Avicultura Tecnologia
Vacinação de aves de ciclo longo chegou a era 4.0
Toda essa evolução fez com que a vacinação deixasse de ser um procedimento operacional padrão e se transformasse em um ponto crítico de controle

Artigo escrito por Eva Hunka, médica veterinária, MSc. Medicina Veterinária Preventiva e gerente de negócios Biológicos da Phibro; e Eric Culhari, zootecnista, MSc Bioclimatologia e Bem-estar animal e especialista pHi-Tech da Phibro
O termo Pecuária 4.0 e a linha do tempo desta evolução, assim como a origem deste termo, ainda são pouco conhecidas. O termo Pecuária 4.0 faz referência à indústria 4.0. Pensando de maneira análoga ao desenvolvimento da indústria, podemos dividir a história da produção animal da seguinte forma:
-Primeira revolução industrial: a máquina a vapor proporcionou incremento de produtividade e mobilidade de seres humanos. Fazendo uma analogia com a produção animal, podemos considerar que o primeiro evento disruptivo na sociedade ocorreu muito tempo antes, quando os humanos deixaram de caçar, e domesticaram os animais. Este processo possibilitou que a energia empregada na caça fosse redirecionada para outros fins.
– Segunda revolução industrial: se caracteriza pela produção em massa e adoção do método científico (observar, medir, testar hipóteses e concluir) como ferramenta para incremento da produção. Ambas as revoluções citadas, provocaram alterações na sociedade como o êxodo rural, aumentando a população urbana e consequentemente diminuindo a rural.
Sendo assim, a produção de alimentos teve que se alterar, pois aquelas pessoas que praticavam agricultura de subsistência e eram capazes de produzir seu próprio alimento, agora morando na cidade necessitavam comprar este alimento produzido por outros, exigindo maior produtividade nos estabelecimentos de produção animal. Com isso, temos a segunda mudança relevante na maneira de se produzir animais.
– Terceira revolução industrial: é marcada pelo início da digitalização dos processos. Neste período computadores e outros equipamentos eletrônicos vieram em substituição aos meios analógicos utilizados até então para gerar, armazenar e analisar dados. Na pecuária não foi muito diferente. Com o avanço da eletrônica e da capacidade computacional, dados antes registrados e armazenados fisicamente, em folhas de papel, passaram para planilhas eletrônicas, facilitando a análise e visualização dos resultados obtidos. Além disso, equipamentos como alimentadores automáticos passaram a ser vistos em granjas de suínos e aves, ordenha mecanizada em sistemas de produção leiteira, entre outros equipamentos.
– Quarta revolução industrial: tanto na indústria quanto na produção animal, estamos falando do emprego de sensores, ferramentas computacionais avançadas e técnicas estatísticas modernas para coleta de dados massiva e em tempo real, armazenamento destas grandes bases de dados (“big-data”) em nuvem e uso de inteligência artificial para interpretar e gerar resultados a partir de padrões não captados pelo cérebro humano. Neste cenário, exploramos a internet das coisas (IoT) nos mais diferentes processo, como é o caso dos dispositivos de vacinação 4.0, que são capazes de gerenciar todo processo de vacinação, a partir de um dispositivo injetor, que, durante a vacinação, coleta informações sobre o processo e nos permite controle em tempo real e análises complexas, baseadas em dados da própria granja.
A agroindústria vem se tornando cada vez mais competitiva e isso fez crescer a necessidade por tecnologia, aumentando o controle e a eficiência do processo produtivo. Estes processos inteligentes trazem benefícios em diferentes setores da cadeia, desde os relacionados diretamente à produção bem como os que promovem melhores condições de trabalho para os operadores. Este tipo de movimento ajuda a fixar os trabalhadores no campo e promovem um movimento contrário ao êxodo rural, atraindo jovens para o campo.
Empregando as tecnologias que fazem parte deste pacote chamado de pecuária 4.0, estamos gerando uma quantidade de informações muito grande, com qualidade e velocidade incomparáveis aos processos anteriormente utilizados. De posse destas informações a tomada de decisão ocorre também mais rápido, e de maneira mais assertiva, melhorando não só o desempenho, mas a vida das aves de maneira geral.
Tão importante quanto o desempenho, é pensarmos na vida dos animais que estamos criando. Aspectos como comportamento, nutrição e sanidade são avaliados para determinação do grau de bem-estar dos indivíduos de uma criação. Com a utilização de tecnologias como visão computacional, bio-acústica e outras do pacote 4.0, é possível monitorar as condições de bem-estar animal em tempo real, além de identificar problemas e encontrar soluções de maneira mais rápida, melhorando a qualidade de vida das aves. Desta maneira estamos produzindo alimentos de forma responsável e eficiente.
A passos largos
Na avicultura este movimento anda a passos largos, promovendo melhor utilização dos insumos, maior controle dos processos e até mesmo segurança alimentar. A avicultura 4.0 permite uma tomada de decisão mais ágil, evitando erros ou desperdício, com isso temos reduções significativas no consumo de energia, custos com manutenção, maior aproveitamento das matérias primas e consequente aumento de produtividade.
Com toda esta tecnologia, processos antes obscuros, como é o caso da vacinação intramuscular das matrizes, deixam de ser uma operação simples e passam a ser vistos como Pontos Críticos de Controle. Sistemas de gerenciamento do processo vacinal permitem uma ação corretiva em tempo real e tem o smartphone como peça fundamental nesta comunicação entre o equipamento e os supervisores do processo, ou mesmo os tomadores de decisão, visto que todas as informações são armazenadas em “nuvem” e podem ser acessadas pelos diferentes níveis da companhia.
Este tipo de equipamento permite a integração do processo vacinal às rotinas de monitoramento da granja, onde podemos, através de painéis de controle, perceber desvios e tomar decisões com base em dados coletados no campo.
Toda esta tecnologia trouxe e continuará a trazer um aumento de desempenho e produtividade no campo. Atualmente a conectividade ainda é um dos principais gargalos nas propriedades rurais, mas tudo isso é um caminho sem volta e, assim como a tecnologia, a conectividade será uma realidade em breve.
A vacinação 4.0, também traz benefícios sanitários e isto pode ser visto através da monitoria sorológica, que é uma das principais ferramentas para averiguação da proteção vacinal em aves de ciclo longo. Estas aves recebem vacinas inativadas com a finalidade de elevar os títulos de anticorpos e, consequentemente, promover uma proteção mais duradoura, pois os anticorpos específicos, oriundos de uma imunização ativa, geralmente perduram por longos períodos.
Quando falamos em resultados de sorologia, é natural que logo pensemos em qualidade ou potência da vacina utilizada, visto que existes muitas variáveis no produto, que podem interferir nesta resposta como: adjuvantes, tipo de emulsão, concentração e tipo do antígeno etc. Mas muitas vezes esquecemos que o processo de vacinação é tão importante quanto o produto e também impacta neste resultado.
Vacinação evolui
O processo de vacinação evoluiu muito pouco nos últimos anos. Tivemos alguma evolução no que se refere a equipamentos de vacinação, mesmo assim são equipamentos que estão muito dependentes do fator humano. Exceto pelo processo de vacinação in ovo, este já consolidado no Brasil, e foi um grande passo para a automação dos incubatórios.
No caso da vacinação a campo, temos as seringas de precisão, bastante usadas na vacinação intramuscular, mas estas, também tem o homem como peça fundamental para a qualidade do processo, visto que é totalmente manual.
Um trabalho realizado em 2012, em Israel, mostra que o simples fato de a equipe de vacinação saber que está sendo avaliada, altera a sorologia das aves (Gráfico 1). Isso mostra claramente que o processo de vacinação é uma parte essencial do resultado.
Gráfico 1. Titulação de HI para TE (Meningoencefalite Viral de Perus) em lotes onde os vacinadores não sabiam da monitoria (G1 e G2) versus vacinadores que sabiam que estavam sendo monitorados (Monitor.)

Novos equipamentos de vacinação, com uma nova proposta, onde o erro humano é minimizado e o processo de coleta, compartilhamento e armazenamento de dados do processo possibilita correções pontuais, e também, a tomada de decisões mais estratégicas e de longo prazo. Estes equipamentos usam e abusam da internet das coisas e usam a tecnologia 4.0 a seu favor. Com esta melhoria no processo, a soroconversão é mais eficiente e uniforme.
Gráfico t. Titulação de IBD (Elisa IDEXX) em lotes vacinados com dispositivo 4.0 e lotes vacinados com vacinadora manual

Na avicultura trabalhamos com vacinações massais, onde muitos animais são tratados ao mesmo tempo. Neste processo nós temos o lote como unidade epidemiológica, e todos os animais do lote devem ser o mais uniforme possível. Quando falamos em processo eficiente, devemos garantir que todos os animais recebam a mesma dose, em um mesmo momento e por isso devem se comportar, sanitariamente, de um modo muito parecido.
Os equipamentos automatizados trouxeram a processo de vacinação para os dias atuais, elevando o status sanitário das aves e transformando este processo em um ponto crítico de controle da produção.
Nem todo animal que recebeu a vacina esta imunizado, pois existem diferentes fatores que contribuem para a eficácia da vacinação, fatores que variam desde a armazenagem correta do produto até erros de aplicação como dose incompleta, vacinação a partir de frascos vazios ou mesmo aplicação em local errado, podem alterar os resultados sorológicos. Quanto mais controlado for este processo de vacinação, menores são as chances de erros. Um lote bem vacinado tende a apresentar títulos sorológicos mais uniformes, com um abaixo coeficiente de variação. Esta uniformidade diminui a quantidade de indivíduos suscetíveis na população, e no caso de reprodutoras, isso também se reflete da transferência de anticorpos para a progênie.
Toda essa evolução fez com que a vacinação deixasse de ser um procedimento operacional padrão e se transformasse em um ponto crítico de controle. Onde podemos atuar, quer seja em tempo real, por meio da correção dos erros e ajustes no momento da vacinação, ou mesmo em decisões estratégicas de longo prazo, por meio da análise dos dados coletados, oriundo dos diferentes episódios de vacinação realizados, ordenados e compilados, permitindo uma visualização completa dos processos.
Outras notícias você encontra na edição de Nutrição e Saúde Animal de 2020 ou online.

Avicultura
Segurança alimentar na avicultura será tema de palestra internacional no SBSA 2026
Pesquisadora da Universidade de Auburn, Dianna Bourassa apresenta comparativo microbiológico entre países durante o Simpósio Brasil Sul de Avicultura, em Chapecó.

Garantir a segurança dos alimentos e compreender os desafios microbiológicos da cadeia produtiva são pontos centrais para a sustentabilidade da avicultura moderna. O tema estará em debate durante o 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA) com a palestra Comparativo microbiológico entre países no contexto da ciência da segurança alimentar, apresentada pela pesquisadora Dianna V. Bourassa, no dia 08 de abril, às 9 horas, durante o Bloco Abatedouro, no Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo de Nes, em Chapecó (SC).
Dianna é professora associada do Departamento de Avicultura da Universidade de Auburn, nos Estados Unidos. Possui graduação e mestrado em Avicultura pela Universidade da Geórgia e doutorado em Bioquímica e Biologia Molecular, também pela Universidade da Geórgia. Seu programa de pesquisa aplicada concentra-se em duas áreas principais: intervenções voltadas à melhoria da segurança alimentar ao longo de toda a cadeia produtiva, da criação de frangos de corte ao processamento de produtos crus, e o estudo da aplicação e do impacto de métodos de atordoamento na fisiologia das aves e na qualidade da carne.

Palestra Comparativo microbiológico entre países no contexto da ciência da segurança alimentar, apresentada pela pesquisadora Dianna V. Bourassa, no dia 08 de abril, às 9 horas, durante o Bloco Abatedouro
A especialista abordará as particularidades e os desafios enfrentados por diferentes países no controle microbiológico da cadeia produtiva, destacando práticas, padrões sanitários e estratégias utilizadas para garantir a segurança dos alimentos. A discussão contribui para ampliar a compreensão sobre como a ciência e a tecnologia têm sido aplicadas para reduzir riscos microbiológicos e fortalecer a qualidade dos produtos avícolas.
De acordo com a presidente do Núcleo Oeste de Médicos Veterinários e Zootecnistas (Nucleovet), Aletéia Britto da Silveira Balestrin, trazer especialistas internacionais para o evento amplia o intercâmbio de conhecimento e fortalece a atualização técnica dos profissionais do setor. “O Simpósio tem como propósito reunir pesquisadores e especialistas que possam compartilhar experiências e diferentes perspectivas sobre os desafios da avicultura. A troca de informações entre países contribui para o avanço das práticas sanitárias e para o aprimoramento dos sistemas de produção e processamento”, destaca.
A presidente da comissão científica do SBSA, Daiane Albuquerque, ressalta que o tema é estratégico para o setor. “A segurança alimentar é um dos pilares da produção de proteína animal. Discutir métodos de controle microbiológico e comparar realidades internacionais contribui para ampliar o conhecimento técnico e fortalecer as estratégias adotadas pela cadeia produtiva”, afirma.
O 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura é promovido Nucleovet e será realizado entre 7 a 9 de abril de 2026, considerado um dos principais eventos técnicos da avicultura latino-americana. Paralelamente ao Simpósio ocorre a 17ª Brasil Sul Poultry Fair, feira que reúne empresas nacionais e multinacionais ligadas à cadeia produtiva avícola.
Para acompanhar a palestra e os demais conteúdos da programação científica é necessária inscrição no evento. O segundo lote segue disponível até o dia 26 de março, com investimento de R$ 750 para profissionais e R$ 450 para estudantes. O acesso à 17ª Brasil Sul Poultry Fair custa R$ 100. As inscrições podem ser realizadas no site, acesse clicando aqui.
Programação geral
26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura
17ª Brasil Sul Poultry Fair
DIA 07/04 – TERÇA-FEIRA
13h30 – Abertura da Programação
13h40 – Painel Gestão de Pessoas
Tema: Capital humano em crise: o futuro da mão de obra na avicultura
Palestrantes: Delair Bolis, Joanita Maestri Karoleski, Vilto Meurer
Coordenadora da mesa redonda: Luciana Dalmagro
15h40 – Intervalo
16h – Commodities em foco: superando barreiras logísticas e incertezas do futuro
Palestrante: Arene Trevisan
(15 minutos de debate)
17h – Solenidade de Abertura Oficial
17h40 – Palestra de abertura: Cenários Globais 2026
Palestrante: Heni Ozi Cukier – HOC
19h15 – Coquetel de abertura na 16ª Brasil Sul Poultry Fair
DIA 08/04 – QUARTA-FEIRA
Bloco Abatedouro
8h – Velocidade de processamento e qualidade do abate
Palestrante: Darwen de Araujo Rosa (15 minutos de debate)9h – Comparativo microbiológico entre países no contexto da ciência da segurança alimentar
Palestrante: Dianna V. Bourassa (15 minutos de debate)10h – Intervalo
Bloco Nutrição
10h30 – Granulometria e seu impacto no trato digestivo
Palestrante: Wilmer Pacheco (15 minutos de debate)11h30 – Níveis de Ca e P nas dietas modernas do frango de corte
Palestrante: Rosalina Angel (15 minutos de debate)12h30 – Intervalo almoço
Eventos Paralelos – Painel Manejo
14h – Manejo do Frango de Corte Moderno
Palestrantes: Lucas Schneider, Rodrigo Tedesco Guimarães16h – Intervalo
Bloco Conexões que Sustentam o Futuro
16h30 – Do conhecimento à ação: como transformar orientações em resultados na avicultura
Palestrantes: Kali Simioni e João Nelson Tolfo (15 minutos de debate)17h30 – Por que bem-estar é crucial para a sustentabilidade?
Palestrante: Prof. Celso Funcia Lemme (15 minutos de debate)18h30 – Eventos Paralelos
19h30 – Happy Hour na 18ª Brasil Sul Poultry Fair
DIA 09/04 – QUINTA-FEIRA
Bloco Sanidade
8h – Tríade do diagnóstico de Laringotraqueíte infecciosa: métodos de diagnóstico das doenças respiratórias
Palestrante: Prof. Renata Assis Casagrande (15 minutos de debate)9h – Micotoxinas: a ameaça silenciosa à saúde intestinal das aves
Palestrante: Dr. Ricardo Rauber (15 minutos de debate)10h – Intervalo
10h30 – Gumboro em foco: avanços recentes e novas fronteiras no controle da doença
Palestrante: Gonzalo Tomás (15 minutos de debate)11h30 – Influenza aviária – plano de contingência em caso real
Palestrante: Taís Barnasque (15 minutos de debate)
Sorteios de brindes
Avicultura
Quando vencer vira método
Disciplina, rotina e decisões diárias por trás de uma trajetória pentacampeã na avicultura brasileira.

Ainda é cedo quando os aviários começam a ganhar vida. O funcionamento contínuo dos ventiladores, o controle preciso da ambiência e a observação atenta do lote fazem parte de uma rotina que se repete todos os dias, independentemente do clima ou do mercado. Na avicultura integrada, não há espaço para improviso: uma decisão fora do tempo ou um detalhe negligenciado pode custar desempenho, padronização, sanidade e, no limite, a tranquilidade de um ciclo inteiro.
É nesse território da repetição consciente que a excelência se constrói. Não como um evento isolado, mas como prática diária. Vencer uma vez pode ser resultado de um bom lote, uma combinação favorável de fatores e uma semana particularmente bem conduzida. Repetir desempenho exige outra coisa: método.
Essa lógica sustenta a trajetória de Anaí Bacci Naves, produtora integrada da C.Vale em Assis Chateaubriand (PR), vencedora por cinco vezes consecutivas da principal premiação avícola da cooperativa na categoria Promob. A conquista, porém, não se explica por um troféu, mas pelo processo que o antecede, conduzido no dia a dia por Anaí e pelo marido, Afonso Bacci, que juntos tocam a atividade. Anaí aparece como símbolo e âncora de uma forma de produzir. Afonso traduz em decisões, tecnologia e manejo o que, no papel, parece simples, mas no aviário exige atenção contínua.
Quando o resultado deixa de ser acaso
Para Anaí, a virada de chave aconteceu quando o trabalho deixou de ser apenas esforço e passou a ser guiado por método. “Percebemos que o resultado não era acaso, mas fruto de uma rotina bem-feita a partir do momento que entendemos como utilizar o Diário de Bordo, onde estão todas as informações necessárias para a boa condução do lote”, afirma.
O Diário de Bordo, no vocabulário da integração, não é um caderno simbólico. É um guia de orientação com padrões e rotinas que o produtor deve seguir dia a dia. Para cada momento do ciclo, com frangos alojados ou no vazio sanitário, há um rol de atividades a cumprir. O documento define o que precisa ser executado em cada data, com a lógica de que o aviário é um sistema vivo: o desempenho final nasce do acúmulo de ações pequenas, feitas no momento certo.
Na prática, isso significa que o trabalho não começa no alojamento. Começa antes. Há tarefas orientadas “três dias antes”, “dois dias após”, “sete dias após”, “no primeiro dia do vazio sanitário” e assim sucessivamente. É um roteiro que organiza o tempo, reduz o improviso e aumenta a previsibilidade – porque, quando se trata de produção animal em escala, previsibilidade é um tipo de segurança.
Esse nível de organização exige postura. “O que, na nossa propriedade, não pode falhar em hipótese nenhuma é ter disposição, capricho e determinação para executar o trabalho de maneira comprometida”, destaca Anaí. “É preciso estar atento a todos os detalhes”, reforça.
Um sistema que nasceu com tecnologia no DNA

Gerente de Produção da Avicultura da C.Vale, Maykon Buttini: “O Promob, na verdade, é um checklist que envolve premissas do 5S, premissas de boas práticas de produção e premissas de legislação”
Para entender o peso de uma trajetória pentacampeã dentro de um programa de biosseguridade, é preciso olhar para o ambiente em que ela se desenvolveu. O uso de tecnologia na avicultura da C.Vale tem uma marca histórica. Em 1997, a cooperativa deu início à criação comercial de frangos em ambiente climatizado, tornando-se a primeira empresa brasileira a adotar esse método. Até então, os sistemas de integração utilizavam predominantemente ventilação convencional, sem resfriamento do ar no interior dos aviários.
O controle de temperatura trouxe uma nova perspectiva para a atividade, com reflexos diretos na conversão alimentar, na uniformidade, no bem-estar das aves e na previsibilidade dos resultados. Em avicultura, ambiência não é apenas conforto, é gestão de risco. Controlar o ambiente é reduzir estresse, estabilizar consumo, proteger desempenho e diminuir variações que aparecem no fim do ciclo.
A dimensão atual do sistema ajuda a entender o nível de exigência: em 2025, a C.Vale abateu 160 milhões de frangos. Em um volume dessa magnitude, padronização deixa de ser meta e vira requisito. O produtor integrado não é um elo isolado: ele é parte de uma engrenagem em que sanidade, regularidade e cumprimento de protocolos sustentam o conjunto.
A entrada na integração e a construção da base
Foi em 2012 que Anaí e Afonso passaram a integrar o sistema avícola da C.Vale. Na comunidade de São Francisco, interior de Assis Chateaubriand, a propriedade foi estruturada com dois aviários climatizados, capazes de alojar aproximadamente 60 mil frangos por lote.
A tecnologia abre caminho, mas não garante resultado. O que sustenta a rotina é a forma como se opera a tecnologia, se observa o lote e se executa o manejo no tempo correto. Anaí explica o que, para ela, faz diferença: “Estar atento a todos os detalhes, seja de manejo, equipamentos ou dimensionamento”. A organização entra como hábito. “Temos uma rotina diária baseada no Diário de Bordo, onde fazemos com disciplina os detalhes.”
Esse “fazer com disciplina” é uma expressão que parece leve no papel, mas é dura na prática. Significa repetir procedimentos, manter padrões, cuidar de estrutura, respeitar fluxo de trabalho, manter higienização, registrar rotinas, garantir que o aviário esteja preparado para cada fase do ciclo. É uma administração do cotidiano.
O Promob: processo, organização e biosseguridade
Criado pela C.Vale, o Promob (Programa de Monitoramento e Organização de Biosseguridade) foi desenvolvido para avaliar processos. Não é uma premiação que enxerga só o resultado do fim do lote. A lógica é outra: premiar quem constrói consistência ao longo do tempo, com base em organização, biosseguridade e boas práticas. Ele é um guia de orientação de padrões que o produtor deve seguir, dia a dia. Para cada fase do ciclo – com frangos alojados ou no vazio sanitário – existe um rol de atividades que precisam ser cumpridas. O Diário de Bordo define o que fazer em cada dia: por exemplo, tarefas três dias antes do alojamento, dois dias após o alojamento e assim sucessivamente, ao longo de toda a produção. Na prática, ele organiza o tempo, reduz improviso e transforma rotina em método.
“O Promob é uma ferramenta que envolve vários pilares, entre eles produzir usando os conceitos do programa 5S nas propriedades. O programa também estabelece relação com aspectos técnicos do processo de produção do frango, bem como exigências legais”, explica o gerente de Produção da Avicultura da C.Vale, Maykon Buttini. “O Promob, na verdade, é um checklist que envolve premissas do 5S, premissas de boas práticas de produção e premissas de legislação”, destaca.
O programa, segundo ele, não é estático. “Ele sofre ajustes conforme as necessidades e as mudanças que acontecem na própria legislação ou dos conceitos de boas práticas, inclusive as melhorias que acontecem na propriedade ao longo dos anos.” No campo, isso se traduz em atualizações de rotinas, adequações e correções. “O programa também contribui e ajuda o produtor a identificar itens que ele precisa melhorar para que, corrigindo, ele possa ter uma propriedade mais organizada, com melhor desempenho, além de manter uma conservação de estrutura que possa se perpetuar ao longo dos anos.” Anaí traduz isso com simplicidade: “O Promob veio para direcionar e dar parâmetros para melhor executarmos a organização e a produção.”
O que é 5S e por que ele aparece na avicultura
O 5S é uma metodologia japonesa de gestão focada na melhoria contínua do ambiente de trabalho, baseada em cinco palavras: seiri (utilização), seiton (organização), seiso (limpeza), seiketsu (saúde/padronização) e shitsuke (disciplina). Em programas como o Promob, esses conceitos ajudam a estruturar rotina, padronização e organização da propriedade – fundamentos diretamente ligados à biosseguridade e à condução do lote.
Biosseguridade é cultura, não obrigação

Fotos: Shutterstock
Biosseguridade não é obrigação, é cultura. Na prática, define Anaí, “biosseguridade é estar sempre comprometido com os protocolos de segurança, reduzindo riscos sanitários às aves. Sempre somos rigorosos para manter todos os requisitos de biosseguridade.” Esse tipo de atitude revela uma postura típica de quem trabalha com repetição de desempenho: não há “dia em que dá para afrouxar”.
Maykon Buttini, da C.Vale, reforça essa ligação entre organização constante e resultado: “A gente tem certeza que a relação de nível de organização de biosseguridade e cuidado estão diretamente relacionados ao resultado final. Com uma propriedade organizada e bem cuidada o resultado vem”, define.
E acrescenta um ponto que amplia a leitura: organização não impede que problemas aconteçam, mas muda a capacidade de responder a eles. “Em algum momento podem acontecer problemas que são alheios, mas uma propriedade com essa organização como a da Anaí e do Afonso sempre estará mais preparada para encarar e resolver qualquer desafio.”
Tecnologia, ambiência e decisões no chão do aviário

Quando se fala em “aviários climatizados”, há um risco de imaginar uma solução automática. Afonso faz questão de desfazer essa fantasia. Para ele, tecnologia é ferramenta, mas depende de programação, ajuste e observação diária.
Ele lista o pacote tecnológico utilizado nas granjas: “Painel de controle, pressão negativa e estática, inlet, túnel door, equipamentos dimensionados corretamente, aquecimento a gás, lâmpadas dimerizáveis e aplicativo do painel de controle. Todas essas tecnologias que temos nos aviários nos auxiliam para desempenharmos um bom manejo”, menciona.
A palavra-chave é “auxiliam”. Tecnologia não substitui o ser humano. “Fazemos um bom uso das tecnologias sem deixar de lado a observação dos pequenos detalhes do dia a dia. A tecnologia ajuda e muito na automatização dos equipamentos. Mas ela não resolve nada sozinha se não estiver corretamente programada.” Ou seja: na propriedade dos pentacampeões, a diferença entre ter tecnologia e extrair resultado dela está na rotina, nos ajustes, no olhar e no método.
Quando fala de evolução, Afonso aponta mudanças que, na prática, traduzem gestão de ambiência: “Ao longo dos anos investir na qualidade do ar, melhorando a ventilação e também em aquecimento e resfriamento.”
Quando o método aparece nos números
O Promob está ligado a organização e biosseguridade, mas os reflexos aparecem nos indicadores zootécnicos. Processos bem conduzidos tendem a gerar estabilidade; estabilidade tende a aparecer em conversão, viabilidade, uniformidade e ganho de peso, entre outros.
Buttini coloca isso de forma clara. “A propriedade da Anaí e do Afonso, além dessas cinco premiações, desponta em itens de desempenho. Eles possuem resultados muito acima da média da integração da C.Vale, seja em conversão alimentar, mortalidade e assim por diante.” E reforça a tese: “Conseguem esse desempenho justamente por atribuir cuidados de qualidade no dia a dia.”
Para Afonso, a confirmação de que o caminho adotado foi o correto aparece de forma objetiva nos resultados da granja. “Nossos resultados obtidos com a qualidade dos frangos entregues, o ganho de peso e o resultado financeiro mostram que as decisões tomadas ao longo do tempo fizeram sentido”, afirma.
A pressão de manter o padrão
Vencer uma vez pode virar história de ocasião. Vencer cinco vezes consecutivas, dentro de um programa de monitoramento e organização, é outra coisa: é repetição com responsabilidade. Anaí traduz o sentimento com duas camadas: a primeira é a meta; a segunda, a descoberta de capacidade. “Ganhar uma vez foi resultado de dedicação e metas estipuladas.” E completa: “Ganhar cinco vezes seguidas, mais do que gerar pressão, nos mostrou que somos capazes de superar nossas próprias metas.”
A cobrança, segundo Anaí, não vem de fora. Ela nasce dentro da própria rotina. “A maior cobrança por manter o nível com certeza vem de nós mesmos. Temos a filosofia e os princípios de sempre fazer o melhor”, afirma. E, quando um novo lote entra no aviário, essa lógica se impõe de forma natural. “A ideia é sempre superar o nosso melhor resultado”.
Resultado econômico e visão de longo prazo
A rentabilidade de 52% sobre o faturamento do lote conquistado na última das cinco conquistas, em 2025, aparece como um dado objetivo, mas não como ponto de chegada isolado. Para Afonso, ela é consequência direta de escolhas feitas ao longo do tempo também no que diz respeito à atualização e à modernização da estrutura produtiva. “Atualização, modernização e implantação das novas tecnologias disponíveis no mercado”, resume.
Esse resultado aparece no fim de uma cadeia construída no dia a dia com organização, controle, previsibilidade e desempenho, sem promessas fáceis ou fórmulas prontas. É a tradução econômica de um método aplicado com constância, sustentado por decisões técnicas e pela disciplina da rotina.
O papel do sistema cooperativo

Em um sistema com escala industrial, resultados consistentes dependem de uma engrenagem alinhada. Buttini aponta dois fatores para explicar regularidade: “São dois fatores muito importantes. O primeiro é a C.Vale, pela sua seriedade, pela forma de conduta e apoio ao produtor através muitas vezes dos extensionistas. O segundo é a gestão do produtor.”
Para Buttini, a virada de chave ocorre quando o produtor entende que parceria e execução diária caminham juntas. “A regularidade de desempenho não é algo raro. Ela aparece a partir do momento em que o produtor percebe o valor da parceria com o extensionista e com a C.Vale, soma isso à sua atuação no dia a dia, mantém foco nos detalhes, na produção e passa a receber e aplicar as orientações técnicas. É nesse ponto que o cenário muda. O case da Anaí e do Afonso é de sucesso fantástico. Para mim, como funcionário da cooperativa, é motivo de orgulho.” E completa: “Eles tratam a atividade com um amor enorme, com muito cuidado, capricho e zelo. Eles são um exemplo a ser seguido por todos.”
O reconhecimento institucional

O reconhecimento mais recente veio durante o Dia de Campo da C.Vale, realizado em dezembro de 2025, quando a cooperativa premiou os destaques do sistema de integração avícola. Dentro desse contexto, a repetição da vitória da Anaí no Promob ganha leitura de consistência: não é um retrato, é um filme.
Buttini amarra o conceito: “Quando temos casos assim como da Anaí e do Afonso é porque o produtor entendeu qual é a fundamentação, qual é o princípio do programa.” Ele descreve o que o programa faz no cotidiano: “Ele entende que o programa vem para ajudar, oferecendo informações sobre onde ele tem oportunidades.”
O gerente de Produção da Avicultura da C.Vale resume essa lógica de forma direta: “É a dedicação no dia a dia da granja que permite melhorar os indicadores avaliados pelo Promob. Quando o produtor corrige esses pontos e mantém foco na atividade, a performance aparece”.
Quando vencer vira método
Repetição não nasce de acaso. Ela nasce de rotina, disciplina e de um método. “Faça sempre tudo com dedicação, determinação e foco. Observe, busque conhecimento técnico em fonte confiável e tenha sempre o Diário de Bordo a mão.” Na avicultura, não há atalhos. Há método. E quando vencer vira método, o resultado deixa de ser exceção e passa a ser padrão.
A versão digital está disponível gratuitamente no site de O Presente Rural. A edição impressa já circula com distribuição dirigida a leitores e parceiros em 13 estados brasileiros.
Avicultura
Rio Grande do Sul intensifica vigilância após caso de gripe aviária em aves silvestres
Capacitação de agentes e intensificação de educação sanitária fortalecem prevenção na região do foco registrado no fim de fevereiro.

Após a confirmação de um foco de Influenza aviária de Alta Patogenicidade (H5N1) em aves silvestres na Reserva do Taim, no município de Santa Vitória do Palmar, no Sul do Rio Grande do Sul, o governo estadual intensificou as ações de vigilância sanitária na região. O caso foi registrado em 28 de fevereiro e mobilizou equipes do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (DDA/Seapi).
Na segunda-feira (09), a Secretaria promoveu a capacitação de 51 agentes de endemias, saúde e controle epidemiológico de Santa Vitória do Palmar. A agenda também incluiu uma reunião com representantes da prefeitura de Chuí. O objetivo foi atualizar informações sobre a situação sanitária e alinhar estratégias de prevenção e controle do foco da doença.
Segundo a fiscal agropecuária do DDA/Seapi, Rosane Collares, a articulação com os municípios e a qualificação de profissionais que atuam diretamente nas comunidades são fundamentais para fortalecer o sistema de vigilância. “Na última sexta-feira (06) realizamos reunião com a prefeitura de Santa Vitória do Palmar. Hoje estivemos em Chuí para alinhar informações com as autoridades da região”, afirma.
O treinamento reuniu agentes de endemias, profissionais da saúde e integrantes da Estratégia Saúde da Família. “Esses profissionais atuam diretamente nas residências e serão importantes multiplicadores de informação, devido à sua ampla presença nas comunidades”, acrescenta Rosane.
Educação sanitária
O médico-veterinário Felipe Campos, coordenador de Educação Sanitária da Seapi, explica que as ações educativas são realizadas de forma contínua e estão integradas às atividades de vigilância em campo.
Segundo ele, o trabalho inclui contato direto com a comunidade e reuniões com gestores das áreas de educação, saúde, meio ambiente, agricultura e defesa civil, realizadas tanto presencialmente quanto de forma on-line. “A atuação seguirá nas comunidades por meio de orientações técnicas voltadas a esclarecer a população e reforçar a importância de utilizar nossos canais oficiais de comunicação. Paralelamente, estamos estruturando um cronograma de atividades educativas nas escolas da região”, afirma.
A educação sanitária é considerada um componente essencial da defesa agropecuária, tanto para a prevenção quanto para o enfrentamento de doenças. Em situações de foco, essa estratégia ganha ainda mais relevância, ao conscientizar a população sobre seu papel e contribuir para a eficácia das ações de resposta e controle sanitário.
Atuação integrada
O Serviço Veterinário Oficial do Rio Grande do Sul (SVO-RS) atua de forma integrada com equipes do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) no monitoramento da Lagoa da Mangueira, área onde foi identificado o foco da doença em aves silvestres da espécie Coscoroba, conhecida como cisne-coscoroba.
Até o momento, foram registrados 20 cisnes-coscoroba e uma garça-moura infectados. Entre as ações em andamento estão vistorias em campo, monitoramento de aves com embarcações e o uso de drones para supervisionar a lagoa e a área onde ocorreu o foco.
As amostras coletadas são encaminhadas ao Laboratório Federal de Defesa Agropecuária de Campinas (LFDA-SP), unidade de referência da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA), responsável pela confirmação da presença do vírus.
Casos suspeitos
A Secretaria da Agricultura orienta que qualquer suspeita da doença, caracterizada por sinais respiratórios ou neurológicos, além de mortalidade súbita e elevada em aves, seja comunicada imediatamente às autoridades sanitárias.
As notificações podem ser feitas nas Inspetorias ou Escritórios de Defesa Agropecuária, pelo sistema e-Sisbravet ou pelo WhatsApp (51) 98445-2033.



