Bovinos / Grãos / Máquinas Para presidente da Abraleite
“Temos o objetivo de tornar o país o maior produtor e maior exportador de lácteos do planeta”
Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Leite, Geraldo Borges, deu entrevista exclusiva ao O Presente Rural

A produção de leite no Brasil é feita em 99% dos municípios brasileiros, em 1,2 milhão de propriedades rurais. Cerca de 35 bilhões de litros são ordenhados todos os anos, basicamente destinados ao mercado interno. Ou seja, 165 litros por habitante. O rebanho tecnificado soma mais de 11 milhões de cabeças. O país é um dos que mais produzem no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e Índia, variando a terceira e quarta posições com a China.
Mas mesmo com esses números estratosféricos e importância econômica e social que o leite tem, a cadeia ainda é bastante heterogênea, apresentando ótimos desempenhos em alguns locais e péssimos em outros. Mais ainda, a cadeia é desorganizada. Somente em outubro de 2017, há menos de três anos, uma entidade foi criada para defender os interesses da classe. A Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite) é uma criança comparada a entidades como a Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), que tem 60 anos, e até entidades que representam culturas bem menos expressivas, como a Associação Nacional dos Produtores de Alho (Anapa), fundada no fim dos anos 1970.
Em entrevista exclusiva ao jornal O Presente Rural, o presidente da Abraleite, Geraldo Borges, conta como a entidade com sede em Brasília, DF, tenta recuperar o tempo perdido e o que fazer para tornar o Brasil também exportador desse importante item da gôndola do agronegócio brasileiro. “Temos o objetivo de organizar e fortalecer a cadeia do leite e tornar o país no maior produtor e maior exportador de lácteos do planeta. É nosso dever de casa”. Confira.
O Presente Rural (OP Rural) – Conte um pouco sobre a Abraleite. Porque essa entidade demorou tanto para ser criada?
Geraldo Borges (GB) – A Abraleite foi criada em julho de 2017 e começou a funcionar em outubro de 2017. A Associação veio cumprir o papel de defender os interesses da classe produtora de leite e trabalhar políticas públicas para que o setor se desenvolva.
Existem mais de 40 instituições similares ou congêneres, como Abramilho (Associação Brasileira dos Produtores de Milho), Aprosoja (Associação Brasileira de Produtores de Soja, incialmente chamada de Abrasoja), ABCS (Associação Brasileira de Criadores de Suínos). A cadeia do leite demorou para criar essa instituição. O leite demorou bastante talvez por ser a categoria mais numerosa. O fato de termos 1,2 milhão de propriedades que produzem leite, num país com cinco milhões de propriedades, nos torna uma categoria gigantesca, extremamente pulverizada. Nós produzimos leite em 99% dos municípios do Brasil, segundo dados do IBGE de 2018. E essa cadeia é bastante heterogênea. Têm pequenos, médios e grandes produtores, com diferentes sistemas de produção, em que observamos divergências e diferenças muito grandes de uma região para outra. Isso também pode ter ajudado a cadeia a não se organizar e demorar tanto para ter uma instituição que o representasse, principalmente nos três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário).
Nós temos feito um trabalho muito consistente, promovendo políticas públicas através de leis, decretos e normativas junto ao Executivo e Legislativo, para que a gente organize-se melhor, tenha força maior não só no mercado interno, mas que consigamos ser um grande exportador de leite como somos na carne bovina, no frango, na soja, no café e em tantas outras atividades.
Temos o objetivo de organizar e fortalecer a cadeia do leite e tornar o país, tomara que em breve, no maior produtor e maior exportador de lácteos do planeta. É nosso dever de casa. Somos o terceiro ou quarto produtor de leite do planeta, mas não exportamos. Somos grandes consumidores, mas precisamos também exportar.
OP Rural – Quais são os gargalos hoje da cadeia e o que falta para tomar da Nova Zelândia o posto de maior exportador de leite do mundo?
GB – Muito bem lembrado. A Nova Zelândia é responsável por 50% das exportações de lácteos do planeta. É um país que soma o tamanho do Estado do Rio Grande do Sul, mas consegue ter metade das exportações totais de lácteos no mundo. Eles têm uma cadeia extremamente organizada, extremamente tecnificada, com gestão eficiente, entre outros pontos. Chegar a esse nível depende muito do trabalho da Abraleite.
A Abralrite trabalha muito da porteira para fora, com políticas públicas, mas também temos que ajudar, incentivar e trabalhar da porteira para dentro, sempre almejando maior e melhor produtividade, através de tecnologias e gestão.
OP Rural – Aumentar a produtividade é um desafio. E qualidade?
GB – A primeira coisa que temos que entender é que a classe é muito grande, e temos não só produtores de todos os tamanhos e sistemas, mas temos ainda extrativismo no Brasil. Nós temos tiradores de leite no Brasil, sem nenhum demérito a esses produtores rurais, que ainda tratam a atividade de forma amadora, não tão profissional. Temos propriedades com uma ordenha diária apenas, temos propriedades abaixo da média nacional, que já é muito baixa, em torno de 4 a 5 litros/matriz/dia. Se você pensar na média, deve ter rebanho com um ou dois litros ao dia. Uma vaca com essa quantidade de leite certamente não é especializada para o leite. Ela até pode ser uma matriz de sangue leiteiro, mas com certeza está muito mais próximo do corte do que do leite.
Então, precisamos aperfeiçoar o melhoramento genético, melhorar a alimentação dos animais e na gestão das propriedades para que tudo isso mude. A questão da qualidade é outra preocupação que nós temos. Quanto maior qualidade tivermos para mandar nosso leite para as indústrias, maior qualidade a indústria terá na sua matéria-prima que será utilizada para produzir derivados lácteos, que são tão valorizados no mundo inteiro.
É insano pensar que um produtor vai continuar a vida inteira produzindo um leite de baixa qualidade. Muito se fala que é difícil e caro, mas alguns problemas podem ser resolvidos com uma simples higiene no manejo da vaca ou na sala de ordenha, como é o caso da contagem bacteriana total. Para mudar isso não é caro, mas falta assistência técnica no Brasil. Precisamos que o governo tenha olhos para isso. Precisamos investir nas agências de assistência técnica do Brasil porque muito produtor não produz corretamente porque não tem a instrução. Temos problemas estruturais e falta de assistência técnica no país. Isso vai dificultar para pequenos produtores.
OP Rural – Na cadeia de suínos e aves houve queda no número de produtores, mas aumento da eficiência e da produção. Muitos deixaram de produzir, mas quem ficou na atividade está altamente tecnificado. O leite deve seguir esse modelo?
GB – Certamente. Esse exemplo que você dá é muito bom. No Sul, percebemos que aquela mão de obra foi realocada no setor. São 1,2 milhão de propriedades produtoras de leite, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mas não sabemos quantos produtores são. Estimamos algo em torno de 2 ou 3 milhões de produtores, já que algumas propriedades têm dois ou três CPFs (produtores distintos). Com certeza, muitos vão ter que se realocar na cadeia.
Podemos usar o exemplo da Nova Zelândia ou do Canadá, com sua cadeia leiteira também desenvolvida. Na Nova Zelândia existe a terceirização extremante empregada no país. Aqui no Brasil estão começando surgir algumas ações na região Sul, em Minas Gerais e São Paulo, mas muito incipiente.
Vou dar um exemplo. O produtor de leite neozelandês ou canadense não cria e nem recria as bezerras. Ele terceiriza isso para um produtor que deixou de ser produtor de leite, se especializou e passou a ser um recriador. Ele recolhe as bezerras quando nascem, são levadas para fazendas recriadoras e retornam recriadas e insemidas. Só chegam na propriedade na semana ou dia do parto. Então, a preocupação do produtor de leite é apenas produzir leite.
Outro exemplo é o macho. Lá existem rotas iguais às das fêmeas, em que camionetes e caminhões passam recolhendo bezerros machos, que vão para fazendas terceirizadas recriadoras. Muitas adquirem esses bezerros e já têm contratos futuros com redes de fast food para vender a carne desses bezerros como vitelos e baby beefs.
OP Rural – O que esperar do mercado do leite para 2020?
GB – A Abraleite não espera, ela trabalha para acontecer. Hoje somos a segunda maior instituição do país em número de produtores. E fazemos um trabalho que a cada dia convence os produtores de apoiarem e estarem juntos. É uma associação democrática, que filia qualquer produtor e parceiros do setor, como técnicos de entidades, e esses associados fazem a opção se querem ou não contribuir. Com isso, temos apoio, força e representatividade muito grandes.
OP Rural – Como é formada a Abraleite?
GB – Eu, como presidente da Abraleite, mas também a Diretoria e os conselheiros, somos pessoas que acreditam no leite e nas mudanças necessárias para o setor. Temos um conselho de representantes estaduais, que é composto por 27 unidades da federação (26 estados e o Distrito Federal), temos lideranças de sindicados, de cooperativas e federações ou apenas lideres natos que, acreditam no setor. Todos que estão na diretoria e no Conselho têm esse perfil.
Precisamos estar unidos, trabalhar, acreditar e conquistar aquilo que a carne e a soja já conquistaram. O leite tarda, mas não falha. Nós iremos incomodar muitos países, que já estão preocupados com nossa cadeia leiteira, pois sabem que mais cedo ou mais tarde ela vai se organizar e vamos ser um grande exportador de lácteos do planeta.
Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2020 ou online.

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Boi gordo enfrenta semanas de instabilidade e pressão nas cotações
Recuo de até R$ 13/@ reflete um mercado mais sensível antes do período de maior consumo.

A possibilidade de novas medidas protecionistas da China voltou a gerar incerteza no mercado pecuário brasileiro. O país asiático, principal destino da carne bovina do Brasil, estaria avaliando restringir a entrada do produto, mas não há qualquer confirmação oficial até o momento. Mesmo assim, os rumores foram suficientes para pressionar os contratos futuros do boi nas últimas semanas.
As especulações ganharam força no início de novembro, indicando que Pequim poderia retomar o movimento iniciado em 2024, quando alegou excesso de oferta interna para reduzir as importações. A decisão, que inicialmente seria tomada em agosto de 2025, foi adiada para novembro, ampliando a cautela dos agentes e intensificando a queda na curva futura: em duas semanas, os contratos recuaram entre R$ 10 e R$ 13 por arroba.

Foto: Gisele Rosso
Com a China respondendo por cerca de 50% das exportações brasileiras de carne bovina, qualquer redução nos embarques tende a impactar diretamente os preços do boi gordo, especialmente em um momento de forte ritmo de produção.
Apesar da tensão, o cenário de curto prazo permanece positivo. A demanda doméstica, reforçada pela sazonalidade do fim de ano, e o recente alívio nas barreiras impostas pelos Estados Unidos ajudam a sustentar as cotações. Caso os abates não avancem mais de 10% em novembro e dezembro, a disponibilidade interna deve ficar abaixo da registrada em outubro, movimento que favorece a recuperação dos preços da carne nos próximos 30 dias.
Para 2026, as projeções seguem otimistas para a pecuária brasileira. A expectativa é de menor oferta de animais terminados, custos de produção mais competitivos e demanda externa firme, em um contexto de queda da produção e das exportações de concorrentes, especialmente dos Estados Unidos. A principal atenção fica por conta do preço da reposição, que subiu de forma expressiva e exige valores mais ajustados na venda do boi gordo para assegurar a rentabilidade na terminação.
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Novo ciclo do projeto Mais Leite Saudável busca impulsionar produção de leite no Noroeste de Minas Gerais
Assistência técnica, pesquisa aplicada e melhorias genéticas a 150 propriedades familiares, com foco em produtividade, sustentabilidade e fortalecimento da cadeia leiteira no Noroeste mineiro até 2028.

O fortalecimento e a ampliação da produção de leite de produtores de Paracatu (MG), de forma sustentável, eficiente e de qualidade, ganharam impulso com o início do novo ciclo do projeto Mais Leite Saudável, desenvolvido em parceria entre a Embrapa Cerrados e a Cooperativa Agropecuária do Vale do Paracatu (Coopervap).
O projeto é desenvolvido no âmbito do Programa Mais Leite Saudável (PMLS) do MAPA desde 2020. O Programa Mais Leite Saudável é um incentivo fiscal que permite a laticínios e cooperativas obter até 50% de desconto (crédito presumido) no valor de PIS/Pasep e COFINS relativo à comercialização do leite cru utilizado como insumo, desde que desenvolvam projetos que fortaleçam e qualifiquem a cadeia produtiva por meio de ações diretas junto aos produtores.
O treinamento dos técnicos recém-selecionados foi realizado no fim de outubro, e as primeiras visitas às propriedades ocorreram no início de novembro. Essa é a terceira fase do projeto, que conta com o acompanhamento do pesquisador José Humberto Xavier e do analista de Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados, Carlos Eduardo Santos.
O projeto articula as dimensões de assistência técnica e pesquisa e atuará nessa etapa com uma rede de 150 propriedades rurais familiares, que receberão acompanhamento de três veterinários e dois agrônomos, seguindo o modelo implantado em 2020. A equipe da Embrapa atua na capacitação técnica e metodológica dos técnicos e na condução de testes de validação participativa de tecnologias promissoras junto aos agricultores da rede.
A nova etapa, prevista para ser concluída em 2028, busca desenvolver alternativas para novos sistemas de cultivo com foco na agricultura de conservação, oferecer apoio técnico ao melhoramento genético dos animais de reposição com o uso de inseminação artificial e ampliar o alcance dos resultados já obtidos, beneficiando mais agricultores familiares e contribuindo para o desenvolvimento regional.
Segundo o pesquisador da Embrapa Cerrados, José Humberto Xavier, os sistemas de cultivo desenvolvidos até agora melhoraram o desempenho das lavouras destinadas à alimentação do rebanho, mas ainda são necessários ajustes para reduzir a perda de qualidade do solo causada pelo preparo convencional e pela elevada extração de nutrientes advinda da colheita da silagem, além de evitar problemas de compactação quando o solo está úmido. Ele destaca também os desafios de aumentar a produtividade e reduzir a penosidade do trabalho com mecanização adequada.
O analista Carlos Eduardo Santos ressaltou a importância de melhorar o padrão genético do rebanho. “A reposição das matrizes é, tradicionalmente, feita pela compra de animais de outros rebanhos. Isso gera riscos produtivos e sanitários, além de custos elevados. Por isso, a Coopervap pretende implementar um programa próprio de reposição, formulado com base nas experiências dos técnicos e produtores ao longo da parceria”, afirmou.
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Curso gratuito da Embrapa ensina manejo correto de resíduos na pecuária leiteira
Capacitação on-line orienta produtores a adequar propriedades à legislação ambiental e transformar dejetos em insumo seguro e sustentável.

Como fazer corretamente o manejo dos dejetos da propriedade leiteira e adequá-la à legislação e à segurança dos humanos, animais e meio ambiente? Agora, técnicos e produtores têm à disposição um curso on-line, disponível pela plataforma de capacitações a distância da Embrapa, o E-Campo, para aprender como realizar essa gestão. A capacitação “Manejo de resíduos na propriedade leiteira” é gratuita e deve ocupar uma carga horária de aproximadamente 24 horas do participante.
O treinamento fecha o ciclo de uma série de outros cursos relacionados ao manejo ambiental da atividade leiteira: conceitos básicos em manejo ambiental da propriedade leiteira e manejo hídrico da propriedade leiteira, também disponíveis na plataforma E-Campo.
De acordo com o pesquisador responsável, Julio Palhares, identificou-se uma carência de conhecimento sobre como manejar os resíduos da atividade leiteira para adequar a propriedade frente às determinações das agências ambientais. “O correto manejo é importante para dar qualidade de vida aos que vivem na propriedade e no seu entorno, bem como para garantir a qualidade ambiental da atividade e o uso dos resíduos como fertilizante”, explica Palhares.
A promoção do curso ainda contribui para os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), como as metas 2 e 12. A 2 refere-se à promoção da agricultura sustentável de produção de alimentos e prevê práticas agropecuárias resilientes, manutenção dos ecossistemas, fortalecimento da capacidade de adaptação às mudanças climáticas, etc. O ODS 12 diz respeito ao consumo e produção responsáveis, principalmente no que diz respeito à gestão sustentável.
O treinamento tem oferta contínua, ou seja, o inscrito terá acesso por tempo indeterminado.



