Bovinos / Grãos / Máquinas Nicho que paga bem
Produção de carne premium desafia o pecuarista brasileiro
Mais cara e difícil de ser produzida, este tipo de proteína merece especial atenção do pecuarista da cria à terminação

Um grande desafio ainda para o pecuarista brasileiro é a produção de carne de alta qualidade, aquela que o cliente paga a mais na gôndola do mercado. Por aqui, esta categoria tem sido difícil de ser alcançada pelo produtor de gado de corte. Diversos podem ser os motivos para isso, mas, para alguns, é ainda a falta de informação: o que realmente é necessário para produzir um animal que ofereça este tipo de carne ao consumidor?
O médico veterinário, doutor Pedro Veiga, explica que não se constrói uma carne de qualidade em “curral de frigorífico”. “Muitas carnes no Brasil ainda são feitas com base na garimpagem de carcaças que apresentam um padrão um pouco superior na sala da desossa. Isso não nos dá consistência de qualidade”, afirma. Ele complementa que para se falar em carne de alto padrão, aquela em que o consumidor paga a mais para ter uma experiência diferenciada, é preciso trabalhar bastante. “Se vamos no supermercado e pagamos R$ 20 ou R$ 30 no quilo da carne, se ela estiver macia ou dura, com mais ou menos marmoreio, não vai fazer muita diferença. Agora, a partir do momento em que eu me disponho a pagar R$ 200 no quilo, eu quero uma carne de alta qualidade. Se o consumidor não ficar satisfeito, seja com o sabor ou outro fator, ele provavelmente não vai voltar a comprar”, afirma.
Uma pergunta que o produtor deve se fazer se deseja produzir uma carne com mais qualidade é: um animal jovem, pesado e bem-acabado consegue dar garantia de qualidade quando pensamos em mercado gourmet de alto padrão? “O primeiro ponto a ser analisado aqui é que quando falamos de carne de alta qualidade, estamos falando de alta mesmo, não mais ou menos. Porque no Brasil existe a carne ruim, a mais ou menos e a muito boa. Mas aqui estamos falando da carne top, diferente”, reitera.
Veiga informa que essa carne de alta qualidade é difícil e cara de ser produzida. “Não é fácil de produzir e nem barata. Qualquer erro que você cometer no processo, você vai perder todo o investimento que teve para fazer aquela carne”, diz. Ele reforça que este padrão de carne é difícil de produzir e fácil de perder. “Porque a garantia de qualidade de carne de alto padrão é extremamente complexa e multifatorial. É um quebra-cabeça em que cada peça tem uma função primordial. Todo ciclo, desde a escolha da genética, mão de obra, nutrição, manejo, abate, processamento e a forma que essa carne vai ser preparada para ser servida”, afirma.
O profissional declara que o mundo todo está em busca dessa carne de alto padrão. “Qualquer país que você vai hoje está buscando esta carne de alto padrão, porque sabemos que o poder de compra da população mundial aumentou e melhorou”, diz. Ele exemplifica: a Rússia, entre 2003 e 2012, era o maior importador de carne brasileira. Porém, atualmente, o país não aparece mais na lista de importadores de carne. “Isso porque eles buscam por uma carne de altíssimo padrão. Eles não vão comprar carne brasileira ou americana, eles querem produzir localmente carne de alto padrão”, conta.
pH e maciez são pontos chaves
Veiga conta que no Brasil ainda falta muito no quesito de pesquisas sobre qualidade da carne no país. “Coisas que outros países fizeram há 30 ou 40 anos em pesquisas de qualidade, nós nem começamos a fazer ainda”, diz.
Em um trabalho feito com pessoas desta atual geração, foi perguntado o que é mais importante no quesito qualidade da carne e satisfação em consumir carne. “Se olhar na década de 1990, o que mais aparecia era maciez, cerca de 70%. Se pegarmos os resultados de hoje, a maciez deixou de ser o principal definidor de qualidade de carne. Atualmente, o que mais define é sabor (49,4%), seguindo então por maciez e suculência”, informa.
Pra se ter esta carne padrão alta qualidade, a primeira coisa a ser considerada é que é um animal jovem. “Para produzir este tipo de carne, o máximo aceito é um animal de dois dentes, o ideal mesmo seria zero”, conta Veiga. O profissional explica que o que vai definir a maciez da carne é a ação das enzimas calpaínas, que promovem a quebra da estrutura muscular proteica do músculo”, explica.
Porém há também uma enzima que age contra este fator, que são as calpastatinas, que atuam contra as enzimas calpaínas. “E por que isso é importante? Porque são estas são enzimas altamente dependentes de cálcio, e o músculo tem cálcio sobrando. Elas dependem do cálcio e como qualquer enzima dependem também do pH. Então, a partir do momento que eu tenho uma carne com o pH alterado, eu não consigo construir uma carne de alta qualidade”, afirma. E complementa: “E um dos principais problemas da carne brasileira hoje chama-se pH”, diz. Os problemas com pH estão principalmente em animais inteiros, mau acabados e mau manejados.
Para Veiga, uma importante pergunta que deve ser feita é se o boi nelore é suficiente para atender ao mercado de alto padrão. Ele exemplifica comentando sobre um boi jovem, zero dente, de 18 a 20 arrobas e acabamento mediano, seria capaz de garantir maciez que os mercados de alto padrão exigem. “Para tentar responder a essa pergunta, fizemos um teste a campo. Pegamos um número grande de indivíduos e levamos amostras para a Unicamp para avaliação. Para se ter uma média, 4,5 é o limite para a carne ser considerada macia ou não. Abaixo de 4,5 é macia e acima disso é duro”, conta.
Um macho comercial, padrão comum brasileiro, o número da análise deu 6,6. “Esse podemos esquecer, não vai virar carne de qualidade nunca”, afirma. Porém, o que chamou a atenção foi quanto ao macho jovem e bem-acabado que os pesquisadores acreditavam que a carne seria macia, a média ficou em 4,4. “Ou seja, no limite. Como é a média, haviam animais abaixo e animais acima disso”, comenta. Segundo Veiga, o que foi perceptível com a pesquisa é que com o animal mesmo jovem e bem-acabado, irá acontecer situações em que a carne será macia e situações em que será dura.
Angus
Em outra pesquisa, foi calculada a probabilidade para se fazer uma carne de alta qualidade com o Angus. O profissional explica que, usando uma ferramenta estatística, foi calculada a probabilidade com base nos dados apresentados. “A probabilidade desses animais produzirem carne macia variou de 65 a 72%”, conta. Conversando com um fazendeiro, se com esta variedade ele correria o risco de produzir carne de alta qualidade, Veiga conta que a resposta foi categórica. “Ele falou que se era para produzir uma carne em alto nível, então a probabilidade deveria ficar entre 98 a 99%”, comenta.
Para alcançar este nível, o profissional afirma que é preciso inserir uma raça de origem europeia no sistema. “Isso por que quanto maior a participação de Angus nas carnes em que foram feitas as pesquisas, maiores foram as notas por maciez. Isso é o consumidor falando. Ou seja, se o pecuarista quer garantir realmente maciez e o cliente comprar um produto pagando R$ 150 o quilo de picanha, o produtor precisa trabalhar no mínimo com a raça Brangus”, menciona.
O profissional explica que a escolha por esta raça é pelo fato de que a enzima que faz a maciez da carne ser menor é mais ativa no animal nelore, mesmo sendo jovem, pesado e bem-acabado. “Essa enzima atrapalha um pouco para conseguir maciez no mesmo nível que garantimos com um animal Angus”, diz.
Veiga afirma que outro fator bastante discutido é quando à suculência e ao sabor da carne. Ele conta que um trabalho feito em 2018 foram pegos três padrões de carne (select, carcaça magra e choice mais alto), e os pesquisadores mediram vários compostos aromáticos que conferem sabor à carne. “Foi visto que quanto mais gordura tem na carne maior é a concentração de compostos aromáticos. Ou seja, se eu quero garantir sabor e cheiro agradáveis preciso ter um mínimo de gordura de marmoreio na carne”, conta.
Outro trabalho, também desenvolvido no ano passado, mediu a probabilidade de aceitabilidade da carne em função do nível de gordura. “Houve um aumento bem significativo desde o zero até mais ou menos 8 a 10% de gordura. Ou seja, precisamos de um mínimo de gordura intramuscular para garantir sabor, suculência e maciez na carne”, informa.
Atenção desde pequeno
Veiga conta que se o pecuarista deseja produzir uma carne de alto padrão, em que o marmoreio é fundamental, ele deve dar a mesma atenção para o animal enquanto está na barriga da vaca e na recria até a terminação. “Qual erro vemos de muita gente que quer entrar no mercado de carne de alto padrão? Muito investimento na terminação e pouquíssimo na cria e recria”, alerta. Ele informa que o que define o potencial do animal em produzir uma carne de alto padrão em marmoreio, o potencial é definido até os 250 dias de vida do animal. “Ou seja, o terço médio é que define o potencial”, diz. Ele ainda atenta ao produtor: “as fases prévias são tão importantes quanto as fases finais, pouca gente sabe disso”.
Além do mais, a genética é um dos fatores que são decisivos, também, para a produção de um bom animal que consiga produzir marmoreio. “Se eu quero produzir uma carne de alto padrão, eu preciso adicionar uma genética que vai fazer a expressão do pré-adipócito virar adipócito. É uma genética trabalhada há 30 anos para produzir carne de alto padrão e quantidade”, explica.
Outro trabalho, também desenvolvido em 2018, mostra que quanto maior for o nível de gordura no marmoreio, mais macia é a carne, conta Veiga. “Se eu quero trabalhar um nicho de mercado com 99% de aceitabilidade, eu preciso trabalhar com um produto que vai garantir isso. Para assegurar maciez e suculência eu preciso trabalhar com um animal jovem e que produza nível de gordura”, diz.
Outro critério que o pecuarista esquece para produzir gordura por marmoreio, diz, é que é preciso fornecer glicose para o animal. “Um animal a pasto que produz marmoreio realmente é um indivíduo muito diferente. Porque eu preciso de substrato para produzir marmoreio, e isso vem da glicose, que vai ser absorvida direto no intestino delgado”, explica. Veiga diz que quando o animal tem uma dieta com mais amido, propionato que vira glicose, é possível ter melhores resultados no animal.
A vitamina A é outro fator que interfere na formação de marmoreio, afirma Veiga. “Esta vitamina, na fase da recria, é muito boa para produzir marmoreio porque a vitamina A aumenta o metabolismo”, conta. O profissional informa que um animal a pasto, associado a suplementação adequada com amido para produzir, vai permitir formar muito pré-adipócito no músculo do animal. “Só quando chega no confinamento é que o pecuarista deve tirar a vitamina A, porque quando chegar no adipócito de gordura, a vitamina A atrapalha bastante”, conta.
Outros pontos fundamentais
Outros detalhes para a produção de carne de alta qualidade que o pecuarista deve saber é que para produzir este tipo de carne ele necessita abrir mão de quantidade. “Não tem como você produzir muito e uma carne de altíssimo padrão”, explica. Além do mais, Veiga acrescenta que para quem trabalha com alto padrão, a castração é item fundamental. “Preciso castrar os animais o mais cedo possível. Nasceu, já castra. Para permitir que o animal tenha capacidade de depositar a gordura na carne”, explica.
O pecuarista deve ainda saber que o custo de produção da arroba deste padrão de carne é mais elevado. “Um animal inteiro custa R$ 121,81 e um castrado R$ 138,38, uma diferença de R$ 16,77. Ou seja, trabalhar nesse nicho de alto padrão em que você tem que castrar, somente na fase de terminação o custo de produção é de R$ 17 a mais por arroba”, conta. Ele diz que se o pecuarista trabalha na ponta e vende a carne, é possível recuperar esta diferença. “Você deixou de ganhar no confinamento, mas ganhou na ponta final”, diz. Porém, se o produtor entregará o produto para um terceiro fazer a venda final, ele deve verificar até que ponto realmente esta produção vale a pena. “É muito importante, e muita gente não faz a conta”, alerta.
Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2019 ou online.

Bovinos / Grãos / Máquinas No Oeste do Paraná
Pecuária do Show Rural amplia genética e aposta em inovação para elevar produtividade
Coopavel leva novas raças, expositores inéditos e soluções tecnológicas em nutrição animal ao 38º Show Rural, em Cascavel (PR).

A área de Pecuária da Coopavel prepara uma programação especial e repleta de novidades para o 38º Show Rural, que será desenvolvido de 09 a 13 de fevereiro, em Cascavel, no Oeste do Paraná. Reconhecido como um dos maiores eventos técnicos do agronegócio mundial, o Show Rural é uma vitrine para inovação, tecnologia e aprimoramento contínuo de setores estratégicos da cadeia produtiva da agropecuária.
Entre os destaques da área pecuária deste ano estarão a ampliação e a diversificação dos animais de exposição, com a inclusão de novas raças, reforçando o foco no melhoramento genético. Uma das novidades será a apresentação da raça Braford, além da participação inédita da Fazenda Basso Pancotte, de Soledade, interior do Rio Grande do Sul, que trará ao evento três raças de alto padrão genético – Braford, Angus e Brangus. A propriedade é reconhecida nacionalmente por premiações em eventos como a Expointer, o que agrega ainda mais qualidade técnica à exposição durante o Show Rural.
Segundo a coordenadora de Pecuária da Coopavel, a zootecnista Josiane Mangoni, a finalidade é oferecer ao produtor rural acesso direto às mais recentes evoluções do setor. “O Show Rural é uma grande oportunidade de mostrar a capacidade genética, os avanços em melhoramento e tudo o que há de mais atual para o desenvolvimento da pecuária. Teremos novos expositores e raças, ampliando o conhecimento e as possibilidades para quem atua na atividade”.
Mais produtividade
Outro ponto de grande relevância será o Pavilhão Tecnológico da Pecuária, que trará uma série de inovações voltadas à nutrição animal, com destaque para novas rações Coopavel, fórmulas e produtos de alta tecnologia. As soluções apresentadas vão ter como foco o aumento da produtividade, especialmente em propriedades leiteiras, além da melhoria do manejo e da eficiência no dia a dia das fazendas. “Vamos apresentar produtos que chegam para facilitar a vida do pecuarista, melhorar o manejo, otimizar resultados e acompanhar a evolução da pecuária moderna. São soluções pensadas para tornar a atividade mais eficiente, sustentável e rentável”, ressalta Josiane Mangoni.
Com o tema A força que vem de dentro, o 38º Show Rural Coopavel espera receber, em cinco dias de visitação, entre 360 mil e 400 mil pessoas do Brasil e exterior. São produtores rurais, pecuaristas, filhos e mulheres de produtores, técnicos, acadêmicos, diretores e equipes das maiores empresas nacionais e internacionais do agro. O acesso ao parque é gratuito, bem como a utilização de qualquer das 22 mil vagas do estacionamento.
Bovinos / Grãos / Máquinas
Reforço no combate à brucelose e tuberculose bovina reduz focos no Paraná em 2025
Ações de vigilância, diagnóstico, vacinação e educação sanitária resultaram em redução de 20% nos casos de brucelose e consolidam a estratégia do Paraná para proteger a pecuária, a saúde pública e a competitividade do setor agropecuário.

O Governo do Estado, por meio da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar), manteve em 2025 uma atuação contínua e estratégica no campo da sanidade e qualidade das práticas agropecuárias no Estado. Entre as diversas ações realizadas, como orientações diretas ao setor produtivo animal e vegetal, fiscalização do transporte de cargas vivas, produtos, subprodutos, insumos, controle de defensivos agrícolas, investigação e controle de zoonoses, entre outras, destacou-se o trabalho de prevenção, controle e combate à brucelose e à tuberculose bovina.
Essas doenças têm grande relevância para as cadeias produtivas do Estado, especialmente para a pecuária leiteira, a segunda maior do país. A Adapar atuou de forma prioritária em relação a elas, reforçando o compromisso do Paraná com a segurança sanitária, a sustentabilidade e a competitividade do setor agropecuário.
As ações de prevenção e controle das enfermidades são conduzidas pela Divisão de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose Bovina (DIBT), vinculada ao Departamento de Saúde Animal (Desa).

Foto: Gisele Rosso
O Diretor de Defesa Agropecuária da Adapar, Renato Rezende Young Blood, destaca a importância dessas iniciativas para evitar problemas sanitários e garantir a saúde dos rebanhos no Estado. “A Adapar vem fazendo um excelente trabalho focado em ações preventivas e de educação sanitária, em áreas prioritárias com maior risco ou maior incidência das doenças, conseguindo assim melhores resultados, trazendo segurança para o consumo dos alimentos e para a saúde da população”, pondera o gestor.
Segundo dados da DIBT, os números parciais da ocorrência de focos das doenças no Paraná até novembro do ano passado são positivos. Houve uma queda relevante de 20% do número de focos de brucelose, considerando o mesmo período de 2024. Mesmo com menor expressão, o número de focos de tuberculose bovina caiu em 0,5% se comparados com novembro de 2024.
O chefe do Desa, Rafael Gonçalves Dias, explica que a redução no número de focos representa um avanço importante para erradicar as doenças, mas as ações devem ser contínuas. “Durante o ano de 2024 foi registrado um alto volume de focos, e, embora em 2025 as ações de vigilância, novas ferramentas para o diagnóstico, educação sanitária e fiscalização tenham contribuído para a diminuição dos casos, a brucelose e a tuberculose continuam ocorrendo em diversas regiões do Estado, o que exige atenção e trabalho contínuo em relação ao controle das duas doenças,” afirma.
Antropozoonoses
Ambas as doenças são de origem bacteriana e podem ser transmitidas aos seres humanos, o que as classifica como antropozoonoses. A

Foto: Breno Lobato
brucelose tem seu nome ligado à bactéria Brucella abortus, o agente causador da condição que pode afetar tanto humanos, quanto diversas espécies de animais. A brucelose causa importantes prejuízos reprodutivos, produtivos e econômicos na bovinocultura.
No aspecto reprodutivo, provoca abortos, retenção de placenta, nascimento de bezerros fracos e queda da fertilidade de fêmeas e machos, comprometendo o desempenho do rebanho.
Do ponto de vista produtivo, reduz a produção de leite, aumenta o intervalo entre partos e diminui o ganho de peso dos bezerros, afetando diretamente a eficiência da propriedade.
Esses problemas resultam em impactos econômicos significativos, com perdas por descarte de animais, reposição de matrizes, queda no valor genético do rebanho, custos sanitários adicionais e possíveis restrições ao comércio, comprometendo a competitividade da produção bovina.

Foto: Arnaldo Alves/AEN
Enquanto isso, a tuberculose bovina é uma doença bacteriana crônica, que pode afetar ruminantes, suínos, aves, animais silvestres e humanos. A bactéria responsável pela enfermidade é a Mycobacterium bovis. Assim como a brucelose, a tuberculose também pode resultar em perdas econômicas significativas e é considerada uma das zoonoses mais importantes para a saúde pública.
Entre os animais, a brucelose é disseminada principalmente pelo contato com secreções de fêmeas infectadas, como restos placentários, fetos abortados e fluidos uterinos, além do contato direto entre reprodutores. Já a tuberculose bovina se transmite, sobretudo, pela inalação de aerossóis em ambientes fechados, quando animais infectados eliminam o agente ao tossir ou respirar.
Para os humanos, ambas as doenças podem ser transmitidas pelo contato direto com animais doentes ou seus materiais biológicos, mas a principal via é o consumo de produtos de origem animal não tratados, especialmente leite cru e derivados não pasteurizados, que representam o maior risco sanitário. Essas formas de transmissão reforçam a importância da vigilância, do manejo adequado e da adoção de práticas seguras de consumo.
Segundo o representante do Desa, as zoonoses têm alto impacto coletivo, reduzem a eficiência produtiva do rebanho e afetam diretamente

Foto: Divulgação
a reputação do Estado, do município e da propriedade com relação à comercialização dos seus produtos, “Há impactos diretos produtividade, cerca de 15 a 20% da redução da produção de leite, perda de peso, infertilidade, abortamento e descarte de animais precoces. Além disso, também existem os impactos indiretos, como a perda de mercados internacionais, desvalorização dos animais e da propriedade, redução da competitividade, além da questão do risco da saúde pública”, explica.
O médico veterinário também falou sobre a atuação contínua da Adapar, responsável pela gestão do Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose bovinas. “O pilar do programa está na realização da vigilância epidemiológica por meio dos testes dos animais e da vacinação contra a brucelose. Todo produtor e criador de gado leiteiro deve realizar os testes do rebanho pelo menos uma vez por ano e a vacinação é obrigatória para todos os animais, independente da aptidão, tanto de corte quanto de leite, ou misto”, detalha.
Prevenção
A vacinação contra a brucelose bovina é obrigatória em bezerras de 3 a 8 meses de idade. As propriedades que apresentam casos confirmados de brucelose ou tuberculose devem passar pelo saneamento completo, com a realização de testes em todo o rebanho para identificar e eliminar possíveis animais portadores, garantindo o controle da doença e a segurança sanitária da propriedade.
Os testes reagentes devem ser imediatamente comunicados à Adapar. Não existe vacina para a tuberculose, portanto o controle da doença é realizado a partir da detecção e eliminação dos animais positivos. É importante a aquisição de animais com exames negativos.
Ações desenvolvidas

Foto: Arnaldo Alves
Em 2025, a Adapar realizou ações em áreas estratégicas. Uma das ações foi realizada na região de Cornélio Procópio, no Norte do Paraná. Foram fiscalizadas 47 propriedades, com um total de 3.893 animais vistoriados. A ação serviu como piloto para replicação em municípios que apresentam baixo índice de vacinação.
Entre as ações do programa, se destacam o controle da comercialização dos insumos utilizados no diagnóstico da brucelose e da tuberculose, bem como da comercialização da vacina contra a brucelose; a habilitação e o cadastramento de médicos-veterinários autônomos e privados para a realização dos exames e da vacinação; e a certificação de propriedades livres de brucelose e tuberculose.
Em 2025, foram publicadas as portarias 96 e 276, que regulamentam uma alternativa complementar para o diagnóstico de ambas as doenças: a realização do Elisa (Enzyme-Linked Immunosorbent Assay). As portarias instituem no Estado mais uma opção de diagnóstico, contribuindo para a identificação de animais positivos e para o fortalecimento das ações de vigilância nas propriedades.

Foto: Arnaldo Alves
A médica-veterinária e chefe da DIBT, Marta Cristina Diniz de Oliveira Freitas, comenta sobre como a Adapar auxilia na capacitação de médicos-veterinários para a realização do teste em todo o Estado. “A divisão priorizou ações de educação sanitária, principalmente no que se refere à atualização dos médicos-veterinários habilitados quanto ao correto uso do teste de Elisa para casos de focos em saneamento de tuberculose bovina. Existem critérios a serem considerados para o uso do teste, capaz de detectar os animais que não reagiram no teste padrão ouro, que é o teste de tuberculinização”, explica.
Ela ainda comenta sobre o principal motivo da realização do teste. “O objetivo do uso desse teste é conseguir detectar os animais que já estão doentes há tanto tempo que não reagem mais no teste convencional. Então, a tendência é que nós consigamos detectar animais que estão nessa situação e, por fim, diminuir o tempo de saneamento da propriedade”, expõe a médica-veterinária.
A vigilância para detecção da tuberculose bovina foi ampliada para os rebanhos de corte, com a identificação do Mycobacterium bovis por meio de PCR – sigla em inglês para Reação em Cadeia da Polimerase, um método de laboratório que cria múltiplas cópias de um trecho de DNA para estudo –, em lesões observadas no abate.

Foto: José Adair Gomercindo
Esse diagnóstico está sendo realizado no laboratório da Adapar, o Centro de Diagnóstico Marcos Enriette (CDME). Além disso, a divisão vem implementando melhorias nos sistemas internos da agência, aperfeiçoando o software utilizado para o gerenciamento e o acompanhamento do programa, tornando as ações mais eficientes e integradas.
O programa também tem como objetivo o investimento em ações de educação sanitária, com foco no conceito de Saúde Única, que integra as saúdes animal, humana e ambiental. Ao longo do ano passado, foram realizadas palestras e atividades de capacitação em diversos escritórios regionais da Adapar, incluindo Irati e Laranjeiras do Sul, na região Centro-Sul; Maringá e Umuarama, no Noroeste; Cascavel e Toledo, no Oeste; e Pato Branco, no Sudoeste do Estado. Essas ações reforçam a importância da prevenção e do manejo sanitário adequado junto a produtores rurais e profissionais das áreas envolvidas.
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Exportações de carne bovina batem recorde em 2025
Brasil embarca 3,5 milhões de toneladas, amplia receita para US$ 18 bilhões e fortalece presença em mais de 170 mercados, com liderança da China e avanço expressivo em destinos estratégicos.

Com recordes sucessivos mês a mês, 2025 entra para a história como o maior já registrado nas exportações de carne bovina pelo Brasil. Foram ao todo 3,50 milhões de toneladas, um incremento de 20,9% em relação a 2024. O volume exportado movimentou US$ 18,03 bilhões, cerca de 40,1% a mais do que o faturado no ano anterior. Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), compilados pela Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec).
A carne bovina in natura respondeu pela maior parte dos embarques, com 3,09 milhões de toneladas, crescimento de 21,4% na comparação anual, e receita de US$ 16,61 bilhões. Somadas todas as categorias: in natura, industrializadas, miúdos, tripas, gorduras e salgadas, os embarques brasileiros alcançaram mais de 170 países, ampliando a presença internacional do setor e diversificando destinos.

A China foi o principal destino da carne bovina brasileira em 2025, respondendo por 48% do volume total exportado, com 1,68 milhão de toneladas, que somaram US$ 8,90 bilhões. Em seguida, destacaram-se os Estados Unidos, com 271,8 mil toneladas e US$ 1,64 bilhão. Na sequência, vêm o Chile (136,3 mil toneladas; US$ 754,5 milhões), a União Europeia (128,9 mil toneladas; US$ 1,06 bilhão), a Rússia (126,4 mil toneladas; US$ 537,1 milhões) e o México (118,0 mil toneladas; US$ 645,4 milhões).
Na comparação com 2024, houve crescimento em volume na maior parte dos principais destinos. As exportações para a China avançaram 22,8% no acumulado do ano, enquanto os Estados Unidos registraram alta de 18,3%. A União Europeia apresentou crescimento de 132,8%, e o Chile, de 29,8%. Também se destacaram os aumentos para a Argélia (+292,6%), o Egito (+222,5%) e os Emirados Árabes Unidos (+176,1%).
Segundo o presidente da ABIEC, Roberto Perosa, o desempenho de 2025 demonstra a resiliência e a maturidade do setor. “O desempenho de 2025 foi extraordinário. Depois de um 2024 muito positivo, conseguimos ampliar volume, valor e presença internacional. Mesmo com impactos temporários, como o tarifaço dos Estados Unidos, a indústria respondeu com rapidez, mostrou resiliência e saiu ainda mais fortalecida.

Os resultados de 2025 refletem a atuação conjunta da ABIEC, de suas empresas associadas e do setor público, com destaque para a parceria com a ApexBrasil, por meio do Projeto Setorial Brazilian Beef, e para o diálogo permanente e o apoio do Ministérios da Agricultura e Pecuária (Mapa), do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e das Relações Exteriores (MRE), além da interlocução institucional com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
Para 2026, a avaliação da Associação é de otimismo com realismo, com expectativa de estabilidade em patamar elevado após dois anos consecutivos de forte crescimento e ambiente favorável ao avanço em mercados estratégicos. “Entramos em 2026 com negociações ativas e perspectiva concreta de avançar em mercados como Japão, Coreia do Sul e Turquia, que têm alto potencial e vêm sendo trabalhados de forma técnica e contínua, em parceria entre o setor privado e o governo. A visão é de um crescimento mais qualificado, com previsibilidade, competitividade e maior valor agregado, e sempre atento às questões geopolíticas”, conclui Perosa.
Dezembro
No mês de dezembro de 2025, o Brasil exportou 347,4 mil toneladas de carne bovina, com receita de US$ 1,85 bilhão. A China liderou as compras no mês, com 153,1 mil toneladas, seguida pelos Estados Unidos (27,2 mil toneladas), Chile (17,0 mil toneladas) e União Europeia(11,9 mil toneladas).



