Peixes
Tilápia invasora? Pesquisadores e governo divergem sobre riscos ambientais e controle da espécie
Enquanto especialistas alertam para impactos da tilápia fora das áreas de cultivo, governo e produtores defendem que o setor adota medidas para evitar fugas e manter o equilíbrio ambiental.

Símbolo da aquicultura brasileira e protagonista do prato de peixe mais comum no país, a tilápia voltou ao centro do debate ambiental. Pesquisadores alertam que o animal, originário da África, pode se transformar em uma ameaça à biodiversidade quando escapa das áreas de cultivo e ocupa ambientes naturais. O governo e representantes do setor, por outro lado, afirmam que há protocolos rigorosos de controle e que o objetivo é aperfeiçoar as práticas, sem comprometer a produção.

Professor de Ecologia do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Jean Vitule: “A tilápia é territorialista, disputa espaço e alimento com espécies nativas” – Foto: Arquivo pessoal
O professor de Ecologia do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Jean Vitule, que há três décadas pesquisa a presença de espécies invasoras em ecossistemas brasileiros, afirma que a tilápia tem um conjunto de características que a tornam especialmente preocupante. “A tilápia é territorialista, disputa espaço e alimento com espécies nativas. É também onívora, ou seja, come plantas e outros animais, incluindo peixes menores”, explica.
Segundo ele, a tilápia pode provocar mudanças significativas nos ecossistemas, alterando a quantidade de nutrientes e a produtividade de lagos e represas. O problema se agrava quando há escapes das áreas de produção, fenômeno que, segundo o pesquisador, tem se tornado mais frequente. “Mesmo que eu faça um tanque 100% seguro, vai acontecer o que aconteceu no Rio Grande do Sul, na cheia do ano passado. Escaparam milhares de tilápias de cultivos muito bem-feitos”, relata Vitule.
Ele conta que já identificou a presença de tilápias em áreas de preservação, como as margens do Rio Guaraguaçu, no litoral do Paraná e até no ambiente marinho, algo inédito até pouco tempo atrás. “É um peixe extremamente resistente, capaz de sobreviver até em águas poluídas e salobras. Já encontramos exemplares vivendo no mar”, diz o pesquisador.
O que faz o setor para evitar fugas
O Ministério da Pesca e Aquicultura afirma que os criatórios passam por licenciamento ambiental e que existem normas específicas para reduzir o risco de escapes. Uma das principais medidas é a reversão sexual dos peixes, que transforma as fêmeas em machos, o que impede a reprodução caso algum animal fuja.
A diretora do Departamento de Aquicultura em Águas da União da Secretaria Nacional de Aquicultura, Juliana Lopes da Silva, explica que essa é uma prática amplamente adotada. “Quanto menos fêmeas escapam, menor é o risco de reprodução na natureza. Mas a gente sabe que nem todos os peixes passam pelo processo”, reconhece.

Foto: Divulgação/GTF
Os principais sistemas de produção no país são os tanques-rede, instalados dentro de reservatórios e lagos, e os viveiros escavados, cavados no solo e abastecidos por nascentes, córregos e rios. Todos contam com barreiras físicas e lagoas de decantação para impedir que os peixes cheguem aos rios.
Mesmo assim, os especialistas admitem que nenhum sistema é completamente seguro. “O escape de alguma forma vai acontecer, mas o que eu posso te garantir é que não é isso que o produtor quer. Porque cada tilápia que escapa é o dinheiro do produtor indo embora”, diz Juliana.
Vitule reforça que novas tecnologias podem ajudar a reduzir o problema, mas alerta que elas exigem investimentos elevados. “Existem alternativas, como barreiras elétricas e sistemas de contenção mais modernos. Mas é preciso vontade política e recursos para implementá-las”, avalia o biólogo.
Entre a necessidade de proteger o meio ambiente e o desafio de manter uma atividade econômica essencial, o debate sobre a tilápia expõe o dilema da aquicultura sustentável no Brasil. Enquanto pesquisadores pedem mais rigor científico e monitoramento, o setor produtivo e o governo buscam um equilíbrio entre preservar e produzir, tarefa que, no caso da tilápia, está longe de ser simples.

Peixes
Paraná, São Paulo e Minas Gerais lideram produção de tilápia no Brasil
Na lista dos dez principais produtores, o Maranhão foi o estado com o maior índice de crescimento devido ao novo arranjo produtivo local.

Polo produtor de tilápia brasileiro, o Paraná registrou 273,1 mil toneladas em 2025. Esse desempenho representou um crescimento de 9,1% em comparação ao ano anterior e colocou o estado no topo da lista de produção. Esses dados são da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). “Esse movimento vindo de empresas privadas e cooperativas mostram a força do setor no estado. São diversos os fatores que contribuem para o desenvolvimento da atividade que vêm se repetindo nos últimos anos, como agregação de tecnologia, orientação técnica e a participação de grandes cooperativas e agroindústrias”, diz o presidente da Peixe BR, Francisco Medeiros.

Presidente da Peixe BR, Francisco Medeiros: “Esse movimento vindo de empresas privadas e cooperativas mostram a força do setor no estado – Foto: Divulgação/Peixe BR
Em seguida, São Paulo aparece em segundo lugar na lista. Em 2025, a região totalizou 93,7 mil toneladas, volume 54% maior em relação ao ano anterior. Logo depois, vêm Minas Gerais (77.500 t), Santa Catarina (63.400 t) e Maranhão (59.600 t). O estado nordestino ganhou uma posição e fecha a lista dos cinco primeiros do ranking. “O Maranhão foi estado com o maior índice de crescimento (9,36%) entre os dez maiores produtores, mais até do que o Paraná, e tem demonstrado um arranjo produtivo local que permitiu essa ampliação nos últimos anos”, realça Medeiros.
Nesse grupo, Santa Catarina e Minas Gerais também tiveram aumento relevante, com 7,28% e 6,46%, respectivamente. Em termos de aumento de produção, destaque para o Ceará, que avançou 29,3% e, de novo, ganhou uma posição (18º).
Peixes
Embrapa leva tambaqui geneticamente editado e pirarucu defumado a evento em Brasília
Unidade de Palmas apresenta inovação em edição gênica com tambaqui e oferece degustação de pirarucu durante feira no Cerrado.

A Embrapa Pesca e Aquicultura (Palmas/TO) vai participar da Feira Brasil na Mesa, que será realizada entre os dias 23 e 25 de abril, na Embrapa Cerrados, em Planaltina (DF). O evento integra as comemorações pelos 53 anos da Embrapa e reúne atrações como vitrines tecnológicas, degustações, cozinha show, rodada de negócios, seminários e atividades voltadas ao bioma Cerrado.
Nesta edição, a unidade participará com duas frentes principais: a apresentação de uma tecnologia de edição gênica e a oferta de degustação de pirarucu defumado.
Na vitrine tecnológica, o público poderá observar dois exemplares de tambaqui em aquário: um sem qualquer intervenção genética e outro submetido à técnica de edição gênica. O peixe editado apresenta um padrão diferenciado de coloração, resultado do bloqueio de um gene relacionado à pigmentação. Segundo o chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia do centro de pesquisa de Palmas, Pedro Alcântara, a proposta deve atrair a atenção dos visitantes e contará com pesquisadores disponíveis para explicar o processo ao público durante o evento.
A tecnologia é desenvolvida pela Embrapa Pesca e Aquicultura dentro de pesquisas em edição gênica aplicada a peixes tropicais. De acordo com o pesquisador Eduardo Sousa Varela, o centro já concluiu o protocolo de edição gênica e utiliza o tambaqui como espécie de referência nas demonstrações. Ele explica que o objetivo é evidenciar resultados visuais, como a despigmentação, indicando a efetividade do processo.
Além da demonstração visual, a pesquisa também mira aplicações produtivas. A edição gênica pode contribuir para reduzir ou eliminar as espinhas intermusculares do tambaqui, estruturas que dificultam o processamento em filé. Com isso, a expectativa é ampliar o rendimento industrial e abrir novas possibilidades de mercado, incluindo exportação.
Na programação de degustações, a Embrapa também vai apresentar lombo de pirarucu defumado, preparado com técnica desenvolvida pela pesquisadora Viviane Rodrigues Verdolin dos Santos. O processo inclui salga, marinada e defumação a quente, utilizando madeira de goiabeira, em temperatura entre 50°C e 70°C, por cerca de três horas e meia.
Segundo a pesquisadora, a madeira de goiabeira contribui para um processo de defumação mais estável, com produção de fumaça contínua, influenciando cor, brilho e sabor do produto final.
Para o chefe-adjunto Pedro Alcântara, a tecnologia tem impacto tanto para o consumidor quanto para o produtor. Ele destaca que o método pode ser aplicado por agroindústrias ou produtores artesanais e contribuir para a agregação de valor ao pescado. Já a pesquisadora avalia que o processo pode até dobrar o valor do produto e abrir espaço para nichos de mercado, incluindo produção artesanal com potencial de certificações específicas.
Peixes
Tilápia impulsiona piscicultura em Mato Grosso do Sul com produção de 9,7 mil toneladas
Município de Selvíria concentra o maior volume, enquanto o Estado amplia participação no mercado nacional da espécie.

Mato Grosso do Sul registrou avanço na piscicultura e reforçou sua presença entre os principais produtores do país. Durante o Encontro Técnico de Piscicultura, realizado pela Semadesc na Expogrande 2026, foram apresentados dados que apontam crescimento da atividade, impulsionado pela profissionalização e pela abertura de mercados internacionais.
O Estado ocupa atualmente a 6ª posição na produção nacional de tilápia. Entre os municípios, Selvíria lidera com 9,71 mil toneladas, seguido por Mundo Novo e Dourados. A atividade integra a estratégia estadual de desenvolvimento do agronegócio.

Foto: Jonathan Campos/AEN
Segundo dados apresentados no evento, a produção brasileira de pescado superou 1 milhão de toneladas em 2025. A tilápia respondeu por 707.495 toneladas, o equivalente a quase 70% do total.
No comércio exterior, houve mudança no perfil das exportações sul-mato-grossenses. Em 2017, o foco estava na venda de peixe fresco. Já em 2025, predominam produtos com maior valor agregado, como filés congelados. Os Estados Unidos concentraram 99,96% das compras, com mais de US$ 1,3 milhão em produtos processados.
A tendência, de acordo com os dados apresentados, é de crescimento da agroindustrialização no setor, com maior participação de produtos processados na cadeia.
A projeção de aumento da demanda global por pescado também indica expansão do mercado. A estimativa é de necessidade adicional de 735 mil toneladas até 2055.
No cenário nacional, a piscicultura cresceu 4,41% em 2025. A produção de tilápia avançou 6,8%, enquanto os peixes nativos registraram leve queda de 0,63%.
O Estado também ocupa posições relevantes em outras espécies, sendo o 6º maior produtor de pacu e patinga e o 11º de pintado e cachara. Na aquicultura geral, Mato Grosso do Sul está na 13ª colocação nacional.



