Notícias
Solos úmidos atingem limite crítico para reter fósforo no Paraná
Investigação da UFPR indica que, quando sobrecarregados, ecossistemas passam de barreira a fonte de poluição, reforçando a urgência por manejo e normas mais claras no uso de fertilizantes.

As áreas úmidas, que são os solos encharcados geralmente localizados nas proximidades dos corpos d’água, são paisagens que vivem uma contradição ambiental. Legislações no Paraná e no Brasil as consideram de preservação permanente, mas sua baixa altitude as deixa vulneráveis aos problemas com excesso de fertilizantes agrícolas. Ao reforçar o papel ambiental desse tipo de solo, especialmente no ciclo do fósforo — que está na base dos fertilizantes mais usados —, uma pesquisa do Programa de Pós-Graduação em Ciência do Solo da Universidade Federal do Paraná (UFPR) acaba por questionar as lacunas de regras sobre o uso desses insumos.
Dentro da classificação das ciências do solo que considera a água, são chamadas de áreas úmidas os ecossistemas nos quais o solo tem grande presença de água. O outro nome é hidromórfico, ou seja, solo com excesso de água. Em sua tese, a pesquisadora Ana Paula Marés Mikosik investigou o potencial de adsorção de fósforo por um tipo de solo úmido, o Organossolo, que é rico em matéria orgânica.
Adsorver significa fixar o nutriente no solo, o que evita que seja transportado para outros locais. A adsorção de fósforo é estratégica porque controla o transporte do nutriente, que em excesso é um poluente de corpos d’água. A poluição por fósforo é um dos prejuízos ambientais da agricultura tradicional no Brasil devido ao alto consumo de fertilizantes fosfatados, sejam minerais ou orgânicos, somado aos indícios de que o país tem problemas de excesso no uso desse insumo.
A pesquisa aponta que os solos hidromórficos têm realmente alta capacidade de adsorção de fósforo. Para comparação, o Organossolo fixou em torno de 609 miligramas de fósforo por quilo, contra 582 miligramas por quilo constados em amostras de Cambissolo (solo mineral, não-saturado com água, mais comum no Brasil do que o Organossolo).
Sugere, porém, que esse poder é limitado e não pode justificar lacunas nas regras para o uso responsável de fertilizantes fosfatados. Isso porque, quando as áreas úmidas são sobrecarregadas com fósforo, ao invés de fixá-lo, tornam-se uma fonte de fósforo. “Da tese entendemos que, mesmo que as áreas úmidas tenham grande capacidade de adsorção, a gente precisa trabalhar com melhores práticas de manejo nas áreas agrícolas próximas. Porque temos ali um ecossistema que tem capacidade de filtrar, mas que não é infinita”, avalia Nerilde Favaretto, professora titular do Departamento de Solos e Engenharia Agrícola da UFPR, que orientou a pesquisa.
Para medir a capacidade de filtro das áreas úmidas, a pesquisadora Ana Paula Mikosik fez experimentos em laboratório com amostras de solo retiradas do Centro de Estações Experimentais da Fazenda Canguiri da UFPR, em Pinhais (PR). Ao longo de 120 dias amostras dos solos (Organossolo e Cambissolo, usado como controle) foram incubados em diversas concentrações de fósforo e testadas quanto à adsorção de fósforo e avaliação do risco ambiental de fósforo. Segundo a pesquisadora, o maior desafio foi simular no laboratório as mesmas condições de umidade encontrados nos solos coletados em campo.
A partir das análises, a pesquisa propõe que o limite crítico ambiental de fósforo nas áreas úmidas — os 609 miligramas de fósforo por quilograma — seja usado para uma gestão adequada do Organossolo, ou seja, os responsáveis pelos cuidados com esse ecossistema poderiam ser beneficiados economicamente. “Com a finalidade de resguardar a função de filtro e zelar pelos seus serviços ecossistêmicos, é interessante buscar alternativas para incentivar economicamente a sociedade a conservar as áreas úmidas”, acredita Ana Paula Mikosik.
Programas governamentais incentivaram cultivo agrícola em áreas úmidas no passado

Fotos: Divulgação/Abisolo
As áreas úmidas vistas hoje como degradadas, portanto livres para cultivo, são herança de uma época em que a fragilidade desses ecossistemas era menos considerada. Políticas de agricultura no Brasil incentivaram até pelo menos os anos 1980 o cultivo nos solos mais próximos de corpos d’água, aproveitando a matéria orgânica disponível e também com a justificativa de que seriam capazes de liberar fósforo.
Uma dessas políticas foi o Programa Nacional de Aproveitamento de Várzeas Irrigáveis (Pró-Várzeas), decretado em 1981 por João Figueiredo, com reflexos no Paraná. O programa previa ampla exploração das áreas úmidas, incluindo a drenagem desses solos para agricultura.
“Por isso que, apesar de existir uma resolução de preservação dessas áreas no Estado do Paraná [Resolução 5/2009 SEMA/IAP] e uma convenção internacional [Convenção de Ramsar] da qual o Brasil é signatário, sabemos que ainda são usadas para agricultura. É um resquício do Pró-Várzeas”, diz Ana Paula.
No Paraná existe produção agrícola em áreas úmidas, caso dos arrozais, e de áreas úmidas que foram drenadas, dando lugar ao cultivo de milho e soja, por exemplo, e a pastagens.
O impacto ambiental de desproteger áreas úmidas é ainda mais amplo. Esses ecossistemas têm mais funções ambientais, que vão do armazenamento de água ao estoque de carbono, além de retenção de outros nutrientes e controle da erosão. “A crescente preocupação mundial com a qualidade e a quantidade de água, concentração de gases do efeito estufa e mudanças climáticas reforçam a necessidade de incentivo na preservação de áreas úmidas naturais bem como a e restauração de áreas úmidas drenadas”, analisa Nerilde Favaretto.
Livro para crianças leva conscientização sobre proteção do solo
Já doutora, Ana Paula Mikosik se inspirou na experiência de dez anos como professora de Geografia na educação básica e escreveu um livro para crianças sobre o tema da sua pesquisa. Assim o Organossolo se tornou uma personagem chamada Organalinda, em referência ao solo que protege o rio.
Não por acaso a personagem é uma mulher. “Apesar de o solo ser nomeado no masculino, escolhi uma personagem para demonstrar empoderamento feminino e exemplificar que meninas e mulheres também podem trabalhar com solos.”

Foto: SAA SP
A pesquisadora já tinha publicado livros infantis em co-autoria, mas é a primeira vez que o tema é de divulgação científica. A intenção é que ajude as crianças a prestarem mais atenção ao solo, podendo assim conhecê-lo e preservá-lo. “Quando as crianças entendem que o solo é muito mais do que o chão que elas pisam ou apenas o suporte da planta, elas descobrem as muitas funções do solo e os seus papeis ecológicos vitais. O conhecimento e manejo aprofundado do solo são fundamentais para não comprometer o habitat das gerações atuais e futuras e garantir a nossa sobrevivência enquanto espécie”.
O livro “Organalinda, a protetora do rio” tem 20 páginas, é ilustrado em aquarela por Jana Vicente e as letras do texto são em caixa alta. Está à venda em formato físico diretamente com a autora e na Uiclap e na Amazon, por preços de R$ 7 a R$ 57. Até agora, já foram vendidos mais de 80 exemplares para leitores no Brasil, Portugal e França.

Notícias
Mapa lança projeto para ampliar mercado de pequenas agroindústrias
Iniciativa busca facilitar acesso ao Sisbi-POA e fortalecer negócios rurais.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apresentou, durante a Feira Brasil na Mesa, o projeto SIMples AsSIM, iniciativa desenvolvida em parceria com o Sebrae para ampliar a inserção de pequenas agroindústrias no mercado nacional e fortalecer os pequenos negócios rurais.
Durante a palestra, a coordenadora-geral do Sistema Unificado de Atenção à Sanidade Agropecuária (Suasa), Claudia Valéria, destacou que os avanços do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Sisbi-POA) abriram caminho para a criação do projeto. Segundo ela, a modernização dos processos foi essencial para ampliar a adesão ao sistema.
O projeto busca ampliar o acesso de produtos de origem animal ao mercado nacional por meio de qualificação técnica, modernização da inspeção, apoio à adequação sanitária, entre outras ações. A proposta também prevê identificar os principais desafios enfrentados pelos empreendedores e apoiar a integração ao Sisbi-POA.
A regularização de agroindústrias de pequeno porte é considerada estratégica para promover a inclusão produtiva, reforçar a segurança alimentar e impulsionar o desenvolvimento econômico local.
Durante a apresentação, Cláudia também ressaltou a importância de outras iniciativas, como o Projeto ConSIM, que contribuiu para a integração de consórcios públicos ao sistema. “Entre 2020 e 2025, 68 consórcios públicos no Brasil se integraram ao sistema, permitindo que muitos municípios ampliassem a comercialização de seus produtos”, afirmou.
Apesar dos avanços, o número de estabelecimentos ainda não acompanha o crescimento dos serviços de inspeção integrados. “Observamos um grande número de serviços integrados, mas os estabelecimentos não cresceram na mesma proporção. Por isso, surgiu a necessidade de fortalecer esses produtores e capacitá-los para acessar o mercado nacional”, pontuou.
O projeto está estruturado em três eixos: inclusão de agroindústrias no Sisbi-POA; fortalecimento dos Serviços de Inspeção Municipal com base em análise de risco; e apoio técnico à estruturação de agroindústrias de pequeno porte.
O projeto-piloto será iniciado em Santa Catarina, estado com grande número de agroindústrias e potencial de expansão. A iniciativa prevê diagnósticos in loco e planos de ação personalizados para apoiar a adequação dos estabelecimentos. “Mais de 80% das agroindústrias demonstraram interesse em expandir seus mercados. Isso mostra que há demanda e que precisamos criar condições para que esses produtores avancem”, concluiu a coordenadora-geral.
O analista do Sebrae Warley Henrique também apresentou os resultados iniciais do projeto. Entre eles, o diagnóstico on-line que identificou as principais dificuldades relacionadas à estrutura dos serviços de inspeção que limitam a integração dos estabelecimentos ao Sisbi, com 217 respondentes.
Também foi realizada pesquisa com técnicos dos estabelecimentos, que reuniu 114 participantes, sobre os principais entraves para obtenção do selo Sisbi, além do levantamento das orientações técnicas necessárias para cada estabelecimento.
Após a fase de levantamento, o projeto avança para a estruturação da metodologia de atendimento e para a implementação das ações em campo, com início previsto para maio de 2026, em Santa Catarina.
Notícias
Copacol recebe Prêmio de Melhor do Biogás pelo segundo ano consecutivo
Projeto premiado destaca eficiência na geração de energia a partir de resíduos e reforça liderança da cooperativa em sustentabilidade.

A Copacol consolidou mais uma vez sua posição de referência nacional em energias renováveis ao conquistar, pelo segundo ano consecutivo, o Prêmio Melhores do Biogás Brasil 2026, na categoria Melhor Planta Indústria.
O reconhecimento apresentado no 8º Fórum Sul Brasileiro de Biogás e Biometano, em Foz do Iguaçu, destaca o desempenho da Usina de Biogás instalada na UPL (Unidade de Produção de Leitões), em Jesuítas, e evidencia o compromisso da Cooperativa com inovação, eficiência energética e preservação ambiental. “É uma satisfação imensa receber o Prêmio de Melhor do Biogás, que reconhece o desempenho desse importante investimento em sustentabilidade. O respeito ao meio ambiente é uma prática em nossas atividades, por isso, buscamos alternativas que consolidem esse comportamento e preservem ainda mais nossas riquezas”, complementa o diretor-presidente da Copacol, Valter Pitol.
A premiação reforça os resultados obtidos pela cooperativa ao longo dos últimos anos, especialmente no aproveitamento de resíduos agroindustriais para geração de energia limpa. Somente em 2025, a usina produziu 6.813.437 kWh de energia a partir dos resíduos gerados pela Unidade de Produção de Leitões e pela Unidade de Produção de Desmamados, resultado que representou economia em energia elétrica e aproveitamento de resíduos equivalentes a R$ 6,4 milhões. “O Prêmio de Melhor do Biogás demonstra o compromisso da Copacol com a sustentabilidade, a destinação correta de resíduos, principalmente com e uso de energia renovável”, afirma o gerente de Meio Ambiente da Copacol, Celso Brasil.
O modelo premiado de geração de energias renováveis recebeu a visita de empresários do ramo do Brasil e do exterior. A programação contou com apresentação técnica e um passeio guiado às instalações, mostrando a realidade operacional da planta e os processos utilizados para transformar resíduos em energia. A Copacol foi escolhida como destino técnico pelo reconhecimento do projeto como modelo de sucesso no setor. “Existe muito estudo no desenvolvimento do projeto da Copacol e isso é fundamental. A operação leva em consideração dados diários de composição dos substratos, concentração de material orgânico e existe um monitoramento contínuo da planta. As tomadas de decisão são baseadas nos dados gerados. Isso dá segurança e impressiona bastante”, afirma a analista da Embrapa, Fabiane Goldschnidt, que atua em projetos de gerenciamento de resíduos, produção de biogás e biometano.
A usina também chamou a atenção de representantes da área acadêmica. Rosiany de Vasconcelos Vieira Lopes, professora da Universidade de Brasília, natural de Campina Grande e atualmente residente em Brasília, participou da visita técnica. “Fiquei muito surpresa com a estrutura. Percebemos na prática a utilização de resíduos aproveitados de uma maneira renovável e sustentável para a produção de energia.”
Notícias
Selos distintivos ganham destaque como estratégia de valorização no agro
Certificações reforçam origem, qualidade e ajudam produtores a acessar mercados.

Os selos distintivos são certificações voltadas para os produtores rurais que objetivam o desenvolvimento, a valorização e a diferenciação na agricultura brasileira. Para tratar do tema, foi realizada a palestra “Chefs de Origem: Estratégia de Valorização dos Produtos de Origem e dos Pequenos Negócios”, durante a Feira Brasil na Mesa.
Representando o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), o coordenador-geral de Fomento à Agroindústria, Nelson Andrade, apresentou os selos distintivos sob a coordenação do Mapa. “Os selos distintivos são certificações que comprovam origem, qualidade, autenticidade e conformidade com padrões específicos. Eles geram confiança, credibilidade e ajudam o consumidor a fazer escolhas mais conscientes”, explicou Nelson Andrade.
Os principais selos e certificações são: Boas Práticas Agropecuárias; Produção Integrada; Selo Arte; Selo Queijo Artesanal; Indicação Geográfica e Marcas Coletivas.
As Boas Práticas Agropecuárias (BPA) são um conjunto de princípios, normas e recomendações técnicas aplicadas nas etapas da produção, processamento e transporte de produtos alimentícios e não alimentícios.
Já os selos Arte e Queijo Artesanal buscam trazer agregação de valor para produtos alimentícios artesanais de origem animal com características especiais e diferenciadas.
As marcas coletivas são sinais distintivos utilizados para identificar produtos ou serviços provenientes de membros de uma entidade coletiva, possibilitando a diferenciação de mercado, a proteção jurídica e a valorização de produtos e serviços, sendo utilizadas por associações, cooperativas, sindicatos e outras entidades.
As Indicações Geográficas (IGs) são sinais que identificam a origem de um produto ou serviço quando determinada qualidade, reputação ou característica está vinculada à sua origem. Protegem a origem, a tipicidade e a reputação do produto. São duas modalidades: indicação de procedência, que considera a região reconhecida como centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de determinado serviço; e denominação de origem, quando qualidade e características estão vinculadas a uma indicação geográfica.
São mais de 150 IGs para produtos da agricultura e da agropecuária brasileiras, principalmente de mel, própolis, carnes, pescados e derivados.
Durante a apresentação, Nelson destacou que o impacto dos selos vai além da certificação. “Eles fortalecem a origem, valorizam tradições e impulsionam o desenvolvimento do campo. Valorizam os produtos, evidenciam a cultura local, destacam a qualidade e a singularidade, valorizam a diversidade e fortalecem as agroindústrias”, salientou.
O coordenador também ressaltou o papel das políticas públicas no apoio aos pequenos produtores. “Essas iniciativas são fundamentais para que o produtor consiga acessar mercados de forma estruturada, manter sua atividade e agregar valor ao que produz”, pontuou.
Ao final, representantes do Sebrae apresentaram o projeto “Chefes de Origem”, que busca a produção, a organização e o fornecimento qualificado por meio da conexão entre produtores locais e restaurantes, promovendo a transformação gastronômica e dando visibilidade aos pequenos produtores.



