Bovinos / Grãos / Máquinas
Hipocalcemia subclínica é mais ocorrente do que produtor pensa, avalia estudioso
Doença provoca grandes perdas econômicas para o produtor; é preciso que ele fique atendo à forma clínica e principalmente à subclínica
Um assunto que, mesmo muito debatido, continua na pauta de pesquisadores, técnicos e produtores é a hipocalcemia de vacas leiteiras, mais conhecida como febre do leite. E para explanar sobre as novidades do assunto, o médico veterinário, professor doutor Rodrigo de Almeida, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), falou sobre “Atualidades na hipocalcemia de vacas leiteiras: prevenções e implicações” durante o 13° Simpósio do Leite, que aconteceu nos dias 08 e 09 de junho, em Erechim (RS). O profissional explanou sobre como acontece a doença e como ela pode ser tratada pelo produtor sem causar grandes perdas.
O profissional começou explanando sobre o período de transição que as vacas leiteiras passam, que é quando o animal está nos dias finais da gestação. “A definição desse período de transição engloba as três últimas semanas de gestão e três semanas pós-parto imediato, ou seja, são seis semanas”, explica. Ele explana que durante esta fase, é normal que haja redução do consumo alimentar. Para isso, é recomendado a inclusão de ração ou sal aniônico na dieta do animal. Entre os acontecimentos da vaca durante este período estão as dietas alteradas, o consumo que não aumenta rapidamente e as alterações hormonais. O profissional explica que a depressão do consumo da vaca neste período pode ser de até 30%. “E por conta desta depressão de consumo, existe uma resposta da vaca. Ela começa a mobilizar as reservas corporais dela, as gorduras, buscando nutrientes para dar conta do final da gestação e da formação do colostro”, conta.
O que acontece durante este período de transição é que muitas mudanças são exigidas do animal, e muitos deles não dão conta de mudanças tão repentinas a tão curto prazo. “E isso deixa a vaca doente, provocando cetose, retenção, torção e hipocalcemia, que são algumas doenças metabólicas típicas do período de transição”, diz. Dando um exemplo prático, o professor explanou: uma vaca holandesa de 700 kg tem uma exigência de 11 megacalorias no período final da gestação, e para isso ela precisa de 3,3 megacalorias para finalizar o processo da gestação. Esta ainda é uma vaca seca e consequentemente tem uma exigência energética de 14,5 megacalorias. Dois dias depois do parto, a exigência energética da vaca dobra para 28,8 megacalorias. Ela não tem a exigência de prenhez, mas tem uma exigência de 18,7 megacalorias, que é a quantidade que uma vaca que produz 25 kg/leite no segundo ou terceiro dia, para ela dar conta de atender a lactação”.
A hipocalcemia, na transição, pode ocorrer nas formas clínica e subclínica. “Com uma baixa concentração de cálcio circulando no organismo do animal, há uma diminuição da atividade perina e consequentemente a evolução desta atividade fica mais lenta, deixando a vaca mais propensa a ter metrite e retenção de placenta”, explana. Almeida explica que com mais retenção e metrite, ocorre a diminuição da fertilidade do animal. “A vaca demora mais para reemprenhar”.
Comem Menos
O profissional ainda conta que com a doença as vacas tendem a comer menos. “Naturalmente elas já comem menos, mas comem menos ainda quando ficam doentes. E com menor consumo, acaba também diminuindo a produção”, explana. Almeida diz que, além disso, os animais ainda vão mobilizar suas reservas. “Seleciona muita reserva e tem cetose, diminuindo a produção de leite e a fertilidade”, orienta. O pesquisador ainda afirma que a hipocalcemia pode aumentar a ocorrência de doenças no animal.
A hipocalcemia é mais ocorrente pós-parto imediato. Segundo Almeida, normalmente a concentração de calcemia é mais baixa entre 12 e 24 horas pós-parto. “A vaca recém-parida tem uma concentração de cálcio mais baixa, já que ela mobiliza cálcio para terminar os ossos do feto. Além disso, o colostro também tem cálcio e já começa produzindo em altos níveis”, explica. O pesquisador ainda acrescenta que o problema com o cálcio é que as reservas são grandes, porém 99% delas estão concentradas nos ossos e dentes do animal”, explica.
Mobilização de Cálcio
O profissional expõe que no final da gestação, nas primeiras horas pós-parto, há uma queda natural da hipocalcemia das vacas. Há uma grande demanda não atendida, com a diminuição da concentração de cálcio. “Como resposta, as vacas liberam o hormônio TCH. A grande lição é fazer a mobilização do cálcio da matriz óssea. É ter a liberação de vitamina D e D3, que contribui para o aumento do cálcio intestinal”, conta.
“Quando estão com alcalose metabólica e não recebem uma dieta aniônica de cálcio, a vaca não consegue absorver tudo que precisa e a doença ocorre, seja na forma clínica ou subclínica”, diz. O zootecnista ainda acrescenta que para cada litro de leite é necessário 1,22 gramas de cálcio; já para cada litro de colostro são necessárias 2,30 gramas. “A concentração de cálcio circulante disponível é de três gramas e o único litro de colostro consumido tem 2,3 gramas de cálcio. Com dois ou três litros de colostro que o bezerro toma, já são utilizadas as reservas de cálcio aniônico circulante que a vaca tem”, informa.
Ele ainda acrescenta que se o animal não tiver um sistema partonômio funcionando em “pleno vapor para dar conta do recado” e colocar para funcionar todo o sistema de cálcio da matriz óssea, o animal, com certeza, ficará doente. “Embora muito cálcio que existe no organismo não é utilizado. O importante é o cálcio circulante”.
Hipocalcemia Clínica e Subclínica
Almeida ainda explica as diferenças entre a hipocalcemia clínica e subclínica. Segundo ele, a maioria dos casos de hipocalcemia que acontece é a subclínica, “por isso muitos produtores acreditam que o animal não está doente”, diz. Ele comenta que quando a concentração de cálcio estiver entre oito ou cinco miligramas é a subclínica. Já quando a concentração é menor de cinco miligramas há a hipocalcemia clínica, conhecida como febre do leite. O professor conta que as vacas que têm retenção de plancenta convivem com concentração de cálcio menores em quase todas as 12 horas de coleta. “A nossa sugestão é aumentar o nível linear de cálcio, ou seja, de oito miligramas deixar o valor mais alto, para 8,6 miligramas”, recomenda.
O profissional ainda alerta que a prevalência de hipocalcemia subclínica é baixa nas propriedades. “A grande maioria das pessoas não tem capacidade para diagnosticar a hipocalcemia porque a concentração é muito baixa. O estado clássico de sintomas de um animal com a doença realmente não é grande. É o grande problema que temos. Vários estudos mostram que até 50% de ocorrência é da hipocalcemia subclínica”, afirma.
Alguns dos fatores de risco para o animal ficar doente é idade – quanto mais velha a vaca, os receptores de vitamina D3 diminuem – e animais mais gordos. Outro fator destacado pelo profissional foi o custo que uma vaca doente reserva ao produtor. A hipocalcemia clínica tem um custo médio de US$ 300 por animal, já a subclínica tem um custo médio de US$ 125 por animal. “Em um primeiro momento a clínica parece muito mais custosa, porém, a taxa de prevalência é baixa, o impacto econômico é de ¼ da subclínica. Já a proporção de animais com a hipocalcemia subclínica é muito maior. No fim das contas, o impacto econômico de um rebanho é maior pela subclínica do que pela clínica”, afirma.
Dieta
Para evitar com que a doença ocorra no rebanho é importante que o produtor tenha em mente a importância de uma dieta aniônica. Para o profissional, especialista também em nutrição animal, pode-se usar basicamente o conceito DCAD (diferencia catiônica adiônica na dieta). Almeida explica que quando a quantia de cations supera a de ânions, há um DCAD positivo. “Consequentemente o resultado positivo provoca uma ligeira alcalose metabólica nos animais, o que é desejável no pós-parto”, conta.
O professor comenta que o DCAD é negativo nas semanas que antecedem o parto, e com isso, é preciso que o produtor evite leguminosas e material forrageiro de alta concentração de potássio. “É preciso investir na prevenção. Utilizar na dieta silagem de milho e algum volumoso não tão bom, como o feno ou algum um pouco mais grosseiro”, comenta. “Em muitas fazendas o produtor coloca o pasto mais exuberante, o mais adubo que tem, na melhor das intenções. Porém, para essas vacas isso não é bom. Para a vaca pré-parto a ideia é oferecer silagem de milho, feno ou palha, preferencialmente não de áreas que foram muito adubadas”, recomenda.
Outro ponto destacado na dieta foi que no pós-parto tudo muda completamente. Para ele, o sal aniônico deve ser cortado da alimentação no dia do parto. “Uma estratégia simples utilizada por muitos produtores é cortar o cálcio do trigo no pré-parto”, diz. Porém, o professor oferece outra estratégia de dieta para auxiliar ao produtor. “É preciso que o produtor monitore as forragens ofertadas, evitando uma forragem com alto teor de potássio, com uma infusão de sal aniônico, buscando um DCAD entre 0 e 10 divalentes”, recomenda. Ele ainda acrescenta que é preciso continuar monitorando o animal para ver se esta estratégia de dieta está dando resultados.
Para ter certeza sobre a estratégia, o especialista recomenda que seja feito o monitoramento do pH urinário. “O ideal é fazer duas vezes por semana e ver se está entre 5,5 e sete. Mas esta coleta deve ser feita somente após 48 horas da ingestão do sal aniônico”, aconselha. Se o animal alcançar essa média, opina Almeida, é sinal de que o animal está produzindo acidose moderada, além de que quando a vaca vai parir o paratormônio estará ativo e, consequentemente, o risco do animal ter hipocalcemia é menor.
O professor lembrou que a hipocalcemia é uma porta de entrada para outras doenças, por isso é importante o contínuo monitoramento do potássio no pré-parto. Além disso, é bom fornecer sais e rações aniônicas neste mesmo período para diminuir a ocorrência de qualquer uma das duas hipocalcemias. O ponto principal é o produtor ficar atento ao bom funcionamento do paratormônio no pós-parto.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2016 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


