Suínos
Carlos Augusto Mallmann revela o que você precisa saber sobre micotoxinas
Ele coordena o principal laboratório de análises micotoxocológicas do Brasil e presta consultoria a empresas e organismos nacionais e internacionais, como a FAO
Carlos Augusto Mallmann, um dos mais respeitados pesquisadores do mundo sobre micotoxinas, concede entrevista exclusiva para o Presente Rural e fala tudo sobre o tema. Responsável pelo laboratório que realiza o controle de qualidade de 30 a 35% dos produtos da cadeia do agronegócio brasileiro, ele cita o país como dos mais preparados para o setor, aposta no controle e em – alguns – absorventes quando o problema se instala.
Professor titular de Saúde Pública da Universidade Federal de Santa Maria, (UFSM), doutor em Micotoxicologia pela Universidade Livre de Berlin e Escola Superior de Medicina Veterinária de Hannover – Alemanha, coordena o Laboratório de Análises Micotoxocológicas (Lamic/UFSM), credenciado pelo Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (Mapa) e creditado pelo Inmetro com a ISO 17025.
Considerado um guru sobre o tema, Mallmann presta consultoria na área gerencial e de controle de qualidade para as mais importantes empresas de produção de alimentos e nutrição brasileiras e internacionais, bem como, para organismos oficias, como a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).
O Presente Rural (OP Rural) – O que são micotoxinas, como surgem e onde estão?
Carlos Augusto Mallmann (CAM) – A micotoxina é um subproduto do metabolismo fúngico. O fungo, quando cresce, produz os metabótitos primários, aquilo que enxergamos como o mofo, mas em algumas situações ele produz outros metabólicos que são secundários. Micotoxina são esses metabólicos fúngicos secundários. O fungo nem sempre produz isso, nem sempre precisa produzir. São algumas situações que vão favorecer essa produção.
As micotoxinas estão e estiveram sempre presentes na natureza. Existem duas teorias para isso; umas delas diz que é uma proteção do fungo contra outros fungos; a outra é que, quando o fungo é ingerido por um animal, ele é destruído, então, ele produziria uma toxina para que o animal não o consumisse. Isso seria algo como “não vou comer isso porque vai me fazer mal”.
Quando nós submetemos o animal a uma dieta única (como os animais de produção), ele não tem opção de escolher o que vai comer, acabando estes entrando em contanto com mais intensidade com as micotoxinas, o que pode acarretar prejuízos. De uma forma geral, a micotoxina é um produto natural, que na maioria das vezes não apresenta risco nenhum aos animais e para as pessoas, desde que não seja consumida em grandes quantidades e por longos períodos.
Elas surgem a partir de condições que são baseadas numa tríade: temperatura, humidade e presença de oxigênio. Os fungos são aeróbicos, quer dizer que precisam de oxigênio. No momento em que eu tiro o oxigênio, o fungo não vai crescer e não vai produzir a toxina. Na silagem, por exemplo, não se produz micotoxinas porque o fungo não consegue crescer. Essa é uma estratégia que podemos adotar. Acomodar o milho à vácuo, sob uma atmosfera controlada, é uma estratégia para não produzir as micotoxinas. O fungo não consegue se reproduzir porque não tem ar.
Difícil de controlar, quando falamos em cereais, mas temos outras duas alternativas para que o fungo não tenha condições de crescer: uma é a temperatura – os fungos normalmente precisam de calor para crescer. Para a maioria deles obter bom crescimento, a temperatura ideal gira entre 20 e 35° C. Por outro lado, para que alguns fungos possam se desenvolver é preciso “um gatilho”, como a alternância entre calor e frio, que faz com que o fungo se estresse e, a partir disso, produza a micotoxina. Têm fungos que produzem em baixa temperatura e outros em alta, mas é muito difícil algum fungo produzir a toxina acima de 35° ou abaixo de 10°, isso por que eles não crescem bem em temperaturas extremas. Terceiro fator é que fungo precisa de água. Ele precisa ter uma humidade adequada para o crescimento. Isso é avaliado medindo a atividade de água, que é a água que está disponível para vida, para o crescimento. A atividade de água é uma medida que vai de 0 a 1 (água pura). Quando atinge valores superiores de 0,69, o ambiente já oferece condições para que alguns fungos consigam se desenvolver e então produzir as micotoxinas. Isso não pode ser confundido com humidade, porque atividade de água é uma medida um pouco diferente da humidade.
Transformando para o milho, uma humidade acima de 14% já oferece condições favoráveis para o crescimento de fungos e produção de micotoxinas.
Além desses três fatores determinantes, os substratos onde esse fungo vai crescer também representam relevância.
O fungo precisa “comer” alguma coisa e o milho é um excelente nutriente para alguns tipos de fungos. Outros gostam mais do trigo e assim por diante. Uma espécie de fungo não produz todas as micotoxinas. Alguns produzem somente uma toxina, outros produzem mais que uma, dependendo da matéria prima. Isso também precisa ser levado em consideração.
Algumas matrizes são bastante seguras; dificilmente encontramos micotoxinas em altas concentrações como na soja. Este, por enquanto, ainda é tido como um material que não representa grande risco para micotoxinas. Mas muitas vezes isso muda, dependendo de condições como a genética, por exemplo. Temos híbridos em que micotoxinas são formadas com mais facilidade, pois o fungo consegue produzir mais toxina neste material. No Paraná, há três anos estão sendo monitorados híbridos para observar quais se comportam melhor sob o aspecto das micotoxinas. Também está sendo levando em consideração produtividade e qualidade nutricional para compor o rendimento desses materiais, baseado em produtividade, qualidade nutricional e custo do tratamento contra as micotoxinas. É um trabalho inovador, que leva os reflexos diretamente à cadeia produtiva de uma forma muito holística.
OP Rural – Quais são as condições ambientais ideais para seu aparecimento?
CAM – Com o aquecimento global, este problema que vem sendo enfrentado por todos os países, está ocorrendo uma mudança do perfil micotoxicológico. Países que normalmente não se encontrava determinado tipo de toxina hoje já passam por uma epidemia. Isso é importante que se saiba, por serem mudanças climáticas muito rápidas.
Tivemos varias modificações nos últimos 20 anos.
Regiões que eram mais frias e não tinham determinadas micotoxinas, mas hoje começam a apresentar as toxinas que nós tivemos ou que estão “controladas” no Brasil. Quando surge esse tipo de problema, geralmente a cadeia produtiva é pega de surpresa, como foi o caso do Brasil, quando “surgiram” as micotoxinas, pois nós não estávamos preparados e não havia conhecimento técnico sobre o tema.
Hoje o Brasil é um país que faz pouca propaganda, mas estamos com a ciência muito mais avançada que a de outros países, principalmente na parte gerencial das micotoxinas. Nós monitoramos muito bem isso e sabemos como está essa situação.
Sintetizando sobre as condições ambientais, de forma geral ou especifica, temos anos em que determinada toxina se apresenta com maior intensidade. Em 2015 nós tivemos um problema com uma toxina que já não aparecia há bastante tempo em termos significativos. E em 2016 nós tivemos uma região do Brasil que foi assolada por um surto de aflatoxinas, que é a micotoxina mais perigosa do ponto de vista econômico. Era uma toxina que estava bem controlada, não havia presença significativa dela, e de um ano para outro apareceu em níveis altíssimos, preocupantes e com efeitos diretos na produtividade.
OP Rural – Quais as principais micotoxinas encontradas na matéria prima de rações no Brasil? Quais as matérias primas mais suscetíveis?
CAM – A primeira é uma pergunta bem fácil de responder em função do banco de dados que temos cadastrados aqui no Lamic. Hoje temos, no Brasil, mais de 1,3 milhão de análises dentro do banco de dados, então a informação é muito segura. Podemos afirmar com segurança sobre o que existe. Primeiro os métodos, a tecnologia que é empregada para fazer esse tipo de análise, é de ponta, baseada em normas internacionais irrefutáveis, ancoradas na ISO 17.025, de laboratórios de acreditação internacional. Os métodos que usamos no Brasil são os melhores que existem. Analisando esse banco de dados, com certeza a toxina mais presente no Brasil são a do grupo das fumonisinas. De cada três análises que se faz, duas têm a presença desta.
Depois temos as aflatoxinas e a zearalenona, presentes em cerca de 35% dos produtos. Também, a vomitoxina (DON), que é encontrada em 45% de todas as amostras analisadas.
Os dados são baseados em mais de 60 mil amostras analisadas. Com relação a outras toxinas, a presença delas não é, apesar do montante de análises que se faz, superior a 10%.
Entre as matérias primas mais contaminadas está o milho por causa da presença das fumonisinas. O milho é o material que tem mais risco de contaminação e, por ser a base das rações animais, é o produto de maior importância para o produtor rural. Depois, os mais suscetíveis são os derivados do trigo. No farelo de trigo são frequentemente encontrados resíduos de micotoxinas, principalmente porque estas se concentram mais na casca.
OP Rural – Qual a sua prevalência?
CAM – A respeito da prevalência, a gente tem que levar em consideração que temos uma contaminação cruzada de micotoxinas. É comum que tenhamos na mesma amostra quatro ou cinco micotoxinas diferentes. Em um levantamento que fizemos nas amostras, hoje temos 78 toxinas diferentes isoladas do milho brasileiro. Analisamos 15 micotoxinas diferentes na rotina. Quando fazemos uma análise de varredura (148 micotoxinas ou metabólicos), já encontramos 78 diferentes metabólicos de fungo. Não se avalia isso de rotina, pois é um processo bem demorado e com custos mais elevados.
Para a maioria das toxinas, nós não sabemos ainda exatamente o que são capazes de fazer e qual a importância econômica que elas têm dentro da produção animal. Ainda existem muitas questões sem explicação, com muito campo para ser estudado. No futuro, talvez tenhamos algumas explicações mais adequadas.
O assunto micotoxinas é bastante antigo, mas sempre tem novidades. Hoje, com novas tecnologias, temos plenas condições de determinar todas as toxinas. Falar sobre prevalência hoje é a luz dos conhecimentos atuais, e nós temos esta informação. Mas podemos ter subdosagens ou subidentificações, pois os processos não analisam todas as toxinas. A maioria das empresas se concentra nas análises dessas toxinas mais importantes.
OP Rural – Há níveis toleráveis para a nutrição animal?
CAM – Uma grande confusão que se tem com isso é que existe uma legislação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) que trata de níveis preestabelecidos toleráveis para humanos. É um alimento destinado para o consumo humano e não para o consumo animal. A RDC 7/2011 traz alguns adendos, algumas determinações de prazos, mas determina os valores permitidos para alimentação humana. A partir daquele limite, você tem um produto contaminado impróprio para o consumo.
Para os animais isso é diferente. No humano, temos o consumo esporádico de micotoxinas. Não comemos a toxina todos os dias, a não ser que você coma sempre a mesma coisa, como é o caso dos animais de produção. Estes vão receber a dieta por longos períodos. Se ela estiver contaminada, o animal não tem outra opção e vai acabar se intoxicando.
O nível tolerável depende muito do grau da contaminação, da concentração da toxina e do tempo em que o animal é exposto. Se o animal comer um dia a toxina, a não ser que sejam em concentrações extremamente altas, não vai ter dano perceptível. Porém, se comer uma dose moderada ou baixa, mas por longos períodos, certamente haverá prejuízo. Por isso é bastante difícil determinar o limite tolerável.
Além disso, há outros fatores. No caso de um leitão ou pintinho, eles têm limites de resistência baixos. Já uma gestante, com os fetos, é extremamente suscetível a micotoxinas. Então, não é uma coisa simples de você dizer que é tolerável. Vai depender ainda de outras situações, como se o animal é um macho ou uma fêmea. As fêmeas são muito mais suscetíveis do que machos. Machos são mais tolerantes a zearalenona, porém mais suscetíveis a aflatoxina, por crescerem mais rápido e pode então apresentar dano de produção e econômico com mais significância. Além disso, há a combinação de toxinas. Se você encontra duas ou três toxinas juntas, elas podem ser sinérgicas ou antagônicas. É bem dinâmico.
Ou ainda o produtor tem presença de outras enfermidades dentro da granja, o que enfraquece o animal. Logo, um nível mais baixo de toxina vai interferir na produção.
Existe uma fórmula, um logarítmo que se desenvolveu para calcular qual o risco que as micotoxinas representam. Não é algo simples, pois envolve toda essa experiência que tem que ter com esses e outros fatores.
Resumindo. Existe uma legislação para alimentos destinados ao consumo humano, mas para animais o limite tolerável não é uma constante em função desses fatores citados.
OP Rural – O que causam na matéria prima da nutrição animal?
CAM – As micotoxinas são produzidas por fungos. Estes, sim, causam alterações que a gente pode ver no grão. Mas, como já visto antes, nem sempre esta alteração vem acompanhada da presença de uma micotoxina. Em boa parte das situações, nós temos um material que não apresenta nenhuma característica que se desconfiaria que pudesse estar contaminada. Muitas vezes o fungo produz a toxina à margem daquilo que a gente pode ver. Situações estressantes podem levar a uma produção maior de micotoxinas.
Isso não interfere significativamente no valor nutricional da matéria prima, mas haverá o prejuízo nesse material por conta da contaminação pela toxina.
OP Rural – Quais seus efeitos no desempenho zootécnico de aves, suínos e bovinos?
CAM – As diferentes espécies, começando pelos suínos, apresentam características que nós podemos medir quando o rebanho está submetido a essas toxinas. Os suínos são, dentro daquelas espécies de maior produção, os mais suscetíveis a todas as micotoxinas, e vão apresentar, consequentemente, maiores prejuízos zootécnicos. Todas as micotoxinas afetam ou o aparelho reprodutor, ou o aparelho gastrointestinal, a proteção hepática, o aparelho respiratório e o sistema imunológico dos suínos. Quando temos um material contaminado, a última espécie a qual nós devemos destinar esse material são os suínos, especialmente as fêmeas e os leitões, estes por estarem em fase ou estado fisiológico mais delicado ou por terem uma capacidade de detoxicação menor que o animal adulto. São os que apresentam maiores problemas zootécnicos.
Os peixes também são afetados, mas o controle é baixo e por isso esse tema ainda é bem pouco explorado. Os peixes são uma das principais vítimas das rações contaminadas, especialmente por aflatoxinas. Sobre as demais micotoxinas, ainda não têm estudos aprofundados no Brasil, apesar de também afetar a piscicultura. Portanto, os peixes estão junto com os suínos entre as espécies mais suscetíveis.
Dentre as aves, o pato e o marreco estão como os mais suscetíveis de toda a cadeia, sendo até mais sensíveis que o próprio suíno. Como são animais que, do ponto de vista brasileiro, não têm uma expressão de produção, define-se que os suínos como os mais prejudicados. Mas essas espécies, seguidas do peru, além das aves aquáticas, praticamente não têm resistência nenhuma às micotoxinas, muito em função do seu hábito alimentar natural.
O frango de corte é afetado especialmente quando jovem. O pintinho já é, por si só, mais suscetível a várias influências, e apresenta características de, assim como outras espécies, não recuperar mais o peso perdido durante os estágios iniciais do seu crescimento.
Nos bovinos, os primeiros estudos profundos começam a sair agora no Brasil. A zearalenona é uma toxina que mostra características no aspecto reprodutivo, então interfere na parte de fertilidade. A aflatoxina, em função da transmissão via excreção dela pelo leite, representa uma barreira sanitária bastante importante. Além disso, tem ainda o aspecto social, já que leite é consumido principalmente por crianças, associado à característica da toxina.
OP Rural – Até que ponto as micotoxinas podem interferir no desempenho econômico da propriedade rural?
CAM – O diagnostico de micotoxinas, em nível de propriedade, é de uma forma geral feito quando há um prejuízo muito avançado. Nos dias atuais é muito difícil, exceto em pets ou alguma situação específica. A maioria das empresas monitora isso e usam produtos para mitigas os efeitos Por isso, hoje não se encontram mais aqueles casos clássicos de micotoxicoses a campo.
Hoje o produtor acaba perdendo em desempenho. O desempenho zootécnico é a única forma que se tem para medir o impacto da micotoxina. Ou seja, o diagnóstico só pode ser feito no momento em que eu tenho a presença do agente associado (micotoxina) a sinais clínicos compatíveis (lesões ou prejuízo). E isso que interfere bastante, é muito difícil ver esses sinais clínicos. Mas, do ponto de vista econômico, as micotoxinas impactam diretamente a produtividade e isso afeta o desempenho econômico da propriedade significativamente.
OP Rural – Quais são as etapas do processo de produção e armazenagem de rações mais suscetíveis à contaminação por micotoxinas?
CAM – Normalmente o material já vem contaminado da lavoura. Na parte de secagem e armazenagem nós temos o segundo ponto mais importante na produção das micotoxinas. Seguramente que silos mal gerenciados, sem aeração adequada, sem a termometria para controle e uma série de outras práticas que adotamos na armazenagem, respondem por 95% dos problemas de contaminação de rações em nível de armazenagem. Durante o processo em si, salvo algumas situações de resíduos que permaneçam dentro da linha de produção mal descontaminados, são os momentos em que se detecta a produção de micotoxinas.
A campo, em nível de armazenagem do produtor, se a condução deste armazém não for seguida de um protocolo de limpezas periódicas, mesmo que sejam mecânicas, seguramente nós temos um ponto que há possibilidade de produção. O material fica pouco tempo armazenado, mas entre 12 e 24 horas após o armazenamento os fungos já conseguem produzir as micotoxinas. Normalmente da fábrica sai um material com uma atividade de água (Aw) adequada. Porém, o que percebemos dentro dos caminhões, do transporte, e dentro do silo do produtor, são pontos de condensação da umidade, onde são oferecidas condições favoráveis ao crescimento de fungos e, em algumas situações, a produção de micotoxinas.
Hoje já existem equipamentos no mercado que são utilizados para lavagem automática dessas unidades armazenadoras de ração em nível de propriedade. São injetores, que fazem uma lavagem úmida dentro do silo, removendo restos e praticamente esterilizando o interior. O mais importante e simples é fazer uma remoção mecânica dos detritos que ficam dentro daqueles pontos de condensação, que formam bolas ou cascas dentro do silo. Isso é bastante simples e altamente recomendado no processo da fábrica até a boca do animal.
OP Rural – O que indústria e produtores precisam fazer para evitar a contaminação por micotoxinas na nutrição animal?
CAM – Fazer todos os processos de prevenção que nós já comentamos acima. Mas, para situações quando já ocorreu a contaminação na matéria prima, a alternativa mais eficiente é a utilização dos aditivos antimicotoxinas, os adsorventes.
Esses são produtos adicionados em determinadas concentrações na dieta e que têm a capacidade de prevenir a doença ou a intoxicação do animal. O problema desta estratégia é que boa parte dos produtos não tem eficiência comprovada. Isso quer dizer que as empresas e produtores, quando utilizam esses produtos, devem avaliá-los no sentido de solicitar a comprovação técnico-científica da sua eficiência. Isso é uma sugestão de legislação, que foi apresentada pela primeira vez no Brasil, para que o produtor tenha certo grau de segurança quando utiliza essa classe de produto. E isso é obtido através de teste in vitro e avaliações in vivo que visam a certificação de qualidade do produto. Os in vitro não servem para dizer se o produto funciona contra determinada micotoxina, mas sim um controle de qualidade para dizer que aquele produto está sendo produzido é o mesmo que passou por uma avaliação in vivo. A avaliação in vivo é a única que vai comprovar que o produto funciona no modelo animal. E essas avaliações são específicas para espécie animal. Alguns funcionam em suínos, mas não funcionam em aves, e vice versa, e também são específicos para a toxina. Não existe nenhum produto no mercado que é capaz de proteger contra todas as micotoxinas, assim como não existe nenhum antibiótico que é capaz de proteger contra todos os microrganismos – mesma verdade cabe às classes distintas de produtos. O produtor, ao adquirir um produto destes, deve solicitar ao fornecedor um atestado de eficiência. Não é o registro do produto, pois produtos são registrados muitas vezes sem terem essas exigências. O produtor deve solicitar que o produto seja avaliado in vivo e não somente pelo registro no Mapa (Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento). O controle de eficiência deve ser periódico. Os registros são exigidos, mas depois que o produto está registrado nunca mais é reavaliado. Então, o produtor deve exigir do fornecedor essa comprovação periódica.
OP Rural – Quais as políticas públicas e privadas usadas hoje no Brasil para o controle de micotoxinas?
CAM – O Brasil foi um dos pioneiros em reconhecer o problema e buscar soluções para as micotoxinas. Mas isso partiu da iniciativa privada, que amargava os prejuízos das micotoxinas presentes nos cereais e consequentemente nas dietas. O esforço foi basicamente dos atingidos pelo problema. Não pode se dizer exatamente políticas públicas, mas as universidades e centros de pesquisa brasileiros empreenderam consequentemente um esforço muito grande no sentido de ajudar o mercado agropecuário. Inicialmente se iniciou com estruturas capazes de fazer o diagnóstico das micotoxinas e ter o dimensionamento do problema. No ano de 1995 surgiram os primeiros estudos com os absorventes e aditivos antimicotoxinas no Brasil. Foi em 1996 que foi publicado o primeiro artigo científico de um produto capaz de minimizar os efeitos da aflatoxinas. Após isso, houve um ciclo muito longo de pesquisas, melhorando o diagnóstico com o emprego de tecnologias mais modernas e investindo no controle, além de desenvolvimento de produtos capazes de minimizar os efeitos tóxicos das micotoxinas.
Em 2011, a Anvisa lançou uma normativa determinando os limites máximos toleráveis para praticamente todas as micotoxinas em todas as matérias primas destinadas ao consumo humano. A legislação do Brasil é em relação ao consumo da área humana e não animal. Mesmo porque o aspecto de concentrações do animal é uma noção diferente. O animal é submetido a uma dieta monofatorial a longos períodos e consequentemente os níveis são diferentes para as espécies.
Essa legislação, como efeito colateral, representou uma pressão sobre a agricultura, sobre a produção de grãos, que fomentou e implementou com mais intensidade as boas práticas agrícolas e genéticas para a produção de cereais e alimentos com baixa contaminação de micotoxinas. Isto alavancou o mercado, e o Brasil hoje investe privadamente bastante nisso e também publicamente, com a Embrapa e universidades, que estão incluídas nesse espírito de trabalhar mais na prevenção e evitar que o problema seja gerado lá no final da cadeia. Isso passa pela seleção genética de híbridos e variedade de trigo e cereais, assim como boas práticas agrícolas, uso de defensivo e outros fatores importantes no processo de formação das micotoxinas.
Do ponto de vista internacional, barreiras sanitárias geradas pelas micotoxinas pressionam o mercado para que as boas práticas agrícolas sejam implemantadas, bem como haja um diagnóstico de precisão para que o produto nacional possa ser exportado sem risco de gerar problemas econômicos e de imagem do país no exterior. Então, uma coisa puxou a outra nesse sentido.
Da parte da indústria, há um investimento em análises. A própria indústria passou a monitorar o sistema internamente e com isso houve uma pressão de seleção de matéria prima de melhor qualidade.
OP Rural – Como é feito o diagnóstico?
CAM – Uma forma de nós termos o problema controlado é nós sabermos da existência do mesmo e a magnitude com que se apresenta. A indústria, de uma forma geral, passou a monitorar o problema em função dos prejuízos causados. É mais fácil e importante saber antecipadamente a contaminação a qual o seu rebanho está submetido. No início da década de 1990, laboratórios começaram a trabalhar com tecnologia de cromatografia de camada delgada, que é uma tecnologia muito difícil de ser empregada na indústria. Depois surgiram métodos, que são referência até hoje, empregando HPLC. Modernamente, se faz o diagnóstico praticamente de todas as micotoxinas com a utilização do HPLC acoplado à espectrometria de massa. Essa tecnologia permite qualificar e quantificar a toxina numa mesma máquina. Permite também determinar uma gama enorme de micotoxinas, então o espectro de aplicação desta tecnologia tende a aumentar a sua importância.
Esses são os métodos de referência passíveis de serem acreditados, ou seja, permitem resolver as questões mais difíceis no aspecto de litígios e é única forma em ter informação aceita em todos os países. Então, somente laboratórios acreditados pelo In Metro certificam o resultado de uma análise.
Surge após o emprego de métodos imunológicos, mais rápido e possível de empregar nas empresas, facilitando a resposta da análise. Esse método passou a ser utilizado com frequência dentro da indústria.
Agora, aparelhos que geram a informação instantânea quanto às micotoxinas. Você colhe uma amostra, mói, insere no equipamento e gera o espectro. Antes mesmo de descarregar caminhão você já tem a informação sobre grau de contaminação da matéria prima, o que facilita o gerenciamento dos silos.
Isso permite qualificar o silo do ponto de vista do custo de produção das rações. Você sabendo que aquele silo tem carga alta para determinada micotoxina, vai gerenciar utilizando o produto adequado. A técnica mais moderna que se tem no sistema gerencial. Esse sistema tem a vantagem de ter custo muito mais baixo e não precisa de mão de obra altamente especializada, tampouco restrições de horário de utilização, isso porque não depende de laboratórios para fazer as análises. Este gerenciamento permite também calcular a quantidade de adsorventes necessária para fazer aquela ração destinada àquela espécie, sexo ou empresa, por exemplo.
Mais informações você encontra na edição de Suínos e Peixes de fevereiro/março de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

Suínos
Suíno vivo registra variações nos preços em janeiro
Mercado apresenta comportamento distinto nas regiões acompanhadas pelo Cepea.
Suínos
ACCS empossa nova diretoria e reforça foco em mercado e sanidade na suinocultura catarinense
Entidade inicia novo mandato de quatro anos com Losivanio Lorenzi reeleito e destaca desafios ligados às exportações, biosseguridade e inovação no setor suinícola de Santa Catarina.

A Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS) realizou, nesta sexta-feira (09), a posse oficial da diretoria eleita em assembleia geral no dia 10 de outubro do ano passado. O ato marcou o início formal do novo mandato da entidade e reafirmou a continuidade do trabalho desenvolvido nos últimos anos em defesa da suinocultura catarinense.

Presidente reeleito da ACCS, Losivanio Luiz de Lorenzi: “A ACCS é construída de forma coletiva. Mesmo fora da diretoria, os produtores continuam participando, sugerindo e fortalecendo a entidade” – Foto: Divulgação/ACCS
Durante a cerimônia, o presidente reeleito, Losivanio Luiz de Lorenzi, destacou que a nova gestão mantém o compromisso com a representatividade do setor, aliando experiência e renovação. Segundo ele, alguns membros passaram por mudanças, a pedido, abrindo espaço para novas lideranças, sem perder o apoio e a contribuição daqueles que deixam os cargos diretivos. “A ACCS é construída de forma coletiva. Mesmo fora da diretoria, os produtores continuam participando, sugerindo e fortalecendo a entidade”, afirmou.
Losivanio ressaltou que os principais desafios do novo mandato estão ligados ao acompanhamento constante do mercado, tanto no cenário estadual e nacional quanto no internacional.
Santa Catarina responde por mais de 50% das exportações brasileiras de carne suína e, em 2024, superou o Canadá, tornando-se o terceiro maior exportador mundial da proteína. Nesse contexto, o presidente reforçou a importância da atuação conjunta com indústrias e cooperativas, fundamentais para a comercialização da produção.
Outro ponto central abordado foi a manutenção do elevado status sanitário do rebanho

Foto: Divulgação/ACCS
catarinense. Para a ACCS, a biosseguridade e a sanidade animal são pilares estratégicos para a permanência e ampliação do acesso aos mercados internacionais, além de garantirem qualidade e segurança ao consumidor brasileiro. “É a sanidade que nos mantém competitivos e confiáveis no mundo”, destacou.
A nova diretoria assume com a missão de seguir inovando, acompanhando as transformações do setor, inclusive com o avanço de novas tecnologias e da inteligência artificial, sempre com foco na sustentabilidade da atividade, na qualidade de vida do suinocultor e na entrega de uma proteína segura e de alta qualidade à mesa do consumidor. O mandato tem duração de quatro anos.
Suínos
Biosseguridade como estratégia para proteger a suinocultura catarinense
Nova portaria estadual reforça a prevenção sanitária nas granjas, combina exigências técnicas com prazos equilibrados e conta com apoio financeiro para manter Santa Catarina na liderança da produção de proteína animal.

Santa Catarina é reconhecida nacional e internacionalmente pela excelência sanitária de sua produção animal. Esse reconhecimento não é fruto do acaso: é resultado de um trabalho contínuo, técnico e coletivo, que envolve produtores, agroindústrias, cooperativas, entidades de representação, pesquisa e o poder público. Nesse contexto, a Portaria SAPE nº 50/2025, em vigor desde 8 de novembro de 2025, representa um marco decisivo para a suinocultura tecnificada catarinense, ao estabelecer medidas claras e objetivas de biosseguridade para granjas comerciais.
Ao ser elaborada pela Secretaria de Estado da Agricultura e Pecuária (Sape) em conjunto com a Cidasc e outras instituições ligadas ao setor produtivo e à pesquisa agropecuária, a normativa consolida um entendimento que sempre defendemos: a prevenção é a melhor estratégia. Em um cenário global marcado por riscos sanitários crescentes, pressão por padrões mais rigorosos e mercados cada vez mais exigentes, proteger o plantel catarinense significa proteger empregos, renda no campo, investimentos industriais e a confiança dos compradores internacionais.

Diretor executivo do SINDICARNE, Jorge Luiz De Lima – Foto: ARQUIVO/MB Comunicação
A Portaria traz prazos que demonstram equilíbrio e respeito à realidade das propriedades. As granjas preexistentes têm período de adaptação, com adequações estruturais previstas para ocorrer entre 12 e 24 meses, conforme o tipo de ajuste necessário. Contudo, também há medidas de implementação imediata, principalmente de caráter organizacional, baseadas em rotinas padronizadas de higienização, controle e prevenção. É o tipo de avanço que qualifica a gestão e eleva a eficiência sem impor barreiras desproporcionais.
Vale destacar que muitas granjas catarinenses já operam nesse padrão, em razão das exigências sanitárias de mercados internacionais e do comprometimento histórico do setor com boas práticas. Por isso, a adaptação tende a ser tranquila, além de trazer ganhos diretos de controle, rastreabilidade e segurança. Entre as principais ações previstas, estão: uso obrigatório de roupas e calçados exclusivos da unidade de produção; desinfecção de equipamentos e veículos; controle rigoroso de pragas e restrição de visitas; tratamento da água utilizada; e manutenção de registros e documentação atualizados. São medidas que, embora pareçam simples, fazem enorme diferença quando aplicadas com disciplina.
Outro ponto que merece reconhecimento é a criação do Programa de Apoio às Medidas de Biosseguridade na Produção Animal Catarinense, instituído pela Resolução nº 07/2025. O Governo do Estado não apenas regulamentou: também viabilizou um caminho real para que o produtor possa investir. O programa permite financiamento de até R$ 70 mil por granja, com pagamento em cinco parcelas, sem correção monetária ou juros, e com possibilidade de subvenção de 20% a 40% sobre o valor contratado. Trata-se de um estímulo concreto, que fortalece a base produtiva e mantém Santa Catarina na liderança brasileira em produção e exportação de carne suína.
O processo é tecnicamente estruturado e acessível. O suinocultor deve elaborar um Plano de Ação (Plano de Adequação), com apoio de médico-veterinário da integradora, cooperativa ou assessoria técnica — incluindo alternativas como o Sistema Faesc/Senar-SC para produtores independentes. O documento é preenchido na plataforma Conecta Cidasc. A partir dele, a Cidasc emite o laudo técnico, e o produtor pode buscar o financiamento do Fundo Estadual de Desenvolvimento Rural (FDR), com solicitação feita junto à Epagri, que atua como ponte para viabilizar o acesso à política pública.
Biosseguridade não é custo; é investimento. É ela que sustenta a sustentabilidade do setor, reduz perdas, previne crises e mantém nossa competitividade. A Portaria nº 50/2025 e o Programa Biosseguridade Animal SC mostram que Santa Catarina segue fazendo o que sempre fez de melhor: antecipar desafios, agir com responsabilidade e proteger seu patrimônio sanitário, garantindo segurança, qualidade e confiança do campo ao mercado.

