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Suinocultura independente: novos tempos e velhos paradigmas

A busca por alternativas que caibam na granja, dentro do acompanhamento da experimentação e observação dos resultados, uma a uma, levará o produtor a um patamar de sucesso produtivo e financeiro.

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Fotos: Divulgação/Arquivo/OP Rural

A arte da criação de suínos ocorre quase que no mundo todo, com exceção da Antártida. É uma atividade que ocorre sob os mais diversos sistemas de produção (do extensivo ao intensivo), utilizando-se de diversos graus tecnológicos, com mão-de-obra de familiar a particular (terceirizada e quarteirizada), com o objetivo de criação de subsistência até como atividade econômica financeira primária.

No Brasil a suinocultura independente é praticada em todos os Estados, comumente como atividade de pequeno e médio porte, estando as granjas de grande porte ligadas de alguma forma aos grandes projetos de integração.

O suinocultor independente delimita o seu sistema particular com grau tecnológico próprio de produção. Determinando a genética, a nutrição, as instalações, os equipamentos, etc. Trabalha no mercado “spot”, onde a sua produção (suínos terminados aptos ao abate) é vendida para abatedouros/frigoríficos de suínos, que em sua maioria das vezes, abastece o mercado nacional com carcaças e cortes.

De um modo geral, as granjas independentes trabalham com genéticas tipo carne atendidas pelos grandes fornecedores de genética internacionais, bem como por empresas nacionais, devendo-se obter sempre reprodutores suínos advindos de Granjas GRSC (Granjas de Reprodutores Suídeos Certificadas), registradas no Mapa e tendo a sua sanidade acompanhada pelo Sistema Veterinário Oficial.

Quanto a alimentação de suínos, de um modo geral trabalha-se como ingredientes principais o milho e o farelo de soja, que nas fábricas próprias são misturados a núcleos comerciais, seguindo o modelo nutricional norte-americano.

E o Mercado Spot tem os seus preços diários, definidos pela oferta e procura, caracterizado por altos e baixos, que de um modo geral não acompanham os custos diários da produção de suínos vivos, que logicamente em épocas fecha no azul, bem como em outras no vermelho, se não atentado para o efeito preço de mercado. Além da oferta e procura, este tipo de mercado acaba sendo afetado também pela condição sanitária, seja da suinocultura como das outras atividades pecuárias, que diante de surtos de doenças, causam limitação de acesso a mercados e forte queda de preços dos suínos vivos, e às vezes, por bons períodos.

Com relação aos custos de produção, a produtividade continua sendo um indicador avaliativo, mas com certeza o segmento nutrição tem um efeito econômico muito expressivo, haja visto que é responsável por 70 a 85% do custo total de produção. E com a Pandemia do Covid-19, houve um aumento mundial pela busca por milho e soja, que fez com que estas commodities tivessem os seus preços elevados. Associado a isto, fora da porteira, ainda sofremos os elevados preços do dólar e dos combustíveis, que acabam impactando também no valor das matérias-primas que precisam chegar às granjas.

E dentro deste contexto, está cada vez mais difícil de praticar a suinocultura independente sem que a mesma esteja adjunta a agricultura na mesma propriedade, onde a primeira fornece um adubo orgânico, e a segunda fornece algum tipo de alimentos (produtos e coprodutos), e assim auxiliar na diminuição dos custos de produção de ambos os negócios.

Alguns paradigmas nutricionais e não nutricionais potenciais a serem batidos pelos suinocultores independentes (“saindo do quadrado”):

  • Planejamento de Longo Prazo (antecipado) e real da estrutura e do Custo de Alimentação: medindo, monitorando e gerenciando os resultados. Existe no mercado várias plataformas digitais que trazem esta ferramenta, que auxilia na definição da alimentação com as hipóteses econômicas mais favoráveis.
  • Utilização de ingredientes nutricionais alternativos: silagem de grão de milho úmido (S.G.M.U.), milho produzido na propriedade ou comprado de vizinho; DDG (grãos secos de destilaria): coprodutos de milho oriundos de destilarias de etanol; farelos de leguminosas (de amendoim, de girassol, de algodão, etc.), disponíveis regional e em época logo após a colheita; farinhas animais (de carne e ossos, de vísceras, de sangue, de penas, etc.), de fornecedores idôneos, adicionadas em sua produção de anti-oxidantes e anti-salmonela); pré-limpezas de milho, soja, trigo, etc. (secos e logo após a colheita, e isentos de terra e sementes de plantas daninhas nocivas aos suínos); cereais de inverno na região sul (triticale, centeio, aveia, cevada, farelo de arroz, farelo de trigo, ervilha, etc.); uso de óleos (de frango, de peixe, mistos) como fontes de energia, se disponíveis; sorgo, milheto, casca de soja, feno de parte aérea de mandioca, raspa de raiz de mandioca, etc. (quando disponíveis, com qualidade e preços interessantes, ou serem produzidos pelo próprio suinocultor); etc.
  • Utilização de melhoradores zootécnicos nutricionais: aditivos tecnológicos (adsorventes de micotoxinas, etc.); aditivos sensoriais (principalmente extratos herbais); aditivos nutricionais (principalmente minerais orgânicos); aditivos zootécnicos (enzimas: fitases, proteases; prebióticos; probióticos; acidificantes; etc.).
  • “Um passo além da produção de suínos vivos”: produção de um suíno específico com melhor preço no mercado (tipo orgânico, que já tem empresas trabalhando com este tipo de produto). Ou até mesmo a produção de um produto premium (com foco na qualidade da carne, cortes diferenciados, temperados com costumes locais), que também agreguem valor ao seu produto final. Isto pode ser conseguido via parceria com abatedouros e supermercados

Considerações sobre o uso de formulações de rações com ingredientes alternativos, ou seja, saída do quadrado do suinocultor independente:

– As rações produzidas com ingredientes alternativos, de um modo geral, causam uma leve queda nos resultados zootécnicos;

– O uso de ingredientes alternativos, tende a aumentar o uso de mão-de-obra, mas pode compensar o resultado financeiro final (“saindo da zona de conforto”);

– Para que estas quedas zootécnicas sejam compensatórias financeiramente, o suinocultor independente precisa fazer com que o custo real por quilo produzido vivo diminua a partir do resultado financeiro anterior (custo);

– Em uma experiência em passado recente em uma integração ao qual trabalhei como supervisor de produção no Paraná, onde as médias zootécnicas eram menores (em torno de 10%) e a diminuição do custo por quilo do suíno vivo produzido de até 20% (incluindo custo de impostos e financeiro), quando comparada com os resultados previstos para uma produção em sistema convencional com uso de milho e soja, bem como comparado via benchmarketing com as demais empresas suinícolas da época.

Adaptações na estrutura da granja e outras que devem ser planejadas para o sucesso do uso das sugestões acima:

  • As formulações devem ser desenvolvidas e prescritas por assessoria nutricional, com conhecimento técnico e prático no assunto;
  • A fábrica de rações deve ser adaptada para o uso de alguns ingredientes: armazenamento das matérias-primas; maquinário de moagem conjunta, quanto ao uso de ingredientes com mais fibra bruta, que diminuem a capacidade de moagem; depósito e injetores de óleos, etc.
  • Os comedouros automáticos tipo holandês dos suínos (principalmente para as fases de creche, crescimento e terminação) devem ser adaptados a apresentação da ração pronta. Por exemplo, para o uso de S.G.M.U., é interessante o uso de comedouros que tenham mecanismos de giro interno, bem como do depósito externo, para facilitar a caída da ração, em presença de parte de sabugo).
  • Pode-se optar por trabalhar com premix aberto (modelo de nutrição animal europeu), ou conversar com o seu fornecedor de nutrição de suínos para desenhar e desenvolver produtos específicos para as condições de uso.

O que não mudou para o sucesso econômico do suinocultor independente:

– Ter balanças, para saber e conferir tudo que entra (matérias-primas), bem como tudo que sai (produção de suínos vivos), para que tenha em mãos os números e controle total do processo de produção;

– O “mapa da mina”, gestão total sobre a produção, resultados financeiros – em todas as fases de produção – para definição do diagnóstico da problemática: a crise é de baixa produtividade, alto custo dos insumos ou baixo preço do suíno vivo. O sucesso do tratamento, também aqui, está diretamente ligado ao acerto na definição da causa;

– Provisionar o estoque anual das principais matérias-primas, necessário para a produção anual do ciclo de produção dos suínos, comprando na safra e produzindo na entressafra;

– Uso de financiamentos de custeio para compra de matérias-primas na safra, auxiliando no capital de giro do negócio, se necessário;

– Ajuste do plantel de suínos e sua produtividade dentro das fases de produção ao tamanho livre da construção disponível, ou vice-versa, em busca do bem-estar animal, tão necessário na condição atual de retirada/banimento dos antibióticos promotores de crescimento dos sistemas de produção animal;

– Manutenção de um excelente regime de biosseguridade (isolamento da granja, restrição de visitas, controle de roedores e de moscas, etc.), principalmente nesta fase de mitigação de risco frente a Peste Suína Africana, que assola diversos países;

– Produção alternativa de energia elétrica via transformação do biogás dos dejetos dos biodigestores via motor-gerador, ou até via placas solares, que com certeza, tem algum impacto no custo de produção;

– Sustentabilidade ambiental continua: destinação correta dos animais mortos e restos de parto (compostagem); armazenamento, tratamento e destinação dos dejetos; armazenamento e destinação dos demais resíduos da produção (reciclagem e logística reversa), etc.

A busca pela alternativa e/ou alternativas que caiba(m) em sua granja, dentro do acompanhamento da experimentação e observação dos resultados, uma a uma, te levará a um patamar de sucesso produtivo e financeiro. E lembre-se de que “um desistente nunca vence, e um vencedor nunca desiste”.

E finalizando, sempre dá para melhorar, é só prestar atenção nas ocorrências. E ainda, se você quer algum resultado diferente do conseguido, tem que mudar a sua estratégia. Do contrário estará fadado a manutenção do mesmo resultado anterior, que poderá dar continuidade a sua conta no vermelho de sua granja.

Para ficar atualizado e por dentro de tudo que está acontecendo no setor suinícola e da piscicultura acesse gratuitamente a edição digital Suínos e Peixes.

Fonte: Por Rogério Paulo Tovo, médico-veterinário, administrador, mestre em Biociências Animais, professor de Zootecnia e Nutrição Animal no Unilassale

Suínos

Primeiro clone suíno da América Latina nasce em unidade da Secretaria de Agricultura de SP

Avanço inédito combina ciência da USP com estrutura do Instituto de Zootecnia e reforça papel da pesquisa paulista na geração de soluções para a saúde e o agro

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Primeiro clone da América Latina nasceu na unidade de Tanquinho do Instituto de Zootecnia, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo

O primeiro clone suíno da América Latina nasceu na unidade do Instituto de Zootecnia, em Piracicaba, vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. O feito inédito é resultado de pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo, com apoio da Agência Diretoria de Pesquisa dos Agronegócios (APTA), responsável pela estrutura, manejo e cuidado dos animais por meio do Instituto de Zootecnia.

O nascimento ocorreu no dia 24 de março, na unidade experimental do IZ em Tanquinho, onde as instalações foram readequadas conforme a legislação para a produção desses animais, com rigor em biossegurança, bem-estar e controle sanitário.

A iniciativa integra um projeto voltado à produção de suínos com potencial para doação de órgãos e tecidos para humanos, dentro do campo do xenotransplante — técnica que busca reduzir a fila por transplantes e ampliar as possibilidades de compatibilidade entre doadores e receptores.

A pesquisa mobiliza uma equipe multidisciplinar, envolvendo especialistas em zootecnia, medicina veterinária e biotecnologia. No Instituto de Zootecnia, foram desenvolvidos protocolos específicos de manejo produtivo, sanitário, nutricional e ambiental, além de técnicas reprodutivas e cirúrgicas para implantação dos embriões, incluindo sincronização de cio e procedimentos de alta complexidade.

De acordo com a equipe envolvida, os manejos são minuciosamente acompanhados para garantir o sucesso da gestação e o desenvolvimento dos animais. A próxima etapa do projeto prevê o monitoramento dos clones até a maturidade sexual, com geração de dados para subsidiar futuras aplicações científicas e tecnológicas.

O manejo dos animais nas baias do Instituto de Zootecnia segue protocolos técnicos rigorosos, especialmente por se tratar de uma pesquisa sensível, voltada à produção de suínos com finalidade biomédica

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O trabalho conduzido pelo Instituto de Zootecnia e pela Universidade de São Paulo marca um avanço decisivo para a ciência paulista e reforça o papel da pesquisa em gerar soluções concretas. O trabalho das nossas instituições abre novas fronteiras para a saúde humana, a produção animal e a bioeconomia. É esse investimento em ciência que sustenta a liderança de São Paulo e prepara o Estado para o futuro”, afirma o secretário de Agricultura e Abastecimento, Geraldo Melo Filho.

O coordenador do Instituto de Zootecnia destaca o papel da instituição no projeto. “A estrutura e a expertise do IZ são fundamentais para garantir o manejo adequado dos animais, com foco em biossegurança e bem-estar. É essa base que permite que a ciência avance com segurança e responsabilidade”, afirma.

As pesquisas voltadas ao xenotransplante têm como objetivo enfrentar um dos principais desafios da saúde pública: a escassez de órgãos para transplante. Segundo dados do Sistema Nacional de Transplantes, pacientes morrem diariamente à espera de um órgão compatível, cenário que reforça a relevância de iniciativas científicas dessa natureza.

Além do impacto na saúde humana, o avanço posiciona São Paulo na vanguarda da biotecnologia aplicada ao agro, consolidando o papel das instituições públicas de pesquisa como ativos estratégicos para o desenvolvimento do Estado.

O projeto segue em desenvolvimento, com novas etapas já em andamento, incluindo a gestação de outros clones, ampliando o potencial de aplicação da tecnologia e reforçando a integração entre ciência, produção e inovação no Estado de São Paulo.

De acordo com a pesquisadora do Instituto de Zooctenia, Simone Raymundo de Oliveira, os manejos produtivos – sanitário, nutricional e ambiental – são minuciosamente estudados pela equipe para garantir o sucesso da gestação. “Nosso objetivo agora é acompanhar o crescimento dos clones até a maturidade sexual, fornecendo dados sobre este animal para futura tomadas de decisões”.

Fonte: Assessoria
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Suínos

Qualidade de carne suína: a genética da matriz como escolha estratégica

Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos.

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Fotos: Divulgação/Topgen

Artigo escrito por João Cella, Zootecnista, coordenador Comercial na Topgen Genética Suína

Quando se discute qualidade de carne suína, é comum que o foco recaia sobre o macho terminador, uma vez que suas características genéticas estão diretamente associadas ao ganho de peso, ao rendimento de carcaça e à composição corporal dos animais abatidos. No entanto, essa abordagem desconsidera um fator estrutural do sistema produtivo: a genética da matriz, que contribui com 50% do patrimônio genético dos leitões e influencia de forma decisiva o desempenho produtivo e a qualidade final da carne.

A matriz não é apenas a base reprodutiva da granja. Ela exerce influência direta sobre o peso ao nascimento, a uniformidade da leitegada e a capacidade de crescimento dos leitões nas fases subsequentes. Esses fatores iniciais condicionam respostas metabólicas, eficiência alimentar e padrões de deposição de músculo e gordura, que se refletem até o abate. Assim, a qualidade da carne começa a ser definida muito antes da escolha do macho, ainda na seleção genética das fêmeas.

Os programas de melhoramento genético de matrizes tradicionalmente priorizam características como prolificidade, habilidade materna, produção de leite e longevidade produtiva. Esses atributos seguem sendo fundamentais para a eficiência econômica da granja. Entretanto, uma visão moderna de genética reconhece que desempenho reprodutivo e qualidade de carne caminham juntos. A matriz transmite genes que influenciam diretamente a conversão alimentar, o ganho de peso diário, a uniformidade dos lotes e a composição da carcaça, especialmente o equilíbrio entre gordura e carne magra.

Equilíbrio entre gordura, carne magra e marmoreio

A gordura não deve ser interpretada de forma isolada como um componente indesejado da carcaça, mas como parte essencial do equilíbrio entre gordura e carne magra que sustenta a qualidade da carne suína. A genética exerce influência direta não apenas sobre a quantidade total de gordura depositada, mas também sobre sua distribuição e composição, determinando o perfil de ácidos graxos, a estabilidade oxidativa e a interação entre os tecidos muscular e adiposo. Nesse contexto, a gordura contribui para atributos fundamentais da carne suína, como sabor, textura e suculência.

Matrizes geneticamente equilibradas favorecem níveis adequados e estáveis de marmoreio, resultando em melhor qualidade tecnológica da carne, com maior capacidade de retenção de água, coloração mais uniforme e menor variabilidade entre lotes destinados à indústria.

O marmoreio, resultante da gordura intramuscular entremeada às fibras musculares, é um dos principais indicadores desse equilíbrio fisiológico. Níveis adequados de marmoreio contribuem para maior maciez, suculência e intensidade de sabor, ao mesmo tempo em que preservam os padrões industriais de rendimento e proporção de carne magra.

Esse ajuste fino entre deposição muscular e gordura intramuscular pode ser conduzido de forma consistente por meio de programas de melhoramento genético de matrizes, reforçando o papel estratégico da genética na construção da qualidade final da carne suína.

Genética da matriz e bem-estar animal

Matrizes selecionadas para equilíbrio fisiológico e temperamento contribuem para a produção de suínos mais dóceis, com melhor adaptação ao manejo e menor sensibilidade ao estresse, especialmente no pré-abate.

Animais menos reativos apresentam menor risco de oscilações de pH muscular, reduzindo a incidência de alterações como PSE e DFD. Isso resulta em carne com melhor coloração, maior capacidade de retenção de água e maior consistência entre lotes. Esses fatores impactam diretamente os processos industriais e ampliam a janela de comercialização no varejo.

É importante destacar que protocolos corretos de manejo, jejum, transporte, descanso e resfriamento são indispensáveis. Contudo, sem uma base genética adequada, esses cuidados têm sua eficácia limitada. A genética atua como o alicerce sobre o qual todas as demais práticas produtivas se apoiam.

Qualidade de carne como estratégia de longo prazo

Considerar a genética da matriz sob a ótica da qualidade de carne representa uma mudança de mentalidade na suinocultura. Trata-se de enxergar a fêmea não apenas como produtora de leitões, mas como agente estratégico na construção do valor do produto final. Essa abordagem atende a um mercado consumidor cada vez mais atento à qualidade sensorial, à padronização e à imagem da carne suína como proteína saudável, saborosa e versátil.

Para o produtor rural, os benefícios se refletem em melhor conversão alimentar, maior ganho de peso diário, uniformidade dos lotes, menor mortalidade e maior previsibilidade dos resultados. Para a indústria, significam carcaças mais consistentes, processos mais eficientes e menor variabilidade. Para o consumidor, resultam em carne com melhor sabor, maciez e estabilidade.

Nesse cenário, a genética animal assume papel central. A evolução da carne suína como carne de qualidade passa, inevitavelmente, pela escolha criteriosa das matrizes.

A edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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Suínos

Micotoxinas começam no silo: por que o controle fúngico define a saúde dos suínos

Zootecnista Fernanda de Andrade explica como o armazenamento inadequado de grãos favorece fungos e a formação de micotoxinas, impactando desempenho, saúde e produtividade na suinocultura.

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Fotos: Shutterstock

Artigo escrito por Fernanda de Andrade, zootecnista, gerente de Feed Safety and Nutritional Solution da Trouw Nutrition

Embora frequentemente subestimado, o controle fúngico ao longo da cadeia de produção de ração tem papel determinante na saúde e no desempenho dos suínos. A presença de fungos nos ingredientes utilizados na formulação é a principal causa da formação de micotoxinas, substâncias tóxicas que representam um dos maiores desafios sanitários e produtivos da suinocultura moderna.

Nos últimos anos, a incidência de micotoxinas cresceu de maneira significativa em diversas regiões produtoras. Mesmo com avanços em manejo nutricional, a ocorrência de contaminações por fungos ainda é tratada com menos prioridade do que deveria, sobretudo no armazenamento de grãos e na higienização das fábricas de ração. Trata-se de etapas frequentemente negligenciadas, mas que determinam grande parte da qualidade final do alimento fornecido aos animais.

Impactos de alto custo

A suinocultura é especialmente sensível às micotoxinas, em particular à deoxinivalenol (DON) e à zearalenona (ZEA), que afetam diretamente fases críticas do ciclo produtivo. Entre os efeitos mais comuns estão queda de desempenho, redução da eficiência alimentar, comprometimento imunológico, lesões orgânicas e, no caso de matrizes, natimortos, abortos, prolapsos e irregularidades reprodutivas.

O cenário se agrava quando há policontaminação, isto é, a presença simultânea de diferentes micotoxinas. Estudos recentes mostram que, enquanto há alguns anos eram conhecidas cerca de 600 micotoxinas, o número já ultrapassa 700 compostos identificados no mundo, tornando o desafio ainda mais complexo. Mesmo considerando apenas as seis micotoxinas de maior relevância zootécnica, como Fumonisina, DON, ZEA, Aflatoxina, Ocratoxina e Toxina T-2, os impactos são amplos e multifatoriais.

Armazenamento de grãos

O armazenamento é o ponto de maior vulnerabilidade da cadeia. Um armazém sem monitoramento adequado de umidade, temperatura, higiene e ventilação cria as condições ideais para proliferação de fungos e produção de micotoxinas. Assim, o silo deve ser visto não como um simples depósito, mas como um ambiente dinâmico, sujeito à migração de umidade, variações térmicas e intensa atividade microbiológica.

Quando esses fatores não são controlados, ocorre oxidação de ingredientes, deterioração nutricional e formação de compostos tóxicos. São as chamadas “perdas invisíveis”: alterações que não são perceptíveis visualmente, mas que comprometem o valor nutricional e aumentam o risco sanitário. Além disso, falhas de higienização nas fábricas de ração podem perpetuar contaminantes e permitir o desenvolvimento contínuo de fungos nos equipamentos.

Controle fúngico

Diferentemente das micotoxinas já presentes no grão, situação em que apenas adsorventes podem atuar, a contaminação fúngica durante o armazenamento pode e deve ser prevenida. Entre as ferramentas disponíveis, os blends de ácidos orgânicos estão entre as soluções mais eficazes para controle direto de fungos em grãos, ingredientes e ambientes de produção de ração.

Esses blends podem atuar em versões líquidas ou em pó, dependendo da necessidade da operação. Em tecnologias mais avançadas, combinações específicas de ácidos orgânicos aceleram o efeito antifúngico e fortalecem a ação do ácido propiônico, resultando em rompimento mais rápido da membrana do fungo e, consequentemente, em maior eficiência de controle.

Como os ácidos orgânicos atuam sobre fungos

O mecanismo de ação é bem estabelecido na literatura científica. Primeiramente ocorre uma penetração na membrana fúngica na qual os ácidos orgânicos não dissociados atravessam a membrana plasmática, especialmente em pH mais ácido. Depois, acontece uma acidificação do citoplasma dentro da célula fúngica, que libera prótons (H⁺), reduzindo o pH interno.

Em seguida, vem um desbalanço osmótico e energético para tentar restabelecer seu equilíbrio interno, o fungo precisa gastar grandes quantidades de energia, consumindo ATP para bombear íons. A partir deste momento acontece uma inibição da síntese e do crescimento celular, onde a acidificação desestabiliza enzimas metabólicas e compromete a formação de proteínas, o que leva a morte celular do fungo. Sem energia e com a integridade da membrana comprometida, a célula fúngica entra em colapso.

Essa sequência reduz significativamente a proliferação fúngica e, por consequência, diminui o risco de formação de micotoxinas ao longo da estocagem e do processamento.

Estudos recentes comprovaram que a combinação de três ingredientes ao ácido propiônico potencializa essa ação e leva a um rompimento mais rápido da membrana dos fungos. Esta combinação acelera o efeito do ácido propiônico em até três vezes, ampliando sua eficácia.

Abordagem preventiva e integrada

O controle eficaz exige uma abordagem contínua, iniciando no recebimento do grão e se estendendo até a produção da ração. O uso de aditivos conservantes deve ser combinado com iniciativas como inspeção e limpeza dos silos, monitoramento de umidade e temperatura, boas práticas de armazenamento, higienização completa das fábricas e uma análise contínua de risco de contaminações.

Uma mudança de mentalidade é urgentemente necessária. A qualidade da ração começa no armazém. Não basta investir em formulações balanceadas se os ingredientes chegam comprometidos por má estocagem. Quando o controle fúngico deixa de ser tratado como etapa secundária e passa a ser parte estratégica da nutrição, os resultados aparecem em saúde animal, produtividade e rentabilidade.

A edição também está disponivel na versão digital, com acesso gratuito. Para ler a versão completa online, clique aqui. Boa leitura!

Fonte: O Presente Rural
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