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Ventilação mínima: princípios e principais pontos de atenção

Correto manejo da ventilação mínima é de extrema importância para a obtenção de resultados zootécnicos superiores e a expressão de todo o potencial genético das aves

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Arquivo/OP Rural

 Rodrigo Tedesco Guimarães, Supervisor Regional de Serviços Técnicos, especialista em frango de corte da Aviagen

Contato: rtedesco@aviagen.com Aviagen

 

A ventilação é o principal parâmetro de atenção e controle de um ambiente adequado para as aves. A ventilação mínima traz ar fresco para dentro do galpão, remove o excesso de umidade e limita o acúmulo de gases potencialmente nocivos.

Trata-se de um processo orientado por ciclos de tempo. A qualquer hora, dia ou noite, que a temperatura externa estiver abaixo do Set-Point do aviário, deve-se considerar “clima frio em relação às aves” e a ventilação mínima será benéfica para as mesmas.

Deve-se ter atenção a dois pontos fundamentais para a correta execução da ventilação mínima:

1 – Aviário Bem-Vedado e Isolado

  • Os aviários devem ser bem fechados e vedados ao máximo.
  • Quanto melhor a vedação do galpão:
  • mais fácil será criar a pressão negativa;
  • mais controle você terá de onde e do modo como o ar entrará no aviário;
  • Um aviário bem isolado manterá o calor em seu interior em condições de clima frio.

2 – Capacidade de Aquecimento

Deve-se ter capacidade de aquecimento suficiente para manter o Set-Point ideal de acordo com a idade das aves, proporcionando ventilação adequada para que a qualidade do ar seja aceitável para as aves independente da temperatura externa.

Reduzir a capacidade de aquecimento em um aviário não reduzirá necessariamente o custo/consumo total do aquecimento:

ter mais capacidade de aquecimento, bem distribuído em todo o aviário, muitas vezes resultará em menor custo e ambiente melhor e mais uniforme para as aves.

A ventilação não deve ser reduzida abaixo do mínimo necessário para manter a qualidade do ar (umidade, amônia, CO2, CO) a fim de reduzir o custo de aquecimento.

Para o correto manejo e configuração da ventilação mínima, o ar frio deve passar pelas entradas das paredes laterais dos galpões (Inlets), e ser direcionado até o topo do teto.

Isso é importante porque:

  • mantém o ar frio que entra longe das aves;
  • o ar frio que entra irá misturar-se com o ar quente interno do aviário, que em um aviário bem isolado e vedado se acumula no topo do teto;
  • o fluxo do ar que entra ajuda a trazer o ar quente para baixo, a nível das aves;
  • a ventilação mínima ajuda a misturar o ar no aviário, quebrar qualquer estratificação térmica e na qualidade do ar;

Durante a ventilação mínima, as entradas de ar devem operar de acordo com a pressão negativa (diferencial de pressão).

A pressão negativa operacional ideal para um aviário específico varia e depende:

  • da largura do aviário (distância que o ar precisa percorrer para chegar ao topo do teto);
  • do ângulo e forma do teto interno;
  • do tipo de entrada de ar;
  • do tamanho da entrada de ar;

Para uma determinada forma de teto, a exigência da pressão será menor para um teto liso em comparação com um teto com vigas/treliças expostas.

Um guia útil para estimar a pressão operacional para um determinado aviário, é que para cada aumento na pressão negativa de 3-4 Pa, o ar será lançado cerca de 1m para dentro do aviário.

Por exemplo, para um aviário com 14 m de largura, a pressão operacional deverá ser:

(14/2) * 3-4 = 21-28 Pa

O manejo da entrada de ar é parte crucial da ventilação mínima. Geralmente, nem todas as entradas de ar deverão ser abertas durante a ventilação mínima, e estas deverão ser abertas de maneira uniforme garantindo o correto fluxo e distribuição de ar uniformes.

A abertura mínima recomendada da entrada de ar é de aproximadamente 5cm.

Se as entradas de ar não estiverem abertas o suficiente, o ar que entra só percorrerá uma curta distância antes de chegar até as aves, independentemente da pressão do aviário.

Se as entradas de ar estiverem muito abertas ou muitas delas estiverem abertas, a pressão negativa no aviário será reduzida e a velocidade que o ar entrará no aviário será muito baixa, chegando diretamente até as aves.

Ter menos entradas de ar abertas e com a abertura “correta” (mínimo de 5 cm) é melhor do que ter todas as entradas de ar não suficientemente abertas.

Se houver obstáculos no teto e/ou forração do aviário obstruindo a passagem do ar, será importante utilizar uma placa direcionadora do ar, que deverá ser instalada acima da entrada de ar lateral (Inlet).

Se o aviário tiver um teto liso, a orientação geral é ajustar a placa direcionadora de modo que o ar entre em contato com a superfície do teto ±0,5m a 1m distante da parede lateral.

Para tetos que tenham obstruções que cruzam a direção do fluxo de ar, a placa direcionadora deve ser ajustada para conduzir o ar que entra abaixo da(s) obstrução(s).

Uma forma simples e eficaz de verificar se a configuração da placa direcionadora está correta é, usar um ponteiro laser fixado na placa afim de ajustar o ângulo correto desta.

Abaixo dois exemplos de utilização de ponteiro laser para verificar o fluxo do ar:

O fluxo do ar e a pressão operacional devem ser testados, verificados e confirmados através de um teste de fumaça ou do método com fita magnética.

O ar deve fluir para o centro do aviário (topo do telhado) antes de desacelerar e descer em direção ao chão.

Ao usar um teste de fumaça verifique:

Ao usar o método com fita magnética verifique:

  • Escolha uma entrada da ventilação mínima, de preferência, próximo da entrada do aviário.
  • Pendure tiras de fita magnética ou de plástico leve (aproximadamente 15cm de comprimento) a cada 1-1,5m na frente da entrada escolhida, até o topo do teto.
  • Se o movimento do ar estiver correto, cada tira deverá se mover. A tira mais próxima da entrada de ar se moverá mais do que as outras tiras, e à medida que observamos as demais tiras em direção ao topo do teto o movimento vai diminuindo gradativamente.
  • Essas tiras podem permanecer no lugar durante todo o ciclo de produção, para fornecer uma verificação visual rápida.

A regulagem/calibração/verificação das entradas deverá ser feita quando o aviário estiver na temperatura operacional definida e a temperatura externa for mínima (em outras palavras, em condições menos favoráveis).

As explicações acima sobre a configuração e manejo das entradas referem-se às laterais (Inlets). No entanto, os princípios básicos serão aplicados à maioria dos tipos de entrada ao serem utilizadas durante a ventilação mínima. É importante ter em mente que o ar quente sobe e se acumula sempre na parte mais elevada do galpão e todo o ar que entra, independentemente do tipo de entrada, deve ser direcionado para cima, garantindo assim o correto acondicionamento e dinâmica de ar.

Como calcular a taxa de ventilação mínima?

Existem tabelas e programas de ventilação mínima que se baseiam em uma série de fatores, tais como o peso corporal das aves, níveis de CO2, amônia, temperatura e umidade ambiental.

Qualquer programa de ventilação mínima deve ser considerado apenas como uma forma de orientação, visto que, na maioria das vezes, a ventilação mínima destina-se a controlar a umidade, não a fornecer ar fresco às aves.

O aumento da umidade no aviário é muitas vezes o primeiro sinal de insuficiência na ventilação mínima.

Ao avaliar o histórico de umidade, verifique o comportamento da mesma e observe como estava a umidade ao entardecer e como está ao amanhecer. Esta informação é importante para verificar possíveis sinais de insuficiência na ventilação, constatada sempre que a umidade ao amanhecer for superior a umidade ao entardecer.

O bom manejo do ciclo de ventilação mínima é importante para garantir que o ar úmido seja removido do aviário de forma eficiente. Normalmente quando a umidade está sob controle, as outras variáveis como CO2, amônia, umidade da cama e níveis de poeira também estarão.

Para garantir que saúde, bem-estar e indicadores zootécnicos não sejam comprometidos, torna-se importante manter os níveis abaixo:

  • Amônia: abaixo de 10ppm;
  • CO²: abaixo de 3000ppm;
  • CO: abaixo de 10ppm;
  • Umidade ambiental: 60-70% no alojamento e 50-60% nas demais fases;
  • Poeira: os níveis de poeira no aviário devem ser mantidos mínimos;

Quando em visita à uma granja, avalie a qualidade do ar no primeiro minuto em que entrar no aviário, evitando assim que se habitue às condições internas do aviário.

O comportamento das aves e a qualidade do ar são os melhores indicadores da qualidade do manejo da ventilação mínima.

Observe as aves em silêncio e responda as seguintes questões:

  • Como está a atividade das aves nos comedouros e bebedouros?
  • As aves estão distribuídas adequadamente?
  • Há áreas abertas sem aves?

Para minimizar possíveis interferências ao observar o comportamento das aves, certifique-se de que ninguém tenha estado no aviário nos últimos 20-30 minutos. Se houver uma janela de visualização na sala de serviço, use-a para observar o máximo possível o comportamento e a distribuição das aves antes de entrar no aviário.

Os seguintes sinais sugerem a necessidade de aumentar a taxa de ventilação mínima:

  • UR elevada;
  • ar “abafado”;
  • níveis de amônia elevados;
  • gotas de água (condensação) nas linhas de água;
  • condensação nas paredes e/ou no teto;
  • cama úmida;

Os seguintes sinais sugerem que a taxa de ventilação mínima pode estar elevada e que pode ser reduzida:

  • a qualidade do ar está tão boa quanto a externa;
  • cama muito seca;
  • ambiente empoeirado no aviário;
  • não foi possível manter a temperatura definida no aviário durante a noite;

Durante toda a vida do lote, faça anotações sobre as mudanças aplicadas à ventilação mínima. Use as anotações para atualizar as configurações do controlador e o programa de ventilação mínima.

Lembre-se que o correto manejo da ventilação mínima é de extrema importância para a obtenção de resultados zootécnicos superiores e a expressão de todo o potencial genético das aves. As taxas de ventilação mínima podem e devem ser alteradas sempre que os fatores mencionados acima não estiverem dentro dos parâmetros aceitáveis.

Deve-se manejar as taxas de ventilação mínima com a mesma atenção dada ao manejo da temperatura, e sempre que se optar por reduzir as taxas, isto deve ser feito sem que prejudique a qualidade do ar.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Nutrição

Micotoxinas: histórico e aspectos gerais

Muitas vezes, é possível prever a contaminação por micotoxinas nos grãos baseados na observação das doenças nas lavouras

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Arquivo/OP Rural

Artigo escrito por André Viana, doutor em Medicina Veterinária, gerente geral de Serviços Técnicos e P&D da Polinutri; e Jaqueline de Paula Gobi, zootecnista, doutora em Nutrição e Produção Animal e gerente de Nutrição e Formulação da Polinutri

Microtoxinas são conjuntos de substâncias tóxicas ao homem e aos animais domésticos, quimicamente complexas e pouco relacionadas entre si, sintetizadas como metabólitos secundários (não necessários ao crescimento normal, desenvolvimento e reprodução) por certos fungos pluricelulares ou filamentosos, também conhecidos como bolores ou mofos. Acredita-se que a função biológica das micotoxinas seja atuar como fator de competição com bactérias pelo substrato ou, ainda, que as micotoxinas sejam produzidas como um erro ou desvio do metabolismo fúngico durante estresse ambiental ou como simples acaso da programação genética de fungos.

Estima-se que hoje sejam conhecidos 20% dos fungos e que as 300 micotoxinas conhecidas representem cerca desse 2% total. Segundo a FAO, 25% dos alimentos do mundo estão contaminados por micotoxinas e, de acordo com o Banco Mundial, 40% do tempo de vida de indivíduos de países em desenvolvimento são perdidas em função de doenças moduladas por toxinas fônicas. No Brasil, dados do LAMIC de 215 mil amostras de ingredientes e rações analisadas apontam para uma contaminação de aproximadamente 35% dessas amostras por aflatoxinas, 33% para zearalenona, 69% para fumonisinas, 44% de desoxinivalenol, 4% para ocratoxina e diacetoxyscirpenol e 1% para toxina T-2.

Há muitos séculos se conhece a toxidade de certos fungos, havendo relatos de problemas ocasionados pela contaminação de alimentos por fungos na China, Grécia e Egito. Entretanto, somente por volta de 1850 – quando se relacionou a ingestão de centeio infectado pelo fungo Claviceps purpurea com as características clínicas do ergotismo, tais como gangrenas, convulsão e alucinações – foi levantada a possibilidade de haver risco à saúde humana e animal pela ingestão de metabólitos tóxicos produzidos por fungos. Algum tempo depois, foram observadas outras micotoxicoses que afetavam os seres humanos, com a identificação de uma síndrome relacionada com o consumo de pão contaminado por Fusarium graminearum: a chamada estaquibotritoxicose humana, além de estudos sobre a chamada aleucia tóxica alimentar (ATA) e o consumo de cereais de inverno infectados por Fusarium poae e Fusarium sporotrichioides.

Os fungos produtores das micotoxinas de maior importância pertencem aos gêneros Aspergillus (produtores de aflatoxinas), Penicillium (produtores de ocratoxinas) e Fusarium (produtores de desoxinivalenol, toxina T-2, zearalenona, ergotoxinas e fumonisinas). Fungos desses gêneros têm alta capacidade de acumulação em alimentos e rações, em quantidades capazes de causar efeitos tóxicos, denominado micotoxicoses, tanto em animais quanto em seres humanos.

Os diferentes gêneros e espécies de fungos apresentam diferentes temperaturas ótimas de crescimento, o que explica por que em zonas tropicais e subtropicais em geral há uma prevalência de ocorrência de aflatoxinas, enquanto em zonas temperadas há uma prevalência de tricotecenos.

Severidade

As micotoxicoses têm seu grau de severidade influenciado por inúmeros fatores, dentre os quais podemos citar espécie animal, sexo, idade, estado de saúde e conforto do animal e quantidade ingerida e acumulada no organismo da micotoxina. A presença de determinada micotoxina pode ainda potencializar a ação de outra, exemplificada pelo sinergismo entre aflatoxinas e fumonisinas. A ação combinatória de ambas é capaz de causar câncer, teratogênese, alterar a fisiologia reprodutiva dos animais, diminuirá atividade do sistema imune de animais, aumentando a susceptibilidade a doenças, reduzir o desempenho dos animais, ocorrendo queda no ganho de peso e consumo de ração e aumento do índice de conversão alimentar. Podem, ainda, provocar lesões em músculos ou órgãos (fígado, moela, rins, pâncreas, intestino, bolsa de fabricius, coração, sistema nervoso, etc.) causando rejeição de carcaças nos abatedouros e frigoríficos. Provocam redução na secreção e atividade de enzimas digestivas. Assim, níveis aparentemente baixos de toxinas individuais tornam-se importantes quando combinados.

O mais conhecido subgrupo de micotoxinas pelo homem são as aflatoxinas, que foram identificadas na década de 1960, devido a uma intoxicação conhecida como “Turkey X Disease”, episódio no qual milhares de perus morreram ao consumirem tortas de amendoim oriundas do Brasil. A elucidação da estrutura dos metabólitos tóxicos e a descoberta de propriedades hepatotóxicas e hepatocarcinogênicas de algumas linhagens de Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus ocasionou uma verdadeira revolução já que pela primeira vez na história encontrava-se uma substância produzida por um ser vivo capaz de causar câncer.

A identificação desse episódio deu-se em 1960 embora, na ocasião, pesquisadores brasileiros já tivessem identificado o farelo de amendoim como responsável por anomalias em aves. Nesses casos, os animais morriam geralmente dentro de uma semana, tendo como principais sintomas perda de apetite, diminuição da mobilidade, fraqueza das asas e pernas com lesões necróticas no fígado e congestionamento dos rins à necropsia, sem isolamento de agentes infecciosos. A mudança na alimentação dos animais frequentemente cessava a mortalidade.

A então chamada “Turkey X Disease” foi responsabilizada pela morte de mais de 100 mil aves de maio a agosto de 1960. O fato provocou inclusive o acionamento da Scotland Yard para pesquisa de inseticidas e venenos nas rações. Logo depois, entretanto, vários pesquisadores passaram a indicar a torta de amendoim proveniente do Brasil como fator comum à enfermidade, e outros, paralelamente, notaram que alguns lotes de torta de amendoim oriundos de outros países também causavam os sintomas.

Nesse cenário, logo se estabeleceu que um conjunto de substâncias produzidas por fungos de gênero Aspergillus, solúveis em clorofórmio e que apresentavam fluorescência sob a lâmpada de UV, eram as responsáveis pela enfermidade das aves. Tal substância recebeu o nome de aflatoxina (A. flavus toxina). Estudos desenvolvidos demonstraram que o extrato clorofórmico possuía quatro frações, duas com fluorescência azul (Blue — B1 e B2) e duas com fluorescência verde (Green — G1 e G2). Outros evidenciaram, ainda, a presença de anéis bisfuranos nas aflatoxinas B1 e G1, o qual é hidrogenado nas aflatoxinas B2 e G2. Finalmente, em 1963, determinaram as estruturas completas dessas quatro aflatoxinas.

Posteriormente, verificou-se que as aflatoxinas podiam ser biotransformadas no organismo, sendo encontradas nos tecidos, no leite de vacas e ovelhas e até em ovos. Essa toxina foi denominada aflatoxina M (milk) para indicar o isolamento inicial que foi realizado no leite e é considerada o metabólico mais tóxico dentre todos os produzidos pela aflatoxina B1. A conversão de aflatoxina B1 para aflatoxina M1 ocorre no fígado — produzida pela hidroxilação do quarto carbono da molécula de aflatoxina B1 — de animais que tenham consumido alimentos contaminados por aflatoxina B1.

A espécie Aspergillus flavus não é a única a produzir aflatoxinas. A. nominus e A. parasiticus também podem produzir essa toxina. A. flavus pode ainda sintetizar outras micotoxinas que, por sua vez, podem ter efeito sinérgico sobre aflatoxinas.

A simples presença dos fungos, entretanto, não basta para que se possa afirmar que o substrato esteja contaminado por micotoxinas, do mesmo modo que a ausência de fungos no substrato não garante a ausência de micotoxinas. Problemas de amostragem são um pesadelo para os profissionais da área. Se apenas uma pequena parte do substrato (um local de condensação de umidade no silo, por exemplo) estiver contaminada, conseguir retirar uma amostra desse local pode ser muitas vezes comparado a, literalmente, achar uma agulha no palheiro. E caso esse local venha a ser amostrado, a concentração de micotoxinas à análise deverá ser infinitamente superior à média geral do lote.

Estima-se que menos de 20% do erro total quando se estima a contaminação de um lote de grãos por micotoxinas esteja relacionado à metodologia analítica. Aproximadamente 50% do erro é atribuído à amostragem do lote e cerca de 30% ao próprio quarteamento da amostra no laboratório. Por esse motivo, quando encontramos um baixo valor de alguma micotoxina, devido a toda essa variação não devemos desprezar a possibilidade de haver partes do lote com contaminação capaz de causar danos e, por isso, é importantíssimo o diagnóstico veterinário dos sintomas específicos e inespecíficos das diferentes micotoxinas. É como se estivéssemos apenas enxergando a ponta do iceberg.

Sintomas de micotoxicoses podem desaparecer tão rapidamente quanto aparecem, sem que uma amostra de ração analisada apresente resultado positivo, devido às características de várias micotoxinas apresentarem efeito cumulativo, demonstrando sintomas mais característicos quando o lote contaminado já foi todo consumido; por isso, recebe a denominação de “o mal invisível”. Entretanto, as micotoxinas não devem ser usadas como resposta para todos os problemas que aparecem nas granjas, que muitas vezes não são causados por elas, mas que acabam assim sendo responsabilizadas por vários erros de manejo, ambiência, alimentação, etc.

Contaminação

A contaminação dos substratos estende-se desde o campo até a estocagem. No campo, a contaminação pode iniciar-se antes mesmo da colheita por infestação de insetos nos grãos, os quais criam aberturas de galerias e assim facilitam a inoculação de esporos durante a mecanização, no transporte e na secagem dos grãos, sobretudo se realizada de forma inadequada. A contaminação durante a industrialização também são momentos de grande susceptibilidade ao desenvolvimento dos fungos, porém, acredita-se que seja na estocagem que a contaminação por Aspergillus flavus e outros fungos, acentua-se.

Assim, levando-se em conta as condições ambientais favoráveis a estes fungos, podemos entender o porquê de em zonas tropicais, como o Brasil, 80% dos problemas com micotoxinas estarem relacionados ao Aspergillus flavus, um fungo que cresce com temperatura e umidade elevadas.

Muitas vezes, é possível prever a contaminação por micotoxinas nos grãos baseados na observação das doenças nas lavouras. Podemos associar à aflatoxina a ocorrência da podridão da espiga por Aspergillus, a fumonisina à podridão da espiga e da haste por Fusarium, a zearalenona e o desoxinivalenol à ocorrência da podridão da espiga por Gibberella e à ferrugem no trigo, e os alcaloides do Ergot a ocorrência do esporão-do-centeio.

Para reduzir a contaminação por micotoxinas antes da colheita dos grãos, as principais estratégias usadas pela indústria são o uso de genótipos resistentes a contaminação por fungos, práticas agrícolas que reduzem a exposição aos fungos, acompanhamento das condições climáticas na semana da colheita e o uso de sementes transgênicas (com menores danos por insetos, os grãos de sementes transgênicas são em geral menos contaminados).

Após contaminados, os grãos passam a ser um problema na cadeia de produção animal e na alimentação humana. Mas ainda há alternativas, sendo as principais:

  • detecção do problema por meio de boas técnicas de amostragem e análise;
  • boas condições de transporte e de secagem e armazenamento dos grãos;
  • uso de pré-limpeza removendo pó e partículas de grãos quebrados;
  • prevenção de roedores e insetos;
  • segregação dos lotes contaminados para uso por espécies animais mais resistentes, evitando animais novos ou em reprodução;
  • uso de adsorventes e de componentes que degradam as enzimas;
  • reforço das rações com vitaminas e outros nutrientes associados à eliminação das toxinas pelo organismo animal.

As principais micotoxinas de interesse na avicultura e suinocultura são as aflatoxinas, fumonisinas, zearalenona, tricotecenos, ocratoxinas, citrininas e ergotaminas.

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Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Saúde Animal

Avicultura a serviço da vida

Muitos não sabem, mas algumas vacinas são produzidas a partir de ovos de galinha, como é o caso da Influenza; neste ano, em especial, essa imunização tem sido fundamental em meio à pandemia de coronavírus

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Arquivo/OP Rural

A pandemia da Covid-19 fez inúmeros pesquisadores se debruçarem em cima de estudos em uma verdadeira corrida contra o tempo na tentativa de descobrir uma vacina que seja capaz de controlar o avanço da doença pelo mundo. Enquanto alguns estudos de vacinas levaram anos para serem concluídos – contra o sarampo foram dez anos e contra ebola as pesquisas somaram 20 anos -, a fórmula capaz de travar a disseminação do coronavírus parece cada vez mais próxima.

A fase de testes em humanos já começou no Brasil, inclusive no Paraná, e o Ministério da Saúde acredita que até o fim do ano as primeiras doses estarão disponíveis.

Mas quem vê as campanhas de vacinação sendo realizadas anualmente e quem vai até o posto de saúde para ser imunizado, muitas vezes nem imagina a forma como é feita a produção de uma vacina. A maioria das pessoas sequer sabe que, além de alimentar milhões de pessoas, a avicultura também está a serviço da vida.

Isto porque alguns tipos de vacina, como contra a Influenza e a febre amarela, são feitas a partir dos ovos de galinha. Mas engana-se quem pensa que o processo é simples. Trata-se de uma etapa que exige meses de preparação, além de uma exigência sanitária de alto nível. Até por isso os ovos são chamados de “controlados”, conforme normativa do Ministério da Saúde.

O Instituto Butantan, de São Paulo, está em uma das linhas de frente nos trabalhos de pesquisa em busca de uma vacina contra a Covid-19, onde aumentou a capacidade de produção de vacina de Influenza de 55 milhões para 80 milhões de doses por ano, ampliando seus fornecedores de ovos controlados.

 Para falar a respeito da produção destes ovos, a reportagem do Jornal O Presente entrevistou a médica veterinária Nayra Magnusson. Ela é consultora avícola com 15 anos de experiência no setor, sendo 12 anos dedicados à produção de ovos controlados. Foi Nayra, inclusive, quem ajudou a implantar na Globoaves, que tem sede em Cascavel, toda a parte de biotecnologia.

A empresa possui uma unidade específica no interior de São Paulo para fornecer ovos controlados ao Butantan.

Preparação na granja

Para produzir ovos controlados, as barreiras e controles sanitários estão em um grau mais elevado em comparação com matrizeiro, onde são produzidos ovos para pintinhos de engorda ou para postura comercial. “Para visitar as granjas de ovos controlados é preciso respeitar um tempo mínimo de vazio sanitário. São sete dias em que não podemos ter nenhum contato com outra ave, de qualquer espécie. Sendo uma poedeira comercial, um frango de corte, não existe essa barreira sanitária em termos de dias de vazio sanitário, embora o acesso não seja tão livre como antigamente”, diz Nayra.

Outro cuidado especial é com relação ao limite periférico da propriedade até o núcleo, que deve respeitar a distância de 500 metros – na granja matriz a distância é de 200 metros. “Há, ainda, o cuidado com a qualidade do ar no aviário. É obrigatório o galpão ser fechado e ter o fluxo de ar unidirecional, o qual contribui para melhor qualidade do ambiente quanto à temperatura do aviário, redução da concentração de CO² e monitoramento”, explica a médica veterinária.

Quer mais um diferencial? As aves não podem receber vacinação contra salmonela. “O grande diferencial é o rigor na parte sanitária. Isso é fundamental para manter as aves livres dos patógenos, principalmente salmonela, pois existem mais de três mil tipos. Essa ave tem que ser negativa para salmonela total. Esse é o maior desafio: manter livre de Mycoplasma e Salmonela e também livres de anticorpos para o vírus da Influenza, Laringotraqueite, Leucose e Reticuloendoteliose. E é onde entra o rigor sanitário”, frisa a consultora avícola, que complementa: “São normas que visam um elevado grau sanitário, justamente para ter essa cautela”.

Ovos

Desde a criação das aves há um grande cuidado com a parte sanitária. E o cuidado com os ovos não poderia ser diferente. Afinal, eles que serão a peça-chave para produção, posteriormente, da vacina contra Influenza e febre amarela.

Com o objetivo de evitar ao máximo uma possível contaminação cruzada, o contato manual com os ovos controlados é o menor possível e a maioria das granjas são automatizadas. “A coleta dos ovos é feita a cada uma hora para que tenha menos contato no ninho. Neste tipo de ninho automático, as aves não têm contato com os ovos, pois eles caem em uma esteira e isso ajuda na parte de prevenção às bactérias. Os ovos são embandejados automaticamente e o contato manual é bastante reduzido para evitar possível contaminação”, enaltece Nayra.

A profissional menciona que em no máximo uma hora depois da coleta é realizado o trabalho de desinfecção dos ovos, os quais, na sequência, seguem para o incubatório. “Na granja só se coloca a mão nos ovos sujos ou trincados, que são retirados da esteira”, expõe.

Incubatório

Os ovos ficam 11 dias no incubatório. Nesta etapa é feita a ovoscopia em 100% da produção. O método verifica internamente o ovo para classificar aquele que é viável. “Os ovos inférteis, que não foram fecundados, e com mortalidade embrionária são descartados. São enviados (para o Butantan) apenas os ovos em que houve fecundação e que o embrião se desenvolveu e está vivo, apto para receber o vírus”, explica a consultora.

Processo

Já no Instituto Butantan, um equipamento com microagulhas injeta em cada ovo o vírus. Em seguida, os ovos retornam para a incubadora, onde permanecem por mais 72 horas visando replicar a carga viral. “Para a produção de vacinas são utilizados somente ovos de galinha. Não são usados ovos de pato, ganso, marreco, apenas galinha”, informa.

A etapa seguinte consiste em colher o líquido alantóico que envolve o embrião, o qual é centrifugado, concentrado, fragmentado e inativado, originando uma suspensão da vacina monovalente. A mistura das suspensões de cada monovalente resulta assim na vacina trivalente.

Cada ovo rende em média uma dose de vacina. No entanto, o Instituto Butantan tem feito estudos para aumentar este número. “O vírus injetado é inativado. Muitas pessoas falam que foram vacinadas e tiveram reação, mas não há como dar reação, pois o vírus está inativo. Existem muitos tipos de vírus da gripe. Então às vezes pega um resfriado ou gripe, mas não é o mesmo vírus daquele da vacina. Muitas pessoas confundem isso”, garante a médica veterinária.

Planejamento

Conforme Nayra, o mais demorado neste processo de produção de vacina contra Influenza é a preparação das aves. “São quase cinco meses somente de preparação das aves para iniciar a produção de ovos. Depois que começa a produzir, a sequência é rápida”, detalha. “O Ministério da Saúde faz esse planejamento de vacina com o Instituto Butantan, que solicita aos fornecedores de ovos. O planejamento é de no mínimo sete meses”, emenda.

Além disso, o maior medo dos fornecedores, que são os produtores de ovos, e do cliente, que é o Instituto Butantan, é haver uma doença sanitária capaz de impedir a entrega da produção e afetar o comprometimento na fabricação de vacinas. “Para isso, é feita uma estratégia de granjas backup para garantir o fornecimento dos ovos. Sempre se trabalha com essa segurança sanitária para garantir a entrega dos ovos”, ressalta.

Gripe

A consultora avícola expõe que para a vacina de Covid os pesquisadores não têm utilizado ovos de galinha, pois há outros métodos que são mais eficazes dependendo do tipo de cada vírus. “A vacina contra Influenza usou neste ano três cepas diferentes. Não é só H1N1, que causou mais mortalidade por sua agressividade, mas tem outras cepas na mesma vacina, que são todas destinadas para combater a gripe humana”, diz.

De acordo com ela, a imunização contra Influenza foi importante, em especial neste ano, devido à circulação do coronavírus no país. Apesar de não proteger contra a Covid-19, a imunização auxilia os profissionais da saúde na exclusão do diagnóstico da gripe, já que os sintomas são parecidos, salienta.

Fonte: O Presente Rural
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Avicultura Menos energia e mais aminoácidos

Especialista defende tendências para redução de custos de dietas de frangos

Uma oportunidade para reduzir ainda mais os custos no Brasil, em sua opinião, é aumentar os níveis de aminoácidos, como a lisina

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Os mais recentes estudos para formulações de dietas de frangos com custos mais baixos foram destacados pelo médico veterinário e especialista em Nutrição Vitor Hugo Brandalize em webinar promovido por uma multinacional fornecedora de genética avícola para profissionais da avicultura. A transmissão foi feita ao vivo para Peru, Bolívia, Equador, Chile, Paraguai, Venezuela, Argentina e Uruguai.

 Durante o debate, o especialista defendeu uma tendência de redução dos níveis de energia acompanhada de aumento nos níveis de aminoácidos em dietas de frangos como estratégia para redução de custos da dieta. Brandalize salienta que é importante que o nutricionista esteja atento a fatores como conversão alimentar e manejo adequado.

O especialista abriu sua apresentação destacando três fatos que ocorrem no mundo que mudam os rumos da humanidade: guerras, pandemias e revoluções. “As coisas mudam mais rápido depois desses problemas. E essa pandemia vai afetar todo o nosso negócio. Todos as pessoas (do negócio) terão efeito negativo. Mas a coisa boa é que depois disso deveremos mudar mais rápido”, pontuou. Por isso, pensa, é um momento importante para fazer mudanças rápidas na vida e nos negócios.

Brandalize mostrou que, na avicultura, os custos aumentaram enquanto o consumo e os preços reduziram. Com informações do Fundo Monetário Internacional (FMI), ele alertou que a pandemia é um choque muito grande, já que ninguém sabe sua duração e intensidade e defendeu medidas de contenção. “Por essas incertezas, é importante reduzir os custos de produção”. No entanto, sugere, o consumo de ovos e carne de frango tem um diferencial entre outras proteínas, que é o custo acessível. “O consumo de frango sempre seguirá forte”, reforçou.

Energia e Aminoácidos

O impacto da energia na nutrição foi realçado diante do aumento nos custos do milho e da soja. “Os custos dos grãos deverão se manter em níveis mais altos”, apontou o especialista lembrando que o Brasil tem um dos milhos mais baratos entre os produtores. “O Brasil tem custo médio de US$ 200 dólares por tonelada de ração. Nos Estados Unidos este valor é de US$ 228 e no México chega a US$ 252”, exemplificou destacando que, desde 2014, está produzindo dietas mais baratas e que “hoje, Brasil e Estados Unidos têm os mesmos níveis de energia nas rações”.

Uma oportunidade para reduzir ainda mais os custos no Brasil, em sua opinião, é aumentar os níveis de aminoácidos, como a lisina. No entanto, por ter mais músculos a cada ano, a ave precisa de aminoácidos. Por isso, destacou, geneticistas estão debruçados sobre a conversão alimentar. “A energia e a proteína (grãos e aminoácidos), que custam 85% da dieta, não devem voltar a patamares mais baratos. Por isso, é preciso focar nos 15% restantes, que incluem, em boa parte, o manejo dos animais. Se os frangos não têm enfermidades, estão em bom ambiente, é uma forma de economizar energia para síntese de tecidos”, defendeu.

Brandalize apontou que em aves mais jovens, a energia corporal é mais baixa. Depois, ela tende a aumentar, pois aumenta a deposição de gordura quando ele é mais velho e a gordura tem mais energia. A partir dos 25 dias, aproximadamente, ele responde melhor aos níveis de energia. Por isso, sustentou, é melhor investir em energia (grãos) quando o animal é mais velho, pois come mais e melhora a conversão alimentar. Frisou, no entanto, que há de se fazer avaliação nas dosagens, que estão cada vez menores.

“O cenário é desafiador e a tendência é formular dietas com níveis cada vez menores de energia. Estamos reduzindo energia e aumentando os aminoácidos a cada ano”, pontua.

Segundo Brandalize, o peito do frango tem em média 22% de proteína. “E o aminoácido mais importante é a lisina”, reforçou. Apresentou estudos recentes nos quais um aumento na formulação de lisina significou aumento nos custos, mas também maior ganho de peso, melhor conversão alimentar e melhora do rendimento de carcaça.

Em outro experimento sobre aminoácidos conduzido nos Estados Unidos, destacou que o ganho de peso e a conversão alimentar foram maior com aumento de aminoácidos. “É uma grande oportunidade que temos aqui”, cravou. “Quando aumentamos aminoácidos, aumentamos o rendimento de peito”, ampliou. “Aumentando aminoácidos e reduzindo a energia é um tratamento mais econômico”, sugeriu Brandalize.

Promotores de crescimento

Usar ou não promotor de crescimento é uma decisão comercial, mas as primeiras empresas pensaram em agregar valor aos produtos. “Foi marketing”, pontuou. De acordo com ele, hoje 55% dos frangos são produzidos em sistema livre de antibióticos.

Para Brandalize, uma boa saúde intestinal da ave é fundamental para economizar o consumo de energia da dieta. “Porque os promotores de crescimento são importantes? Por que os sistemas gastam muita energia. A grande concentração do sistema imune está no intestino. Quando temos desafio, há gasto de energia. É importante proteger o intestino para prevenir gasto de energia”, aponta.

De acordo com ele, uma inflamação leva a ave a reduzir o consumo de alimento e, consequentemente, seu desempenho. “Antibióticos controlam as bactérias, agem como anti-inflamatórios”, reforçou. Para ele, sanidade, matéria-prima de qualidade, bom manejo e trabalho em equipe são estratégicos para melhorar a relação de custos em dieta.

Para encerrar a webinar, o palestrante Vitor Hugo Brandalize respondeu algumas das dezenas de perguntas que foram enviadas durante a transmissão. Outras perguntas foram respondidas posteriormente aos internautas.

Outras notícias você encontra na edição de Aves de junho/julho de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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