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Bovinos / Grãos / Máquinas Para presidente da Abraleite

“Temos o objetivo de tornar o país o maior produtor e maior exportador de lácteos do planeta”

Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite, Geraldo Borges, deu entrevista exclusiva ao O Presente Rural

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Arquivo/OP Rural

A produção de leite no Brasil é feita em 99% dos municípios brasileiros, em 1,2 milhão de propriedades rurais. Cerca de 35 bilhões de litros são ordenhados todos os anos, basicamente destinados ao mercado interno. Ou seja, 165 litros por habitante. O rebanho tecnificado soma mais de 11 milhões de cabeças. O país é um dos que mais produzem no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e Índia, variando a terceira e quarta posições com a China.

Mas mesmo com esses números estratosféricos e importância econômica e social que o leite tem, a cadeia ainda é bastante heterogênea, apresentando ótimos desempenhos em alguns locais e péssimos em outros. Mais ainda, a cadeia é desorganizada. Somente em outubro de 2017, há menos de três anos, uma entidade foi criada para defender os interesses da classe. A Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite) é uma criança comparada a entidades como a Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), que tem 60 anos, e até entidades que representam culturas bem menos expressivas, como a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa), fundada no fim dos anos 1970.

Em entrevista exclusiva ao jornal O Presente Rural, o presidente da Abraleite, Geraldo Borges, conta como a entidade com sede em Brasília, DF, tenta recuperar o tempo perdido e o que fazer para tornar o Brasil também exportador desse importante item da gôndola do agronegócio brasileiro. “Temos o objetivo de organizar e fortalecer a cadeia do leite e tornar o país no maior produtor e maior exportador de lácteos do planeta. É nosso dever de casa”. Confira.

O Presente Rural (OP Rural) – Conte um pouco sobre a Abraleite. Porque essa entidade demorou tanto para ser criada?

Geraldo Borges (GB) – A Abraleite foi criada em julho de 2017 e começou a funcionar em outubro de 2017. A Associação veio cumprir o papel de defender os interesses da classe produtora de leite e trabalhar políticas públicas para que o setor se desenvolva.

Existem mais de 40 instituições similares ou congêneres, como Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho), Aprosoja (Associação Brasileira de Produtores de Soja, incialmente chamada de Abrasoja), ABCS (Associação Brasileira de Criadores de Suínos). A cadeia do leite demorou para criar essa instituição. O leite demorou bastante talvez por ser a categoria mais numerosa. O fato de termos 1,2 milhão de propriedades que produzem leite, num país com cinco milhões de propriedades, nos torna uma categoria gigantesca, extremamente pulverizada. Nós produzimos leite em 99% dos municípios do Brasil, segundo dados do IBGE de 2018. E essa cadeia é bastante heterogênea. Têm pequenos, médios e grandes produtores, com diferentes sistemas de produção, em que observamos divergências e diferenças muito grandes de uma região para outra. Isso também pode ter ajudado a cadeia a não se organizar e demorar tanto para ter uma instituição que o representasse, principalmente nos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).

Nós temos feito um trabalho muito consistente, promovendo políticas públicas através de leis, decretos e normativas junto ao Executivo e Legislativo, para que a gente organize-se melhor, tenha força maior não só no mercado interno, mas que consigamos ser um grande exportador de leite como somos na carne bovina, no frango, na soja, no café e em tantas outras atividades.

Temos o objetivo de organizar e fortalecer a cadeia do leite e tornar o país, tomara que em breve, no maior produtor e maior exportador de lácteos do planeta. É nosso dever de casa. Somos o terceiro ou quarto produtor de leite do planeta, mas não exportamos. Somos grandes consumidores, mas precisamos também exportar.

OP Rural – Quais são os gargalos hoje da cadeia e o que falta para tomar da Nova Zelândia o posto de maior exportador de leite do mundo?

GB – Muito bem lembrado. A Nova Zelândia é responsável por 50% das exportações de lácteos do planeta. É um país que soma o tamanho do Estado do Rio Grande do Sul, mas consegue ter metade das exportações totais de lácteos no mundo. Eles têm uma cadeia extremamente organizada, extremamente tecnificada, com gestão eficiente, entre outros pontos. Chegar a esse nível depende muito do trabalho da Abraleite.

A Abralrite trabalha muito da porteira para fora, com políticas públicas, mas também temos que ajudar, incentivar e trabalhar da porteira para dentro, sempre almejando maior e melhor produtividade, através de tecnologias e gestão.

OP Rural – Aumentar a produtividade é um desafio. E qualidade?

GB – A primeira coisa que temos que entender é que a classe é muito grande, e temos não só produtores de todos os tamanhos e sistemas, mas temos ainda extrativismo no Brasil. Nós temos tiradores de leite no Brasil, sem nenhum demérito a esses produtores rurais, que ainda tratam a atividade de forma amadora, não tão profissional. Temos propriedades com uma ordenha diária apenas, temos propriedades abaixo da média nacional, que já é muito baixa, em torno de 4 a 5 litros/matriz/dia. Se você pensar na média, deve ter rebanho com um ou dois litros ao dia. Uma vaca com essa quantidade de leite certamente não é especializada para o leite. Ela até pode ser uma matriz de sangue leiteiro, mas com certeza está muito mais próximo do corte do que do leite.

Então, precisamos aperfeiçoar o melhoramento genético, melhorar a alimentação dos animais e na gestão das propriedades para que tudo isso mude. A questão da qualidade é outra preocupação que nós temos. Quanto maior qualidade tivermos para mandar nosso leite para as indústrias, maior qualidade a indústria terá na sua matéria-prima que será utilizada para produzir derivados lácteos, que são tão valorizados no mundo inteiro.

É insano pensar que um produtor vai continuar a vida inteira produzindo um leite de baixa qualidade. Muito se fala que é difícil e caro, mas alguns problemas podem ser resolvidos com uma simples higiene no manejo da vaca ou na sala de ordenha, como é o caso da contagem bacteriana total. Para mudar isso não é caro, mas falta assistência técnica no Brasil. Precisamos que o governo tenha olhos para isso. Precisamos investir nas agências de assistência técnica do Brasil porque muito produtor não produz corretamente porque não tem a instrução. Temos problemas estruturais e falta de assistência técnica no país. Isso vai dificultar para pequenos produtores.

OP Rural – Na cadeia de suínos e aves houve queda no número de produtores, mas aumento da eficiência e da produção. Muitos deixaram de produzir, mas quem ficou na atividade está altamente tecnificado. O leite deve seguir esse modelo?

GB – Certamente. Esse exemplo que você dá é muito bom. No Sul, percebemos que aquela mão de obra foi realocada no setor. São 1,2 milhão de propriedades produtoras de leite, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mas não sabemos quantos produtores são. Estimamos algo em torno de 2 ou 3 milhões de produtores, já que algumas propriedades têm dois ou três CPFs (produtores distintos). Com certeza, muitos vão ter que se realocar na cadeia.

Podemos usar o exemplo da Nova Zelândia ou do Canadá, com sua cadeia leiteira também desenvolvida. Na Nova Zelândia existe a terceirização extremante empregada no país. Aqui no Brasil estão começando surgir algumas ações na região Sul, em Minas Gerais e São Paulo, mas muito incipiente.

Vou dar um exemplo. O produtor de leite neozelandês ou canadense não cria e nem recria as bezerras. Ele terceiriza isso para um produtor que deixou de ser produtor de leite, se especializou e passou a ser um recriador. Ele recolhe as bezerras quando nascem, são levadas para fazendas recriadoras e retornam recriadas e insemidas. Só chegam na propriedade na semana ou dia do parto. Então, a preocupação do produtor de leite é apenas produzir leite.

Outro exemplo é o macho. Lá existem rotas iguais às das fêmeas, em que camionetes e caminhões passam recolhendo bezerros machos, que vão para fazendas terceirizadas recriadoras. Muitas adquirem esses bezerros e já têm contratos futuros com redes de fast food para vender a carne desses bezerros como vitelos e baby beefs.

OP Rural – O que esperar do mercado do leite para 2020?

GB – A Abraleite não espera, ela trabalha para acontecer. Hoje somos a segunda maior instituição do país em número de produtores. E fazemos um trabalho que a cada dia convence os produtores de apoiarem e estarem juntos. É uma associação democrática, que filia qualquer produtor e parceiros do setor, como técnicos de entidades, e esses associados fazem a opção se querem ou não contribuir. Com isso, temos apoio, força e representatividade muito grandes.

OP Rural – Como é formada a Abraleite?

GB – Eu, como presidente da Abraleite, mas também a Diretoria e os conselheiros, somos pessoas que acreditam no leite e nas mudanças necessárias para o setor. Temos um conselho de representantes estaduais, que é composto por 27 unidades da federação (26 estados e o Distrito Federal), temos lideranças de sindicados, de cooperativas e federações ou apenas lideres natos que, acreditam no setor. Todos que estão na diretoria e no Conselho têm esse perfil.

Precisamos estar unidos, trabalhar, acreditar e conquistar aquilo que a carne e a soja já conquistaram. O leite tarda, mas não falha. Nós iremos incomodar muitos países, que já estão preocupados com nossa cadeia leiteira, pois sabem que mais cedo ou mais tarde ela vai se organizar e vamos ser um grande exportador de lácteos do planeta.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Pecuária Leiteira

Médico veterinário provoca (no bom sentido) pecuarista a melhorar qualidade do leite

Para conseguir ter na propriedade a qualidade do leite exigida, basta o produtor investir em pontos simples na propriedade, como manejo, sanidade, higiene e biosseguridade

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Arquivo/OP Rural

Um assunto muito discutido e que ainda gera muitas dúvidas na pecuária leiteira é sobre a qualidade do leite. Ainda são muitos os desafios enfrentados por produtores para conseguir alcançar os índices exigidos e também para serem melhor remunerados por conta da qualidade. A Contagem de Células Somáticas (CCS) e a Contagem Bacteriana Total (CBT) são dois dos maiores problemas enfrentados para conseguir estes resultados. Porém, segundo o médico veterinário e gerente de Treinamentos da Bayer Animal Health, Luciano Rodrigues, conquistar isso é muito mais simples do que se imagina.

 De acordo com ele, quando se fala em qualidade do leite, o primeiro pensamento que surge para o produtor é a necessidade de se fazer investimentos. “Ele sabe da importância da qualidade, todos são preocupados com isso. Mas eles atrelam isso à necessidade de se fazer investimentos na propriedade, e não é nada disso”, afirma.

Rodrigues comenta que quando se fala em qualidade do leite, muitos produtores perguntam o que eles ganham com isso. “Eu já respondo: você consome algo que não é controlada a qualidade? Por isso é importante deixar claro o que ele ganha fazendo isso. Porque é importante que o produtor olhe para um todo, e não somente ele, somente o indivíduo”, conta. Ele explica que é preciso que o produtor olhe para si como um empresário. “Dentro do empreendedorismo você consegue afetar ou atuar em algumas circunstâncias e em outras não. Dessa forma, sempre falamos da fazenda ideal, que é aquela que dá lucros. E para ela dar estes resultados é preciso considerar seis aspectos que são muito importantes: gestão, sanidade, nutrição, funcionários, manejo e genética”, esclarece. E quando se fala em qualidade do leite, conta Rodrigues, ele afirma que dos seis aspectos, um dos mais importantes é a sanidade.

O médico veterinário conta que é preciso considerar a importância que o leite tem no Brasil. “Somo o terceiro maior produtor mundial, é um tipo de atividade que está presente em 99% dos municípios e que gera mais de quatro milhões de empregos. Por isso é importante perceber que há 20 anos se produzia de um jeito, mas agora se produz de outro. Usamos tecnologias. E assim como o produtor está se adaptando, é preciso ver que o consumidor também está”, comenta.

Além disso, algo que muitas vezes atrapalha, “e muito”, na produção e, principalmente, no consumo do leite é a quantidade de fake news que são produzidas. “Por isso é importante também que o produtor leve boas informações ao público. Produzir leite com qualidade e levar boas informações é essencial, porque tem um monte de gente falando que leite de vaca faz mal, o que é uma mentira. Temos várias pesquisas mostrando a qualidade do leite para o ser humano”, diz.

Desafios e oportunidades na produção leiteira

Segundo Rodrigues, quando se olha toda a cadeia do leite, o consumidor, supermercado, transportador, laticínio, laboratório e então a fazenda, o único lugar onde o produtor pode interferir é no último. “Então os desafios e as oportunidades na fazendo que o produtor tem é da porteira para dentro. E neste quesito destaco três pilares essenciais: o manejo antes da ordenha, onde o produtor pode interferir controlando a mastite; o manejo no momento da ordenha, limpando os equipamentos; e o manejo depois da ordenha, com o controle de temperatura no resfriador”, afirma.

O médico veterinário apresenta os desafios e as oportunidades para o produtor como quatro super-heróis e quatro vilões. “Dessa forma, quais são os quatro desafios? A falta de higiene, bactérias (CBT), alta temperatura e a CCS alta”, explica. Já as quatro oportunidades, de acordo com ele, são a boa higiene, as células de defesa do organismo (leucócitos), a temperatura “fria” e o gerenciamento.

Entender estes conceitos ajuda também o produtor a entender como é simples a forma de conseguir um leite de boa qualidade sem muito esforço. “Quando há bactérias no ambiente e esta bactéria entra no úbere, as células de defesa também vão para este local, e assim a CCS aumenta. Então, quando você não tem uma boa higiene a CCS aumenta”, informa. Assim, quando a CCS aumenta, são diversos os prejuízos para o produtor, como a perda de produção de leite, o descarte prematuro de vacas, leite descartado devido a resíduos e despesas com tratamento. Rodrigues afirma ter medidas para tratar a mastite com higiene.

Resfriamento em números

O médico veterinário comenta da importância da higiene em todos os momentos. “Quando você tem uma ordenha suja, uma vaca com mastite, logo você terá um leite de menor qualidade”, frisa. “Se no momento da ordenha o produtor tem um local sujo, já terá um número de bactérias alto e assim ele ainda leva essas bactérias para o tanque”, comenta. Ele explica que se, por exemplo, a CBT no momento da ordenha foi de um milhão, mas o tanque estiver a 4°C, ela irá continuar com um milhão, mas não vai aumentar ou diminuir. Porém, caso seja um milhão de CBT e o produtor demorou para resfriar o leite e ele ficar, por exemplo, um dia a 15°C, esse um milhão já passará para 20 milhões. “Olha o quanto multiplicou. Isso vai afetar a qualidade do leite”, exemplifica.

Contudo, caso o produtor tenha uma ordenha limpa, controle de mastite e higiene, ele terá quatro mil CBT. “Em 24 horas essa quantidade será a mesma. Isso é o básico do controle de CCS e CBT”, conta.

Dinheiro a mais

Rodrigues comenta que o produtor não vai conseguir afetar o preço do leite no mercado mundial, mas ele consegue melhorar o preço do leite que ele recebe pela qualidade do leite. “Hoje a maioria dos laticínios paga alguns centavos a mais por qualidade do leite. Por isso eu friso que entre os quatro heróis na produção leiteira está a higiene, porque a forma de defesa do organismo da CCS é boa porque o produtor tem uma vaca com uma imunidade boa”, diz.

Registro de atividade é essencial 

O médico veterinário afirma que não tem como o produtor saber como tratar uma vaca de mastite se ele não faz o acompanhamento com anotações. “Não adianta ele comprar um monte de produtos veterinários ou tentar fazer toda uma higiene, se não tem controle dentro da fazenda. Uma vaca com mastite subclínica, por exemplo, que o produtor não anota e ordenha ela primeiro, fará com ela contamine todas as outras. E isso o pecuarista evita simplesmente anotando e fazendo o manejo, gerenciando a fazenda corretamente”, afirma.

Ele reitera que possuindo uma rotina de limpeza e fazendo as anotações corretamente, o produtor consegue diminuir, e muito, os casos de animais doentes. “Uma vaca com mastite clínica ou subclínica que o produtor ordenha por último para não afetar as outras e o gerenciamento das vacas secas diminui em 90% as infecções e também cai 90% os casos subclínicos”, menciona.

Outro gargalo importante citado pelo profissional é sobre a mensuração de dados. “O produtor brasileiro é empreendedor. Mas infelizmente não está acostumado na sua rotina em fazer anotações e ficar analisando os pontos críticos. Infelizmente o maior gargalo do gado de leite e onde ele perde em qualidade é no manejo. Ele está fazendo, mas se não mensura, não vai identificar onde atua, onde está o problema”, diz.

Qualidade não significa gastar dinheiro

Um dos grandes entraves de alguns produtores imaginam é que para ele alcançar os índices de qualidade que são exigidos, ele precisa fazer altos investimentos na fazenda. Rodrigues assegura que isso não é verdade. “Todas as técnicas são básicas para o produtor tirar leite. Hoje, ninguém mais tira leite no latão, além de possuir um resfriador. Sendo uma ordenha mecânica ou manual, seguindo os passos (higiene, células de defesa do organismo, temperatura “fria” e gerenciamento) o produtor consegue bons resultados”, garante.

Por isso, reitera, é preciso que o produtor controle o ambiente e a mastite. “São coisas que todos podem controlar, seja uma fazenda grande ou pequena. A ordenha pode ser manual, mecânica ou um robô, é possível controlar. Os equipamentos que o produtor vai usar, seja de alta ou baixa tecnologia, o que faz a diferença é a limpeza deles e o manejo das vacas secas”, afirma. Rodrigues comenta que quando fala nos desafios e oportunidades da pecuária leiteira, muitos produtores já pensam que é investimento, gastar dinheiro. “E não é nada disso, é cuidado”, reafirma.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Saúde Animal

Uso da metafilaxia para o controle do complexo respiratório bovino

Metafilaxia nada mais é que a utilização de um antimicrobiano de longa ação destinado exclusivamente a grupo de animais em situação de risco

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 Artigo escrito por Eduardo Rezende, coordenador de Marketing e Comunicação Científica da J.A Saúde Animal

A pecuária bovina é de grande importância na economia nacional e ainda é exercida em grande parte no sistema tradicional de criação extensiva, criado solto em pastagens naturais ou cultivadas. Entretanto, a cada dia que passa, há maior investimento dos pecuaristas em sistemas de criação intensiva, nos quais muitas vezes o gado é criado confinado, o que aumenta a suscetibilidade a determinados problemas sanitários.

Dentre esses problemas, os respiratórios são os mais comuns em animais adultos nesse tipo de sistema de criação, ocorrendo o mesmo em bezerros até 9 meses de vida. Nesse contexto, a broncopneumonia é a enfermidade de maior destaque dentre todas as respiratórias, caracterizada pela inflamação dos bronquíolos, parênquima e pleura pulmonar, geralmente consequente a uma invasão por agentes infecciosos bacterianos ou virais.

Existem alguns fatores que impactam no aumento da morbidade de enfermidades respiratórias.  O estresse decorrente do transporte e do agrupamento em lotes faz com que haja aumento dos níveis de cortisol, depressão do sistema imunológico do animal e, consequentemente, maior suscetibilidade as doenças. Outro fator é a superpopulação, comum nesse sistema de criação, que induz ao aumento nos níveis de umidade do ar e o incremento no tempo de sobrevivência dos patógenos.

Um grupo muito frequente de agentes responsáveis pelas broncopneumonias são as Pasteurellas spp, que embora façam parte da microbiota normal do trato respiratório superior de muitos bovinos, em situações propícias de estresse (transporte, superlotação e desmama de bezerros, por exemplo), conseguem proliferar e adentrar no trato inferior (que é naturalmente estéril), causando assim a enfermidade. Um grande problema é que nem sempre esse acometimento é visível, podendo haver casos subclínicos, com disfunção pulmonar pequena ou inexistente, dificultando a identificação pelo pecuarista.

Segundo pesquisas, 68% dos animais considerados sadios por meio da inspeção visual apresentavam acometimento pulmonar no abate, inclusive responsável por redução de aproximadamente 80g de ganho médio de peso por cabeça (GMD). Conclui-se então que a detecção visual não tem acurácia suficiente para diagnosticar os casos positivos, não sendo indicado o tratamento baseado apenas nesse tipo de diagnóstico quando houver manifestação clínica de doenças respiratórias, poderão ser observados depressão, queda no apetite, aumento da frequência respiratória, dificuldade respiratória, febre, secreção nasal, narinas secas, orelha caída, magreza e morte súbita.

Soluções

Assim sabemos que a aplicação de tratamentos eficazes para as afecções pulmonares é fundamental para o controle da enfermidade e que não é tão fácil fazer o diagnóstico assertivo dos animais doentes, sendo necessário lançar mão de uma forma de tratamento mais estratégica, principalmente naqueles no início da doença ou em casos subclínicos. A metafilaxia é uma das formas de tratamento que reduz os casos clínicos e subclínicos, além de consequentemente reduzir o impacto da enfermidade no ganho de peso.

Metafilaxia nada mais é que a utilização de um antimicrobiano de longa ação, em doses terapêuticas, injetável e destinado exclusivamente a um grupo de animais em situação de risco, para que não se estimule a resistência antimicrobiana. A utilização desse tipo de medicação é altamente desejável na entrada do confinamento ou até mesmo em situações de surto da doença em bezerros, com destaque aos mantidos em instalações coletivas.

Uma excelente opção de metafilático é a Benzilpenicilina Benzatina, antimicrobiano da classe dos Beta-Lactâmicos, que em concentrações elevadas tem potencial bactericida de amplo espectro, ou seja, elimina bactérias Gram positivas e Gram negativas. A utilização de produtos à base desse ativo deve ser feita por via intramuscular em dose única na entrada do confinamento, lembrando sempre de não ultrapassar a dose máxima de 20 ml por local de aplicação.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de junho/julho de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural
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Bovinos / Grãos / Máquinas Com coronavírus

Momento é de o produtor cuidar da fazenda, afirma pesquisador da Embrapa Gado de Leite

Para Glauco Carvalho, momento exige que o produtor de leite contenha gastos dentro da fazenda e reveja gestão; mercado pós covid-19 ainda é incerto

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 Quando a pecuária de leite no Brasil ensaiava uma ligeira recuperação, surgiu o novo coronavírus e tudo mudou de repente. As perspectivas para o setor, segundo o pesquisador da Embrapa Gado de Leite Glauco Carvalho, não são muito diferentes do resto da economia: “É difícil prever o que irá acontecer, pois não sabemos nem quanto tempo deve durar esse contexto, mas a expectativa é de retração”.

Os analistas não acreditam que a crise terminará tão de repente quanto surgiu. “Deve ocorrer um longo período de desconforto, com as pessoas evitando aglomerações e a retomada será lenta”, diz Carvalho, que acredita em “fissuras” no comércio global, com Estados Unidos e China aumentando a polarização e cada país olhando para os próprios problemas domésticos. “Não sairemos desta crise sem sequelas”, declara.

O setor leiteiro já vinha sofrendo desde 2013 com o cenário econômico ruim. A produção brasileira andou praticamente de lado nos últimos anos e 2020 iniciou com baixo crescimento devido à seca na região Sul do país, com a piora na rentabilidade dos produtores. “Começamos agora a entressafra, que prometia melhores ganhos aos produtores, mas toda a cadeia produtiva terá de se ajustar ao novo cenário”, avalia Carvalho. Ainda segundo o pesquisador, é provável que haja um recuo na produção, o que ajuda a estabelecer um piso nos preços do leite.

Segundo relatório da Embrapa Gado de Leite, há pelo menos quatro impactos na cadeia do leite neste momento de pandemia. O primeiro é o efeito pânico, que levou o consumidor de forma desenfreada às compras para garantir estoques de alimentos. “Houve incremento na demanda por lácteos com maior vida de prateleira, como o leite UHT e o leite em pó, que apresentaram maior volume de vendas e elevação de preços. Superado o pânico, as compras voltaram a ocorrer de forma mais regular. A pressão de demanda recuou, houve ligeiro aumento dos estoques e os preços perderam força”, explica Carvalho.

O segundo ponto é o fechamento de canais de food service (alimentação fora do lar), prejudicando a venda de queijos e outros refrigerados. “Laticínios dependentes deste canal e empresas e cooperativas que atuam na captação, mas não na fabricação de lácteos, aumentaram a ofertar de leite no spot (venda entre empresas), provocando expressiva queda nos preços do leite cru neste mercado”, diz. Outro ponto é quanto a queda do PIB e a redução da renda da população, que parece ser o mais preocupante e menos previsível dos choques, podendo deixar sequelas por um longo período. “O impacto será maior conforme a duração da pandemia. Se for curta há possibilidade de recuperação. Caso contrário, o horizonte ficará mais sombrio”, avalia.

O último impacto refere-se à consolidação setorial, na produção primária e na indústria. “É um processo que já vem ocorrendo no Brasil, mas dependendo da duração da pandemia pode se acelerar. Laticínios e produtores com dificuldades operacionais e financeiras podem deixar a atividade. É importante neste momento uma gestão refinada, com corte de gastos, descarte de animais menos produtivos e muito diálogo com os fornecedores e clientes. Todos estão no mesmo barco”, comenta Carvalho.

Preços baixos, custo alto

De acordo com o relatório da Embrapa Gado de Leite, o preço de leite ao produtor registrou alta de 1% em abril, fechando a R$ 1,45/litro. Na comparação com abril de 2019, o valor foi 2,7% inferior. Além disso, a relação de troca continua pior que a observada no ano passado. Em abril deste ano foram necessários 47,6 litros de leite para aquisição de 60 kg de mistura. Em abril/2019 esse valor era de 32,7 litros. “Essa relação do preço do leite com o preço do concentrado piorou muito e tem afetado a rentabilidade do produtor nesse momento”, comenta o pesquisador. Ele diz que uma grande preocupação dos produtores está atrelada ao custo de produção e a conseguir gerenciar este custo. “Temos um cenário desafiador”, afirma.

Já no varejo, os preços de leite e derivados apresentaram alta de 3,8% no mês. Destaque para o leite UHT, que teve alta de 9,59%. Já o queijo caiu 1,48%. Na comparação com o mesmo mês de 2019, o preço do UHT está 13,36% maior, enquanto o do queijo está 4,08% menor.

As oportunidades frente à Covid-19

Carvalho destaca que mesmo neste momento de dificuldade, sempre existem oportunidades que podem ser aproveitadas pelo pecuarista. “Hoje, os produtores de leite vão ter que olhar para dentro da propriedade. O momento exige um acompanhamento de custo feito de forma muito detalhada”, diz. Outra oportunidade hoje que pode ser observada é quanto ao mercado de carne bovina, que continua bastante aquecido. “Existe a possibilidade de o produtor justamente descartar animais. Ele pode direcionar alguns animais para o abate, e isso gera caixa e diminui custos”, observa.

O momento também é oportuno para o produtor olhar para dentro da propriedade na questão de biosseguridade e, a partir disso, conseguir uma melhor qualidade do leite e segurança de alimentos. “O produtor pode aproveitar o momento e internalizar conceitos, mas também planejar melhor a estrutura dentro da fazenda, seja na parte de maquinários, funcionário, para ver se ele consegue uma maior produtividade, melhor mão de obra e ter mais capital investido”, afirma.

Para Carvalho, a oportunidade hoje está muito mais em o produtor olhar para dentro e ver onde ele pode cortar custos, onde pode buscar para produzir com qualidade superior e ter uma bonificação maior. Além disso, de acordo com o pesquisador, é uma boa ocasião para o produtor fazer contrato com os laticínios. “É um momento de o produtor estreitar o relacionamento com a empresa que coleta o leite, tentar fazer alguma forma de contrato. É o momento para ele criar algo rentável”, declara.

Mudanças nos hábitos de consumo de alimentos

Entre os consumidores, o efeito imediato da crise, desde que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou a pandemia, foi de correria às padarias e supermercados. É o que Carvalho chama de “efeito pânico”, com as pessoas comprando produtos estocáveis, como o leite UHT e leite em pó. Os preços desses produtos tiveram um aumento, mas, na medida em que a população percebeu que o abastecimento não seria comprometido, as compras voltaram ao normal, com os preços se estabilizando e, posteriormente, recuando. A pandemia teve como consequência uma radical mudança nos hábitos do consumidor, atingindo em cheio os food services (restaurantes, pizzarias, lanchonetes, food trucks). Segundo o pesquisador, os produtos que mais perderam com isso foram os queijos e outros lácteos refrigerados.

O que preocupa os economistas é uma terceira onda: a queda no poder aquisitivo da população, que tem efeito direto no consumo de produtos com maior valor agregado (queijos, iogurtes, leite fermentado). Mas, para Carvalho, dados históricos mostram que quando a renda cai, o consumo de produtos lácteos cai em menor proporção. “A maioria dos produtos lácteos é inelástico à renda”, explica.

Ainda assim, na visão do pesquisador, “a terceira onda” pode ser muito prejudicial ao setor e terá como consequência uma reorganização da cadeia, com a redução do número de produtores e laticínios maiores absorvendo os menores. “Haverá uma maior concentração”, explica, “produtores podem sair do mercado, com os mais estabilizados ocupando o espaço deixado, o que já vem ocorrendo de forma natural nas últimas décadas, mas que deve se intensificar”. No entanto, Carvalho aposta na mudança de hábitos do consumidor como uma das consequências da pandemia. “Estamos verificando que as pessoas estão mudando o estilo de vida, consumindo alimentos mais saudáveis e investindo mais na saúde. É a crise nos ensinando”, observa.

Impactos mundiais

No entender dos especialistas, o mercado global também passará por sensíveis mudanças e grandes exportadores como Austrália, Nova Zelândia e Uruguai podem sofrer importantes impactos com o recuo do comércio. Existem riscos de revés na globalização e na abertura de mercados, com a economia mundial encolhendo. Analistas internacionais apontam uma queda de 3% do PIB mundial e no Brasil já se fala em um tombo de até 5%. “Nunca tivemos uma queda tão grande”, frisa Carvalho. “Nossa pior queda foi de 3,5% do PIB, na crise do segundo governo da Dilma; mas a crise atual é diferente e os mecanismos tradicionais de política econômica têm efeito limitado. A duração da pandemia e do isolamento social vai nortear o real impacto econômico”, diz.

A vantagem do Brasil, neste momento, é que o país tem uma população grande e disponibilidade de insumos produtivos. Outro ponto importante é que, na pandemia, a indústria de alimentos sofre menos, já que não pode haver uma paralisação (lockdown) da produção agrícola (as pessoas precisam se alimentar).

Corte de custos e recuperação lenta

Houve também uma redução no preço de alguns insumos da cadeia do leite como o milho e o farelo de soja, embora ainda sigam com valores historicamente altos. Um conselho dado pelo especialista aos produtores é que eles cortem custos. “Sempre há gorduras para cortar”, ressalta Carvalho. A pecuária de leite tem como característica uma recuperação lenta. O rebanho que for reduzido hoje para se adaptar à nova realidade de mercado pode demorar até quatro anos para ser recomposto. Planejamento, organização e cuidados com a própria saúde é o que recomenda o cientista.

Em geral, observa Carvalho, a pecuária leiteira está fazendo o dever de casa. Comparado com outros países, como Alemanha e Estados Unidos, o Brasil está indo bem nestes primeiros meses de pandemia. “Nós, diferente destes países, dependemos basicamente do consumo interno. Se olharmos a dinâmica do nosso mercado, o principal produto é o leite UHT, que tem uma vida de prateleira longa, que é positivo. Mas esta não é a realidade de outros países. Nos EUA, por exemplo, o principal produto deles é o leite pasteurizado, que possui uma vida de prateleira menor”, conta.

O pesquisador diz que a cadeia do leite brasileira conseguiu se organizar bem. “A cadeia conseguiu ir muito bem nesse início de pandemia. Porém, a grande dúvida é: como vai ficar o consumo dentro dos próximos dois ou três meses?” questiona.

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Fonte: O Presente Rural
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