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Apesar das vantagens, implementação das tilápias supermachos enfrenta resistência no Brasil

Com taxas de crescimento mais rápidas e uma alta taxa de produção de lotes monosexo masculino, que pode chegar a 100%, as tilápias supermachos oferecem um controle populacional eficaz. Além disso, a produção com essa técnica é livre de hormônios, contribuindo para a sustentabilidade da aquicultura.

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Quando a intensificação da produção de tilápias começou no Brasil, na década de 1980, foi observado um crescimento desigual entre machos e fêmeas, com uma clara vantagem para os machos. Isso se deve, em parte, ao fato de que quando os dois sexos estão juntos, durante a reprodução precoce, os animais direcionam uma parte significativa de sua energia metabólica para o desenvolvimento de espermatozoides e óvulos, em vez de direcioná-la para o crescimento muscular. Além disso, o gasto energético associado ao comportamento de corte (cortejo do macho) era considerável, o que comprometia ainda mais o crescimento muscular. Como consequência, os produtores frequentemente tinham lotes mistos, caracterizados por uma heterogeneidade significativa e baixa produtividade. Diante desse cenário, tornou-se evidente a necessidade de produzir lotes monossexuais.

Mestre em Biologia Ambiental, doutor em Genética e Biologia Molecular e pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura, Eduardo Varela: “Os marcadores moleculares ligados ao sexo têm aumentado as chances de superar os desafios de produção do supermacho” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural

Como resultado, explica o mestre em Biologia Ambiental, doutor em Genética e Biologia Molecular e pesquisador da Embrapa Pesca e Aquicultura, Eduardo Varela, os produtores produziam lotes pouco produtivos. “Diante desse cenário se tornou evidente a necessidade de produzir lotes monossexuados para otimizar a produção e garantir uma criação mais eficiente e lucrativa”, evidenciou em sua palestra sobre ‘Tecnologia de produção de supermachos para tilapicultura’, realizada em meados de abril durante o Inovameat, um dos principais eventos de proteína animal do Paraná, promovido em Toledo, no Oeste do Paraná.

Varela menciona que entre as vantagens da tecnologia do monosexo estão a taxa de crescimento média mais elevada, devido à ausência de energia desviada para a produção de gônadas e comportamento de corte. Além disso, há a redução de interações agressivas, resultando em um ambiente de cultivo mais harmonioso, e uma maior uniformidade do tamanho no momento da despesca, o que reduz a necessidade de classificação dos peixes e minimiza o estresse durante o cultivo. “Somado a isso, a tecnologia do monosexo também previne impactos indesejáveis da maturação sexual na qualidade da carne e na aparência dos peixes”, ressalta o especialista.

Tecnologias de produção do monosexo

Entre as tecnologias de produção do monosexo, existem seis métodos distintos. O primeiro é a reversão sexual hormonal, comercialmente aplicável e de fácil execução. No entanto, suas desvantagens são significativas, como a intensiva mão de obra necessária, o custo relativamente alto, o potencial de deterioração da qualidade da água e do bem-estar animal devido aos hormônios, a necessidade de um alto nível de controle e os possíveis impactos ambientais decorrentes da fuga de organismos.

Outra técnica é a hibridização interespecífica, também comercialmente aplicável, que compartilha a vantagem de ser de fácil processamento. No entanto, suas desvantagens incluem preocupações ecológicas devido às fugas e a dificuldade de aplicação em muitas condições de produção.

O método de androgênese, embora não seja comercialmente aplicável, é adequado para espécies com machos homogaméticos. No entanto, sua aplicação não é fácil e nem sempre consistente, exigindo vigilância na seleção e manutenção de estoques.

Já a técnica de supermacho YY/GMT é comercialmente aplicável e adequada para espécies heterogaméticas, sendo rápida, consistente e amigável ao ambiente. No entanto, sua aplicação em larga escala comercial pode ser difícil e a produção de peixes pode não se adequar às expectativas dos consumidores.

E as técnicas de transgenia e edição gênica, embora promissoras, ainda não são comercialmente aplicáveis. Enquanto oferecem a possibilidade de alcançar alta consistência de homogeneidade, enfrentam desafios significativos em termos de aplicação comercial, como a dificuldade de adequação às expectativas dos consumidores e a percepção negativa em relação aos transgênicos. A edição gênica está ainda em fase de avaliação industrial.

Pesquisa de campo

Varela enfatiza que por muito tempo houve uma lacuna no avanço do conhecimento nesta área. No Brasil, essa lacuna persistiu devido à falta de aceitação da técnica pelos brasileiros na década de 90. “Embora haja poucos relatos e experiências no desenvolvimento de tilápias supermachos no país, algumas iniciativas foram realizadas no Paraná, São Paulo e no Rio Grande do Sul”, relembra.

O pesquisador afirma que a masculinização por reversão sexual hormonal é considerada uma técnica primordial para a tilapicultura. Segundo Varela, essa tecnologia extensivamente é estudada e avaliada na década de 90, com foco especial na biotransformação do hormônio no ambiente natural e nos possíveis efeitos do escape na água. “Mais de 30 esteroides foram testados nesse período, mas há uma carência de estudos claros sobre o assunto, considerando que muitos hormônios surgiram desde então. Atualmente, o hormônio amplamente usado para reversão sexual é o 17-a-metiltestosterona e seus derivados, com uma taxa de conversão de masculinização de 98%”, aponta.

Sobre as desvantagens da masculinização por reversão sexual hormonal, o doutor em Genética e Biologia Molecular cita a degradação hormonal, visto que o hormônio pode se

deteriorar durante o armazenamento ou trânsito pelo trato digestivo, reduzindo sua eficácia. “Além disso, a inconsistência na ração, com variações na concentração do hormônio, pode resultar em doses discrepantes, comprometendo a uniformidade dos resultados. Há também o risco de doses excessivas, que podem causar efeitos adversos como esterilidade ou terminação paradoxal dos peixes, devido à conversão de andrógenos em estrógenos por meio da aromatização”, informa.

Produção de tilápias supermachos

Diante desses desafios, Varela afirma que surge a necessidade de desenvolver novas tecnologias, como as tilápias supermachos (GMT), também conhecidas como tilápias geneticamente masculinas ou naturalmente masculinas.

O especialista explicou que as tilápias supermachos (GMT) são obtidas através do cruzamento entre machos XY e fêmeas XY, resultando em parte dos filhotes machos YY. “São chamados de supermachos ou geneticamente masculinos por apresentarem duas cópias do cromossomo Y”, esclarece.

Com taxas de crescimento mais rápidas e uma alta taxa de produção de lotes monosexo masculino, que pode chegar a 100%, as tilápias supermachos oferecem um controle populacional eficaz. Além disso, a produção com essa técnica é livre de hormônios, contribuindo para a sustentabilidade da aquicultura. “Esses avanços representam um passo significativo para a indústria, oferecendo soluções inovadoras e promissoras para o futuro da produção de tilápias”, exalta o pesquisador.

No entanto, Varela ressalta que o caminho até alcançar o produto final desejado é repleto de testes e desafios. Ele enfatiza que, embora pareça simples na teoria, a aplicação em escala industrial é uma tarefa complexa, especialmente em países com um modelo de produção intensiva, em que os produtores buscam resultados imediatistas. “Essa é uma das razões pelas quais o Brasil não adotou amplamente a técnica, mesmo com a eficácia já comprovada de 98% de inversão hormonal. Investir em uma técnica ainda em fase de entendimento dos processos de inversão e testes de progênie é visto como arriscado para muitos produtores brasileiros”, salienta, acrescentando que outros países têm avançado as pesquisas nesse campo. “Na Indonésia, o segundo maior produtor de tilápias do mundo, foi desenvolvida uma tilápia geneticamente melhorada supermacho. Essa iniciativa foi difundida através de programas públicos e incentivos do governo e difundida mais tarde para outros países”, expõe.

Tilápias supermachos que foram para o mercado

Entre as tilápias supermachos que chegaram ao mercado estão a linhagem Gesit, originalmente desenvolvida na Indonésia, resultado da engenharia genética da terceira geração da GIFT. Esta linhagem de tilápia foi projetada para ter uma taxa de crescimento mais rápida e maior resistência a doenças, tornando-se muito popular entre os criadores indonésios.

Outra iniciativa vem da Europa, onde uma empresa holandesa desenvolveu a tecnologia de tilápias naturalmente masculinas (NMT). Esse processo de produção é livre de hormônios, com disseminação e produção de matrizes YY. “Duas linhagens foram produzidas: a tilápia prateada, com peso médio de 800 gramas, ideal para filetagem e com características de resistência; e a tilápia red, menor e voltada para o mercado de consumo do peixe inteiro”, menciona Varela.

Essa tecnologia também foi adotada em outros países. No Egito, a tilápia NMT alcançou uma eficácia de 97%, apresentando crescimento uniforme. Nas Filipinas, a mesma tecnologia atingiu conversão de 96%, apresentando um crescimento excelente. No Quênia, a espécie alcançou uma eficácia de 96% e foi adaptada ao clima frio local. Além disso, utilizando a base genética da GIFT, foi desenvolvida uma tilápia NMT com uma eficácia de 98%, também apresentando um crescimento excelente. “Esses avanços refletem o potencial significativo dessa tecnologia para aprimorar a aquicultura em diferentes regiões do mundo”, reforça Varela.

Porque as tilápias supermachos não se disseminaram no mundo?

Varela afirma que apesar de suas vantagens competitivas, com altas taxas de crescimento e conversão alimentar, as tilápias supermachos enfrentaram desafios significativos de implementação na indústria e não se disseminaram de forma ampla no mundo. “A produção de pesquisa e desenvolvimento para tilápias supermachos remonta à década de 1990, com muitos acordos de cooperação entre países. Houve 121 relatos científicos em 25 anos, com uma taxa de cooparticipação internacional de 19%. Reino Unido, China e México lideraram o desenvolvimento, com uma média de 1,55 de publicações científicas ao ano”, menciona o pesquisador.

O ciclo de vida da tecnologia de tilápias supermachos passou por diferentes fases. Varela explica que, no primeiro período de pesquisa, a linhagem se consolidou como viável para a tilapicultura, mas no segundo período houve um vazio de avanços tecnológicos devido aos desafios de implementação na indústria, enquanto que no terceiro período surgiram novas tecnologias de apoio, como recursos genômicos e edição gênica, embarcando na tecnologia YY. “Atualmente, há uma tendência de que essa técnica seja acessória a novas frentes tecnológicas, como a edição genômica”, expõe o mestre em Biologia Ambiental.

Variação populacional

Varela diz que a existência de variação populacional no sistema de determinação sexual é um desafio adicional desta técnica, citando como exemplo a tilápia do Nilo, em que os resultados do emprego desta tecnologia mostraram uma variação genética na população, afetando a proporção de sexos. “A história da domesticação da tilápia do Nilo revela eventos de introgressão interespecífica, afetando a proporção de sexos nesta população. Contudo, os marcadores moleculares ligados ao sexo têm aumentado as chances de superar os desafios de produção do supermacho”, pontua.

O pesquisador afirma que a evolução dos genes sexuais em tilápias é fascinante e ao mesmo tempo desafiadora para ser incorporada em uma tecnologia inovadora. “A alta precisão, previsibilidade e regularidade são essenciais para mostrar à indústria sua viabilidade. A Embrapa está sendo desafiada a desenvolver este produto e verificar sua viabilidade na indústria brasileira, representando uma nova oportunidade para a aquicultura no país”, aponta Varela.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor da piscicultura brasileira acesse a versão digital de Aquicultura, que pode ser lida na íntegra on-line clicando aqui. Tenha uma boa leitura!

Fonte: O Presente Rural

Suínos

Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso

Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.

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Foto: Divulgação/Acrismat

Apesar do crescimento da produção e dos recordes nas exportações brasileiras de carne suína, a rentabilidade dos produtores de Mato Grosso vive um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A combinação entre preços em queda, custos de produção ainda elevados e dificuldades para ampliar o consumo interno foi um dos principais temas debatidos durante o 5º Simpósio da Suinocultura de Mato Grosso, realizado pela Associação dos Criadores de Suínos de Mato Grosso (Acrismat).

Durante o evento, o superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), Cleiton Gauer,

Superintendente do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA), Cleiton Gauer: “Mesmo com uma leve redução nos custos, principalmente do milho, esse alívio não chegou de forma suficiente ao produtor” – Foto: Divulgação/Acrismat

apresentou um panorama atualizado da cadeia produtiva e destacou que o Estado segue ampliando seu rebanho e sua produção. Entretanto, esse crescimento não tem se refletido na renda do produtor.

Segundo ele, após a virada do ano, os preços pagos pelo quilo do suíno apresentaram forte retração, reduzindo significativamente a margem da atividade. “Mesmo com uma leve redução nos custos, principalmente do milho, esse alívio não chegou de forma suficiente ao produtor. Hoje estamos observando alguns dos menores resultados econômicos da série histórica da suinocultura em Mato Grosso”, afirmou.

Gauer explicou que a situação é ainda mais preocupante para produtores que possuem financiamentos e investimentos em andamento, já que a redução da rentabilidade compromete a capacidade de cumprir esses compromissos. Outro ponto destacado foi o comportamento das exportações.

Embora o Brasil registre embarques recordes de carne suína, esse desempenho ainda não é suficiente para equilibrar

Pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Franco Muller Martins: “O setor enfrenta hoje preços reduzidos em relação aos custos de produção” – Foto: Divulgação/Acrismat

o mercado interno. “Quando analisamos Mato Grosso, apenas cerca de 15% da produção é destinada à exportação. Ou seja, a maior parte permanece no mercado interno, o que limita o impacto positivo das vendas externas sobre os preços recebidos pelos produtores”, explicou.

Gestão eficiente será decisiva

O pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Franco Muller Martins, reforçou que o cenário exige dos produtores uma gestão ainda mais eficiente das granjas. Durante sua palestra sobre custos de produção e perspectivas para 2027, ele apresentou a metodologia utilizada pela Embrapa para calcular os custos de produção em seis estados brasileiros, entre eles Mato Grosso, disponibilizando informações que servem de referência para produtores.

Segundo o pesquisador, embora o Brasil viva um excelente momento nas exportações, esse avanço não foi suficiente para garantir margens satisfatórias aos produtores. “O setor enfrenta hoje preços reduzidos em relação aos custos de produção. Isso exige que o produtor olhe cada vez mais para dentro da propriedade, buscando eficiência, redução de desperdícios e melhoria da gestão”, destacou.

Presidente da Acrismat, Frederico Tannure Filho: “A suinocultura vive um momento de grande evolução tecnológica, mas também de margens cada vez mais apertadas” – Foto: Divulgação/Acrismat

Para Martins, além do trabalho realizado dentro das granjas, será fundamental que toda a cadeia continue investindo em ações de estímulo ao consumo da carne suína. “A ampliação da demanda é um caminho importante para que, no médio prazo, o setor consiga recuperar melhores níveis de rentabilidade”, afirmou.

Além da economia, o pesquisador também abordou a importância da biosseguridade como fator estratégico para manter a competitividade da suinocultura brasileira, tema que também ganhou destaque durante o simpósio.

Para o presidente da Acrismat, Frederico Tannure Filho, a discussão sobre custos de produção, mercado e rentabilidade tornou-se indispensável diante do atual cenário da atividade. “A suinocultura vive um momento de grande evolução tecnológica, mas também de margens cada vez mais apertadas. Por isso, a Acrismat fez questão de reunir especialistas que apresentassem um diagnóstico econômico do setor e apontassem caminhos para que o produtor possa tomar decisões mais seguras. Conhecimento é uma ferramenta essencial para manter a atividade competitiva”, afirmou.

Segundo ele, um dos principais objetivos do 5º Simpósio da Suinocultura de Mato Grosso foi aproximar os produtores das informações técnicas e econômicas que impactam diretamente a rentabilidade das granjas, fortalecendo o setor para enfrentar os desafios dos próximos anos.

Fonte: Assessoria Acrismat
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Suínos

Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores

Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

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Milton Melz ao lado de Marlene Cristina Costa e Alejandro Cardoso, que deixaram a Argentina para trabalhar na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, em Iporã do Oeste (SC) - Fotos: Divulgação

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.

A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”

Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.

A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.

Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.

Recomeço em outro país

Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.

O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”

A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.

A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.

Escola, trabalho e novas oportunidades

Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.

A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida

Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.

Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.

A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.

Reconhecimento e qualidade de vida

Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.

A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.

O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.

Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.

Integração além da porteira

Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.

Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.

O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.

Planos para ficar

Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.

Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.

Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.

A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.

Fonte: O Presente Rural
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Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas

Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

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Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.

Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.

Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.

Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.

O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.

Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.

A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.

Fonte: Assessoria ABRAVES
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