Suínos
Carlos Augusto Mallmann revela o que você precisa saber sobre micotoxinas
Ele coordena o principal laboratório de análises micotoxocológicas do Brasil e presta consultoria a empresas e organismos nacionais e internacionais, como a FAO
Carlos Augusto Mallmann, um dos mais respeitados pesquisadores do mundo sobre micotoxinas, concede entrevista exclusiva para o Presente Rural e fala tudo sobre o tema. Responsável pelo laboratório que realiza o controle de qualidade de 30 a 35% dos produtos da cadeia do agronegócio brasileiro, ele cita o país como dos mais preparados para o setor, aposta no controle e em – alguns – absorventes quando o problema se instala.
Professor titular de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Maria, (UFSM), doutor em Micotoxicologia pela Universidade Livre de Berlin e Escola Superior de Medicina Veterinária de Hannover – Alemanha, coordena o Laboratório de Análises Micotoxocológicas (Lamic/UFSM), credenciado pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) e creditado pelo Inmetro com a ISO 17025.
Considerado um guru sobre o tema, Mallmann presta consultoria na área gerencial e de controle de qualidade para as mais importantes empresas de produção de alimentos e nutrição brasileiras e internacionais, bem como, para organismos oficias, como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
O Presente Rural (OP Rural) – O que são micotoxinas, como surgem e onde estão?
Carlos Augusto Mallmann (CAM) – A micotoxina é um subproduto do metabolismo fúngico. O fungo, quando cresce, produz os metabótitos primários, aquilo que enxergamos como o mofo, mas em algumas situações ele produz outros metabólicos que são secundários. Micotoxina são esses metabólicos fúngicos secundários. O fungo nem sempre produz isso, nem sempre precisa produzir. São algumas situações que vão favorecer essa produção.
As micotoxinas estão e estiveram sempre presentes na natureza. Existem duas teorias para isso; umas delas diz que é uma proteção do fungo contra outros fungos; a outra é que, quando o fungo é ingerido por um animal, ele é destruído, então, ele produziria uma toxina para que o animal não o consumisse. Isso seria algo como “não vou comer isso porque vai me fazer mal”.
Quando nós submetemos o animal a uma dieta única (como os animais de produção), ele não tem opção de escolher o que vai comer, acabando estes entrando em contanto com mais intensidade com as micotoxinas, o que pode acarretar prejuízos. De uma forma geral, a micotoxina é um produto natural, que na maioria das vezes não apresenta risco nenhum aos animais e para as pessoas, desde que não seja consumida em grandes quantidades e por longos períodos.
Elas surgem a partir de condições que são baseadas numa tríade: temperatura, humidade e presença de oxigênio. Os fungos são aeróbicos, quer dizer que precisam de oxigênio. No momento em que eu tiro o oxigênio, o fungo não vai crescer e não vai produzir a toxina. Na silagem, por exemplo, não se produz micotoxinas porque o fungo não consegue crescer. Essa é uma estratégia que podemos adotar. Acomodar o milho à vácuo, sob uma atmosfera controlada, é uma estratégia para não produzir as micotoxinas. O fungo não consegue se reproduzir porque não tem ar.
Difícil de controlar, quando falamos em cereais, mas temos outras duas alternativas para que o fungo não tenha condições de crescer: uma é a temperatura – os fungos normalmente precisam de calor para crescer. Para a maioria deles obter bom crescimento, a temperatura ideal gira entre 20 e 35° C. Por outro lado, para que alguns fungos possam se desenvolver é preciso “um gatilho”, como a alternância entre calor e frio, que faz com que o fungo se estresse e, a partir disso, produza a micotoxina. Têm fungos que produzem em baixa temperatura e outros em alta, mas é muito difícil algum fungo produzir a toxina acima de 35° ou abaixo de 10°, isso por que eles não crescem bem em temperaturas extremas. Terceiro fator é que fungo precisa de água. Ele precisa ter uma humidade adequada para o crescimento. Isso é avaliado medindo a atividade de água, que é a água que está disponível para vida, para o crescimento. A atividade de água é uma medida que vai de 0 a 1 (água pura). Quando atinge valores superiores de 0,69, o ambiente já oferece condições para que alguns fungos consigam se desenvolver e então produzir as micotoxinas. Isso não pode ser confundido com humidade, porque atividade de água é uma medida um pouco diferente da humidade.
Transformando para o milho, uma humidade acima de 14% já oferece condições favoráveis para o crescimento de fungos e produção de micotoxinas.
Além desses três fatores determinantes, os substratos onde esse fungo vai crescer também representam relevância.
O fungo precisa “comer” alguma coisa e o milho é um excelente nutriente para alguns tipos de fungos. Outros gostam mais do trigo e assim por diante. Uma espécie de fungo não produz todas as micotoxinas. Alguns produzem somente uma toxina, outros produzem mais que uma, dependendo da matéria prima. Isso também precisa ser levado em consideração.
Algumas matrizes são bastante seguras; dificilmente encontramos micotoxinas em altas concentrações como na soja. Este, por enquanto, ainda é tido como um material que não representa grande risco para micotoxinas. Mas muitas vezes isso muda, dependendo de condições como a genética, por exemplo. Temos híbridos em que micotoxinas são formadas com mais facilidade, pois o fungo consegue produzir mais toxina neste material. No Paraná, há três anos estão sendo monitorados híbridos para observar quais se comportam melhor sob o aspecto das micotoxinas. Também está sendo levando em consideração produtividade e qualidade nutricional para compor o rendimento desses materiais, baseado em produtividade, qualidade nutricional e custo do tratamento contra as micotoxinas. É um trabalho inovador, que leva os reflexos diretamente à cadeia produtiva de uma forma muito holística.
OP Rural – Quais são as condições ambientais ideais para seu aparecimento?
CAM – Com o aquecimento global, este problema que vem sendo enfrentado por todos os países, está ocorrendo uma mudança do perfil micotoxicológico. Países que normalmente não se encontrava determinado tipo de toxina hoje já passam por uma epidemia. Isso é importante que se saiba, por serem mudanças climáticas muito rápidas.
Tivemos varias modificações nos últimos 20 anos.
Regiões que eram mais frias e não tinham determinadas micotoxinas, mas hoje começam a apresentar as toxinas que nós tivemos ou que estão “controladas” no Brasil. Quando surge esse tipo de problema, geralmente a cadeia produtiva é pega de surpresa, como foi o caso do Brasil, quando “surgiram” as micotoxinas, pois nós não estávamos preparados e não havia conhecimento técnico sobre o tema.
Hoje o Brasil é um país que faz pouca propaganda, mas estamos com a ciência muito mais avançada que a de outros países, principalmente na parte gerencial das micotoxinas. Nós monitoramos muito bem isso e sabemos como está essa situação.
Sintetizando sobre as condições ambientais, de forma geral ou especifica, temos anos em que determinada toxina se apresenta com maior intensidade. Em 2015 nós tivemos um problema com uma toxina que já não aparecia há bastante tempo em termos significativos. E em 2016 nós tivemos uma região do Brasil que foi assolada por um surto de aflatoxinas, que é a micotoxina mais perigosa do ponto de vista econômico. Era uma toxina que estava bem controlada, não havia presença significativa dela, e de um ano para outro apareceu em níveis altíssimos, preocupantes e com efeitos diretos na produtividade.
OP Rural – Quais as principais micotoxinas encontradas na matéria prima de rações no Brasil? Quais as matérias primas mais suscetíveis?
CAM – A primeira é uma pergunta bem fácil de responder em função do banco de dados que temos cadastrados aqui no Lamic. Hoje temos, no Brasil, mais de 1,3 milhão de análises dentro do banco de dados, então a informação é muito segura. Podemos afirmar com segurança sobre o que existe. Primeiro os métodos, a tecnologia que é empregada para fazer esse tipo de análise, é de ponta, baseada em normas internacionais irrefutáveis, ancoradas na ISO 17.025, de laboratórios de acreditação internacional. Os métodos que usamos no Brasil são os melhores que existem. Analisando esse banco de dados, com certeza a toxina mais presente no Brasil são a do grupo das fumonisinas. De cada três análises que se faz, duas têm a presença desta.
Depois temos as aflatoxinas e a zearalenona, presentes em cerca de 35% dos produtos. Também, a vomitoxina (DON), que é encontrada em 45% de todas as amostras analisadas.
Os dados são baseados em mais de 60 mil amostras analisadas. Com relação a outras toxinas, a presença delas não é, apesar do montante de análises que se faz, superior a 10%.
Entre as matérias primas mais contaminadas está o milho por causa da presença das fumonisinas. O milho é o material que tem mais risco de contaminação e, por ser a base das rações animais, é o produto de maior importância para o produtor rural. Depois, os mais suscetíveis são os derivados do trigo. No farelo de trigo são frequentemente encontrados resíduos de micotoxinas, principalmente porque estas se concentram mais na casca.
OP Rural – Qual a sua prevalência?
CAM – A respeito da prevalência, a gente tem que levar em consideração que temos uma contaminação cruzada de micotoxinas. É comum que tenhamos na mesma amostra quatro ou cinco micotoxinas diferentes. Em um levantamento que fizemos nas amostras, hoje temos 78 toxinas diferentes isoladas do milho brasileiro. Analisamos 15 micotoxinas diferentes na rotina. Quando fazemos uma análise de varredura (148 micotoxinas ou metabólicos), já encontramos 78 diferentes metabólicos de fungo. Não se avalia isso de rotina, pois é um processo bem demorado e com custos mais elevados.
Para a maioria das toxinas, nós não sabemos ainda exatamente o que são capazes de fazer e qual a importância econômica que elas têm dentro da produção animal. Ainda existem muitas questões sem explicação, com muito campo para ser estudado. No futuro, talvez tenhamos algumas explicações mais adequadas.
O assunto micotoxinas é bastante antigo, mas sempre tem novidades. Hoje, com novas tecnologias, temos plenas condições de determinar todas as toxinas. Falar sobre prevalência hoje é a luz dos conhecimentos atuais, e nós temos esta informação. Mas podemos ter subdosagens ou subidentificações, pois os processos não analisam todas as toxinas. A maioria das empresas se concentra nas análises dessas toxinas mais importantes.
OP Rural – Há níveis toleráveis para a nutrição animal?
CAM – Uma grande confusão que se tem com isso é que existe uma legislação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que trata de níveis preestabelecidos toleráveis para humanos. É um alimento destinado para o consumo humano e não para o consumo animal. A RDC 7/2011 traz alguns adendos, algumas determinações de prazos, mas determina os valores permitidos para alimentação humana. A partir daquele limite, você tem um produto contaminado impróprio para o consumo.
Para os animais isso é diferente. No humano, temos o consumo esporádico de micotoxinas. Não comemos a toxina todos os dias, a não ser que você coma sempre a mesma coisa, como é o caso dos animais de produção. Estes vão receber a dieta por longos períodos. Se ela estiver contaminada, o animal não tem outra opção e vai acabar se intoxicando.
O nível tolerável depende muito do grau da contaminação, da concentração da toxina e do tempo em que o animal é exposto. Se o animal comer um dia a toxina, a não ser que sejam em concentrações extremamente altas, não vai ter dano perceptível. Porém, se comer uma dose moderada ou baixa, mas por longos períodos, certamente haverá prejuízo. Por isso é bastante difícil determinar o limite tolerável.
Além disso, há outros fatores. No caso de um leitão ou pintinho, eles têm limites de resistência baixos. Já uma gestante, com os fetos, é extremamente suscetível a micotoxinas. Então, não é uma coisa simples de você dizer que é tolerável. Vai depender ainda de outras situações, como se o animal é um macho ou uma fêmea. As fêmeas são muito mais suscetíveis do que machos. Machos são mais tolerantes a zearalenona, porém mais suscetíveis a aflatoxina, por crescerem mais rápido e pode então apresentar dano de produção e econômico com mais significância. Além disso, há a combinação de toxinas. Se você encontra duas ou três toxinas juntas, elas podem ser sinérgicas ou antagônicas. É bem dinâmico.
Ou ainda o produtor tem presença de outras enfermidades dentro da granja, o que enfraquece o animal. Logo, um nível mais baixo de toxina vai interferir na produção.
Existe uma fórmula, um logarítmo que se desenvolveu para calcular qual o risco que as micotoxinas representam. Não é algo simples, pois envolve toda essa experiência que tem que ter com esses e outros fatores.
Resumindo. Existe uma legislação para alimentos destinados ao consumo humano, mas para animais o limite tolerável não é uma constante em função desses fatores citados.
OP Rural – O que causam na matéria prima da nutrição animal?
CAM – As micotoxinas são produzidas por fungos. Estes, sim, causam alterações que a gente pode ver no grão. Mas, como já visto antes, nem sempre esta alteração vem acompanhada da presença de uma micotoxina. Em boa parte das situações, nós temos um material que não apresenta nenhuma característica que se desconfiaria que pudesse estar contaminada. Muitas vezes o fungo produz a toxina à margem daquilo que a gente pode ver. Situações estressantes podem levar a uma produção maior de micotoxinas.
Isso não interfere significativamente no valor nutricional da matéria prima, mas haverá o prejuízo nesse material por conta da contaminação pela toxina.
OP Rural – Quais seus efeitos no desempenho zootécnico de aves, suínos e bovinos?
CAM – As diferentes espécies, começando pelos suínos, apresentam características que nós podemos medir quando o rebanho está submetido a essas toxinas. Os suínos são, dentro daquelas espécies de maior produção, os mais suscetíveis a todas as micotoxinas, e vão apresentar, consequentemente, maiores prejuízos zootécnicos. Todas as micotoxinas afetam ou o aparelho reprodutor, ou o aparelho gastrointestinal, a proteção hepática, o aparelho respiratório e o sistema imunológico dos suínos. Quando temos um material contaminado, a última espécie a qual nós devemos destinar esse material são os suínos, especialmente as fêmeas e os leitões, estes por estarem em fase ou estado fisiológico mais delicado ou por terem uma capacidade de detoxicação menor que o animal adulto. São os que apresentam maiores problemas zootécnicos.
Os peixes também são afetados, mas o controle é baixo e por isso esse tema ainda é bem pouco explorado. Os peixes são uma das principais vítimas das rações contaminadas, especialmente por aflatoxinas. Sobre as demais micotoxinas, ainda não têm estudos aprofundados no Brasil, apesar de também afetar a piscicultura. Portanto, os peixes estão junto com os suínos entre as espécies mais suscetíveis.
Dentre as aves, o pato e o marreco estão como os mais suscetíveis de toda a cadeia, sendo até mais sensíveis que o próprio suíno. Como são animais que, do ponto de vista brasileiro, não têm uma expressão de produção, define-se que os suínos como os mais prejudicados. Mas essas espécies, seguidas do peru, além das aves aquáticas, praticamente não têm resistência nenhuma às micotoxinas, muito em função do seu hábito alimentar natural.
O frango de corte é afetado especialmente quando jovem. O pintinho já é, por si só, mais suscetível a várias influências, e apresenta características de, assim como outras espécies, não recuperar mais o peso perdido durante os estágios iniciais do seu crescimento.
Nos bovinos, os primeiros estudos profundos começam a sair agora no Brasil. A zearalenona é uma toxina que mostra características no aspecto reprodutivo, então interfere na parte de fertilidade. A aflatoxina, em função da transmissão via excreção dela pelo leite, representa uma barreira sanitária bastante importante. Além disso, tem ainda o aspecto social, já que leite é consumido principalmente por crianças, associado à característica da toxina.
OP Rural – Até que ponto as micotoxinas podem interferir no desempenho econômico da propriedade rural?
CAM – O diagnostico de micotoxinas, em nível de propriedade, é de uma forma geral feito quando há um prejuízo muito avançado. Nos dias atuais é muito difícil, exceto em pets ou alguma situação específica. A maioria das empresas monitora isso e usam produtos para mitigas os efeitos Por isso, hoje não se encontram mais aqueles casos clássicos de micotoxicoses a campo.
Hoje o produtor acaba perdendo em desempenho. O desempenho zootécnico é a única forma que se tem para medir o impacto da micotoxina. Ou seja, o diagnóstico só pode ser feito no momento em que eu tenho a presença do agente associado (micotoxina) a sinais clínicos compatíveis (lesões ou prejuízo). E isso que interfere bastante, é muito difícil ver esses sinais clínicos. Mas, do ponto de vista econômico, as micotoxinas impactam diretamente a produtividade e isso afeta o desempenho econômico da propriedade significativamente.
OP Rural – Quais são as etapas do processo de produção e armazenagem de rações mais suscetíveis à contaminação por micotoxinas?
CAM – Normalmente o material já vem contaminado da lavoura. Na parte de secagem e armazenagem nós temos o segundo ponto mais importante na produção das micotoxinas. Seguramente que silos mal gerenciados, sem aeração adequada, sem a termometria para controle e uma série de outras práticas que adotamos na armazenagem, respondem por 95% dos problemas de contaminação de rações em nível de armazenagem. Durante o processo em si, salvo algumas situações de resíduos que permaneçam dentro da linha de produção mal descontaminados, são os momentos em que se detecta a produção de micotoxinas.
A campo, em nível de armazenagem do produtor, se a condução deste armazém não for seguida de um protocolo de limpezas periódicas, mesmo que sejam mecânicas, seguramente nós temos um ponto que há possibilidade de produção. O material fica pouco tempo armazenado, mas entre 12 e 24 horas após o armazenamento os fungos já conseguem produzir as micotoxinas. Normalmente da fábrica sai um material com uma atividade de água (Aw) adequada. Porém, o que percebemos dentro dos caminhões, do transporte, e dentro do silo do produtor, são pontos de condensação da umidade, onde são oferecidas condições favoráveis ao crescimento de fungos e, em algumas situações, a produção de micotoxinas.
Hoje já existem equipamentos no mercado que são utilizados para lavagem automática dessas unidades armazenadoras de ração em nível de propriedade. São injetores, que fazem uma lavagem úmida dentro do silo, removendo restos e praticamente esterilizando o interior. O mais importante e simples é fazer uma remoção mecânica dos detritos que ficam dentro daqueles pontos de condensação, que formam bolas ou cascas dentro do silo. Isso é bastante simples e altamente recomendado no processo da fábrica até a boca do animal.
OP Rural – O que indústria e produtores precisam fazer para evitar a contaminação por micotoxinas na nutrição animal?
CAM – Fazer todos os processos de prevenção que nós já comentamos acima. Mas, para situações quando já ocorreu a contaminação na matéria prima, a alternativa mais eficiente é a utilização dos aditivos antimicotoxinas, os adsorventes.
Esses são produtos adicionados em determinadas concentrações na dieta e que têm a capacidade de prevenir a doença ou a intoxicação do animal. O problema desta estratégia é que boa parte dos produtos não tem eficiência comprovada. Isso quer dizer que as empresas e produtores, quando utilizam esses produtos, devem avaliá-los no sentido de solicitar a comprovação técnico-científica da sua eficiência. Isso é uma sugestão de legislação, que foi apresentada pela primeira vez no Brasil, para que o produtor tenha certo grau de segurança quando utiliza essa classe de produto. E isso é obtido através de teste in vitro e avaliações in vivo que visam a certificação de qualidade do produto. Os in vitro não servem para dizer se o produto funciona contra determinada micotoxina, mas sim um controle de qualidade para dizer que aquele produto está sendo produzido é o mesmo que passou por uma avaliação in vivo. A avaliação in vivo é a única que vai comprovar que o produto funciona no modelo animal. E essas avaliações são específicas para espécie animal. Alguns funcionam em suínos, mas não funcionam em aves, e vice versa, e também são específicos para a toxina. Não existe nenhum produto no mercado que é capaz de proteger contra todas as micotoxinas, assim como não existe nenhum antibiótico que é capaz de proteger contra todos os microrganismos – mesma verdade cabe às classes distintas de produtos. O produtor, ao adquirir um produto destes, deve solicitar ao fornecedor um atestado de eficiência. Não é o registro do produto, pois produtos são registrados muitas vezes sem terem essas exigências. O produtor deve solicitar que o produto seja avaliado in vivo e não somente pelo registro no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). O controle de eficiência deve ser periódico. Os registros são exigidos, mas depois que o produto está registrado nunca mais é reavaliado. Então, o produtor deve exigir do fornecedor essa comprovação periódica.
OP Rural – Quais as políticas públicas e privadas usadas hoje no Brasil para o controle de micotoxinas?
CAM – O Brasil foi um dos pioneiros em reconhecer o problema e buscar soluções para as micotoxinas. Mas isso partiu da iniciativa privada, que amargava os prejuízos das micotoxinas presentes nos cereais e consequentemente nas dietas. O esforço foi basicamente dos atingidos pelo problema. Não pode se dizer exatamente políticas públicas, mas as universidades e centros de pesquisa brasileiros empreenderam consequentemente um esforço muito grande no sentido de ajudar o mercado agropecuário. Inicialmente se iniciou com estruturas capazes de fazer o diagnóstico das micotoxinas e ter o dimensionamento do problema. No ano de 1995 surgiram os primeiros estudos com os absorventes e aditivos antimicotoxinas no Brasil. Foi em 1996 que foi publicado o primeiro artigo científico de um produto capaz de minimizar os efeitos da aflatoxinas. Após isso, houve um ciclo muito longo de pesquisas, melhorando o diagnóstico com o emprego de tecnologias mais modernas e investindo no controle, além de desenvolvimento de produtos capazes de minimizar os efeitos tóxicos das micotoxinas.
Em 2011, a Anvisa lançou uma normativa determinando os limites máximos toleráveis para praticamente todas as micotoxinas em todas as matérias primas destinadas ao consumo humano. A legislação do Brasil é em relação ao consumo da área humana e não animal. Mesmo porque o aspecto de concentrações do animal é uma noção diferente. O animal é submetido a uma dieta monofatorial a longos períodos e consequentemente os níveis são diferentes para as espécies.
Essa legislação, como efeito colateral, representou uma pressão sobre a agricultura, sobre a produção de grãos, que fomentou e implementou com mais intensidade as boas práticas agrícolas e genéticas para a produção de cereais e alimentos com baixa contaminação de micotoxinas. Isto alavancou o mercado, e o Brasil hoje investe privadamente bastante nisso e também publicamente, com a Embrapa e universidades, que estão incluídas nesse espírito de trabalhar mais na prevenção e evitar que o problema seja gerado lá no final da cadeia. Isso passa pela seleção genética de híbridos e variedade de trigo e cereais, assim como boas práticas agrícolas, uso de defensivo e outros fatores importantes no processo de formação das micotoxinas.
Do ponto de vista internacional, barreiras sanitárias geradas pelas micotoxinas pressionam o mercado para que as boas práticas agrícolas sejam implemantadas, bem como haja um diagnóstico de precisão para que o produto nacional possa ser exportado sem risco de gerar problemas econômicos e de imagem do país no exterior. Então, uma coisa puxou a outra nesse sentido.
Da parte da indústria, há um investimento em análises. A própria indústria passou a monitorar o sistema internamente e com isso houve uma pressão de seleção de matéria prima de melhor qualidade.
OP Rural – Como é feito o diagnóstico?
CAM – Uma forma de nós termos o problema controlado é nós sabermos da existência do mesmo e a magnitude com que se apresenta. A indústria, de uma forma geral, passou a monitorar o problema em função dos prejuízos causados. É mais fácil e importante saber antecipadamente a contaminação a qual o seu rebanho está submetido. No início da década de 1990, laboratórios começaram a trabalhar com tecnologia de cromatografia de camada delgada, que é uma tecnologia muito difícil de ser empregada na indústria. Depois surgiram métodos, que são referência até hoje, empregando HPLC. Modernamente, se faz o diagnóstico praticamente de todas as micotoxinas com a utilização do HPLC acoplado à espectrometria de massa. Essa tecnologia permite qualificar e quantificar a toxina numa mesma máquina. Permite também determinar uma gama enorme de micotoxinas, então o espectro de aplicação desta tecnologia tende a aumentar a sua importância.
Esses são os métodos de referência passíveis de serem acreditados, ou seja, permitem resolver as questões mais difíceis no aspecto de litígios e é única forma em ter informação aceita em todos os países. Então, somente laboratórios acreditados pelo In Metro certificam o resultado de uma análise.
Surge após o emprego de métodos imunológicos, mais rápido e possível de empregar nas empresas, facilitando a resposta da análise. Esse método passou a ser utilizado com frequência dentro da indústria.
Agora, aparelhos que geram a informação instantânea quanto às micotoxinas. Você colhe uma amostra, mói, insere no equipamento e gera o espectro. Antes mesmo de descarregar caminhão você já tem a informação sobre grau de contaminação da matéria prima, o que facilita o gerenciamento dos silos.
Isso permite qualificar o silo do ponto de vista do custo de produção das rações. Você sabendo que aquele silo tem carga alta para determinada micotoxina, vai gerenciar utilizando o produto adequado. A técnica mais moderna que se tem no sistema gerencial. Esse sistema tem a vantagem de ter custo muito mais baixo e não precisa de mão de obra altamente especializada, tampouco restrições de horário de utilização, isso porque não depende de laboratórios para fazer as análises. Este gerenciamento permite também calcular a quantidade de adsorventes necessária para fazer aquela ração destinada àquela espécie, sexo ou empresa, por exemplo.
Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de fevereiro/março de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

Suínos
Mercado do suíno vivo segue firme, com ajustes pontuais nas cotações
Dados do Cepea indicam variações discretas no início do mês, sem mudanças expressivas nas principais regiões produtoras.

O Indicador do Suíno Vivo Cepea/Esalq, divulgado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, apresentou estabilidade em parte das praças e leves altas em outras nesta segunda-feira (02).
Em Minas Gerais (posto), a cotação ficou em R$ 6,76/kg, sem variação no dia nem no mês. Em Santa Catarina (a retirar), o valor foi de R$ 6,51/kg, também estável.
Já no Paraná (a retirar), o preço atingiu R$ 6,60/kg, com alta de 0,15% no dia e no acumulado do mês. No Rio Grande do Sul (a retirar), a cotação ficou em R$ 6,74/kg, com avanço de 0,15%. Em São Paulo (posto), o indicador registrou R$ 6,91/kg, elevação de 0,14%.
Os dados têm como base levantamento do Cepea.
Suínos
Carne suína encontra espaço para reposicionamento diante do consumidor híbrido
Para a Associação Brasileira de Criadores de Suínos, comunicação segmentada, conteúdo digital e valorização do perfil nutricional da proteína são caminhos para fortalecer a conexão com o novo comprador.

O consumidor brasileiro entra em 2026 vivendo uma combinação inédita de sofisticação digital, pressão econômica e forte carga emocional nas decisões de compra, é o que revela o novo relatório “O Consumidor Brasileiro em 2026”, da MiQ, uma empresa global de tecnologia especializada em publicidade e inteligência de dados. A Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) entende a importância de acompanhar as novas tendências de consumo, além de compartilhar esses aprendizados com toda a cadeia de produção, já que o novo perfil de consumo no país revela um comprador atento, comparativo e cada vez menos tolerante a atritos, alguém que decide com a mente, o bolso e o sentimento ao mesmo tempo, tornando-se essencial adequar a carne suína a este novo contexto. Veja os destaques da pesquisa!
Hiperconectividade e decisão de compra
Dados reunidos pela MiQ mostram que 74% das decisões de compra começam no smartphone, mesmo quando a transação final acontece no ambiente físico. O celular deixou de ser apenas um canal de acesso e passou a atuar como assistente pessoal, comparador de preços, carteira digital e principal mediador da jornada de consumo no Brasil. Não por acaso, o país se consolida como o ecossistema digital mais avançado da América Latina.
A pressão inflacionária e o cenário econômico instável mudaram a lógica de priorização de gastos. Segundo o levantamento, 72% dos consumidores latino-americanos comparam preços em pelo menos duas plataformas antes de comprar, e mais da metade afirma ter reorganizado seus hábitos de consumo nos últimos 12 meses. No Brasil, essa racionalidade não elimina o impulso, mas o torna mais calculado: promoções, cashback, pontos e benefícios imediatos funcionam como gatilhos decisivos.
Ao mesmo tempo, o entretenimento ocupa um papel central no comportamento do consumidor. Plataformas como YouTube, TikTok e Instagram deixaram de ser apenas espaços de lazer e passaram a moldar a descoberta, a validação e a decisão de compra. Seis em cada dez compras digitais na América Latina começam em uma rede social, e no Brasil o consumo de vídeo por hora é o mais alto da região. O conteúdo, especialmente em vídeo, tornou-se a principal ponte entre marcas e consumidores.
Esse movimento também redefine a confiança. A pesquisa mostra que o consumidor brasileiro de 2026 é desconfiado e exige provas reais. Avaliações, tutoriais, vídeos explicativos e recomendações de criadores têm mais peso do que a publicidade tradicional. A reputação da marca, a clareza das informações e a fluidez da experiência são fatores tão importantes quanto o preço.
Rapidez e personalização
Outro traço marcante é a intolerância ao atrito. Checkouts longos, processos confusos, falta de transparência ou opções limitadas de pagamento afastam o consumidor imediatamente. A popularização do PIX, utilizado semanalmente por mais de 80% dos brasileiros, elevou o padrão de expectativa por rapidez e simplicidade. Em um contexto de incerteza, reduzir o esforço tornou-se tão valioso quanto reduzir o custo.
O Brasil também se destaca pelo apetite por experiências personalizadas, desde que acompanhadas de práticas claras de privacidade. O consumidor quer relevância, mas exige controle e transparência no uso de seus dados. Esse equilíbrio entre personalização e confiança será decisivo para marcas que desejam manter competitividade.
Em síntese, o consumidor brasileiro que chega a 2026 é híbrido: impulsivo e estratégico, emocional e racional, exigente e aberto à experimentação. A gerente de marketing da ABCS, Danielle Sousa, explica que o consumidor transita entre o físico e o digital com naturalidade, consome entretenimento como parte da rotina e espera que as marcas entendam seu contexto, respeitem seu tempo e entreguem valor imediato.
“Diante desse novo consumidor que é estratégico, digital e exigente, carne suína encontra uma grande oportunidade de reposicionamento. A personalização pode acontecer desde a comunicação segmentada nas redes sociais até a oferta de cortes, porções e receitas adaptadas a diferentes perfis e momentos de consumo”, explica ela, que também destaca o potencial nutricional da proteína suína. “O alto teor de proteína, vitaminas do complexo B e excelente relação custo-benefício dialogam diretamente com quem busca saúde, praticidade e inteligência financeira na hora da compra. Iniciativas digitais como o @maiscarnesuina já exemplificam esse movimento, ao levar conteúdo relevante e informativo ao público, fortalecendo a conexão entre produto, confiança e decisão de compra.”
Suínos
Paraná consolida liderança na exportação de suínos de raça; colheita de soja alcança 37%
Em 2025, o Paraná foi responsável por 62,1% da receita nacional de exportação de suínos de alto valor genético (US$ 1,087 milhão), tendo o Paraguai como o principal destino desse material.

O Departamento de Economia Rural (Deral), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab), divulgou nesta quinta-feira (26) o Boletim Conjuntural com dados atualizados da última semana de fevereiro. Nos assuntos em destaque, o levantamento aponta que o Paraná consolidou sua posição, entre os estados brasileiros, como o maior exportador de suínos reprodutores de raça pura.
Em 2025, o Paraná foi responsável por 62,1% da receita nacional de exportação de suínos de alto valor genético (US$ 1,087 milhão), tendo o Paraguai como o principal destino desse material. Esse desempenho reforça a sanidade e o padrão tecnológico do rebanho paranaense, que atende mercados como Argentina, Uruguai e Bolívia. “Essa escolha pelo Paraná mostra, mais uma vez, que o Estado tem genética de ponta e sanidade do rebanho”, destaca a médica veterinária e analista do Deral, Priscila Marcenovicz.

Fotos: Geraldo Bubniak/AEN
Ainda dentro da área da pecuária, o boletim destaca as exportações de carne bovina brasileira, que atingiram 258,94 mil toneladas, um aumento de mais de 25% em comparação ao mesmo mês do ano passado.
Há uma preocupação com a cota de importação chinesa, estabelecida em 1,1 milhão de toneladas. Só em janeiro, mais de 10% dessa cota já foi utilizada, o que pode causar variações no preço ao longo do ano. Mas outros mercados importantes continuam aumentando as aquisições de carne brasileira. No mercado interno, a maioria dos cortes bovinos pesquisados pelo Deral subiu de preço, com destaque para o filé mignon, que acumula alta de 17% em um ano.
Na avicultura de corte, o cenário é de margens positivas para o produtor paranaense. O custo de produção do frango vivo encerrou 2025 em R$ 4,65/kg, uma queda de 2,9% em relação ao ano anterior, impulsionada principalmente pelo recuo nos preços da ração (-8,92%). No fechamento do ano, o preço médio recebido pelo produtor (R$ 4,92/kg) ficou 4,2% acima do custo médio anual, preservando a rentabilidade em um setor que lidera as exportações de carne no Brasil.
Safra

O boletim trata ainda dos números da estimativa de safra, com base no relatório de Previsão de Safra Subjetiva, que tem como destaque a atualização da área de plantio do milho.
No setor de grãos, a soja caminha para uma colheita robusta, mantendo a estimativa de 22,12 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26. Até o momento, os trabalhos de campo atingiram 37% dos 5,77 milhões de hectares plantados, um ritmo considerado dentro da normalidade histórica. A manutenção da projeção traz segurança ao setor produtivo, embora o avanço da colheita da oleaginosa seja monitorado de perto, já que dita o ritmo de plantio do milho segunda safra e ajuda a mitigar riscos climáticos na janela de semeadura.
O milho também desempenha papel central no balanço mensal, com previsão de alcançar 21,1 milhões de toneladas no somatório das duas safras. A primeira safra já está com 42% da área colhida, enquanto o plantio da segunda safra atingiu 45% dos 2,86 milhões de hectares previstos. A ampla área destinada ao cereal no segundo ciclo sustenta a perspectiva de produção elevada, garantindo o suprimento para a cadeia de proteína animal, apesar da concorrência direta com a soja pelo cronograma de uso das áreas agrícolas.

Foto: Jaelson Lucas / AEN
Para o analista do Deral, Edmar Gervasio, o momento é bom. “Estamos tendo uma recuperação de área de plantio. Comparando com o período anterior, tivemos uma alta de mais de 20% em termos de área. Há muito tempo não se via um ganho de área na primeira safra porque a soja sempre é a principal cultura no primeiro ciclo de verão. Nesse ano, teve uma inversão. O milho ganhou espaço, principalmente, na primeira safra. E a produtividade tem sido muito boa. Devemos colher em torno de 3,6 milhões de toneladas na primeira safra e esse número pode melhorar”, disse.
Em contraste com a estabilidade da soja, a cultura do feijão acende um alerta devido à forte redução de área. O levantamento de fevereiro aponta uma retração na área da segunda safra em relação ao ano anterior. Segundo Carlos Hugo Godinho, engenheiro agrônomo e analista do Deral, a redução é um movimento de cautela do produtor, que busca culturas com custos de manejo mais previsíveis neste momento.
“Para quem produz, o cenário é de preços firmes, o que pode compensar o menor volume colhido. Já para o consumidor, mesmo com oscilação de preços a subida tem ocorrido de forma gradual e o varejo ainda possui estoques que amortecem o repasse imediato. A recomendação é que o consumidor pesquise, pois o feijão preto, por exemplo, ainda apresenta valores bem mais acessíveis que no mesmo período do ano passado”, diz.
