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Streptococcus agalactiae desafia produção de tilápia no Brasil
Para enfrentar esse desafio, é essencial desenvolver estratégias vacinais inovadoras, combinando novas abordagens tecnológicas e práticas de manejo robustas.

O Streptococcus agalactiae é uma das principais ameaças à saúde das tilápias, causando surtos de estreptococose que comprometem a sanidade dos plantéis e provocam grandes perdas econômicas devido à queda no desempenho zootécnico dos peixes e a alta mortalidade. Recentes alterações nos padrões epidemiológicos desse patógeno, aliadas ao aumento da resistência a tratamentos convencionais, têm gerado preocupações na cadeia produtiva. Para enfrentar esse desafio, é essencial desenvolver estratégias vacinais inovadoras, combinando novas abordagens tecnológicas e práticas de manejo robustas, com o objetivo de prevenir surtos e garantir a sustentabilidade da produção aquícola.
O médico-veterinário Henrique César Pereira Figueiredo, doutor em Microbiologia e professor de Sanidade dos Animais Aquáticos na Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), chama atenção para a presença do Streptococcus agalactiae em todas as regiões produtoras de tilápia do país. “Não há nenhuma propriedade livre desse microrganismo, principalmente aquelas que fazem a engorda. Independentemente da localização ou do sistema de cultivo, as propriedades de tilápia enfrentam a pressão desse patógeno de diferentes maneiras, de acordo com as características ambientais e os métodos de produção adotados”, afirmou Figueiredo durante sua participação no 3º Simpósio de Piscicultura do Oeste do Paraná (Simpop), realizado em meados de julho na cidade de Toledo.
De acordo com o especialista, os sinais clínicos da infecção são variáveis, mas o impacto mais visível para o produtor é a mortalidade nos lotes, que resulta em grandes perdas econômicas. “Mas esse não é o único parâmetro, há também problemas de desempenho zootécnico, que são muito relacionados a essa enfermidade”, destaca.
Embora todas as variantes de Streptococcus agalactiae possam infectar os peixes em qualquer fase da engorda, o professor destaca uma mudança recente no padrão da doença: “Essa enfermidade está se tornando mais comum em animais juvenis. Em plantéis com condições sanitárias deficientes, já é possível observar estreptococose clínica em tilápias com apenas 10 gramas de peso”, salienta, alertando para a necessidade de reforçar os cuidados sanitários logo nas primeiras fases de cultivo.
Historicamente a doença é associada ao verão, no entanto o professor da UFMG observa que há casos surgindo em diferentes épocas do ano, inclusive em temperaturas intermediárias. “A partir de 25ºC, dependendo das condições sanitárias, a estreptococose pode ocorrer, o que reforça a importância de medidas preventivas contínuas”, pontua Figueiredo.
Maior incidência em tanques-rede
De acordo com Figueiredo, a incidência de estreptococose é mais comum em sistemas de tanques-rede do que em tanque escavado, pois neste tipo de produção há um maior monitoramento em relação ao comportamento epidemiológico da doença. “Em tanques-rede temos mais informações sobre o que está acontecendo dentro do tanque, enquanto em tanques escavados a situação pode ser mais difícil de avaliar”, aponta o profissional, acrescentando: “Esse microorganismo tem uma importância muito grande em qualquer plano sanitário, seja com ou sem vacinação dentro dos sistemas de produção”.
Sorotipos mais comum no Brasil
No Brasil, os sorotipos Ib e III do Streptococcus agalactiae são os mais comuns, enquanto em outras regiões, como Ásia e América Central, há registros variados em tilápias. “Essa é uma informação muito importante, porque qualquer entrada de um sorotipo novo no Brasil requer um plano vacinal completamente diferente do adotado até o momento. A vigilância epidemiológica, portanto, é fundamental para prevenir esse tipo de problema”, frisa.
Vacinas como principal forma de prevenção
Conforme o especialista, as vacinas são a principal ferramenta de prevenção, e suas formulações devem proteger contra diferentes sorotipos e variantes genéticas. “É essencial atualizar constantemente as vacinas, sejam elas autógenas ou licenciadas, com base nas variantes que circulam no Brasil”, ressalta.
O monitoramento epidemiológico também é um fator-chave para o sucesso dos programas sanitários. Sem um diagnóstico constante no sistema de produção não é possível planejar adequadamente as ações de controle. “Esse cenário começou a mudar no Brasil com a entrada das indústrias de vacinas, que, junto com empresas de insumos, como aditivos, têm proporcionado suporte técnico e informações epidemiológicas mais precisas para os produtores”, afirma Figueiredo.
Como identificar sinais da Streptococcus agalactiae
As lesões causadas pelo Streptococcus agalactiae em tilápias variam de acordo com o sorotipo do patógeno, entre as principais estão exoftalmia (olhos saltados), opacidade da córnea, letargia, anorexia e sinais neurológicos, como nado errático e em rodopios. Além disso, há lesões internas, que podem afetar o fígado, com áreas de necrose, hemorragias no opérculo, peitoral e ventral, além de danos nas brânquias, no pericárdio e no coração. “Essas lesões resultam em perda de vitalidade, levando os peixes a parar de se alimentar até chegarem ao quadro de mortalidade”, explica o médico-veterinário,
Outro aspecto apontado pelo especialista, que tem se tornado cada vez mais relevante, é a condenação de filé nos frigoríficos, situação que tem ocorrido em diferentes regiões produtoras do Brasil, porém, com maior frequência no Paraná. “No estado de Goiás o problema já foi mais expressivo, mas atualmente tem menor impacto”, aponta Figueiredo, chamando atenção para a flutuação regional da doença, cujas causas muitas vezes ainda são desconhecidas. “O fato é que isso causa grandes perdas econômicas. É preciso que o produtor também pense em como mitigar as doenças que causam prejuízos zootécnicos no sistema de produção, as quais nem sempre resultam em mortalidade. O animal pode até chegar no final do ciclo, mas no processamento ocorre a refugagem do lote, gerando prejuízos expressivos. Por isso é tão importante ficar atento em todos os fatores que afetam a produtividade e a qualidade final do produto”, reforça.

Eficácia da imunização
A escolha de vacinas com sorotipos específicos é fundamental para garantir a eficácia da imunização contra o Streptococcus agalactiae em tilápias. Cada região do Brasil demanda um plano vacinal personalizado, mas por que isso acontece? Para entender melhor, é necessário compreender a biologia da bactéria.
O médico-veterinário explica que as células bacterianas possuem uma estrutura externa chamada cápsula, que é responsável por definir o sorotipo da bactéria. Essa cápsula é formada por resíduos de carboidratos na superfície da célula, e essas rugosidades são o que determinam o sorotipo. “Cada sorotipo gera anticorpos específicos que reagem apenas contra ele mesmo”, afirma Figueiredo, frisando que isso significa que os anticorpos produzidos contra o sorotipo 1A, por exemplo, não terão efeito contra o sorotipo 1B, o que torna necessário desenvolver vacinas diferentes para cada sorotipo presente em uma região.
Embora existam diversos sorotipos descritos mundialmente para o Streptococcus agalactiae, no Brasil, apenas quatro já foram são registrados: Ib, III, II e Ia. No entanto, Figueiredo menciona que os sorotipos II e Ia não são detectados no país desde 2012, indicando que eles não se estabeleceram epidemiologicamente.
Atualmente, os sorotipos Ib e III são os mais prevalentes, tanto nas regiões Sul quanto Nordeste, o que orienta os planos vacinais adotados pelos produtores nessas áreas. “O conhecimento detalhado sobre os sorotipos em circulação é essencial para o desenvolvimento de vacinas eficazes, garantindo a proteção adequada dos peixes e a sustentabilidade da produção aquícola no Brasil”, ressalta.
Atualmente, toda a tecnologia de vacinas disponível no Brasil, considerada a mais avançada para tilápias no mundo, está baseada na escolha dos sorotipos predominantes, Ib e III. No entanto, o médico-veterinário expõe que quem vacina contra Streptococcus já deve ter percebido variações na eficácia da imunização. “Em alguns ciclos, a vacina pode atingir uma taxa de proteção de 90 a 95%, enquanto em outros, usando a mesma vacina, da mesma marca e com protocolos semelhantes, essa eficiência pode cair para 70 a 75%, um desempenho abaixo do esperado, porém muito comum. Uma das nossas principais suspeitas é que essa variação esteja relacionada a mudanças genéticas dentro dos grupos Ib e III, com cepas mutantes surgindo e apresentando características diferentes”, menciona o profissional.

Médico-veterinário, doutor em Microbiologia e professor de Sanidade dos Animais Aquáticos na Escola de Veterinária da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Henrique César Pereira Figueiredo: “É papel da indústria de vacinas desenvolver soluções mais ajustadas à cadeia produtiva. Novas gerações de vacinas serão necessárias para lidar com os desafios sanitários em constante evolução” – Foto: Jaqueline Galvão/OP Rural
Atualizações de vacinas
Figueiredo destaca que é fundamental para qualquer indústria farmacêutica, seja na produção de vacinas autógenas ou licenciadas, realizar uma avaliação contínua das variantes genéticas do Streptococcus agalactiae. “A composição das vacinas precisa ser constantemente atualizada, embora o intervalo ideal para essas atualizações ainda não seja claramente definido, pois esse processo é dinâmico e deve ser monitorado com rigor”, afirma.
Além disso, há uma crescente demanda por vacinas bivalentes, trivalentes e até tetravalentes para combater diferentes sorotipos de Streptococcus agalactiae, reforçando a complexidade do controle da doença.
Outro ponto mencionado pelo doutor em Microbiologia é a necessidade da vigilância epidemiológica contínua nas regiões produtoras, pois, a partir destes dados será possível determinar quando uma vacina precisa ser atualizada. “Outro desafio é o desenvolvimento de vacinas mistas, que combinem proteção contra Streptococcus agalactiae e outros agentes patogênicos, algo que se tornou uma prioridade para a piscicultura brasileira, devido à diversidade de ameaças à saúde dos peixes”, frisou.
Desafios ao desenvolvimento de vacinas mistas
O desenvolvimento de vacinas mistas para tilápias no Brasil enfrenta desafios complexos devido à diversidade de patógenos e à variação regional dos surtos. Figueiredo ressalta que o plano vacinal deve ser ajustado conforme o perfil epidemiológico de cada região produtora. “Nos últimos cinco anos, examinamos cerca de 10 mil tilápias em diversas partes do país, revelando a necessidade de vacinas específicas, que podem variar ao longo do tempo”, aponta.
No Triângulo Mineiro, por exemplo, o especialista pontua a predominância dos patógenos Streptococcus agalactiae Ib, Lactococcus petauri e Francisella orientalis. “Ainda não existe uma formulação comercial que atenda plenamente a essa combinação de agentes. Isso reforça a importância do uso de vacinas licenciadas e autógenas, que se adaptam ao perfil epidemiológico local”, salienta.
Já em Três Marias, também em Minas Gerais, a realidade é outra, com a presença de Streptococcus agalactiae Ib, Streptococcus iniae e Francisella orientalis. E no Sul de Minas Gerais, a variação é ainda mais acentuada, mostrando a necessidade de abordagens diferenciadas, mesmo dentro do mesmo estado.
Em Goiás, o cenário muda novamente com a detecção de Streptococcus agalactiae Ib, Lactococcus petauri e Streptococcus dysgalactiae. No Paraná, predominam Streptococcus agalactiae Ib e Francisella orientalis, com variações entre as regiões Oeste e o Norte do estado.
São Paulo segue um padrão semelhante ao Triângulo Mineiro, enquanto na região Nordeste, além de Streptococcus agalactiae Ib e III, surgem Lactococcus petauri e Streptococcus dysgalactiae, além da presença de Francisella orientalis no inverno. “Esses dados são dinâmicos e mudam constantemente, exigindo decisões sobre quais produtos utilizar para melhor atender ao perfil sanitário de cada sistema de produção”, explica Figueiredo.
Diante dessa diversidade, o profissional afirma que é comum o uso de duas vacinas de diferentes marcas em um mesmo sistema de produção, pois ainda não existem formulações que cubram todos os patógenos. “É papel da indústria de vacinas desenvolver soluções mais ajustadas à cadeia produtiva. Novas gerações de vacinas serão necessárias para lidar com os desafios sanitários em constante evolução”, enfatiza.
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Peixes
Banco genético fortalece futuro da tilapicultura no Brasil
Estudo com populações de tilápia-do-nilo de Santa Catarina ao Ceará cria reserva genética estratégica, identifica diferenças entre linhagens e abre caminho para maior produtividade, resiliência e sustentabilidade na principal cadeia da piscicultura nacional.

O Núcleo de Pesquisa Pescado para Saúde criou um amplo banco de germoplasma de tilápia-do-nilo (Oreochromis niloticus) analisando nove populações da espécie, amostradas dos estados de Santa Catarina até o Ceará. A tilapicultura responde por 65% da produção nacional de peixes cultivados.
O estudo revelou que, apesar das características morfológicas semelhantes, há diferenciação genética, formando quatro agrupamentos, além de sinais significativos de endogamia, cruzamentos entre parentes próximos que podem reduzir a diversidade e comprometer o desempenho produtivo ao longo dos anos.
Os cientistas reuniram mais de 2.600 exemplares na unidade do Instituto de Pesca em São José do Rio Preto, formando uma reserva genética que funciona como “poupança” para o futuro da tilapicultura.
A caracterização desses animais envolveu tanto medições corporais e de rendimento de filé – incluindo técnicas inovadoras de ultrassonografia, quanto análises moleculares com marcadores de DNA.
Os resultados indicam que linhagens ligadas ao programa internacional Genetically Improved Farmed Tilapia (GIFT) apresentam maior rendimento de filé, enquanto outras, como a chitralada, tendem a apresentar menor crescimento. Conhecimento como esse permitirá selecionar peixes mais adaptados às condições brasileiras, com maior resiliência climática e melhor aproveitamento econômico.
O Núcleo de Pesquisa Pescado para Saúde é apoiado pela FAPESP no âmbito do programa Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) e tem sede no Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP) com a participação de pesquisadores do Instituto de Pesca, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e das universidades de Mogi das Cruzes (UMC) e Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Peixes
Brasil mira 1 milhão de toneladas de peixe cultivado enquanto regulações desafiam setor
Embora ainda não haja dados consolidados para 2025, a piscicultura brasileira chega ao fim do ano com a percepção clara de expansão, mesmo sob um ambiente regulatório considerado adverso pelo setor.

Embora ainda não haja dados consolidados para 2025, a piscicultura brasileira chega ao fim do ano com a percepção clara de expansão, mesmo sob um ambiente regulatório considerado adverso pelo setor. O presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros, afirma que a atividade cresceu frente a 2024, impulsionada sobretudo pela tilapicultura, ao mesmo tempo em que enfrentou entraves provocados por decisões governamentais que alteraram o ritmo natural do mercado.
A expectativa é que a produção nacional ultrapasse as 968.745 toneladas registradas em 2024 e possa, pela primeira vez, romper a marca de 1 milhão de toneladas. Esse avanço é impulsionado especialmente pela tilápia, cuja produção cresceu 14,36% no ano anterior, respondendo por mais de 68% dos peixes cultivados no país.

Ao longo do último ano, os preços pagos ao produtor de tilápia registraram uma recuperação consistente nas principais regiões produtoras do país. Nos Grandes Lagos, o valor saiu de R$ 7,04 por quilo em janeiro para R$ 9,14 em dezembro. Em Morada Nova de Minas, a elevação foi de R$ 7,55 para R$ 9,23 no mesmo intervalo. No Norte do Paraná, a valorização também foi expressiva, passando de R$ 8,84 para R$ 10,07. No Oeste do Paraná, houve avanço mais moderado, de R$ 7,75 para R$ 8,81. Já no Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba, o preço subiu de R$ 7,50 para R$ 9,41. “Começamos 2025 com preços baixos pagos ao produtor, agora estamos praticamente na nona semana de recuperação dos preços da tilápia”, celebra Medeiros, enfatizando que apesar das flutuações típicas do mercado houve uma recuperação gradual nos valores pagos aos produtores, o que deve contribuir para o desempenho positivo do setor em 2025.
Na contramão
Apesar do bom desempenho, o desenvolvimento da piscicultura ocorreu em um ambiente político classificado como hostil por Medeiros. O primeiro grande obstáculo foi a liberação da importação de tilápia do Vietnã, um ato que, segundo o dirigente, se trata de uma interferência política. “As condições de produção no Vietnã são completamente diferentes das do Brasil. Lá, é permitido colocar água dentro do peixe, algo proibido por aqui”, diz categoricamente o presidente da Peixe BR, frisando que esse procedimento cria uma desvantagem competitiva para os produtores brasileiros, que cumprem rigorosas exigências ambientais e de produção.
Outro ponto crítico foi o impacto do tarifaço de 50% adotado pelos Estados Unidos sobre as exportações brasileiras de tilápia, medida que atingiu especialmente Paraná, São Paulo e Mato Grosso do Sul, principais produtores da espécie. “Houve queda no volume embarcado, mas a indústria reagiu de forma rápida, realocando produtos e buscando novos destinos, o que evitou desequilíbrios no mercado doméstico”, pontua, ressaltando os efeitos da tarifa já foram totalmente absorvidos pela cadeia e não representam mais risco.

Presidente da Associação Brasileira da Piscicultura (Peixe BR), Francisco Medeiros: “Com produto competitivo e abertura comercial, as perspectivas são positivas para 2026” – Foto: Divulgação/Peixe BR
Contudo, a maior ameaça surgiu em outubro, quando o Ministério do Meio Ambiente anunciou a inclusão da tilápia na lista preliminar de espécies exóticas invasoras. Medeiros avalia que, se essa classificação fosse oficializada, o impacto sobre o setor seria devastador. “Ao integrar a lista, a tilápia passaria a figurar em um documento compartilhado com 188 países, comprometendo a participação de empresas certificadas internacionalmente, já que espécies classificadas como invasoras não podem ser fomentadas, produzidas ou adquiridas por companhias que seguem protocolos globais de sustentabilidade. A medida colocaria em risco um mercado que hoje movimenta mais de R$ 10 bilhões por ano”, salienta.
Além disso, segundo o dirigente, Vietnã e China também enquadram a tilápia como exótica sob parâmetros similares, mas não avançaram na formalização da classificação, evitando restrições internas que afetariam seus produtores. Para ele, o avanço unilateral do Brasil geraria desvantagem competitiva num setor no qual o país já figura como o quarto maior produtor do mundo e projeta alcançar a segunda posição até 2030. A mobilização técnica e política resultou na suspensão temporária do processo de elaboração da Lista Nacional de Espécies Exóticas Invasoras Presentes no Brasil pelo governo federal, no início de dezembro. A decisão busca ampliar o diálogo com setores econômicos que utilizam espécies exóticas, como agricultura, pecuária, pesca e indústria, de modo a reunir contribuições consistentes antes da definição de medidas de prevenção e controle.
Entraves internos
A complexidade regulatória interna segue como outro entrave. A piscicultura é, segundo Medeiros, a atividade mais regulada do país, demandando até 13 registros para operação, um nível de exigência que ele afirma não existir em nenhum outro mercado no mundo. “Hoje o maior risco à competitividade do setor não é a burocracia, mas a interferência política”, aponta.

Como exemplo, cita a decisão do governo de permitir a importação de tilápia do Vietnã após um acordo comercial envolvendo a JBS, que ampliou as vendas de carne bovina ao país asiático em troca da entrada do pescado vietnamita no Brasil. “São 32 contêineres de filé que chegaram ao mercado interno, volume equivalente a cerca de 4% da produção mensal nacional. Cada contêiner representa 160 toneladas de filé que deixam de ser vendidas pelo produtor brasileiro e a redução de aproximadamente 70 mil tilápias na produção interna”, salienta.
O presidente da Peixe BR demonstra confiança no futuro da tilapicultura brasileira e acredita que os entraves serão superados. Ele destaca que o Brasil possui vantagens competitivas claras, especialmente frente a concorrentes asiáticos. “O Vietnã não tem condição de competir com o Brasil, seja nos custos ou na produtividade. Para se ter uma ideia, o Oeste do Paraná tem produtividade 2,5% superior à do Vietnã e da China”, reforça.
Medeiros aposta que o alinhamento político e institucional será determinante para manter o ritmo de expansão do setor. “Acreditamos que nossos congressistas e governadores irão resolver essa questão e que, em 2026, continuaremos nessa curva de crescimento. Eu acredito na resolução desses problemas e na continuidade da produtividade e da produção da tilapicultura nacional”, disse, confiante.
Medeiros reforça que o setor não se opõe às importações, desde que ocorram com isonomia e segurança sanitária. Ele lembra que, na primeira tentativa de entrada da tilápia vietnamita, a Peixe BR entregou uma nota técnica alertando para doenças presentes no Vietnã e ausentes no Brasil, levando o Ministério da Agricultura a barrar a operação. Agora, afirma, esses riscos persistem, mas foram relativizados, configurando mais uma interferência política em um segmento já pressionado por excesso de normas.
Consumo per capita
No mercado consumidor, a tilápia tem sido protagonista na dinâmica de crescimento. O consumo per capita de pescado no Brasil permanece ao redor de 10 kg por ano, somando produtos da aquicultura, pesca e importações. A tilapicultura, que cresce a uma média anual de 10,3% na última década, sustentou o aumento do consumo interno, especialmente em um cenário de perda de força da pesca extrativa. Dados recentes do Ministério da Pesca mostram que a aquicultura já produz o dobro do volume proveniente da pesca, reforçando a mudança estrutural da oferta. Medeiros projeta que o consumo siga no patamar atual em 2025 e que, na próxima década, o país possa alcançar entre 12 e 13 kg per capita. “A preocupação, porém, é evitar que esse crescimento ocorra apoiado em maiores importações, o que, não faz sentido nenhum para um país com forte capacidade produtiva”, analisa Medeiros.
Custos de produção
O cenário de custos em 2025 foi marcado por estabilidade nos insumos mais relevantes e pressão em itens operacionais. A ração, maior componente do orçamento do produtor, manteve preços estáveis graças ao bom desempenho das safras de grãos. Por outro lado, energia elétrica, transporte, combustíveis, fretes e encargos trabalhistas registraram altas, comprimindo a rentabilidade principalmente no primeiro semestre, quando os preços pagos ao produtor estavam mais baixos. A recuperação observada no segundo semestre aliviou parte da pressão.
Futuro da atividade
Medeiros diz que vê oportunidades otimistas para o setor desde que haja estabilidade regulatória e políticas alinhadas à competitividade. “É preciso que o governo federal busque soluções que favoreçam a atividade sem prejudicar os pequenos produtores, que representam 98% da produção nacional e dependem de previsibilidade para manter investimentos”, aponta.

Segundo o executivo, a grandes perspectivas de crescimento para a tilápia nos próximos anos, com a previsão de aumentar sua participação na produção total de peixe de cultivo para 80% até 2030. “Com forte investimento em tecnologia, genética e nutrição, acredito que o Brasil poderá liderar a produção global de tilápia em um curto espaço de tempo. Hoje os principais players são China, Indonésia e Egito”, anseia Medeiros.
De acordo com o presidente da Peixe BR, a tilapicultura brasileira, classificada por ele como a mais tecnológica, sustentável e produtiva do mundo, deve aprofundar ganhos de eficiência e buscar novas frentes no comércio exterior. “Os Estados Unidos ainda absorvem metade das exportações brasileiras, mas há expansão potencial no Canadá e em outros mercados. Com produto competitivo e abertura comercial, as perspectivas são positivas para 2026”, enfatiza, destacando que espera que o alinhamento institucional elimine ruídos políticos, permitindo ao país consolidar sua posição entre os maiores produtores globais de tilápia.
A edição de 2025 figura não apenas como um retrato do maior VBP da história, mas como um guia essencial para compreender os caminhos e desafios do agronegócio brasileiro no curto e médio prazo. Confira a versão digital clicando aqui.
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Preços da tilápia iniciam 2026 com estabilidade nos principais polos produtores
Levantamento do Cepea aponta variações pontuais nas cotações, refletindo equilíbrio entre oferta e demanda no começo do ano.

Os preços da tilápia apresentaram comportamento predominantemente estável na semana encerrada em 02 de janeiro, segundo dados do Cepea. Em importantes polos produtores do País, as variações foram pontuais, indicando equilíbrio entre oferta e demanda no início do ano.
Na região dos Grandes Lagos, a cotação permaneceu em R$ 9,27 por quilo, sem variação em relação à semana anterior. Estabilidade semelhante foi observada no Norte do Paraná, onde o preço médio ficou em R$ 10,11/kg. Já em Morada Nova de Minas, houve leve alta de 0,31%, com o valor alcançando R$ 9,44/kg.
No Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, a tilápia foi comercializada a R$ 9,57/kg, registrando a maior elevação semanal entre as regiões acompanhadas, com avanço de 0,39%. Em sentido oposto, o Oeste do Paraná apresentou pequena retração de 0,19%, com o preço médio recuando para R$ 8,76/kg.
De acordo com o Cepea, as oscilações discretas refletem um mercado ajustado, típico do período, sem movimentos bruscos de oferta ou pressão significativa da demanda sobre as cotações.



