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Sistemas de Recirculação Aquícola ganham espaço

Um dos fatores principais no dia a dia de um RAS é o gerenciamento da qualidade da água. A filtragem realizada da maneira correta é fundamental para manter um ambiente adequado para a produção de organismos aquáticos. Água saudável é igual a peixe saudável.

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Fotos: Divulgação/Sansuy

Os Sistemas de Recirculação Aquícola — também conhecidos como RAS, sigla surgida a partir do nome original em inglês, Recirculating Aquaculture Systems — vêm, aos poucos, revolucionando o manejo da qualidade da água na piscicultura ao redor do mundo. Embora não seja exatamente uma novidade, já que a tecnologia existe há mais de quatro décadas, sua popularidade vem se intensificando nos últimos anos.

É verdade que os custos de implantação do RAS ainda assustam alguns piscicultores. Porém, a produtividade é alavancada com essa tecnologia, além dos inegáveis benefícios ambientais. Com o tempo, o investimento pode acabar compensando, desde que o trabalho seja bem executado, não apenas no dimensionamento e instalação dos filtros e demais equipamentos que compõem o sistema, mas também nas operações do dia a dia.

Marcelo Catagnólle, engenheiro agronômico, mestre em Aquicultur e agerente de Aquanegócios da Sansuy.

A produção de organismos aquáticos gera uma série de resíduos metabólicos que são lançados diretamente na água dos tanques e viveiros e, se não forem tratados adequadamente, poderão atuar como poluentes se lançados diretamente nos corpos d’água e mananciais.

Dentre esses, os sólidos, compostos pelas fezes dos animais e alimentos não consumidos, detritos e outros resíduos presentes em suspensão no efluente dos tanques e viveiros de produção que, se descartados diretamente no meio ambiente, podem trazer problemas para o equilíbrio da natureza. Por outro lado, essa água também não pode simplesmente ser ignorada ou continuar sendo usada indefinidamente, pois certamente irá trazer prejuízos para o seu negócio.

A solução proposta pelos Sistemas de Recirculação Aquícola é, justamente, promover o tratamento da água, de forma que ela volte a ter plenas condições de ser utilizada novamente, ou seja, deve priorizar a manutenção de sua qualidade.

Esse tratamento, no entanto, exige a instalação de uma série de equipamentos que, juntos, irão purificar a água para que ela volte aos tanques e viveiros de produção com a mesma qualidade que tinha quando foi captada na natureza. Entre esses equipamentos podemos citar:

  • Filtro mecânico: decantadores ou sedimentadores;
  • Tanques ou viveiros de produção de organismos aquáticos;
  • Filtros mecânicos;
  • Filtros biológicos, biofiltros ou ainda contatores biológicos;
  • Fracionadores de proteínas ou skimmers;
  • Sistema de esterilização com radiação ultravioleta;
  • Sistema de aeração;
  • Sistema de oxigenação;
  • Sistema de bombeamento de água;
  • Dispositivos de escoamento e drenagem do efluente de tanques e viveiros de produção de organismos aquáticos;
  • Sistema de esterilização com ozônio;
  • Unidades de quarentena, entre outros.

As maiores partículas em suspensão no efluente são, geralmente, removidas da água, por decantação ou retenção em telas. Na sequência, a água efluente é tratada nos filtros ou contatores biológicos, onde microrganismos vivos metabolizam e oxidam diversos compostos reduzindo o seu potencial tóxico.

O dióxido de carbono — CO2, liberado passivamente pelos organismos aquáticos por meio das brânquias e gerado na respiração e no metabolismo do alimento ingerido, é um fator limitante nesse sistema de produção, assim como o teor de oxigênio dissolvido na água e disponível para a respiração e metabolismo de todos os seres aquáticos vivos presentes neste sistema.

A amônia, que é tóxica para os peixes, em baixas concentrações, é transformada em nitratos (composto que pode ser considerado entre 10 e 100 vezes menos tóxica) por bactérias aeróbicas específicas — as Nitrossomonas. Estas se fixam em vários tipos de estruturas sólidas presentes nos filtros biológicos (feitas de material inerte para não afetar a qualidade da água).

Um dos fatores principais no dia a dia de um Sistema de Recirculação Aquícola é o gerenciamento da qualidade da água. A filtragem realizada da maneira correta é fundamental para manter um ambiente adequado para a produção de organismos aquáticos. Água saudável é igual a peixe saudável.

Se a qualidade da água não for mantida adequadamente, o crescimento dos organismos aquáticos alojados no sistema de recirculação poderá passar por uma redução, além de estressar os animais, o que acaba por predispor ao ataque de microrganismos patogênicos. Isso não é bom, especialmente porque aumenta o tempo necessário para que os animais atinjam o peso de abate, podendo causar perdas devido a doenças e mortalidade por estresse e, ainda, diminuir a eficiência alimentar, aumentando o consumo de ração.

Como nos Sistemas de Recirculação Aquícola o manejo alimentar é intensivo, é necessário gerenciar a quantidade de alimento ofertada diariamente e a produção de resíduos metabólicos gerados para manter a qualidade ideal da água. Para a aquicultura comercial, os Sistemas de Recirculação Aquícola têm certas desvantagens em relação a outros sistemas de produção, como os desenvolvidos em lagoas ou tanques e viveiros naturais escavados diretamente no solo. O principal custo é o investimento inicial, porém a economia obtida ao longo do tempo faz com que o investimento valha a pena. Principais vantagens dos RAS:

  • Requerem significativamente menos água quando comparados aos tanques e viveiros naturais;
  • Podem ser instalados em áreas menores;
  • Podem ser instalados em qualquer lugar, permitindo a redução nos gastos com frete, se localizados próximos aos grandes centros de consumo;
  • Podem ser mais intensivos (produzir mais em um mesmo volume de água);
  • Permitem a produção durante o ano todo uma vez que possibilitam o controle da temperatura da água;
  • São menos prejudiciais ao meio ambiente;
  • São expansíveis.

Como as unidades RAS reciclam a maior parte da água efluente dos tanques de produção, elas consomem quantidades muito menores. Isso torna o sistema particularmente adequado para áreas com reservas limitadas desse recurso natural.

Um Sistema de Recirculação Aquícola corretamente projetado e operado de forma adequada requer uma recarga diária mínima de água, suficiente para limpar os resíduos dos filtros e repor a água perdida por evaporação. Isso permite que os viveiros sejam construídos em áreas onde a quantidade água disponível é limitada e, até mesmo, em áreas urbanas, onde pode ser utilizada a água disponível na rede de abastecimento.

Outra vantagem dos sistemas RAS é que eles exigem muito menos área para serem implantados, devido às elevadas densidades de estocagem ou alojamento — entre 40 e 400 kg/m³, dependendo da espécie. Portanto, um Sistema de Recirculação Aquícola pode ser instalado em áreas onde grandes quantidades de terreno plano (necessárias para construir tanques e viveiros naturais) não estão disponíveis.

Essas instalações também podem estar localizadas em lugares com pouca disponibilidade de água, em áreas urbanas ou instalações vazias (armazéns), que podem ser convertidas em espaços para a prática da produção de organismos aquáticos.

A capacidade de controlar a temperatura da água é mais uma vantagem significativa dos Sistemas de Recirculação Aquícola. A menor quantidade de água necessária facilita o controle da temperatura para a manutenção das taxas de crescimento dos organismos aquáticos alojados durante o inverno, bem como possibilita a produção de certas espécies que, em condições diferentes, não poderiam ser criadas em uma determinada região geográfica.

Além disso, o RAS permite que a temperatura da água seja mantida no nível ideal para maximizar a conversão alimentar e garantir o crescimento ideal dos peixes no menor espaço de tempo possível. A partir daí, o desenvolvimento dos animais pode ocorrer durante todo o ano, o que ajuda a aumentar a produção.

É importante destacar que a taxa de crescimento dos peixes está diretamente relacionada à temperatura da água, genética dos animais, manejo, qualidade da água, do ambiente e da ração.

Em um Sistema de Recirculação Aquícola, o calor tende a se acumular lentamente na água, porque a energia na forma de calor é liberada pelo metabolismo dos organismos aquáticos e pela atividade bacteriana no biofiltro. O calor produzido pelo atrito da água com as paredes dos tubos hidráulicos, no rotor das motobombas, e o gerado com o uso de outros equipamentos nas instalações também se acumularão.

A principal fonte de calor é a energia solar, que atinge a cobertura das instalações e pode ser amenizada durante a primavera e o verão, inclusive sendo atenuada com a instalação de telas de sombreamento. Em casos extremos, o controle da temperatura nos períodos mais quentes do ano pode também ser feito por equipamentos que promovem troca de calor como “chillers” e bombas de calor onde um painel eletrônico abastecido por informações advindas de uma rede de sensores toma decisões com o auxílio de softwares dedicados.

Uma Bomba de Calor nada mais é do que um dispositivo que transfere energia térmica em forma de calor de um meio mais quente para outro mais frio. Mais especificamente, o sistema extrai do ar o calor necessário para aquecer a água. Isso é feito por meio de um fluido refrigerante. Essa substância, que é totalmente ecológica, é bombeada por um condensador diretamente para uma serpentina onde, em seguida, é evaporada em baixa pressão, absorvendo o calor do ambiente.

Logo depois, o fluido refrigerante é comprimido para um condensador, onde realiza uma bomba de calor com a água. Em seguida, ocorre uma segunda troca de calor. Dessa vez, em um evaporador, onde o ar ambiente entra em contato com o fluido refrigerante. Por fim, um ventilador, que também compõe o sistema, auxilia no processo de puxar o ar que entrou em contato com o fluido refrigerante e o envia ao ambiente externo. A partir daí, o ciclo se inicia novamente.

Outro ponto que vem chamando a atenção dos produtores é a economia que o sistema proporciona. A instalação de uma Bomba de Calor pode proporcionar uma redução de até 70% do custo de manutenção da temperatura de água, comparado aos outros sistemas disponíveis. Isso sem contar a possibilidade de ser adaptada às centrais existentes ou ainda de ser incluída em novos projetos.

As temperaturas demasiadamente elevadas, bom como a baixa temperatura no sistema de produção, são deletérias ao funcionamento do sistema e ao bem-estar animal, portanto, merecem especial atenção no RAS.

Ao manter o oxigênio dissolvido em níveis ideais, essa tecnologia garante que os peixes tenham melhor conversão alimentar e menos estresse, resultando em maior resistência a doenças, menos desperdício de alimentos e mais crescimento.

As vantagens ambientais, como a ausência de vazamentos, infiltrações e a descarga controlada de resíduos, são benefícios que também devem ser considerados. Afinal, quase toda água introduzida no sistema é reutilizada e menos resíduos são produzidos e lançados diretamente aos corpos d’água em comparação com os sistemas tradicionais.

No Brasil, atualmente, o Sistema de Recirculação Aquícola é mais comumente utilizado em situações específicas, tais como:

  • quarentena de animais;
  • reprodução no inverno;
  • produção de peixes de alto valor agregado, em áreas próximas de centros urbanos e grandes centros de consumo.

Apesar das queixas em torno do custo de implementação do RAS, muitos produtores não percebem como os gastos com insumos para melhorar a qualidade da água, além do excessivo uso desse recurso natural, é prejudicial para sua lucratividade e sua capacidade produtiva.

A tendência é que, nos próximos anos, o RAS se torne um sistema mais difundido e utilizado em todo o país. Afinal, a tecnologia vem evoluindo de forma rápida, tornando a piscicultura um processo cada vez mais industrializado, eficiente e com alta produtividade, o que não permite erros, sob risco de os produtores perderem espaço no mercado.

Fonte: Por Marcelo Catagnólle, engenheiro agronômico, mestre em Aquicultur e agerente de Aquanegócios da Sansuy

Suínos

Liderança e ambiente de trabalho são apontados como diferenciais na suinocultura paranaense

Consultor Dirceu Zotti defende que retenção de mão de obra depende de postura, capacitação e organização dos processos.

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Ajustes no dia a dia, organização dos processos e postura das lideranças podem transformar o ambiente de trabalho nas propriedades envolvidas com a suinocultura no Paraná. Esse foi o tema da primeira reunião da Comissão Técnica (CT) de Suinocultura do Sistema Faep, realizada na segunda-feira (23).

“A suinocultura é uma potência do Paraná e tem papel fundamental na geração de renda e no desenvolvimento regional. Precisamos avançar em eficiência, mas também em gestão e valorização das pessoas, garantindo que o crescimento da atividade seja sustentável para toda a cadeia”, afirma o presidente do Sistema Faep, Ágide Eduardo Meneguette. “A discussão sobre gestão de pessoas e organização das granjas é estratégica para o fortalecimento da atividade no Estado”, complementa.

Durante a reunião, o consultor Dirceu Zotti, da DZ Consultoria, fez uma palestra sobre “Gestão de pessoas na suinocultura”. Com décadas de experiência na área do cooperativismo, Zotti abordou a realidade dos recursos humanos nas granjas brasileiras e os caminhos para fortalecer a retenção e o desenvolvimento de equipes.

“Nunca vamos ter um apagão de mão de obra nas granjas, sempre teremos pessoas disponíveis. A principal oportunidade está em mudar a abordagem e pensar no que podemos fazer dentro da granja para que as pessoas queiram ficar na equipe”, destaca o consultor.

Zotti afirma que as principais mudanças estão “da porteira para dentro”, principalmente quando envolvem projetos modernos, alinhados ao bem-estar animal e com alto nível de automação.

“Um colaborador motivado é reflexo das atitudes, das políticas, dos treinamentos e das oportunidades oferecidas pela granja. Tudo o que acontece as pessoas estão olhando, e os grandes responsáveis somos nós”, destacou. “Salário não segura pessoas. Investimentos em capacitação, reuniões de rotina, boa alimentação, estrutura adequada, remuneração justa, premiação por resultados, ambiente agradável e liderança presente são medidas essenciais”, acrescenta.

Entre os desafios na gestão de pessoas, Zotti cita a necessidade de adequar funções aos perfis, lidar com a falta de iniciativa, manter as equipes motivadas e comprometidas e compreender as características da geração Z. Ao abordar a otimização da mão de obra, o consultor explicou que o conceito envolve reduzir excessos e priorizar tarefas críticas e inegociáveis, com equipes altamente comprometidas e gestão democrática e participativa. Segundo ele, o desenho dos projetos e as condições oferecidas influenciam diretamente na retenção e no desempenho das pessoas. “Pessoas são a solução”, conclui.

Fonte: Assessoria Sistema Faep
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Suínos

Produção de carne suína avança e reforça novo ciclo de expansão no setor

Crescimento no volume abatido e o aumento no peso médio das carcaças indicam consolidação da oferta, mesmo diante da pressão recente sobre os preços pagos ao produtor.

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O IBGE publicou, no último dia 12, dados preliminares de abate do quarto trimestre de 2025, confirmando o crescimento da produção das três proteínas no ano passado em relação a 2024. No abate de suínos, com aumento de 3,39% em cabeças e 4,46% em toneladas de carcaças (tabela 1) no acumulado do ano de 2025, fica evidente a retomada do crescimento da produção de forma consistente. Mesmo em um ano em que um dos destaques foi o incremento significativo do peso médio das carcaças (93,07kg contra 92,11kg de 2024), chama a atenção, no mês dezembro/25, o menor peso do período (90,23kg), indicando haver relativa baixa retenção de animais nas granjas na virada do ano.

Tabela 1. Abate brasileiro MENSAL de suínos, 2024 e 2025, em cabeças e toneladas de carcaças (total e peso médio em kg) e diferença em relação ao mesmo mês anterior. *Dados de julho a setembro de 2024 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE.

Esta presumida baixa retenção de animais nas granjas no mês de dezembro/25 não resultou em sustentação dos preços pagos ao produtor no início de 2026. Outros fatores, como a queda sazonal da demanda interna e de exportação, típica de início de ano, e os estoques remanescentes de 2025 resultaram em queda dos preços das carcaças e do animal vivo em todas as praças do Brasil (gráficos 1 e 2), o que parece ter se agravado com o “efeito manada”, quando muitos produtores tentam antecipar as vendas para fugir de preços mais baixos, mas, com maior oferta, acabam acelerando a queda das cotações. Além disso, a carne de frango também apresentou queda expressiva nas cotações desde a virada do ano, o que acaba reduzindo a competitividade da carne suína no varejo (gráfico 3).

Gráfico 1. Indicador CARCAÇA SUÍNA ESPECIAL – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em São Paulo/SP, mensal, nos últimos 12 meses. Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 2. Indicador SUÍNO VIVO – CEPEA/ESALQ (R$/kg) em MG, PR, RS, SC e SP, mensal, de março/25 a 18 de fevereiro de 2026. Fonte: CEPEA

Gráfico 3. Cotação média mensal do FRANGO RESFRIADO em São Paulo (SP), em R$/kg de carcaça, nos últimos seis meses. Média de fevereiro até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

No último boletim, de janeiro/26, já havíamos demonstrado o crescimento expressivo das exportações de carne suína in natura no ano de 2025, com incremento de quase 12% em relação a 2024. Conforme a tabela 2, a seguir, as três proteínas tiveram, em 2025, crescimento na produção, exportação e disponibilidade interna.

Tabela 2. Produção brasileira, exportação (in natura) e disponibilidade interna mensal, em toneladas de carcaças, das três proteínas de janeiro a dezembro de 2025 e diferença do total acumulado em relação a 2024 *Dados de produção de outubro a dezembro de 2025 preliminares Elaborado por Iuri P. Machado, com dados do IBGE e da Secex.

A propósito das exportações de carne suína, o ano de 2026 começou bem, com o mês de janeiro/26 totalizando mais de 100 mil toneladas de carne suína in natura embarcada, um crescimento de 14,2% em relação a janeiro de 2025, com aumento expressivo dos embarques para Filipinas e Japão e China confirmando sua trajetória de queda (tabela 3).

Tabela 3. Principais destinos da carne suína brasileira in natura exportada em janeiro de 2026, comparado com janeiro de 2025. Ordem dos países estabelecida sobre volumes de 2026. Elaborado por Iuri P. Machado, com dados da Secex.

Sobre a carne bovina, que dentre as 3 proteínas teve no ano passado o maior crescimento percentual de produção e exportação, o que se observou ao longo do ano de 2025 foi uma relativa estabilidade nas cotações do boi gordo (gráfico 4).

Gráfico 4. Indicador mensal do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 2 anos, com destaque para a maior cotação do período (até o momento) que foi em novembro/24 Média de fevereiro/26 até dia 18/02/2026. Fonte: CEPEA

Porém, a tão esperada virada do ciclo pecuário, com redução de abate e alta do preço deve ocorrer em 2026 e já mostra sinais no gradativo aumento das cotações do boi gordo nas últimas semanas (gráfico 5), quando a arroba subiu mais de 20 reais em poucos dias.

Gráfico 5. Indicador DIÁRIO do BOI GORDO CEPEA/ESALQ (R$/@) no estado de São Paulo, nos últimos 30 dias úteis (até 18/02/26). Fonte: CEPEA

Para 2026 o mercado de carne bovina será um importante fator de equilíbrio, justamente porque é a única proteína que deve ter retração na produção, reduzindo a oferta no mercado doméstico e, consequentemente, determinando preços maiores que no ano passado, o que deve contribuir para sustentar os preços da carne suína. Entretanto, existe um alerta para as exportações de carne bovina que têm a China como destino de mais da metade dos embarques e que estabeleceu, para 2026, uma cota de 1,1 milhão de toneladas que, quando ultrapassada, terá uma sobretaxa de 55%, inviabilizando as exportações para aquele mercado que comprou em torno de 1,7 milhão de toneladas no ano passado. Esta situação pode determinar uma redução das exportações de carne bovina brasileira e, consequentemente, uma maior oferta no mercado doméstico a partir da metade do ano. Alguns analistas também apontam esta alta momentânea da cotação do boi gordo justamente por causa desta cota estabelecida pela China, o que fez com que os frigoríficos exportadores antecipassem o abate para aproveitá-la antes que se esgote.

Sobre a rentabilidade da suinocultura, mesmo com o milho e o farelo de soja com preços relativamente estáveis, fica evidente uma queda na relação de troca do suíno com estes insumos (gráfico 6), obviamente agravada pelo recuo significativo das cotações do suíno. Mesmo antes de acabar fevereiro já é possível afirmar que a relação de troca caiu pelo quinto mês consecutivo. Este quadro, na maioria dos casos, ainda não determina prejuízo na atividade, mas acende uma luz de alerta no setor.

Gráfico 6. Relação de troca SUÍNO : MIX milho + farelo de soja (R$/kg) em São Paulo, de janeiro/24 a fevereiro/26. Relação de troca considerada ideal, acima de 5,00 Composição do MIX: para cada quilograma de MIX, 740g de milho e 260g de farelo de soja. Média de fevereiro de 2026 até dia 18/02/2026. Elaborado por Iuri P. Machado com dados do CEPEA – preços estado de São Paulo

O presidente da ABCS, Marcelo Lopes, explica que o movimento de baixa das cotações do suíno vivo e das carcaças dá sinais de que está no fim, com preços estabilizando em meados de fevereiro. “É fato que a suinocultura brasileira retomou o crescimento da produção e o aumento das exportações já não é suficiente para enxugar o mercado. A concorrência com as outras carnes se tornam um fator muito importante neste contexto, sendo que o mercado de carne bovina, com a esperada virada de ciclo pecuário, pode ser o fiel da balança para sustentar os preços do suíno em patamar que permita manter margens financeiras positivas, mesmo com maior oferta de carne suína no mercado doméstico ao longo de 2026”, conclui.

Fonte: Assessoria ABCS
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Suínos

ACCS alerta para insegurança jurídica mesmo com retomada nos preços da suinocultura

Mercado de suínos dá sinais de recuperação com exportações aquecidas, mas a Associação Catarinense de Criadores de Suínos cobra segurança no campo e critica entraves trabalhistas e o chamado custo Brasil.

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O cenário para a suinocultura brasileira desenha-se com otimismo nas granjas, impulsionado pelo reequilíbrio de preços e recordes de exportação previstos para este ano. No entanto, fora da porteira, o setor produtivo acende um forte sinal de alerta para os desafios políticos, trabalhistas e de segurança jurídica no campo. A avaliação é do presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi, que traçou um panorama detalhado sobre as projeções de mercado e os entraves que o agronegócio enfrenta atualmente.

Retomada de preços e exportações em alta

Presidente da Associação Catarinense de Criadores de Suínos (ACCS), Losivanio Luiz de Lorenzi: “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”

O ano começou com a tradicional oscilação de preços, mas a perspectiva de estabilização já é uma realidade. Segundo o presidente da ACCS, a queda registrada na primeira quinzena de janeiro está sendo superada pela reação das bolsas do setor. “Eu acredito que o mercado vai estar voltando à sua normalidade. A partir de agora, nós vemos um mercado mais promissor”, projeta Losivanio.

A expectativa de alta nos valores pagos ao produtor é sustentada por uma combinação de fatores: a menor oferta de suínos no mercado, a manutenção do peso normal de abate e o ritmo acelerado das exportações, que em fevereiro devem ultrapassar a marca de 100 mil toneladas.

Outro elemento que protegeu a margem do suinocultor independente durante a recente baixa foi a queda no preço do milho. Além disso, não houve um crescimento desordenado da produção nos últimos dois anos. O principal freio para novas expansões foi a taxa de juros, já que, segundo o dirigente da ACCS, iniciar um projeto robusto na suinocultura hoje exige um investimento mínimo de R$ 10 milhões, tornando a captação de recursos cara e, muitas vezes, inviável.

O ciclo da carne bovina e a sanidade

O bom momento da carne suína também encontra respaldo no ciclo da pecuária de corte. Com as exportações de carne bovina batendo recordes e o volume de abates superando o de nascimentos de bezerros, a recuperação da oferta de bovinos será lenta — um ciclo que leva cerca de quatro anos. Essa dinâmica mantém a carne suína em um patamar competitivo e altamente atrativo.

Apesar dos ventos comerciais favoráveis, a ACCS reforça que o dever de casa sanitário é inegociável para garantir a estabilidade do setor. “Nós temos que olhar muito a questão da biosseguridade, da sanidade, para que a gente não seja acometido por alguma intempérie de doença, como aconteceu em vários países, e que a gente possa perder esses mercados importantes”, alerta.

Preocupações políticas e a escala 6×1

Se o mercado responde bem, o ambiente regulatório gera apreensão. Losivanio classifica como “populismo” a possibilidade de o governo intervir limitando as exportações de carne bovina para forçar a queda dos preços no mercado interno, especialmente em um ano eleitoral. Para ele, a solução real seria fomentar o poder de compra e a renda da população, e não proibir embarques.

No campo trabalhista, a proposta de alteração da jornada para a escala 6×1, reduzindo de 44 para 36 horas semanais — é vista com grande preocupação. A dinâmica do agronegócio não se adequa a expedientes engessados, e o peso da carga tributária sobre a folha de pagamento já asfixia quem produz. “A gente vê que o vilão não é o empresário, e sim é o sócio que nós temos, que é o governo”, pontua o presidente.

Ele contrasta a situação brasileira com a de países vizinhos: enquanto a Argentina avança no Congresso com propostas de jornadas de até 12 horas diárias e o Paraguai atrai indústrias brasileiras oferecendo redução de impostos, logística eficiente e segurança jurídica, o Brasil onera cada vez mais o empreendedor com mudanças legislativas constantes.

Insegurança jurídica e a defesa do produtor

O alerta final da entidade recai sobre a insegurança no campo. O aumento da criminalidade e as tensões envolvendo áreas indígenas estão impactando diretamente quem produz. Produtores com histórico de gerações em suas terras e documentação legal estão perdendo acesso ao crédito rural e correndo o risco de perderem suas propriedades. “Nós estamos à beira de um caos muito forte”, desabafa.

Para Losivanio, falta ao poder público uma visão estratégica que valorize o agronegócio, setor que levou o Brasil ao posto de maior exportador de proteína animal do mundo, mesmo operando sob as legislações ambientais mais rigorosas do planeta. “Para dar emprego, nós temos que dar segurança para o nosso empreendedor, para que ele possa continuar acreditando e fazendo esse país crescer”, finaliza o presidente, pedindo uma mudança urgente de postura e de entendimento para garantir o futuro da produção nacional.

Fonte: Assessoria ACCS
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