Conectado com

Bovinos / Grãos / Máquinas Produção

Tecnologias poupa-terra preservaram mais de 70 milhões de hectares em áreas plantadas com soja no Brasil

Sem tecnologia, a área plantada de soja teria de ser quase três vezes maior para produzir o volume atual

Publicado em

em

Cleverson Beje

Estudo recente da Embrapa comprovou que o uso de tecnologias sustentáveis na agricultura é capaz de gerar economia de terras de cultivo da ordem de milhões de hectares. Somente no caso da soja, o uso dessas tecnologias, que incluem sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta (ILPF), plantio direto, fixação biológica de nitrogênio, uso de bioinsumos incluindo controle biológico de pragas, entre várias outras, foi capaz de gerar uma economia de 71 milhões de hectares de áreas plantadas, o que corresponde à soma dos territórios de Irlanda e França. Outros exemplos aliam-se a esse, como os da avicultura de corte e da produção de suínos, nas quais o progresso tecnológico obtido entre as décadas de 1970 e 2000 levou à economia de 1,55 e 1 milhão de hectares, respectivamente.

O estudo, capitaneado pela Diretoria de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, contou com a participação de mais de 50 pesquisadores e analistas representando nove unidades de pesquisa da Empresa. Os dados, oriundos de pesquisas e estudos desenvolvidos ao longo das últimas décadas, geraram a publicação Tecnologias Poupa-Terra 2021, recém-lançada em comemoração ao 48º aniversário da Embrapa.

As tecnologias poupa-terra são aquelas adotadas pelo setor produtivo, de baixo ou alto custo, que permitem incrementos sustentáveis na produção total em uma mesma área e, graças ao seu uso, evita-se a abertura de novas áreas para produção agropecuária. Práticas conservacionistas, como o plantio direto, o manejo e a conservação do solo e dos recursos hídricos, podem ser caracterizadas como práticas poupa-terra, uma vez que aumentam a produtividade de modo sustentável.

“O Brasil já conta com uma série de sistemas e tecnologias sustentáveis que podem ser consideradas estratégias poupa-terra em franca adoção para os principais  sistemas produtivos agropecuários do País”, declara o engenheiro-agrônomo da Embrapa Samuel Telhado, coeditor técnico da publicação.

Na visão do diretor de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa, Guy de Capdeville, uma das principais vantagens das tecnologias poupa-terra é que atendem a produtores de todos os portes: pequeno, médio e grande. “Trata-se de modelos extremamente democráticos e que têm alcançado resultados impressionantes em todos os biomas brasileiros”, complementa Capdeville, que também é editor técnico da publicação.

O diretor ressalta o impacto das tecnologias poupa-terra na produção de soja. Na safra de 2019/2020, foram produzidos 251 milhões de toneladas de grãos em uma área de 65,8 milhões de hectares. A contribuição da soja para esse montante foi de 120,9 milhões de toneladas em 36,9 milhões de hectares, o que representa uma produtividade de aproximadamente três quilos por hectare. A leguminosa responde por 3,6% dos empregos gerados pelo agro no Brasil.

“Se nos reportarmos à década de 1970, sem a tecnologia existente hoje para produção de soja no Brasil, para manter esses índices de produtividade, seria necessário expandir a área em 195%, ou seja, praticamente o triplo do que temos hoje. Com a ciência e as tecnologias poupa-terra conseguimos preservar uma área de 71 milhões de hectares”, acrescenta Capdeville.

Impactos das tecnologias poupa-terra na produção de frutas e algodão

As tecnologias poupa-terra têm impacto significativo na exportação de frutas. Dados de 2018 apontam que a produção mundial de frutas é de cerca de 930 milhões de toneladas em pouco mais de 80 milhões de hectares. A contribuição brasileira é de 42,4 milhões de toneladas, ou seja, 4,6% do total em uma área 2,5 milhões de hectares. Para cada hectare cultivado com frutas, em média dois empregos são criados, totalizando cinco milhões de empregos. As principais tecnologias sustentáveis utilizadas na produção de frutas são: melhoramento genético, produção integrada, gestão da cobertura do solo, manejo de água e nutrientes, controle de pragas e doenças e gestão pós-colheita.

Segundo o diretor de P&D da Embrapa, a estimativa do efeito poupa-terra na produção de frutas para exportação, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta para um aumento de produtividade de 64% entre a década de 1990 e o ano de 2018. “O que mais salta aos olhos é a área poupada em 2018, que foi superior a 900 mil hectares”, enfatiza. O cultivo de 11 fruteiras – laranja, banana, melancia, manga, limão, uva, maçã, melão, tangerina, abacaxi e mamão – corresponde a aproximadamente 38% da área cultivada no Brasil.

Com o algodão, em cerca de quatro décadas, a produção mais do que triplicou enquanto a área plantada encolheu a menos da metade. Entre os anos de 1976 e 2019, a produção cresceu de 1,2 milhão para 4,3 milhões de toneladas, enquanto a área foi reduzida de quatro milhões de hectares para 1,7 milhão. “Esse resultado é fruto de várias tecnologias, entre as quais se destacam: cultivares melhoradas geneticamente, plantio direto, que abrange técnicas sustentáveis de manejo do solo, e o cultivo do algodão em sistemas ILPF, entre outras”, acrescenta Telhado.

Conversão alimentar na avicultura e suinocultura reduz a área cultivada

Na avicultura e suinocultura, o progresso tecnológico contínuo nas últimas quatro décadas garantiu às atividades lugar cativo no ranking das melhores do mundo. Grande parte desse sucesso se deve ao processo de conversão alimentar, a quantidade de ração que um animal precisa consumir para cada quilo de peso que ganha. Essa tecnologia é o resultado direto dos progressos obtidos ao longo dos anos em vários segmentos, como o melhoramento genético, nutrição, sanidade animal, manejo e ambiência.

No caso da avicultura de corte, em 1975, o frango precisava de 2,1 kg de ração para ganhar um quilo de peso vivo. Em 2020, esse mesmo quilo de peso foi obtido com 1,7 kg de ração. Considerando a produtividade atual do milho e soja no País, caso o desenvolvimento tecnológico não tivesse dotado os frangos de maior capacidade de conversão de ração em ganho de peso, a avicultura de corte demandaria um adicional de 1.551.056,40 ha de terra para entregar as mesmas 16,4 milhões de toneladas de peso vivo de frango produzidas em 2020. Essa economia de terra equivale a três vezes o tamanho do Distrito Federal.

Na suinocultura comercial brasileira, a melhora na conversão alimentar entre os anos de 1975 e 2020 permitiu reduzir o consumo de ração de 3,5 kg para 2,6 kg. Sem o aporte tecnológico, seriam necessários 1.007.745,70 ha de terra para produzir as 5,3 milhões de toneladas de carne suína produzidas hoje. A terra poupada corresponde ao território inteiro da República do Chipre.

“De forma geral, esses números mostram claramente que sem tecnologia não há sustentabilidade. E para levar a ciência ao campo, contamos com o apoio dos produtores brasileiros, que são altamente receptivos aos avanços tecnológicos”, pontua Capdeville.

As tecnologias que poupam terra no Brasil

Entre as principais tecnologias poupa-terra já consolidadas no Brasil, estão os sistemas ILPF, que integram lavoura, pecuária e floresta em uma mesma área. Esses modelos integrados podem utilizar cultivo consorciado, em sucessão ou em rotação, de modo que haja benefício mútuo para todas as atividades. Em 2015, eles ocupavam uma área de aproximadamente 11 milhões de hectares no Brasil. Em 2021, esse número saltou para 17 milhões. É a modalidade de sistema agroflorestal (SAF) mais utilizada no País, representando 83%.

Os sistemas ILPF aliam produtividade e benefícios ambientais, especialmente para a mitigação da emissão de gases de efeito estufa (GEE). “São modelos de produção que se adaptam com facilidade a todas as regiões brasileiras e têm sido bastante importantes para o aumento de renda e geração de empregos na Região Nordeste do País, a partir do consórcio de macaúba com outras culturas”, explica Capdeville. Mais informações sobre os sistemas ILPF estão disponíveis na página sobre o assunto no portal da Embrapa.

Outra tecnologia poupa-terra importante no agro brasileiro é o Sistema de Plantio Direto (SPD). Trata-se de uma forma de manejo conservacionista que mantém a cobertura do solo, por meio da manutenção dos restos culturais e de colheita e palhas. Implicam diminuição da compactação do solo, manutenção da umidade, redução da erosão e do assoreamento dos recursos hídricos.

A fixação biológica do nitrogênio (FBN) é realizada por bactérias presentes no solo ou adicionadas por meio da prática da inoculação. Ao lado da ILPF e do SPD, essa tecnologia foi escolhida como um dos pilares do Plano Agricultura de Baixa Emissão de Carbono (Plano ABC), do Ministério da Agricultura, criado para incentivar o uso de técnicas sustentáveis na agricultura, visando à redução da emissão dos gases de efeito estufa (GEE).

Por dispensar o uso de fertilizantes nitrogenados na cultura de soja, a FBN gera uma economia anual de divisas para o País da ordem de US$ 7 bilhões a US$ 10 bilhões. Mais informações estão disponíveis na página sobre a FBN no portal da Embrapa. Os cientistas trabalham agora para estender os benefícios dos bionsumos para a disponibilização de fósforo e potássio.

O emprego de bioinsumos em substituição aos insumos não renováveis também tem forte impacto como tecnologia poupa-terra. Entre os mais utilizados, estão os inoculantes (que promovem a fixação de nitrogênio nas plantas) e os agentes biológicos para o controle de pragas (insetos, fungos, vírus e bactérias), que utilizam a biodiversidade para proporcionar ferramentas de manejo mais equilibradas e sustentáveis. O lançamento do Programa Nacional de Bioinsumos, em 2020, visa impulsionar o uso de recursos biológicos na agropecuária e reduzir a dependência dos produtores rurais em relação aos insumos importados. Estima-se que, com esse programa, a área agropecuária com uso de recursos biológicos aumente em 133%.

O Pronasolos, o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e a agricultura de precisão também apresentam potencial poupa-terra por auxiliar a gestão territorial e otimizar o uso de recursos naturais, diminuindo custos de produção e aproveitando melhor as áreas de plantio.

Fonte: Embrapa
Continue Lendo
Clique para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

quatro × três =

Bovinos / Grãos / Máquinas

Taninos e saponinas na ração podem reduzir a emissão de metano dos bovinos

Testes realizados em vacas leiteiras confirmaram que taninos e saponinas têm efeito positivo, com influência sobre bem-estar ruminal, redução de protozoários e redução de CH4.

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

O metano entérico (CH4) influencia a pegada climática da produção de leite entre 44% a 50%. É o que afirmou o professor da Universidade de Bologna, Itália, Andrea Formigoni, durante o Fórum Metano na Pecuária – o caminho para a neutralidade climática, promovido pela JBS, em parceria com a SilvaTeam, em São Paulo (SP). No evento, Formigoni palestrou sobre as emissões de metano em vacas leiteiras.

Professor da Universidade de Bologna, na Itália, Andrea Formigoni: “Seleção de vacas mais eficientes tem um potencial significativo de mitigação de CH4” – Foto: Reprodução

Segundo ele, a intensidade na redução do metano no rebanho é a chave para as vacas serem mais eficientes em produtividade (por quilo de leite). “A seleção de vacas mais eficientes tem um potencial significativo de mitigação de CH4, considerando a possibilidade de reduzir o número de animais por rebanho”, ressalta Formigoni.

Um estudo que compara a emissão de metano ao reduzir a idade do primeiro parto com a frequência de descarte, o número de substituições necessárias e as emissões de metano entérico por unidade de ECM no rebanho inteiro evidencia que uma vaca com gestação de 22 semanas emite 19,6% de metano entérico, enquanto que com 28 semanas aumenta para 33,2%. “Isso mostra que podemos mudar o nosso sistema de produção para controlar melhor a eficiência de cada animal, reduzindo assim a quantidade de metano produzida”, frisa.

Estudo

Em relação à evolução da produção leiteira em uma fazenda italiana, Formigoni expõe que em um rebanho com 85 vacas da raça Friesian, cada animal produzia em 2010 cerca de 9,1 toneladas de leite ao ano, com concentração de 3,7% de gordura e 3,3% de proteína. Cinco anos depois, com um rebanho de 95 vacas, a produção unitária passou para 9,5 toneladas/ano, com 3,6% de gordura e 3,2% de proteínas. Já em 2021, um rebanho com 118 animais produziu por cabeça 10,71 toneladas/ano da bebida láctea, contendo 3,8% de gordura e 3,3% de proteína. “Entre os 50 principais rebanhos de Friesian na Itália, a produção leiteira alcança uma média de 20 toneladas/vaca/ano”, mencionou o professor de Bologna, ampliando: “Para garantir cada vez mais eficiência é preciso fazer a seleção dos animais com uma abordagem genômica, além de oferecer controle de fatores de estresse, manejo de precisão e bem-estar animal”, pontua.

Taninos e saponinas 

Para testar a adição na ração de uma mistura de taninos e saponinas em vacas leiteiras de alta produção, alimentadas com uma dieta à base de feno seco picado, foram acrescentadas duas fontes lipídicas de origens diferentes: megagordura (saturada) e gordura integral de soja (insaturada). “O grau de instauração dos lipídios pode influenciar na produção ruminal de metano”, destacou o palestrante italiano.

Conforme Formigoni, os taninos são polifenóis naturais de plantas utilizados também na criação de ruminantes como promotores de crescimento e saúde, com alta capacidade antioxidante. “A edição de taninos tem efeitos positivos nas proteínas de passagem e na modulação da fermentação ruminal, com consequências positivas na qualidade do leite e na emissão de metano”, menciona.

As saponinas são consideradas substâncias naturais para mitigar as emissões de metano em ruminantes, como gado, cabras e ovelhas.

Para o experimento, foram separadas oito vacas leiteiras que, durante 21 dias, receberam uma dieta balanceada com quatro rações diferentes, em que foram analisadas ingestão diária de DMI e água, peso corporal, tempo de ruminação e pH reticular, líquido ruminal, fezes e urina, rendimento e composição do leite, propriedades de fabricação de queijo e medição das emissões de CH4 usando o equipamento Laser Methane Mini oito vezes a cada 06 horas.

“Não foi encontrado nenhum efeito negativo na ingestão de matéria seca, de taninos ou de gordura na produção de leite, ou de ácidos graxos na composição do leite, bem como o efeito foi positivo de taninos no pH ruminal e na produção de AGV. E dentro do rúmen, o efeito também foi positivo de taninos no número de protozoários, que apresentou a menor produção de metano, e na temperatura corporal”, elencou Formigoni, ampliando: “Os resultados nas propriedades de fabricação de queijo também foram satisfatórios, comprovando que o uso de taninos na dieta é seguro para a produção de queijo”.

Descobertas sobre a emissão de metano

Após o experimento, o docente da Universidade de Bologna constatou que a emissão de CH4 registrada no teste foi relativamente baixa em comparação com a previsão teórica média (<13g/kg/CMS vs 19g/kg/CMS). “A ração à base de feno pode ser um motivo para a baixa emissão de metano”, supõe Formigoni.

O professor evidencia ainda que não foram detectadas diferenças entre os tratamentos de ração ofertada. Também constatou que usando a análise de Cluster as vacas são divididas de acordo com o CH4 diário, com isso as emissões de metano foram reduzidas a 260 gramas/dia, e três das oito vacas que participaram do teste apresentaram emissores de metano de 258 g/dia, não houve efeito negativo de taninos e/ou fonte de gordura, porém, cinco vacas emitiram 314 g/d de CH4.

Em outro estudo com taninos, comprovou-se o que pesquisas científicas já haviam demonstrado anteriormente, que os polifenóis de origem vegetal reduziram a emissão de metano em altos emissores (gorduras saturadas e insaturadas) em 30 g/d.

Formigoni conclui que as medições de CH4 em condições de campo ainda são um desafio e que no futuro será muito importante produzir mais dados de experimentos para ter uma previsão ainda melhor dos benefícios dos taninos. “Apesar de termos diferentes equações de emissão teórica, são necessários mais ensaios com diferentes tipos de ração, contudo, os testes realizados confirmaram que taninos e saponinas têm efeito positivo, com influência sobre bem-estar ruminal, redução de protozoários e redução de CH4”, enfatiza.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Bovinos / Grãos / Máquinas

“É muito importante que tenhamos métricas que consigam caracterizar melhor o impacto do metano no aquecimento global”, afirma especialista

Para o pesquisador e professor PhD da Universidade da Califórnia Davis (EUA), Frank Mitloehner, a métrica do GWP* é a metodologia mais adequada para mensurar o metano produzido, pois avalia como a emissão de um gás de efeito estufa de curta duração afeta a temperatura do planeta.

Publicado em

em

Arquivo/OP Rural

Com capacidade de retenção de calor superior a do dióxido de carbono (CO2), a redução das emissões de metano (CH4) pode ter um impacto significativo e muito rápido no controle do aquecimento global, pois, apesar da sua curta vida na atmosfera – pouco mais de dez anos – é 28 vezes mais potente que o CO2 como gás de efeito estufa em um período de 100 anos. Dessa forma, sua captura poderia contribuir para esfriar o planeta, se contrapondo ao CO2, que permanece na atmosfera por cerca de um milênio.

Chefe do Centro de Conscientização e Pesquisa Ambiental (Clear), pesquisador e professor PhD da Universidade da Califórnia Davis (EUA), Frank Mitloehner: “Se as emissões de metano forem constantes, do que é produzido e do que é destruído, a pecuária não vai mais adicionar gás metano na atmosfera após dez anos” – Foto: Reprodução

É o que afirmou o chefe do Centro de Conscientização e Pesquisa Ambiental (Clear), pesquisador e professor PhD da Universidade da Califórnia Davis (EUA), Frank Mitloehner, durante o Fórum Metano na Pecuária – o caminho para a neutralidade climática, promovido no mês de maio pela JBS, em parceria com a Silva Team, em São Paulo (SP).

Essa comparação entre os gases feita pelo pesquisador norte-americano ilustra os cálculos do GWP 100 (Potencial Global de Aquecimento), medida adotada mundialmente para mensurar as emissões globais de gases do efeito estufa, no entanto, esse sistema considera apenas o potencial dos gases e não o período de vida útil de cada um. “É importante entendermos que o metano é muito diferente de outros gases”, ressalta, acrescentando: “Esse sistema tem sido usado nos últimos 30 anos, apesar dos cientistas já terem alertado sobre outros fatores que devem ser levados em consideração neste cálculo, porque o metano tem um alcance bem maior em sua vida útil”, pontua Mitloehner.

Para ele, a métrica do GWP* é a metodologia mais adequada para mensurar o metano produzido, pois avalia como a emissão de um gás de efeito estufa de curta duração afeta a temperatura do planeta. “O GWP* é uma nova maneira de caracterizar os gases de efeito estufa de curta duração, ele não é apenas responsável pela curta vida útil do metano, mas também pela sua remoção atmosférica. Ao contrário do GWP 100 que superestima o impacto do aquecimento do metano por um fator quatro vezes maior do que realmente é, ignorando sua capacidade de induzir o resfriamento quando as emissões de CH4 são reduzidas. Por isso, reafirmo, é muito importante que tenhamos métricas que consigam caracterizar melhor o impacto do metano no aquecimento global e o GWP100 não faz isso”, expõe Mitloehner.

Segundo o professor PhD, anualmente mais de 558 milhões de toneladas de metano são produzidas no mundo, emitidas não apenas pelo agronegócio, mas também através da produção de combustíveis fósseis, da energia elétrica, do desmatamento, dos aterros sanitários, das indústrias de carvão e gás natural. Desta quantidade, segundo Mitloehner, cerca de 548 milhões de toneladas são destruídas na atmosfera pela reação com o radical livre hidroxila (OH). “Isso significa que há um processo de remoção atmosférica para o metano, ou seja, não está apenas sendo produzido, mas também está sendo destruído”, pontua.

De acordo com o chefe do Clear, se num horizonte de dez anos as emissões de metano permanecerem constantes no rebanho bovino, a pecuária de corte contribuirá para o aumento da temperatura do planeta somente na primeira década, porque após esse período a quantidade emitida será a mesma que está sendo destruída, ou seja, o CH4 não será adicionado à atmosfera, consequentemente o aquecimento será neutralizado. “Se as emissões de metano forem constantes, do que é produzido e do que é destruído, a pecuária não vai mais adicionar gás metano na atmosfera após dez anos, com isso o metano não mais vai aquecer a terra, no entanto, se aumentar a quantidade de animais na pecuária não será possível conseguir essa neutralização”, expõe.

“O metano é um gás do efeito estufa poderoso e que nós queremos reduzir, mas é importante pensar em todas as suas propriedades para entender que o metano não é apenas um problema, mas também uma oportunidade de buscarmos a solução. O metano é basicamente energia, pode ser queimado, pode virar eletricidade, combustíveis, nós não queremos perder o metano, para isso precisamos mudar a maneira como pensamos neste gás, é essa a mensagem que quero passar para vocês”, salientou.

Neste sentido, o pesquisador destacou que as tecnologias existentes para reduzir as emissões da pecuária, como aditivos alimentares para melhorar a eficiência de digestão dos animais que podem contribuir, inclusive, para resfriar a atmosfera e compensar as emissões de outros gases.

Agropecuária e o metano

Por ano são criados mais de 70 bilhões de animais para consumo humano. Entre as principais fontes de emissão de metano na agropecuária estão o estrume e a fermentação entérica – um processo digestivo natural que acontece em animais ruminantes, como gado, ovelhas e cabras – responsáveis por cerca de 40% das emissões da agropecuária nas últimas duas décadas.

O esterco no pasto libera óxido nitroso, um gás de efeito estufa cuja contribuição, por tonelada, para o aquecimento global é 265 vezes mais potente do que a do dióxido de carbono. Esses dois processos da pecuária correspondem a mais da metade das emissões totais da produção agrícola. O cultivo de arroz e os fertilizantes sintéticos também são fontes emissoras de CH4, cada um representa mais de 10% das emissões do setor.

Nos EUA, em 2021 a produção de carne bovina foi de 12,6 milhões de toneladas e a produção total de leite registrou 102,5 bilhões de quilos, enquanto o Brasil produziu 10,3 milhões de toneladas de carne bovina e mais de 34 bilhões de litros de leite. “De 114 mil cabeças de gado na década de 70, os EUA chegaram próximo de 92 milhões de cabeças no ano passado, mas, apesar deste crescimento, as emissões se mantiveram estáveis”, relata.

Origem das emissões

Mitloehner explica que o sistema de emissões da pecuária começa pelo pasto, que utiliza o gás carbônico (CO2) presente no ar para fazer a fotossíntese. Em seguida, essa pastagem é consumida pelo gado, que transforma o CO2 em metano durante a digestão, liberando-o na atmosfera. “Ou seja, o metano volta a se transformar em gás carbônico, que novamente será utilizado pelas plantas. Dessa forma, concluímos que a origem das emissões de metano por bovinos é decorrente do carbono, que já estava presente na atmosfera”, frisa.

O que acontece quando aumenta, estabiliza ou diminuiu o metano?

Mitloehner nos convida a imaginar três cenários com o CH4 em um horizonte de 30 anos. No primeiro, com aumento da emissão de metano em 35% – isso aconteceu nos países em que a produção de gado está crescendo ano após ano; no segundo, com perspectiva de diminuição em 10% e no terceiro com uma hipótese em que as emissões sejam reduzidas a 35%. “Ao diminuir levemente o metano na pecuária não terá nenhum aquecimento adicional, ou seja, seu resultado será negativo para o aquecimento, e é isso que estamos buscando. Mas, se diminuir fortemente o metano estará tirando muito carbono do ar e terá um aquecimento negativo. Agora, se diminuir o metano constantemente, mesmo que pouco, não teremos nenhum aquecimento e é isso que estamos buscando fazer”, sugere o pesquisador.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor de bovinocultura, commodities e maquinários agrícolas acesse gratuitamente a edição digital Bovinos, Grãos e Máquinas.

Fonte: O Presente Rural
Continue Lendo

Bovinos / Grãos / Máquinas

Boas práticas de manejo de gado

Entre os benefícios das boas práticas de manejo de gado está a obtenção de maiores ganhos a baixo custo de produção, ou seja, maior eficiência nas propriedades

Publicado em

em

Foto: Assessoria

A pecuária é uma das atividades econômicas mais importantes do Brasil e do mundo e, cada vez mais, a demanda por alimentos de origem animal aumenta. Nesse contexto, é necessário adotar boas práticas de manejo de gado, seja ele de corte ou leite, em pasto ou em confinamento.

Todas as fases da vida do animal devem ser observadas atentamente, do nascimento ao abate. Entre os benefícios das boas práticas de manejo de gado está a obtenção de maiores ganhos a baixo custo de produção, ou seja, maior eficiência nas propriedades.

Quando se trata de animais de corte, para que o manejo seja o melhor possível se faz necessário contribuir fortemente com o bem-estar animal e, assim, garantir a qualidade de vida dos animais enquanto se produz mais e melhor. No entanto, antes de saber o que fazer exatamente para melhorar os resultados, é preciso identificar o que está errado.

Segundo o coordenador Técnico da Premix, André Pastori D’Aurea, além de estressar o gado, o manejo inadequado dos animais os deixa agitados e dificulta a atividade como um todo. Barulhos causados pelas instalações, como portões, ferrolhos e bretes de contenção podem gerar ruídos que incomodam os animais, assim como gritos e movimentos bruscos podem assustá-los. Da mesma forma, o número de acidentes com os animais e colaboradores tende a aumentar nesse cenário.

“Em propriedades onde o manejo é ineficaz, é comum encontrar animais doentes ou lesionados com fraturas, torções, cortes e hematomas, por exemplo, o que, além de afetar o bem-estar dos bovinos, interfere na qualidade da carne após o abate”, explica D’Aurea.

Em poucas palavras, com manejo inadequado, o pecuarista não produz de maneira lucrativa e apenas arca com os prejuízos da falta de cuidado.

Já o manejo de gado adequado leva em conta a forma como o pecuarista lida com os animais, além da atenção à segurança do trabalho dos profissionais envolvidos no processo. Os cuidados começam desde o nascimento do bezerro, passando pelo transporte dos animais de corte até ao abate, como é exemplificado nas etapas abaixo:

– Recepção e destinação;

– Identificação dos animais;

– Pesagem individual;

– Vermifugação e vacinação do rebanho;

– Monitoração do consumo e do desempenho do gado;

– Leitura de cocho para o ajuste da alimentação;

– Condições adequadas de cocho e de água.

“Os bovinos devem ter acesso a um bom manejo em cada uma dessas etapas. Os animais devem ser conduzidos sempre ao passo, sem correrias e sem gritos e o vaqueiro deve trabalhar sempre à frente do lote que está conduzindo, atuando como ponteiro”, ressalta o coordenador.

 

Bem-estar animal

Como já destacado, um bom manejo de gado passa pela atenção ao bem-estar animal. Por isso, o criador deve cuidar para que os animais tenham comida e água disponíveis, estejam livres de qualquer tipo de desconforto, libertos de dor, doença e injúria, tenham facilidade para expressar seu comportamento natural e não sofram com estresse e medo.

Para cumprir todos os requisitos, é necessário contar com uma equipe treinada e alinhada com os propósitos da fazenda. “É importante capacitar os funcionários sobre as boas práticas de manejo de gado no curral em relação à sanidade, alimentação e outras atividades realizadas diariamente na propriedade. Assim, a equipe vai compreender a importância de tratar bem o rebanho”, orienta D’Aurea.

 

Conforto térmico

Além de tudo o que já foi dito sobre manejo de gado, é importante estar atento ao conforto térmico, já que boa parte do estresse animal pode ocorrer devido ao calor.

Para minimizar a temperatura, podem ser utilizadas sombras naturais provenientes de árvores, por exemplo. O esquema utilizado pela ILPF (Integração Lavoura Pecuária Floresta) possui esse grande benefício, já que os animais usam o sistema arbóreo natural para obter conforto.

Caso a propriedade não disponha de sombra natural, é possível utilizar sombras artificiais para proporcionar maior conforto aos animais em confinamento.

 

Dicas de manejo

Veja algumas dicas práticas para fazer um manejo racional e fornecer condições para o bem-estar dos animais:

– Profilaxia (prevenção) e tratamento de doenças são sempre necessários;

– Forneça quantidade e qualidade adequadas de alimento e água;

– Forneça espaço de cocho correto para o tipo de dieta e categoria animal;

– Avalie os comportamentos individuais da mesma forma que os em rebanho;

– Não utilize materiais pontiagudos na condução dos animais;

– Auxilie o manejo de gado durante as pesagens para que não ocorra pisoteio e lesões;

– Evitar aglomeração de pessoas nos currais durante o manejo;

– Evite gritos. Essa atitude estressa o animal e dificulta o manejo, além de afetar a qualidade da carne.

Para finalizar, é importante ressaltar que todos os manejos, quando bem executados, contribuem para a qualidade de vida e promovem melhor desempenho dos animais.

 

André Pastori D’Aurea – coordenador técnico da Premix

Fonte: Assessoria
Continue Lendo
EVONIK 2022

NEWSLETTER

Assine nossa newsletter e recebas as principais notícias em seu email.