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Sucessão rural e juventude cooperativista: programas estruturados renovam o campo

Formação, diálogo entre gerações e cooperativismo estruturado fortalecem a permanência dos jovens no campo e garantem futuro para as propriedades rurais.

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Manter os jovens no agro é uma estratégia essencial para garantir continuidade e inovação nas propriedades familiares. A C.Vale e o Sicredi desenvolvem programas que vão além da simples capacitação técnica: atuam na construção de legado, no diálogo entre gerações e no preparo de futuros líderes do campo.

Na C.Vale, o Programa Cooperjúnior envolve filhos e netos de cooperados em uma jornada de formação que se estende ao longo do ano. Os encontros ocorrem na Universidade C.Vale, em Palotina (PR), e combinam palestras, oficinas, visitas institucionais e dinâmicas voltadas ao desenvolvimento de liderança, trabalho em equipe e soluções técnicas para o campo.

Analista de Cooperativismo da C.Vale, Andréia Campanholi Botelho: “O Cooperjúnior tem sido um elo importante na construção da sucessão da propriedade e dos negócios com a cooperativa” – Foto: Divulgação/C.Vale

Desde 2014, o programa já formou mais de 530 jovens. A proposta é acompanhar o desenvolvimento dos participantes por meio de uma trilha contínua de formação que inclui o Cooperjúnior, a Formação de Liderança Jovem e o Núcleo Jovem da cooperativa. O conteúdo aborda temas como princípios do cooperativismo, inovação, mercado, sustentabilidade, sucessão e comunicação. “O programa conta com 10 encontros que levam até os jovens os princípios cooperativistas e como eles são praticados dentro da cooperativa. Após esta imersão, os jovens desenvolvem o senso de pertencimento e permanecem na jornada através do Núcleo Jovem, com palestras, treinamentos e comitês educativos oferecidos pela cooperativa”, destaca a analista de Cooperativismo da C.Vale, Andréia Campanholi Botelho.

Ela observa que o fortalecimento do vínculo familiar com a C.Vale é um dos aspectos mais relevantes do programa. “O Cooperjúnior tem sido um elo importante na construção da sucessão da propriedade e dos negócios com a cooperativa, incentivando os jovens a permanecerem no campo e a enxergarem na cooperativa um parceiro para a realização de seus projetos de vida”, pontua.

Formação cooperativista

Outra iniciativa da C.Vale é o Programa de Formação de Lideranças Jovens, voltado para pessoas entre 16 e 30 anos, com seis módulos de formação focados em gestão rural, oratória, sucessão familiar e governança cooperativista. Os participantes são filhos de cooperados de diferentes regiões de atuação da cooperativa e saem preparados para assumir funções tanto nas propriedades quanto dentro do ambiente institucional da cooperativa.

Segundo Andréia, a C.Vale realiza uma avaliação contínua do impacto dos treinamentos, acompanhando a trajetória dos participantes ao longo dos anos. “A cooperativa mantém um olhar atento ao caminho percorrido pelos jovens que participam dos programas. Muitos deles, anos depois, passam a integrar comissões dentro e fora da cooperativa, liderar projetos nas comunidades e até assumir funções de representação dentro da própria C.Vale, como comitês educativos e conselhos de administração e fiscal”, relata.

Ela acrescenta que o retorno vem também das famílias e das lideranças locais. “A cooperativa colhe relatos constantes de pais, comunidade e lideranças que testemunham o amadurecimento, a responsabilidade e o senso de coletividade desenvolvidos pelos jovens ao longo do processo. Outro sinal claro do sucesso da formação cooperativista é que, a partir deste contato, os jovens se dispõem a participar de projetos, reuniões e eventos ligados à governança cooperativista e ao futuro do agronegócio, bem como ações sociais visando a sustentabilidade e prosperidade da região em que estão inseridos”, explica.

Para a analista, o maior resultado é a transformação de mentalidade. “Jovens que antes viam a cooperativa apenas como uma fornecedora de serviços, após o Cooperjúnior enxergam nela uma parceira estratégica para a vida e para o futuro das suas famílias”, enaltece.

Atualmente, o programa Cooperjúnior é desenvolvido em uma microrregião que abrange quatro municípios, em que se concentram também o Núcleo Feminino, o Núcleo Jovem e os Comitês Educativos, com o propósito de manter vivos os princípios e valores que deram origem à cooperativa. “Com a expansão contínua do nosso quadro social, temos a intenção de levar não apenas o Cooperjúnior, mas também outros programas de formação e desenvolvimento de lideranças para todas as regiões onde a C.Vale está presente”, adianta.

Planejamento sucessório

Diretor de Negócios da Sicredi Aliança PR/SP, Gilson Metz: “Ao participarem do Programa Herdeiros do Campo, os jovens passam a ver de fato a propriedade como uma empresa que precisa de um olhar para a gestão, utilizar técnicas de administração, conhecer o mercado, tendências, cenários e tecnologias” – Fotos: Divulgação/Sicredi Aliança PR/SP

Assim como a C.Vale investe em formação de jovens líderes para garantir a continuidade das atividades no meio rural, a Cooperativa Sicredi Aliança PR/SP também aposta no fortalecimento das futuras gerações por meio da educação e do planejamento.

Um dos destaques é a realização do programa Herdeiros do Campo, promovido pelo Sistema Faep/Senar no Paraná e desenvolvido pelo Sicredi em sua área de atuação. A proposta é despertar a família rural para o planejamento sucessório em três dimensões: propriedade, família e empresa.

Com carga horária de 46 horas, o programa tem como público-alvo produtores rurais e seus familiares, exigindo a participação de duas ou mais gerações por família, com idade mínima de 15 anos. Essa exigência garante que o processo sucessório seja discutido de forma prática, envolvendo todos os atores que compõem a dinâmica da empresa rural.

Durante o curso, os participantes são convidados a vivenciar situações reais e desenvolver, ao longo das etapas, um plano sucessório próprio para sua propriedade. O conteúdo é construído por meio de atividades interativas, oficinas e análises de cenários, com abordagem voltada à realidade do setor agropecuário.

Entre os temas tratados estão governança nas empresas familiares rurais, herdeiros x sucessores, mediação de conflitos, aspectos jurídicos da sucessão, visão estratégica da empresa rural, formação de preços, indicadores econômicos e gestão de custos de produção. Um dos pontos centrais do programa é o estímulo à construção de confiança, à gestão emocional dos negócios e à prática da comunicação eficaz para que as decisões sejam tomadas de forma coletiva e sustentável.

A metodologia valoriza o diálogo entre gerações, o entendimento do papel de cada membro da família e a preparação de um plano de ação prático, que servirá de base para o futuro da empresa rural. “Então vamos pensar no futuro?”, esse é o convite que o programa faz às famílias cooperadas.

De acordo com o diretor de Negócios da Sicredi Aliança PR/SP, Gilson Metz, o impacto do programa é perceptível no dia a dia das propriedades rurais atendidas, mesmo que não exista uma métrica quantitativa para avaliação. “Pelo nosso modelo de negócios estamos muito próximos dos associados, seja em eventos, na própria comunidade, na visita de um gestor à propriedade ou pelo acompanhamento da movimentação financeira dos produtores, conseguimos verificar à vontade desses jovens, principalmente após os treinamentos do Programa Herdeiros do Campo, de continuar na propriedade, de enxergar nela um empreendimento com visão mais empreendedora e conectada com aquilo que se exige hoje de uma verdadeira empresa rural”, afirma.

Além de oferecer formação, o programa também provoca mudanças importantes na rotina das famílias envolvidas. “Eles passam a ver de fato a propriedade como uma empresa que precisa de um olhar para a gestão, utilizar técnicas de administração, conhecer o mercado, tendências, cenários e tecnologias. Talvez aquele conceito do passado, em que bastava o conhecimento técnico da atividade, hoje já não é suficiente. É preciso se conectar com outras frentes”, acrescenta Metz.

Para garantir a efetividade do diálogo entre gerações, a cooperativa mantém suporte contínuo aos participantes, inclusive após o encerramento das atividades formais do curso. “Nos colocamos sempre à disposição no pós-evento, com uma equipe de gestores especializados, com condições de dar suporte à sucessão não só no aspecto financeiro, mas na gestão da propriedade como um todo”, explica o diretor.

Segundo Metz, temas como o êxodo rural e a evasão de jovens do campo são tratados de forma estruturada dentro do Programa Herdeiros do Campo, o que torna a iniciativa ainda mais relevante. “Para nós, enquanto instituição financeira, o programa é muito importante, principalmente no que trata de êxodo rural, da evasão de jovens do campo. Por isso, no nosso entender, é um grande diferencial, porque nós, enquanto sociedade, precisamos que o jovem permaneça no campo, que as atividades rurais tenham continuidade, especialmente pelos investimentos que os pais fazem, muitas vezes de prazos alongados e que são tão importantes para essa atividade, que por consequência também beneficia o mercado urbano”, destaca.

O executivo reforça ainda que a continuidade das atividades rurais depende do envolvimento das novas gerações com a realidade da propriedade. “A importância de os jovens estarem conectados, darem continuidade, estarem presentes, sabendo do que acontece na propriedade, é justamente para que, do seu jeito, do seu modo, possam perpetuar isso ao longo das gerações. Existe sempre um conflito entre gerações, mas entendemos ser importante esse diálogo, porque na atividade é necessária uma atualização e um olhar mais modernos, assim como também não se pode desprezar a opinião dos antecessores, porque a essência, o jeito simples que sempre foi conduzido a propriedade a trouxe até aqui, e isso não pode ser desprezado. Por isso a importância desse equilíbrio entre pais e avós com filhos e netos, para que esse programa de fato tenha validade e êxito, e a atividade rural possa, por consequência, continuar prosperando”, salienta.

Benefícios na prática

Entre as famílias que vivenciaram na prática os benefícios do Programa Herdeiros do Campo está a de Rudi Ignácio Kuffel, que atua há mais de três décadas com pecuária leiteira. A trajetória começou com uma produção modesta, de 20 a 30 litros de leite por dia. “Se não fôssemos aumentar a produção, iríamos sair do mercado. Passamos então a investir na propriedade”, conta o produtor. Com foco na melhoria contínua, hoje a produção alcança 1,3 mil litros por dia.

O patriarca da família conta que desde pequena a filha Cláudia demonstrou afinidade com a atividade e, atualmente, cursa Medicina Veterinária, atuando lado a lado com os pais na condução da propriedade. A participação no Herdeiros do Campo foi um marco na jornada da família. “É difícil unir pais e filhos para estudarem a mesma coisa, então o curso foi algo inovador, bem diferente, agregou muito conhecimento pra nós”, exalta Cláudia, destacando que um dos principais aprendizados foi compreender que a sucessão não acontece de forma imediata, mas sim gradualmente. “O programa nos prepara para este momento da sucessão. Auxiliou a mostrar que ela ocorre aos poucos, que não é de uma hora para outra”, relatou.

O envolvimento da nova geração, aliado à experiência dos pais Rudi e Inês, aponta para um futuro promissor. “Eu me vejo tocando a propriedade. Quero continuar na atividade leiteira, progredindo ainda mais, aumentando o número de animais e a produção, inovando em genética”, anseia Cláudia, determinada a dar continuidade ao legado da família com uma visão voltada à inovação e ao crescimento.

Permanência no campo

Tanto na C.Vale quanto no Sicredi, o investimento em formação jovem mostra resultados práticos: aumento da adesão de jovens aos quadros associativos, maior envolvimento nas decisões da propriedade e melhora na gestão técnica e financeira.

Se o êxodo rural ainda ameaça a sustentabilidade de pequenas e médias propriedades, programas como esses oferecem uma alternativa concreta: preparar quem já está no campo para assumir o protagonismo com conhecimento, planejamento e conexão com o futuro da agricultura e da pecuária brasileira.

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Fonte: O Presente Rural

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Brasil abre quase 100 novos mercados para aves e suínos e reforça posição global, diz Luis Rua no SBSA

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Foto: O Presente Rural

Em meio a guerras, instabilidade logística e rearranjos no comércio global de alimentos, o Brasil segue ampliando espaço no mercado internacional de proteínas animais. A avaliação é do secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura e Pecuária, Luis Rua, que concedeu entrevista exclusiva ao O Presente Rural durante o Simpósio Brasil Sul de Avicultura, em Chapecó (SC). Segundo ele, o país vem acumulando recordes sucessivos nas exportações e consolidando uma posição rara no cenário global: a de fornecedor com escala, sanidade, competitividade e regularidade de oferta ao mesmo tempo.

“O Brasil tem batido recordes sucessivos, seja na carne bovina, seja na carne de aves, na carne suína, nos pescados”, afirmou. Na entrevista, Rua também chamou atenção para o avanço dos pescados, que, segundo ele, já despontam como “uma nova estrela nesse rol das proteínas animais”.

Articulação

O secretário atribuiu parte desse desempenho à articulação entre governo e entidades setoriais para destravar acessos comerciais e ampliar destinos para a produção brasileira. Ao tratar especificamente das cadeias de aves e suínos, ele afirmou que o trabalho inclui tanto carne quanto genética e ressaltou o alcance dos resultados mais recentes. “Nós abrimos próximo dos 100 mercados para essas duas cadeias produtivas”, disse.

No recorte mais amplo do agronegócio, Rua informou que o Brasil abriu 574 mercados nos últimos três anos e três meses. Dentro desse total, aproximadamente 100 estão ligados à proteína animal, com destaque para avicultura e suinocultura. Para ele, esse movimento não se resume a uma conquista diplomática ou comercial. Tem impacto direto na base produtiva do país. “Isso gera oportunidades, gera renda e gera emprego onde a gente mais precisa, que é no interior do nosso país”, afirmou.

Cadeias fortes

A fala dialoga diretamente com regiões como o Oeste catarinense e o Oeste paranaense, onde aves e suínos estruturam cadeias industriais, cooperativas, empregos e arrecadação. Ao participar do SBSA, Rua destacou a força econômica do segmento e a relevância estratégica da proteína animal dentro da pauta exportadora brasileira.

Mundo

Ao comentar o ambiente geopolítico, o secretário reconheceu o peso das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia sobre o humor dos mercados e as rotas comerciais. “Naturalmente é um clima de incerteza”, afirmou. Ainda assim, sustentou que o Brasil chega a esse cenário com atributos que poucos concorrentes conseguem reunir. “O Brasil tem algumas características que tornam ele, se não o único, uma das poucas geografias do mundo que podem apoiar nesse momento.”

Ele ainda enumerou os fatores que, na sua visão, explicam essa vantagem comparativa: “O Brasil pode apoiar porque tem qualidade, porque tem sanidade, porque tem quantidade, porque tem estabilidade no fornecimento, porque tem competitividade, tem sustentabilidade”. A leitura do secretário é de que, em tempos de conflito e incerteza, essa combinação pesa mais do que nunca na decisão de compra dos mercados importadores.

Frango

Rua usou o desempenho recente da carne de frango para exemplificar a capacidade de reação do setor brasileiro. Segundo ele, mesmo com o Oriente Médio entre os principais destinos da proteína avícola nacional e ao mesmo tempo no centro das tensões internacionais, o Brasil ampliou embarques em março. “O Brasil aumentou, inclusive, suas exportações”, declarou. De acordo com o secretário, a alta foi de 7% sobre março do ano passado, com volume de 490 mil toneladas.

Para ele, o dado reforça uma característica estrutural da cadeia. “Isso mostra que é um setor resiliente”, resumiu. E avançou: “É um setor que está acostumado a lidar com dificuldades, com desafios e faz isso com muita resiliência, com muito trabalho e com uma atuação coordenada entre o setor público e o setor privado.”

Mensagens

A entrevista de Luis Rua no SBSA reforça, portanto, três mensagens centrais do governo para o setor: o Brasil segue abrindo mercados em ritmo acelerado, as proteínas animais continuam entre os motores mais dinâmicos dessa expansão e, apesar das turbulências externas, o país tem conseguido transformar instabilidade global em oportunidade comercial. No caso de aves e suínos, a aposta é que essa combinação de acesso, oferta e credibilidade internacional continue sustentando a presença brasileira nos principais fluxos globais de proteína.

Fonte: O Presente Rural
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Rede de monitoramento de CO₂ em áreas agrícolas no Sul do Brasil abre caminho para crédito de carbono

Projeto da UFSM mede emissões e captura em tempo real e indica potencial de monetização no campo. Dados mostram redução de gases com manejo e estimam receita de até US$ 33 milhões ao ano no Pampa.

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Foto: Divulgação

Uma rede de monitoramento instalada em áreas agrícolas no Sul do Brasil está produzindo dados inéditos sobre a relação entre produção agropecuária e emissões de gases de efeito estufa. O sistema, coordenado pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), por meio do Laboratório de Gases do Efeito Estufa (LABGEE), utiliza torres de fluxo, tecnologia considerada a mais precisa para medir, de forma contínua, a troca de carbono entre o solo, as plantas e a atmosfera.

Foto: Ricardo Bonfanti

A iniciativa coloca a UFSM entre as instituições protagonistas no Brasil e no mundo no monitoramento contínuo e em tempo real do balanço de CO₂ em sistemas agrícolas, o que é estratégico para compreender o papel da agropecuária nas mudanças climáticas. No Brasil, pesquisas desse tipo em sistemas agrícolas monitorados continuamente por torres de fluxo são raras, especialmente em culturas importantes para a economia regional, como soja, arroz irrigado e pecuária.

À frente desta iniciativa, os professores Débora Roberti, do Departamento de Física do CCNE, e Rodrigo Jacques, do Departamento de Solos do CCR, destacam que o diferencial está na consistência dos dados ao longo do tempo. “Somos pioneiros no Brasil para este monitoramento contínuo ao longo dos anos, com torres de fluxo. Esses dados que estamos gerando podem servir como uma linha de base para saber se os agricultores estão absorvendo ou emitindo, sendo possível, então, entrar no mercado de crédito de carbono”, ressaltam.

Ao todo, nove torres estão distribuídas em diferentes sistemas produtivos, incluindo lavouras de soja, milho, trigo e arroz irrigado, além de áreas de pastagem natural no bioma Pampa, nos municípios gaúchos Catuípe (duas unidades), Alegrete, Cachoeira do Sul (quatro unidades) e Santa Maria, além de uma área no Paraná. Os locais foram escolhidos por permitirem comparar manejos tradicionais ou melhorados das lavouras e pastagens.

Os equipamentos realizam até 10 medições por segundo, registrando se o sistema está emitindo ou absorvendo dióxido de carbono (CO₂), além de variáveis como temperatura, radiação solar e precipitação. Na prática, o monitoramento permite calcular o chamado fluxo de carbono, o saldo entre o que é capturado pelas plantas durante a fotossíntese e o que é liberado por processos naturais. Esse acompanhamento contínuo mostra, em tempo real, quando uma área agrícola funciona como fonte ou como sumidouro de carbono.

Todos os dados são transmitidos automaticamente pela internet para o LABGEE, situado no prédio do INPE, onde são processados e analisados pelos pesquisadores e estudantes de pós-

Professora do Departamento de Física do CCNE da UFSM, Débora Roberti: “Somos pioneiros no Brasil para este monitoramento contínuo ao longo dos anos, com torres de fluxo” – Foto: Arquivo pessoal

graduação de Física e Meteorologia, com apoio do meteorologista Murilo Lopes.

De meia em meia hora, por três anos

Como as medições são contínuas, com os dados gerados a cada 30 minutos, os pesquisadores conseguem acompanhar ao longo do ano a dinâmica de emissão e absorção de carbono em cada área monitorada. Com uma série anual completa, já é possível estimar o balanço de carbono de sistemas agrícolas, pecuários ou naturais e identificar quais práticas ampliam a captura ou intensificam as emissões.

Para aumentar a confiabilidade das análises, no entanto, o monitoramento precisa abranger períodos mais longos, já que a variabilidade climática entre safras interfere diretamente nos resultados. Por isso, os pesquisadores trabalham com um horizonte mínimo de três anos de coleta contínua de dados. “Esse é o destaque desta técnica, que está na vanguarda das metodologias de medida de gás do efeito estufa na atmosfera”, afirma Débora.

Manejo define se área emite ou captura carbono

Os resultados já apontam diferenças relevantes entre sistemas de produção. Em áreas de arroz irrigado, a introdução de pastagens de inverno reduziu as emissões de CO₂ em 20% e de metano em 60%. Em lavouras com soja e trigo, a adoção de plantas de cobertura pode elevar em até três vezes a capacidade de captura de carbono por hectare.

No bioma Pampa, o manejo adequado das pastagens permite que a produção pecuária atue como captadora de carbono, compensando parte das emissões de metano dos bovinos. Por outro lado, áreas sem cobertura vegetal, como lavouras em pousio, tendem a se tornar emissoras.

Professor do Departamento de Solos do CCR da UFSM, Rodrigo Jacques: “Esses dados que estamos gerando podem servir como uma linha de base para saber se os agricultores estão absorvendo ou emitindo, sendo possível, então, entrar no mercado de crédito de carbono” – Foto: Arquivo pessoal

Os dados reforçam que o impacto climático da agropecuária depende diretamente das práticas adotadas no campo. Sistemas bem manejados podem inverter a lógica tradicional que associa produção rural apenas à emissão de gases de efeito estufa.

Além do aspecto ambiental, os resultados abrem espaço para monetização. Estimativas do próprio projeto indicam que, se metade das pastagens naturais do Pampa fosse direcionada à geração de créditos de carbono, o volume poderia chegar a 3,3 milhões de créditos por ano. A preços médios de US$ 10 por crédito, isso representaria cerca de US$ 33 milhões anuais.

O projeto reúne pesquisadores de diferentes áreas, como Física, Agronomia e Meteorologia, e envolve investimento de aproximadamente R$ 5 milhões. Os dados já começam a integrar bancos internacionais e são utilizados por grupos de pesquisa de outros países, ampliando a inserção do Brasil nas discussões globais sobre clima e produção de alimentos.

A expectativa é que, após três anos de monitoramento contínuo, período mínimo para consolidação dos dados, o sistema avance para novas culturas e projetos-piloto de crédito de carbono, com aplicação direta no campo.

Fonte: O Presente Rural com UFSM
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Biometano: da produção à distribuição é tema de fórum do setor

Especialistas discutem oportunidades e desafios no 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu (PR)

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Assessoria

Uma abordagem integrada, que vai da produção à distribuição de biometano, será destaque no 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano (FSBBB), realizado de 14 a 16 de abril, em Foz do Iguaçu (PR). Com o tema Biometano: bem feito, suficiente, bem distribuído, o evento reunirá especialistas para discutir os principais avanços, desafios e oportunidades do setor.

 

A programação contempla painéis temáticos sobre produção, políticas públicas, mobilidade, investimentos, relação com o gás natural e perspectivas de mercado. Segundo o pesquisador da Embrapa Suínos e Aves, Airton Kunz, integrante da comissão organizadora, o debate ganha relevância diante das novas oportunidades abertas pela Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), que amplia a inserção do biometano na matriz energética brasileira. Outro ponto de destaque é o potencial do biometano na cadeia de proteína animal. “O Brasil ocupa posição de destaque nesse cenário, especialmente pela capacidade de geração a partir dos resíduos da produção animal. É uma oportunidade estratégica que precisa ser melhor explorada, sobretudo pelas oportunidades que se criam para substituir o óleo diesel pelo biometano em soluções de logística nestas cadeias”, afirma Kunz.

 

Apesar do cenário promissor, o avanço do biometano ainda enfrenta desafios, como a garantia da qualidade do produto, o aumento da escala de produção e a expansão da infraestrutura de distribuição. Atualmente, o biocombustível já vem sendo utilizado em frotas de caminhões e em processos industriais, substituindo combustíveis fósseis (diesel evitado) e contribuindo para a descarbonização. “Além de produzir bem, é fundamental avançar na distribuição eficiente, especialmente no transporte”, destaca o pesquisador.

 

Como já é tradição, o evento contará com uma programação prévia, que será realizada no dia 13, como reuniões técnicas, encontros e palestras. Já, a abertura oficial será no dia 14, seguindo com programação até dia 15, onde haverá espaço de negócios com mais de 70 empresas já confirmadas, momento startups de biogás, premiação “Melhores do Biogás”, vários painéis de debates sobre temas de interesse ao biogás. O dia 16 será dedicado a quatro roteiros de visitas técnicas.

 

A Embrapa é co-realizadora do evento e participa com especialistas na moderação e apresentação de painéis, além da organização de reuniões técnicas. Entre os destaques estão os painéis “O negócio dos Substratos e as Culturas Energéticas”, com participação de Airton Kunz; “Biogás na Prática”, com moderação de Ricardo Steinmetz; e “Oportunidades e Desafios Setoriais”, com a participação de Fabiane Goldschmidt Antes.

 

O FSBBB é realizado pelo Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), pela Embrapa Suínos e Aves e pela Universidade de Caxias do Sul (UCS), com organização da Sociedade Brasileira dos Especialistas em Resíduos das Produções Agropecuária e Agroindústria (SBERA). Para maiores informações acesse: biogasebiometano.com.br.

 

Reunião técnica discutirá transporte no agronegócio

Como atividade pré-evento do FSBBB e com um olhar mais direcionado à distribuição, será realizada a Reunião Técnica Transporte a Biometano no Agronegócio, no dia 13 de abril, das 14 às 16 horas, no Hotel Bourbon Cataratas Resort, como atividade pré-evento. O encontro abordará temas como corredores rodoviários sustentáveis, descarbonização da cadeia agroindustrial, novas tecnologias e o uso de caminhões a gás e modelos dual fuel.

 

Apesar do cenário promissor, o avanço do biometano ainda enfrenta desafios, como a garantia da qualidade do produto, o aumento da escala de produção e a expansão da infraestrutura de distribuição. Atualmente, o biocombustível já vem sendo utilizado em frotas de caminhões e em processos industriais, substituindo combustíveis fósseis e contribuindo para a descarbonização. “Além de produzir bem, é fundamental avançar na distribuição eficiente, especialmente no transporte”, destaca o pesquisador.

 

A reunião também apresentará casos práticos, incluindo uma unidade rural produtora de biometano com abastecimento de caminhões e experiências no transporte de proteína animal. A iniciativa é organizada pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-PR), Fetranspar, Embrapa, Superintendência de Energia do Paraná (SUPEN) e Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás). Gratuito, o encontro pré-evento é voltado a produtores de biogás e biometano, além de profissionais das áreas de logística, transporte e gestão de frotas. As inscrições podem ser feitas pelo link.

 

Trilha de atualização conecta especialistas e laboratórios de biogás

Outro momento que antecede a programação oficial do FSBBB é a Trilha de Atualização para Laboratórios de Biogás e Biometano, marcada também para o dia 13, das 8 às 17 horas. A trilha reunirá profissionais vinculados ao Novo Arranjo de Pesquisa e Inovação – NAPI Biogás, participantes de ensaios de proficiência, representantes de laboratórios, pesquisadores, estudantes e demais interessados. O encontro será um espaço dedicado à troca de experiências e ao compartilhamento de informações entre os atores que atuam na área.

 

As inscrições são gratuitas e devem ser realizadas até o dia 10 de abril, pelo link do evento, com vagas limitadas a 50 participantes. A atividade será presencial. O encontro ocorrerá no Itaipu Parquetec (Av. Tancredo Neves, 6731, bairro Jardim Itaipu, em Foz do Iguaçu). A iniciativa é promovida pelo CIBiogás, Embrapa Suínos e Aves, Senai/SC, Inmetro e Universidade de Caxias do Sul, com fomento do NAPI Biogás.

 

A programação da manhã será marcada por apresentações voltadas à avaliação de substratos e ao uso de ensaios interlaboratoriais como ferramenta de controle de qualidade, além de discussões sobre novas rodadas de ensaios de proficiência. Também serão abordadas as principais fontes de erro na medição de biometano. O período da manhã inclui ainda uma visita técnica ao laboratório do CIBiogás.

 

À tarde, os temas se concentram em ferramentas microbiológicas para eficiência energética, relatos práticos sobre processos de acreditação de laboratórios e o uso de calculadoras científicas na otimização da digestão anaeróbia. A programação se encerra com uma mesa redonda sobre a jornada de acreditação, seguida de alinhamentos para ações futuras.

 

Fonte: Embrapa Suínos e Aves
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