Peixes
Tilápia entra no cardápio de mais quatro gigantes do agro
Com frigoríficos próprios e modelo de integração, Cocari, Coopavel, Primato e Lar seguem o exemplo de Copacol e C.Vale e ampliam a piscicultura no Paraná, reforçando a liderança do estado na produção de tilápia.

O Paraná ocupa há vários anos a posição de liderança incontestável na piscicultura brasileira. Em 2024, o estado concentrou 50,3% da produção nacional de tilápia, espécie que responde por mais de 60% de todo o pescado cultivado no país, segundo a Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR). Não bastasse a força no consumo interno, o Paraná também lidera as exportações: foram 7,6 mil toneladas de tilápia enviadas ao exterior no último ano, o equivalente a 70% dos embarques nacionais, mantendo o Brasil entre os quatro principais fornecedores globais da proteína.
Esse protagonismo ganha um novo capítulo com a decisão de quatro gigantes do cooperativismo paranaense de investir de forma robusta na piscicultura. Cocari, Coopavel, Primato e Lar seguiram o modelo de integração com produtores, já consagrado na avicultura e suinocultura, e estruturaram frigoríficos próprios para industrializar a tilápia e disputar mercados.

Presidente da Cooperativa Agropecuária e Industrial (Cocari), Marcos Antonio Trintinalha: “A piscicultura surge como uma alternativa estratégica, integrada ao nosso planejamento de expansão do setor de proteína animal” – Foto: Divulgação/Cocari
Essas cooperativas seguem o caminho aberto pela Copacol a partir de 2008 e pela C.Vale em 2017, pioneiras no setor, que implantarem sistemas de produção e processamento de tilápia em larga escala. Hoje, juntas, são responsáveis pelo abate de quase 350 mil peixes/dia e transformaram o Oeste do Paraná em polo mundial da tilápia cultivada.
A entrada das novas cooperativas no mercado da tilápia amplia a base de produtores integrados e reforça a estratégia de diversificação do campo paranaense. “Nosso foco é sempre oferecer alternativas que ampliem a sustentabilidade, a rentabilidade e a diversificação das atividades dos nossos cooperados. A piscicultura surge como uma alternativa estratégica, integrada ao nosso planejamento de expansão do setor de proteína animal”, explica o presidente da Cocari, Marcos Antonio Trintinalha.
Por que investir em peixe?
Seja em Mandaguari, Toledo, Cascavel ou Medianeira, as quatro cooperativas têm em comum o objetivo de diversificar atividades e oferecer novas fontes de renda aos associados, em especial os pequenos e médios produtores. A tilápia desponta como resposta a esse desafio por três razões principais: o consumo interno crescente, o bom desempenho da proteína nos mercados internacionais e a possibilidade de integração eficiente, a exemplo do que já ocorre na avicultura e na suinocultura.
Na Coopavel, que em 2024 adquiriu o frigorífico Pescados Cascavel e o transformou na Fripeixes, o presidente Dilvo Grolli recorda que a decisão foi fruto de longas análises. “A procura e a demanda por carne de peixe está em expansão e há anos a Coopavel estuda a possibilidade de entrar nesse mercado, o que agora se transforma em realidade, com novas possibilidades de crescimento para a cooperativa”, afirma, enfatizando que a nova proteína é uma forma de garantir competitividade às famílias rurais diante do cenário de custos altos e margens estreitas no milho e na soja.
Na Primato, o zootecnista e gerente de Divisão Pecuária da cooperativa, William Rui Wesendonck, reforça que a entrada na piscicultura proporciona ao produtor, além de uma renda extra, também uma estabilidade financeira ao longo dos ciclos. “Outro ponto é a possibilidade de o produtor manter os filhos na propriedade graças à diversificação das atividades”, pontua.

Diretor-presidente da Coopavel Cooperativa Agroindustrial, Dilvo Grolli: “O início das atividades atende ao mercado nacional, mas a Fripeixes está fazendo as adequações necessárias para conseguir habilitação para exportação” – Foto: Divulgação/Coopavel
Já a Lar enxergou no peixe uma extensão natural de sua trajetória de seis décadas na produção de grãos, aves e suínos. “A piscicultura tem sido demandada por nossos associados como mais uma alternativa de investimento e geração de renda segura. É uma oportunidade tanto para as propriedades que já possuem integração em aves ou suínos quanto para aquelas que ainda atuam apenas com grãos”, expõe o Superintendente de Suprimentos e Alimentos da Lar, Jair Meyer, destacando que o produtor prefere o sistema de integração em detrimento da produção independente, pela segurança de ter destino certo em data determinada, além de contar com todo o suporte da cooperativa. “Desde os alojamentos dos lotes e assistência técnica até o destino para o abate, com remuneração justa pelo investimento e trabalho até o momento da entrega”, frisa.
Na Cocari, cuja base social é formada 80% por pequenos e médios produtores, a piscicultura foi vista como chance concreta de agregar valor às pequenas áreas. “São propriedades de 20 a 25 hectares em média. É fundamental fomentar novas alternativas que ampliem a sustentabilidade e a rentabilidade do produtor”, complementa Trintinalha.
Segurança e previsibilidade
O modelo de integração aplicado ao peixe é, na prática, muito semelhante ao das aves e suínos. A cooperativa fornece os insumos como alevinos ou juvenis, ração de alto desempenho, assistência técnica e acompanhamento, garantindo a compra de toda a produção. Ao produtor cabe a estrutura dos tanques, sistemas de aeração, oxigenação da água e manutenção diária do plantel. Essa partilha de responsabilidades reduz riscos, garante previsibilidade e amplia o acesso de pequenos produtores à atividade.
A Cocari conta com 23 produtores integrados, sendo 20 em tanques escavados e três em tanques-rede. “O investimento necessário varia conforme a estrutura da propriedade, o sistema de criação escolhido e a tecnologia empregada. Em média, os custos partem de R$ 45 por m² de lâmina d’água. O prazo de retorno costuma girar em torno de cinco anos, podendo variar de acordo com a gestão de cada produtor”, salienta Trintinalha, destacando a expansão gradual para entrada de novos produtores quanto para ampliação da lâmina d’água dos já integrados.

Superintendente de Suprimentos e Alimentos da Lar Cooperativa Agroindustrial, Jair Meyer: “Iniciar exige preparo, equipes profissionalizadas em todos os elos da cadeia produtiva e produtores comprometidos. Nossa vantagem foi adquirir uma indústria já em operação, o que encurtou o caminho” – Foto: Divulgação/Lar
Atualmente com 50 piscicultores integrados, a Lar pretende, até 2030, chegar a 350 produtores no sistema de integração, a partir da construção de um novo complexo industrial em Missal. “Esse crescimento será gradativo, com expansão da produção a campo a partir de 2026. E a previsão é iniciar os abates nesse novo complexo já no segundo semestre de 2028, conduzindo o crescimento da produção e do abate de forma sustentável”, destaca Meyer.
Já a Primato conta hoje com 33 produtores integrados à piscicultura. Segundo Wesendonck, a cooperativa trabalha com a integração de cerca de 10 milhões de animais a campo. No modelo adotado, os produtores recebem ração, juvenis com peso médio de 20 gramas, assistência técnica e todos os insumos necessários ao longo do lote. “Por estarmos em fase de expansão na piscicultura, optamos por atuar no modelo terceirizado, adquirindo alevinos e juvenis de parceiros que são referência no mercado nacional. Essa estratégia nos garante agilidade, eficiência e competitividade, já que novos projetos exigem grandes volumes para viabilizar a operação e costumam demandar muito tempo até alcançar implantação plena e rentabilidade”, detalha.
Peça-chave da agregação de valor
Mais do que tanques e alevinos, o grande diferencial das cooperativas na piscicultura está nos frigoríficos próprios, que permitem transformar a tilápia em cortes valorizados e com certificações exigidas pelo mercado.
A Fripeixes, da Coopavel, iniciou as operações em 2025 com abate diário de 25 mil peixes, mas com capacidade instalada para chegar a 60 mil tilápias por dia. Na prática, são cerca de 50 toneladas diárias, com potencial de crescimento, estrutura moderna e possibilidade de atender aos mercados mais exigentes. Filés, postas, iscas e peixe inteiro abastecem redes varejistas que demandam rastreabilidade e fornecimento regular. “O início das atividades atende ao mercado nacional, mas a Fripeixes está fazendo as adequações necessárias para conseguir habilitação para exportação”, adianta Grolli.
A Primato abriu sua Unidade Industrial de Tilápia em Toledo (PR) no início de 2025, iniciando com o processamento de 15 mil animais/dia. Wesendonck antecipa que a meta agora é ampliar gradualmente os volumes até atingir a marca de 25 mil animais/dia, à medida que novos mercados consumidores forem sendo conquistados. O plano, porém, é muito mais ambicioso: um frigorífico novo, com capacidade para 120 mil peixes/dia, o que poderá elevar o faturamento da atividade para R$ 400 milhões anuais. “Já avançamos em toda a parte fiscal e hoje já estamos habilitados a exportar nosso peixe. O próximo passo é ampliar os volumes de abate com a implantação de um segundo turno”, enfatiza.

Zootecnista e gerente de Divisão Pecuária da Primato, William Rui Wesendonck: “Já avançamos em toda a parte fiscal e hoje já estamos habilitados a exportar nosso peixe. O próximo passo é ampliar os volumes de abate com a implantação de um segundo turno” – Foto: Divulgação/Primato
Na Lar, a aquisição da estrutura da Frimapar em São Miguel do Iguaçu representou um salto estratégico. Hoje, a unidade abate 12 mil tilápias por dia, com previsão de 15 mil até o primeiro trimestre de 2026, e já projeta um segundo complexo industrial. “Para a Lar, trata-se de um processo natural de crescimento, no qual podemos oportunizar novos produtores integrados que estão em fila de espera, além de gerar novos empregos na indústria. Como consequência do aumento da produção, a cooperativa estará ainda mais presente nos pontos de venda, junto às nossas linhas de produtos de frango”, sintetiza.
A Cocari, por sua vez, opera a Unidade de Beneficiamento em Alvorada do Sul com capacidade de até 12 toneladas/dia. Os produtos são comercializados pela Aurora Coop, em um exemplo de intercooperação que amplia o alcance nacional. “O frigorífico está em fase final de adequações estruturais e de programas de autocontrole necessários para obter o registro no Sistema de Inspeção Federal”, adianta.
Desafios: burocracia, sanidade e exportações
Se o potencial é grande, os obstáculos também são relevantes. Trintinalha aponta a burocracia para obtenção de outorgas e licenças ambientais como um entrave. “Esse processo, muitas vezes demorado, acaba desestimulando produtores interessados em ingressar na piscicultura”, alerta, apontando que outro desafio foi a necessidade de adquirir expertise no manejo, abate e comercialização de peixes. “Para superar esses desafios, buscamos tecnologias, equipamentos e profissionais especializados. A experiência da Cocari na produção de rações de alta qualidade foi um diferencial, e seguimos consolidando o projeto de forma planejada e sustentável”, ressalta o executivo.

Foto: Divulgação/Cocari
Outra dificuldade está nas exportações. O mercado norte-americano, principal destino da tilápia brasileira, impôs tarifa de 50% sobre o produto a partir de agosto de 2025, o que afeta diretamente os planos de expansão. “Reconhecemos que as tarifas representam um desafio, mas trabalhamos com planejamento de médio e longo prazos. Neste momento, nosso foco está em obter a certificação SIF, que abre portas para diferentes mercados internacionais. No cenário atual, entendemos que o setor precisará se ajustar às condições de mercado, seja redirecionando parte da produção para o consumo interno, seja buscando novos destinos. O importante é estarmos preparados para aproveitar as oportunidades quando elas surgirem”, salientou Trintinalha.
Por sua vez, Meyer aponta como dificuldade inicial a formação de equipes especializadas e o alinhamento aos padrões de qualidade. “Iniciar exige preparo, equipes profissionalizadas em todos os elos da cadeia produtiva e produtores comprometidos. Nossa vantagem foi adquirir uma indústria já em operação, o que encurtou o caminho”, afirma, ressaltando: “Entre as maiores dificuldades de muitas empresas estão colocar seus produtos nos pontos de venda do Brasil. Para a Lar, essa etapa é facilitada pela forte presença que já temos na avicultura, com produtos em todos os estados brasileiros. Isso acelera a chegada da nova linha de pescados ao mercado, fortalecida por uma marca reconhecida”.
Faturamento anual
O efeito da entrada das cooperativas vai além da produção de peixe. A geração de empregos diretos e indiretos, a fixação de famílias no campo e o dinamismo econômico nas regiões Oeste e Norte do Paraná são evidentes.
Por ser uma atividade recente, a piscicultura ainda representa uma participação modesta no faturamento da Cocari, cerca de 1% em 2025, em um faturamento estimado superior a R$ 5 bilhões. Na Primato, o peixe deve atingir R$ 120 milhões, em torno de 5,5% do faturamento em 2025/26.

Foto: Cleyton Vidal
Na Lar, a meta é integrar a piscicultura como uma atividade complementar à estratégia em grãos e carnes, consolidada especialmente em aves e com sinergia crescente em suínos e peixes. “Agregar valor à produção primária, gerar renda às famílias associadas e promover o desenvolvimento regional sustentável, com geração de empregos diretos e indiretos, são objetivos permanentes da Lar”, enfatiza Meyer.
Todas as cooperativas projetam crescimento acelerado para os próximos anos. E convergem em uma visão: a piscicultura será, ao lado de aves e suínos, um dos pilares do cooperativismo agroindustrial no Paraná. “A competitividade está em todos os setores da produção, mas a eficiência e a qualidade vão determinar o crescimento das empresas e das cooperativas integradas ao peixe”, sentencia Grolli.
Pioneiras da piscicultura
Responsáveis por grande parte da produção de tilápia no Paraná, a Copacol e a C.Vale provaram a viabilidade do modelo integrado e transformaram a tilápia em negócio bilionário. A Copacol foi a primeira a apostar no modelo integrado, em 2008, com a Unidade Industrial de Peixes em Nova Aurora (PR), um investimento de R$ 15 milhões. Hoje, integra 271 produtores, emprega 1,2 mil trabalhadores e abate em média 153 mil tilápias por dia, totalizando 56,09 milhões em 2024, alta de 1,43% frente a 2023. A produção de carne de peixe chegou a 20,2 mil toneladas, avanço de 19,2%.

Foto: Divulgação/Lar
Em genética, a cooperativa mantém a Unidade de Produção de Alevinos, que em 2024 forneceu 86,13 milhões de alevinos, 53% acima do ano anterior. O segmento responde por 5,89% do faturamento da Copacol, que atingiu R$ 10,6 bilhões no ano.
A C.Vale ingressou na atividade em 2017, com um frigorífico em Palotina (PR) orçado em R$ 110 milhões. Em menos de uma década, ampliou sua capacidade para 190 mil peixes/dia, com previsão de chegar a 240 mil até o fim de 2025. Em 2024, processou 47,9 milhões de quilos de tilápia, sendo 64% destinados ao mercado interno.
Com a incorporação da Paturi Piscicultura Agroindustrial, passou a operar também em Nova Prata do Iguaçu, onde já processa 10 mil peixes/dia, com expansão prevista para 15 mil. O sistema integra 234 produtores, que entregaram 48 milhões de alevinos e 50,8 milhões de juvenis em 2024. Certificada pelos selos internacionais ASC, BAP e Halal, a cooperativa emprega 1,3 mil trabalhadores na piscicultura e reforça sua estratégia de diversificação dentro de um faturamento total de R$ 22 bilhões.
O know-how acumulado da Copacol e da C.Vale serviu de exemplo para que Cocari, Coopavel, Primato e Lar dessem seus próprios passos. Com integração técnica, industrialização e visão de longo prazo, essas cooperativas ampliam a competitividade, promovem sustentabilidade econômica e social e reforçam o Paraná como referência na produção de tilápia. O setor, embora desafiador, mostra potencial de crescimento consistente, criando oportunidades para cooperados, geração de empregos e fortalecimento do mercado interno e externo.
O acesso é gratuito e a edição pode ser lida na íntegra on-line clicando aqui. Boa leitura!

Peixes
Peixe BR contesta portaria que exige Licença de Aquicultor no transporte de peixes no país
Nova regra do governo federal adiciona documento às exigências já cumpridas por produtores e, segundo a entidade, amplia burocracia sem ganho sanitário.

A Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR) manifestou preocupação com a publicação da Portaria Interministerial Mapa/MPA nº 5, que passa a exigir a apresentação da cópia da Licença de Aquicultor no transporte de peixes oriundos da piscicultura em todo o território nacional.
A norma, assinada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), determina que, além da nota fiscal e da Guia de Trânsito Animal (GTA), já obrigatórias, os produtores deverão portar também a cópia da Licença de Aquicultor emitida pelo MPA durante o transporte dos animais.
Na avaliação da entidade que representa a piscicultura brasileira, a medida acrescenta uma nova etapa burocrática a um procedimento que já era regulamentado e amplamente cumprido pelos produtores, sem que haja, na prática, ganho adicional em termos de controle sanitário ou rastreabilidade.
Desde sua criação, a Peixe BR afirma ter se posicionado contra a exigência desse documento específico no transporte de peixes, por considerar que a obrigação não contribui para avanços sanitários, eleva custos operacionais e reduz a competitividade da atividade, especialmente em um setor marcado por margens apertadas e alta dependência logística.
Para a associação, a exigência da Licença de Aquicultor durante o transporte representa sobreposição de controles, uma vez que a GTA já cumpre função sanitária e a nota fiscal assegura a formalidade comercial da carga.
A entidade informou que seguirá atuando junto aos órgãos federais na tentativa de revisar a medida. O objetivo, segundo a Peixe BR, é defender um ambiente regulatório que assegure controle sanitário eficiente sem impor entraves adicionais à produção aquícola.
Peixes
Produção recorde de peixe no Brasil convive com perda de mercado externo e pressão da tilápia importada
Tilápia responde por cerca de 70% da aquicultura nacional, exportações acumulam queda anual no total de embarques, enquanto importações crescem em nichos e desafiam mercados locais.

A piscicultura brasileira superou a produção de um milhão de toneladas em 2025, com a tilápia concentrando cerca de 70% desse total, segundo o relatório anual da Associação Brasileira de Piscicultura (Peixe BR). O desempenho representa um crescimento modesto de 4,4% sobre 2024 e reflete a consolidação da espécie como dominante na aquicultura nacional.
No contexto das exportações, a tendência registrada em 2024, de aceleração nas vendas externas, perdeu vigor ao longo do ano passado. Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que o Brasil embarcou 15,1 mil toneladas de tilápia e produtos correlatos no ano, volume 8,5% inferior ao de 2024, enquanto a receita ficou em US$ 59,8 milhões, retração de 4% em relação ao período anterior.

Especialistas atribuem parte dessa redução às barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos, maior mercado internacional para a tilápia brasileira. A dependência de um único destino, que absorve parcela significativa dos embarques, expõe a cadeia produtiva a choques regulatórios e financeiros.
Ainda assim, o primeiro trimestre de 2025 chegou a registrar recordes de exportação em valor e volume. Entre janeiro e março, o país exportou US$ 18,5 milhões em pescado de cultivo, salto de 112% comparado ao mesmo período de 2024, com 3,938 toneladas comercializadas, aumento de 89%. A tilápia liderou esses embarques, respondendo por 92% do faturamento nesse intervalo.
Crescimento nos estados
A produção crescente no país também se refletiu em diferentes estados. O Paraná, por exemplo, liderou a piscicultura nacional em 2025 com mais de 273 mil toneladas produzidas, posicionando-se como maior produtor e exportador de tilápia no Brasil.
Minas Gerais, tradicional polo de piscicultura, também registrou avanços nos últimos anos, com produção que vinha crescendo de forma consistente. No entanto, em 2026 o estado mineiro voltou a importar tilápia do Vietnã, 122 toneladas em fevereiro, o primeiro registro desde 1997, mesmo diante da expansão interna da produção.
Importação de tilápia
Para a analista de agronegócios do Sistema Faemg Senar, Nathália Rabelo, a entrada do produto estrangeiro não está relacionada à escassez interna. “O filé importado, principalmente do Vietnã, chega ao mercado com preços mais competitivos, resultado da produção em larga escala e dos custos menores no país asiático. O momento exige atenção, já que Minas vem ampliando sua participação na produção nacional de forma consistente e a entrada de produto importado pode comprometer a competitividade da cadeia produtiva estadual”, afirma.
Produtores relatam que a diferença de preço não decorre apenas da escala asiática, mas também da tributação interna. O piscicultor Carlos Junior de Faria Ribeiro afirma que o filé importado chega ao Estado sem a mesma incidência de ICMS aplicada à cadeia local. “O produtor e a indústria mineira pagam ICMS, enquanto o filé importado do Vietnã entra no Estado sem essa mesma carga. Na prática, Minas Gerais acaba subsidiando o produtor estrangeiro, quando deveria fortalecer e proteger quem produz aqui, gera emprego e movimenta a economia local”, diz.
Risco sanitário
A preocupação não se limita à concorrência. Entidades do setor passaram a monitorar também o risco sanitário associado ao aumento do fluxo internacional do pescado. Um dos pontos citados é o vírus da tilápia do lago (TiLV), enfermidade ainda ausente no Brasil e considerada de alto impacto produtivo em países onde foi registrada.
Espécie exótica invasora

No campo regulatório, a cadeia acompanha a discussão sobre a classificação da tilápia como espécie exótica invasora. O tema avançou na Comissão Nacional de Biodiversidade em 2025, mas a revisão da lista foi suspensa para nova avaliação técnica.
Para o analista de Sustentabilidade do Sistema Faemg Senar, Guilherme Oliveira, a insegurança regulatória pode afetar decisões de investimento. “Uma eventual mudança regulatória pode travar investimentos em frigoríficos, laboratórios de genética e fábricas de ração, além de impactar diretamente milhares de produtores, especialmente pequenos e médios. Também há risco de perda de competitividade no mercado internacional, que é cada vez mais atento às questões ambientais”, pontua.
Cenário global

No cenário global, a produção de tilápia também cresce de forma moderada, estimada em cerca de 7,3 milhões de toneladas em 2025, impulsionada por condições de mercado e aumento do consumo da espécie como proteína acessível.
Para analistas do setor, a conjuntura, com crescimento de produção interna, ajustes nos mercados internacionais e maior competição de importados, exige ajustes estratégicos no modelo de negócios da piscicultura brasileira, tanto para manter participação no exterior quanto para proteger cadeias locais em estados com forte tradição do peixe cultivado.
Peixes
Evento debate sistemas multitróficos e futuro sustentável da aquicultura
Webinário da Reaqua reúne especialistas para discutir tecnologias que aumentam a produção e reduzem impactos ambientais.

Mostrar e discutir as possibilidades dos diferentes sistemas multitróficos na aquicultura nacional. É pensando nesse sentido que a Rede de Extensão e Inovação Aquícola (Reaqua) realiza seu primeiro evento. Será nesta sexta-feira (10), às 14 horas, acesse clicando aqui. A rede é formada pela Embrapa e por diversos parceiros e pretende contribuir efetivamente para maior adoção de tecnologias por parte dos aquicultores brasileiros.
O público prioritário, tanto do evento como da rede, é formado por técnicos da extensão rural, seja pública ou privada. “Faz todo sentido priorizar os técnicos da extensão porque eles são a ponte direta entre o conhecimento gerado e quem está na produção. São esses profissionais que estão no dia a dia com os produtores, entendendo as dificuldades reais, adaptando tecnologias e ajudando na tomada de decisão”, explica Marcela Mataveli, zootecnista da Embrapa Pesca e Aquicultura (Palmas-TO) e coordenadora da Reaqua.

Foto: Divulgação/Mapa
Marcela, que trabalha com transferência de tecnologia em aquicultura, entende que “ao fortalecer esse público, se ganha escala e efetividade. Em vez de uma transferência pontual, conseguimos uma disseminação contínua e capilarizada, com mais chance de adoção das tecnologias. Ou seja, investir nos extensionistas é uma forma estratégica de ampliar o impacto da Reaqua no campo”. Saiba mais sobre a rede nesta notícia: Embrapa e parceiros constroem rede de extensão e inovação em aquicultura.
Sobre o tema: cultivar, ao mesmo tempo e no mesmo local, espécies aquáticas de diferentes níveis tróficos (posições ocupadas na cadeia alimentar, podendo ser, por exemplo, produtores, consumidores e decompositores) colabora para incrementar a produção. Marcela explica que “a escolha do tema reflete uma tendência global: a busca por sistemas de produção mais sustentáveis, eficientes e integrados. Os sistemas multitróficos se encaixam exatamente nessa lógica, ao aproveitar melhor os recursos e reduzir impactos ambientais”.
Diferentes instituições vêm trabalhando com sistemas multitróficos na aquicultura. E três delas estarão mostrando suas experiências no webinário da próxima sexta-feira. A pesquisadora Adriana Ferreira Lima, da Embrapa Pesca e Aquicultura, terminou recentemente doutorado em produção de tambaqui em cultivo multitrófico integrado. Ela será uma das debatedoras, juntamente com os professores Wagner Cotroni Valenti, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e Eduardo Ballester, da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Marcela, coordenadora da Reaqua, afirma que os sistemas multitróficos não formam uma solução única, com aplicabilidade automática em todas as regiões; ao contrário, exigem adaptações. “Com os ajustes adequados, considerando espécies, condições ambientais e realidade produtiva local, os sistemas multitróficos podem se tornar uma alternativa viável em diferentes contextos do país”, projeta.
A Reaqua é uma iniciativa que faz parte do projeto Ações estruturantes e inovação para o fortalecimento das cadeias produtivas da aquicultura no Brasil, o BRS Aqua. Coordenado pela Embrapa, o projeto tem financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da Secretaria Nacional de Aquicultura e Pesca do Ministério da Pesca e Aquicultura (SNA / MPA) e da própria Embrapa, contando ainda com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).



