Suínos Saúde Animal
Vacina na produção animal é crucial também para a saúde humana
Na produção animal, as vacinas são ferramentas de extrema importância para manter os planteis e seus consumidores livres de doenças

O mundo todo busca uma vacina contra a Covid-19, doença causada nos seres humanos pelo novo Coronavírus. Na produção animal, as vacinas são ferramentas de extrema importância para manter os planteis e seus consumidores livres de doenças. Para entender um pouco mais sobre o que são, como agem e outras questões, o jornal O Presente Rural entrevistou a pesquisadora Ana Paula Bastos e pesquisador Luizinho Caron, ambos da Embrapa Suínos e Aves, com sede em Santa Catarina. Confira e bom aprendizado.
O Presente Rural (OP Rural) – As vacinas servem para que?
Ana Paula Bastos e Luizinho Caron (Bastos e Caron) – As vacinas são substâncias biológicas, produzidas a partir de partes ou o microrganismo completo, atenuado ou morto, introduzidas nos animais a fim de protegê-los das respectivas doenças. Na prática, elas ativam o sistema imunológico, “ensinando” o organismo do animal a reconhecer e combater vírus e/ou bactérias em futuras infecções. Para isso, são compostas por componentes ou toxinas do microrganismo que causa a doença, ou pelo próprio agente patogênico em versões atenuadas (o vírus ou a bactéria enfraquecidos) ou inativadas (os agentes estão mortos). Portanto, as vacinas contêm antígenos de vírus, bactérias, toxinas bacterianas ou parasitas.
O objetivo da vacinação é estimular o sistema imunológico do animal a produzir anticorpos contra o antígeno administrado para evitar o desenvolvimento da doença caso o animal tenha contato futuro com esses vírus, bactérias ou parasitas e assim proporcionando proteção contra infecções a longo prazo. A maioria das vacinas estimula tanto uma resposta humoral quanto uma resposta mediada por células.
Algumas vacinas que são raras podem induzir uma imunidade estéril, ou seja, após vacinado por um determinado período o sistema imune é capaz de barrar via anticorpos qualquer tentativa de replicação do vírus no animal após o desafio. O mais próximo disso é a vacina contra Peste Suína Clássica (PSC), mas a maioria das vacinas não consegue inibir a replicação do vírus ou a proliferação da bactéria, mas evita a manifestação dos sinais clínicos ou da doença que esta provoca. Na produção de suínos muitas vezes uma vacina que reduz ou mitiga as perdas econômicas promovidas pelas doenças, já proporciona uma grande melhora no desempenho produtivo.
OP Rural – Como são produzidas?
Bastos e Caron – Várias estratégias básicas são usadas para fazer vacinas. Os pontos fortes e as limitações de cada abordagem são descritos aqui.
As vacinas podem ser vivas, contendo organismos vivos que se multiplicarão no suíno ou inativada, contendo apenas microrganismos mortos que não se multiplicarão no animal.
Em vacinas vivas, os microrganismos geralmente foram atenuados (isto é, sua virulência foi reduzida ou eliminada), de modo que, embora se multiplique no suíno, normalmente não causa nenhuma doença. Exemplos são a vacina PRRS (embora algumas possam causar reações leves), vacinas contra a doença de Aujeszky (pseudo-raiva) e vacinas clássicas da peste suína. As vacinas vivas atenuadas têm a vantagem de que, por se multiplicarem no suíno, dão um estímulo antigênico maior, resultando em uma imunidade mais forte e duradoura, além disso, são vacinas em que efeitos colaterais no local da aplicação ou generalizado (em todo o corpo) como choque anafilático ou anafilactoide serem muito raros, pois a dose de antígeno utilizada para a imunização é muito pequena. No entanto, essas vacinas têm a desvantagem de serem sensíveis e portanto, facilmente inativadas (mortas) e assim tornando-se inúteis em condições incorretas de armazenamento (colocadas no calor) ou durante a administração (por exemplo, por exposição a anti-sépticos ou desinfetantes), pois estas vacinas necessitam estar vivas ao serem administras aos animais para possam se replicar em seus tecidos e induzirem a imunidade.
As vacinas inativadas (mortas) podem conter microrganismos inteiros, partes antigênicas de organismos ou antígenos que foram sintetizados quimicamente. Um exemplo de uma vacina de organismo inteiro comumente usada é a vacina contra erisipela (Na América do Norte, essas vacinas são frequentemente chamadas de bacterinas). A imunidade produzida por vacinas inativadas pode ser aumentada pela adição de adjuvantes.
As vacinas inativadas também podem conter toxinas que foram modificadas para que estimulem uma resposta imune, mas não sejam tóxicas para o animal. As toxinas que foram modificadas dessa maneira são chamadas de toxóides. A vacina clássica desse tipo é o toxóide tetânico, que é comumente usado em cavalos, mas raramente em suínos. Em suínos, algumas das vacinas contra E. coli (diarreia de leitões) e as vacinas clostridiais contra disenteria de leitões contêm toxóides.
Vacinas autógenas são aquelas preparadas com patógenos infecciosos de rebanhos correlacionados a serem vacinados à partir de bactérias ou vírus patogênicos específicos isolados do animal doente. Os organismos causais devem ser isolados, crescidos, mortos e transformados em uma forma de vacina segura. Vacinas autógenas podem ser úteis quando surtos graves de doenças ocorrem e vacinas comerciais padrão não estão disponíveis.
Uma desvantagem de vacinar um rebanho é que você não pode usar exames de sangue para verificar se o organismo está presente no rebanho ou não. Todos os suínos terão resultados positivos, o que tem implicações óbvias para um programa de erradicação baseado em exames de sangue, por exemplo, a erradicação da peste suína ou da doença de Aujeszky (pseudo-raiva). Para superar isso, foram desenvolvidas vacinas com genes deletados. Uma parte do gene do organismo que codifica um antígeno foi removida para que, quando o organismo se multiplique no suíno, ele não estimule anticorpos contra essa parte do antígeno. Os exames de sangue especiais podem distinguir entre a variedade de anticorpos da doença e os estimulados pela vacina. Uma nova geração de tais vacinas manipuladas por genes chamadas em inglês “DIVA” (Differentiation of infected from vaccinated animals) ou vacina marcada que diferencia animal vacinado de infectado.
Vale ressaltar que o desenvolvimento de uma vacina é um processo complexo que envolve uma série de etapas, as quais levam tempo para serem cumpridas. Este processo engloba vários processos experimentais e de pesquisa; isto é, até uma vacina ser licenciada para uma doença e chegar aos produtores são necessários estudo, análises, aplicação em modelos experimentais (cobaias) e exames de reações de inocuidade e a eficácia. O processo de pesquisa para uma vacina começa com o estudo do agente causador da doença (vírus ou bactéria), a equipe isola o agente em laboratório e observa como esse agente provoca a doença. Posteriormente segue as seguintes fases de desenvolvimento: ensaios pré-clinicos, ensaios clínicos e licenciamento.
OP Rural – Como são definidas as vacinas que serão usadas?
Bastos e Caron – De modo ideal, espera-se que uma vacina seja capaz de conferir proteção prolongada do animal frente a uma nova exposição ao agente patogênico, caracterizando a imunidade de longa duração ou memória. A memória imunológica é que permitirá uma resposta imune intensa frente a uma nova exposição desse microrganismo patogênico. Vacinas devem apresentar facilidade de administração, custo de aquisição acessível, adequada estabilidade da vacina durante o armazenamento e após a inoculação no organismo, adequação à programas de vacinação em massa e capacidade de estimular imunidade forte e duradoura. Devem causar o menor número possível de efeitos colaterais e não afetar o desempenho produtivo dos animais. Contudo, a maioria das vacinas requer múltiplas doses para imunizar adequadamente e a via de administração gera custo extra para o produtor, como mão-de-obra disponível e treinada para executar adequadamente a vacinação.
Como solução, novas tecnologias estão sendo utilizadas para tornar as vacinas resistentes a diferentes temperaturas e usam adjuvantes que em conjunto também aumentam a imunogenicidade (a capacidade de uma substância provocar uma resposta imune), combinam antígenos vacinais e sistemas de entrega para as mucosas, pele ou via parenteral livre de agulha, melhorando os procedimentos de imunização, fazendo com que esse manejo no sistema de produção seja adequado e eficiente nas categorias críticas sob o ponto de vista imunológico na produção; como exemplo, os leitões e as porcas lactentes na suinocultura.
O suinocultor também deve avaliar se a vacinação irá gerar retorno econômico a curto, médio ou a logo prazo. Destacamos que isso não se aplica para as vacinas para enfermidades infecciosas graves e que são impostas pelas autoridades sanitárias oficiais, quando o principal objetivo é erradicação e controle das enfermidades. Tentar equilibrar o custo-benefício da vacina e outros insumos é difícil. As granjas comerciais não são projetadas para pesquisa; portanto, às vezes é difícil tirar conclusões de seu uso. No sentido mais básico, as vacinas são ferramentas de gerenciamento de riscos econômicos e de doenças. Portanto, impressões clínicas, dados de produção e informações financeiras devem ser usadas para avaliar o sucesso. Para tal, deve-se avaliar, portanto, o custo da vacina, custo da vacinação (mão de obra, agulhas, seringas, armazenamento), e o retorno gerado a partir da vacinação com a melhora da qualidade da carcaça, redução de condenações, melhora no ganho de peso, redução no uso de antibióticos ou tratamentos terapêuticos, aumento da média de leitões nascidos vivos por porca. Conhecer bem o seu sistema de produção para poder avaliar a probabilidade de um surto de alguma enfermidade que possa trazer sérios danos ao desempenho produtivo da granja também deve ser considerado.
OP Rural – Isso difere de região para região ou país? Ou ainda, quais as mais usadas no Brasil?
Bastos e Caron – O programa de vacinação difere entre países, estados, regiões e sistema de produção. Infelizmente não existe um programa de vacinação que possa ser recomendado para todas as granjas, já que o programa deve ser elaborado pelo médico veterinário, levando em conta os problemas sanitários e o manejo empregado em cada granja. Esse programa poderá ser alterado de acordo com o surgimento de novas vacinas, mudança no padrão das enfermidade e aparecimento de novas doenças, bem como também em função de alterações no manejo. Assim, é importante acompanhar os índices produtivos e ter o acompanhamento de um veterinário que conheça bem a etiologia, patogenia, epidemiologia das enfermidades, para utilizar todas as ferramentas de forma a obter o melhor resultado econômico possível.
Na suinocultura brasileira, nas áreas livre de Peste Suína Clássica (PSC) é proibida a vacinação, como nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, além de alguns estados do Norte e Nordeste. Esta é uma enfermidade cuja notificação é obrigatória. Para esses casos está previsto a implantação das medidas do programa de contingenciamento contra PSC do PNSS (Programa Nacional de Sanidade de Suídeos). Todavia, alguns estados do Norte e Nordeste do Brasil ainda são endêmicos para a peste suína clássica. Dessa forma, o MAPA – DSS – estabeleceu um programa de vacinação estratégica e obrigatória, em que profissionais dos órgãos de defesa estadual vão a todos os estabelecimentos onde há suídeos e vacinam os animais. Associado a este programa também são tomadas medidas de controle de transito e de entrada e saída de animais nestas regiões. Após dois ou três anos de encerrar o programa de vacinação estão previstos inquéritos epidemiológicos para avaliar o “status” sanitário do estado, ou região. A vacina utilizada contra a PSC é uma vacina atenuada chamada cepa Chinesa, a qual é altamente eficiente, mas a impossibilidade de se diferenciar sorologicamente animais vacinados de animais que foram infectados com vírus de campo é uma dificuldade par o programa de erradicação. O que implica na retirada da vacinação e a necessidade de se aguardar algum tempo, de renovação do plantel para se realizar os inquéritos epidemiológicos.
As principais doenças que acometem os suínos no Brasil e necessitam de vacinação são a Parvovirose, a Leptospirose, a Colibacilose, a Erisipela, a Circovirose, a Rinite atrófica, e a Pneumonia enzoótica. Sugerimos aqui um programa mínimo de vacinação para um rebanho suíno, lembrando que algumas criações podem exigir outras vacinas.
Leitoas: Na quarentena ou chegada na granja, recomenda-se a primeira dose de parvovirose, erisipela e leptospirose e com 20 a 30 dias após a chegada, a segunda dose. Com 70 dias de gestação, devem ser aplicadas as primeiras doses de colibacilose, rinite atrófica e pneumonia enzoótica. Com 90 dias, as respectivas segundas doses.
Porcas: Dose única de colibacilose, rinite atrófica e pneumonia enzoótica aos 90 dias de gestação. Dose única também para a parvovirose, leptospirose e erisipela de 10 a 15 dias após o parto.
Cachaços: Na quarentena ou chegada na granja, uma dose de parvovirose, erisipela, leptospirose e uma de rinite atrófica. Após, renovar a dose de rinite atrófica semestralmente e a de parvovirose anualmente.
Leitões: De acordo com a recomendação do fabricante ou veterinário, uma ou duas doses de pneumonia enzoótica e circovirose. É importante evitar o período de castração ou desmame dos leitões para fazer a aplicação das vacinas. Isso porque nesses períodos, o estresse do leitão é muito grande, comprometendo o desenvolvimento de uma resposta imunológica satisfatória.
Outras doenças comuns a suínos que requerem vacinação são a Peste suína clássica, a Leptospirose, a Erisipela, a Pleuropneumonia, a Doença de Aujeszky e a Paratifo, que devem ser aplicadas se assim recomendadas.

OP Rural – Como as vacinas ajudam no bem-estar dos animais?
Bastos e Caron – Em 1979 a Farm Animal Welfare Council publicou um documento com os princípios que hoje norteiam as boas práticas de bem-estar animal e a legislação relativa ao assunto. Nesse documento postulam as 5 liberdades dos animais, dentre essas consta o animal estar livre de dor, doença e injuria.
A saúde animal é um fator de importância crucial na agricultura moderna, a saúde precária em si é um problema de bem-estar para os animais em questão. Ademais, a falta de bem-estar animal, mesmo na ausência de qualquer doença, também é importante porque pode afetar a produtividade. Sendo, desta forma, importante promover a boa saúde animal e o bem-estar animal para ajudar a garantir boa produtividade e segurança alimentar. Proteger a saúde dos animais por meio da vacinação leva a um melhor bem-estar, e a manutenção do bom bem-estar garante que os animais possam responder com êxito à vacinação. É claro que a vacinação tem enormes vantagens para o bem-estar animal e, embora os possíveis efeitos colaterais da vacinação ou a administração da vacina possam ter um efeito negativo no bem-estar de alguns animais, os danos causados por esses efeitos indesejados devem ser pesados contra os benefícios indubitáveis para grupos de animais. A vacinação pode ser usada durante surtos de doenças como uma alternativa viável, evitando assim os problemas de bem-estar que o abate em massa na granja pode causar.
É importante compreender que existe uma conexão entre bem-estar e saúde o que pode aumentar a resistência a doenças infecciosas, enquanto um estado de bem-estar pobre pode reduzir a resistência imune do animal e, assim, predispor a doenças. Uma resistência reduzida pode levar ao desenvolvimento de doenças clínicas do estado de portadores, e pode significar que a doença nunca é completamente eliminada e que o animal permaneça portador. A ausência de bem-estar em um momento crítico, por exemplo castração sem analgesia, também pode afetar a resposta à vacinação, um ambiente de estresse resulta em imunossupressão, o que pode afetar a resposta efetiva à vacinação e aos desafios sanitários do ambiente de produção.
Além da produtividade dos animais e da segurança alimentar, a vacinação desempenha um papel importante na saúde humana através do controle de algumas doenças zoonóticas ou de doenças que predispõem os animais a desenvolver infecção por microrganismos zoonóticos, como exemplo temos as doenças que afetam o sistema imunológico tais como a circovirose. Como contextualizado acima, a vacinação promove o bem-estar animal, protegendo a saúde animal, mas também possui outros benefícios, por exemplo investigações recentes analisaram o potencial das vacinas em imunocastração – uma alternativa aos métodos tradicionais cruentos.
OP Rural – A vacina deixa os animais imunes a determinadas doenças? Como elas melhoram o ambiente das granjas?
OP Rural – O termo imunização se refere à indução de imunidade frente a um determinado agente. A imunização ativa ocorre pela exposição do animal ao agente infeccioso ou por vacinação.
As vacinas contêm um agente que se assemelha a um microrganismo causador de doença e ela ajuda a estimular uma resposta imune sem causar a própria doença. Isso cria uma exposição precoce a organismos causadores de doenças, onde o sistema imunológico dos animais é capaz de se recuperar do agente infeccioso ao qual o animal é vacinado. Mesmo assim, controlar a exposição de suínos a microrganismos normais e patogênicos é absolutamente essencial para o sucesso em sistemas alternativos. Um surto de doença pode ser desencadeado pela introdução de um animal saudável da maneira errada, para não falar de animais infectados e pessoas e equipamentos contaminados. É importante o produtor ter controle da exposição de animais jovens ou novos a organismos já existentes na granja até que seus sistemas imunológicos estejam prontos. Para melhorar a resistência a doenças dos suínos é importante a combinação da utilização de boas práticas de produção e a vacinação.
O ambiente das granjas também é melhorado na medida em que as doenças reduzem a imunidade geral do rebanho a infecções ambientais e aumentam muito a circulação de patógenos no meio ambiente, favorecendo a disseminação e o aparecimento de doenças infecciosas e mesmo aquelas que podem afetar a carne e a saúde do consumidor como a Salmonella.
OP Rural – Os animais são submetidos a estresse quando vacinados. Há novas tecnologias, como dose única, novos equipamentos, robôs, etc. para evitar tal estresse?
Bastos e Caron – Avanços recentes em tecnologias e também uma melhor compreensão de patogenicidade, imunologia e epidemiologia abriram novas oportunidades para a prevenção de doenças infecciosas na suinocultura em um nível sem precedentes. Alguns dos avanços que consideramos entre os mais impactantes, inclui avanços na entrega e apresentação de antígenos para o sistema imunológico, plataformas que permitem uma resposta aprimorada a doenças emergentes e avanços na fabricação das vacinas.
Melhorias recentes no entendimento da virulência e patogenicidade combinadas com métodos biológicos moleculares eficazes deram lugar ao planejamento racional de vacinas, onde os fatores de virulência foram seletivamente eliminados ou silenciados funcionalmente. Isso levou a vacinas que mantêm as propriedades benéficas das vacinas vivas, reduzindo o risco de uma possível reversão da virulência. Dentro dessas novas estratégias de vacinação as pesquisas também se direcionaram para a investigação de vacinas alternativas, focadas no desenvolvimento de adjuvantes efetivos e sistemas de liberação controlada. Veículos de drogas biomateriais oferecem uma solução potencial. Para a entrega da droga, os biomateriais mais utilizados são os lipossomas, as micropartículas poliméricas, nanopartículas, as vesículas e as micelas. Dentro desse tipo de sistema existem as “partículas semelhantes a vírus” (virus like particles-VLP), esse sistema nos possibilita, o desenvolvimento de vacinas que possam ser administradas de maneira massal, por meio da veiculação da vacina na água de bebida, na ração ou pela aspersão do inóculo sobre suínos, com essa possibilidade é possível reduzir o estresse da aplicação nos suínos, bem como redução de gastos de material para administração, reduz mão-de-obra e menor necessidade de treinamento para administração. Como consequência, se surge novas vacinas e formas de administração teremos novas tecnologias para a administração delas, principalmente de forma massal.
Um exemplo interessante é a vacina para Lawsonia intracellularis atenuada que é administrada aos animais através da água de bebida para prevenir a Ileíte ou Enteropatia Proliferativa Suína.
A vacinação de suínos em escala comercial é normalmente realizada por injeção, onde em cada suíno a vacina é administrada individualmente. Embora os sistemas de vacinação por spray tenham sido desenvolvidos para a avicultura, esses sistemas são adaptados para esse sistema de produção e não são adequados para uso com suínos. O mecanismo de pulverização normalmente inclui um dispositivo de chuveiro localizado acima do gabinete e pulveriza a vacina para baixo na parte superior aberta. Esse sistema não é adaptado para suínos, tendo que atender a anatomia diferente dos animais (aves e suínos), comportamento distinto, eficácia na absorção e tamanho dos droplets pulverizados. Os droplets, portanto, lixam as partes superiores do corpo dos pintinhos. Existe, portanto, a necessidade de um sistema de vacinação por spray especificamente projetado para uso com suínos, equipamentos já estão sendo desenvolvidos para atender essa demanda (patente # WO 2009/099869 A2), portanto o próximo passo é desenvolver vacinas que possam ser administradas por pulverização, que não causam resíduo ambiental e que penetre adequadamente nas mucosas dos suínos.
Por fim, existem empresas que já estão ofertando a administração de vacinas utilizando a tecnologia RFID (identificação por radiofrequência), que através de dispositivos ocorre a administração das vacinas por vias intradérmica e intramuscular, e por meio de um software ocorre uma rastreabilidade completa e automatizada do processo de vacinação.
OP Rural – Como seria a suinocultura sem vacinação?
Bastos e Caron – A vacinação é vital na promoção da saúde e do bem-estar animal. A vacinação ajuda a proporcionar estabilidade econômica e sustentável para o suinocultor e as comunidades que eles servem. Quando os animais não são vacinados, isso leva a uma resistência reduzida a doenças, ao desenvolvimento de doenças clínicas, baixa produtividade, falta de segurança alimentar, surgimento de doenças exóticas e pandemias. Ademais, não são apenas os animais que correm risco quando as vacinas não são feitas; a saúde pública entre humanos também é protegida através da vacinação de animais.
A suinocultura sem vacinação voltaria ao passado 50 ou 60 anos no nosso entendimento. O não uso de vacinas inviabilizaria a produção em escalas de produção maiores, aumentaria muito as perdas, mesmo para propriedades pequenas e as incertezas da produção seria incrementada sensivelmente. A consequência disso mais evidente seria que a carne suína seria uma carne rara e muito cara para os consumidores, o mesmo aconteceria com a carne de frango e ovos. Então os produtos de origem animal seriam muito mais caros e pouco acessíveis aos consumidores piorando muito a qualidade da alimentação principalmente para as classes menos favorecidas. Hoje já existem muitas iniciativas e produção sem o uso antimicrobianos de forma preventiva, no entanto, mesmo sistemas orgânicos de produção fazem uso das vacinas para prevenir doenças e perdas nos rebanhos.
Outras notícias você encontra na edição de Suínos e Peixes de maio/junho de 2020 ou online.

Suínos
Rentabilidade da suinocultura preocupa produtores de Mato Grosso
Apesar do avanço da produção e das exportações brasileiras, preços em queda e margens apertadas desafiam o setor no Estado.
Suínos
Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores
Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.
A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”
Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.
A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.
Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.
Recomeço em outro país
Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.
O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”
A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.
A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.
Escola, trabalho e novas oportunidades
Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.
A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida
Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.
Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.
A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.
Reconhecimento e qualidade de vida
Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.
A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.
O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.
Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.
Integração além da porteira
Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.
Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.
O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.
Planos para ficar
Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.
Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.
Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.
A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.
Suínos
Da creche à sustentabilidade, 6º Encontro Técnico Abraves-SP apresenta estratégias para aumentar eficiência das granjas
Evento em Pirassununga (SP) vai discutir manejo de leitões leves, sanidade, nutrição e sistemas de produção para apoiar decisões técnicas na suinocultura.

Melhorar a produtividade sem comprometer a sanidade do rebanho exige decisões técnicas em todas as etapas da produção. Manejo de leitões, nutrição, biosseguridade e gestão dos sistemas de criação estão entre os fatores que determinam o desempenho das granjas e influenciam diretamente os custos e os resultados da atividade.
Diante desse cenário, a atualização técnica tornou-se uma ferramenta cada vez mais importante para médicos-veterinários, zootecnistas, consultores e produtores, que precisam incorporar novos conhecimentos à rotina das granjas.
Esses temas estarão em debate no 6º Encontro Técnico Abraves-SP, que será realizado em 09 de setembro, no campus da Universidade de São Paulo (USP), reunindo profissionais da cadeia suinícola para discutir soluções aplicáveis aos sistemas de produção.
Entre os destaques da programação está a palestra do médico-veterinário Vinícius Cantarelli, que abordará estratégias de manejo de leitões leves na fase de creche, uma etapa decisiva para o desempenho dos animais ao longo do ciclo produtivo.
O médico-veterinário Caio Abércio da Silva discutirá a sustentabilidade dos sistemas de produção, apresentando abordagens voltadas à eficiência técnica, econômica e ambiental da suinocultura.
Promovido pela regional paulista da Associação Brasileira de Veterinários Especialistas em Suínos (ABRAVES), o encontro busca aproximar pesquisa científica e prática de campo, oferecendo aos participantes ferramentas para aprimorar a tomada de decisão nas granjas.
A programação completa e as inscrições estão disponíveis aqui.








