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Tecnologias auxiliam pecuaristas a ganhar mais dinheiro fazendo menos

Especialistas mostram como melhor pastagem, tecnologia barata para criação de bezerras e nutrição de precisão auxiliam produtor a produzir mais com menos

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Arquivo/OP Rural

Produzir mais com menos tem sido, cada vez mais, o objetivo dos pecuaristas leiteiros brasileiros. Por isso, adotar tecnologias e formas de produção que garantam esses resultados tem sido essencial para a própria sobrevivência de alguns produtores na propriedade. Para ajudar com isso, e também explicar sobre tudo que envolve a produção leiteira, o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR) levou até o Show Rural Coopavel, em Cascavel, PR, no início de fevereiro, o “Caminhos do Leite”.

Na primeira parada, o produtor já aprende sobre as diversas forrageiras que existem e qual a melhor para a sua propriedade. Segundo o zootecnista e extensionista do IDR, Endrigo Antônio de Carvalho, a alimentação é parte fundamental para uma boa produção. “Dentro da alimentação temos que olhar como o produtor deve fazer para diminuir os custos de produção, porque é notório quanto o menor custo de produção maior a margem de lucro”, comenta.

Ele explica que o que estavam mostrando aos pecuaristas é que existem tecnologias disponíveis no mercado em termos de pastagens que vão favorecer ele na hora de produzir, seja leite ou carne. “Mostramos 16 materiais de forrageiras que vão ser indicadas para o produtor de acordo com a características dele, da propriedade dele”, conta. “A gente direciona o produtor para uma pastagem que irá se adaptar à realidade dele”, diz.

Carvalho destaca que o produtor deve pensar, em termos de pastagem, que ele escolha uma que produza muito bem no ano, que tenha boa digestibilidade, teor de proteína elevado e que a cultivar permita que se mantenha a conservação do solo. “Isso é muito importante, a gente costuma dizer que a pastagem é um investimento no curto prazo, em termo de alimentação, ou seja, em leite ou carne. Mas o solo é um investimento no longo prazo. Assim, as vezes o produtor está preocupado em fazer dinheiro para amanhã, mas não está preocupado com o solo. Por isso sempre recomendamos as melhores pastagens para manter também a qualidade do solo”, diz.

Além disso, de acordo com o extensionista, existem diversos tipos de pastagens, e aquelas que são melhoradas, que produzem muito bem e têm uma produtividade boa, exigem mais fertilidade. “O produtor tem muitas ferramentas na mão dele. O que ele precisa é escolher aquela que irá se adequar à realidade dele”, reforça.

Carvalho informa ainda que, atualmente, em termos de pastagem, a alimentação corresponde pelo menos entre 55 a 60% do custo de produção. “Então se ele não tem uma pastagem de qualidade e quantidade na propriedade, ele vai ter que buscar fora da propriedade. E é sabido que quando mais insumos o produtor precisa trazer de fora, maior será o custo dele. Se ele conseguir intensificar a produção de forragem com qualidade, ele vai precisar trazer menos farelo de fora, menos ração. Então vai diminuir as despesas e aumentar o lucro dele”, explica.

O zootecnista ainda reitera que o primeiro passo para a escolha de uma boa pastagem e que trará melhores resultados é o produtor se preocupar com o solo. “É preciso que ele faça uma análise de solo. Ele pode entrar em contato com o pessoal da Emater (extensão rural do Paraná), que então eles orientam nesse sentindo de como fazer a coleta do solo e depois a própria recomendação de como fazer para acertar a quantidade de nutrientes necessários para aquele solo naquele momento”, explica. “Depois de fazer a correção do solo e utilizar a pastagem recomendada, o extensionista irá orientar o produtor sobre qual a melhor forma dele implantar a pastagem, porque muitas vezes ele vai fazer o investimento em análise e correção de solo, mas na hora de implementar, faz de forma incorreta”, comenta.

Para Carvalho, seguindo esses passos de forma correta, ou seja, corrigindo o solo, escolhendo e implementando a melhor pastagem, além de fazer o manejo correto do pasto, ele vai ter bons resultados. “O manejo também é importante, porque cada pasto tem uma característica diferente em termos de momento ideal para colocar o animal para pastejar e o momento para tirar. Da mesma forma que ele investiu em correção de solo, semente e implantação, mas não cuidou do pasto depois, ele pode acabar com essa pastagem em dois anos”, informa. Assim, explica, se o produtor cuidar como o recomendado, ele vai ter um pasto por cinco, 10 anos ou mesmo mais tempo. “Enquanto esse pasto perdurar e ele for fazendo a manutenção, ele vai retirar a maior quantidade de alimento possível, com a maior qualidade e diminuindo as despesas em alimentação”, afirma.

O extensionista comenta que hoje o produtor tem muito acesso às informações, mas que é preciso saber filtrar o que recebe. “É fato que existe muita propaganda de materiais que são bons. Mas esse material não é ideal para todos os produtores, isso porque ele foi desenvolvido em uma região. Por exemplo, passa na televisão uma propagando de uma matéria que foi desenvolvido no Mato Grosso do Sul e que é muito boa. Mas o produtor que ficou interessado nela mora no Paraná. Então esse produtor não pode ficar refém das informações da televisão ou das mídias sociais. Por isso a Emater está presente em todos os municípios para orientar o produtor nesse sentido, para que ele não invista em algo que não é tão interessante para a realidade dele”, comenta.

Tecnologia acessível e barata

Durante o “Caminho do Leite” outra parada era para o produtor ver sobre tecnologias disponíveis para criação de bezerras. A zootecnista e extensionista do IDR, Sue Ellen de Menezes Borges, demonstrou uma instalação de baixo custo para criar bezerras individualmente. “Dessa forma elas estão próximas umas das outras quando recebem leite, mas elas não se tocam. É importante porque quando as bezerras não se tocam, diminui a contaminação de doenças e também as mamadas cruzadas, diminuindo também a incidência de pneumonia e diarreia, que são os principais problemas que ocorrem com a bezerra até o desmame”, explica.

 A tecnologia é muito simples, e para ser feita são utilizados materiais que o produtor tem na própria fazenda, como madeira, arrame e sombrite. “Esse local proporciona um ambiente muito mais limpo, bem arejado e confortável, uma vez que a bezerra tem espaço para caminhar – são praticamente 10 metros –, é mais limpo e de baixo custo”, informa.

Sue Ellen conta que a tecnologia ajuda bastante na criação dos animais. “Nós percebemos que esta tecnologia é um sistema que acelera o crescimento da bezerra, porque a ideia é que o animal vá do nascimento até a primeira cobertura com no máximo 13 meses, se ela não ficar doente. Isso é possível com facilidade e pouco gasto”, garante. Ela explica que quando a bezerra é criada em um ambiente úmido ela fica muito mais doente e isso retarda o crescimento dela. “Então, o tempo está correndo, mas o crescimento dela não está acontecendo, e isso resulta em gasto para o produtor”, diz.

De acordo com ela, do jeito que está a situação leiteira hoje em dia, o produtor tem que trabalhar sempre no sentido de reduzir custos. “E o que vemos é que muitos produtores são de agricultura familiar. Dessa forma, ele não tem muito tempo para cuidar da lactação, dos pastos, da silagem, da bezerra, entre outros. Então, quanto menos serviço ele tiver, quanto mais otimizado e eficiente foi a atividade, melhor para ele”, comenta.

Além disso, a extensionista afirma que qualquer produtor de leite pode utilizar desse sistema, desde o pequeno até o grande. “Se o produtor tem bezerra, pode aplicar que ele vai criar bem. Isso é um investimento”, afirma. “A tecnologia é acessível para todo mundo, não importa o tamanho da área. Com ela, a bezerra vai ser criada em uma área de piquete de baixo porte, como grama tifton, por exemplo, que são capins que o bezerro vai conseguir começar a ingerir com facilidade, já que essas são folhas finas e macias”, comenta. Outro detalhe sobre o sistema é a colocação de água e comida dos animais. “O cocho com ração fica de um lado e o bebedouro do outro, justamente para forçar essa caminhada e movimentação do animal”, conta. Sue ainda destaca que quem fazer o desmame precoce tem que dar ração aos animais. “Se começar a dar ração antes, a partir do momento que ela consumir no mínimo 800g por três dias e dobrar o peso do nascimento no desmame, o produtor pode tranquilamente mandar a bezerra para o piquete em lotes coletivos e homogêneos com poucos animais, que ela vai se desenvolver bem”, assegura.

Nutrição de precisão

Outro detalhe para garantir mais renda e menos gastos para o produtor, e que foi apresentado durante o “Caminho do Leite”, é quanto a nutrição do animal, especialmente na fase de lactação. “Nessa fase a vaca muda com o tempo. Então vai de início para um mês e fim de lactação. Em cada fase dessas ela precisa de nutrientes diferentes para poder atender as exigências dela”, explica o coordenador da área de produção animal do IDR, doutor Vanderlei Bett.

“Como fazemos a nutrição de precisão, temos um pasto bem manejado, então ele vai fornecer o máximo de nutrientes que aquela espécie vai poder fornecer. O complemento da exigência é com concentrado”, comenta. Ele informa que vacas em início de lactação são aquelas mais difíceis, porque elas precisam de muito nutriente. “Porque é nessa fase que ela chega no pico de lactação”, explica. Depois disso, continua, vai caindo a produção no decorrer dos meses, sendo em torno de 10% ao mês. “Desde que a vaca seja bem nutrida, com pasto de boa qualidade e ração bem balanceada”, alerta.

Segundo ele, isso faz com que o produtor tenha sobra e um custo de produção menor, sobrando assim mais dinheiro no bolso dele. “A diferença é que entre você fazer a nutrição convencional, que é um tipo de ração só para todos os animais, só mudando a quantidade, que é a regra de para cada três litros de leite produzido com um quilo der ação. A diferença de fazer a nutrição de precisão gira em torno de 30% do lucro ou sobras de dinheiro que o produtor poderia ter dentro da propriedade”, conta. Bett informa que a média recebida hoje pelo produtor é de R$ 1,30. Dessa forma, 30% desse valor corresponde aproximadamente a 50 centavos para cada litro de leite produzido na propriedade. “Isso é uma diferença muito grande, um valor que o produtor está deixando de ganhar”, afirma.

Ele explica que é mais difícil de mostrar isso para o produtor, uma vez que este não é um valor que está saindo do bolso dele, mas que está deixando de entrar. “O produtor normalmente não consegue ver essa diferença de deixar de ganhar dinheiro. O mais correto, como o sistema de produção de leite é muito complexo, e o produtor tem muitos afazeres, o produtor não tem tempo de fazer tudo ele precisa sem o auxílio de alguém, como um técnico ou um extensionista do IDR para fazer o acompanhamento e poder fazer esse cálculo de ração”, afirma. “Cada uma dessas fases de lactação tem que ter um complemento de concentrado diferente para atender à exigência nutricional dos animais. Por isso é tão importante buscar a assistência técnica, por que eles irão ajudar o produtor a ganhar mais dinheiro”, sustenta.

Outras notícias você encontra na edição de Bovinos, Grãos e Máquinas de março/abril de 2020 ou online.

Fonte: O Presente Rural

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Nova gestão da Girolando prioriza crise do leite e inovação no campo

À frente da entidade, Alexandre Lacerda defende combate às importações e ampliação do acesso ao melhoramento genético para pequenos e médios pecuaristas.

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Foto: Divulgação/Girolando

Uma das maiores entidades do setor leiteiro do país, a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando passa a ser comandada pelo pecuarista e advogado Alexandre Lopes Lacerda. A posse da Diretoria e Conselhos eleitos para o triênio 2026/2028 ocorreu na quinta-feira (26), em Uberaba (MG), e contou com a presença de diversas lideranças do agro e criadores, dentre elas a prefeita de Uberaba Elisa Araújo, os deputados federais Emidinho Madeira e Rafael Simões e o secretário de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento Thales Fernandes.

Entre as prioridades do novo presidente estão: defesa dos direitos dos produtores de leite, incluindo ações para combater a atual crise do leite; facilitar o acesso de pequenos e médios produtores às tecnologias de melhoramento genético e a animais de alta qualidade. “Queremos fortalecer o programa de melhoramento da raça Girolando, o PMGG, desenvolvendo ferramentas para potencializar a utilização das informações genética pelos criadores, permitindo a customização de índices genéticos para cada fazenda e acompanhando a evolução a cada geração. Vamos nos empenhar nesses próximos três anos para que mais e mais produtores adotem essas inovações, visando produzir um Girolando moderno, eficiente e sustentável”, assegura Lacerda.

Durante a solenidade, as lideranças presentes reforçaram a necessidade de unir forças na defesa dos direitos dos produtores rurais. Segundo o deputado Rafael Simões, uma das ações em andamento é para inibir a importação de leite do Uruguai e da Argentina, que vem prejudicando o setor. O secretário de Minas Thales Fernandes disse que o governo mineiro também vem trabalhando para vencer a atual crise do leite e para levar mais tecnologia par ao campo. O deputado Emidinho Madeira destacou a parceria com a Girolando para levar mais genética de qualidade para as pequenas propriedades leiteiras. A prefeita de Uberaba Elisa Araújo assegurou que o agro é importante para a economia da cidade e que vários projetos voltados para a pecuária estão levando mais renda para o campo.

Em seu discurso de despedida, Domício Arruda, que comandou a Girolando na gestão 2023/2025, ressaltou as realizações feitas, dentre elas a construção da Casa do Girolando no Parque Fernando Costa, a aquisição de um terreno para construção de uma nova sede, os dois anos seguidos de recordes nos registros. Segundo ele, a raça chega a 2026 mais consolidada, com várias tecnologias  de seleção dentro do PMGG e reconhecida pelo mercado internacional como a genética leiteira ideal para os trópicos.

Com mais de quatro mil associados em todo o país, a Associação de Girolando intensificará este ano ações promocionais para ampliar o consumo de leite na sociedade brasileira. Durante a Megaleite 2026, exposição nacional da raça marcada para junho, a entidade levará o tema “Aqui tem leite”, mostrando que nos mais diversos produtos, como medicamentos, alimentos, suplementos, o leite é utilizado como matéria-prima. “O leite é um produto fundamental no dia a dia das pessoas e precisamos reforçar com informações relevantes suas qualidades para o público em geral, até para combater tantas fake news que existem sobre o alimento”, diz Alexandre Lacerda, que é criador da raça Girolando há duas décadas, na Fazenda Miraí, localizada na região da Serra do Cipó, além de atuar na área de advocacia.

Fonte: Assessoria Girolando
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Lei Complementar eleva custo tributário nas cadeias de leite, café, trigo e soja

Redução linear de 10% nos benefícios fiscais federais altera créditos presumidos, cria pontos de cumulatividade e deve pressionar preços ao consumidor, com impacto também sobre fertilizantes e insumos agropecuários.

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Foto: Isabele Kleim/Divulgação

A publicação da Lei Complementar 224/2025, que promoveu um corte linear de 10% nos benefícios fiscais federais incidentes sobre diferentes elos do agronegócio, deve elevar custos ao longo das cadeias de leite, café, trigo e soja. A expectativa é de repasse gradual ao consumidor final e de reabertura do debate sobre a cumulatividade de tributos que, até então, operavam sob lógica não cumulativa.

Foto: Gilson Abreu/AEN

Na avaliação da advogada tributarista Cintia Meyer, a nova sistemática tende a gerar efeito cascata. Ao reduzir créditos presumidos e alterar incentivos, a medida amplia o custo tributário em segmentos que já enfrentam compressão de margens, pressionados por custos elevados de produção e preços internacionais deprimidos de commodities.

O Demonstrativo de Gastos Tributários (DGT) que integra a Lei Orçamentária Anual lista cerca de 300 hipóteses de benefícios fiscais, além de outras 14 tratadas especificamente na Lei Complementar 224/2025. Segundo Meyer, empresas que utilizam qualquer desses mecanismos precisarão revisar suas estruturas tributárias. “Se a empresa conta com algum desses benefícios, o impacto pode ser direto no resultado”, afirma.

Como a norma foi sancionada em dezembro, seus efeitos já alcançam o IRPJ e o Imposto de Importação desde 1º de janeiro, em respeito ao princípio da anterioridade. Para PIS, Cofins, IPI, CPS e CSLL, as novas regras passam a valer a partir de 1º de abril, ampliando o alcance da medida ao longo do primeiro semestre.

Leite tem corte em créditos e nova tributação sobre derivados

Foto: Fernando Dias

Na cadeia do leite, a Lei Complementar 224/2025 reduz de forma direta os créditos presumidos concedidos à indústria. Para os laticínios em geral, o percentual cai de 1,85% para 1,67%. Já no caso das empresas enquadradas no Programa Mais Leite Saudável, o crédito passa de 4,63% para 4,17%. Embora se trate de um benefício condicionado à realização de investimentos, o texto legal não explicita se esse mecanismo poderia ser exceção ao corte linear, o que amplia a insegurança jurídica do setor.

Em documento de perguntas e respostas, a Receita Federal informou que a aplicação do benefício deverá ser analisada “caso a caso”, de acordo com a execução dos projetos aprovados no programa, abrindo margem para interpretações distintas e potenciais questionamentos administrativos ou judiciais.

No consumo doméstico, os produtos que integram a cesta básica seguem com alíquota zero. No entanto, itens relevantes do portfólio dos laticínios, como leite fluido, soro de leite, leite fermentado e bebidas lácteas, passam a ser tributados em 0,925% de PIS/Cofins, elevando o custo ao longo da cadeia e pressionando as margens da indústria. As exportações, por força da imunidade constitucional, permanecem isentas de tributação.

Exportações de café têm redução de crédito presumido

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Na cadeia do café, a indústria de torrefação mantém a aplicação de alíquota zero nas vendas internas, por se tratar de produto incluído na cesta básica. A mudança ocorre nas operações de exportação. Com a Lei Complementar 224/2025, houve redução dos créditos presumidos vinculados às vendas externas.

Para o café cru, o crédito presumido sobre a aquisição de insumos recua de 7,4% para 6,66%. Já no café torrado ou solúvel, o percentual calculado sobre a receita de exportação cai de 0,925% para 0,8325%. A diminuição reduz a margem das empresas exportadoras e altera a estrutura de custos em um segmento altamente dependente do mercado internacional.

Trigo concentra efeitos mais sensíveis da mudança

Na cadeia do trigo, os efeitos são distintos e considerados mais sensíveis. Segundo a tributarista, a principal mudança atinge a aquisição do grão destinado à produção de farinha. “A operação, que antes estava sujeita à alíquota zero, passa a ser tributada sem direito a crédito para o comprador. Na prática, trata-se de um tributo não recuperável, incorporado diretamente ao custo de aquisição”, explica Cintia.

Como a farinha é insumo básico para a fabricação de pães, o impacto tende a se propagar ao longo da cadeia, elevando o custo do produto final e pressionando o preço ao consumidor.

Foto: Cleverson Beje

Além da tributação na aquisição do grão, a Lei Complementar 224/2025 também reduziu o crédito presumido de 3,24% para 2,92% para o trigo. “As vendas no mercado interno permanecem inalteradas para os produtos incluídos na cesta básica, como farinha de trigo e pré-mistura para pão, que seguem com alíquota zero. Já os itens fora desse rol, como pré-misturas para bolos, mantêm a tributação anteriormente aplicada”, detalha Cintia.

Para o advogado tributarista Luiz Eduardo Costa Lucas, a alteração cria uma distorção no sistema. Segundo ele, trata-se de um caso em que um produto que operava com alíquota zero passa a gerar incidência tributária no meio da cadeia, sem possibilidade de creditamento. “Na prática, o imposto recolhido não é recuperável, incorpora-se ao custo e reabre a discussão sobre a não cumulatividade, tema debatido desde 2004. O resultado é a transferência do encargo ao consumidor final”, pontua.

Milho tem crédito presumido reduzido ao longo da cadeia

Foto: Fernando Dias/Ascom Seapi

Estrutura semelhante foi adotada na cadeia do milho. Embora os insumos não tenham sido diretamente afetados, o crédito presumido sobre aquisições de pessoas físicas foi reduzido de 3,24% para 2,92%. No óleo de milho, tanto as vendas no mercado interno quanto as exportações tiveram o crédito presumido diminuído, de 2,498% para 2,248, ampliando a pressão sobre as margens do setor.

Óleo de soja perde desoneração e crédito é reduzido

Na cadeia da soja, a aquisição de insumos permanece sem alterações. A mudança ocorre na etapa de comercialização. O óleo de soja, atualmente enquadrado na cesta básica e sujeito à alíquota zero de PIS/Cofins, mas fora do rol previsto na reforma tributária, passará a recolher 0,925% desses tributos.

Além disso, o crédito presumido sobre as vendas de farinha de soja, óleo e resíduos foi reduzido em 10%, caindo de 2,498% para 2,248%, o que comprime as margens ao longo da cadeia.

Fertilizantes passam a ter tributação na entrada e na saída

Foto: Claudio Neves

Impacto mais amplo é observado na indústria de fertilizantes. Insumos agropecuários que até então operavam com alíquota zero de PIS/Cofins passam a ser tributados em 0,925%. O mesmo percentual incidirá sobre as vendas no mercado interno de adubos, defensivos, sementes, mudas e corretivos, que também eram desonerados.

Segundo Cintia, o efeito é cumulativo. “O segmento passa a ser tributado na aquisição, sem direito a crédito, e também na saída. No caso da importação, a indústria de fertilizantes terá de recolher PIS e Cofins sem possibilidade de compensação”, afirma a tributarista.

Na prática, trata-se de um custo adicional incorporado à formação de preços, com potencial de repercussão direta sobre os produtores rurais e, ao final da cadeia, sobre o consumidor.

Insegurança jurídica amplia risco de cumulatividade e judicialização

Diante da ausência de uma lista expressa sobre quais benefícios foram efetivamente alcançados pela Lei Complementar 224/2025, Cintia recomenda uma análise criteriosa caso a caso. Segundo ela, é necessário verificar se o tributo envolvido está entre aqueles abrangidos pela norma, como PIS, PIS-Importação, Cofins, Cofins-Importação, Imposto de Importação (II), IPI, IRPJ, CSLL e CPP.

Além disso, o benefício precisa constar no Demonstrativo de Gastos Tributários da Lei Orçamentária Anual (LOA), enquadrar-se como incentivo fiscal e não se tratar de uma exceção legal específica.

Fonte: Martinelli Advogados

Segundo Cintia, os critérios mencionados não esgotam as possibilidades de enquadramento e a interpretação dependerá, em grande medida, do entendimento adotado pela Receita Federal, aspecto que não está detalhado na Lei Complementar 224/2025. “Há situações que, em tese, não se enquadram, mas a Receita pode interpretar de forma diferente, o que pode gerar discussões amplas e até judicialização”, menciona a advogada.

Por sua vez, Costa Lucas observa que, até o fim do ano passado, não havia preocupação prática em diferenciar, sob a ótica do governo, o que seria benefício fiscal e o que configuraria gasto tributário. Anualmente, a Receita encaminha a relação de gastos, mas a nova regra levanta a dúvida sobre se todos os itens listados podem ser automaticamente classificados como benefícios. “Nem tudo que está ali necessariamente é benefício”, pontua.

Foto: Divulgação/Governo da Bahia

Para ele, é essencial verificar se o item está previsto na Lei Orçamentária Anual (LOA) e, além disso, se efetivamente se caracteriza como incentivo fiscal. Como não há definição legal clara sobre esse enquadramento, forma-se uma zona de incerteza. Costa Lucas destaca que o debate sobre a natureza dessas rubricas estava adormecido e volta agora ao centro da discussão. Na avaliação dele, a redução linear pode atingir mecanismos básicos do sistema, reintroduzindo cumulatividade, especialmente em cadeias do agronegócio.

Na ponta, o impacto tende a alcançar o consumidor. Isso porque o varejo passará a adquirir produtos que sofreram tributação ao longo da cadeia sem possibilidade de crédito. Como o imposto é calculado ‘por dentro’, o custo se incorpora ao preço. Na prática, segundo a tributarista, um modelo concebido como não cumulativo passa a operar com efeitos cumulativos, pressionando o valor final pago pelo consumidor.

Fonte: O Presente Rural com Martinelli Advogados
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Nelore, o boi que samba

Enredo histórico levou o Nelore ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional, colocando a raça no centro da narrativa cultural do país e destacando sua importância para o agronegócio brasileiro.

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Foto: Divulgação/ACNB

Há 20 anos, em 28 de fevereiro de 2006, o icônico locutor da apuração do desfile de carnaval de São Paulo, anunciava: a Império de Casa Verde era bicampeã da folia paulistana. A vitória veio com um enredo que se tornou histórico para o agronegócio brasileiro, ao colocar o Nelore no centro da narrativa cultural do país e levá-lo ao Sambódromo do Anhembi como símbolo produtivo nacional.

A presença do Nelore naquela passarela não foi um gesto episódico nem ornamental. Foi a afirmação pública de uma trajetória construída no campo e, já naquela época, profundamente conectada ao desenvolvimento econômico e social do Brasil. Ao ocupar o carnaval, a raça mais representativa da pecuária nacional passou a dialogar diretamente com a sociedade, em um espaço onde o país se reconhece e se expressa culturalmente.

Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil – Foto Foto: Divulgação/ACNB

Falar do Nelore é falar da base da pecuária de corte. A raça responde por aproximadamente 80% do rebanho nacional com essa aptidão, sustentando um modelo produtivo adaptado às condições tropicais, baseado majoritariamente em pastagens e responsável por garantir escala, eficiência e regularidade à produção de carne. Trata-se de um estrutural, que sustenta toda a cadeia, mas que muitas vezes foi silencioso. Há mais de 70 anos, a Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB) tem dado “voz” a esses animais, que passaram a “cantar” a partir dos versos da Império, compostos por Rafael, Junior Marques e Carlos Jr.

Ao ganhar visibilidade no carnaval, esse protagonismo deixou de ser restrito ao ambiente técnico e passou a integrar o imaginário coletivo. O Nelore foi apresentado como elo entre passado e presente, entre tradição e ciência, entre cultura e produção. A avenida funcionou como espaço de tradução, permitindo que a pecuária fosse compreendida para além dos números e indicadores. Afinal, “Com o boi Nelore/ A pecuária e a ciência evoluiu/ E hoje é um orgulho nacional/ É saboroso, é divinal, pode aplaudir”.

A imagem do “boi que come capim” sintetiza esse modelo. Longe de ser simplificação, ela expressa um sistema produtivo eficiente, tropical e competitivo, construído com base em seleção genética, adaptação ambiental e trabalho contínuo dos criadores. É esse modelo que permitiu ao Brasil se consolidar como potência na produção de carne bovina, com identidade própria e vantagens comparativas claras.

À época, a equipe da ACNB participou diretamente daquele processo e pôde acompanhar como a linguagem cultural ampliou o alcance dessa história. Em vez de explicações técnicas, o Nelore foi apresentado por meio de símbolos, ritmo e imagem. As gravações estão disponíveis na internet para quem quiser conferir. Nelas, a ciência e o melhoramento genético apareceram traduzidos em narrativa acessível, aproximando o campo da cidade e gerando reconhecimento sobre o papel da pecuária na vida nacional.

Duas décadas depois, em 2026, o significado daquela presença permanece atual. O Nelore segue sendo o alicerce da pecuária brasileira – hoje líder em produção e em exportação –, acompanhando avanços tecnológicos, ganhos de produtividade e novos desafios ligados à sustentabilidade e à comunicação. O que se consolidou foi a consciência de que produzir bem também exige capacidade de diálogo com a sociedade.

O Nelore no carnaval simbolizou essa maturidade. Um boi que sustenta a pecuária nacional, que responde pela maior parte do rebanho de corte brasileiro e que também ocupa o espaço da cultura. Naquela avenida, ficou claro que o Nelore não é apenas base produtiva. É identidade, história e parte viva do Brasil. E, quando preciso, também samba.

Fonte: Artigo escrito por Victor Paulo Silva Miranda, presidente da Associação dos Criadores de Nelore do Brasil (ACNB).
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