Peixes
Tilápia entra no cardápio de mais quatro gigantes do agro
Com frigoríficos próprios e modelo de integração, Cocari, Coopavel, Primato e Lar seguem o exemplo de Copacol e C.Vale e ampliam a piscicultura no Paraná, reforçando a liderança do estado na produção de tilápia.

O Paraná ocupa há vários anos a posição de liderança incontestável na piscicultura brasileira. Em 2024, o estado concentrou 50,3% da produção nacional de tilápia, espécie que responde por mais de 60% de todo o pescado cultivado no país, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). Não bastasse a força no consumo interno, o Paraná também lidera as exportações: foram 7,6 mil toneladas de tilápia enviadas ao exterior no último ano, o equivalente a 70% dos embarques nacionais, mantendo o Brasil entre os quatro principais fornecedores globais da proteína.
Esse protagonismo ganha um novo capítulo com a decisão de quatro gigantes do cooperativismo paranaense de investir de forma robusta na piscicultura. Cocari, Coopavel, Primato e Lar seguiram o modelo de integração com produtores, já consagrado na avicultura e suinocultura, e estruturaram frigoríficos próprios para industrializar a tilápia e disputar mercados.

Presidente da Cooperativa Agropecuária e Industrial (Cocari), Marcos Antonio Trintinalha: “A piscicultura surge como uma alternativa estratégica, integrada ao nosso planejamento de expansão do setor de proteína animal” – Foto: Divulgação/Cocari
Essas cooperativas seguem o caminho aberto pela Copacol a partir de 2008 e pela C.Vale em 2017, pioneiras no setor, que implantarem sistemas de produção e processamento de tilápia em larga escala. Hoje, juntas, são responsáveis pelo abate de quase 350 mil peixes/dia e transformaram o Oeste do Paraná em polo mundial da tilápia cultivada.
A entrada das novas cooperativas no mercado da tilápia amplia a base de produtores integrados e reforça a estratégia de diversificação do campo paranaense. “Nosso foco é sempre oferecer alternativas que ampliem a sustentabilidade, a rentabilidade e a diversificação das atividades dos nossos cooperados. A piscicultura surge como uma alternativa estratégica, integrada ao nosso planejamento de expansão do setor de proteína animal”, explica o presidente da Cocari, Marcos Antonio Trintinalha.
Por que investir em peixe?
Seja em Mandaguari, Toledo, Cascavel ou Medianeira, as quatro cooperativas têm em comum o objetivo de diversificar atividades e oferecer novas fontes de renda aos associados, em especial os pequenos e médios produtores. A tilápia desponta como resposta a esse desafio por três razões principais: o consumo interno crescente, o bom desempenho da proteína nos mercados internacionais e a possibilidade de integração eficiente, a exemplo do que já ocorre na avicultura e na suinocultura.
Na Coopavel, que em 2024 adquiriu o frigorífico Pescados Cascavel e o transformou na Fripeixes, o presidente Dilvo Grolli recorda que a decisão foi fruto de longas análises. “A procura e a demanda por carne de peixe está em expansão e há anos a Coopavel estuda a possibilidade de entrar nesse mercado, o que agora se transforma em realidade, com novas possibilidades de crescimento para a cooperativa”, afirma, enfatizando que a nova proteína é uma forma de garantir competitividade às famílias rurais diante do cenário de custos altos e margens estreitas no milho e na soja.
Na Primato, o zootecnista e gerente de Divisão Pecuária da cooperativa, William Rui Wesendonck, reforça que a entrada na piscicultura proporciona ao produtor, além de uma renda extra, também uma estabilidade financeira ao longo dos ciclos. “Outro ponto é a possibilidade de o produtor manter os filhos na propriedade graças à diversificação das atividades”, pontua.

Diretor-presidente da Coopavel Cooperativa Agroindustrial, Dilvo Grolli: “O início das atividades atende ao mercado nacional, mas a Fripeixes está fazendo as adequações necessárias para conseguir habilitação para exportação” – Foto: Divulgação/Coopavel
Já a Lar enxergou no peixe uma extensão natural de sua trajetória de seis décadas na produção de grãos, aves e suínos. “A piscicultura tem sido demandada por nossos associados como mais uma alternativa de investimento e geração de renda segura. É uma oportunidade tanto para as propriedades que já possuem integração em aves ou suínos quanto para aquelas que ainda atuam apenas com grãos”, expõe o Superintendente de Suprimentos e Alimentos da Lar, Jair Meyer, destacando que o produtor prefere o sistema de integração em detrimento da produção independente, pela segurança de ter destino certo em data determinada, além de contar com todo o suporte da cooperativa. “Desde os alojamentos dos lotes e assistência técnica até o destino para o abate, com remuneração justa pelo investimento e trabalho até o momento da entrega”, frisa.
Na Cocari, cuja base social é formada 80% por pequenos e médios produtores, a piscicultura foi vista como chance concreta de agregar valor às pequenas áreas. “São propriedades de 20 a 25 hectares em média. É fundamental fomentar novas alternativas que ampliem a sustentabilidade e a rentabilidade do produtor”, complementa Trintinalha.
Segurança e previsibilidade
O modelo de integração aplicado ao peixe é, na prática, muito semelhante ao das aves e suínos. A cooperativa fornece os insumos como alevinos ou juvenis, ração de alto desempenho, assistência técnica e acompanhamento, garantindo a compra de toda a produção. Ao produtor cabe a estrutura dos tanques, sistemas de aeração, oxigenação da água e manutenção diária do plantel. Essa partilha de responsabilidades reduz riscos, garante previsibilidade e amplia o acesso de pequenos produtores à atividade.
A Cocari conta com 23 produtores integrados, sendo 20 em tanques escavados e três em tanques-rede. “O investimento necessário varia conforme a estrutura da propriedade, o sistema de criação escolhido e a tecnologia empregada. Em média, os custos partem de R$ 45 por m² de lâmina d’água. O prazo de retorno costuma girar em torno de cinco anos, podendo variar de acordo com a gestão de cada produtor”, salienta Trintinalha, destacando a expansão gradual para entrada de novos produtores quanto para ampliação da lâmina d’água dos já integrados.

Superintendente de Suprimentos e Alimentos da Lar Cooperativa Agroindustrial, Jair Meyer: “Iniciar exige preparo, equipes profissionalizadas em todos os elos da cadeia produtiva e produtores comprometidos. Nossa vantagem foi adquirir uma indústria já em operação, o que encurtou o caminho” – Foto: Divulgação/Lar
Atualmente com 50 piscicultores integrados, a Lar pretende, até 2030, chegar a 350 produtores no sistema de integração, a partir da construção de um novo complexo industrial em Missal. “Esse crescimento será gradativo, com expansão da produção a campo a partir de 2026. E a previsão é iniciar os abates nesse novo complexo já no segundo semestre de 2028, conduzindo o crescimento da produção e do abate de forma sustentável”, destaca Meyer.
Já a Primato conta hoje com 33 produtores integrados à piscicultura. Segundo Wesendonck, a cooperativa trabalha com a integração de cerca de 10 milhões de animais a campo. No modelo adotado, os produtores recebem ração, juvenis com peso médio de 20 gramas, assistência técnica e todos os insumos necessários ao longo do lote. “Por estarmos em fase de expansão na piscicultura, optamos por atuar no modelo terceirizado, adquirindo alevinos e juvenis de parceiros que são referência no mercado nacional. Essa estratégia nos garante agilidade, eficiência e competitividade, já que novos projetos exigem grandes volumes para viabilizar a operação e costumam demandar muito tempo até alcançar implantação plena e rentabilidade”, detalha.
Peça-chave da agregação de valor
Mais do que tanques e alevinos, o grande diferencial das cooperativas na piscicultura está nos frigoríficos próprios, que permitem transformar a tilápia em cortes valorizados e com certificações exigidas pelo mercado.
A Fripeixes, da Coopavel, iniciou as operações em 2025 com abate diário de 25 mil peixes, mas com capacidade instalada para chegar a 60 mil tilápias por dia. Na prática, são cerca de 50 toneladas diárias, com potencial de crescimento, estrutura moderna e possibilidade de atender aos mercados mais exigentes. Filés, postas, iscas e peixe inteiro abastecem redes varejistas que demandam rastreabilidade e fornecimento regular. “O início das atividades atende ao mercado nacional, mas a Fripeixes está fazendo as adequações necessárias para conseguir habilitação para exportação”, adianta Grolli.
A Primato abriu sua Unidade Industrial de Tilápia em Toledo (PR) no início de 2025, iniciando com o processamento de 15 mil animais/dia. Wesendonck antecipa que a meta agora é ampliar gradualmente os volumes até atingir a marca de 25 mil animais/dia, à medida que novos mercados consumidores forem sendo conquistados. O plano, porém, é muito mais ambicioso: um frigorífico novo, com capacidade para 120 mil peixes/dia, o que poderá elevar o faturamento da atividade para R$ 400 milhões anuais. “Já avançamos em toda a parte fiscal e hoje já estamos habilitados a exportar nosso peixe. O próximo passo é ampliar os volumes de abate com a implantação de um segundo turno”, enfatiza.

Zootecnista e gerente de Divisão Pecuária da Primato, William Rui Wesendonck: “Já avançamos em toda a parte fiscal e hoje já estamos habilitados a exportar nosso peixe. O próximo passo é ampliar os volumes de abate com a implantação de um segundo turno” – Foto: Divulgação/Primato
Na Lar, a aquisição da estrutura da Frimapar em São Miguel do Iguaçu representou um salto estratégico. Hoje, a unidade abate 12 mil tilápias por dia, com previsão de 15 mil até o primeiro trimestre de 2026, e já projeta um segundo complexo industrial. “Para a Lar, trata-se de um processo natural de crescimento, no qual podemos oportunizar novos produtores integrados que estão em fila de espera, além de gerar novos empregos na indústria. Como consequência do aumento da produção, a cooperativa estará ainda mais presente nos pontos de venda, junto às nossas linhas de produtos de frango”, sintetiza.
A Cocari, por sua vez, opera a Unidade de Beneficiamento em Alvorada do Sul com capacidade de até 12 toneladas/dia. Os produtos são comercializados pela Aurora Coop, em um exemplo de intercooperação que amplia o alcance nacional. “O frigorífico está em fase final de adequações estruturais e de programas de autocontrole necessários para obter o registro no Sistema de Inspeção Federal”, adianta.
Desafios: burocracia, sanidade e exportações
Se o potencial é grande, os obstáculos também são relevantes. Trintinalha aponta a burocracia para obtenção de outorgas e licenças ambientais como um entrave. “Esse processo, muitas vezes demorado, acaba desestimulando produtores interessados em ingressar na piscicultura”, alerta, apontando que outro desafio foi a necessidade de adquirir expertise no manejo, abate e comercialização de peixes. “Para superar esses desafios, buscamos tecnologias, equipamentos e profissionais especializados. A experiência da Cocari na produção de rações de alta qualidade foi um diferencial, e seguimos consolidando o projeto de forma planejada e sustentável”, ressalta o executivo.

Foto: Divulgação/Cocari
Outra dificuldade está nas exportações. O mercado norte-americano, principal destino da tilápia brasileira, impôs tarifa de 50% sobre o produto a partir de agosto de 2025, o que afeta diretamente os planos de expansão. “Reconhecemos que as tarifas representam um desafio, mas trabalhamos com planejamento de médio e longo prazos. Neste momento, nosso foco está em obter a certificação SIF, que abre portas para diferentes mercados internacionais. No cenário atual, entendemos que o setor precisará se ajustar às condições de mercado, seja redirecionando parte da produção para o consumo interno, seja buscando novos destinos. O importante é estarmos preparados para aproveitar as oportunidades quando elas surgirem”, salientou Trintinalha.
Por sua vez, Meyer aponta como dificuldade inicial a formação de equipes especializadas e o alinhamento aos padrões de qualidade. “Iniciar exige preparo, equipes profissionalizadas em todos os elos da cadeia produtiva e produtores comprometidos. Nossa vantagem foi adquirir uma indústria já em operação, o que encurtou o caminho”, afirma, ressaltando: “Entre as maiores dificuldades de muitas empresas estão colocar seus produtos nos pontos de venda do Brasil. Para a Lar, essa etapa é facilitada pela forte presença que já temos na avicultura, com produtos em todos os estados brasileiros. Isso acelera a chegada da nova linha de pescados ao mercado, fortalecida por uma marca reconhecida”.
Faturamento anual
O efeito da entrada das cooperativas vai além da produção de peixe. A geração de empregos diretos e indiretos, a fixação de famílias no campo e o dinamismo econômico nas regiões Oeste e Norte do Paraná são evidentes.
Por ser uma atividade recente, a piscicultura ainda representa uma participação modesta no faturamento da Cocari, cerca de 1% em 2025, em um faturamento estimado superior a R$ 5 bilhões. Na Primato, o peixe deve atingir R$ 120 milhões, em torno de 5,5% do faturamento em 2025/26.

Foto: Cleyton Vidal
Na Lar, a meta é integrar a piscicultura como uma atividade complementar à estratégia em grãos e carnes, consolidada especialmente em aves e com sinergia crescente em suínos e peixes. “Agregar valor à produção primária, gerar renda às famílias associadas e promover o desenvolvimento regional sustentável, com geração de empregos diretos e indiretos, são objetivos permanentes da Lar”, enfatiza Meyer.
Todas as cooperativas projetam crescimento acelerado para os próximos anos. E convergem em uma visão: a piscicultura será, ao lado de aves e suínos, um dos pilares do cooperativismo agroindustrial no Paraná. “A competitividade está em todos os setores da produção, mas a eficiência e a qualidade vão determinar o crescimento das empresas e das cooperativas integradas ao peixe”, sentencia Grolli.
Pioneiras da piscicultura
Responsáveis por grande parte da produção de tilápia no Paraná, a Copacol e a C.Vale provaram a viabilidade do modelo integrado e transformaram a tilápia em negócio bilionário. A Copacol foi a primeira a apostar no modelo integrado, em 2008, com a Unidade Industrial de Peixes em Nova Aurora (PR), um investimento de R$ 15 milhões. Hoje, integra 271 produtores, emprega 1,2 mil trabalhadores e abate em média 153 mil tilápias por dia, totalizando 56,09 milhões em 2024, alta de 1,43% frente a 2023. A produção de carne de peixe chegou a 20,2 mil toneladas, avanço de 19,2%.

Foto: Divulgação/Lar
Em genética, a cooperativa mantém a Unidade de Produção de Alevinos, que em 2024 forneceu 86,13 milhões de alevinos, 53% acima do ano anterior. O segmento responde por 5,89% do faturamento da Copacol, que atingiu R$ 10,6 bilhões no ano.
A C.Vale ingressou na atividade em 2017, com um frigorífico em Palotina (PR) orçado em R$ 110 milhões. Em menos de uma década, ampliou sua capacidade para 190 mil peixes/dia, com previsão de chegar a 240 mil até o fim de 2025. Em 2024, processou 47,9 milhões de quilos de tilápia, sendo 64% destinados ao mercado interno.
Com a incorporação da Paturi Piscicultura Agroindustrial, passou a operar também em Nova Prata do Iguaçu, onde já processa 10 mil peixes/dia, com expansão prevista para 15 mil. O sistema integra 234 produtores, que entregaram 48 milhões de alevinos e 50,8 milhões de juvenis em 2024. Certificada pelos selos internacionais ASC, BAP e Halal, a cooperativa emprega 1,3 mil trabalhadores na piscicultura e reforça sua estratégia de diversificação dentro de um faturamento total de R$ 22 bilhões.
O know-how acumulado da Copacol e da C.Vale serviu de exemplo para que Cocari, Coopavel, Primato e Lar dessem seus próprios passos. Com integração técnica, industrialização e visão de longo prazo, essas cooperativas ampliam a competitividade, promovem sustentabilidade econômica e social e reforçam o Paraná como referência na produção de tilápia. O setor, embora desafiador, mostra potencial de crescimento consistente, criando oportunidades para cooperados, geração de empregos e fortalecimento do mercado interno e externo.
O acesso é gratuito e a edição pode ser lida na íntegra on-line clicando aqui. Boa leitura!

Peixes
Seguro-defeso pode passar a ser pago durante todo o período de proibição da pesca
Mudança também prevê cadastro nacional de pescadores artesanais e regras mais rígidas para combater fraudes na concessão do benefício.

Um projeto de lei em tramitação na Câmara dos Deputados prevê que o Seguro-Desemprego do Pescador Artesanal seja pago durante todo o período em que a pesca estiver proibida por medidas de preservação ambiental.
O Projeto de Lei 806/2026 altera a Lei nº 10.779/2003, que regulamenta o seguro-defeso, benefício concedido aos pescadores artesanais durante a paralisação temporária da atividade para garantir a reprodução das espécies.

Foto: Claudio Neves
Segundo o texto, o objetivo é evitar situações em que o pescador permanece impedido de exercer a atividade por determinação legal, mas deixa de receber o benefício durante parte do período de restrição.
Além da ampliação da cobertura, a proposta cria o Cadastro Nacional de Pescadores Artesanais e Marisqueiras. A ferramenta deverá reunir informações para registro, controle e cruzamento de dados, permitindo maior fiscalização na concessão e no acompanhamento do seguro-defeso.
O projeto também endurece as regras contra fraudes. Pela proposta, quem obtiver ou tentar obter o benefício mediante fraude ou má-fé ficará impedido de participar ou receber benefícios de programas sociais.
Autores da proposta, os deputados Carla Dickson (PL-RN) e Sargento Gonçalves (PL-RN) afirmam que a medida busca garantir que os recursos do seguro-defeso sejam destinados exclusivamente aos profissionais que dependem da pesca artesanal como fonte de renda.
Tramitação
O projeto será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural; de Previdência, Assistência Social, Infância, Adolescência e Família; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.
Para entrar em vigor, a proposta ainda precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal.
Peixes
Ruído de embarcações compromete comunicação dos peixes, aponta estudo
Pesquisa da UFPE indica que a poluição sonora pode afetar alimentação, reprodução e defesa de território, com reflexos para a saúde dos recifes e da pesca.

O ruído de motores de embarcações, como lanchas e motos aquáticas, e de banhistas afeta a comunicação sonora entre os peixes, o que pode causar impactos negativos na alimentação, reprodução e defesa de território de várias espécies. A poluição sonora encobre os sons emitidos pelos peixes e representa risco para a saúde de recifes de corais.
A constatação faz parte de um artigo de pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), publicado nesta segunda-feira (20), na revista científica Neotropical Ichthyology e divulgado pela Agência Bori, voltada a estudos científicos.

Foto: MPA
Apesar de a publicação ser em inglês, o periódico é editado pela revista oficial da Sociedade Brasileira de Ictiologia (SBI). A ictiologia é o ramo da zoologia dedicado ao estudo científico dos peixes.
De acordo com um dos autores do estudo, Túlio Freire Xavier, do Laboratório de Pesquisa em Ictiologia e Ecologia de Recifes da UFPE, a análise mostrou que “houve uma redução clara na ocorrência dos sons produzidos pelos peixes”.
Segundo ele, a diminuição foi identificada “justamente” onde havia maior presença de ruído causado pela ação humana. “Isso pode acontecer porque os sons ficam mascarados pelo barulho das embarcações, tornando-se mais difíceis de detectar, ou porque alguns peixes realmente reduzem ou alteram sua produção sonora em resposta ao ruído”, diz.
Ele detalha que muitos peixes utilizam sons durante comportamentos como reprodução, defesa de território e alimentação. “Se essa comunicação for prejudicada, esses comportamentos também podem ser afetados”, assinala.
Praias turísticas
O estudo monitorou ruídos produzidos pela atividade humana, como de motores de embarcações, de parapentes e da própria movimentação de banhistas no mar. Ao mesmo tempo, os pesquisadores acompanharam os sons emitidos por peixes nessas áreas.

Foto: Denis Ferreira Netto/SEDEST
O trabalho de campo foi conduzido em duas regiões turísticas no litoral de Pernambuco: as praias de Carneiros, na Área de Proteção Ambiental (APA) de Guadalupe; e Tamandaré, na APA Costa dos Corais.
Essas duas praias foram selecionadas por serem destinos turísticos populares com dinâmicas diferentes, o que permitiu comparar os impactos sonoros.
Carneiros é um destino popular durante o ano todo, enquanto Tamandaré apresenta variações sazonais, com pico no verão.
Em cada praia, os pesquisadores mediram os sons tanto em pontos perto da costa, mais influenciados pela atividade humana; e pontos abrigados, onde a estrutura de recifes serve como barreira para o som.
Forma de medição
Para chegar aos resultados, os pesquisadores instalaram nos pontos de monitoramento um sistema de gravação subaquática. Cada sessão de monitoramento teve dez horas contínuas de gravação diária, somando 80 horas de dados acústicos.
Além de captura dos sons, mergulhadores fizeram uma espécie de censo visual, contando a quantidade e espécie de peixes. Foram encontradas de 18 a 23 espécies. Em Carneiros, eles localizaram quase 1,4 mil peixes.
Os registros foram realizados em janeiro e fevereiro de 2022, período de alta temporada, e em abril de 2023.
Sons dos peixes
A pesquisa identificou nove diferentes tipos de sons de peixes. Três deles deixaram de ser emitidos em locais expostos à presença de pessoas.
A ictiologia explica que os peixes produzem grande diversidade de sons, que são fundamentais para sua comunicação e sobrevivência nos recifes, que se manifestam por meio de pulsos, às vezes únicos, às vezes repetidos e formando sequências. Alguns peixes não produzem sons.

Foto: Divulgação
Os sons emitidos pelos peixes são relacionados a comportamentos específicos e famílias de peixes. Biologicamente, são essenciais para localização de parceiros e reprodução, defesa de território contra invasores, interações em grupo, e alimentação e detecção de predadores.
A poluição sonora humana foi relacionada também à redução na complexidade acústica – índice que mede a variação de padrões sonoros dos peixes ao longo do tempo.
Os ruídos causam um fenômeno chamado “mascaramento acústico”, quando o som contínuo dos barcos esconde sinais acústicos dos peixes. Outro impacto é a supressão de comportamento, quando o ruído pode levar os peixes a reduzir ou cessar vocalizações.
Consequências
O pesquisador Túlio Freire Xavier destaca que os peixes da região são fundamentais para a saúde dos recifes de corais, contribuindo para o equilíbrio de cadeias alimentares. “Os peixes recifais desempenham papéis importantes no controle de algas, na manutenção dos corais e na produtividade desses ambientes.”
Ele ressalta que os recifes sustentam atividades importantes para a economia da região, como o turismo e a pesca artesanal. “Quando a poluição sonora interfere no comportamento desses peixes, existe o potencial de afetar, ainda que de forma indireta, os serviços ecossistêmicos que esses ambientes oferecem”, diz.
Outras regiões
O especialista da UFPE aponta que, apesar de o experimento ter sido realizado no litoral pernambucano, o impacto de sons da atividade humana na vida dos peixes não é “exclusivo desses locais”. “Sempre que houver intenso tráfego de embarcações, turismo náutico ou outras fontes de ruído subaquático que coincidam com as frequências utilizadas pelos peixes, existe potencial para impactos semelhantes”, afirma.
“A intensidade desses efeitos provavelmente varia de acordo com a quantidade de embarcações, as características do recife e as espécies presentes, mas o problema pode ocorrer em outros importantes recifes brasileiros, como Abrolhos e Fernando de Noronha”, complementa.
Limites sustentáveis
Túlio Xavier explica que ainda não existem limites universalmente aceitos para níveis seguros de ruído em ambientes recifais voltados à proteção dos peixes. “Esse é um campo que ainda precisa avançar bastante. Estudos como o nosso ajudam justamente a construir esse conhecimento”, diz.
Ele destaca que o conhecimento científico gerado é compartilhado com gestores e comunidades locais, para contribuir com políticas públicas de manejo das regiões.
O especialista em biologia marinha da UFPE sustenta que turismo e conservação não precisam ser incompatíveis, mas que o componente acústico deve passar a ser considerado no planejamento das atividades. “O ruído subaquático é uma forma de poluição que normalmente passa despercebida”, avalia.
Ele aponta que medidas “relativamente simples”, como organizar rotas de embarcações, reduzir a velocidade em áreas sensíveis e evitar concentração excessiva de atividades sobre determinados recifes, podem contribuir para diminuir esse impacto. “Proteger a paisagem sonora significa também ajudar a preservar o funcionamento ecológico desses ecossistemas e os benefícios que eles oferecem à sociedade.”
Peixes
Manifesto propõe ações para fortalecer cadeia produtiva do pescado
Lançado durante o X SIMCOPE, documento reúne prioridades como alimentação escolar, certificação sanitária e valorização da pesca de pequena escala.





O documento foi elaborado a partir dos debates do Workshop sobre Pescado e Alimentação, que reuniu representantes da academia, da gastronomia, da pesca artesanal, da alimentação escolar e da sociedade civil. A proposta é ampliar o consumo de pescado no Brasil e fortalecer a cadeia produtiva por meio da integração entre ciência, políticas públicas, educação alimentar e cadeias de abastecimento sustentáveis.