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Sistemas integrados fortalecem a pecuária bovina no Cerrado

ILP e ILPF elevam o desempenho produtivo, melhoram o solo e ampliam o bem-estar animal, segundo a Embrapa.

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Participantes conheceram a experiência da Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), com sistemas de integração e agricultura regenerativa - Foto: Alexandre Veloso

Os benefícios em produtividade e sustentabilidade dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), estratégias de produção da agricultura regenerativa, foram apresentados por pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF) durante visita de campo na Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), no último dia 6.

O evento encerrou a Capacitação Gratuita em Pecuária Bovina e Pastagem Regenerativas, promovida pelo LabAgroMinas, programa de agroinovação do centro de pesquisas e do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), e pelo Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS).

Iniciada em 16 de setembro deste ano com o apoio da Secretaria de Estado Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG) e da Emater-MG, a capacitação on-line foi estruturada em cinco módulos, totalizando 66 horas/aula. O objetivo foi difundir conhecimentos e soluções que aliam melhoria no desempenho produtivo, responsabilidade ambiental, resiliência climática e inovação, contribuindo para aumentar a competitividade da pecuária mineira. Participaram 840 produtores rurais, profissionais de assistência técnica, estudantes, pesquisadores e outros atores do setor agropecuário.

Benefícios do sinergismo dos componentes da ILP

Foto: Divulgação/Rede ILPF

O pesquisador Lourival Vilela apresentou resultados de pesquisas da Embrapa Cerrados com ILP que comprovam a sustentabilidade e a sustentabilidade desse sistema. De acordo com estudo da Embrapa, dos 177 milhões ha de pastagens no Brasil, 109 milhões ha têm algum nível de degradação e, desses, 28 milhões ha apresentam condições de logística, infraestrutura e topografia para serem recuperados com agricultura.

“A ILP explora o sinergismo das interações solo-planta-animal de áreas que integram as atividades de produção agrícola e pecuária”, explicou Vilela, apontando os três princípios desses sistemas – revolvimento mínimo do solo, cobertura permanente do solo e diversificação de espécies. “O solo é o compartimento centralizador dos processos da ILP. Os benefícios virão se houver balanço positivo de carbono, e este ocorre se os atributos químicos, físicos e biológicos do solo estiverem equilibrados”, disse, acrescentando que é preciso adotar sistemas mais biológicos para garantir a sustentabilidade da agricultura e a vida no planeta.

Entre os benefícios proporcionados pela ILP, estão a melhoria dos atributos químicos, físicos e biológicos do solo, visando à saúde do solo; maior ciclagem e aumento da eficiência de uso de nutrientes; redução de pragas, doenças e plantas invasoras; mitigação do déficit de forragem na estação seca; bem-estar animal; mitigação de gases de efeito estufa (GEE); aumento da produção de grãos e forragem, bem como de carne e de leite; redução de risco pela diversificação de atividades; e intensificação e utilização racional dos fatores de produção.

Vilela mostrou dados de uma pesquisa com o sistema de ILP São Francisco, em que o capim é sobressemeado na soja em final de ciclo, comprovando maiores ganhos em peso dos animais durante a estação seca com o uso de diferentes forrageiras avaliadas.

Um estudo comparou a produção de palhada em milho solteiro e milho consorciado com capim, demonstrando a maior ciclagem de nutrientes no sistema em consórcio, com equivalente em ureia (fonte de nitrogênio) de 140 kg/ha, 230 kg/ha equivalentes em superfosfato simples (fonte de fósforo) e 90 kg/ha equivalentes em potássio.

Para comprovar o aumento da matéria orgânica do solo e a maior eficiência de uso de fósforo, o pesquisador apresentou uma pesquisa da década de 1970 na Embrapa Cerrados que comparou um sistema de rotação soja-milho com um sistema soja-milho que incluía capins braquiária em consórcio com o milho. A área com capim apresentou, além de maior teor de matéria orgânica do solo, mais kg de grãos por kg de fósforo residual, ou seja, utilizou menos fósforo que a área sem consórcio para obter a mesma produção de soja, demonstrando maior eficiência de uso do nutriente.

Outro estudo, comparando milho solteiro e milho consorciado com a forrageira Panicum maximum BRS Zuri, comprovou o melhor controle de plantas invasoras como a buva, com redução de 70% da ocorrência.

O pesquisador destacou intensificação dos usos dos fatores de produção ao longo do ano com a adoção dos sistemas de ILP. Quando a soja era plantada em monocultura, a terra era utilizada em apenas 42% do tempo de um ano agrícola. “À medida que fomos introduzindo o sistema, passamos a produzir o ano todo na fazenda, mantendo o solo coberto. Esse é um dos grandes benefícios desse sistema”, afirmou, mostrando dados de produtividade da soja em primeira safra, milho na segunda safra e animais na terceira safra, sendo a palhada para o Sistema Plantio Direto a quarta safra.

Em uma propriedade em Tocantins, foi feito um trabalho de rotação de soja e milho com Brachiaria brizantha cultivar Marandu e 780 cabeças de novilhas de corte em 139 ha na entressafra (período seco). Entre julho e setembro (55 dias), o animais obtiveram ganho de peso médio de 809 g/dia e 202 kg/cabeça/ha em peso vivo médio.

Foto: Gabriel Faria

Opção de ILP para o Oeste da Bahia, o Sistema Boi Safrinha, avaliado desde 2009 numa fazenda em Formosa do Rio Preto, constitui-se no plantio, após a soja, de milho consorciado com braquiária. De acordo com os dados obtidos entre 2013 e 2015, quando a pastagem formada é pastejada por bovinos, os rendimentos da soja na safra seguinte são superiores aos da soja cultivada após a pastagem sem pastejo. “No final dos três anos, houve uma diferença de 11 sc/ha. Multipliquem isso por hectare e pelo preço (da saca de soja)”, sugeriu Vilela, citando um estudo chinês que afirma que o pastejo é um fator crucial na estruturação das comunidades microbianas do solo por promover a mudança de um sistema dominado por fungos para outro dominado por bactérias. “Há muito o que aprender sobre a dinâmica de microrganismos no solo”, observou.

Segundo o pesquisador, a entrada do componente arbóreo nos sistemas de integração se deu em função do aumento da demanda por madeira para a produção de energia e, ao mesmo tempo, da pressão para não haver a abertura de novas áreas. Ele apresentou dados de um estudo realizado na Embrapa Agrossilvipastoril (MT) comparando pastagem solteira, ILP, ILPF com três linhas de árvores no renque e ILPF após desbaste de uma linha de árvores – esta última apresentou os melhores resultados em ganho de peso dos animais.

Vilela apresentou, ainda, dados da avaliação da temperatura superficial de vacas Gir e Girolando a pleno sol e à sombra durante as estações seca e chuvosa. O bem-estar animal proporcionado pela sombra resultou em maior taxa de reprodução dos animais, com produção de 81% mais ovócitos viáveis e de quatro vezes mais embriões in vitro em relação às vacas a pleno sol.

O pesquisador fez um histórico da implantação dos sistemas de integração na Fazenda Santa Brígida, iniciada em 2006, quando a propriedade praticava pecuária de baixa produtividade em pastagens degradadas e contava com apenas dois vaqueiros. Diferentes sistemas de integração foram então testados, gerando diversos dados que mostram, ao longo dos anos seguintes, os incrementos crescentes de matéria orgânica e do fósforo no solo, na produtividade de soja e de milho e na taxa de lotação dos animais e produtividade de carne. Na safra 2024/25, a soja cultivada em 1080 ha alcançou 78 sc/ha e o milho de primeira safra (255 ha) 195 sc/ha; na safrinha, o milho obteve 110 sc/ha em 185 ha, o girassol 41 sc/ha em 490 ha e o sorgo 86 sc/ha em 250 ha.

“A fazenda saiu de uma área de pastos degradados e chegou à condição atual de ter 20 funcionários registrados e com plano de saúde, e toda a equipe treinada. Hoje, podemos ver uma fila de caminhões que chegam para serem abastecidos com soja. Pensem no impacto disso na economia da região”, sintetizou Vilela. “Temos que intensificar de forma sustentável o uso de nossas áreas, sejam elas grandes ou pequenas”, finalizou.

Vantagens das árvores na ILPF

Fotos: Shutterstock

“Qualquer sistema integrado chama a atenção por três pontos: a diversificação de espécies, de investimentos e de renda; o balanço de carbono e a maior eficiência dos sistemas de produção agropecuários, sobretudo na questão da ciclagem de nutrientes”, destacou o pesquisador Kleberson de Souza ao falar sobre os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta.

Para explicar o porquê da inserção de árvores num sistema que já é integrado (ILP), ele listou benefícios exclusivos do componente arbóreo: a ambiência animal promovida pelo sombreamento, que reduz o estresse térmico, melhora o bem-estar animal e pode aumentar a produtividade; a diversificação da produção como ferramenta de diminuição de riscos do sistema com o cultivo de espécies florestais, gerando renda adicional com madeira, frutos ou biomassa, energia, celulose, resinas amêndoas, entre outros; o aumento da biodiversidade, com a criação de habitats para fauna e flora, favorecendo o equilíbrio biológico; e sequestro de carbono, uma vez que as árvores capturam gás carbônico da atmosfera, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.

Souza apresentou um gráfico da evolução do preço médio do metro cúbico da madeira do eucalipto no Mato Grosso do Sul, que valorizou cerca de 150% desde 2020, tendência que deve ser mantida para os próximos anos, assim como o aumento da demanda na região devido à instalação de usinas de etanol de milho, que utilizam a madeira como energia. Por outro lado, os preços do boi gordo têm sofrido grandes oscilações nos últimos 15 anos, enquanto os preços dos fertilizantes tiveram fortes aumentos. “Se conseguirmos diversificar a produção na propriedade, correremos menos riscos. Se precisarmos vender o boi a preços mais baixos do que compramos, uma poupança verde de madeira pode nos salvar. E, ao contrário do boi, que dá prejuízo se permanecer muito tempo no confinamento, a árvore só está ali crescendo”, observou.

Para a implantação do componente florestal na propriedade, alguns critérios devem ser observados: a arquitetura da copa da árvore tem que ser favorável (mais ereta); facilidade de estabelecimento para minimizar a quantidade de tratos culturais; crescimento rápido, para que os animais sejam colocados na área o quanto antes; ausência de efeitos tóxicos para os animais e de efeitos alelopáticos sobre as forrageiras e os cultivos agrícolas; tolerância a ataques de insetos e doenças; resistência ao vento, o que ajuda na manutenção de água no solo; ausência de raízes superficiais, diminuindo assim a competição com outras culturas; e a ausência de caráter invasor.

A forma de distribuição das árvores, segundo o pesquisador, depende da finalidade da produção – energia, serraria, construção civil; da declividade e da face de exposição; da proteção dos demais componentes do sistema; e, principalmente, da conservação de água e solo. A partir de resultados de pesquisas, recomenda-se que o espaçamento entre renques de árvores seja de não menos que 30 m; o alinhamento deve ser preferencialmente Leste-Oeste para maior incidência de radiação solar no espaço entre renques, reduzindo a competição por luz entre os componentes do sistema; e definir o espaçamento múltiplo dos implementos, colocando 1 a 2 m de faixa de segurança. A distância máxima entre os renques deve ser três a quatro vezes a altura das árvores para garantir os benefícios do componente florestal no sistema.

Souza lembrou que com o crescimento das árvores, o sombreamento aumenta e a quantidade de forragem diminui. Ele mostrou um estudo em que uma pastagem com 45% de sombra apresentou densidade volumétrica de 71,6 kg/cm.ha, e de 111,5 kg/cm.ha a pleno sol. “De fato, deve-se ter cuidado com a inserção do componente florestal”, comentou. Também citou uma pesquisa realizada em Sinop em que num sistema de ILPF com desbaste do componente florestal, reduzindo a densidade para 90 árvores/ha e com 37 m de distância entre renques, houve maior ganho de peso dos animais.

Quanto ao estoque de carbono no solo, a presença do componente arbóreo confere superioridade do sistema ILPF em relação ao sistema ILP, como mostrado em estudo que avaliou o acúmulo de carbono (mais 12%) e de nitrogênio (mais 24%) na camada de 0 a 100 cm em área experimental. A biomassa florestal total acumulada durante seis anos num sistema com 130 árvores/ha foi de 60 t/ha, sendo 79% nos troncos (47 t/ha). Considerando-se 50% em carbono no tronco, isso corresponderia a 23,5 t/ha de carbono, o que representa 86 tCO2 eq/ha ou 14 tCO2 eq/ha/ano, ou, ainda, 30 kg C/árvore/ano. “Se fizéssemos 4 milhões ha, que é menos de 10% da área plantada de soja no Brasil, com um sistema ILPF com 50 árvores/ha, seria mais que suficiente para sequestrar toda a emissão de GEE do País”, disse.

O pesquisador destacou a diversificação de renda proporcionada pelo sistema de ILPF – além das safras de soja, milho e animais, a quarta safra são os produtos do componente florestal e, a quinta, os serviços ambientais, entre eles o sequestro de carbono, cujo mercado ainda não está estabelecido no Brasil, e o armazenamento de água no solo.

Outro aspecto destacado é o balanço de carbono do sistema ILPF. Resultados de um estudo comparativo realizado na Embrapa Cerrados em que foram computados as emissões de metano entérico dos animais (sem as excretas), o sequestro de carbono no solo e a fixação de carbono nos troncos, o balanço de carbono do sistema ILPF (21,89 tCO2 eq/ha/ano acumuladas) foi bem superior ao do sistema ILP (0,86 tCO2 eq/ha/ano acumulada) e ao da pastagem de baixa produtividade (0,91 tCO2 eq/ha/ano emitida).

“Com isso, se uma propriedade fizer ILPF com eucalipto em 15% da área, ela vai mitigar todos os GEE dentro da fazenda, tamanho é o potencial de sequestro de carbono do componente arbóreo”, afirmou. “Esse é um sistema muito eficiente quanto ao uso dos recursos naturais e dos insumos utilizados”, completou.

Souza também abordou a questão da substituição versus adição de renda, componente de mercado que deve ser considerado ao se inserir a árvore no sistema de integração. Ele explicou que quando se implanta uma linha simples de árvores seguindo as recomendações da pesquisa, não há competição com o sistema agrícola nem com a pastagem, ocorrendo adição de renda, já que a venda da madeira não trará prejuízo na produção de forragem ou agrícola.

Já no caso de renques duplos de árvores, é preciso atenção ao mercado, pois ocorre uma substituição de renda, em que a venda da madeira ou do produto oriundo do componente florestal terá que compensar a perda com a diminuição da produção agrícola ou de forragem. E em sistemas com renques triplos, a competição das árvores com a parte agrícola ou a pastagem é ainda maior, sendo que a madeira da linha central tende a ter mais valor agregado (para serraria e construção civil) que as das linhas laterais (biomassa para energia, cercas e mourões).

Entre as alternativas ao eucalipto, o pesquisador citou algumas espécies nativas que têm sido avaliadas pela pesquisa em sistemas integrados, como o baruzeiro e as oliveiras.

Ele concluiu a apresentação salientando que demanda e mercado para inserção do componente florestal no sistema de produção são fatores chaves, mas é preciso haver estímulo por parte das instituições de fomento. Nesse sentido, o uso da madeira na serraria e na construção civil, segundo o pesquisador, poderiam ser incentivados devido ao carbono sequestrado.

Papel dos bioinsumos

Maurício Piccin, assessor técnico do GAAS, abordou o papel dos bioinsumos na estratégia de transição para a agricultura tropical regenerativa, modelo que visa transformar agroecossistemas tropicais em sistemas produtivos resilientes, mais eficientes e integrados às dinâmicas naturais, reconectando a agropecuária à natureza, reduzindo a dependência externa de insumos e conferindo maior rentabilidade ao produtor.

Nesse sentido, Piccin apontou como pilares da agricultura tropical regenerativa a manutenção do solo sempre vivo e coberto; a economia regenerativa, com viabilidade econômica sustentável em longo prazo; e o manejo integrado, no qual as tecnologias estão integradas aos processos naturais, como é o caso dos sistemas de ILP e ILPF.

Foto: Gabriel Faria

Ele trouxe a visão de agricultura regenerativa na qual a planta faz parte de um sistema chamado holobionte, em que todos os organismos estão conectados entre si. “Toda a micro, meso e macrofauna do solo está conectada à planta e esse sistema funciona em conjunto. É um único sistema, que precisa ser fortalecido com o aumento da presença desses organismos nos nossos sistemas produtivos. Essa visão traz consequências de manejo”, apontou.

Outra visão apresentada é a de cadeia alimentar do solo, em que os micro e macroorganismos se relacionam em cadeia: a planta produz energia e matéria orgânica, que é utilizada pelas bactérias, fungos e nematoides; os predadores desses organismos (artrópodes, protozoários, nematoides) liberam nutrientes que são prontamente disponibilizados às plantas; e esses predadores, por sua vez, servem de alimento a animais de níveis mais altos da cadeia (artrópodes, nematoides, pássaros, mamíferos).

“O problema na agricultura atual é que desarrumamos essa cadeia. O caminho é buscar reconstitui-la e temos estratégias para isso”, afirmou, citando os sistemas de integração e o uso de bioinsumos para potencializar a biodiversidade do solo no sistema produtivo.

Os bioinsumos podem ser produzidos pela multiplicação de uma comunidade de microrganismos, visando ao equilíbrio da vida no solo e à melhoria sistêmica; ou pela multiplicação de um microrganismo isolado, buscando um efeito específico e pontual, com consequências duradouras.

Piccin explicou como os microrganismos podem ser multiplicados em meios sólido e líquido; os diferentes tipos de comunidades microbianas formados por meio de soluções com mix de microrganismos, por matéria orgânica de plantas de cobertura ou por compostagem a partir de subprodutos da propriedade; e métodos de produção de comunidades de microrganismos.

Ele ponderou que a substituição de tratamentos químicos por biológicos é um processo que deve ser planejado e construído. “Não vamos a uma área que não tenha um processo de transição, de aumento da diversidade biológica e simplesmente substituímos (os produtos)”, afirmou.

Segundo o assessor técnico do GAAS, os bioinsumos cumprem alguns papéis na estratégia de transição para a agricultura regenerativa, como a recomposição da diversidade da biota do solo, potencializando a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e a proteção das plantas; atuação funcional na rizosfera; redução do uso de químicos no sistema de produção e diminuição de custos.

A ideia, segundo Piccin, é olhar mais para os processos e menos para os produtos. “A onda dos bioinsumos vem com um apelo comercial de substituição de produtos químicos por biológicos, mas mantendo a mesma lógica, o que não funciona. Se só trocarmos o químico pelo biológico, ela vai até um ponto, mas não entregará tudo o que pode num processo de mudança manejo”, explicou, salientando o foco nos processos que definem um novo tipo de produção num novo sistema de produção.

Dessa forma, ele ressaltou que os produtos biológicos não são soluções mágicas, mas uma ferramenta de apoio ao manejo na transição que deve ser usada com critérios para evitar ou reduzir as práticas nocivas e recompor a diversidade biológica dos agroecossistemas. “Temos que fazer um diagnóstico do sistema de produção, avaliar qual estratégia utilizar e acertar olhando a diversidade e não a especificidade. É a diversidade que fará o processo de transição”.

Após as palestras, os participantes da capacitação conheceram, em campo, a experiência da Fazenda Santa Brígida, modelo de referência em sistemas de integração e em agricultura regenerativa, apresentada pelo consultor agrícola Roberto Freitas e pelo gerente operacional da propriedade, Alex da Silva.

Promoção da agricultura tropical regenerativa para a sustentabilidade

Ao fomentar práticas de agricultura sustentável em Minas Gerais, o programa LabAgroMinas busca incentivar a adoção, pelos produtores do estado, de novas tecnologias que reduzam as emissões de gases de efeito estufa, promovam a regeneração do solo e garantam alto desempenho das culturas em qualidade e produtividade. As operações do LabAgroMinas no Cerrado mineiro são executadas em sinergia com o programa LabCerrado, uma parceria entre a Embrapa Cerrados e a empresa de logística VLI S/A.

O chefe-geral da Unidade, Sebastião Pedro, lembrou que o LabAgroMinas promove a aceleração da agricultura regenerativa climaticamente inteligente. “Pela primeira vez entre instituições financeiras, o BDMG foi sensível a uma abordagem científica levada pela Embrapa Cerrados. Hoje, estamos mudando o paradigma: de uma agricultura e pecuária muito baseadas em insumos nos últimos 50 anos, para uma agricultura e pecuária de processos biológicos, porque o solo é químico, físico e biológico”, comentou, acrescentando que os solos agrícolas do Cerrado foram química e fisicamente corrigidos ao longo dos anos, mas podem estar ou não biologicamente saudáveis.

Ele explicou que o LabAgroMinas é um programa de aceleração por agregar todas as tecnologias já desenvolvidas e disseminá-las, acelerando o desenvolvimento do setor produtivo. “Temos mais de 750 tecnologias desenvolvidas na Embrapa Cerrados, mas elas não chegam ao agricultor e ao pecuarista sem investimento. Quem investe é o agente financeiro, e ele precisa acreditar. O BDMG é o exemplo disso no Brasil e no mundo”, disse, agradecendo ao Banco pela confiança.

Sebastião Pedro salientou ainda que, além da sustentabilidade social e ambiental, o setor primário brasileiro está buscando a sustentabilidade econômico-financeira, o que para ele sinalizaria o final de um ciclo, já que o País importa 85% dos fertilizantes e praticamente 100% das moléculas de agroquímicos, com elevados custos logístico e cambial.

“Viemos muito bem até aqui, só que a conta não está fechando mais. Está acontecendo na agricultura de commodities e vai acontecer na pecuária: à medida que adubarmos a pastagem e intensificarmos a produção com animais de ciclo curto, o investimento ficará caro. E talvez não estejamos usando bem o principal insumo, que é o capim. O consumidor hoje só fala em sustentabilidade, e estamos aqui trabalhando com um tema que visa à sustentabilidade”, concluiu.

Maria Isabel de Camargos, representante do BDMG, recordou que essa é a terceira capacitação em agricultura regenerativa promovida pelo programa LabAgroMinas. Em 2024, foi realizada uma capacitação focada em cafeicultura e, no ano anterior, o tema foi a introdução de novas tecnologias voltadas à agricultura de baixo carbono em Minas Gerais. “Nessas capacitações, alcançamos 2,4 mil pessoas. Neste ano, o BDMG recebeu um prêmio de inovação financeira da Alide (Associação Latino-Americana de Instituições Financeiras para o Desenvolvimento) pelo LabAgroMinas”, disse, informando que o banco de fomento já aprovou 19 projetos de agricultura regenerativa, beneficiando 3,5 mil hectares.

“Precisamos desse trabalho de multiplicação e divulgação da agricultura regenerativa, que é algo novo e está revolucionando a nossa agricultura tropical sustentável”, afirmou Ronaldo Trecenti, membro do GAAS, representando o presidente Paulo Bufon.

Aluno da capacitação, o secretário de Agricultura de Ipameri, Plínio Machado, concorda que o atual ciclo da agricultura brasileira está chegando ao final e que, de agora em diante, é preciso pensar no uso das práticas de agricultura regenerativa para ser sustentável tanto do ponto de vista do solo como econômico, garantindo um futuro longevo. “Temos que tentar difundir essas práticas ao máximo possível (no município), aproveitando a bela vitrine que é a Fazenda Santa Brígida, que é pioneira. Muita gente já está se espelhando nela e, cada vez mais, temos que usar os exemplos daqui para que possamos ter sustentabilidade nos nossos negócios”.

Para Cristiano Barros, gestor de sementes na AgroBrasil, empresa com atuação em Minas Gerais, Goiás, Tocantins e no Sul do Pará, foi gratificante participar tanto das aulas curso como das palestras da visita de campo, por terem tratado de temas pontuais. “Estamos passando por um processo que precisa de sustentabilidade, como foi falado hoje. Precisamos de sistemas mais resilientes. O uso das pastagens, das florestas e dos animais foi muito bem abordado e acredito ser o caminho que temos que seguir”, afirmou.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados

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Suinocultura encontra na mão de obra estrangeira uma resposta à falta de trabalhadores

Alejandro atravessou sozinho a fronteira para trabalhar em granjas brasileiras. Hoje, a esposa cursa técnico em Enfermagem, a filha sonha com Medicina Veterinária e a família já fala em permanecer no Brasil.

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Milton Melz ao lado de Marlene Cristina Costa e Alejandro Cardoso, que deixaram a Argentina para trabalhar na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, em Iporã do Oeste (SC) - Fotos: Divulgação

Há quatro anos, quando deixou a Argentina para tentar a vida no Brasil, Alejandro Cardoso carregava mais dúvidas do que certezas. Veio sozinho, em busca de trabalho. A esposa, Marlene Cristina Costa, e as filhas Cintia e Guadalupe permaneceram no país de origem. Hoje, a família vive reunida em Iporã do Oeste, no Extremo-Oeste catarinense, trabalha na suinocultura e já cogita um passo que parecia distante quando atravessou a fronteira: vender a casa na Argentina e construir uma nova vida definitivamente em solo brasileiro.

A história da família reflete uma realidade cada vez mais presente nas propriedades rurais do Sul do país. Diante da dificuldade de contratar trabalhadores brasileiros, granjas e agroindústrias passaram a contar com um número crescente de imigrantes para manter as operações.

Marlene Cristina Costa integra atualmente a equipe do setor de amamentação da Granja Barra Grande: “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”

Na Granja Barra Grande, integrada à Cooper A1, onde a família trabalha atualmente, seis dos 23 colaboradores são argentinos. “Se não fosse a mão de obra estrangeira, nós estávamos sem mão de obra aqui”, afirma o sócio da granja, o mestre em Administração e especialista em Agronegócio Milton Melz.

A propriedade possui uma Unidade Produtora de Desmamados (UPD) com duas mil matrizes e um crechário para nove mil leitões. Melz também é sócio da Granja Bom Plano, em Vista Gaúcha (RS), igualmente integrada à Cooper A1, que opera outra UPD com duas mil matrizes e mantém 19 funcionários.

Segundo ele, a presença de trabalhadores argentinos deixou de ser exceção e se tornou parte da rotina produtiva da região. “Essa é uma realidade não só da nossa granja. A maioria das granjas do Oeste catarinense está usando mão de obra argentina, principalmente”, ressalta.

Recomeço em outro país

Antes de chegar ao Brasil, Alejandro nunca havia trabalhado na suinocultura. Na Argentina, atuou em serralheria e em atividades rurais. Marlene trabalhou durante anos com venda de passagens e como secretária.

O primeiro contato com a atividade ocorreu já em território brasileiro, quando o casal começou a trabalhar em outra granja. Há quase um ano, ambos ingressaram na Granja Barra Grande. Hoje, Alejandro atua como tratador de animais. Marlene trabalha no setor de amamentação.

Alejandro Cardoso trabalha como tratador na Granja Barra Grande: “A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”

A mudança foi motivada pela busca de condições econômicas mais favoráveis. Embora possuam casa própria na Argentina, o casal afirma que o alto custo de vida dificultava a construção de uma vida mais confortável. “Estamos muito felizes no Brasil. Eu vejo meus pais felizes, conseguem pagar as contas e ainda sobra dinheiro. Estamos vivendo melhor aqui”, relata a filha mais velha, Cintia, de 16 anos.

A adaptação, porém, não ocorreu sem obstáculos. Apesar de o casal já utilizar o chamado ‘portunhol’ no cotidiano, o idioma representou uma barreira importante para as filhas. A dificuldade foi tão significativa que as duas retornaram temporariamente para a Argentina e permaneceram cerca de um ano no país enquanto os pais continuavam trabalhando no Brasil. “Na Argentina a gente falava portunhol, então não tivemos problemas em nos comunicar aqui. A minha adaptação e da Marlene foi rápida, diferente das nossas filhas, que tiveram inicialmente dificuldade com o português na escola”, conta Alejandro.

Escola, trabalho e novas oportunidades

Com a família completa no Brasil, a rotina começou a se estabilizar. Cintia atualmente cursa o segundo ano do Ensino Médio em escola pública. A irmã Guadalupe, de oito anos, também está matriculada na rede de ensino.

A adolescente diz perceber diferenças significativas entre os sistemas educacionais dos dois países. “Eu vejo muita diferença nos estudos. Os professores têm paciência para nos entender e para explicar os mais diversas assuntos. Na Argentina é muito difícil que um professor explique bem, porque lá os professores faltam muito na escola. Às vezes ficam uma semana inteira sem dar aula”, relata.

Além do trabalho na suinocultura, a família argentina encontrou espaço para o lazer e faz das viagens uma forma de conhecer melhor a região onde decidiu construir uma nova vida

Ela também destaca aspectos práticos da rotina escolar. “Lá na Argentina tem que pagar o transporte e o lanche na escola. Aqui no Brasil é ofertado de forma gratuita”, conta, entusiasmada.

Animada com a nova fase, Cintia já traçou objetivos para o futuro. “Quero continuar estudando e fazer faculdade de Medicina Veterinária”, destacou.

A busca por qualificação também faz parte dos planos da mãe. “Estou feliz trabalhando na granja, mas gostaria de ser uma profissional da saúde”, menciona Marlene, contando que iniciou um curso técnico em Enfermagem e pretende continuar os estudos após a conclusão da formação. “Na Argentina eu já tinha feito curso de agente de saúde. Depois de concluir este curso, quero fazer faculdade de Enfermagem. Meu objetivo é seguir neste ramo”, enfatizou.

Reconhecimento e qualidade de vida

Na avaliação da família, a experiência na Granja Barra Grande trouxe mais do que estabilidade financeira. Eles destacam reconhecimento profissional, respeito nas relações de trabalho e melhores condições para planejar o futuro.

A jornada ocorre das 07 às 11 horas e das 13 às 17 horas. “É um horário bom de trabalhar. Sempre dá para a gente sair e conhecer lugares novos. Gostamos muito disso”, relata Alejandro.

O trabalhador lembra que uma das primeiras conquistas veio poucos meses após chegar ao Brasil. “Com três meses trabalhando aqui já consegui comprar um carro. Era simples, mas nos levava para todos os lugares”, relembra, contando que tinha um Gol e agora conseguiu trocá-lo por um Siena.

Além do salário, o casal recebe benefícios como vale-alimentação, almoço na granja, auxílio para combustível e participação a cada três meses nos resultados da atividade. “À medida que o resultado melhora, eles também ganham mais”, frisa Melz.

Integração além da porteira

Para Melz, a contratação de estrangeiros exige muito mais do que oferecer uma vaga de trabalho. “A gente tem que ter uma acomodação para eles, uma casa digna, inserir na sociedade”, pontua, ressaltando que a integração precisa envolver também o poder público e a comunidade local. “Estamos conversando com o governo municipal de Iporã do Oeste para estruturar uma formação para esses estrangeiros, até por uma questão de inserção social, tanto para quem é do município quanto para quem chega”, frisa.

Melz acredita que o acolhimento é um dos fatores que explicam a permanência de muitos trabalhadores. “São funcionários dedicados. Eles passaram muitas dificuldades. Hoje têm uma qualidade de vida melhor aqui no Brasil e uma educação melhor para os filhos”, salienta.

O incentivo à formação profissional também faz parte da estratégia adotada na propriedade. “Nós estimulamos todos a estudar. Temos colaboradores cursando Administração e Ciências Contábeis”, diz.

Planos para ficar

Mesmo sentindo saudades dos familiares que permaneceram na Argentina, Alejandro e Marlene enxergam o futuro cada vez mais próximo do Brasil. A principal preocupação ainda envolve a casa que possuem no país de origem. “Foi difícil conseguir comprar aquela casa. A economia está complicada e ela não está alugada”, relata Alejandro.

Por isso, a família já discute uma mudança definitiva. “Estamos gostando muito daqui. Estamos pensando em vender nossa casa na Argentina e comprar nossa casa própria no Brasil”, adianta Alejandro.

Para Melz, histórias como essa ajudam a explicar por que os trabalhadores estrangeiros passaram a ocupar papel relevante na sustentação das granjas da região. “É uma família com caráter, não são aventureiros. São pessoas que vestem a camisa e cumprem horário”, ressalta.

A Edição Especial Cooperativismo 2026 pode ser acessada gratuitamente na aba Edições Impressas de opresenterural.com.br.

Fonte: O Presente Rural
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Fundesa-RS fecha semestre com R$ 196,3 milhões em caixa e amplia investimentos em sanidade animal

Fundo aprovou as contas do primeiro semestre, destinou recursos para rastreabilidade bovina e indenizou produtores por abates sanitários.

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Foto: Divulgação

O Conselho Deliberativo do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal do RS aprovou, em assembleia realizada na última quarta-feira (15), a prestação de contas do primeiro semestre do ano. O balancete consolidado indica receitas de quase R$ 21 milhões e o saldo disponível de R$ 196.3 milhões. As saídas, que correspondem ao pagamento de indenizações e investimentos em infraestrutura, capacitação, equipamentos e insumos, foram de  R$ 6,38 milhões.

Só as indenizações referentes à pecuária leiteira totalizaram R$ 1,9 milhão nos primeiros seis meses do ano. O maior valor foi registrado no segundo trimestre, com R$ 1,34 milhão.  O pagamento de indenizações é referente ao abate sanitário de bovinos em atendimento ao Programa Nacional de Controle e Erradicação de Brucelose e Tuberculose.

Também foram homologadas liberações de recursos para aquisição de equipamentos de identificação eletrônica (brincos e bastão de leitura), que integram o Projeto Piloto de rastreabilidade bovina no estado. O valor aportado foi de R$ 86 mil.

Desafios para o segundo semestre

Durante a assembleia, os conselheiros debateram sobre os impactos da medida da União Europeia para o setor de proteína animal do estado. O presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Suínos, José Roberto Goulart, pontuou que os compradores europeus estão correndo para comprar toda a carne bovina brasileira antes do prazo se esgotar em 3 de setembro.

O presidente da Associação Gaúcha de Avicultura, José Eduardo dos Santos, destacou o investimento de R$ 183 mil  do Fundesa para o evento Conbrasfran, que será realizado em novembro em Gramado. Segundo Santos, será uma oportunidade para debater esse e outros temas importantes para a avicultura que vem enfrentando muitos desafios nos últimos anos.

Os conselheiros trataram ainda sobre a programação do setor durante a Expointer, que erá como base a Casa do Fundesa.

Fonte: Assessoria Fundesa-RS
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Tecnologia acelera análise genética e desenvolvimento de novas cultivares de trigo

Plataforma reduz de dias para cerca de 12 horas o preparo de amostras de DNA e amplia a identificação de genes ligados à produtividade e à resistência a doenças.

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Foto: Paulo Kurtz

Uma nova plataforma de genotipagem automatiza o preparo de amostras de DNA na Embrapa Trigo (RS) e amplia a capacidade de análise genética da cultura do trigo. A tecnologia reduz de dias para cerca de 12 horas o tempo necessário para essa etapa, reduzindo os custos da pesquisa e acelerando a identificação de marcadores genéticos ligados à produtividade e à resistência a doenças.

Esse avanço foi possível graças à evolução do processo de genotipagem, técnica que permite identificar variações no DNA de um indivíduo. “Em duas décadas, o protocolo foi modernizado, com a substituição das análises manuais em gel por sistemas de eletroforese, que usam campo elétrico para separar moléculas e, mais recentemente, pelo sequenciamento, que permite a genotipagem em larga escala e com alta precisão”, conta o laboratorista Jordalan Muniz.

O sequenciamento de segunda geração foi incorporado à rotina do Laboratório de Biotecnologia da Embrapa Trigo com a chegada de dois novos equipamentos: o ION Chef, responsável pelo preparo das amostras, e o ION GeneStudio S5 Plus, que realiza o sequenciamento. “Podemos dizer que o trabalho de um ano agora pode ser realizado em apenas uma semana. É um ganho de eficiência que reduz custos e acelera a obtenção de dados moleculares em apoio ao programa de melhoramento genético do trigo na Embrapa”, explica o pesquisador Luciano Consoli.

Potencial de uso da plataforma

O genoma do trigo é 5 vezes maior do que o genoma humano. Com o sequenciamento do genoma dessa espécie em 2018, a partir de um consórcio internacional de instituições de pesquisa, foi possível avançar em novas ferramentas de apoio ao trabalho da biotecnologia.

Atualmente, a equipe de Genética Molecular da Embrapa Trigo dispõe de informações de 5 mil marcadores moleculares para o trigo e de 3.500 marcadores para cevada compatíveis com essa plataforma. Segundo a laboratorista Tatiane Crespi, a identificação de marcadores moleculares, associados a genes de interesse, contribui para a seleção de linhagens com características agronômicas desejáveis.

Esse conhecimento resultou no desenvolvimento de um painel de marcadores para serem utilizados na cultura do trigo. Com o uso da plataforma de sequenciamento de segunda geração, é possível fazer a análise simultânea de 384 amostras com 202 marcadores, gerando aproximadamente 80 mil data points.

Além disso, a plataforma de genotipagem possibilita avaliar regiões específicas nas sequências de DNA. “O primeiro resultado do uso dessa tecnologia para a geração de dados moleculares de genotipagem é o aumento da eficiência do processo de geração de novas cultivares e na identificação de alelos ou partes de genes de interesse para os programas de melhoramento. Se antes tínhamos uma representação cartográfica, agora temos algo mais detalhado, com ruas e placas de sinalização”, afirma Consoli.

Avanços para o melhoramento genético

As cultivares ou linhagens de trigo analisadas, que possuem os marcadores moleculares de interesse, poderão ser utilizadas nos blocos de cruzamentos dos programas de melhoramento. No caso do trigo, essas análises já vêm sendo conduzidas, como no trabalho para ampliar a base da resistência genética às doenças, a exemplo da brusone, uma das frentes de trabalho consolidadas com o uso de análises moleculares e seleção assistida na Embrapa Trigo:

“Identificada, numa determinada cultivar, a presença de um marcador molecular associado à resistência, como por exemplo à brusone, suas plantas podem ser incorporadas ao programa de melhoramento para a realização de cruzamentos”, pontua a pesquisadora Gisele Torres. Porém, ela lembra que, no decorrer das avaliações a campo, é fundamental analisar a reação das plantas em condições de exposição ao fungo causador da doença:

Foto: Cleverson Beje

“A simples presença de um determinado marcador, mesmo quando fragmentos do DNA são conhecidos por conferirem resistência, não é suficiente para que as plantas que o possuem sejam resistentes. O trabalho da biotecnologia é complementar ao trabalho do melhoramento. Assim, para verificar a efetividade de um determinado marcador molecular, é essencial que os melhoristas avaliem a reação das plantas frente ao patógeno a campo”, complementa Torres.

Outras potencialidades de uso prático da plataforma de sequenciamento de segunda geração estão sendo exploradas pela equipe. Em solos, por exemplo, é possível fazer a extração do DNA de uma amostra para identificar os microrganismos que podem beneficiar o cultivo do trigo numa determinada região. Em outras palavras, identifica-se um perfil molecular daquele solo, o qual será, então, correlacionado com fatores de produção.

No desafio de desenvolver trigos para celíacos, é possível caracterizar marcadores moleculares associados a genes codificadores de proteínas relacionadas à resposta imunológica ao glúten. Os pesquisadores pretendem, ainda, explorar outras possibilidades de análises em expressão gênica por RNAseq, em sequenciamento de pequenos genomas (microrganismos), entre outras.

Consoli destaca o entusiasmo com o potencial de uso da ferramenta: “Antigamente utilizávamos uma lupa, passávamos para o microscópio e evoluímos para ver o que está dentro das plantas. Agora, conseguimos identificar todo tipo de variação presente nos fragmentos de DNA da planta que estão associados à defesa e ao uso de recursos do ambiente”.

Fonte: Assessoria Embrapa Trigo
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