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Trigo irrigado do Cerrado atinge alta produtividade e qualidade industrial
Embrapa apresenta à produtores cultivares de ponta e práticas de manejo para reduzir acamamento e potencializar rendimento do cereal.

Cultivares de trigo tropical irrigado de alta produtividade e qualidade industrial, além das principais práticas recomendadas pela pesquisa para minimizar o acamamento das plantas, foram apresentadas pela Embrapa no Dia de Campo – Trigo Irrigado 2025. Promovido pela Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF) na Fazenda Maragato e Chimango, no PAD-DF, o evento reuniu cerca de 200 produtores, técnicos, profissionais de revendas e consultores do DF e Entorno.
O engenheiro agrônomo do Departamento Técnico da Coopa-DF, Cláudio Malinski, ressalta que o trigo tem se destacado cada vez mais na região como uma cultura pujante e de alta tecnologia. Estima-se que a área cultivada com a cultura no Brasil Central seja de cerca de 400 mil ha. “É uma cultura superimportante no sistema de produção, já que vem quebrar o ciclo de pragas e reduzir a infestação de nematoides e plantas daninhas. Além disso, a qualidade do nosso trigo é incomparável. Temos o melhor trigo do mundo em função da genética e do ambiente no qual é cultivado”, explica.
O pesquisador Júlio Albrecht, da Embrapa Cerrados, falou sobre as variedades de trigo BRS 254, BRS 264, BRS 394 e BRS 404, desenvolvidas para o Cerrado e indicadas para cultivo em sistema irrigado em regiões com altitudes acima de 500 metros. A época de semeadura recomendada é de 11 de abril a 31 de maio, sendo que a melhor época é a primeira quinzena de maio, a fim de garantir maior potencial de rendimento de grãos, além de reduzir a ocorrência da brusone, principal doença que acomete a triticultura na região.
A cultivar BRS 254 é um trigo melhorador com elevada força de glúten (340 x 10-4 J), estabilidade acima de 12 minutos e peso hectolítrico (PH) de 80 kg/hL (acima do PH de 78 kg/hL exigido pelo mercado), o que proporciona uma farinha de elevada qualidade. “É uma cultivar muito utilizada para melhorar outros trigos com problemas de qualidade para panificação, por isso ela se mantém no mercado”, explica Albrecht. As plantas têm ciclo precoce (120 a 125 dias) e são moderadamente resistentes à germinação da espiga (no caso de semeadura tardia). O potencial produtivo é de 110 a 125 sc/ha, sendo que em 2021 alcançou 147,5 sc/ha em área de pivô de 101 ha na região do PAD-DF.
Recordista mundial de produtividade média diária (80,9 kg/ha/dia) em 2021 na propriedade do produtor Paulo Bonato, em Cristalina (GO), a BRS 264 obteve, naquele ano, 160,5 sc/ha (ou 9.600 kg/ha) de produtividade total em 119 dias de ciclo. A cultivar é um trigo de excelente qualidade para panificação, com força de glúten acima de 262 x 10-4 J, estabilidade acima de 15 minutos e PH acima de 81 kg/hL. “O lançamento dessa variedade foi um marco para o trigo no Brasil Central pela qualidade industrial, precocidade e alta produtividade. A partir daí, ocorreu uma expressiva expansão da área plantada com trigo, os produtores começaram a acreditar mais na cultura e novos moinhos começaram a ser instalados na região. É um dos poucos trigos em que se consegue obter quase 70% de farinha”, comentou o pesquisador.
Apresenta ciclo superprecoce (110 a 120 dias), conferindo economia de energia e água e potencial produtivo médio de 120 a 130 sc/ha, sendo que diversos produtores da região têm alcançado cerca de 145 sc/ha.
Classificada como trigo pão e melhorador, a cultivar BRS 394 apresenta alta força de glúten (acima de 314 x 10-4 J), estabilidade acima de 17 minutos e PH acima de 80 kg/hL. Apresenta ciclo precoce (115 a 125 dias) e maior tolerância ao acamamento em relação às outras cultivares da Embrapa. O potencial produtivo de 115 a 130 sc/ha, tendo produzido 137 sc/ha na região em 2017.
Apesar de inicialmente desenvolvida como trigo de sequeiro ou safrinha, a cultivar BRS 404 também tem sido utilizada em sistema irrigado devido à rusticidade e por demandar menor quantidade de água. “Em pivôs mais velhos, em que não se consegue aplicar o nível de água suficiente, os produtores têm colhido em torno de 100 sc/ha em média”, apontou Albrecht, destacando o uso do material em rotação de culturas para diminuição de nematoides no solo e a ocorrência de Fusarium spp. e plantas daninhas.
De qualidade trigo pão, a cultivar tem força de glúten de 280 x 10-4 J, estabilidade acima de 10 minutos e PH acima de 80 kg/hL mesmo em anos desfavoráveis para a lavoura. O ciclo é precoce (90 a 110 dias no sistema de sequeiro e 120 a 125 dias no irrigado) e, devido à boa tolerância à seca e ao calor, o que minimiza o risco de perdas, pode ser semeada após o dia 15 de março. A produtividade média na safrinha é de 45 sc/ha, sendo que em 2023 chegou a produzir 71,9 sc/ha, com PH de 84.
Novidade para 2026

Foto: Geraldo Bubniak
A Embrapa está preparando uma nova cultivar para o ano que vem: a BRS Savana, indicada tanto para o sistema de sequeiro como para o irrigado. Será uma cultivar com a translocação 2NS/AS, fragmento de cromossomo de uma espécie selvagem parente do trigo (Aegilops ventricosa) que confere maior tolerância à brusone.
Segundo o analista Bruno Lemos, da Embrapa Trigo (RS), a cultivar está entrando em fase de produção das sementes básicas. “Nesta safra, testamos uma faixa do material em mais de 20 unidades demonstrativas. A produtividade média (em sequeiro) foi de 45 sc/ha, mas em regiões ‘fora da curva’ como São Gotardo (MG), produziu 93 sc/ha, e em Cristalina, entregou 86 sc/ha. Vimos que ele tem potencial genético e estamos testando também para o sistema irrigado. Plantamos em 25 ha (no PAD-DF) e colhemos 118 sc/ha neste primeiro ano”, explicou, lembrando que ainda estão sendo realizados ajustes fitotécnicos.
O material foi classificado como trigo pão e de ciclo precoce. O lançamento oficial está previsto para maio de 2026 na AgroBrasília, principal feira agropecuária do Brasil Central.
Práticas para reduzir o acamamento das plantas
Um dos principais problemas enfrentados pelo triticultor é o acamamento das plantas antes do enchimento dos grãos, o que pode trazer prejuízos ao produtor. Para minimizar o problema, o pesquisador da Embrapa Trigo Jorge Chagas apresentou práticas de manejo da cultura, envolvendo a área do cultivo e a escolha da cultivar, a densidade de semeadura, a adubação nitrogenada, o uso do redutor de crescimento e a irrigação.
Chagas salientou que o sistema irrigado é caracterizado por uma grande diversidade de cultivos na região, e por isso o produtor deve estabelecer o objetivo da inserção do trigo no sistema – pode ser apenas a rotação de culturas, ou rentabilidade e obtenção do teto produtivo, por exemplo. “O produtor deve ter esse objetivo em mente para direcionar o manejo. Ele tem que saber até que ponto pretende investir na lavoura para alcançar o rendimento esperado”, explicou.
A primeira medida para alcançar o objetivo traçado é conhecer o histórico da área por meio da análise do solo, das culturas anteriores e o nível de palhada disponível, do nível de fertilidade do solo, da homogeneidade da área (pivôs mais velhos podem não proporcionar altos rendimentos de grãos) e do comportamento de cultivos de trigo anteriores no sistema.
O conhecimento sobre a área associado à correta escolha da cultivar vai permitir um manejo equilibrado. “É importante observar o rendimento e a qualidade de grãos, o ciclo, a tolerância da cultivar ao acamamento, a resistência a doenças e se ela é aceita pelo moinho. São fatores anteriores ao plantio e que orientam a decisão do manejo. Para cada cultivar, adotamos um manejo”, explicou o pesquisador.

Foto: Juliana Caldas
Sobre o plantio, o ideal é realizá-lo com a semeadora, ajustando a profundidade (de 2 a 5 cm) na linha de plantio. “Isso vai permitir um arranjo de plantas mais uniforme. Essa é uma das várias práticas que culminarão no uso do redutor de crescimento, que é a chave para que as plantas não acamem”, disse Chagas, salientando a importância de uma lavoura homogênea.
Quanto maior a densidade de semeadura da cultivar, maior a suscetibilidade ao acamamento, de modo que cada cultivar tem um ponto de equilíbrio. A partir de 500 plantas/m2, qualquer variedade disponível no mercado estará suscetível ao acamamento. Caso o produtor tenha problema de acamamento das lavouras nos anos anteriores mesmo seguindo a densidade indicada para a cultivar, a recomendação é reduzir um pouco a população de plantas. “Apesar de perder um pouco da densidade de plantio, isso evitará perdas muito maiores com o acamamento numa lavoura de trigo irrigado”, observou o pesquisador.
Ele acrescentou que densidades de semeadura acima das recomendadas para as cultivares retiram a eficiência do redutor de crescimento. Por isso, é importante verificar o peso de mil sementes (PMS), a capacidade de germinação das plantas e a plantabilidade (índice de sobrevivência no campo) da área. “Se plantarmos 200 kg/ha de sementes com PMS de 44 g, serão 454 sementes/m2. Mas se o PMS for 32 g, dá 625 sementes/m2. Por isso, é preciso verificar o PMS do lote de sementes e calcular a densidade de semeadura para implantar a lavoura da melhor forma possível”, apontou Chagas, citando as densidades de semeadura indicadas para as cultivares da Embrapa.
Com relação à adubação nitrogenada, é necessário o diagnóstico da área e ter um solo homogêneo e equilibrado em nutrientes. A orientação é seguir a dose de adubação nitrogenada indicada pelo obtentor da cultivar; porém, se a área for bastante fértil, com alto residual de nitrogênio de safras anteriores, é possível reduzir a quantidade de adubo nitrogenado sem comprometer a produtividade. “O produtor pode até perder um pouco, mas perderia muito mais com o acamamento se ele já tiver um histórico de acamamentos graves”, alertou o pesquisador.
A adubação nitrogenada deve ser aplicada do plantio até 15 dias após a germinação. Se houver palhada de milho na área, será necessária uma dose um pouco maior de nitrogênio. A aplicação deve ser antecipada em áreas heterogêneas para melhor desempenho da adubação. Aplicações tardias podem causar aumento do acamamento, sendo indicadas apenas em casos de deficiência ou perda de área foliar. Quanto maior o nível de nitrogênio, mais a lavoura está suscetível ao acamamento”, lembrou Chagas, ressaltando a importância de verificação do nitrogênio disponível na área do pivô.
Outro fator importante é a uniformidade na aplicação do adubo nitrogenado. O pesquisador explicou que áreas onde ocorre sobreposição da aplicação do nitrogênio, comumente são observadas faixas de acamamento entre os corredores.
Utilizado para a redução do porte e o fortalecimento da planta, o que diminui o acamamento, o redutor de crescimento (trinexapaque-etílico) pode ter aplicação única de 0,5 L/ha no primeiro nó visível.
Chagas salientou que a densidade de semeadura e o nível de nitrogênio no solo devem estar adequados para garantir a uniformidade da lavoura no primeiro nó visível, momento da aplicação do redutor de crescimento. “O uso do regulador é o limite em que o produtor está aprontando a lavoura de modo geral. Nesse momento, o potencial de produção já está praticamente definido”.

Foto: Alexandre Ortega
Ele atentou para a correta identificação do primeiro nó visível. O primeiro nó aparece um pouco mais acima no colmo da planta e não deve ser confundido com o “nó” de coroa. Após a aplicação do redutor de crescimento, a irrigação deve ser suspensa por dois a três dias para maior eficiência do redutor.
A irrigação é o último recurso de manejo para controlar o acamamento. “A questão é que se o produtor tiver que suspender a irrigação por causa do acamamento, pode perder produtividade. Mas é preferível faltar água em algum momento que deixar a lavoura acamar. A partir do momento em que o trigo acama, ele não se recupera mais”, observou o pesquisador, acrescentando que o acamamento nos períodos de florescimento e de enchimento dos grãos pode ser muito prejudicial. Nesse sentido, ele recomendou cuidado com irrigações pesadas principalmente no enchimento de grãos em noites de vento (final de julho e mês de agosto).
Para auxiliar no manejo da irrigação do trigo, foi desenvolvido o software “Monitoramento de Irrigação”, disponível gratuitamente na página da Embrapa Cerrados na aba “Serviços” ou clique aqui.
Além da Embrapa, também realizaram apresentações no Dia de Campo a Coopa-DF (manejo no sistema de produção), a OR Sementes (desempenho de cultivares na região do PAD-DF), a Netafim (gotejo subterrâneo em grãos) e a Sem Mattos Consultoria (manejo de plantas daninhas de difícil controle).

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Brasil amplia acordos de cooperação com a Coreia do Sul
Intercâmbio técnico, cooperação em sanidade e pesquisa de bioinsumos, buscando tecnologia e sustentabilidade para o campo brasileiro busca ampliar competitividade e fortalecer a produção sustentável.

O Ministério da Agricultura e Pecuária assinou, nesta segunda-feira (23), em Seul, dois memorandos de entendimento com o governo da Coreia do Sul voltados ao fortalecimento da cooperação bilateral em agricultura, sanidade, inovação e desenvolvimento rural. Os atos foram celebrados na Casa Azul durante a visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao país asiático. “A Coreia do Sul é um parceiro estratégico e esta agenda inaugura uma nova etapa de cooperação baseada em confiança, diálogo e complementaridade econômica. Estamos aproximando tecnologia, sustentabilidade e produção responsável para ampliar oportunidades ao agro brasileiro e fortalecer a segurança alimentar”, afirmou o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro.

Ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro: “Estamos aproximando tecnologia, sustentabilidade e produção responsável para ampliar oportunidades ao agro brasileiro e fortalecer a segurança alimentar” – Foto: Caroline de Vita/Mapa
O primeiro acordo, firmado entre os ministérios da Agricultura dos dois países, estabelece a ampliação do intercâmbio técnico e institucional com foco em ciência, tecnologia, agricultura digital, segurança alimentar e cadeias de abastecimento. O memorando inclui a cooperação em medidas sanitárias e fitossanitárias (SPS), com previsão de harmonização de normas e troca de informações para avançar em temas de interesse comum.
O documento também prevê cooperação em infraestrutura agrícola, promoção de investimentos, intercâmbio científico e criação de um Comitê de Cooperação Agrícola Brasil-Coreia para acompanhar a implementação das iniciativas conjuntas.
O segundo memorando reúne o Ministério da Agricultura e Pecuária, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Administração de Desenvolvimento Rural da Coreia. O acordo estabelece uma estrutura de cooperação voltada ao registro, avaliação e gestão de agrotóxicos e bioinsumos, além do intercâmbio de informações e desenvolvimento de pesquisas conjuntas.

Foto: Caroline de Vita/Mapa
Entre as ações previstas estão o compartilhamento de dados técnicos, intercâmbio de especialistas, programas de capacitação e realização de workshops e projetos científicos conjuntos.
Os acordos integram a agenda da missão oficial brasileira na Ásia e reforçam a parceria estratégica entre Brasil e Coreia do Sul, com potencial para ampliar o intercâmbio tecnológico, estimular a inovação no campo e fortalecer a cooperação sanitária e regulatória no setor agropecuário.
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Países em desenvolvimento buscam protagonismo na redefinição da ordem econômica mundial
Integração entre economias emergentes mira maior autonomia financeira, tecnológica e comercial.

A defesa de maior articulação entre países em desenvolvimento marcou o encerramento da agenda presidencial na Ásia. Na madrugada deste domingo (22), antes de deixar a Índia rumo à Coreia do Sul, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a sustentar que o chamado Sul Global precisa atuar de forma coordenada para alterar a atual estrutura do comércio e das decisões econômicas internacionais.

Presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva: “Países pequenos precisam negociar juntos para equilibrar forças” – Foto: Ricardo Stuckert/PR
O argumento central é que economias emergentes enfrentam assimetrias estruturais nas negociações com grandes potências. Segundo ele, acordos bilaterais diretos tendem a reproduzir desequilíbrios históricos, reduzindo a margem de barganha de países menos desenvolvidos. “Países pequenos precisam negociar juntos para equilibrar forças”, afirmou, ao citar Índia, Brasil e Austrália como exemplos de nações que podem ampliar seu poder de influência quando atuam em bloco.
O presidente associou essa defesa a um diagnóstico histórico. Na avaliação dele, a inserção internacional de diversas economias emergentes ainda carrega traços de dependência tecnológica e financeira herdados do período colonial. A crítica não se limita ao passado político, mas alcança a estrutura contemporânea de cadeias globais de valor, nas quais países exportadores de commodities permanecem, em muitos casos, na base da pirâmide produtiva.
A proposta apresentada envolve intensificar parcerias entre países com níveis de desenvolvimento semelhantes, com foco em cooperação tecnológica, agregação de valor e ampliação do comércio intra-bloco. O objetivo estratégico é reduzir vulnerabilidades externas e aumentar a autonomia decisória.
Nesse contexto, o BRICS aparece como instrumento central dessa reconfiguração. O presidente afirmou que o grupo deixou de ser

Brics – Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
periférico para assumir papel mais estruturado na governança internacional. Destacou a criação do Novo Banco de Desenvolvimento como exemplo de mecanismo financeiro alternativo às instituições tradicionais dominadas por economias avançadas.
Ele também buscou afastar a narrativa de confronto direto com o Ocidente. Ao mencionar a preocupação dos Estados Unidos, sobretudo em relação à China, afirmou que o objetivo não é reeditar divisões geopolíticas típicas da Guerra Fria, mas fortalecer a capacidade de articulação dos emergentes dentro da própria arquitetura global, inclusive com eventual ampliação da interlocução com o G20.
Outro ponto sensível abordado foi a discussão sobre moeda comum. O presidente voltou a negar a intenção de criar uma divisa própria do bloco. A proposta, segundo ele, limita-se a ampliar o uso de moedas nacionais nas transações comerciais entre os países-membros, como forma de reduzir custos cambiais e dependência do dólar. Trata-se de uma agenda pragmática, voltada à eficiência comercial, ainda que com implicações estratégicas no sistema financeiro internacional.
A fala reforça uma linha de política externa que combina multilateralismo, diversificação de parceiros e busca por maior protagonismo das economias emergentes. A agenda na Índia e na Coreia do Sul integra essa estratégia de aproximação com a Ásia, região vista como eixo dinâmico da economia global nas próximas décadas.
ONU
Ao defender o fortalecimento da Organização das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reiterou a necessidade de resgatar o papel institucional do organismo em um cenário internacional marcado por conflitos e tensões geopolíticas. Segundo ele, a entidade precisa “voltar a ter legitimidade e eficácia” para cumprir sua missão central de manutenção da paz.
O presidente relatou ter feito contatos diretos com outros chefes de Estado diante de crises recentes. “Esses dias eu liguei para quase todos os presidentes, propondo que a gente tem que dar uma resposta ao que aconteceu na Venezuela, ao que aconteceu em Gaza, ao que aconteceu na Ucrânia”, afirmou.
Para Lula, não se pode permitir que decisões unilaterais de grandes potências interfiram na soberania de outros países. “Você não pode

Foto: Divulgação
permitir que, de forma unilateral, nenhum país, por maior que seja, possa interferir na vida de outros países. Precisamos da ONU para resolver esse tipo de problema. E, por isso, ela precisa ter representatividade”, reiterou.
Relação com os Estados Unidos
Ao tratar da relação bilateral com os Estados Unidos, Lula condicionou o aprofundamento de parcerias à disposição americana de enfrentar o crime organizado transnacional. “O crime organizado hoje é uma empresa multinacional. Por isso, nossa Polícia Federal precisa construir parcerias com todos os países que tenham interesse em enfrentá-lo conosco”, disse. Ele acrescentou que, havendo cooperação efetiva, o Brasil estará “na linha de frente”, inclusive solicitando o envio de brasileiros envolvidos com organizações criminosas que estejam em território americano.
O presidente também defendeu que a atuação americana na América do Sul e no Caribe seja pautada pelo respeito. Classificou a região como pacífica, sem armamento nuclear e focada no desenvolvimento econômico e social. Segundo Lula, esse será um dos temas a serem tratados em encontro previsto com o presidente Donald Trump. “Quero discutir qual é o papel dos EUA na América do Sul, se é de ajuda ou ameaça. O que o mundo precisa é de tranquilidade”, afirmou, acrescentando que o atual momento registra o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.

Foto: Ricardo Stuckert/PR
Sobre a recente decisão da Suprema Corte dos EUA que derrubou tarifas impostas pelo governo americano, Lula evitou juízo de valor. Disse que não cabe ao presidente do Brasil comentar decisões internas de outras jurisdições.
Índia, comércio e agregação de valor
Na agenda asiática, Lula destacou os encontros com o primeiro-ministro Narendra Modi, em Nova Delhi. Segundo ele, o foco foi a ampliação do comércio e da cooperação econômica. “Tratamos muito da nossa relação comercial. Não entramos em detalhes sobre geopolítica internacional. Discutimos o que nos une, em especial fortalecer nossas economias para nos tornarmos países altamente desenvolvidos”, afirmou.
O intercâmbio bilateral, atualmente em US$ 15,5 bilhões, tem meta de alcançar US$ 30 bilhões até 2030. Lula classificou as conversas com empresários indianos como positivas. “Todos os empresários indianos que investem no Brasil elogiam o país e dizem que vão aumentar seus investimentos”, reteirou.
O presidente voltou a defender que a exploração de minerais críticos e terras raras no Brasil esteja condicionada à agregação de valor no território nacional. “O processo de transformação precisa acontecer no Brasil. O que não vamos permitir é que aconteça com nossas terras raras o que aconteceu com nosso minério de ferro”, afirmou, criticando o modelo histórico de exportação de commodities sem industrialização local.
Após a passagem pela Índia, Lula seguiu para Seul, onde foi recebido a convite do presidente Lee Jae Myung. A visita prevê a adoção de um Plano de Ação Trienal 2026-2029, com o objetivo de elevar a relação bilateral ao patamar de parceria estratégica, consolidando a ofensiva diplomática brasileira na Ásia.
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Trump eleva tarifa global para 15% e testa novos limites legais após revés na Suprema Corte
Presidente norte-americano amplia sobretaxa temporária sobre todas as importações e anuncia nova estratégia jurídica para sustentar política comercial.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou no última sábado (21) a elevação de 10% para 15% da tarifa temporária aplicada sobre todas as importações que entram no país. A medida ocorre poucos dias após a Suprema Corte dos EUA derrubar o programa tarifário anterior, baseado em poderes de emergência econômica.

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump reage à decisão da Suprema Corte e sinaliza aumento imediato da tarifa global sobre importações, reforçando a centralidade das barreiras comerciais em sua estratégia econômica – Foto: Divulgação
Na sexta-feira (20), em reação direta ao julgamento, Trump já havia determinado a aplicação imediata de uma tarifa global de 10% sobre todos os produtos importados, adicional às tarifas já existentes. Agora, decidiu ampliar o percentual ao limite máximo permitido pela legislação invocada.
Pela lei comercial americana, o presidente pode instituir uma taxa de até 15% por um período de 150 dias, mecanismo previsto para situações consideradas excepcionais. A utilização desse dispositivo, contudo, pode enfrentar questionamentos judiciais, especialmente após a Corte ter delimitado o alcance dos poderes presidenciais em matéria tarifária.
Em publicação na rede Truth Social, Trump afirmou que a elevação da tarifa ocorre com efeito imediato e justificou a decisão como resposta a décadas de práticas comerciais que, segundo ele, prejudicaram a economia americana. Disse ainda que o percentual de 15% representa o nível totalmente permitido e legalmente testado.
O presidente também sinalizou que a medida é transitória. Durante os 150 dias de vigência, o governo trabalhará na formulação de novas tarifas consideradas legalmente admissíveis, indicando que a estratégia comercial será reestruturada para se apoiar em fundamentos jurídicos distintos daqueles rejeitados pela Suprema Corte.
A decisão reforça que, apesar do revés judicial, a política tarifária permanece no centro da agenda econômica do governo. Ao mesmo tempo, amplia a tensão institucional em torno dos limites entre Executivo e Congresso na condução da política comercial dos Estados Unidos.



