Suínos Expedição Suinocultura - expedição 1
Suinocultura gaúcha: debaixo do fogão à genética de ponta
Debaixo de fogões a lenha, leitões recém-nascidos tentavam sobreviver ao frio, envoltos por caixas improvisadas. Acima deles, o calor da vida rural e o início de uma história que ajudaria a transformar o Brasil em um dos maiores produtores de carne suína do mundo.

Não era inverno quando nossa equipe desembarcou no Rio Grande do Sul para as filmagens da primeira temporada da série Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil. Mas os relatos que ouvimos nos transportaram a madrugadas geladas de décadas passadas. Debaixo de fogões a lenha, leitões recém-nascidos tentavam sobreviver ao frio, envoltos por caixas improvisadas. Acima deles, o calor da vida rural e o início de uma história que ajudaria a transformar o Brasil em um dos maiores produtores de carne suína do mundo.
Durante uma semana, percorremos granjas, propriedades e instituições. Foram dias intensos, seguidos por duas semanas de edição. O que criamos não foi apenas um documentário: foi um retrato vivo de uma saga marcada por banha, barro e bravura.
Onde tudo começou: banha, casamento e vocação

Suíno tipo banha foi o começo de tudo
Antes da indústria, havia a tradição. Antes da proteína, a gordura. Foi com esse espírito que muitos suinocultores começaram sem imaginar o tamanho da transformação que viriam a protagonizar.
“Meu pai casou em 1946 e, no casamento, ganhou um casal de porcos. A fêmea morreu no parto. Sobraram três leitões. Ele criou guacho. Guardava os bichinhos numa caixinha debaixo do fogão e alimentava com leite de vaca enquanto minha mãe dava de mamar para minha irmã recém-nascida”, lembrou o médico-veterinário, empresário e lenda viva da suinocultura, Flauri Migliavaca.
Relatos como esse são comuns entre os pioneiros da suinocultura moderna. Porcos faziam parte do dote, da comida, da renda e do afeto. As crianças aprendiam cedo: não havia tempo para brinquedos quando a porca estava parindo. Era hora de ajudar.
“Eu tinha seis anos quando meu pai me chamou no meio da brincadeira. Precisava que eu tirasse um leitão preso na barriga da porca. Engraxei a mão com banha e fui. O bicho me mordeu o dedo. Chorei. Mas meu pai enrolou num lenço e disse: vai, senão a porca morre e nós ficamos sem comida. Nunca mais deixei de ir na maternidade”, relatou com profundo saudosismo.
Quando a gordura virou vilã

José Adão Braun, um líder associativista que ajudou a moldar a suinocultura gaúcha
Durante décadas, a gordura suína era indispensável. A banha reinava na cozinha brasileira. O porco era o ‘animal da banha’. E a carne, um subproduto. “Naquela época, tínhamos cinco frigoríficos aqui só disputando banha. A dona de casa que não tinha banha não cozinhava”, contou José Adão Braun, presidente da Associação dos Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (Acsurs) por dez anos e ex-presidente da Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS), entidade da qual faz parte há 67 anos.
Mas tudo mudou nos anos 1950. O óleo de soja invadiu os lares e, com ele, uma avalanche de campanhas publicitárias. A banha foi condenada como vilã da saúde. “Diziam que banha fazia mal. As mulheres, acostumadas com aquilo, começaram a parar de comprar. A gordura perdeu o valor”, destacou Braun.
O produtor, empurrado pelas circunstâncias, precisou reinventar o porco. O animal gordo deu lugar a um novo tipo: mais magro, com carne valorizada. A suinocultura, pela primeira vez, teve que se tornar ciência.
A transformação genética e os porcos que vieram do céu (quase)

Flauri Migliavaca, lenda vida da suinocultura gaúcha e brasileira
O Brasil não tinha estrutura técnica para promover essa mudança sozinho. Era preciso importar genética. E foi o que alguns fizeram – com doses altas de risco. “Meu pai viajou para os Estados Unidos e comprou 100 animais. Quando o avião entrou no espaço aéreo brasileiro, a Força Aérea mandou descer em Belém. Acharam que tinha arma escondida. Era só porco. Mas, no calor e sem ar-condicionado, morreram 70. Sobrou 30”, relembra Migliavaca.
Os sócios desistiram. O patriarca ficou com todos. Levou para a granja. E dali começou um novo capítulo. “Era 1956. E a partir dali a genética passou a ser diferente”, contou para a Expedição.
Landrace, Duroc, Large White. Linhagens passaram a ser discutidas, estudadas e disseminadas nas associações. A Associação Brasileira de Criadores de Suínos (ABCS) e as entidades estaduais surgiram para apoiar os produtores, organizar compras e formar redes de cooperação. Era o início de uma suinocultura mais técnica, organizada e institucionalizada. “Se não fosse essa união com apoio da Secretaria da Agricultura, que cedeu técnicos, veterinários e caminhonetes, nada teria acontecido. Era o Estado acreditando no produtor”, pontua Braun.
Quando o porco era gente da casa

Setenta dos cem primeiros suínos importados para o Rio Grande do Sul morreram na viagem
Nem só de números vive a história. Entre um depoimento e outro, surgem passagens de tirar o fôlego – e arrancar risos. “Eu mamava numa porca. Meu pai me botava junto dos leitões. Um dia minha mãe ficou brava porque eu não queria mamar no peito. Aí ele disse: ‘Mas Maria, ele mamou numa porca’. Voou uma tesoura que quase acertou as costas do meu pai.”
Em meio a essas histórias, entendemos o que representa, para essas famílias, a suinocultura. Não é apenas atividade econômica. É identidade. É laço familiar. É chão. “Quando meu pai comprava porcos dos vizinhos, via que quem tinha porco comprava terra pros filhos. Aí entendi que o negócio era bom”, conta o suinocultor e empresário Sadi Acadrolli.
Crises sanitárias e resiliência
No episódio, Rogérgio Kerber, presidente do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Animal (Fundesa-RS), lembrou de grandes desafios. A peste suína africana, em 1978, quase destruiu o que havia sido construído. O Rio Grande do Sul já exportava carne para a Europa. De repente, perdeu tudo. Foram anos para recuperar a confiança do mercado. Em 2003, nova pancada: um surto de Síndrome Respiratória e Reprodutiva Suína (PRRS) exigiu o abate sanitário de mais de 27 mil animais.
Mas a resposta foi organização, biosseguridade e tecnologia. Hoje, a genética de ponta, a nutrição de precisão e os sistemas integrados transformaram o perfil da produção.
Um sistema feito de confiança

De pai para filho, Sadi Acadrolli explica que a suinocultura gaúcha é tradição
O modelo gaúcho de integração se diferencia por ser pulverizado, descentralizado e baseado em parceria. “Não temos frigorífico. Temos UPL, creche e terminação terceirizados. O produtor recebe por desempenho, com base em conversão alimentar e manejo. É um ciclo redondinho, que sustenta muitas famílias.”, destaca Acadrolli.
No interior de Rodeio Bonito, ouvimos também de Acadrolli outra história de sucessão. “Meu pai comprava suínos no caminhão e vendia. Com 20 anos, assumi. Começamos com 12 matrizes. Hoje são mil, em parceria com pequenos produtores. O meu filho, veterinário, tocou adiante. A gente só aumentou”, sintetiza.
De mãos sujas de barro aos olhos no futuro
Ao final das gravações, nos demos conta do quanto essa história é única – e ainda pouco conhecida fora do meio agropecuário. As mãos que um dia tiraram leite das tetas da porca para salvar leitões, hoje operam equipamentos automatizados e indústrias de ponta, estudam sanidade, genética e nutrição. Mas sem nunca esquecer a origem.
A história do porco no Rio Grande do Sul não começou com tecnologia. Começou com coragem. E com amor.
Clique aqui para assistir ao primeiro episódio completo da série documental Expedição Suinocultura: Rotas do Brasil.

Suínos
Faturamento da suinocultura alcança R$ 61,7 bilhões em 2025
Com esse avanço, os suínos passam a responder por 4,37% de todo o VBP do agro brasileiro em 2025, mantendo posição estratégica em meio à cadeia de proteínas animais e reforçando o protagonismo das regiões Sul e Sudeste na produção nacional.

A suinocultura brasileira deve encerrar 2025 com faturamento de R$ 61,7 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP), segundo dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), divulgados em 21 de novembro. O resultado representa um crescimento expressivo frente aos R$ 55,7 bilhões estimados para 2024, ampliando em quase R$ 6 bilhões a renda gerada pela atividade no país.
Com esse avanço, os suínos passam a responder por 4,37% de todo o VBP do agro brasileiro em 2025, mantendo posição estratégica em meio à cadeia de proteínas animais e reforçando o protagonismo das regiões Sul e Sudeste na produção nacional. A tendência confirma a força exportadora do setor e a capacidade das agroindústrias de ampliar oferta, produtividade e eficiência em um ambiente competitivo.
O ranking dos estados revela a concentração típica da atividade. Santa Catarina se mantém como líder absoluto da suinocultura brasileira, com VBP estimado de R$ 16,36 bilhões em 2025, bem acima dos R$ 12,87 bilhões registrados no ano anterior. Na segunda posição aparece o Paraná, que cresce de R$ 11,73 bilhões para R$ 13,29 bilhões, impulsionado pela expansão das integrações, investimento em genética e aumento da capacidade industrial.

O Rio Grande do Sul segue como terceira principal região produtora, alcançando R$ 11,01 bilhões em 2025, contra R$ 9,78 bilhões em 2024, resultado que reflete a recuperação gradual após desafios sanitários e climáticos enfrentados nos últimos anos. Minas Gerais e São Paulo completam o grupo de maiores faturamentos, mantendo estabilidade e contribuição relevante ao VBP nacional.
Resiliência
Além do crescimento nominal, os números da suinocultura acompanham uma trajetória de evolução contínua registrada desde 2018, conforme mostra o histórico do VBP. O setor apresenta tendência de ampliação sustentada pelo avanço tecnológico, por sistemas de produção mais eficientes e pela sustentabilidade nutricional e sanitária exigida pelas indústrias exportadoras.
A variação positiva de 2025 reforça o bom momento da cadeia, que responde não apenas ao mercado interno, mas sobretudo ao ritmo das exportações, fator decisivo para sustentar preços, garantir e ampliar margens e diversificar destinos internacionais. A estrutura industrial integrada, característica das regiões Sul e Sudeste, segue como base do desempenho crescente.
Com crescimento sólido e presença estratégica no VBP nacional, a suinocultura consolida sua importância como uma das cadeias mais dinâmicas do agronegócio brasileiro.
A edição de 2025 figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
Suínos
Exportações recordes sustentam mercado do suíno no início de 2026
Em meio à estabilidade das cotações internas, vendas externas de carne suína alcançam volumes e receitas históricas, impulsionadas pela forte demanda internacional.

As cotações do suíno vivo registram estabilidade neste começo de ano. Na praça SP-5 (Bragança Paulista, Campinas, Piracicaba, São Paulo e Sorocaba), o animal vivo posto na indústria foi negociado a R$ 8,87/kg na terça-feira (06), com ligeira queda de 0,3% em relação ao encerramento de 2025.
No front externo, o Brasil encerrou 2025 com novos recordes no volume e na receita com as exportações de carne suína. Em dezembro, inclusive, a quantidade escoada foi a maior para o mês e a quarta maior de toda a série histórica da Secex, iniciada em 1997, evidenciando, segundo apontam pesquisadores do Cepea, uma aceleração da demanda internacional pela carne brasileira no período.
De janeiro a dezembro de 2025, foram embarcadas 1,5 milhão de toneladas de carne, o maior volume escoado pelo Brasil em um ano, com crescimento de 11,6% frente ao de 2024, dados da Secex.
Em dezembro, foram exportadas 136,1 mil toneladas, quantidade 29,4% acima da registrada em novembro/25 e 26,2% maior que a de dezembro/25. Com a intensificação nas vendas, a receita do setor também atingiu recorde em 2025.
No total do ano, foram obtidos cerca de R$ 3,6 bilhões, 19% a mais que no ano anterior e o maior valor da série histórica da Secex. Em dezembro, o valor obtido com as vendas externas foi de R$ 322 milhões, fortes altas de 30% na comparação mensal e de 25% na anual.
Suínos
Primeiro lote de inscrições ao Sinsui 2026 encerra em 15 de janeiro
Evento acontece entre os dias 19 e 21 de maio, no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre (RS). o Simpósio chega à sua 18ª edição consolidado como um espaço técnico de discussão sobre produção, reprodução e sanidade suína, em um momento de crescente complexidade para a cadeia produtiva.






