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“O Brasil vai se adaptar a esse novo momento”, afirma pesquisador da Embrapa

Para especialista, é hora de “abrir a mente” e encontrar alternativas nutricionais para atender nova demanda, sem perder de vista custos de produção, viabilidade econômica e zootécnica

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O Presente Rural entrevistou uma das maiores autoridades da avicultura para saber o que muda com a nutrição livre de antibióticos promotores de crescimento e como o Brasil reage a essa nova realidade, seja a campo ou em pesquisas. Everton Krabbe, agrônomo, doutor em ciência e pesquisador de produção de aves e suínos da Embrapa, é também supervisor do Setor de Implementação da Programação de Transferência de Tecnologia, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Para ele, é hora de “abrir a mente” e encontrar as alternativas nutricionais para atender essa nova demanda, sem perder de vista os custos de produção, a viabilidade econômica e zootécnica.

“Pode-se dizer que é improvável a reversão do fim do uso de AGP. O poder do consumidor é muito grande. A mídia faz com que as informações, nem sempre tão precisas, fluam com uma velocidade assustadora. O melhor que podemos fazer é abrir nossas mentes e sermos pró ativos com as demandas que surgem. O Brasil, pela importância que tem no mercado mundial de carnes, precisa assumir o papel de líder, com muito profissionalismo. Fatos recentes têm demonstrado que problemas isolados podem impactar significativamente nossas cadeias de produção. Portanto, se fizermos bem o nosso trabalho, temos um futuro maravilhoso, caso contrário é difícil prever nosso destino. A ideia que deve prevalecer é que nosso milho e soja devem ser transformados em carnes aqui no Brasil, e não simplesmente exportados e serem transformados em outros países. Estão em jogo aspectos de agregação de valor e muitos postos de trabalho”, defende. Ele prevê dificuldades, mas acredita em adaptação.

O Presente Rural (OP Rural) – O que está promovendo a retirada dos antibióticos como promotores de crescimento no Brasil e no mundo?

Everton Krabbe (EK) – Tecnicamente, a resistência bacteriana desencadeada pelo uso de antibióticos promotores de crescimento (AGP) segue sendo um tema polêmico, e longe do consenso. Entretanto, o fato é que o consumidor dita o rumo do mercado. As empresas produtoras de carne percebem que essa pressão (ou preocupação) vinda do consumidor pode ser uma oportunidade e assim, o processo vem se desencadeando.

No Brasil, em vista de sermos exportador de grande volume de carnes para uma expressiva gama de países (aproximadamente 150 destinos internacionais), em alguns casos já vinha sendo praticado este sistema de produção sem uso de AGP, mas em quantidades conforme necessidade, portanto, ainda existe muita produção alicerçada no uso de AGP. Em termos de legislação, o Brasil sempre teve uma preocupação muito grande de seguir as tendências mundiais em termos de banimento de moléculas, e assim, alinhando a legislação nacional em conformidade com os padrões internacionais.

O fato é que existem dois grandes produtores de carne de aves no mundo, o Brasil e os Estados Unidos. Como a concorrência é muito forte, a tomada de decisão de um implicará nas ações do outro. Neste momento, estima-se que 50% da produção americana de frangos esteja livre de AGP e os especialistas acreditam que em breve esse volume poderá chegar a 75%. Com isso, o Brasil deve seguir a mesma estratégia.

OP Rural – Desde quando esse movimento no setor de aves acontece entre os principais produtores mundiais?

EK – De forma isolada, em função de nichos de mercado, isso já vem sendo praticado dentro e fora do Brasil há uma década ou até mais, mas nas proporções mais expressivas, pode-se dizer que é um fato recente, algo em torno três a quatro anos considerando os movimentos percebidos nos Estados Unidos. Por outro lado, na Europa isso é algo mais antigo, desde 2005. Aqui no Brasil, quem exportasse para lá, desde aquela época já precisou se adequar a esta nova norma europeia. Isso na prática se tornou algo positivo, pois dessa forma as empresas brasileiras já foram adquirindo experiência com essa tendência.

OP Rural – Por que é importante a retirada desses medicamentos?

EK – Embora polêmico, existem dados de pesquisas que mostram que bactérias potencialmente patogênicas para os animais e para os humanos podem desenvolver resistência a antibióticos. Nos hospitais, os relatos das “superbactérias", que são resistentes a praticamente todos os tipos de antibióticos, estão sendo observados com uma certa frequência e vitimando pacientes. Assim, a ideia de não mais usar AGP na produção animal vem recebendo adeptos. A discussão, no entanto, e acredito que nunca vamos chegar a um consenso, reside na dificuldade de atribuir ou não esta resistência aos AGPs da rações fornecidas aos animais, uma vez que antibióticos diversos são também utilizados de outras formas, além da ração. Por fim, polêmico ou não, esse fato surgiu como uma avalanche e não há o que fazer senão aceitar e começar a adaptar os procedimentos a essa nova perspectiva.

OP Rural – Qual a o cenário da indústria avícola brasileira em relação à retirada dos AGPs?

EK – A indústria brasileira é muito competitiva, ágil e competente. Não chegamos a assumir uma participação mundial tão expressiva por acaso. Então, penso que o Brasil vai se adaptar a esse novo momento. Algumas empresas um pouco mais rapidamente, outras ou pouco menos, mas todas podem e devem chegar em algum momento a produzir sem AGP. O fato é que isso não se faz de um dia para o outro. Precisamos entender que os AGPs ficam também nas camas dos aviários, e enquanto não for substituída e realizada uma boa limpeza, haverá AGP no meio de produção.

Esse novo momento vai demandar um tempo para a estabilização dos ambientes dentro dos aviários e isso vai ao longo de um, dois ou três lotes impactar negativamente os resultados de conversão alimentar, ganho de peso, viabilidade, etc. Mas, em geral, as empresas que passaram por isso conseguiram restabelecer seus níveis de produtividade ao longo do tempo. O produtor precisará mudar seu foco. Aspectos como renovação de ar, condições da cama, a densidade de criação (aves/m2), cuidados com a água de bebida se tornarão ainda mais importantes. Novas ferramentas de medição da qualidade do ar, água e cama deverão se tornar mais comuns entre os produtores.

OP Rural – O que muda na nutrição dos frangos de corte, em suas várias fases, com a retirada?

EK – Em maior ou menor grau, não apenas a nutrição, mas o manejo e o uso de vacinas deverão ser ajustados. Na nutrição especificamente, ajustes nutricionais devem acontecer. Nutrientes em excesso, não digeridos, favorecem o surgimento de problemas entéricos nas aves, assim, alguns nutrientes devem ser reduzidos. Outros nutrientes, especialmente aqueles que ajudam na melhoria da imunidade, como por exemplo vitaminas, podem ser ajustados para cima. Os ingredientes que compõem as rações deverão cada vez mais sofrer maior nível de controle de qualidade, como o milho, visando redução de micotoxinas, o farelo de soja, com especial atenção a fatores anti-nutricionais, as farinhas de origem animal devem apresentar boa qualidade e não ter sido sobreprocessadas (o que baixa a digestibilidade). O uso de aditivos alternativos nas dietas para compensar a retirada dos AGPs, tais como probióticos, prébióticos, enzimas, ácidos orgânicos e derivados de plantas (fitoterápicos), passarão a ser usados de forma mais consistente.

OP Rural – E com as aves de postura. Qual é o cenário brasileiro e o que muda na nutrição ao longo de sua vida produtiva?

EK – No caso das aves de postura, elas em geral, por estarem sendo criadas em gaiolas (distante das fezes) dependem menos de antibióticos. Contudo, o mundo sinaliza para que as aves sejam criadas fora das gaiolas, sobre cama. Neste caso, as medidas deverão ser muito parecidas com aquelas apontadas para frangos de corte.

OP Rural – Como a nutrição pode influenciar beneficamente a saúde do animal?

EK – Na atualidade sabemos que determinados nutrientes têm um papel muito específico dentro do animal, favorecendo determinados órgãos ou tecidos. Por exemplo, alguns aminoácidos são fundamentais para que o animal tenha um intestino mais saudável, e assim digerindo e aproveitando melhor o alimento, isso ao final significa que este lote terá uma melhor conversão alimentar e melhor ganho de peso, o que é importante tanto para a remuneração do produtor quanto para a lucratividade das empresas integradoras. Aves bem nutridas estarão melhor preparadas para desafios, respondendo melhor a infecções, na ausência de antibióticos.

OP Rural – A indústria brasileira já conseguiu uma ração ideal livre de promotores?

EK – Cada empresa tem seus critérios de composição nutricional. Em geral, pode-se afirmar que a maioria delas já tem uma ideia de como ajustar as dietas para o momento da retirada dos AGPs.

OP Rural – Sem os antibióticos, a pressão de doenças tende a aumentar. Como manter (ou amentar) os índices zootécnicos e de eficiência atuais?

EK – O que está em questão é o não uso de antibióticos em doses baixas nas dietas, de forma continuada. Isso ao longo do tempo fará com que, no momento em que ocorrer algum problema de infecção, os antibióticos (conforme a legislação) poderão ser usados de forma curativa, de acordo com a recomendação do veterinário. Espera-se que neste momento as bactérias já tenham se tornado novamente sensíveis aos antibióticos para os quais antes já haviam desenvolvido resistência. Isso é chamado de "quebra de resistência", e é importante, pois torna o tratamento mais eficiente, usando menos medicamento, deixando menos resíduo e a um custo menor.

OP Rural – Essa nova nutrição pode afetar índices como ganho de peso diário, conversão alimentar, rendimento de carcaça?

EK – A princípio, o que se espera é que o desempenho das aves seja mantido (evitarão que haja perda), e a sua formulação visará essencialmente reforçar o sistema imunológico.

OP Rural – Essa mudança afeta de que maneira os profissionais da indústria e o produtor?

EK – Na granja deverá ser dado mais atenção às condições dentro dos aviários, como ventilação, cuidados com a cama, qualidade da água e densidade. Já o corpo técnico estará mais voltado para a identificação de pontos críticos de campo, e possivelmente muito foco em administração de vacinas – essa área deverá crescer.

OP Rural – A academia e os centros de pesquisa, como a Embrapa, voltam os olhos para essa nova era com a produção AGP free?

EK – Sim. Em nossas pesquisas estamos sempre estudando aditivos que favoreçam a saúde intestinal de aves, focando o uso de aditivos alternativos (enzimas, pré e próbióticos), o efeito do processamento das rações, entre outras medidas.

OP Rural – Sem os antibióticos promotores, há outras mudanças que precisam ser feitas no processo produtivo de frangos e aves de postura?

EK – Sim, essencialmente as medidas de biosseguridade deverão ser cada vez mais rígidas. A entrada de pessoas estranhas nas granjas, que já é controlada, tende a diminuir cada vez mais. O vazio sanitário possivelmente será revisto, e outros diversos aspectos de manejo serão muito importantes. Um exemplo disso pode ser a questão do uso de vacinas. Algumas vacinas, por exemplo, funcionam melhor quando o ambiente apresenta condições de umidade e temperatura específicas. Assim, a ideia de que a cama deve estar o mais seca possível talvez já não seja mais o ideal. Assim como também não deve ser úmida em excesso. Esse controle fino é apenas um exemplo do que se pode esperar como uma das mudanças a campo.

Mais informações você encontra na edição de Aves de setembro/outubro de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Avicultura Saúde Animal

Efeito de extrato a base de lúpulo e prebiótico na permeabilidade intestinal de galinhas em sistema cage-free

Eliminação completa ou diminuição do uso de antimicrobianos na indústria de proteína animal pode causar efeitos no bem-estar animal e rendimentos na produção

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Artigo escrito por Fabrízio Matté, consultor Técnico da Vetanco Brasil

A redução ou, preferencialmente, eliminação do uso de melhoradores de desempenho com atividade antimicrobiana é uma tendência internacional, fortemente recomenda pela Organização Mundial da Saúde (OMS), devido a sua associação direta ou indireta à diversos problemas de saúde pública, humana e animal. A eliminação completa ou diminuição do uso de antimicrobianos na indústria de proteína animal pode causar efeitos no bem-estar animal e rendimentos na produção. Com o objetivo de mitigar estes efeitos, há interesse crescente no uso de produtos alternativos aos antimicrobianos, principalmente aqueles derivados de extratos naturais, com menor probabilidade de apresentar efeitos negativos associados aos antimicrobianos clássicos.

Neste trabalho, foram utilizados dois aditivos alimentares associados: um que contém uma combinação de extratos herbais e excipientes ativos do lúpulo e gérmen de trigo e um Prebiótico, composto por ácidos orgânicos (acético, fórmico e propiônico) e parede de levedura purificada (MOS e Betaglucanos), inseridos em uma partícula mineral protetora, tornando-os capazes de agir nos diferentes segmentos do trato intestinal das aves.

Patógenos entéricos, classicamente controlados com uso de subdoses de antimicrobianos, podem produzir toxinas que induzem lesões na barreira intestinal. A barreira intestinal é constituída de uma monocamada contínua de células epiteliais fortemente unidas por complexos de junções intercelulares, que quando saudáveis e íntegras, previnem a translocação paracelular de compostos indesejados, incluindo grandes moléculas, toxinas e microrganismos do lúmen do intestino para a lâmina própria e posteriormente para a corrente sanguínea. Desta forma, a medida da integridade intestinal é um forte indicador da saúde intestinal em aves de produção.

Materiais e métodos

Foram utilizados dois aviários com 9.000 aves cada, entre 74 e 75 semanas de idade. O aviário tratado recebeu inclusão de 1kg/ton do Extrato Herbal a base de lúpulo e 1,5 kg/ton de Prebiótico no alimento das aves, enquanto o aviário Controle não recebeu nenhum prebiótico ou antimicrobiano. O tratamento ocorreu por um período de 23 dias. Foram realizadas duas coletas de sangue periférico para análise da integridade intestinal.

A determinação da integridade intestinal foi realizada utilizando metodologia previamente descrita por estudos. Primeiramente, moléculas fluorescentes grandes (FITC-dextran 4000 kDA) são administradas pela via oral nas aves e, passado o tempo necessário para trânsito intestinal (2h30min), são coletadas amostras de sangue periférico, e o soro é analisado em um leitor de fluorescência. A existência de lesões intestinais com danos nas junções intercelulares pode permitir a passagem de moléculas tóxicas da luz intestinal para circulação sanguínea. Desta forma, lesões ou processos inflamatórios na mucosa intestinal, também permitem a passagem pela via paracelular do corante fluorescente FITC – dextran, que poderá ser detectado na corrente sanguínea e quantificado.

Resultados

Antes do período de tratamento, na primeira coleta, não foi possível identificar diferença significativa na integridade intestinal entre os grupos Controle e Tratado.

Entretanto, após os 23 dias de tratamento combinado com Extrato Herbal e o Prebiótico, uma segunda coleta foi realizada (44 dias depois do início do tratamento). Nesta segunda coleta, foi possível identificar aumento significativo (Teste T de Student, P < 0,05) na permeabilidade intestinal no grupo Controle (n=14), quando comparado ao grupo Tratado (n=12).

Discussão

O uso de compostos naturais, como exemplo os extratos naturais ricos em humulonas e lupulonas, assim como a parede de levedura (ricas em oligossacarídeos de manana – MOS) e os ácidos orgânicos, apresentam alto potencial para controle de Clostridium perfringens, Salmonella spp. e outros patógenos entéricos altamente prejudiciais à saúde intestinal.

Os principais componentes encontrados no lúpulo, são os α-ácidos (Humulonas), responsáveis pelo característico sabor amargo do vegetal, e os β-ácidos (Lupulonas), qual possuem uma excelente atividade bactericida frente a bactérias Gram-positivas.

Por outro lado, o uso de uma associação de ácidos orgânicos e parede de levedura protegidos por um carrier mineral atua favorecendo a multiplicação e colonização dos segmentos intestinais por bactérias acidófilas (ácido-tolerantes e produtoras de ácidos) no intestino de aves.

O uso associado de Extrato Herbal e do Prebiótico em aves apresentou um efeito significativo na proteção da integridade intestinal.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de junho/julho de 2019.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Nutrição

Nutrição de precisão em frangos de corte tem quatro pontos-chave

Ajustes serão necessários para adequar às condições de criação e necessidades específicas

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Divulgação/Agroceres

Artigo escrito por Flávio José de Araújo Ruiz, gerente regional de vendas da Agroceres Multimix

Quando pensamos em “precisão”, algumas palavras vêm à mente, como: exatidão, certeza, acerto, impecabilidade, perfeição e primor. Antes de termos a precisão em qualquer situação, precisamos definir o objetivo – o alvo -, pois sem a acurácia do acerto no objetivo não alcançaremos a precisão. A definição do objetivo estabelece as metas, que direcionam nossos esforços. Já dizia o ditado: “para quem não tem destino, qualquer caminho serve”. Temos, portanto, que definir – primeiramente – nossos objetivos, como: peso ao abate, produção em toneladas de carne, qual conversão alimentar e qual custo, entre outros.

Costumo dizer que a avicultura se assemelha muito à Fórmula 1. O que há de mais novo em tecnologia está nessa atividade. A velocidade de mudança é alta e constante. A cada ano, um novo carro ou uma nova genética. A corrida é curta. São 42 voltas ou 42 dias. As tomadas de tempo são medidas na terceira casa decimal, assim como o custo do frango também é avaliado. Todos os corredores estão na mesma volta, já na avicultura, quem não está no mesmo padrão de custo está fora do mercado. Assim como cada corrida é única, tem um circuito específico, um ajuste de carro diferente, na avicultura precisamos fazer os ajustes necessários para cada objetivo, de cada empresa e de cada mercado. O mecânico e os engenheiros fazem os ajustes necessários para atingir todo potencial do carro, da mesma forma que os nutricionistas fazem para aprimorar todo o potencial do frango.

O processo de nutrição de precisão envolve todo sistema de alimentação das aves e se assemelha ao PDCA. O PDCA é uma ferramenta de gestão na qual temos a fase de planejamento (Plan), execução (Do), checagem (Check) e de agir ou ajustar (Act).

Na fase de planejamento, definimos as exigências nutricionais das aves com base no nosso objetivo de desempenho e determinamos as matrizes nutricionais dos alimentos que vamos trabalhar. As exigências nutricionais das aves são obtidas de diferentes fontes. Podemos tomar como base manuais de linhagens, experimentos de doses-respostas, equações de exigências de nutrientes, o conceito de proteína ideal, programas de modelagem biológica, sempre levando em conta o custo final da operação. A definição de objetivos de desempenho, de mercado (interno/externo), de custo, de comercialização (carcaça/corte), de restrições (ração vegetal/antibiotic free), vai nos guiar na definição inicial das exigências nutricionais.

Ajustes serão necessários para adequar às condições de criação e necessidades específicas. Genética, sexo, desafio sanitário, clima, temperatura, umidade, qualidade do ar, tipo de galpão, respostas de desempenho, densidade, oferta e qualidade de matéria prima, capacidade e qualidade da fábrica de ração, são alguns aspectos a serem considerados. O programa de promotores e anticoccidianos vai ser ajustado de acordo com os desafios de campos e as restrições de uso do mercado a ser comercializado. O perfil de vitaminas também deve ser ajustado, se a ração for peletizada ou extrusada.

O nutricionista deve coletar as informações necessárias, para definição dos níveis nutricionais a serem trabalhados. Hoje, já existem aplicativos que ajudam na coleta dessas informações, gerando um amplo banco de dados com históricos que facilitam a tomada de decisão. Programas de modelagem abastecidos com diversas variáveis de criação e com equações que refletem a realidade também auxiliam na definição da estratégia nutricional, porém todas estas ferramentas não substitui a visita técnica do nutricionista ao campo.

Ingredientes

A determinação e acurácia das matrizes nutricionais dos ingredientes escolhidos são de extrema importância para que o nível nutricional da formulação pré-definida corresponda à realidade. A amostragem define a representatividade do que se realmente tem na fábrica. Um plano de amostragem deve ser definido baseado na quantidade, no número de fornecedores e na frequência de entrega da matéria-prima. Um laboratório para controle de qualidade é crucial para um bom banco de dados de nutrientes. Hoje o uso do Nirs (Near Infra Red Spectrometry) nos possibilita um número muito grande de informações que devem ser trabalhadas, pois, de outra forma, continuam sendo apenas dados. As análises de matérias-primas nos possibilitam atualizar as matrizes e nos ajudam a manter a qualidade, monitorando e qualificando fornecedores.

Após definido os níveis nutricionais da fórmula e as matrizes dos ingredientes, podemos executar a formulação. Essa já é uma fase do “fazer” do PDCA. No processo de otimização de fórmula podemos ter alguns estudos, como uma análise paramétrica, na qual avaliamos a viabilidade econômica de ingredientes alternativos. Verificamos também a melhor distribuição de um ingrediente restrito para o melhor custo no geral. Verificamos o consumo total de matéria-prima durante o mês, o peso do custo de cada ingrediente e a contribuição nutricional de cada um.

O controle de qualidade de uma fábrica de ração está tanto no processo de planejamento, ajudando a construir a matriz nutricional, quanto na rotina de execução de uma fórmula. Análises rápidas, como: classificação do milho, urease do farelo de soja, peróxidos em farinhas de origem animal e óleos, ajudam muito a restringir a entrada de ingredientes de baixa qualidade na fábrica, possibilitando, inclusive, a elaboração de um ranking de fornecedores, ajudando no direcionamento de compras. A verificação de todo processo de produção ajuda a manter a qualidade do produto acabado.

Fábrica coração

A fábrica de ração é o coração de uma integração de frangos de corte. Ela é capaz de contribuir com o sucesso ou fracasso de toda a operação. As Boas Práticas de Fabricação (BPF) nos auxiliam a manter esse processo em conformidade, com os padrões pré-estabelecidos. Em todo processo produtivo deve ser checado os pontos críticos e cada um deve ter seu padrão e seus indicadores a serem avaliados. O cuidado na recepção da matéria-prima, direcionamento ao silo correto de armazenagem, evitando contaminação cruzada, fazendo uma devida pré-limpeza do milho – se possível utilizando uma mesa densimétrica para melhorar ainda mais a qualidade do milho a ser armazenado -, tudo isso contribui para garantir que cada ingrediente tenha seu destino correto dentro da fábrica.

O processo de armazenagem deve preservar a qualidade do ingrediente estocado. Além disso, a moagem dos ingredientes favorece a homogeneidade das partículas e facilita a mistura; e o diâmetro geométrico médio (DGM) deve ser monitorado. A pesagem é parte crucial do processo, e uma pequena variação pode levar ao fracasso, por isso as balanças devem ser aferidas e esta etapa deve ter um cuidado especial. A qualidade de mistura é crucial para que a ração fique homogenia, evitando segregação de partículas e contribuindo para que todas as aves, ao se alimentarem, possam ter acesso aos mesmos nutrientes e aditivos. Esse processo deve ser monitorado através do coeficiente de variação de mistura (CV).

O direcionamento de silo para armazenagem do produto acabado deve ser verificado para evitar contaminação cruzada, colocando em risco todo o processo produtivo. A expedição e transporte devem ser controlados para evitar equívocos de envio de rações erradas. Não adianta todo processo anterior ter a “nutrição de precisão”, ou seja, uma fórmula perfeita, que corresponde integralmente a realidade dos ingredientes misturados, processos de fabricação adequado, mas entregue uma granja que não corresponde à sua fase.

Na granja

Na granja, a alimentação das aves deve ser garantida. Ter fácil acesso ao alimento e água, uma boa relação de equipamentos, densidade compatível com o tamanho da granja e número de equipamentos, água de qualidade, favorecerão o bom resultado. Nessa etapa, além da execução da alimentação, está a fase de “check”. Dados devem ser coletados para verificarmos o andamento da resposta à formulação, como: o peso das aves, semanal ou diário. Já existe tecnologia de balanças dentro do galpão que nos dão informação em tempo real. O consumo de ração pode ser monitorado com avaliação do volume nos silos, diariamente. Existem silos com células de carga que nos dão o consumo on line da ração.

A medição do consumo de água nos evidencia qualquer alteração no comportamento das aves. O monitoramento da saúde intestinal, junto com o desempenho do plantel, nos auxilia na resposta ao programa de aditivos. A manutenção da biossegurança e o acompanhamento de desafios também permitem ações corretivas rápidas. O controle de uma boa ambiência e qualidade do ar favorece o desempenho e manifestação de todo o potencial das aves com o alimento.

O monitoramento das respostas deve ser seguido de perto pelo nutricionista que, prontamente, fará as correções necessárias da formulação. Essa seria a fase do “act”, agir. Dessa forma, inicia-se uma nova formulação, que deve ser guiada pelo nutricionista em todo o processo (fórmula), até chegar ao bico da ave e se transformar em carne. Lembrando que: sempre guiado pelo objetivo central de produção da empresa.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de junho/julho de 2019.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Avicultura

Importância dos minerais orgânicos para animais de alta performance

Os minerais orgânicos se caracterizam por apresentar maior biodisponibilidade e, portanto, menores taxas de excreção por parte dos animais

Publicado em

em

Jonas Oliveira

Artigo escrito por Verônica Lisboa Santos, Juliana Bueno da Silva, Fabiana Goulin Luiggi e Carlos Ronchi

Os animais de produção necessitam receber suplementação mineral de modo a atender suas necessidades de macro e micro minerais. A forma química dos minerais é um fator importante para sua absorção e aproveitamento nas diferentes rotas metabólicas que compõem o organismo. Estes podem ser fornecidos sob a forma de sais inorgânicos, como sulfatos e óxidos, ou orgânicas. Os minerais orgânicos são apresentados como elementos de maior biodisponibilidade relativa quando comparados a fontes inorgânicas, ou seja, possibilitam maior absorção e são melhor utilizados pelos animais. A absorção do mineral orgânico no trato intestinal não sofre o processo de competição iônica, normalmente determinada pela presença de maior concentração de íons minerais.

Os microminerais, também denominados minerais traço, em virtude de sua pequena inclusão nas dietas, atuam como componentes de estruturas proteicas ou como co-fatores, auxiliando na alteração ou modulação alostérica da estrutura terciária de enzimas, tornando-as ativas ou inativas.  Há muitos anos, os nutricionistas têm utilizado minerais na forma inorgânica (ex.: sulfato de zinco, selenito de sódio, sulfato de cobre, etc.) buscando atender às exigências minerais dos animais. Ao alcançarem o trato gastrointestinal, os minerais devem ser inicialmente solubilizados para liberarem íons e serem absorvidos. No entanto, estando na forma iônica parte dos minerais podem se complexar com outros componentes da dieta, como por exemplo o ácido fítico, dificultando sua absorção, ou ser completamente complexado, tornando-se indisponíveis aos animais.

Outro importante fator deve ser considerado: antes que um íon metálico possa ser absorvido, ele não deve estar envolvido com a hidroxi-polimerização, atravessar as barreiras e chegar ao enterócito. Os metais ingeridos podem ser subdivididos em duas categorias gerais: aqueles solúveis em uma ampla variação de pH no trato gastrintestinal, ex. sódio, cálcio e magnésio e aqueles suscetíveis à reação de hidroxipolimerização, como o alumínio, o manganês, o zinco, o cobre e o ferro. Eles são prontamente solúveis em ácido (ex. no estômago de monogástricos), mas em condições de alcalinização no intestino delgado, as moléculas de água as quais eles estão ligados perdem rapidamente seus prótons para formar compostos hidroxi-metálicos. Conforme a solução acidifica e se aproxima do pH neutro, outros prótons são liberados pelas moléculas de água coordenadas ao redor do metal numa tentativa de manter o equilíbrio. Isto pode levar a uma ampla polimerização dos hidróxi-metais e, por fim, precipitação, tornando o metal não disponível para a absorção.

Os minerais traços participam em várias funções bioquímicas no organismo, de forma que várias tentativas têm sido feitas para torná-los mais biodisponíveis, ao protege-lo das condições do trato gastrintestinal. Um bom ligante deve impedir ou interferir com a hidroxi-polimerização e talvez competir com a mucina para permanecer ligado ao metal. Ele não pode, por outro lado, se ligar tão forte de forma a impedir sua absorção e atuação metabólica. Aminoácidos e pequenos peptídeos estão entre os ligantes que melhor protegem os metais de transição no trato digestivo.

Tendo em vista estas alterações negativas, alguns nutricionistas utilizam níveis mais elevados de minerais, grande parte das vezes baseados em seu próprio conhecimento prático. Isto pode funcionar, mas há grande possibilidade de ocorrer uma interação negativa na absorção de minerais, bem como aumentar os níveis excretados dos mesmos, com consequente impacto negativo ao meio ambiente. Atualmente, observa-se um maior interesse no fornecimento de minerais orgânicos ou fontes quelatadas de minerais traço. Os minerais orgânicos proporcionam maior índice de absorção e rapidez da mesma e seu transporte é facilitado e partindo da hipótese de que são mais facilmente absorvidos e retidos no organismo, podem ser adicionados a uma concentração muito mais baixa na dieta do que minerais inorgânicos, sem qualquer efeito negativo sobre o desempenho produtivo, e podem, potencialmente, reduzir a excreção de minerais.

As diferentes ações exercidas pelos minerais no organismo dependem primeiramente de sua absorção no intestino e da sua distribuição nos diferentes tecidos do organismo animal.

Não basta simplesmente fornecê-los nas dietas, mas oferecer minerais em quantidade e qualidade que atendam às necessidades nutricionais das diferentes espécies. Cuidando para que não haja excessos ou deficiências, ambas condições muito prejudiciais em vários pontos.

Pesquisas

Testes realizados a campo e em universidades referência na nutrição animal atestam sobre a eficácia na utilização dos minerais orgânicos.

Zinco orgânico na dieta de frangos de corte sobre o desempenho produtivo e a qualidade de patas

Local: granja no Estado do Paraná, Brasil.

Material e métodos

Com o objetivo de avaliar o efeito da suplementação de Zinco orgânico sobre o desempenho produtivo e a qualidade de patas de frangos de corte foram utilizados dois lotes de frangos de corte, sendo: Lote 1 – 599.688 aves recebendo dieta controle (sem suplementação do mineral orgânico) e Lote 2 – 962.740 aves suplementadas com 400g/ton de Zinco orgânico em todas as fases de produção.

Resultados e Conclusão

As aves suplementadas com Zinco orgânico apresentaram resultados de desempenho produtivo superiores.

Da mesma forma, o grupo de aves que recebeu Zinco orgânico na alimentação, apresentou proporção de 60% de patas do tipo A (objetivo da indústria) contra 20% do controle. O ganho financeiro líquido adicional foi de 8,91% em relação ao controle (em toneladas de patas).

A suplementação com Zinco orgânico propiciou melhores índices de desempenho produtivo e melhor qualidade de pata aos frangos de corte.

Efeito da inclusão de cobre, manganês e zinco orgânicos na dieta de poedeiras sobre a excreção mineral, produção de qualidade de ovos

Pesquisador: Pro. Dr. Evandro de Abreu Fernandes

Local: Universidade Federal de Uberlândia – UFU, Uberlândia – Minas Gerais

Materiais e métodos

Com a finalidade de avaliar o efeito da inclusão dos minerais orgânicos Cobre, Manganês e Zinco sobre a produção, qualidade dos ovos e excreção de minerais na dieta de poedeiras em segundo ciclo de postura, foram utilizadas 250 aves, com 100 semanas de idade, distribuídas em cinco tratamentos. A substituição total de minerais inorgânicos por minerais de fonte orgânica na dieta de poedeiras mostrou-se eficiente para reduzir a excreção dos oligoelementos avaliados sem comprometer a produção e a qualidade da casca de ovos.

Cálcio orgânico sobre a qualidade interna dos ovos de poedeiras

Local: Granja produtora de ovos, São Paulo, Brasil.

Materiais e Métodos

Com objetivo de avaliar a qualidade interna dos ovos de poedeiras, foram utilizados dois lotes com 27.000 poedeiras cada. A avaliação teve duração de 10 semanas (73 a 83 semanas de idade das aves). O lote 1 recebeu dieta basal, sem a suplementação do mineral orgânico e o lote 2 recebeu dieta basal com a suplementação de Cálcio orgânico (1kg/ton).

Resultados e Conclusão

Aves que consumiram cálcio orgânico na dieta produziram ovos mais pesados, com maior índice de unidade Haugh (indicativo da qualidade interna de ovos), e maior altura de albúmen, coloração de gema, espessura e resistência de casca, sugerindo que o cálcio, na forma orgânica, apresentou maior biodisponibilidade para a absorção e consequente aproveitamento das aves.

Considerações Finais

A evolução das técnicas de criação tem possibilitado melhores desempenhos produtivo e reprodutivo das aves, permitindo aos nutricionistas formularem dietas cada vez mais específicas, de modo a atender, com maior precisão, as exigências dos animais. Entretanto, as variações na biodisponibilidade de minerais, as reações de hidroxipolimerização as quais os mesmos podem ser expostos até sua chegada aos enterócitos e os problemas ambientais cada vez mais crescentes com o uso de fontes inorgânicas nas rações têm alertado pesquisadores a buscarem alternativas que resultem em maior aproveitamento destes nutrientes e menor excreção pelos animais. Os minerais orgânicos se caracterizam por apresentar maior biodisponibilidade e, portanto, menores taxas de excreção por parte dos animais, possibilitando com que os mesmos possam, potencialmente, expressar melhor o seu genótipo. Este melhor desempenho indica um melhor benefício metabólico e fisiológico por parte do animal, proporcionando a otimização das funções e dos sistemas, conforme resultados obtidos nos trabalhos realizados.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de junho/julho de 2019.

Fonte: O Presente Rural
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