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Uso da homeopatia populacional na prevenção e controle da mastite bovina

Mastite bovina é a doença de maior impacto econômico na pecuária leiteira devido aos prejuízos que causa ao produtor e à indústria de alimentos

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Artigo escrito por Roberta Porto, médica veterinária e promotora técnica da Real H e Ricardo Melotti, médico veterinário e gerente técnico da Real H

O leite é um dos mais completos produtos in natura em decorrência do seu alto valor nutritivo. Após dois anos em queda, em 2017 os laticínios submetidos à inspeção sanitária captaram 24,12 bilhões de litros, totalizando 4,1% de acréscimo na aquisição de leite quando comparado ao ano anterior. No 4º trimestre de 2017, obtivemos o melhor resultado para o período desde 2014, quando a aquisição de leite cru foi de 6,44 bilhões de litros, quando comparado ao mesmo período em 2016 apresentou um crescimento de 3,2%.

Na pecuária leiteira, a mastite bovina e o descarte do leite em decorrência da presença de resíduos são responsáveis por grandes prejuízos ao produtor e à indústria de alimentos. Os resíduos de antibióticos estão relacionados ao tratamento da mastite, representando a principal contaminação química do leite e de produtos lácteos. Deste modo, os derivados como o iogurte, a manteiga, o queijo, entre outros, pode ter suas características físico, químicas e sensoriais alteradas devido à presença destas substâncias, prejudicando o processo de fabricação.

A mastite bovina é a doença de maior impacto econômico na pecuária leiteira devido aos prejuízos que causa ao produtor e à indústria de alimentos, o que corrobora com os achados de 1994, que afirmam que mais de 25% de todas as perdas econômicas relacionadas às doenças podem ser diretamente atribuídas à mastite. Esta caracteriza-se por uma inflamação da glândula mamária, que ocorre devido a contaminação por bactérias patogênicas, vírus, fungos, algas ou por traumas provocados por agentes químicos, físicos, mecânicos, térmicos ou por problemas metabólicos. De difícil controle e erradicação, é a mais comum enfermidade que acomete o gado bovino no mundo, correspondendo a 38% de toda a morbidade.

Entre os principais prejuízos apontados pela Embrapa, estão a redução na produção de leite, descarte do leite proveniente dos animais doentes, custos do tratamento e até morte dos animais. As perdas afetam também os laticínios e especialmente o consumidor, em virtude das modificações que ocorrem nas propriedades físico-químicas do leite, refletindo no valor e na qualidade nutricional do produto. A isto atribui-se o uso de produtos químicos para o tratamento, resultando em risco de resíduos, mudanças nas suas características naturais e efeitos indesejáveis para a saúde pública.

A mastite pode se apresentar de forma clínica (superaguda, aguda, subaguda ou crônica) ou subclínica. A forma clínica se caracteriza pelas alterações visíveis no leite e/ou no úbere, além de poder haver comprometimento sistêmico dependendo do microrganismo envolvido. No entanto, é a forma subclínica a mais comum e que gera maiores prejuízos ao produtor, já que não apresenta alterações visíveis no leite e no úbere, sendo necessárias para detecção a realização de testes químicos, ou a comprovação do aumento do número de células somáticas.

Para cada caso de mastite clínica na propriedade existam 14 casos de mastite subclínica, no entanto, um pesquisador considera que para cada caso de mastite clínica ocorram entre 20 e 50 casos de mastite subclínica. No mundo, os índices de mastite subclínica são bastantes similares: ao redor de 40% de vacas infectadas e 25% dos quartos afetados. Em algumas regiões do Brasil têm sido encontradas prevalências médias de 17,45% de mastite clínica e 72,56% de mastite subclínica.

Perdas

A perda na produção de leite em relação a CCS varia da seguinte forma:

  • CCS de 140.000 a 195.000, perda na produção de até 5%;
  • CCS de 225.000 a 380.000, perda na produção de 8%;
  • CCS de 420.000 a 1.200.000, perda na produção de 9% a 18%;
  • CCS de 1.280.000 a 2.280.000, perda na produção de 19% a 25%.

Ambiente

A manutenção de animais em ambientes higiênicos, secos e confortáveis visa, em primeiro plano, minimizar os problemas relativos às mastites ambientais, porém, indiretamente reduz índices de mastite contagiosa. O ambiente nessas condições ajuda a reduzir o risco de novas infecções e aumenta a eficiência da produção pela redução do tempo e da mão-de-obra necessária para preparar o úbere para ordenha.

É importante conhecer, então, quais as possíveis formas de transmissão da mastite em novilhas, pois considerando que estes animais nunca foram ordenhados, podemos concluir que as fontes ambientais são de grande importância, como o acúmulo de lama e umidade. Diversos estudos comprovam que outras formas importantes de transmissão da mastite em novilhas são através de moscas que atuam como vetores e a ocorrência da mamada entre bezerras.   

Homeopatia populacional

Dentro no manejo preventivo, além dos procedimentos normais de higiene, nutrição, bem-estar animal, uso racional de drogas químicas, temos como ferramenta a homeopatia populacional, a qual irá atuar diretamente na imunidade do animal, elevando sua capacidade de defesa natural e resultando em maior proteção contra a ação de agentes globais que tem potencial de gerar tal doença.  

A homeopatia populacional tem sua origem na homeopatia, método terapêutico criado por Samuel Hahnemann (1775-1843) que, com o intuito de não provocar intoxicações medicamentosas, produziu diluições centesimais dos princípios em estudo. Entre diluições realizava agitações, liberando a energia medicamentosa contida na substância, sendo este processo denominado dinamização.

Trabalhos mostram que a homeopatia populacional pode trazer resultados significativos nesse processo.

Mais qualidade

Além de efeitos sobre a questão sanitária, a tecnologia da homeopatia populacional pode trazer, também, resultados positivos na composição do leite. Certo pesquisador conclui que, apesar do mecanismo da resposta não ter sido elucidado, foi evidenciada a capacidade da homeopatia de induzir resposta positiva em secreção proteica no leite de bovinos.

Estudos

Em trabalho realizado em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, foi avaliado o efeito de um Núcleo Homeopático no tratamento da mastite subclínica em vacas Holandesas. O modo de fornecimento foi realizado, diariamente, via ração, pelo período de 12 dias, para um lote de vacas problema em lactação de produção média de 10 a 15 litros de leite. Os animais foram mantidos a pasto, recebendo ração farelada no momento da ordenha. As fêmeas bovinas foram selecionadas com base nos resultados do teste CMT (California Mastits Test), sendo escolhidas as que apresentaram reação positiva 3 cruzes.

Também realizou- se a coleta de amostras de leite para análise microbiológica individual. O experimento resultou na redução significativa do número total de isolamentos, e na quantidade de espécies isoladas já no 13º dia (resultados comparados aos da primeira coleta realizada). Já as análises microbiológicas concluíram que a ação do Núcleo Homeopático foi eficaz e contribuiu para a redução da infecção dos úberes das vacas problema. 

No diagnóstico de mastite, os tratamentos devem ser logo realizados, no entanto, em alguns casos, o prognóstico é desfavorável, como na detecção de infecções por Staphylococcus aureus. De acordo com o médico homeopata Leon Vannier, as doenças se caracterizam pelo acúmulo de toxinas no organismo. Um déficit no funcionamento celular, seguido de febre, distúrbios endócrinos, entre outros problemas, ocorrem devido ao mau funcionamento do organismo, o que resulta no acúmulo de toxinas. Do mesmo modo, fatores externos ou ambientais como erros alimentares, por exemplo, ou o uso de medicamentos químicos por longos períodos, acumulam gerando resíduos. Em ambas as situações, o resultado final é o mesmo, o organismo animal torna-se intoxicado, criando as condições para a instalação e desenvolvimento bacteriano. Os medicamentos homeopáticos atuam promovendo a eliminação das toxinas acumuladas e, desta forma, restabelecendo o equilíbrio orgânico.

Resultados semelhantes foram acompanhados em trabalho realizado na cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul, onde concluiu-se que o uso de doses extras de complexo homeopático em vacas leiteiras saudáveis e produtivas foi capaz de promover um estímulo extra do sistema imune inespecífico, com o aumento temporário da CCS (Contagem de Células Somáticas), contribuindo para a eliminação de toxinas armazenadas no úbere ao longo da vida do animal através de drenagem orgânica induzida.

Existem diversos protocolos e tecnologias que otimizam a saúde dos animais na produção leiteira, porém, devido à grande intensificação da produção e necessidade de atendimento à demanda de produtos, muitos desafios comprometem a produção. A homeopatia populacional é uma ferramenta segura e viável no auxílio do controle da mastite em animais de aptidão leiteira, otimizando a saúde em vacas leiteiras em ordenha. Além de todos os benefícios citados, ela ainda é incapaz de intoxicar pessoas e animais, não deixando resíduos no leite. 

Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2018 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira

Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

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A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.

O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta

Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.

Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.

Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem

É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.

Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

 

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.

Ajuste fino, não ruptura

A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.

Fonte: Assessoria Biond Agro
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026

Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

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Fotos: Shutterstock

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.

No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”

Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.

O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.

Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.

Padronização da produção

O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.

Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.

Mercados internacionais em expansão

O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.

Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.

Oscilações do mercado

Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.

Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.

Processo de adaptação

Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.

A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.

Gargalos persistem

Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.

A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.

Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.

Dependência do mercado interno

Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.

No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.

Pilares da pecuária

A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.

Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.

Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.

Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.

Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.

Visão de futuro

Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.

Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.

Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.

Fonte: O Presente Rural
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium

Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

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Foto: Edu Rocha

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.

Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.

O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.

Foto: Fernando Goss (bovinos Angus)

“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.

 

Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.

Participação técnica da Embrapa

Foto: Renata Suñe (Holandesas)

A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.

 

A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.

Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.

Fonte: Assessoria Embrapa Pecuária Sul
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