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Sistemas integrados fortalecem a pecuária bovina no Cerrado

ILP e ILPF elevam o desempenho produtivo, melhoram o solo e ampliam o bem-estar animal, segundo a Embrapa.

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Participantes conheceram a experiência da Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), com sistemas de integração e agricultura regenerativa - Foto: Alexandre Veloso

Os benefícios em produtividade e sustentabilidade dos sistemas de Integração Lavoura-Pecuária (ILP) e Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), estratégias de produção da agricultura regenerativa, foram apresentados por pesquisadores da Embrapa Cerrados (DF) durante visita de campo na Fazenda Santa Brígida, em Ipameri (GO), no último dia 6.

O evento encerrou a Capacitação Gratuita em Pecuária Bovina e Pastagem Regenerativas, promovida pelo LabAgroMinas, programa de agroinovação do centro de pesquisas e do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), e pelo Grupo Associado de Agricultura Sustentável (GAAS).

Iniciada em 16 de setembro deste ano com o apoio da Secretaria de Estado Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (Seapa-MG) e da Emater-MG, a capacitação on-line foi estruturada em cinco módulos, totalizando 66 horas/aula. O objetivo foi difundir conhecimentos e soluções que aliam melhoria no desempenho produtivo, responsabilidade ambiental, resiliência climática e inovação, contribuindo para aumentar a competitividade da pecuária mineira. Participaram 840 produtores rurais, profissionais de assistência técnica, estudantes, pesquisadores e outros atores do setor agropecuário.

Benefícios do sinergismo dos componentes da ILP

Foto: Divulgação/Rede ILPF

O pesquisador Lourival Vilela apresentou resultados de pesquisas da Embrapa Cerrados com ILP que comprovam a sustentabilidade e a sustentabilidade desse sistema. De acordo com estudo da Embrapa, dos 177 milhões ha de pastagens no Brasil, 109 milhões ha têm algum nível de degradação e, desses, 28 milhões ha apresentam condições de logística, infraestrutura e topografia para serem recuperados com agricultura.

“A ILP explora o sinergismo das interações solo-planta-animal de áreas que integram as atividades de produção agrícola e pecuária”, explicou Vilela, apontando os três princípios desses sistemas – revolvimento mínimo do solo, cobertura permanente do solo e diversificação de espécies. “O solo é o compartimento centralizador dos processos da ILP. Os benefícios virão se houver balanço positivo de carbono, e este ocorre se os atributos químicos, físicos e biológicos do solo estiverem equilibrados”, disse, acrescentando que é preciso adotar sistemas mais biológicos para garantir a sustentabilidade da agricultura e a vida no planeta.

Entre os benefícios proporcionados pela ILP, estão a melhoria dos atributos químicos, físicos e biológicos do solo, visando à saúde do solo; maior ciclagem e aumento da eficiência de uso de nutrientes; redução de pragas, doenças e plantas invasoras; mitigação do déficit de forragem na estação seca; bem-estar animal; mitigação de gases de efeito estufa (GEE); aumento da produção de grãos e forragem, bem como de carne e de leite; redução de risco pela diversificação de atividades; e intensificação e utilização racional dos fatores de produção.

Vilela mostrou dados de uma pesquisa com o sistema de ILP São Francisco, em que o capim é sobressemeado na soja em final de ciclo, comprovando maiores ganhos em peso dos animais durante a estação seca com o uso de diferentes forrageiras avaliadas.

Um estudo comparou a produção de palhada em milho solteiro e milho consorciado com capim, demonstrando a maior ciclagem de nutrientes no sistema em consórcio, com equivalente em ureia (fonte de nitrogênio) de 140 kg/ha, 230 kg/ha equivalentes em superfosfato simples (fonte de fósforo) e 90 kg/ha equivalentes em potássio.

Para comprovar o aumento da matéria orgânica do solo e a maior eficiência de uso de fósforo, o pesquisador apresentou uma pesquisa da década de 1970 na Embrapa Cerrados que comparou um sistema de rotação soja-milho com um sistema soja-milho que incluía capins braquiária em consórcio com o milho. A área com capim apresentou, além de maior teor de matéria orgânica do solo, mais kg de grãos por kg de fósforo residual, ou seja, utilizou menos fósforo que a área sem consórcio para obter a mesma produção de soja, demonstrando maior eficiência de uso do nutriente.

Outro estudo, comparando milho solteiro e milho consorciado com a forrageira Panicum maximum BRS Zuri, comprovou o melhor controle de plantas invasoras como a buva, com redução de 70% da ocorrência.

O pesquisador destacou intensificação dos usos dos fatores de produção ao longo do ano com a adoção dos sistemas de ILP. Quando a soja era plantada em monocultura, a terra era utilizada em apenas 42% do tempo de um ano agrícola. “À medida que fomos introduzindo o sistema, passamos a produzir o ano todo na fazenda, mantendo o solo coberto. Esse é um dos grandes benefícios desse sistema”, afirmou, mostrando dados de produtividade da soja em primeira safra, milho na segunda safra e animais na terceira safra, sendo a palhada para o Sistema Plantio Direto a quarta safra.

Em uma propriedade em Tocantins, foi feito um trabalho de rotação de soja e milho com Brachiaria brizantha cultivar Marandu e 780 cabeças de novilhas de corte em 139 ha na entressafra (período seco). Entre julho e setembro (55 dias), o animais obtiveram ganho de peso médio de 809 g/dia e 202 kg/cabeça/ha em peso vivo médio.

Foto: Gabriel Faria

Opção de ILP para o Oeste da Bahia, o Sistema Boi Safrinha, avaliado desde 2009 numa fazenda em Formosa do Rio Preto, constitui-se no plantio, após a soja, de milho consorciado com braquiária. De acordo com os dados obtidos entre 2013 e 2015, quando a pastagem formada é pastejada por bovinos, os rendimentos da soja na safra seguinte são superiores aos da soja cultivada após a pastagem sem pastejo. “No final dos três anos, houve uma diferença de 11 sc/ha. Multipliquem isso por hectare e pelo preço (da saca de soja)”, sugeriu Vilela, citando um estudo chinês que afirma que o pastejo é um fator crucial na estruturação das comunidades microbianas do solo por promover a mudança de um sistema dominado por fungos para outro dominado por bactérias. “Há muito o que aprender sobre a dinâmica de microrganismos no solo”, observou.

Segundo o pesquisador, a entrada do componente arbóreo nos sistemas de integração se deu em função do aumento da demanda por madeira para a produção de energia e, ao mesmo tempo, da pressão para não haver a abertura de novas áreas. Ele apresentou dados de um estudo realizado na Embrapa Agrossilvipastoril (MT) comparando pastagem solteira, ILP, ILPF com três linhas de árvores no renque e ILPF após desbaste de uma linha de árvores – esta última apresentou os melhores resultados em ganho de peso dos animais.

Vilela apresentou, ainda, dados da avaliação da temperatura superficial de vacas Gir e Girolando a pleno sol e à sombra durante as estações seca e chuvosa. O bem-estar animal proporcionado pela sombra resultou em maior taxa de reprodução dos animais, com produção de 81% mais ovócitos viáveis e de quatro vezes mais embriões in vitro em relação às vacas a pleno sol.

O pesquisador fez um histórico da implantação dos sistemas de integração na Fazenda Santa Brígida, iniciada em 2006, quando a propriedade praticava pecuária de baixa produtividade em pastagens degradadas e contava com apenas dois vaqueiros. Diferentes sistemas de integração foram então testados, gerando diversos dados que mostram, ao longo dos anos seguintes, os incrementos crescentes de matéria orgânica e do fósforo no solo, na produtividade de soja e de milho e na taxa de lotação dos animais e produtividade de carne. Na safra 2024/25, a soja cultivada em 1080 ha alcançou 78 sc/ha e o milho de primeira safra (255 ha) 195 sc/ha; na safrinha, o milho obteve 110 sc/ha em 185 ha, o girassol 41 sc/ha em 490 ha e o sorgo 86 sc/ha em 250 ha.

“A fazenda saiu de uma área de pastos degradados e chegou à condição atual de ter 20 funcionários registrados e com plano de saúde, e toda a equipe treinada. Hoje, podemos ver uma fila de caminhões que chegam para serem abastecidos com soja. Pensem no impacto disso na economia da região”, sintetizou Vilela. “Temos que intensificar de forma sustentável o uso de nossas áreas, sejam elas grandes ou pequenas”, finalizou.

Vantagens das árvores na ILPF

Fotos: Shutterstock

“Qualquer sistema integrado chama a atenção por três pontos: a diversificação de espécies, de investimentos e de renda; o balanço de carbono e a maior eficiência dos sistemas de produção agropecuários, sobretudo na questão da ciclagem de nutrientes”, destacou o pesquisador Kleberson de Souza ao falar sobre os sistemas de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta.

Para explicar o porquê da inserção de árvores num sistema que já é integrado (ILP), ele listou benefícios exclusivos do componente arbóreo: a ambiência animal promovida pelo sombreamento, que reduz o estresse térmico, melhora o bem-estar animal e pode aumentar a produtividade; a diversificação da produção como ferramenta de diminuição de riscos do sistema com o cultivo de espécies florestais, gerando renda adicional com madeira, frutos ou biomassa, energia, celulose, resinas amêndoas, entre outros; o aumento da biodiversidade, com a criação de habitats para fauna e flora, favorecendo o equilíbrio biológico; e sequestro de carbono, uma vez que as árvores capturam gás carbônico da atmosfera, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas.

Souza apresentou um gráfico da evolução do preço médio do metro cúbico da madeira do eucalipto no Mato Grosso do Sul, que valorizou cerca de 150% desde 2020, tendência que deve ser mantida para os próximos anos, assim como o aumento da demanda na região devido à instalação de usinas de etanol de milho, que utilizam a madeira como energia. Por outro lado, os preços do boi gordo têm sofrido grandes oscilações nos últimos 15 anos, enquanto os preços dos fertilizantes tiveram fortes aumentos. “Se conseguirmos diversificar a produção na propriedade, correremos menos riscos. Se precisarmos vender o boi a preços mais baixos do que compramos, uma poupança verde de madeira pode nos salvar. E, ao contrário do boi, que dá prejuízo se permanecer muito tempo no confinamento, a árvore só está ali crescendo”, observou.

Para a implantação do componente florestal na propriedade, alguns critérios devem ser observados: a arquitetura da copa da árvore tem que ser favorável (mais ereta); facilidade de estabelecimento para minimizar a quantidade de tratos culturais; crescimento rápido, para que os animais sejam colocados na área o quanto antes; ausência de efeitos tóxicos para os animais e de efeitos alelopáticos sobre as forrageiras e os cultivos agrícolas; tolerância a ataques de insetos e doenças; resistência ao vento, o que ajuda na manutenção de água no solo; ausência de raízes superficiais, diminuindo assim a competição com outras culturas; e a ausência de caráter invasor.

A forma de distribuição das árvores, segundo o pesquisador, depende da finalidade da produção – energia, serraria, construção civil; da declividade e da face de exposição; da proteção dos demais componentes do sistema; e, principalmente, da conservação de água e solo. A partir de resultados de pesquisas, recomenda-se que o espaçamento entre renques de árvores seja de não menos que 30 m; o alinhamento deve ser preferencialmente Leste-Oeste para maior incidência de radiação solar no espaço entre renques, reduzindo a competição por luz entre os componentes do sistema; e definir o espaçamento múltiplo dos implementos, colocando 1 a 2 m de faixa de segurança. A distância máxima entre os renques deve ser três a quatro vezes a altura das árvores para garantir os benefícios do componente florestal no sistema.

Souza lembrou que com o crescimento das árvores, o sombreamento aumenta e a quantidade de forragem diminui. Ele mostrou um estudo em que uma pastagem com 45% de sombra apresentou densidade volumétrica de 71,6 kg/cm.ha, e de 111,5 kg/cm.ha a pleno sol. “De fato, deve-se ter cuidado com a inserção do componente florestal”, comentou. Também citou uma pesquisa realizada em Sinop em que num sistema de ILPF com desbaste do componente florestal, reduzindo a densidade para 90 árvores/ha e com 37 m de distância entre renques, houve maior ganho de peso dos animais.

Quanto ao estoque de carbono no solo, a presença do componente arbóreo confere superioridade do sistema ILPF em relação ao sistema ILP, como mostrado em estudo que avaliou o acúmulo de carbono (mais 12%) e de nitrogênio (mais 24%) na camada de 0 a 100 cm em área experimental. A biomassa florestal total acumulada durante seis anos num sistema com 130 árvores/ha foi de 60 t/ha, sendo 79% nos troncos (47 t/ha). Considerando-se 50% em carbono no tronco, isso corresponderia a 23,5 t/ha de carbono, o que representa 86 tCO2 eq/ha ou 14 tCO2 eq/ha/ano, ou, ainda, 30 kg C/árvore/ano. “Se fizéssemos 4 milhões ha, que é menos de 10% da área plantada de soja no Brasil, com um sistema ILPF com 50 árvores/ha, seria mais que suficiente para sequestrar toda a emissão de GEE do País”, disse.

O pesquisador destacou a diversificação de renda proporcionada pelo sistema de ILPF – além das safras de soja, milho e animais, a quarta safra são os produtos do componente florestal e, a quinta, os serviços ambientais, entre eles o sequestro de carbono, cujo mercado ainda não está estabelecido no Brasil, e o armazenamento de água no solo.

Outro aspecto destacado é o balanço de carbono do sistema ILPF. Resultados de um estudo comparativo realizado na Embrapa Cerrados em que foram computados as emissões de metano entérico dos animais (sem as excretas), o sequestro de carbono no solo e a fixação de carbono nos troncos, o balanço de carbono do sistema ILPF (21,89 tCO2 eq/ha/ano acumuladas) foi bem superior ao do sistema ILP (0,86 tCO2 eq/ha/ano acumulada) e ao da pastagem de baixa produtividade (0,91 tCO2 eq/ha/ano emitida).

“Com isso, se uma propriedade fizer ILPF com eucalipto em 15% da área, ela vai mitigar todos os GEE dentro da fazenda, tamanho é o potencial de sequestro de carbono do componente arbóreo”, afirmou. “Esse é um sistema muito eficiente quanto ao uso dos recursos naturais e dos insumos utilizados”, completou.

Souza também abordou a questão da substituição versus adição de renda, componente de mercado que deve ser considerado ao se inserir a árvore no sistema de integração. Ele explicou que quando se implanta uma linha simples de árvores seguindo as recomendações da pesquisa, não há competição com o sistema agrícola nem com a pastagem, ocorrendo adição de renda, já que a venda da madeira não trará prejuízo na produção de forragem ou agrícola.

Já no caso de renques duplos de árvores, é preciso atenção ao mercado, pois ocorre uma substituição de renda, em que a venda da madeira ou do produto oriundo do componente florestal terá que compensar a perda com a diminuição da produção agrícola ou de forragem. E em sistemas com renques triplos, a competição das árvores com a parte agrícola ou a pastagem é ainda maior, sendo que a madeira da linha central tende a ter mais valor agregado (para serraria e construção civil) que as das linhas laterais (biomassa para energia, cercas e mourões).

Entre as alternativas ao eucalipto, o pesquisador citou algumas espécies nativas que têm sido avaliadas pela pesquisa em sistemas integrados, como o baruzeiro e as oliveiras.

Ele concluiu a apresentação salientando que demanda e mercado para inserção do componente florestal no sistema de produção são fatores chaves, mas é preciso haver estímulo por parte das instituições de fomento. Nesse sentido, o uso da madeira na serraria e na construção civil, segundo o pesquisador, poderiam ser incentivados devido ao carbono sequestrado.

Papel dos bioinsumos

Maurício Piccin, assessor técnico do GAAS, abordou o papel dos bioinsumos na estratégia de transição para a agricultura tropical regenerativa, modelo que visa transformar agroecossistemas tropicais em sistemas produtivos resilientes, mais eficientes e integrados às dinâmicas naturais, reconectando a agropecuária à natureza, reduzindo a dependência externa de insumos e conferindo maior rentabilidade ao produtor.

Nesse sentido, Piccin apontou como pilares da agricultura tropical regenerativa a manutenção do solo sempre vivo e coberto; a economia regenerativa, com viabilidade econômica sustentável em longo prazo; e o manejo integrado, no qual as tecnologias estão integradas aos processos naturais, como é o caso dos sistemas de ILP e ILPF.

Foto: Gabriel Faria

Ele trouxe a visão de agricultura regenerativa na qual a planta faz parte de um sistema chamado holobionte, em que todos os organismos estão conectados entre si. “Toda a micro, meso e macrofauna do solo está conectada à planta e esse sistema funciona em conjunto. É um único sistema, que precisa ser fortalecido com o aumento da presença desses organismos nos nossos sistemas produtivos. Essa visão traz consequências de manejo”, apontou.

Outra visão apresentada é a de cadeia alimentar do solo, em que os micro e macroorganismos se relacionam em cadeia: a planta produz energia e matéria orgânica, que é utilizada pelas bactérias, fungos e nematoides; os predadores desses organismos (artrópodes, protozoários, nematoides) liberam nutrientes que são prontamente disponibilizados às plantas; e esses predadores, por sua vez, servem de alimento a animais de níveis mais altos da cadeia (artrópodes, nematoides, pássaros, mamíferos).

“O problema na agricultura atual é que desarrumamos essa cadeia. O caminho é buscar reconstitui-la e temos estratégias para isso”, afirmou, citando os sistemas de integração e o uso de bioinsumos para potencializar a biodiversidade do solo no sistema produtivo.

Os bioinsumos podem ser produzidos pela multiplicação de uma comunidade de microrganismos, visando ao equilíbrio da vida no solo e à melhoria sistêmica; ou pela multiplicação de um microrganismo isolado, buscando um efeito específico e pontual, com consequências duradouras.

Piccin explicou como os microrganismos podem ser multiplicados em meios sólido e líquido; os diferentes tipos de comunidades microbianas formados por meio de soluções com mix de microrganismos, por matéria orgânica de plantas de cobertura ou por compostagem a partir de subprodutos da propriedade; e métodos de produção de comunidades de microrganismos.

Ele ponderou que a substituição de tratamentos químicos por biológicos é um processo que deve ser planejado e construído. “Não vamos a uma área que não tenha um processo de transição, de aumento da diversidade biológica e simplesmente substituímos (os produtos)”, afirmou.

Segundo o assessor técnico do GAAS, os bioinsumos cumprem alguns papéis na estratégia de transição para a agricultura regenerativa, como a recomposição da diversidade da biota do solo, potencializando a decomposição da matéria orgânica, a ciclagem de nutrientes e a proteção das plantas; atuação funcional na rizosfera; redução do uso de químicos no sistema de produção e diminuição de custos.

A ideia, segundo Piccin, é olhar mais para os processos e menos para os produtos. “A onda dos bioinsumos vem com um apelo comercial de substituição de produtos químicos por biológicos, mas mantendo a mesma lógica, o que não funciona. Se só trocarmos o químico pelo biológico, ela vai até um ponto, mas não entregará tudo o que pode num processo de mudança manejo”, explicou, salientando o foco nos processos que definem um novo tipo de produção num novo sistema de produção.

Dessa forma, ele ressaltou que os produtos biológicos não são soluções mágicas, mas uma ferramenta de apoio ao manejo na transição que deve ser usada com critérios para evitar ou reduzir as práticas nocivas e recompor a diversidade biológica dos agroecossistemas. “Temos que fazer um diagnóstico do sistema de produção, avaliar qual estratégia utilizar e acertar olhando a diversidade e não a especificidade. É a diversidade que fará o processo de transição”.

Após as palestras, os participantes da capacitação conheceram, em campo, a experiência da Fazenda Santa Brígida, modelo de referência em sistemas de integração e em agricultura regenerativa, apresentada pelo consultor agrícola Roberto Freitas e pelo gerente operacional da propriedade, Alex da Silva.

Promoção da agricultura tropical regenerativa para a sustentabilidade

Ao fomentar práticas de agricultura sustentável em Minas Gerais, o programa LabAgroMinas busca incentivar a adoção, pelos produtores do estado, de novas tecnologias que reduzam as emissões de gases de efeito estufa, promovam a regeneração do solo e garantam alto desempenho das culturas em qualidade e produtividade. As operações do LabAgroMinas no Cerrado mineiro são executadas em sinergia com o programa LabCerrado, uma parceria entre a Embrapa Cerrados e a empresa de logística VLI S/A.

O chefe-geral da Unidade, Sebastião Pedro, lembrou que o LabAgroMinas promove a aceleração da agricultura regenerativa climaticamente inteligente. “Pela primeira vez entre instituições financeiras, o BDMG foi sensível a uma abordagem científica levada pela Embrapa Cerrados. Hoje, estamos mudando o paradigma: de uma agricultura e pecuária muito baseadas em insumos nos últimos 50 anos, para uma agricultura e pecuária de processos biológicos, porque o solo é químico, físico e biológico”, comentou, acrescentando que os solos agrícolas do Cerrado foram química e fisicamente corrigidos ao longo dos anos, mas podem estar ou não biologicamente saudáveis.

Ele explicou que o LabAgroMinas é um programa de aceleração por agregar todas as tecnologias já desenvolvidas e disseminá-las, acelerando o desenvolvimento do setor produtivo. “Temos mais de 750 tecnologias desenvolvidas na Embrapa Cerrados, mas elas não chegam ao agricultor e ao pecuarista sem investimento. Quem investe é o agente financeiro, e ele precisa acreditar. O BDMG é o exemplo disso no Brasil e no mundo”, disse, agradecendo ao Banco pela confiança.

Sebastião Pedro salientou ainda que, além da sustentabilidade social e ambiental, o setor primário brasileiro está buscando a sustentabilidade econômico-financeira, o que para ele sinalizaria o final de um ciclo, já que o País importa 85% dos fertilizantes e praticamente 100% das moléculas de agroquímicos, com elevados custos logístico e cambial.

“Viemos muito bem até aqui, só que a conta não está fechando mais. Está acontecendo na agricultura de commodities e vai acontecer na pecuária: à medida que adubarmos a pastagem e intensificarmos a produção com animais de ciclo curto, o investimento ficará caro. E talvez não estejamos usando bem o principal insumo, que é o capim. O consumidor hoje só fala em sustentabilidade, e estamos aqui trabalhando com um tema que visa à sustentabilidade”, concluiu.

Maria Isabel de Camargos, representante do BDMG, recordou que essa é a terceira capacitação em agricultura regenerativa promovida pelo programa LabAgroMinas. Em 2024, foi realizada uma capacitação focada em cafeicultura e, no ano anterior, o tema foi a introdução de novas tecnologias voltadas à agricultura de baixo carbono em Minas Gerais. “Nessas capacitações, alcançamos 2,4 mil pessoas. Neste ano, o BDMG recebeu um prêmio de inovação financeira da Alide (Associação Latino-Americana de Instituições Financeiras para o Desenvolvimento) pelo LabAgroMinas”, disse, informando que o banco de fomento já aprovou 19 projetos de agricultura regenerativa, beneficiando 3,5 mil hectares.

“Precisamos desse trabalho de multiplicação e divulgação da agricultura regenerativa, que é algo novo e está revolucionando a nossa agricultura tropical sustentável”, afirmou Ronaldo Trecenti, membro do GAAS, representando o presidente Paulo Bufon.

Aluno da capacitação, o secretário de Agricultura de Ipameri, Plínio Machado, concorda que o atual ciclo da agricultura brasileira está chegando ao final e que, de agora em diante, é preciso pensar no uso das práticas de agricultura regenerativa para ser sustentável tanto do ponto de vista do solo como econômico, garantindo um futuro longevo. “Temos que tentar difundir essas práticas ao máximo possível (no município), aproveitando a bela vitrine que é a Fazenda Santa Brígida, que é pioneira. Muita gente já está se espelhando nela e, cada vez mais, temos que usar os exemplos daqui para que possamos ter sustentabilidade nos nossos negócios”.

Para Cristiano Barros, gestor de sementes na AgroBrasil, empresa com atuação em Minas Gerais, Goiás, Tocantins e no Sul do Pará, foi gratificante participar tanto das aulas curso como das palestras da visita de campo, por terem tratado de temas pontuais. “Estamos passando por um processo que precisa de sustentabilidade, como foi falado hoje. Precisamos de sistemas mais resilientes. O uso das pastagens, das florestas e dos animais foi muito bem abordado e acredito ser o caminho que temos que seguir”, afirmou.

Fonte: Assessoria Embrapa Cerrados

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Mistura de biocombustíveis pode subir no diesel e na gasolina

Aumento de B15 para B16/B17 e de E30 para E32 visa reduzir impacto da alta do petróleo nos combustíveis.

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Foto: Divulgação/Sistema Faep

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) vai propor emendas à Medida Provisória 1.340 de 2026, que estabelece uma subvenção econômica para produção e importação de diesel. Entre os pontos que podem ser colocados está uma alteração para também conceder a isenção das alíquotas de PIS e Cofins sobre o biodiesel.

O entendimento da bancada é de que o anúncio do governo de zerar esses impostos sobre o diesel acaba prejudicando a competitividade do biodiesel. Além disso, essa ação não está em concordância com a Constituição, que prevê um “regime fiscal favorecido para os biocombustíveis”.

“Quando o acordo do governo diminui a tributação do diesel, ele teria que manter essa diferença [tributária] para o biodiesel, e isso foi neutralizado com essa medida [anunciada]”, disse o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que presidiu a reunião-almoço da FPA, na terça-feira (17).

As medidas do governo foram anunciadas na semana passada como uma forma de diminuir os efeitos dos conflitos e restrições no Oriente Médio sobre os combustíveis. Com o fechamento do Estreito de Ormuz e os ataques na região, o petróleo tem sofrido uma volatilidade nos preços, o que acaba afetando os seus derivados, como diesel e gasolina.

Misturas e Profert: o que FPA vai encaminhar

Vice-presidente da FPA no Senado, senador Jaime Bagattoli: “A maioria dos produtores, inclusive nós, não compramos fósforo”

Além disso, os parlamentares da bancada junto com o setor produtivo devem enviar um ofício aos membros do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), pedindo que o grupo analise uma ampliação da mistura dos biocombustíveis na gasolina e no diesel. No caso, a proposta é que o aumento seja de 15% (B15) para 16% (B16) ou 17% (B17) no diesel, e de 30% (E30) para 32% (E32) na gasolina.

O CNPE deve se reunir na próxima quinta-feira, 19, mas segundo Jardim, o tema ainda não está na pauta de discussão. A intenção da FPA e do setor é de que a medida seja apreciada ainda neste encontro, já que há estudos técnicos que asseguram a viabilidade do aumento das misturas. “Tivemos uma crescente muito grande do preço do petróleo, portanto o preço do biodiesel hoje é menor do que o preço do diesel. […] Quando a soja está muito valorizada, o preço sobe. Como a soja hoje está num preço baixo, o biodiesel diminui. Então, hoje, há uma tempestade perfeita no bom sentido”, destacou o deputado.

Coordenador de Infraestrutura e Logística da bancada, deputado Tião Medeiros: “A gente precisa avançar na direção de cobrar da Petrobrás um investimento maciço de bombear esse gás do fundo do mar aqui para o continente”

Outro ponto que a frente pretende avançar é em relação ao Projeto de Lei 699 de 2023, que institui o Programa de Desenvolvimento da Indústria de Fertilizantes (Profert). Conforme Jardim, uma pauta prioritária deve ser entregue ao presidente da Câmara dos Deputados, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB) e essa matéria estará nesses pedidos de celeridade. “A questão do Profert deve ser inserida, eu não tenho dúvida. Acho que é uma unanimidade que temos aqui”, comentou o parlamentar durante a reunião-almoço. O projeto em questão chegou a entrar na pauta do plenário no final de 2024, mas não chegou a ser apreciado pelos deputados.

As medidas também têm o apoio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). De acordo com o diretor técnico da entidade, Bruno Lucchi, esse “é o momento ideal para nós aprovarmos o Profert”. Além disso, medidas de curtíssimo prazo, como do aumento da mistura são importantes para mitigar a subida de preços que os produtores vêm relatando. “O principal ponto de reclamação que nós temos recebido é o aumento abusivo de preços”, disse o diretor na reunião.

Outra sugestão da CNA está relacionada à alíquota do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM). A entidade observa que zerar essa taxa pode trazer certo alívio no Brasil para as consequências do conflito no Oriente Médio.

Parlamentares manifestam preocupação com efeito sistêmico do conflito 

Entre os impactos no agro brasileiro do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, os fertilizantes trazem um nível de preocupação maior. De acordo com a CNA, os preços da ureia subiram entre 30% e 35% desde o início dos ataques. Além disso, o fornecimento desse insumo também pode ser comprometido, já que aproximadamente 35% do fertilizante nitrogenado vem do Oriente Médio.

Deputado Luiz Nishimori: “Nosso país é essencialmente agrícola. A gente sempre fala que é o supermercado do planeta”

O segundo vice-presidente da FPA no Senado, senador Jaime Bagattoli (PL-RO), lembrou que o problema não afeta apenas um tipo de fertilizante, mas acaba gerando um efeito em cadeia. “A maioria dos produtores, inclusive nós, não compramos fósforo. Já tinha um preço elevado e, agora, depois da situação da guerra, os preços subiram ainda mais”, exemplificou.

O coordenador de Infraestrutura e Logística da bancada, deputado Tião Medeiros (PP-PR), destacou a necessidade de diminuir a dependência dos fertilizantes nitrogenados. Esses insumos são obtidos, em grande maioria, através do gás natural. Por isso, o deputado apontou que a Petrobras deve investir na retirada do gás natural offshore — cuja origem são poços em áreas marítimas.

“A gente precisa avançar na direção de cobrar da Petrobrás um investimento maciço de bombear esse gás do fundo do mar aqui para o continente. Senão nós vamos chover no molhado”, afirmou o deputado ao lembrar da dependência com a importação de fertilizantes.

Coordenador político da FPA na Câmara dos Deputados, deputado Zé Vitor: “Aproveitar esse momento não como uma oportunidade de mercado, nada disso, mas como uma oportunidade de segurança para o Brasil”

O Plano Nacional de Fertilizantes também foi lembrado pelo presidente da Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural (CAPADR) da Câmara, deputado Luiz Nishimori (PSD-PR). Ele cobrou maior celeridade na implementação desse plano e um retorno do que tem sido feito pelo Executivo. “Nosso país é essencialmente agrícola. A gente sempre fala que é o supermercado do planeta. Só que a gente precisar importar 90 % dos fertilizantes é brincadeira. Não podemos continuar desse jeito”, disse.

Em outro tema debatido, o coordenador político da FPA na Câmara dos Deputados, deputado Zé Vitor (PL-MG), defendeu o aumento das misturas dos biocombustíveis como uma pauta prioritária da bancada. “Aproveitar esse momento não como uma oportunidade de mercado, nada disso, mas como uma oportunidade de segurança para o Brasil”, ponderou o parlamentar.

Fonte: Assessoria FPA
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Produtores gaúchos recebem apoio para produção de baixo carbono

Sistema Plantio Direto, ILPF, bioinsumos e irrigação eficiente são algumas das práticas incentivadas para reduzir emissões e otimizar resultados.

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Foto: Gabriel Faria

O Comitê Gestor do Plano ABC+RS, da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), se reuniu na terça-feira (17) com representantes do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e de órgãos públicos para discutir ações de adaptação e mitigação às mudanças climáticas no setor agropecuário. O encontro foi realizado de forma virtual e contou com a participação de instituições ligadas ao agronegócio.

Durante a reunião, foram apresentadas estratégias do Plano Clima, lançado pelo Mapa na segunda-feira (16), e detalhados os eixos de adaptação e mitigação para a agropecuária. Segundo Ronaldo Carneiro Teixeira, coordenador do projeto, o plano é baseado nos princípios do desenvolvimento sustentável, transição justa e justiça climática, priorizando ações que promovam equidade e inclusão social.

O plano busca unir governos, setor privado e sociedade para uma transição para uma economia de baixo carbono no curto prazo e a neutralidade de emissões nas próximas décadas. “É um plano de responsabilidades compartilhadas entre diferentes setores sociais”, afirmou Teixeira, citando o Plano ABC+ como exemplo de ação prática.

O auditor agropecuário do Mapa, Kleber Santos, destacou que as mudanças climáticas exigem adaptações em todos os setores produtivos, incluindo conservação de recursos genéticos e práticas que aumentem a capacidade de resiliência dos agroecossistemas.

Rodrigo Moreira Dantas, coordenador-geral de Agricultura de Baixa Emissão de Carbono do Mapa, apresentou a atualização do Sistema Nacional de Informações do Plano ABC+ (SinABC), ferramenta que permite monitorar ações do programa e avaliar produtividade e impacto ambiental em milhares de hectares no Brasil.

No Rio Grande do Sul, o Plano ABC+ é reconhecido como principal instrumento de adaptação da agropecuária às mudanças climáticas. Jackson Brilhante, pesquisador e coordenador do Plano ABC+ RS, destacou práticas incentivadas no estado, como Sistema Plantio Direto, Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), recuperação de pastagens degradadas, uso de bioinsumos, terminação intensiva, florestas plantadas, manejo de resíduos e irrigação eficiente.

Segundo Brilhante, essas tecnologias ajudam a aumentar a resiliência das granjas frente a secas, enchentes e ondas de calor, além de reduzir emissões de gases de efeito estufa e promover o uso sustentável dos recursos naturais.

A Seapi reforça que atua alinhada à estratégia nacional, fortalecendo o Plano ABC+ e apoiando os produtores rurais na transição para sistemas mais sustentáveis e preparados para os desafios climáticos.

Fonte: Assessoria Seapi
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Seminário internacional debate futuro da indústria da carne

Evento em Chapecó reuniu especialistas e lideranças para discutir inovação, qualidade e tendências do setor em um mercado global em transformação.

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O SENAI/SC reuniu especialistas e lideranças da cadeia de proteínas no 14º Seminário Internacional de Industrialização da Carne - Foto: Alessandra Favretto/MB Comunicação

O SENAI/SC reuniu especialistas e lideranças da cadeia de proteínas no 14º Seminário Internacional de Industrialização da Carne, realizado em Chapecó (SC) nesta terça-feira (18), no Hotel Kindermann. Com programação paralela à Mercoagro 2026 – Feira Internacional de Negócios, Processamento e Industrialização da Carne –, o encontro debateu inovação, tecnologia e tendências que influenciam a competitividade do setor em um ambiente de mudanças no mercado global.

O coordenador geral da Mercoagro, Nadir José Cervellin, destacou a relevância da pesquisa estar ligada a indústria e que a feira possui três pilares: negócios, relacionamento e conhecimento. “Quando a pesquisa caminha junto com a indústria, ela vira resultado, vira competitividade e vira solução aplicada no dia a dia das empresas. A Mercoagro nasceu com esse propósito e segue fiel a ele. Por isso, trabalhamos para que a feira seja um ambiente completo: um espaço para gerar negócios, fortalecer conexões e, principalmente, compartilhar conhecimento que prepara o setor para os próximos desafios”, afirmou.

O diretor-regional do SENAI e diretor de Gestão de Mercado, Fabrizio Pereira, abordou a pujança do setor de alimentos na região oeste de Santa Catarina e os serviços que a FIESC oferece para fortalecer a indústria. “Para se ter uma ideia, cerca de 33% de tudo o que é produzido no estado acontece nesse eixo que vai de Joaçaba até a fronteira. É algo realmente expressivo. Mesmo diante dos desafios logísticos que a região enfrenta há anos, a força, a competência e a qualidade das pessoas fazem toda a diferença”.

Geopolítica no mercado de carnes

O SENAI/SC reuniu especialistas e lideranças da cadeia de proteínas no 14º Seminário Internacional de Industrialização da Carne – Foto: Alessandra Favretto/MB Comunicação

Para abrir o cronograma de palestras, o diretor executivo do Sindicarne, Jorge Luiz de Lima, apresentou os impactos da geopolítica no mercado de carnes. Para dimensionar a relevância do setor, ele apresentou alguns números: embora o estado tenha pouco mais de 1% do território nacional, lidera a produção e exportação de carne suína no Brasil e ocupa a segunda posição na produção de frango, atrás apenas do Paraná. Junto com Paraná e Rio Grande do Sul, Santa Catarina concentra 75% da produção nacional de frango e 85% da produção de suínos, evidenciando a força da região Sul nesse segmento.

Jorge pontuou a dimensão da cadeia produtiva no estado de Santa Catarina. “As grandes agroindústrias empregam cerca de 60 mil pessoas diretamente, mas, considerando toda a cadeia, desde pequenos abatedouros até serviços indiretos, o número chega a 124 mil empregos. Além disso, esses postos diretos geram aproximadamente 480 mil empregos indiretos, envolvendo atividades como transporte, logística e fornecimento de insumos”.

Para ilustrar a dimensão logística do setor, Lima destacou que uma única planta produtiva com capacidade para 200 mil aves ou 5 mil suínos por dia pode gerar uma movimentação diária de cerca de 5.240 viagens de caminhões. “A complexidade logística também se reflete no trabalho de campo, pois cada motorista percorre, em média, 3 mil quilômetros por mês, e o setor conta com cerca de 1.200 profissionais nessa função. No transporte internacional, são movimentados cerca de 90 mil contêineres por ano uma média de 344 por dia com aproximadamente 167 caminhões circulando diariamente entre o Oeste e os portos do litoral. Esse volume gera custos expressivos. O transporte de cargas representa uma despesa anual de cerca de R$ 3 bilhões, enquanto os custos portuários somam aproximadamente R$ 50 milhões”.

De acordo com Lima os conflitos geopolíticos internacionais têm impacto direto sobre o setor. Ele citou, principalmente, a guerra entre Rússia e Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, como o conflito envolvendo o Irã. Antes de abordar os efeitos de mercado, ressaltou que qualquer conflito bélico representa uma tragédia humana embora, inevitavelmente, também traga consequências econômicas. “Santa Catarina exporta para mais de 150 destinos, com mercados relevantes como Japão, China, Filipinas, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Reino Unido e países europeus. Essa ampla presença internacional faz com que o setor seja altamente sensível a mudanças geopolíticas. No caso da guerra entre Rússia e Ucrânia, o impacto foi imediato, especialmente no custo dos insumos. A Ucrânia é um dos maiores produtores de milho do mundo, e, com o início do conflito, o preço do grão disparou, chegando a cerca de R$ 113 por saca em Chapecó. Atualmente, o valor se estabilizou em torno de R$ 67, com variações recentes influenciadas por novos conflitos”, concluiu.

Alto valor agregado

Lideranças e dirigentes marcam presença no evento – Foto: Débora Favretto/MB Comunicação

O pesquisador da AgResearch Ltd, Dr. Mustafa Farouk, veio da Nova Zelândia para o seminário e palestrou sobre o desenvolvimento de produtos cárneos com alto valor agregado. Ao abordar a geração de valor na indústria da carne, Farouk destacou três pontos centrais. O primeiro é que, independentemente do perfil do consumidor há uma pergunta essencial que orienta as escolhas de consumo: “como aquele alimento impacta sua saúde física e mental ao longo da vida?”.

O segundo ponto é o potencial ainda não totalmente explorado da carcaça. Segundo o pesquisador, seja na carne bovina, suína ou de outras espécies, ainda há espaço para extrair mais valor a partir de cada animal e ampliar o aproveitamento de seus componentes. Já o terceiro aspecto aponta para uma mudança de lógica: não é mais possível agregar valor apenas aumentando a produção ou aproveitando ao máximo a matéria prima. O verdadeiro ganho, daqui para frente, está em compreender melhor o consumidor e suas demandas. “O valor não está mais em produzir mais, mas em produzir melhor para quem vai consumir”, resumiu.

Para Farouk, o desafio está na forma de apresentar os produtos ao consumidor. Cortes como fígado, coração e rins enfrentam resistência quando oferecidos de forma tradicional. “No entanto, quando incorporados a novos formatos como produtos processados ou combinados com outros ingredientes, podem ganhar aceitação e abrir novas oportunidades de mercado. Não se trata apenas do que temos, mas de como entregamos isso ao consumidor”.

Qualidade da carne

O professor Dr. Márcio Duarte, da University of Guelph e da Universidade Federal de Viçosa, discutiu a influência da suplementação na qualidade da carne, relacionando manejo, nutrição e atributos finais do produto. Ao abordar os fatores que determinam a qualidade da carne, o palestrante explicou que é essencial compreender a diferença entre músculo e carne. “A carne, como produto final, é resultado da transformação do tecido muscular, e são as células presentes nesse tecido que determinam atributos como maciez, suculência e valor agregado”.

Duarte defendeu a necessidade de compreender toda a dinâmica de crescimento, desde a concepção até o abate. Um animal abatido aos 21 meses, por exemplo, já carrega influências de todo o seu desenvolvimento, iniciado ainda no período gestacional. “A qualidade da carne não se constrói apenas no final do processo, mas ao longo de toda a vida do animal”, sintetizou.

O seminário foi encerrado com o painel “Tendências, desafios e perspectivas para o futuro da indústria da carne” – Foto: Alessandra Favretto/MB Comunicação

O palestrante explicou que, ainda no útero materno, ocorre a formação dos principais tecidos que darão origem à carne. Esses tecidos têm uma origem comum, a partir de um conjunto limitado de células, cuja maior capacidade de multiplicação está concentrada nas fases iniciais do desenvolvimento. Após os primeiros meses de vida, especialmente depois dos sete meses, essa capacidade de proliferação celular diminui significativamente. Isso significa que o animal passa a ter um “estoque” limitado de células capazes de formar gordura intramuscular, o marmoreio.

Na prática, isso explica por que estratégias focadas apenas na terminação nem sempre funcionam. “Você pode oferecer uma dieta rica em energia, mas se o animal não desenvolveu essas células antes, ele simplesmente não terá capacidade de formar o tecido que gera valor”, reiterou Duarte. Diante disso, o caminho apontado é antecipar as estratégias nutricionais e de manejo, atuar desde as fases iniciais, e até mesmo durante a gestação, para estimular o desenvolvimento dessas estruturas.

Alimentos processados

O representante da Corbion, Msc. João Yunes, apresentou tendências de ingredientes naturais e sustentáveis em alimentos processados. Yunes frisou que no Brasil já produzimos a partir da fermentação natural produtos que se mantem na temperatura ambiente, isso, mesmo que acompanhe gerações é inovação. No entanto, para indústria é preciso pensar como manter alimentos fermentados para as prateleiras do mundo inteiro. Ao aprofundar o tema da conservação, o palestrante destacou que a deterioração de produtos cárneos ocorre, basicamente, por dois caminhos: biológico e químico.

Ao falar sobre inovação, ele ressaltou que o primeiro limite é regulatório. “Não adianta desenvolver uma solução se ela não é permitida pela legislação”, pontuou e ressaltou que as regras variam entre países, mas seguem diretrizes semelhantes no mundo todo.

Entre os principais conservantes utilizados na indústria de carnes, destacam-se os ácidos orgânicos e seus derivados, responsáveis por grande parte das aplicações. O ácido lático, por exemplo, origina o lactato, amplamente utilizado no Brasil, especialmente em produtos armazenados em temperatura ambiente. Já o ácido acético dá origem aos acetatos, que atuam de forma complementar, especialmente no controle de microrganismos como a Listeria. Outros compostos incluem os propionatos, com ação antifúngica, e os sorbatos, que também têm aplicação na conservação de alimentos, dependendo da legislação local.

Segundo Yunes, o sucesso na conservação está na combinação adequada desses compostos. “Os conservantes atuam de forma sinérgica. Quando combinamos corretamente, conseguimos aumentar o shelf life e garantir a segurança alimentar”, explicou.

Inteligência artificial

O professor Dr. João Dorea, da University of Wisconsin, abordou o emprego de inteligência artificial na prevenção da qualidade da carne. O foco do trabalho está em integrar dados para tornar a tomada de decisão mais precisa e menos subjetiva. “A ideia é usar inteligência artificial para monitorar o animal e combinar essas informações com outros dados, gerando uma gestão mais eficiente”, explicou. Inicialmente aplicadas dentro das fazendas, agora essas tecnologias começam a avançar também para a indústria, sendo utilizadas no monitoramento de processos após a saída da porteira.

O uso de câmeras, por exemplo, permite acompanhar o comportamento dos animais em larga escala, analisar aspectos como movimentação, postura e possíveis problemas de locomoção. Sistemas de visão computacional conseguem identificar padrões, como a curvatura da coluna ou o posicionamento das articulações o que indica precocemente alterações na saúde do animal. Essas mesmas tecnologias podem ser aplicadas na indústria para avaliar carcaças e contribuir para análises de qualidade da carne.

Dorea explicou a inteligência artificial que desenvolveu para solucionar um desafio prático da indústria da carne: a falta de padronização dos cortes, especialmente em animais mestiços. Utilizando ultrassom, imagens 3D e modelos computacionais, a equipe conseguiu prever ainda no animal vivo características como área e formato do ribeye, corte bastante valorizado comercialmente. Segundo ele, os resultados mostraram que a tecnologia consegue identificar padrões que análises biométricas tradicionais, como peso e comprimento do animal, não conseguem captar com a mesma precisão.

A pesquisa avançou também para a predição da maciez da carne a partir de imagens simples, inclusive feitas com câmera de celular. Em parceria com outros pesquisadores, foi desenvolvido um modelo capaz de estimar esse atributo, que normalmente é difícil de ser percebido até por especialistas apenas pela aparência do bife. Para o pesquisador, esse tipo de ferramenta pode trazer ganhos tanto para a indústria, ao aumentar a previsibilidade e a padronização dos produtos, quanto para o consumidor, que poderá fazer escolhas mais conscientes com base em informações mais confiáveis sobre a qualidade da carne.

O seminário foi encerrado com o painel “Tendências, desafios e perspectivas para o futuro da indústria da carne”, que reuniu o presidente da Aurora Coop, Neivor Canton, o gerente executivo do Sindicarne, Jorge Luiz de Lima, o diretor vice-presidente de Agro e Qualidade da MBRF, Fabio Duarte Stumpf, e o coordenador geral da Mercoagro, Nadir José Cervelin. A discussão abordou os caminhos para manter a competitividade do setor diante de um mercado global mais exigente, com destaque para inovação aplicada, qualidade e eficiência ao longo da cadeia produtiva, além da importância de integrar pesquisa e indústria para transformar conhecimento em resultados e oportunidades de negócios.

Fonte: Assessoria SENAI/SC
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