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Transição energética justa é aquela que não deixa ninguém para trás

O mundo parece se dividir em times opostos: descarbonizadores versus desfossilizadores. Em um mundo que parece obcecado por manchetes e algoritmos que favorecem pontos de vista polarizados, é fácil esquecer que o meio ambiente, a economia e a sociedade são redes intrincadas de sutilezas e relações complexas.

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Começo esse texto com um consenso para que aqueles que têm visões distintas não pulem esse texto por simples discordância. Hoje, julho de 2023, quando esse texto está sendo escrito, todos (ou a maioria) concordam sobre a urgência e a necessidade de reduzir emissões de Gases do Efeito Estufa (GEE), sob pena de encararmos tragédias climáticas que ameaçam a existência humana tal como a conhecemos hoje. É a consciência do que está por vir que colocou o mundo em uma coalizão nunca vista: um pacto para implementação de projetos e estratégias para reduzir suas emissões de GEE em ritmo acelerado.

A partir daqui, vamos para outro fato: nem tudo é consenso, especialmente quando falamos em estratégia de descarbonização. Os fins podem (ou deveriam) ser comuns, mas há divergências quanto aos meios.

O mundo parece se dividir em times opostos: descarbonizadores versus desfossilizadores. Em um mundo que parece obcecado por manchetes e algoritmos que favorecem pontos de vista polarizados, é fácil esquecer que o meio ambiente, a economia e a sociedade são redes intrincadas de sutilezas e relações complexas. Neste tecido socioeconômico, a descarbonização e os combustíveis fósseis emergem como dois temas que são, aparentemente, antagônicos.

Em um lado, estão os que advogam pela desfossilização total e imediata como a única maneira de mitigar a crise climática. Combustíveis fósseis são apontados como uma herança obsoleta e prejudicial, uma relíquia do Século XX que estamos moralmente obrigados a abandonar. Defendem que os investimentos e esforços sejam direcionados exclusivamente para energias alternativas e renováveis.

Embora o esforço para a ampliação rápida da matriz renovável seja prioridade inequívoca e a pressão por sua implementação seja parte essencial da trajetória de implementação dos projetos, existe um fator que está sendo deixado de lado nessa conta, e que precisa entrar no cálculo de custos econômicos e sociais.

É nesse ponto que proponho uma reflexão: ao escolher a visão focada exclusivamente em renováveis, será que nossa meta está sendo, de fato, descarbonizar a economia ou vilanizar os combustíveis fósseis?

O caminho da transição é multifacetado e requer uma visão mais equilibrada que foque no custo para as pessoas, pois no fim são elas que importam. Por exemplo, é possível considerar a viabilidade de medidas e tecnologias aptas a descarbonizar as principais rotas tecnológicas que utilizam combustíveis fósseis, como a Captura e Armazenamento de Carbono (CCS), que podem viabilizar a exploração de tais recursos de maneira responsável, diminuindo seu impacto climático e alinhado com os objetivos de sustentabilidade.

A ciência e a experiência mostram que podemos ir além. Quando falamos em descarbonização, não devemos nos limitar à mitigação direta das emissões. Podemos, ou melhor, devemos considerar estratégias de sequestro de carbono, como a restauração florestal. Afinal as soluções baseadas na natureza desempenham um papel fundamental no equilíbrio do ciclo do carbono do nosso planeta. A reconstituição desses biomas não só ajudará a compensar as emissões de carbono, mas também trará benefícios significativos em termos de biodiversidade, saúde do solo e qualidade do ar.

No entanto, ambas as estratégias, demandam recursos financeiros significativos para serem viabilizadas. Aqui reside uma ironia palpável. A indústria dos combustíveis fósseis tem a capacidade de financiar essa mudança e manter países em desenvolvimento em rotas de crescimento econômico. Se direcionados de forma adequada, serão os recursos provenientes dessa indústria que podem ser a mola propulsora para a substituição da matriz energética por renováveis e para a restauração dos nossos biomas. Não à toa o termo “transição” tem sido mais utilizado do que meramente “alteração”.

O que nos une é a urgência de combatermos as mudanças climáticas e emissões de GEE. Mas também é inegável reconhecer que uma trajetória de redução bem-sucedida não se limita a substituição por fontes renováveis, mas é aquela socialmente justa e economicamente viável. Significa que precisamos levar em conta os empregos que serão afetados e as economias que não só dependem da indústria de combustíveis fósseis, mas ainda pode se desenvolver através da exploração desses recursos. A descarbonização não pode ser uma desculpa para ignorar as necessidades socioeconômicas da população. E aqui, entra outro conceito que tem conquistado espaço nas discussões internacionais: transição justa.

Por isso, o foco não deve ser a vilanização de uma fonte de energia específica, mas a otimização de seu uso, medindo seu impacto através da quantificação das emissões de carbono, priorizando aquelas que emitem menos, sem comprometer acessibilidade. Para tanto, precisamos mudar nossa perspectiva: não é apenas uma questão de “combustíveis fósseis versus energias renováveis”, mas “quanto carbono estamos emitindo para gerar a mesma quantidade de energia ou produzir um bem?”.

Esta mudança de mentalidade nos leva a uma compreensão mais equilibrada e inclusiva, que coloca a descarbonização como o objetivo central, sem excluir ou demonizar qualquer fonte de energia. Permite-nos avaliar todas as opções disponíveis e reconhecer o valor das diferentes estratégias e soluções. Não nega a necessidade urgente de uma transição energética, mas promove essa mudança reconhecendo a complexidade do desafio e a importância de uma transição justa. Uma transição que não só considera o meio ambiente, mas também a economia e a sociedade.

Ainda há tempo de calibrar nosso discurso e juntar esforços. Sem pré-conceitos, mas com análise e ciência para quantificar e reduzir emissões. Esta deve ser a nova lógica da nossa economia, que orientará nosso caminho para um futuro sustentável e justo. E que seja para todos.

Fonte: Por Isabela Morbach é advogada e cofundadora da CCS Brasil

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Exportações do agro aos EUA recuam até 41% após escalada tarifária

Café, carne bovina, madeira, frutas e sucos perderam espaço com o aumento das barreiras comerciais impostas por Estados Unidos.

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Foto: Claudio Neves

O ano de 2025 foi marcado pelo redimensionamento das tarifas de importação norte-americanas com relação aos seus parceiros internacionais, o que ficou conhecido como “tarifaço”, e o Brasil, claro, não ficou de fora. No início, o País apareceu na parte debaixo da tabela de taxas, com seus produtos sofrendo uma porcentagem adicional para entrada no mercado norte-americano de 10%. Mas, como a maioria dos nossos competidores nesse mercado sofreram taxação maior, os produtos brasileiros ganharam competitividade lá.

Artigo escrito por Andréia Adami, pesquisadora da área de Macroeconomia do Cepea.

No entanto, o alívio durou pouco, pois, em junho, adicionou-se às disputas comerciais também ruídos e disputas políticas, para então, o governo norte-americano anunciar a elevação dessa taxa adicional aos produtos brasileiros para 50%, um novo golpe aos exportadores brasileiros, inclusive os do agronegócio.

Como resultado desse novo cenário mais adverso da política comercial norte-americana, o valor total das exportações brasileiras para o País em outubro de 2025 ficou 40% abaixo do de julho de 2025. No caso do agronegócio, a receita em dólar caiu 35% e o volume exportado reduziu 41%, na mesma comparação. Produtos importantes da nossa pauta de exportação como café, madeira, carne bovina, frutas e sucos foram duramente atingidos.

Dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) mostram que as compras norte-americanas do café brasileiro caíram 50% entre agosto e novembro de 2025, quando comparadas com o mesmo período de 2024. O cenário não foi muito diferente para os exportadores de madeira, carne bovina, frutas e suco de laranja; além de pescados e produtos como mel, que, apesar de ter pequena representação em termos de valor, tinham forte dependência do mercado norte-americano.

O governo brasileiro correu para apoiar os setores afetados, principalmente na forma de disponibilização de crédito, para que estes pudessem ter tempo de armazenar seus produtos enquanto buscavam novos mercados, com o apoio das instituições brasileiras como o Ministério da Agricultura e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex).

Diante das ações protecionistas do governo norte-americano, não só o Brasil, mas todos os países afetados por sua nova política comercial tiveram que aplicar uma estratégia de negociação há muito utilizada nos mercados financeiros, a de que “não se deve colocar todos os ovos numa mesma cesta”, ou seja, utilizar a diversificação de destinos como estratégia de redução de riscos, agora na área comercial.

A busca por abertura de novos mercados e acordos de livre comércio com o México, Canadá, Índia, Japão e principalmente com a União Europeia passou a ser visto como mais que essencial para preencher a lacuna deixada pelo mercado norte-americano.

No caso do agronegócio, o resultado desse esforço para conquistar novos mercado pode ser verificado no crescimento das vendas externas do setor no ano de 2025, que foi de 11% para a China, 9% para a União Europeia, 7% para o México, 13% para o Reino Unido e 38% para a Argentina; enquanto caíram 6% para os Estados Unidos.

E, a despeito da “química” entre nossos governantes e da recente derrubada do tarifaço pela Suprema Corte norte-americana, o mais importante é que o aumento das relações comerciais entre os países pode ser um elemento-chave para impulsionar o crescimento das suas economias, levando a mais demanda, principalmente por alimentos.

Fonte: Artigo escrito por Andréia Adami, pesquisadora da área de Macroeconomia do Cepea.
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Bovinos / Grãos / Máquinas

Nelore, o boi que samba

Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

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Foto: Divulgação/ACNB

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.

A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB

Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.

Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.

A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.

À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.

Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.

O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.

Fonte: Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB).
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Acordo Mercosul-UE reacende debate sobre competitividade da indústria brasileira

Tratado amplia acesso a mercado que representa 25% do PIB mundial, mas setor alerta para risco de desindustrialização sem reformas internas.

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Foto: Divulgação/Pixabay

Após duas décadas de negociações, a assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia é apresentada ao público como uma conquista histórica. Contudo, para quem vive o cotidiano da indústria de transformação, o sentimento é de um alerta urgente combinado a uma expectativa cautelosa: a integração de um mercado que representa 25% do PIB mundial não é uma oportunidade automática; sem a correção das assimetrias competitivas brasileiras, ela é um risco de desindustrialização, mas, se bem conduzida, pode ser o passaporte para o Brasil se tornar um hub global de tecnologia sustentável.

Historicamente, o Brasil optou por um modelo que pune quem produz. Enquanto o fabricante europeu, especialmente na Alemanha e na

Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado e Gpoint Studio/Freepik

Itália, opera em um ambiente de juros civilizados, logística de ponta e desoneração completa de investimentos, o industrial brasileiro carrega o “Custo Brasil” como uma âncora. Assinar um tratado de livre comércio nos obriga a fazer a “lição de casa”, ou seja, melhorar nossa competitividade.

O risco central reside na assimetria estrutural. Se o cronograma de redução tarifária avançar mais rápido do que as reformas internas, assistiremos à substituição da produção nacional por bens importados. Todavia, há um lado positivo que não pode ser ignorado: o acordo impõe uma “agenda de eficiência” obrigatória.

O acesso facilitado a componentes e tecnologias de ponta europeias poderá acelerar a modernização do parque fabril brasileiro, reduzindo custos de produção a médio prazo e elevando o padrão de qualidade da nossa engenharia.

Não se trata de temor à concorrência, mas de necessidade de isonomia. A reforma tributária sobre o consumo é um passo fundamental,

Foto: Divulgação

mas sua eficácia depende de uma implementação que garanta o crédito financeiro pleno e imediato. Com a isonomia garantida, o cenário muda de figura. O Brasil tem uma oportunidade ímpar de se destacar na Neoindustrialização Verde.

A indústria brasileira de máquinas já é uma das mais limpas do mundo e, com o selo do acordo, ganha um canal direto para fornecer soluções em energias renováveis, biocombustíveis e hidrogênio verde para uma Europa ávida por descarbonização.

Além do peso fiscal, a disparidade do custo de capital é alarmante. A modernização para a Manufatura 4.0 exige investimentos. Sem uma política de crédito competitiva, a “janela de oportunidade” do acordo será apenas uma vitrine para produtos estrangeiros. Mas, se o Estado Brasileiro oferecer os instrumentos financeiros adequados, o setor de bens de capital pode dar um salto qualitativo, integrando-se definitivamente às cadeias globais de valor e deixando de ser apenas um fornecedor local para ser um player internacional.

Artigo escrito por José Velloso, engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da Abimaq – Foto: Divulgação/Abimaq

O potencial de mercado é vasto. Exportamos atualmente apenas US$ 1 bilhão para a Europa, uma cifra irrisória perto da nossa capacidade. O acesso a esse mercado consumidor de alto poder aquisitivo é a grande promessa positiva deste tratado. Ele pode abrir portas para que a criatividade e a resiliência da engenharia brasileira conquistem nichos de alta tecnologia que antes eram inviabilizados por barreiras burocráticas e tarifárias.

O acordo Mercosul-União Europeia impõe ao Brasil um desafio inadiável. Ele pode ser o motor da nossa integração global, transformando a pressão da concorrência em incentivo para a inovação. A abertura comercial é um instrumento de desenvolvimento, mas o seu êxito depende de arrumarmos a nossa própria casa. Se fizermos o dever de casa, o Brasil não apenas sobreviverá à abertura, mas poderá emergir como um dos grandes fornecedores de soluções tecnológicas para os desafios do século XXI.

Fonte: Artigo escrito por José Velloso, engenheiro mecânico, administrador de empresas e presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).
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