Bovinos / Grãos / Máquinas
Uniformidade é a chave para o sucesso do rebanho leiteiro
Aumentar a IMS especialmente em vacas de alta produção é de extrema importância principalmente nas primeiras semanas após o parto para que estas produzam mais leite durante toda a lactação
Artigo escrito por Leandro Cecato de Oliveira, médico veterinário, especialista em Produção de Ruminantes e gerente Técnico de Ruminantes da Tectron
Antes de discutirmos como melhorar a ingestão de matéria seca (IMS) em gado leiteiro devemos perguntar: "Por que isso é importante?". A produção de leite e seus componentes pagam as contas em uma fazenda leiteira. Portanto, aumentar a IMS especialmente em vacas de alta produção é de extrema importância principalmente nas primeiras semanas após o parto para que estas produzam mais leite durante toda a lactação.
A regulação fisiológica da ingestão de alimentos é realizada por duas áreas do hipotálamo, onde se localizam os centros da fome e da saciedade. Quando o animal demonstra apetite, por exemplo, o centro da fome é ativado e o centro da saciedade é inibido. Por outro lado, à medida que o animal se alimenta, o centro da saciedade vai inibindo o centro da fome. As informações que chegam ao hipotálamo chegam de diferentes formas ou sinais. Os principais são os sinais quimiostáticos e os de distensão ou repleção do trato digestivo.
As vacas leiteiras atingem a IMS máxima entre 10 a 13 semanas após o parto. Neste momento ela deverá consumir aproximadamente 4% do peso corporal. Em grande parte deste período ela estará em balanço energético negativo (BEN). Maximizar a IMS durante início da lactação pode mitigar a extensão do BEN, permitindo aumentar a produção, melhorar a reprodução e a saúde dos animais. As vacas de maior produção são muitas vezes as mais suscetíveis a doenças metabólicas e fisiológicas durante esse período. Um período de tempo adequado para os animais se alimentarem é fundamental para maximizar a IMS.
Um estudo feito por Bach e colaboradores (2008) apontou que fatores não relacionados à dieta foram responsáveis por 56% da variação na produção de leite entre 47 rebanhos que foram alimentados com a mesma TMR. A disponibilidade de dieta foi um dos principais fatores nas diferenças entre essas fazendas. As baias por vaca foram mencionadas como outro fator importante.
Horário de alimentação consistente
As vacas são animais que gostam de rotina, especialmente no que se refere ao seu alimento diário. Mudanças nos horários de alimentação, principalmente atrasos, normalmente refletem negativamente no volume de leite do tanque. Quando os horários de alimentação não são consistentes, a quantidade de sobras e IMS irão variar.
Distribuição da TMR ao longo do cocho
Uma maneira de garantir uma melhor IMS é com uma TMR mais consistente. Diminuir as variações que ocorrem no fornecimento da dieta proporciona um alimento mais uniforme para as vacas, sem mudanças no conteúdo de nutrientes. Monitorar frequentemente a qualidade da mistura do vagão e consequente distribuição no cocho são medidas que asseguram uma TMR mais consistente.
O uso do separador de partículas da Penn State (PSPS) é uma boa ferramenta para monitorar tanto a variação dentro do lote quanto entre os lotes, referente ao tamanho de partículas das TMRs, permitindo uma avaliação imediata na fazenda.
Sobras de alimentos pesados versus estimados
Vemos uma gama de práticas de gerenciamento para determinar as quantidades de sobras de alimentos retirados e, por fim, os níveis de IMS. Algumas fazendas não retiram as sobras da dieta do dia anterior, mas sim despejam o alimento fresco sobre o antigo, enquanto outras fazendas pesam ou estimam “no olho” as sobras retiradas de cada lote e ajustam a quantidade de alimento ofertado para a próxima carga. A maioria das fazendas está em algum ponto entre estes dois extremos.
Pesar as sobras em vez de estimá-las nos dará um resultado mais consistente tanto para medir a IMS como para ajustar a próxima carga do vagão. Como consequência, os cálculos de consumo de matéria seca são mais precisos, o que ajuda com outros indicadores de desempenho da fazenda, como a receita sobre os custos de alimentação e a eficiência alimentar. O objetivo não é deixar as vacas sem alimento, mas gerenciar os níveis de sobras retirados para maximizar a eficiência geral da utilização da TMR. Monitorar com frequência a matéria seca da silagem e dos alimentos úmidos contribuirá para a acurácia nos ajustes das cargas.
As sobras têm a mesma aparência e cheiro da dieta ofertada?
Vacas leiteiras são muito boas na separação de partículas de forragem longas. Consideramos que houve seleção de cocho se ao avaliar as sobras com a PSPS os níveis diminuem em 10 unidades no compartimento inferior e aumentam em 10 unidades na peneira superior em relação à dieta ofertada. Cortar a silagem de milho mais longa durante a ensilagem ou adicionar líquidos à TMR pode ajudar a reduzir a seleção. Se as sobras apresentam temperatura elevada e odor mais forte, pode ser um indicativo que o alimento está fermentando no cocho, refletindo um mau gerenciamento de sobras.
Estresse Térmico
A reação fisiológica mais imediata ao estresse térmico é a redução no consumo de alimentos. É uma estratégia do organismo para diminuir o metabolismo basal e manter a temperatura corporal constante. A redução no consumo de alimentos é tanto maior quanto mais intenso for o estresse. Consequentemente à diminuição na ingestão de alimentos, ocorre redução na produção e nos constituintes do leite.
Alguns pesquisadores relatam que o maior volume de leite produzido por uma vaca acontece quando esta está deitada descansando. O estresse por calor também afeta o tempo de descanso de vacas leiteiras. Nas horas mais quentes do dia, elas preferem ficar em pé ao invés de se deitarem, reduzindo a frequência de alimentação durante as horas mais quentes e aumentando a frequência nas primeiras horas da manhã quando a temperatura é menor.
Diminuição do consumo relacionado ao estresse
Ao longo da vida, o animal leiteiro é submetido a múltiplas condições de estresse. Estresse agudo em períodos de transição: desmame, manejos, transporte, enfermidades, etc. E estresse crônico relacionado com o ambiente: hierarquização, competição, manejo diário, densidade, alta produção, calor, ruído, etc.
De modo geral, os estímulos ambientais percebidos como estressores envolvem o feixe corticotrófico, o sistema nervoso simpático e a liberação de citocinas pró-inflamatórias. Os mecanismos de sobrevivência preparam o corpo para fugir e lutar, implicando negativamente no consumo e produtividade.
As mudanças metabólicas durante o estresse são dependentes da relação entre sistema endócrino, sistema imune e estado nutricional dos animais. O estresse afeta a disponibilidade de nutrientes por regular diretamente o trato gastrointestinal, apetite, atividade e o sistema endócrino. A disponibilidade de nutrientes e o sistema endócrino regulam o sistema imune. A interação entre o sistema endócrino e o sistema imune regula a repartição de nutrientes de acordo com as necessidades da resposta ao estresse.
Outros fatores que interferem no consumo de matéria seca
O estágio da lactação influencia a IMS. Os lotes de alta produção, recém-paridas e pré-parto, podem ter muito movimento de entrada e saída de vacas, o que pode levar a muitos enfrentamentos por dominância (animais “novatos” no lote normalmente serão submissos e ficarão por último para comer).
Quantidade de camas e espaço de cocho por vaca são fatores que aliados com a dominância social podem interferir com grande peso no consumo. Quando as vacas têm pouco espaço de cocho e poucas camas para deitar haverá dominância entre elas. As vacas submissas ficarão por último para comer. Estes animais estarão muito estressados e diminuirão o consumo de matéria seca.
Empurrar ou reorganizar o trato estimula os animais a virem no cocho. Observamos IMS e produção de leite melhorada em fazendas que começaram a empurrar o trato com maior regularidade ao longo do dia. Fornecer tratos adicionais entre as ordenhas também pode estimular as vacas a consumir mais alimento, além de ser um estímulo visual as vacas têm um alimento mais novo ou fresco à disposição.
No caso específico de silagens, o teor de matéria seca (MS) tem grande influência sobre o consumo. Teores de 30 a 35% de MS propiciam uma maior ingestão pelos bovinos. Monitorar a MS da silagem com frequência é um indicador muito importante para ajustes nas dietas e cargas dos vagões misturadores.
Aditivos nutricionais
Existem aditivos nutricionais e sensoriais compostos por moléculas aromáticas específicas selecionadas por sua capacidade de impactar o sistema nervoso, reduzindo a mensagem de estresse. Estas moléculas têm efeito direto sobre a liberação de GABA, que tem efeito ansiolítico. Elas também atuam no sistema serotonina-dopamina, que estimula a mensagem do apetite, regulando o consumo voluntário de alimento. Como consequência teríamos animais menos estressados, havendo menos enfrentamentos por dominância social, consumo maior e regular de alimento mesmo nos horários mais quentes, maior frequência de idas ao cocho durante o dia e vacas mais acomodadas durante a noite.
Considerações
Muitos de nós já ouvimos falar: “o leite entra pela boca da vaca”. Não medir esforços para diminuir os estímulos estressores para as vacas leiteiras com certeza influenciará não só em consumo, como em uma melhor imunidade, produtividade e taxas reprodutivas. Fornecer conforto térmico, um bom lugar para a vaca deitar, alimento de qualidade, sempre disponível e um manejo nutricional adequado auxiliam o animal quanto a isso. Muitas vezes isso envolve investimentos em infraestrutura. Utilizar aditivos nutricionais que diminuem o estresse e regularizam o consumo de alimento é uma opção viável econômica e zootecnicamente.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2017 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


