores. Ao mesmo tempo, o setor acompanha com atenção fatores como os custos de alimentação animal, o comportamento do mercado internacional e as exigências sanitárias cada vez mais rigorosas.
As inscrições para o evento são gratuitas e podem ser realizadas pela plataforma Sympla.
Suínos
18º SBSS discute prevenção de doenças por meio da gestão integrada de vetores
Médico-veterinário Alisson Mezalira vai apresentar estratégias de monitoramento e controle de roedores e insetos, apontados como transmissores de agentes infecciosos nas granjas, no dia 12 de agosto, durante Painel Biovigilância – Gestão Integrada.

A prevenção de doenças e a proteção dos sistemas produtivos passam também pelo controle eficiente de agentes muitas vezes invisíveis no dia a dia das granjas. Com esse foco, o 18º Simpósio Brasil Sul de Suinocultura (SBSS) promoverá a palestra “Vigilância de Vetores: Roedores e Insetos como Disseminadores de Patógenos”, ministrada pelo médico-veterinário Alisson Mezalira, no dia 12 de agosto, às 11h35, durante o Painel Biovigilância – Gestão Integrada, no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC).
A apresentação abordará a importância da vigilância e do controle de vetores dentro dos programas de biosseguridade, destacando o papel de roedores e insetos na disseminação de agentes patogênicos capazes de comprometer a sanidade dos rebanhos e gerar impactos produtivos e econômicos para a atividade.

Médico-veterinário Alisson Mezalira palestra no no dia 12 de agosto sobre vigilância de Vetores durante o Painel Biovigilância – Gestão Integrada do 18º SBSS – Foto: Divulgação
Médico-veterinário formado pela Universidade de Passo Fundo (UPF), Alisson Mezalira possui mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e experiência prática na área de produção animal. Atuou na BRF (Sadia), em Uberlândia (MG), prestando assistência técnica em granjas de suínos entre 2004 e 2005. Desde 2006, exerce a função de responsável técnico na MM Distribuidora, empresa representante da Syngenta em Santa Catarina, desenvolvendo trabalhos voltados ao controle integrado de vetores e à biosseguridade nas cadeias produtivas.
Ao longo de sua trajetória, acumulou experiência no desenvolvimento de estratégias de monitoramento e controle de pragas em sistemas de produção animal, contribuindo para a redução de riscos sanitários e para o fortalecimento dos programas de prevenção de doenças.
A presidente do Nucleovet, Aletéia Britto da Silveira Balestrin, destaca que a biosseguridade é um dos pilares da competitividade da suinocultura. “A prevenção continua sendo uma das ferramentas mais eficientes para proteger a produção animal. Quando falamos em biosseguridade, precisamos olhar também para fatores que muitas vezes passam despercebidos, mas que podem representar riscos significativos para a sanidade dos rebanhos”, afirma.

Foto: Andressa Kroth/UQ Eventos
Para o presidente da comissão científica do SBSS, Lucas Piroca, a vigilância de vetores tem ganhado importância crescente dentro dos programas sanitários. “Roedores e insetos podem atuar como transmissores de diversos agentes infecciosos, comprometendo a saúde dos animais e a eficiência produtiva. Discutir estratégias de monitoramento e controle é fundamental para fortalecer a gestão integrada da biosseguridade dentro das granjas”, ressalta.
As inscrições e a programação completa já estão disponíveis no site: www.nucleovet.com.br. O investimento do primeiro lote, até o dia 25 de junho, é de R$ 600 para profissionais e R$ 400 para estudantes. O valor para participar somente da 17ª Brasil Sul Pig Fair é de R$ 100. Associados do Nucleovet, profissionais de agroindústrias, órgãos públicos e grupos universitários terão condições diferenciadas.
Técnologia e negócios
Realizada simultaneamente ao Simpósio, a 17ª Brasil Sul Pig Fair reunirá empresas dos segmentos de sanidade, genética, nutrição, equipamentos, ambiência, tecnologia e serviços voltados à suinocultura.
O espaço será destinado à apresentação de lançamentos, soluções inovadoras e fortalecimento do networking entre empresas, profissionais, pesquisadores e produtores, ampliando as oportunidades de negócios e troca de experiências durante o evento.
Suínos
Peste suína africana expõe o custo de reagir tarde ao avanço dos javalis
Consultora Telma Vieira Tucci, da Itália, mostrou como a experiência europeia transformou o javali em peça central da crise sanitária e elevou o custo do controle para países com forte produção de suínos.

Na Europa, o javali deixou há muito tempo de ser apenas um problema de campo. Ele passou a ocupar uma posição crítica dentro da equação sanitária da suinocultura, especialmente desde o avanço da peste suína africana pelo continente há pouco menos de dez anos. Foi esse o eixo da apresentação de Telma Vieira Tucci, consultora independente radicada na Itália, ao detalhar no Encontro Abraves Paraná, em Toledo, como a presença e a movimentação desses animais se tornaram parte do desafio epidemiológico enfrentado por países produtores.

Telma organizou a leitura do problema a partir do mapa europeu de positividade para peste suína africana em suínos e javalis. “Hoje, a peste suína africana ainda não foi contida”, afirmou. A partir dessa constatação, ela reconstruiu a trajetória recente da doença no continente, com reaparecimento a partir de 2007 e posterior avanço sobretudo pelo Leste Europeu, até provocar novos episódios em áreas ocidentais e impor respostas cada vez mais complexas aos países afetados.
Na experiência europeia, contextualizou em sua apresentação online, o javali não aparece apenas como elemento periférico da história sanitária. Ele surge como parte concreta da difusão territorial do problema. “As europeias áreas afetadas pela peste suína africana foram principalmente relacionadas com a migração de javalis.”
Para ela, quando a doença entra em territórios onde javalis circulam livremente, encontrar carcaças, delimitar zonas, conter deslocamentos e impedir novas introduções deixa de ser tarefa simples. A experiência europeia mostra que o problema não foi apenas o vírus em si, mas o encontro entre o vírus, a fauna livre e a dificuldade de coordenação territorial.
O fator humano não desaparece

Se os javalis ganharam relevância sanitária, Telma também deixou claro que eles não explicam tudo sozinhos. Um dos pontos mais fortes da apresentação foi a insistência no papel humano na difusão da peste suína africana. “O homem é fundamental, fundamental”, afirmou, ao sugerir que certos saltos geográficos da doença não se explicam apenas pelo deslocamento natural dos animais.
Essa leitura torna a experiência europeia ainda mais relevante para a suinocultura. O javali amplia o risco, sustenta circulação em vida livre e dificulta a erradicação local, mas o homem continua sendo fator crítico na quebra das barreiras sanitárias. O problema exige simultaneamente biosseguridade nas granjas, vigilância territorial, resposta rápida do serviço oficial e contenção em áreas onde a fauna silvestre já se contaminou.
Bélgica, Alemanha e Itália mostram o tamanho do desafio

Foto: Divulgação/Arquivo OPR
Ao percorrer casos europeus, Telma mostrou como a peste suína africana passou a exigir respostas muito diferentes conforme o país, o território e o momento epidemiológico. Na Bélgica, citou, a doença apareceu em região onde não havia histórico equivalente recente, exigindo forte mobilização para compreender origem, delimitar área e conter disseminação. Na Alemanha, ela apresentou a evolução de pontos positivos desde 2019 e reforçou que a progressão ao longo do tempo revelou a dificuldade de estabilizar o cenário. “É difícil controlar nesse cenário”, resumiu.
No caso italiano, a leitura ficou ainda mais política e institucional. Telma apontou entraves ligados à própria estrutura administrativa do país, com diferentes níveis de governo e legislações coexistindo, o que dificultou acelerar certas respostas. “Com toda essa demora foi pedido muito tempo”, num contexto em que múltiplas instâncias administrativas retardaram a uniformização das medidas. Para a suinocultura brasileira, a lição é direta: quando a crise entra num ambiente institucional fragmentado, o tempo joga a favor do problema.
Cercas, busca de carcaças e contenção territorial
Outro aspecto importante da palestra foi a descrição das medidas físicas e operacionais mobilizadas em diferentes países. Telma mencionou cercas, delimitação de áreas, sistemas de captura e busca de carcaças como parte da resposta europeia. “As medidas de contenção estão sendo aplicadas”.
Esse ponto conversa fortemente com a realidade da suinocultura brasileira. O próprio Manual de Boas Práticas para o Controle de Javali, do Ibama, já reconhece o javali como ameaça ao estado sanitário dos rebanhos de produção e recomenda cercas de exclusão para granjas de suínos, além de zonas de separação entre áreas produtivas e regiões de incidência. A lógica é semelhante: quando o animal passa a integrar o risco sanitário, a proteção física da granja deixa de ser detalhe e passa a ser barreira estratégica.
O custo não aparece só no campo
Ao tratar das consequências econômicas, Telma mostrou que o dano não se limita ao animal morto, à área interditada ou à granja diretamente atingida. A palestra trouxe gráficos e referências sobre impacto econômico em países como Alemanha, Itália e Espanha, sugerindo que a presença da peste suína africana em áreas com javalis altera preços, afeta circulação, impõe gastos públicos e privados e prolonga o ambiente de instabilidade.
De acordo com a consultora, a ideia central é inequívoca: a consequência econômica de uma crise sanitária associada a javalis é maior do que a fotografia imediata do foco. Ela se espalha pelo sistema produtivo, alcança logística, mercado, imagem sanitária e custo de contenção. Para a suinocultura, isso é decisivo, porque a cadeia trabalha com margens estreitas, alto investimento fixo e forte dependência de previsibilidade.
Espanha respondeu com mais velocidade
Entre os casos comentados, a Espanha apareceu como exemplo de resposta mais energética e imediata. Telma indicou que o país reagiu com maior rapidez do que outros contextos europeus diante da ameaça sanitária e deixou uma mensagem que vale como síntese operacional da palestra: “A resposta imediata é vital.” Para a suinocultura, essa talvez seja a principal lição da experiência europeia. Tempo de resposta não é detalhe administrativo; é variável sanitária.
Quando o risco deixa o mato
A consultora ampliou ainda mais o alcance do tema ao dizer que a peste suína africana associada a esse contexto é “uma ameaça global”. A observação reforça o que a experiência europeia já demonstrou: depois que a crise sanitária se instala em ambiente com javalis, conter o problema se torna mais caro, mais demorado e mais complexo.
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