Bovinos / Grãos / Máquinas
Tripanosomose reduz eficiência reprodutiva em vacas e touros
Animais aparentemente estão saudáveis, mas a instalação dessa enfermidade gera perdas de desempenho produtivo e reprodutivo e, consequentemente, lucratividade
Uma doença de difícil detecção e alta capacidade de se proliferar no rebanho tem sido negligenciada por produtores de bovinos em todo o Brasil. Os animais aparentemente estão saudáveis, mas a instalação dessa enfermidade gera perdas de desempenho produtivo e reprodutivo e, consequentemente, lucratividade. Para especialistas, falta conscientização de pecuaristas e técnicos. “Uma grande dificuldade que se encontra a campo é a conscientização por parte de consultores e proprietários de que a tripanosomose é uma doença que requer intervenção imediata, pois o rebanho se encontra em risco”, cita o PhD em Medicina Veterinária, Alexandre Souza, gerente técnico de Pecuária da Ceva Saúde Animal.
“Animais aparentemente saudáveis podem ser portadores com baixa parasitemia e ser uma fonte de contaminação contínua para outros animais do rebanho. Para se ter uma ideia, após a introdução de uma agulha em um animal contaminado pela tripanosomose durante uma rotina de vacinação, os próximos cinco animais podem ser contaminados caso seja utilizada a mesma agulha compartilhada entre esses animais, o que evidencia a facilidade com que a tripanosomose pode se espalhar em um rebanho”, alerta Souza.
Em entrevista exclusiva, Alexandre Souza fala mais sobre o que é essa doença, seus prejuízos, formas de tratamento e prevenção, alertando para sua interferência na reprodução do rebanho. De acordo com o estudioso, “o impacto na reprodução de rebanhos de corte e leite é documentado e vai de surtos de abortos, diminuição drástica nas taxas de concepção, diminuição grave da qualidade do sêmen de touros contaminados, maior incidência de retenção de placenta e nascimento de bezerros fracos ou natimortos”. Boa leitura!
O Presente Rural (OP Rural) – O que é a tripanossomose?
Alexandre Souza (AS) – Nos bovinos a tripanosomose é uma doença causada por um protozoário hemoparasita (parasita microscópico presente na corrente sanguínea) que causa um quadro sintomatológico no animal muito similar à “tristeza parasitária” e pode causar surtos de mortes ou, em sua fase crônica, perdas subclínicas no ganho de peso, produção e fertilidade, com grande impacto econômico para rebanhos de corte e leite.
OP Rural – Faça um breve histórico da doença no Brasil?
AS – Relatos indicam que a tripanosomose entrou na América do Sul em uma importação de gado do Senegal em 1830. E estudos oficiais documentam a presença do parasita em rebanhos no Brasil na década de 70. Mais recentemente, vários surtos de doença aguda causada pela tripanosomose causando morte de grande quantidade de animais foram descritos por especialistas e consultores em muitas regiões do Brasil, principalmente em áreas de concentração de produção leiteira.
OP Rural – Qual sua prevalência no Brasil hoje?
AS – Nas últimas décadas a tripanosomose foi documentada em todos os estados do Brasil sem exceção, conforme relato do professor doutor Fabiano Cadioli, da Unesp de Araçatuba. Porém, a situação da maioria das regiões é de uma doença crônica que pode passar desapercebida pelo produtor, pois os animais podem aparentemente estar saudáveis, mas de forma subclínica a doença diminui o desempenho produtivo e reprodutivo do rebanho, limitando a lucratividade do produtor. A situação é bastante preocupante, pois estima-se por meio de estudos de sorologia e/ou testes moleculares que em algumas regiões, mais da 70% dos animais podem estar contaminados pelo parasita.
OP Rural – Quais são os sintomas?
AS – O parasita presente na corrente sanguínea altera a membrana das hemácias que são “descartadas” pelo baço do animal, causando um quadro anêmico acentuado e queda de imunidade, o que pode acarretar em comorbidades, ou seja, outras doenças que se aproveitam de um animal com sistema imune deprimido.
Na forma aguda da doença, os sintomas são de certa forma similares aos sintomas da conhecida “tristeza parasitária”, que incluem anemia, febre alta e intermitente, apatia, inapetência (diminuição de ingestão de alimento), rápida perda de peso, surtos de abortos e perda embrionária, diminuição acentuada da produção de leite que pode chegar a 50% ou mais da produção do animal, cegueira, lacrimejamento intenso, aumento de linfonodos, diarreia, quadros neurológicos graves similares aos sintomas da raiva ou mesmo confundida com febre do leite pós-parto, seguido de decúbito que normalmente evoluem para morte do animal se não tratado a tempo.
Em sua forma subclínica – de certa forma a mais debilitante em termos financeiros para produtores brasileiros – temos diminuição de 10 a 50% do potencial de produção de leite e ganho de peso do animal, eficiência reprodutiva comprometida em fêmeas e machos, artrites, opacidade ocular e cegueira parcial que podem se desenvolver para um quadro ulcerativo grave com perda ocular similar à cerato-conjuntivite, e outras comorbidades variadas devido a depressão do sistema imune do animal. Nessa fase crônica, em termos de comorbidades, destaca-se o sinergismo entre a tripanosomose e a anaplasmose no quadro de anemia e caquexia.
OP Rural – Como é feito o diagnóstico?
AS – O diagnóstico laboratorial deve ser feito com base em sinais clínicos compatíveis com a suspeita de tripanosomose. Porém, como vimos anteriormente os sintomas da tripanosomose são bastante difusos, sendo confundida com outras doenças muito comuns a campo. De qualquer forma, quando existe a suspeita clínica da doença, temos disponíveis testes de microscopia direta como o esfregaço sanguíneo, teste de gota espeça e teste de Woo (microhematócrito utilizado para aumentar a sensibilidade do teste direto).
Os testes de microscopia direta têm a vantagem do baixo custo e simplicidade do teste que pode ser feito a campo com facilidade, porém a grande desvantagem dos testes diretos seria a baixa sensibilidade do teste, que somente deve ser utilizado em casos de doença aguda e mesmo assim a sensibilidade é bastante limitada. Portanto, a recomendação é a utilização de testes sorológicos do tipo Elisa ou Imunofluerescência indireta (Rifi), que detectam anticorpos contra o tripanosoma. A vantagem destes testes é a maior sensibilidade, com boa especificidade, além do relativo baixo custo.
É importante lembrar que quando anticorpos são detectados, isso não quer dizer que o animal tem uma parasitemia ativa. A presença destes anticorpos quer dizer que o animal foi contaminado pelo tripanosoma e que aparentemente pode se apresentar saudável por ter uma parasitemia baixa, mas este animal é uma fonte contaminante para o rebanho. Em situações de estresse, o animal aparentemente saudável pode adoecer rapidamente.
Outra possibilidade de diagnóstico são testes moleculares que detectam o DNA do tripanosoma (testes do tipo PCR). A vantagem do PCR é sua ainda maior sensibilidade e especificidade, porém o custo pode ser proibitivo para rebanhos comerciais e atualmente é mais comumente utilizado em pesquisas científicas.
OP Rural – Quais as consequências para o rebanho, de corte e de leite?
AS – Como consequências, obviamente a mortalidade súbita de muitos animais é o pior cenário relatado por produtores de todo Brasil. Mas é importante ressaltar que em termos financeiros a doença subclínica tende a ter um maior impacto financeiro para rebanhos de corte e leite. Na literatura é relatado perdas de ganho de peso de até 40% se comparado a animais não infectados, além de outras morbidades associadas, como maior carga de parasitas devido a deficiência no sistema imune do animal.
Em rebanhos leiteiros, obviamente temos os mesmos problemas de menor ganho de peso em bezerros em fase de crescimento, além de perdas de produção de leite de 10 a 50% do potencial do animal. Apesar de existirem poucos estudos – o impacto na reprodução de rebanhos de corte e leite é documentado e vai de surtos de abortos, diminuição drástica nas taxas de concepção, diminuição grave da qualidade do sêmen de touros contaminados, maior incidência de retenção de placenta e nascimento de bezerros fracos ou natimortos.
OP Rural – Como é feito o tratamento?
AS – A droga mais eficiente no tratamento da tripanosomose bovina causada pelo tripanosoma vivax é o isometamidium, que deve ser administrado na dose de 1mg por kg de peso vivo do animal em um protocolo de 3 a 4 tratamentos sequenciais, com intervalos de 2 a 4 meses dependendo da gravidade do surto. É importante lembrar que a subdosagem é a via mais rápida para o aparecimento de cepas resistentes do tripanosoma. Portanto, subdosagem não é recomendada. Além disso, é recomendado a utilização de drogas específicas para o tratamento de tristeza parasitária por babesia (ex: diminazeno) e anaplasma (ex: oxitetraciclina) pelo menos duas semanas antes do início do protocolo com isometamidium em animais com anemia mais acentuada e condição corporal muito baixa – essa recomendação é devido a comum associação da babesia, anaplasma e tripanosomose em bovinos a campo.
Outros tratamentos de suporte ao longo do protocolo de isometamidium também podem ser úteis, como complexos de aminoácidos, vitaminas e minerais como suporte durante o período de recuperação do animal.
OP Rural – Como a doença pode interferir na reprodução?
AS – Existem publicações na literatura científica que comprovam o impacto da tripanosomose em fêmeas e machos bovinos. A seguir uma lista de problemas relatados na literatura para machos e fêmeas.
Fêmeas:
Atraso na taxa de crescimento de novilhas e atraso de puberdade
Diminuição acentuada da taxa de concepção
Abortos e perda embrionária precoce
Antecipação do parto caso contaminação ocorra no terço final da gestação
Nascimento de bezerros fracos (contaminados pelo tripanosoma durante o período gestacional)
Bezerros natimortos
Retenção de placenta
Anestro prolongado no pós-parto devido ao balanço energético negativo mais acentuado e lesões degenerativas de glândulas do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas
Machos:
Atraso no crescimento e puberdade de touros a campo
Orquites, com lesões testiculares e no epidídimo
Lesões nos túbulos seminíferos e em células de Sertoli já identificadas na literatura
Oligospermia (menor concentração de células espermáticas no ejaculado)
Aumento de alterações e defeitos em células espermáticas
As alterações na qualidade do sêmen de touros reprodutores podem ser notadas em menos de duas semanas após a contaminação do animal
OP Rural – Em que período da reprodução ela é mais grave?
AS – A tripanosomose pode causar problemas de qualidade de oócitos em vacas no pós-parto devido a maior perda de peso, o que afeta a qualidade do oócito ovulado, o que acarreta em perda de qualidade embrionária. Além disso, animais acometidos pela tripanosomose podem apresentar perdas embrionárias ou abortos em qualquer fase da gestação. Estudos recentes sugerem que a infecção da vaca no terço final da gestação parece ser mais grave para a gestação em si, e a maioria dos animais vai abortar frente à contaminação por tripanosomose nesse período gestacional final.
OP Rural – Como garantir um processo reprodutivo e o rebanho livre dessa doença?
AS – Manter o rebanho livre de tripanosomose envolve a utilização do protocolo de tratamento com isometamidium em todo o rebanho como recomendado pela FAO em casos de grande incidência de animais com sorologia positiva no rebanho. Outros cuidados no controle da tripanosomose incluem: evitar compra de animais não testados, e em caso de compra de animais sem quarentena e diagnóstico específico utilizar o mesmo protocolo com isometamidium, uso de agulhas individuais durante aplicações de ocitocina e vacinações, e principalmente controlar a população de moscas picadoras no rebanho, com destaque para o controle de moscas do tipo stomoxys (mosca dos estábulos). Estes procedimentos associados a uma completa avaliação clínica anual do rebanho, que deve também considerar a epidemiologia da doença na região, podem manter o rebanho livre da doença.
OP Rural – Quais são as perdas econômicas que a tripanossomose causa?
AS – Quanto a perdas econômicas, podemos inferir grandes perdas financeiras devido a tripanossomose. Dados de literatura indicam perda de produção na ordem de 10 a 50% do potencial do animal, graves perdas no desempenho reprodutivo, incluindo diminuição na taxa de concepção e surtos de abortos, menor ganho de peso na fase de recria, além de comorbidades variadas devido à imunossupressão causada pela tripanosomose.
Em um relato de caso em uma fazenda de leite no Brasil, a taxa de concepção de um rebanho passou de ~40% para ~24% após o aparecimento da tripanosomose. Esta queda na taxa de concepção pode representar, de acordo com modelos de cálculo de custo de reprodução de rebanhos leiteiros, perdas que giram em torno de R$ 700 a R$ 800 reais por vaca/ano somente em prejuízos relacionados à eficiência reprodutiva, sem contar perdas devido a menor produção de leite e ganho de peso.
Mais informações você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de agosto/setembro de 2018 ou online.
Fonte: O Presente Rural

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Nova política chinesa para carne bovina pressiona margens da pecuária brasileira
Excedente fora da cota tende a encarecer o acesso ao principal mercado e desacelerar investimentos em confinamento e expansão do rebanho.

A partir desse ano, a China passa a adotar cotas anuais para a importação de carne bovina, inaugurando uma nova fase na relação comercial com os grandes exportadores globais. Pelo novo modelo, os volumes dentro da cota seguirão sujeitos à tarifa de 12%, enquanto o excedente será onerado com uma sobretaxa de 55%. A política terá vigência inicial de três anos e atinge diretamente o Brasil, responsável por cerca de metade da receita das exportações chinesas de carne bovina.
O ponto central da medida não está em um bloqueio imediato, mas na mudança estrutural do fluxo de mercado. A cota anunciada cobre aproximadamente 65% do volume atualmente exportado pelo Brasil, criando um excedente relevante que dificilmente encontrará realocação no curto prazo, dada a limitação de absorção de outros destinos. “A China não está interrompendo as compras, mas redesenhando a forma como controla preços, contratos e volumes. A carne bovina deixa de ser um fluxo livre e passa a funcionar como um ativo regulado”, explica a agrônoma Yedda Monteiro.

Instrumento de barganha e ajuste de oferta
Diferentemente de embargos sanitários ou medidas emergenciais, a cota funciona como um mecanismo estrutural de controle, permitindo à China reduzir sua dependência marginal de proteína importada sem comprometer o abastecimento interno. Ao mesmo tempo, o modelo amplia o poder de barganha do país asiático sobre preços e prazos, além de forçar ajustes de oferta nos países exportadores mais eficientes. “Ao estabelecer um teto formal, Pequim ganha flexibilidade para comprar quando quiser e pressionar preços em momentos de excesso de oferta, evitando repasses inflacionários ao consumidor doméstico”, expõe Yedda.
Na prática, o impacto não se manifesta como choque imediato de mercado, mas como mudança de expectativa. A partir de 2026, o setor tende a operar com maior cautela, o que pode desacelerar a expansão do rebanho, reduzir investimentos em confinamento e alargar o ciclo pecuário como forma de diluir o risco.
Efeito indireto sobre milho e soja aparece na margem
É por esse canal que a decisão chinesa ultrapassa a pecuária e alcança os mercados de grãos. Embora o consumo direto de milho pela bovinocultura represente uma fatia menor do total nacional, ele funciona como demanda marginal justamente nos momentos de excesso de oferta, ajudando a equilibrar o mercado.
Nos últimos ciclos, a relação boi × milho foi favorecida pela combinação de preços firmes da carne, sustentados pela China, e milho pressionado por safras elevadas. Esse arranjo estimulou a intensificação da produção e o uso de ração. Com as cotas, essa sustentação deixa de ser estrutural e passa a ser cíclica e oportunista. “O impacto não aparece no embarque, mas na decisão produtiva. Quando a previsibilidade do escoamento diminui, o produtor ajusta a margem, e isso se reflete no consumo de milho e farelo de soja”, ressalta a agrônoma.

No curto prazo, o efeito tende a ser limitado, especialmente se o milho seguir pressionado pela oferta. Já no médio prazo, a partir do segundo semestre de 2026, o cenário mais provável é de menor crescimento do consumo de grãos pela pecuária, aumentando a dependência de outros vetores de absorção, como exportações e etanol.
Ajuste fino, não ruptura
A leitura do mercado é de ajuste gradual, não de ruptura. As cotas chinesas não desmontam a dinâmica de exportação da carne brasileira, mas retiram um importante pilar de sustentação permanente da relação entre pecuária e grãos. O impacto ocorre na margem, na estratégia e no ritmo de crescimento do setor ao longo de 2026. “É um ajuste que pesa mais do que parece, porque acontece justamente quando o mercado precisa de demanda adicional para equilibrar excedentes. O erro seria tratar esse novo cenário como se a sustentação chinesa fosse infinita”, salienta.
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Mato Grosso bate recordes e projeta novo salto na pecuária de corte em 2026
Presidente da Acrimat detalha avanços, gargalos e desafios da cadeia em um ano marcado por exportações e expansão da produção.

O Mato Grosso reafirmou em 2025 sua posição como maior potência pecuária do país, respondendo sozinho por 18,5% de todo o Valor Bruto da Produção (VBP) de bovinos do Brasil. Segundo dados parciais do painel nacional do VBP, divulgado em 21 de novembro pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o estado movimentou R$ 37,96 bilhões com a cadeia bovina, se mantendo como o produtor individual mais relevante entre todas as unidades federativas.
No cenário nacional, o VBP dos bovinos somou R$ 205,38 bilhões, consolidando a atividade como uma das mais robustas da agropecuária brasileira. No ranking dos quatro principais produtores figuram ainda São Paulo (R$ 24,82 bilhões), Mato Grosso do Sul (R$ 20,49 bilhões) e Goiás (R$ 20,44 bilhões). Por sua vez, o VBP total do estado alcança R$ 220,43 bilhões, e a atividade bovina representa 15,6%, compondo parcela significativa da produção agropecuária local, ao lado de culturas como soja e milho, que lideram o ranking estadual.

Presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr.: “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”
Em entrevista exclusiva ao Jornal O Presente Rural, o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Oswaldo Pereira Ribeiro Jr., detalhou os avanços, os desafios e a visão estratégica do setor para 2026. “O ano de 2025 foi marcado por recordes de produção, abates e exportação, fortalecendo a posição de Mato Grosso como o principal fornecedor de carne bovina do Brasil para o mercado interno e para mais de 80 nações”, frisa.
O estado encerrou 2025 com cerca de 7,2 milhões de animais abatidos, número nunca antes registrado. Ribeiro Jr. explica que o resultado foi impulsionado tanto pelo bom desempenho dos sistemas a pasto quanto pela intensificação dos modelos de terminação. “Aumentamos em cerca de 4% a área de confinamento”, afirmou.
Ele ressalta que o movimento coincidiu com um período de forte demanda internacional. “A exportação seguiu em alta, com abertura de novos mercados. O Sudeste asiático se tornou um destino em expansão impressionante. Além disso, tivemos a retomada do mercado norte-americano e o crescimento significativo das compras do México”, ressalta.
Padronização da produção
O avanço das áreas de confinamento reforça a busca por maior eficiência e previsibilidade na cadeia produtiva. Para Ribeiro Jr., os ganhos são relevantes, mas o processo ainda está longe de substituir totalmente a pecuária a pasto. “Os frigoríficos atendem diversos mercados e consequentemente diversos tipos de demandas. Uns querem carne sem gordura, outros querem desossada, gerando dificuldades no abate”, explica.
Segundo ele, esse cenário exige regularidade e previsibilidade. “Os frigoríficos precisam padronizar o rendimento de carcaça, precocidade, volume e frequência, e os confinamentos procuram suprir essa necessidade. Porém a demanda é grande e o confinamento é uma solução boa para padronizar, mas ainda não é definitiva. O frigorífico ainda depende do boi a pasto”, pondera.
Mercados internacionais em expansão
O presidente da Acrimat também projeta um ambiente favorável às exportações no próximo ano. A carne mato-grossense deve continuar ocupando espaço em mercados de alto consumo e em nações que vêm ampliando as compras nos últimos meses. “Acredito que o mercado americano ainda seja um mercado que vai demandar muito a nossa carne, pela necessidade histórica que eles têm pelos nossos produtos”, avalia.
Ele destaca que surpresas positivas vieram de mercados que não figuravam entre os principais destinos do estado. “A surpresa boa é como México e Rússia vêm comprando muito a nossa carne, além do Sudeste Asiático – Indonésia, Filipinas, Singapura e Vietnã – que se mostram em franca ascensão e devem continuar desta forma em 2026”, afirma.
Oscilações do mercado
Para o dirigente, o maior desafio do produtor em 2025 e também em 2026 é garantir remuneração adequada. “O maior desafio de hoje é ser mais bem remunerado pelo que se produz. Somos muito vulneráveis pelas oscilações de mercado, guerras e governos, sempre com retrocessos destes preços”, menciona.
Ribeiro Jr. lembra que, no passado, a volatilidade do mercado era compensada em determinados períodos, mas essa dinâmica mudou. “Alguns anos atrás o pecuarista tinha a recuperação desses preços. Hoje essa oscilação positiva está cada vez mais escassa, tirando muita gente do jogo. Hoje não há mais espaço para amadores, principalmente na terminação”, alerta, recomendando que o produtor faça suas contas bem-feitas para se manter no setor.
Processo de adaptação
Com a pressão global por sustentabilidade e rastreabilidade, a pecuária mato-grossense passa por um processo de adaptação. Ribeiro Jr. reconhece que o setor enfrenta um caminho inevitável. “Temos plena consciência de que a rastreabilidade é um caminho sem volta. Mas gostaríamos que fosse gradativa e não obrigatória”, defende.
A maior preocupação recai sobre os pequenos e médios produtores. “Se houver essa obrigatoriedade, que ao menos seja acessível para quem não tem condição de investir em sustentabilidade e rastreabilidade, já que esses processos encarecem a produção e os preços não serão compatíveis com os novos custos”, salienta, afirmando que a Acrimat acompanha de perto as discussões: “Estamos trabalhando junto à Câmara Setorial e ao Mapa nesse projeto de rastreabilidade, e acreditamos que ele deve ser opcional”.
Gargalos persistem
Apesar dos avanços, o estado enfrenta entraves estruturais que limitam seu potencial. O presidente da Acrimat destaca especialmente a logística. “Temos vários gargalos ainda, principalmente em Mato Grosso, que tem uma extensão continental. A maior dificuldade vem da logística, onde grandes regiões produtoras ainda não têm frigoríficos”, aponta.
A consequência recai diretamente sobre o bolso do produtor. “Os animais precisam se deslocar de 400 a 500 quilômetros para chegar ao frigorífico mais próximo, perdendo peso e gerando prejuízo”, relata.
Além disso, a distância dos portos exportadores encarece o frete. Ribeiro Jr. também aponta entraves ambientais e fundiários. “Precisamos de mais agilidade nas liberações ambientais, como o CAR (Cadastro Ambiental Rural). Não podemos trabalhar com essa insegurança jurídica, preocupados com invasões de terra, desapropriações e incêndios que, na maioria das vezes, transformam o produtor em vítima, mas ainda assim ele é quem recebe o ônus”, afirma.
Dependência do mercado interno
Mesmo com o peso das exportações, o consumo interno permanece como principal destino da produção. “O mercado interno soma 70% da produção”, destaca Ribeiro Jr.
No entanto, fortalecer esse mercado é um desafio que está diretamente ligado ao desempenho da economia nacional. “Como melhorar o mercado interno sem avançar na melhoria das condições econômicas da população? Praticamente não se consegue”, enfatiza, acrescentando: “Vivemos em um país com muita distribuição de benefícios sociais e ajudas, o que dificulta o crescimento da economia, não gerando economia nova e nem movimentação do dinheiro. Precisamos de indústrias, comércios, agricultura e pecuária crescentes, mas temos mercados estagnados”, lamenta.
Pilares da pecuária
A Acrimat acompanha de perto o avanço das tecnologias no campo, e Ribeiro Jr. avalia que o produtor mato-grossense já opera em um patamar elevado de profissionalização. “Já utilizamos bem as ferramentas da pecuária como genética, nutrição, sanidade e manejo, sendo bem-feitos da porteira para dentro”, afirma.
Ele aponta três pilares essenciais para o futuro: oferta e demanda, tecnologia e rastreabilidade. “Já estamos em discussão sobre este último pilar. Temos um programa do Mapa, elaborado junto aos produtores, que vai estar ativo em oito anos, e é isso que vai nos gerar a confiança de que a pecuária do futuro será superior à atual”, projeta.
Riscos para 2026

Embora os riscos sanitários e ambientais sejam naturais da atividade, Ribeiro Jr. pontua outro tipo de ameaça como a mais preocupante. “O maior risco que estamos enfrentando nos últimos anos são as pressões ambientais de outros países. Precisam do nosso produto, mas querem negociar com um preço mais barato, colocando barreiras ambientais que eles não fazem, mas nos cobram”, critica.
Ele reforça que o Brasil já possui um dos códigos ambientais mais rígidos do mundo. “Já temos um código ambiental bastante restrito e amplo, em que seguimos à risca. Não tem por que atender demandas acima do nosso código ambiental sem poder contar com respaldo do governo”, salienta.
Segundo ele, até mesmo durante a COP 30, o país não conseguiu mostrar plenamente seus avanços. “Tivemos a oportunidade de mostrar o que fazemos de bom, mas ficamos presos a estas questões ambientais”, lamenta.
Visão de futuro
Apesar dos desafios, Ribeiro Jr. mantém o otimismo em relação ao futuro da pecuária mato-grossense. “Temos certeza do sucesso da pecuária no futuro, porque conhecemos a fundo nosso setor, nossos produtores e sabemos que o que fazemos em relação à preservação ambiental é extremamente rígido”, diz.
Ele destaca a eficiência produtiva como um dos grandes diferenciais do Brasil. “Ninguém produz tão barato e em quantidade tão grande como o Brasil. Os produtores aprenderam a produzir mais no mesmo espaço, preservando mais áreas verdes, com sustentabilidade. Os dados de exportação mostram que estamos em uma crescente e devemos continuar assim por muitos anos. Temos volume, qualidade e sanidade”, exalta, frisando: “A pecuária do Mato Grosso e de todo o país só tende a crescer, e vamos continuar alimentando o mundo por muitos e muitos anos”.
O Anuário do Agronegócio figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Brasil lança selo para fortalecer mercado de carne premium
Iniciativa incentiva o cruzamento entre vacas leiteiras e touros Angus, ampliando a oferta de carne de alto valor e criando nova fonte de renda para produtores de leite.

Uma iniciativa que integra ciência e setor produtivo para qualificar o mercado de carne premium no Brasil. Desenvolvido pela Associação Brasileira de Angus, o selo Beef on Dairy é o primeiro dessa categoria no País e contou com participação da Embrapa em sua construção técnico-científica. Essa estratégia estimula o cruzamento de vacas leiteiras das raças Holandesa e Jersey com touros Angus. O objetivo é gerar uma carne diferenciada, já muito apreciada em mercados internacionais.
Além de proporcionar carne de alta qualidade para o mercado de cortes nobres, o novo selo também tem como objetivo diversificar a renda dos produtores de leite, que ganham uma nova opção de comercialização dos animais.
O presidente da Associação Brasileira de Angus, José Paulo Dornelles Cairoli, destaca a importância dessa novidade para o mercado de carne. “É uma estratégia já consolidada em outros países e conseguimos trazê-la para o Brasil, que possui o maior rebanho comercial do mundo. Nosso projeto é o casamento perfeito entre as raças. O produtor vai se beneficiar e o consumidor terá carne diferenciada. Quem já provou sabe o resultado”, afirma.
“O lançamento do selo Beef on Dairy foi possível porque há uma base científica robusta por trás dele, e essa é justamente a contribuição da Embrapa”, afirma o chefe-geral da Embrapa Pecuária Sul (RS), Fernando Cardoso. “Nós desenvolvemos os critérios técnicos e os índices genéticos que permitem identificar, com precisão, os touros Angus mais indicados para o cruzamento com vacas Holandesas e Jersey. É esse rigor científico que garante que o selo realmente represente animais superiores para a produção de carne de alta qualidade”, destaca.
Segundo Cardoso, o trabalho da Embrapa no Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo) desempenhou papel estratégico para dar segurança ao setor na adoção da tecnologia. “O Beef on Dairy abre um caminho importante para agregação de valor a toda a cadeia, e nossa missão é assegurar que essas escolhas estejam amparadas pelo melhor conhecimento técnico disponível”, conclui.
Participação técnica da Embrapa
A estratégia Beef on Dairy, já consolidada no cenário global, começa a ganhar força no Brasil ao incentivar o uso de touros de corte em vacas de leite. Como as raças leiteiras não são naturalmente especializadas em características de carcaça, o novo selo busca identificar os touros mais adequados para esse cruzamento. Para isso, foram criados dois selos distintos: um voltado ao Jersey, que demanda maior atenção ao tamanho dos bezerros no parto devido ao porte reduzido das vacas, e outro ao Holandês, que também exige características para evitar animais excessivamente grandes, já que a raça é naturalmente de grande porte.
A Embrapa participa diretamente da implementação do selo por meio do Promebo, o programa oficial de melhoramento genético da raça Angus no Brasil, gerenciado pela Associação Nacional de Criadores (ANC). Coube à instituição desenvolver e aplicar o índice técnico que orienta a seleção dos touros, identificando aqueles com melhor desempenho em crescimento, área de olho de lombo e conformação de carcaça – características essenciais para melhor rendimento frigorífico. O selo também atende a uma demanda das centrais de inseminação, já que grande parte do uso desses touros ocorre via sêmen, agregando valor ao material genético certificado.
Para Leandro Hackbart, conselheiro técnico da Angus e ANC, o selo nasce de uma demanda do próprio setor. “Nada mais fizemos do que criar parâmetros claros, garantindo transparência e segurança ao produtor de Holandês e Jersey na hora de adquirir genética Angus. Para o consumidor, isso significa confiança e qualidade alimentar”, reforçou.


