Avicultura Análise do mercado
Turbulência mundial exige “cautela e reflexão” da avicultura brasileira, diz diretor de Mercados da ABPA
Processos afinados em todas as etapas e sanidade garantem ao Brasil vantagens e a consolidação no maior mercado de carnes do mundo: o frango. No entanto, a instabilidade que afeta a produção de proteína animal tem pressionado avicultores no Brasil. Em entrevista ao jornal O Presente Rural, o diretor de Mercados da ABPA, Luis Rua, cita o problema da alta no preço das commodities, os desafios que a guerra no Leste europeu apresenta e até mesmo oportunidades para o setor. Confira.

Momentos de turbulência mostram porque a produção com alta precisão faz da poderosa agroindústria brasileira a maior fornecedora de carne de frango do planeta. Processos afinados em todas as etapas e sanidade garantem ao Brasil vantagens e a consolidação no maior mercado de carnes do mundo: o frango.
No entanto, a instabilidade que afeta a produção de proteína animal tem pressionado avicultores no Brasil. Em entrevista ao jornal O Presente Rural, o diretor de Mercados da ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), Luis Rua, cita o problema da alta no preço das commodities, os desafios que a guerra no Leste Europeu apresenta e até mesmo oportunidades para o setor. No entanto, alerta que para o maior exportador da carne mais consumida do mundo “as palavras neste momento são cautela e reflexão”.
O Presente Rural – A volatilidade do mercado devido a várias circunstâncias, como o preço das commodities, a pandemia, a guerra na Ucrânia, podem interferir diretamente na avicultura o no agronegócio brasileiro. Qual a avaliação que o senhor faz desse cenário?
Luis Rua – A ABPA e seus associados acompanham com atenção o conflito militar entre Rússia e Ucrânia, duas nações parceiras e ao mesmo tempo concorrentes da avicultura e da suinocultura do Brasil. O setor produtivo está monitorando o fluxo internacional de insumos e de alimentos, e os eventuais impactos deste quadro, especialmente no que se refere aos custos de produção. Ao mesmo tempo, a ABPA tem convicção de que não devem haver fronteiras para os alimentos e que a paz é o único caminho possível para a segurança alimentar das nações. Neste sentido, os setores brasileiros torcem pela retomada do diálogo e a desaceleração do conflito.
O Presente Rural – A guerra na Ucrânia já interferiu ou vai interferir no agronegócio e especificamente na avicultura e suinocultura brasileira?
Luis Rua – A ABPA está monitorando a situação dos custos de produção, que já sofrem os impactos da alta do milho na Bolsa de Chicago. O milho e a soja, que representam mais de 60% dos custos de produção no campo, acumulavam altas superiores a 100% nos últimos meses e agora, para piorar, enfrentam o reflexo do conflito no Leste Europeu. Rússia e Ucrânia representam 17% do comércio global de milho e as dificuldades nas vendas por estes produtores em função de sanções e dificuldades acrescidas devido ao conflito já pressionam o mercado internacional. Os produtores têm sentido o peso das dificuldades impostas e vários estão trabalhando no vermelho. Alguns relatam a diminuição da capacidade de produção frente às elevadas perdas geradas pelos custos no capital de giro das propriedades e das agroindústrias. Com a forte alta nos custos de produção, já há repasse ao preço do produto para o consumidor final. Novos repasses poderão ocorrer com a continuidade da elevação dos custos. Por outro lado, a ausência da Ucrânia no mercado internacional de carne de frango poderá gerar uma lacuna de abastecimento de cerca de 460 mil toneladas em mercados importadores, que poderão buscar apoio nos produtores brasileiros. É o caso da União Europeia, Arábia Saudita e Emirados que têm buscado cada vez mais os nossos produtores.
O Presente Rural – Em se estendendo esse conflito na Europa, como isso deve impactar o agronegócio brasileiro de maneira geral? E na avicultura especificamente?
Luis Rua – Assim como não torcemos por algo tão triste, também não gostaríamos de especular sobre os efeitos de algo que torcemos pelo fim imediato. Parece-nos que o mundo todo pagará, infelizmente, o preço com inflação de alimentos e a inconstância do mercado.
O Presente Rural – A falta ou redução no uso de fertilizantes é uma realidade nas lavouras futuras? Isso pode comprometer o bom desempenho das lavouras e encarecer ainda mais os grãos usados nas dietas das aves?
Luis Rua – O Brasil é fortemente dependente da importação dos insumos do Leste Europeu. O país já se mobiliza na busca por substitutos que reduzam esta dependência. De qualquer forma, acreditamos e estamos certos de que a fala da ministra (da Agricultura, Pecuária e Abastecimento) Tereza Cristina em reunião com a FAO, de que estes insumos não devem ser parte de sanções impostas aos países em situações como a atual, surtirá efeito. A própria ministra tem se encarregado pessoalmente e com o apoio de sua competente equipe de buscar soluções de fornecimento em outros países produtores.
O Presente Rural – Como deve se comportar a produção, consumo e exportação da avicultura brasileira a partir de agora? Algo mudou em relação às projeções anteriores?
Luis Rua – O conflito no Leste Europeu não alterou significativamente as projeções do setor. Os 2,8% das exportações de carne de frango destinadas anteriormente ao mercado russo foram rapidamente redirecionadas para outros mercados importadores, frente às impossibilidades de entrega estabelecidas pelos operadores logísticos.
Por outro lado, o Brasil pode vir a ser chamado também para contribuir ainda mais com a segurança alimentar de outros países.
O Presente Rural – Diante desse cenário de altas nos custos e com margens de lucro apertadas que podem acontecer por diferentes razões, como deve agir a avicultura brasileira?
Luis Rua – A avicultura brasileira está enfrentando dificuldades severas neste momento com a alta dos custos. Como já mencionei, alguns produtores já enxergam dificuldades para manter os níveis de alojamentos frente aos custos elevados, que estão corroendo especialmente o capital de giro. E isto não impacta só o setor de frango, como também ovos e suínos. As palavras neste momento são cautela e reflexão, para que cada produtor individualmente entenda e restabeleça seu ponto de equilíbrio para a sustentabilidade produtiva.
O Presente Rural – O que fazer para reduzir custos sem comprometer a segurança e a qualidade dentro das fazendas produtoras de frango e ovos?
Luis Rua – Esta é uma decisão que cada produtor deve tomar dentro de suas perspectivas. Não é viável, entretanto, alterar questões técnicas e nutricionais e é preciso manter os mais elevados padrões para não perdermos nossa capacidade competitiva junto aos mercados interno e internacional.
O Presente Rural – O que fazer para reduzir custos sem comprometer a segurança e a qualidade dentro das agroindústrias?
Luis Rua – Já é sabido que os padrões de custos de produção deverão se manter elevados, pelo menos até a chegada da nova safra em meados do ano. Milho e farelo de soja dificilmente recuarão substancialmente de preços, assim como os demais insumos que compõem a produção, como plástico, papelão e diesel. Neste momento, é preciso refletir sobre o papel que temos como produtores e fornecedores de alimentos que atua sob os mais diversos aspectos da sustentabilidade – inclusive, a econômica. Não há resposta pronta e fácil para isto, é uma decisão que caberá a cada agroindústria avaliar e tomar.
O Presente Rural – Há algo a ser feito em relação à logística que possa ser feito de maneira rápida para melhorar a rentabilidade de produtores e agroindústrias?
Luis Rua – Logística é uma situação de longo prazo, demanda investimentos vultosos, grandes obras e amplas revisões de cadeias de operação. Não acredito em alterações rápidas e, sim, na construção de políticas voltadas para este fim. Precisamos avançar na implantação dos vários planos de estruturação portuária e ferroviária que já existem. Muito foi feito recentemente por parte do ministro da Infraestrutura, Tarcísio Freitas. Mas é preciso avançar ainda mais para não perdermos nosso papel como grandes competidores no setor de alimentos.
O Presente Rural – Há alguma forma, maneiras, ações, mecanismos ou políticas que podem ser criadas para que a avicultura não sofra demasiadamente em relação a custos e rentabilidade em momentos de muita volatilidade ou turbulência do mercado?
Luis Rua – Há várias. Desonerações sobre insumos é uma delas, incluindo TEC, PIS e Cofins e ICMS. Não faz sentido que o insumo voltado para o produtor brasileiro pague imposto, enquanto o exportado permaneça isento. É preciso pensar, também, em mecanismo de monitoramento mais sólidos, como o proposto pela ABPA ao Mapa, com a informação da realização de exportações futuras de grãos, em um sistema aberto e público. Preservar a produção de alimentos é uma questão de segurança nacional e precisa ser defendida.
O Presente Rural – Como a ABPA tem contribuído para reduzir impactos negativos do setor em momentos de turbulência e muita volatilidade?
Luis Rua – Esta é uma pauta constante na ABPA, não apenas em momentos de turbulência. Neste momento, entretanto, entre diversas ações, pleiteamos e conquistamos desonerações temporárias importantes, como a TEC e o PIS e Cofins do milho. Também apresentamos, como já mencionado, pedidos de ações por mais transparência nas exportações futuras de grãos, assim como já acontece em outros mercados, como os EUA. Estamos em movimento constante para preservar a situação competitiva do setor, em grandes lutas como a vitoriosa conquista da desoneração da folha de pagamento. E reforçamos nossos esforços para exportar mais, algo ainda mais fundamental neste momento em que o mercado internacional é mais favorável. Neste sentido, estamos em constante trabalho de abertura de novos mercados e ampliação dos já existentes, com apoio do Ministério da Agricultura, das Relações Exteriores e da Apex.
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Avicultura
Como anda a exportação de frango com a crise no Oriente Médio?
Embarques para países impactados pelo Conflito do Oriente Médio seguem recebendo produtos, ainda que parcialmente, mesmo com fechamento do Estreito de Ormuz

As exportações brasileiras de carne de frango (considerando todos os produtos, entre in natura e processados) totalizaram 504,3 mil toneladas em março, informa a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). O número supera em 6% o total exportado no mesmo período do ano passado, quando foram embarcadas 476 mil toneladas.
A receita mensal das exportações também registrou recorde. Ao todo, foram US$ 944,7 milhões em março deste ano, número 6,2% maior em relação aos US$ 889,9 milhões no mesmo período de 2025.
No ano (janeiro a março), o volume embarcado pelo setor chegou a 1,456 milhão de toneladas, superando em 5% o total exportado no primeiro trimestre de 2025, com 1,387 milhão de toneladas. O crescimento é ainda mais expressivo em receita, com US$ 2,764 bilhões neste ano, resultado 6,9% maior em relação ao ano anterior, com US$ 2,586 bilhões no ano passado.
China retomou o ritmo das importações praticadas antes de maio de 2025 (quando ocorreu um foco de Influenza Aviária de Alta Patogenicidade na produção comercial do Brasil, situação que já foi superada), com total de 51,8 mil toneladas em março deste ano (+11,6% em relação ao mesmo mês do ano anterior). No ranking dos principais destinos estão o Japão, com 42,1 mil toneladas (+41,3%), a Arábia Saudita, com 38,7 mil toneladas (-5,3%), a África do Sul (+21,4%), com 33,1 mil toneladas e a União Europeia, com 30,7 mil toneladas (+33,7%).
Em uma análise dos efeitos da Guerra no Golfo Pérsico e o fechamento do estreito de Ormuz, as exportações para os países do Oriente Médio que são destinos da carne de frango do Brasil registraram queda de 19,8% nos volumes embarcados em março deste ano na comparação com o mês de fevereiro, anterior ao conflito.
“Apesar da queda comparativa registrada no Oriente Médio, os expressivos volumes comprovam que o fluxo de exportações segue acessando a região por meio das rotas alternativas. São mais de 100 mil toneladas enviadas aos mercados da região no mês de março, com mais de 45 mil toneladas destinadas aos países diretamente impactados pelo fechamento do Estreito de Ormuz. As gestões de facilitação realizadas pelo Ministério da Agricultura e pelo setor têm sido efetivas, garantindo oferta de alimentos para as áreas hoje atingidas pela Guerra do Golfo. No restante dos mercados, a demanda segue crescente, em especial, nos principais destinos da Ásia”, analisa o presidente da ABPA, Ricardo Santin.
Principal estado exportador, o Paraná embarcou 202 mil toneladas, número 5,1% maior em relação ao mesmo período do ano passado. Em seguida estão Santa Catarina, com 109 mil toneladas (+2,7%), Rio Grande do Sul, com 70,7 mil toneladas (+11,9%), São Paulo, com 32,5 mil toneladas (+22,6%) e Goiás, com 26 mil toneladas (+14,8%).
Avicultura
Modelo tradicional de cálcio e fósforo perde precisão na dieta de aves, diz especialista
Estudos indicam que formulação baseada em valores totais de minerais não reflete a absorção real, exigindo modelos mais precisos para melhorar desempenho, reduzir custos e minimizar impactos ambientais.

O equilíbrio nutricional das dietas de frangos de corte, especialmente na relação entre cálcio (Ca) e fósforo (P), passou a ter impacto direto não apenas no desempenho produtivo, mas também no custo da ração e na carga ambiental da atividade. Em um cenário de maior exigência técnica, estudos conduzidos pela pesquisadora Roselina Angel, doutora em Nutrição de Aves e professora da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, indicam que a forma como esses minerais vêm sendo tradicionalmente utilizados na formulação já não atende plenamente às demandas atuais da avicultura intensiva.

Pesquisadora Roselina Angel apresenta durante o 26º SBSA evidências de que o modelo tradicional de formulação com cálcio total e fósforo disponível não reflete o aproveitamento real dos minerais em frangos de corte e pode comprometer eficiência produtiva e custo da dieta
A temática será detalhada pela especialista durante o 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura (SBSA), que acontece entre os dias 07 e 09 de abril em Chapecó (SC), com foco na necessidade de revisão dos parâmetros utilizados na formulação de rações. Ela possui ampla atuação científica internacional, com sete capítulos de livros publicados, mais de 180 artigos científicos revisados por pares e mais de 265 resumos científicos, além de ter ministrado mais de 300 palestras em diversos países.
Seu trabalho recente se concentra na otimização da nutrição de fósforo por meio da compreensão da interação com cálcio, desenvolvendo ferramentas que aumentam a eficiência econômica da utilização de nutrientes e reduzem o impacto ambiental da produção avícola. Sua pesquisa tem contribuído diretamente para avanços na sustentabilidade ambiental e econômica da indústria avícola.
Em um dos estudos conduzidos pela pesquisadora aponta que a formulação baseada em cálcio total (tCa) e fósforo disponível (AvP) não reflete a fração efetivamente absorvida no trato digestivo. Como alternativa, Roselina propõe o uso de coeficientes de digestibilidade ileal padronizada (SID) para ambos os minerais, permitindo estimar com maior precisão o aproveitamento real na ave. Essa abordagem reduz a necessidade de margens de segurança elevadas na formulação, que frequentemente resultam em excesso de minerais na dieta.
Variabilidade do calcário
Outro ponto crítico identificado nos estudos de Roselina está na variabilidade do calcário, principal fonte de cálcio utilizada na avicultura e responsável por até 75% do Ca das dietas.
Em pesquisas publicadas recentemente, a autora demonstra que diferenças de solubilidade, granulometria e origem geológica interferem diretamente na digestibilidade, o que pode gerar respostas produtivas distintas mesmo em dietas com níveis semelhantes de cálcio. Essa variabilidade amplia o risco de desequilíbrios nutricionais quando a formulação se baseia apenas em valores totais.
Interação com fitato limita aproveitamento de minerais
A interação entre cálcio e fitato aparece nos estudos como um dos principais fatores que limitam o aproveitamento de minerais. Presente em ingredientes vegetais como milho e farelo de soja, o fitato forma complexos insolúveis com o cálcio, reduzindo a disponibilidade tanto de Ca quanto de P.
Dados experimentais apresentados pela pesquisadora indicam que níveis elevados de cálcio intensificam essa ligação, comprometendo a digestibilidade dos minerais e de outros nutrientes, como aminoácidos e lipídios. Esse mecanismo contribui para perdas nutricionais e aumento da excreção de fósforo.
Melhoria da eficiência nutricional

Nesse contexto, o uso de fitase tem papel relevante na melhoria da eficiência nutricional. A enzima atua na quebra do fitato, liberando o fósforo ligado e reduzindo sua interação com o cálcio. Resultados observados nos estudos conduzidos por Roselina mostram aumento consistente na digestibilidade do fósforo e ganhos variáveis na disponibilidade de cálcio, especialmente em dietas com maior teor de fitato. A adoção dessa estratégia permite reduzir a inclusão de fosfatos inorgânicos e melhorar o aproveitamento global da dieta.
Apesar dos benefícios da fitase, os próprios estudos indicam que sua eficiência está diretamente relacionada ao nível de cálcio presente na dieta. O excesso de Ca reduz a ação da enzima e limita o aproveitamento dos nutrientes. Além disso, níveis elevados de cálcio podem interferir negativamente na digestibilidade de gordura, aminoácidos e microminerais, afetando a conversão alimentar.
Precisão nutricional reduz custos e perdas ambientais
Do ponto de vista econômico, análises derivadas dessas pesquisas mostram que a maior precisão na formulação permite reduzir custos com ingredientes minerais e melhorar a eficiência produtiva.
A redução da excreção de fósforo também tem impacto direto na gestão ambiental, especialmente em regiões com alta concentração de produção avícola, onde o acúmulo de nutrientes pode comprometer a qualidade da água e do solo.
A evolução genética das aves intensifica esse cenário ao aumentar a sensibilidade a desequilíbrios nutricionais. Linhagens modernas apresentam maior potencial produtivo, mas exigem maior precisão na oferta de nutrientes. Nesse contexto, a substituição de modelos baseados em teor total por sistemas fundamentados em digestibilidade e interação entre nutrientes tende a se consolidar como referência técnica na formulação de dietas.
Os resultados apresentados nos estudos de Roselina indicam uma mudança de abordagem na nutrição mineral de frangos de corte, com foco em eficiência de utilização, redução de perdas e maior controle sobre os fatores que influenciam o desempenho produtivo.
Avicultura
Genética mais eficiente reduz margem para erros no manejo de frangos
Aves mais responsivas exigem controle ambiental rigoroso, biosseguridade elevada e decisões rápidas para manter desempenho e sanidade.

A evolução genética do frango de corte elevou a produtividade da avicultura a patamares inéditos, mas também reduziu a margem para erros no manejo dentro das granjas. Com ciclos produtivos cada vez mais curtos, falhas operacionais que antes tinham impacto diluído passaram a comprometer diretamente o desempenho, a uniformidade dos lotes e a rentabilidade do sistema.
De acordo com o médico-veterinário Rodrigo Tedesco Guimarães, o avanço genético foi determinante para consolidar a carne de frango como a proteína animal mais consumida no mundo, mas trouxe novas exigências ao setor. “Evoluímos muito em genética, nutrição, manejo e biosseguridade, mas o grande desafio agora é equilibrar eficiência produtiva com bem-estar animal, sustentabilidade ambiental, qualidade da carne e segurança alimentar”, enfatizou em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural.

Médico-veterinário Rodrigo Tedesco Guimarães: “O mercado não exige soluções mirabolantes. Exige um sistema equilibrado, com desempenho consistente em toda a cadeia, da reprodução ao abate”
Ele vai tratar do tema no Painel Manejo durante o 26º Simpósio Brasil Sul de Avicultura, programado para ocorrer entre os dias 07 e 09 de abril, em Chapecó (SC), onde deve abordar a relação entre potencial genético, ambiente e execução de manejo nas granjas.
Para o profissional, a ave moderna responde de forma mais intensa às condições oferecidas no campo, o que amplia tanto o potencial de desempenho quanto os riscos associados a falhas. “O frango de corte moderno é extremamente responsivo ao ambiente. Se eu forneço boas condições, ele expressa seu máximo potencial genético. Se erro, o impacto aparece rapidamente”, afirma.
Guimarães ressalta que a redução do tempo entre a eclosão e o abate é um dos principais fatores que elevam a sensibilidade do sistema produtivo. “O manejo passou a ser um processo sequencial e irreversível, no qual cada etapa influencia diretamente o resultado final. O tempo entre a eclosão e o abate é curto, o que reduz a margem para correções. Um erro de um dia em um ciclo de 42 dias representa quase 2,5% da vida do animal. Em ciclos mais curtos, esse impacto é ainda maior”, explica.
Nesse contexto, práticas consideradas básicas ganham peso estratégico. Controle de temperatura, ventilação, densidade, qualidade de cama, iluminação e acesso a água e alimento deixaram de ser rotinas operacionais e passaram a determinar a conversão do potencial genético em resultado produtivo. “Atualmente apenas bons índices zootécnicos não são suficientes. Não adianta ter sanidade sem nutrição adequada, nem nutrição sem ambiência de qualidade. O manejo precisa integrar todos esses fatores”, ressalta.
Ambiente define consumo, saúde intestinal e desempenho
A interação entre temperatura, ventilação e qualidade do ambiente tem efeito direto sobre o consumo alimentar, o desenvolvimento intestinal e a resposta imunológica das aves.
Na fase inicial, o desafio central é garantir condições que estimulem o consumo. “Temperatura sozinha não resolve. É preciso combinar temperatura adequada com qualidade de ar, controle de umidade e níveis corretos de gases. Isso estimula o consumo de ração e água, que é fundamental para o desenvolvimento intestinal”, salienta Guimarães, enfatizando que os primeiros dias de vida são determinantes para a formação do trato gastrointestinal. “Entre 4 e 10 dias ocorre crescimento intestinal acelerado. Um intestino bem desenvolvido melhora a resposta imunológica e o desempenho ao longo do ciclo”, diz.
Na fase final, o desafio muda para a dissipação de calor. “Quando não conseguimos retirar o calor do aviário, o animal entra em estresse térmico e reduz o consumo de alimento. Isso gera desequilíbrio, piora a condição intestinal e compromete o desempenho”, pontua.
Falhas básicas persistem

Apesar dos avanços tecnológicos, erros simples de manejo ainda são recorrentes nas granjas. Entre os principais, o especialista cita falhas no ajuste de temperatura sem considerar umidade e velocidade do ar, além de problemas na regulagem de comedouros e bebedouros. “Não podemos mais falar apenas de temperatura. Precisamos considerar sensação térmica, o que o animal está sentindo. Muitas vezes o produtor tem a informação, mas não executa corretamente o manejo”, menciona o profissional.
Ele destaca que a avicultura comercial em grande escala exige atenção constante aos detalhes, especialmente em sistemas mais industrializados. “A diferença está no nível de cuidado. O produtor que se destaca vai além do básico e entende o sistema como um todo”, destaca.
Pressão sanitária exigem rigor operacional
Além do manejo, o cenário sanitário reforça a necessidade de controle rigoroso nas granjas. A manutenção da biosseguridade em níveis elevados é apontada como prioridade, especialmente diante do risco de Influenza aviária e da circulação de outros patógenos. “Nosso principal desafio é manter a biosseguridade elevada. Não podemos baixar a guarda. O objetivo é impedir a entrada de qualquer patógeno”, frisa.
O médico-veterinário também cita impactos econômicos associados a enfermidades como bronquite infecciosa e reovírus, que têm gerado aumento de condenações em frigoríficos. “Muitas vezes o problema não aparece no campo, mas reduz o aproveitamento no abate e compromete a margem”, expõe.
A intensificação da produção em regiões com alta concentração de granjas também amplia o risco sanitário, especialmente quando há redução de intervalos entre lotes ou aumento de densidade. “Quando pressionamos o sistema produtivo, o resultado cai. O ganho de volume pode vir acompanhado de perdas”, aponta.
Tecnologia exige uso efetivo dos dados
O avanço de sensores, automação e monitoramento amplia a capacidade de controle nas granjas, mas o uso eficiente dessas informações ainda é um desafio. “A coleta de dados é fundamental. Primeiro coletamos, depois analisamos e então tomamos decisões. O problema é que muitas vezes o setor coleta muito e utiliza pouco essas informações”, ressalta Guimarães.
Segundo ele, a tendência é de sistemas mais integrados e responsivos, com uso crescente de automação e inteligência artificial para interpretar dados de ambiente e comportamento animal. “A integração entre sensores e análise de comportamento deve permitir ajustes mais rápidos e precisos no ambiente”, diz.
Equilíbrio produtivo e execução definem resultado
Para o profissional, não há soluções simplificadas para os desafios da avicultura comercial. O foco deve estar na execução consistente do manejo e no equilíbrio entre produtividade, sanidade e bem-estar. “O mercado não exige soluções mirabolantes. Exige um sistema equilibrado, com desempenho consistente em toda a cadeia, da reprodução ao abate”, afirma, ressaltando que o avanço genético amplia a necessidade de precisão técnica. “O ganho de peso diário continua aumentando e a idade de abate reduzindo. Isso aumenta a velocidade do sistema e o impacto dos erros. O manejo bem executado é o que garante resultado”.



