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Sucessão rural e juventude cooperativista: programas estruturados renovam o campo

Formação, diálogo entre gerações e cooperativismo estruturado fortalecem a permanência dos jovens no campo e garantem futuro para as propriedades rurais.

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Manter os jovens no agro é uma estratégia essencial para garantir continuidade e inovação nas propriedades familiares. A C.Vale e o Sicredi desenvolvem programas que vão além da simples capacitação técnica: atuam na construção de legado, no diálogo entre gerações e no preparo de futuros líderes do campo.

Na C.Vale, o Programa Cooperjúnior envolve filhos e netos de cooperados em uma jornada de formação que se estende ao longo do ano. Os encontros ocorrem na Universidade C.Vale, em Palotina (PR), e combinam palestras, oficinas, visitas institucionais e dinâmicas voltadas ao desenvolvimento de liderança, trabalho em equipe e soluções técnicas para o campo.

Analista de Cooperativismo da C.Vale, Andréia Campanholi Botelho: “O Cooperjúnior tem sido um elo importante na construção da sucessão da propriedade e dos negócios com a cooperativa” – Foto: Divulgação/C.Vale

Desde 2014, o programa já formou mais de 530 jovens. A proposta é acompanhar o desenvolvimento dos participantes por meio de uma trilha contínua de formação que inclui o Cooperjúnior, a Formação de Liderança Jovem e o Núcleo Jovem da cooperativa. O conteúdo aborda temas como princípios do cooperativismo, inovação, mercado, sustentabilidade, sucessão e comunicação. “O programa conta com 10 encontros que levam até os jovens os princípios cooperativistas e como eles são praticados dentro da cooperativa. Após esta imersão, os jovens desenvolvem o senso de pertencimento e permanecem na jornada através do Núcleo Jovem, com palestras, treinamentos e comitês educativos oferecidos pela cooperativa”, destaca a analista de Cooperativismo da C.Vale, Andréia Campanholi Botelho.

Ela observa que o fortalecimento do vínculo familiar com a C.Vale é um dos aspectos mais relevantes do programa. “O Cooperjúnior tem sido um elo importante na construção da sucessão da propriedade e dos negócios com a cooperativa, incentivando os jovens a permanecerem no campo e a enxergarem na cooperativa um parceiro para a realização de seus projetos de vida”, pontua.

Formação cooperativista

Outra iniciativa da C.Vale é o Programa de Formação de Lideranças Jovens, voltado para pessoas entre 16 e 30 anos, com seis módulos de formação focados em gestão rural, oratória, sucessão familiar e governança cooperativista. Os participantes são filhos de cooperados de diferentes regiões de atuação da cooperativa e saem preparados para assumir funções tanto nas propriedades quanto dentro do ambiente institucional da cooperativa.

Segundo Andréia, a C.Vale realiza uma avaliação contínua do impacto dos treinamentos, acompanhando a trajetória dos participantes ao longo dos anos. “A cooperativa mantém um olhar atento ao caminho percorrido pelos jovens que participam dos programas. Muitos deles, anos depois, passam a integrar comissões dentro e fora da cooperativa, liderar projetos nas comunidades e até assumir funções de representação dentro da própria C.Vale, como comitês educativos e conselhos de administração e fiscal”, relata.

Ela acrescenta que o retorno vem também das famílias e das lideranças locais. “A cooperativa colhe relatos constantes de pais, comunidade e lideranças que testemunham o amadurecimento, a responsabilidade e o senso de coletividade desenvolvidos pelos jovens ao longo do processo. Outro sinal claro do sucesso da formação cooperativista é que, a partir deste contato, os jovens se dispõem a participar de projetos, reuniões e eventos ligados à governança cooperativista e ao futuro do agronegócio, bem como ações sociais visando a sustentabilidade e prosperidade da região em que estão inseridos”, explica.

Para a analista, o maior resultado é a transformação de mentalidade. “Jovens que antes viam a cooperativa apenas como uma fornecedora de serviços, após o Cooperjúnior enxergam nela uma parceira estratégica para a vida e para o futuro das suas famílias”, enaltece.

Atualmente, o programa Cooperjúnior é desenvolvido em uma microrregião que abrange quatro municípios, em que se concentram também o Núcleo Feminino, o Núcleo Jovem e os Comitês Educativos, com o propósito de manter vivos os princípios e valores que deram origem à cooperativa. “Com a expansão contínua do nosso quadro social, temos a intenção de levar não apenas o Cooperjúnior, mas também outros programas de formação e desenvolvimento de lideranças para todas as regiões onde a C.Vale está presente”, adianta.

Planejamento sucessório

Diretor de Negócios da Sicredi Aliança PR/SP, Gilson Metz: “Ao participarem do Programa Herdeiros do Campo, os jovens passam a ver de fato a propriedade como uma empresa que precisa de um olhar para a gestão, utilizar técnicas de administração, conhecer o mercado, tendências, cenários e tecnologias” – Fotos: Divulgação/Sicredi Aliança PR/SP

Assim como a C.Vale investe em formação de jovens líderes para garantir a continuidade das atividades no meio rural, a Cooperativa Sicredi Aliança PR/SP também aposta no fortalecimento das futuras gerações por meio da educação e do planejamento.

Um dos destaques é a realização do programa Herdeiros do Campo, promovido pelo Sistema Faep/Senar no Paraná e desenvolvido pelo Sicredi em sua área de atuação. A proposta é despertar a família rural para o planejamento sucessório em três dimensões: propriedade, família e empresa.

Com carga horária de 46 horas, o programa tem como público-alvo produtores rurais e seus familiares, exigindo a participação de duas ou mais gerações por família, com idade mínima de 15 anos. Essa exigência garante que o processo sucessório seja discutido de forma prática, envolvendo todos os atores que compõem a dinâmica da empresa rural.

Durante o curso, os participantes são convidados a vivenciar situações reais e desenvolver, ao longo das etapas, um plano sucessório próprio para sua propriedade. O conteúdo é construído por meio de atividades interativas, oficinas e análises de cenários, com abordagem voltada à realidade do setor agropecuário.

Entre os temas tratados estão governança nas empresas familiares rurais, herdeiros x sucessores, mediação de conflitos, aspectos jurídicos da sucessão, visão estratégica da empresa rural, formação de preços, indicadores econômicos e gestão de custos de produção. Um dos pontos centrais do programa é o estímulo à construção de confiança, à gestão emocional dos negócios e à prática da comunicação eficaz para que as decisões sejam tomadas de forma coletiva e sustentável.

A metodologia valoriza o diálogo entre gerações, o entendimento do papel de cada membro da família e a preparação de um plano de ação prático, que servirá de base para o futuro da empresa rural. “Então vamos pensar no futuro?”, esse é o convite que o programa faz às famílias cooperadas.

De acordo com o diretor de Negócios da Sicredi Aliança PR/SP, Gilson Metz, o impacto do programa é perceptível no dia a dia das propriedades rurais atendidas, mesmo que não exista uma métrica quantitativa para avaliação. “Pelo nosso modelo de negócios estamos muito próximos dos associados, seja em eventos, na própria comunidade, na visita de um gestor à propriedade ou pelo acompanhamento da movimentação financeira dos produtores, conseguimos verificar à vontade desses jovens, principalmente após os treinamentos do Programa Herdeiros do Campo, de continuar na propriedade, de enxergar nela um empreendimento com visão mais empreendedora e conectada com aquilo que se exige hoje de uma verdadeira empresa rural”, afirma.

Além de oferecer formação, o programa também provoca mudanças importantes na rotina das famílias envolvidas. “Eles passam a ver de fato a propriedade como uma empresa que precisa de um olhar para a gestão, utilizar técnicas de administração, conhecer o mercado, tendências, cenários e tecnologias. Talvez aquele conceito do passado, em que bastava o conhecimento técnico da atividade, hoje já não é suficiente. É preciso se conectar com outras frentes”, acrescenta Metz.

Para garantir a efetividade do diálogo entre gerações, a cooperativa mantém suporte contínuo aos participantes, inclusive após o encerramento das atividades formais do curso. “Nos colocamos sempre à disposição no pós-evento, com uma equipe de gestores especializados, com condições de dar suporte à sucessão não só no aspecto financeiro, mas na gestão da propriedade como um todo”, explica o diretor.

Segundo Metz, temas como o êxodo rural e a evasão de jovens do campo são tratados de forma estruturada dentro do Programa Herdeiros do Campo, o que torna a iniciativa ainda mais relevante. “Para nós, enquanto instituição financeira, o programa é muito importante, principalmente no que trata de êxodo rural, da evasão de jovens do campo. Por isso, no nosso entender, é um grande diferencial, porque nós, enquanto sociedade, precisamos que o jovem permaneça no campo, que as atividades rurais tenham continuidade, especialmente pelos investimentos que os pais fazem, muitas vezes de prazos alongados e que são tão importantes para essa atividade, que por consequência também beneficia o mercado urbano”, destaca.

O executivo reforça ainda que a continuidade das atividades rurais depende do envolvimento das novas gerações com a realidade da propriedade. “A importância de os jovens estarem conectados, darem continuidade, estarem presentes, sabendo do que acontece na propriedade, é justamente para que, do seu jeito, do seu modo, possam perpetuar isso ao longo das gerações. Existe sempre um conflito entre gerações, mas entendemos ser importante esse diálogo, porque na atividade é necessária uma atualização e um olhar mais modernos, assim como também não se pode desprezar a opinião dos antecessores, porque a essência, o jeito simples que sempre foi conduzido a propriedade a trouxe até aqui, e isso não pode ser desprezado. Por isso a importância desse equilíbrio entre pais e avós com filhos e netos, para que esse programa de fato tenha validade e êxito, e a atividade rural possa, por consequência, continuar prosperando”, salienta.

Benefícios na prática

Entre as famílias que vivenciaram na prática os benefícios do Programa Herdeiros do Campo está a de Rudi Ignácio Kuffel, que atua há mais de três décadas com pecuária leiteira. A trajetória começou com uma produção modesta, de 20 a 30 litros de leite por dia. “Se não fôssemos aumentar a produção, iríamos sair do mercado. Passamos então a investir na propriedade”, conta o produtor. Com foco na melhoria contínua, hoje a produção alcança 1,3 mil litros por dia.

O patriarca da família conta que desde pequena a filha Cláudia demonstrou afinidade com a atividade e, atualmente, cursa Medicina Veterinária, atuando lado a lado com os pais na condução da propriedade. A participação no Herdeiros do Campo foi um marco na jornada da família. “É difícil unir pais e filhos para estudarem a mesma coisa, então o curso foi algo inovador, bem diferente, agregou muito conhecimento pra nós”, exalta Cláudia, destacando que um dos principais aprendizados foi compreender que a sucessão não acontece de forma imediata, mas sim gradualmente. “O programa nos prepara para este momento da sucessão. Auxiliou a mostrar que ela ocorre aos poucos, que não é de uma hora para outra”, relatou.

O envolvimento da nova geração, aliado à experiência dos pais Rudi e Inês, aponta para um futuro promissor. “Eu me vejo tocando a propriedade. Quero continuar na atividade leiteira, progredindo ainda mais, aumentando o número de animais e a produção, inovando em genética”, anseia Cláudia, determinada a dar continuidade ao legado da família com uma visão voltada à inovação e ao crescimento.

Permanência no campo

Tanto na C.Vale quanto no Sicredi, o investimento em formação jovem mostra resultados práticos: aumento da adesão de jovens aos quadros associativos, maior envolvimento nas decisões da propriedade e melhora na gestão técnica e financeira.

Se o êxodo rural ainda ameaça a sustentabilidade de pequenas e médias propriedades, programas como esses oferecem uma alternativa concreta: preparar quem já está no campo para assumir o protagonismo com conhecimento, planejamento e conexão com o futuro da agricultura e da pecuária brasileira.

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Fonte: O Presente Rural

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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores

Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

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Milton Melz ao lado de Marlene Cristina Costa e Alejandro Cardoso, que deixaram a Argentina para trabalhar na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, em Iporã do Oeste (SC) - Fotos: Divulgação

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.

A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”

Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.

A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.

Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.

Recomeço em outro país

Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.

O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”

A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.

A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.

Escola, trabalho e novas oportunidades

Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.

A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida

Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.

Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.

A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.

Reconhecimento e qualidade de vida

Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.

A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.

O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.

Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.

Integração além da porteira

Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.

Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.

O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.

Planos para ficar

Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.

Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.

Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.

A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.

Fonte: O Presente Rural
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal

Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

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Foto: Divulgação

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de  R$ 6,38 milhões.

Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão.  O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.

Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.

Desafios para o segundo semestre

Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.

O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil  do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.

Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.

Fonte: Assessoria Fundesa-RS
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo

Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

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Foto: Paulo Kurtz

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.

O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.

Potencial de uso da plataforma

O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.

Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.

Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.

Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.

Avanços para o melhoramento genético

As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:

“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje

“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.

Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.

No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.

Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.

Fonte: Assessoria Embrapa Trigo
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